Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Charles Bukowski
Um Acordo Sobre Tchaikovsky
minhas duas pernas estão quebradas nos joelhos
e eu não posso mexer meu braço direito:
é primavera e os pássaros estão saltitando
para dentro e para fora dos arbustos
enlouquecendo os gatos.
meu bom amigo, Randy, frequenta os
sanitários para homens na pista de corridas
em busca de carteiras: garoto esperto:
se os pais dele fossem ricos
ele me diz que teria seguido
para Harvard.
ela fica tocando a 4a de Tchaikovsky,
aquela assim:
ka plunk plunk plunk plunk plunk;
não gosto
mas a velha senhora Rose
minha vizinha
na Casa de Repouso Sunset Park
acha que é
lindo.
todo mundo aqui é velho demais para usar
a quadra de tênis
há uma camada de pó em cima da coisa toda
e a rede é um emaranhado de fios rasgados.
a velha senhora Rose foi visitar seus filhos hoje -
isto é, eles vieram e a apanharam, o traste;
ela nem consegue andar
e suas pernas sequer estão quebradas -
ela não passa de um enfadonho
peido velho!
eu fui de cadeira de rodas há pouco até o quarto dela
e achei uma nota de 10 dólares dobrada bem
limpinha
e arrumadinha:
ela achava que ninguém a encontraria
dentro de um de seus velhos chinelos
mas eu estive rondando
e ela virá bater à minha porta esta noite
pedindo uma "pequena dose de scotch";
cara, toda essa besteira sobre as terras que ela COSTUMAVA
ter no Arizona e como seu marido COSTUMAVA
usar polainas e sair de bengala!
ele não precisa usar mais nada no lugar onde está agora;
e enquanto estive lá dentro
eu arrebentei a velha 4a de Tchaikovsky no braço de uma cadeira
quebrei-a para valer.
e a velha senhora Rose tinha razão:
soava maravilhosamente para mim:
qualquer coisa como
nozes quebrando.
e eu não posso mexer meu braço direito:
é primavera e os pássaros estão saltitando
para dentro e para fora dos arbustos
enlouquecendo os gatos.
meu bom amigo, Randy, frequenta os
sanitários para homens na pista de corridas
em busca de carteiras: garoto esperto:
se os pais dele fossem ricos
ele me diz que teria seguido
para Harvard.
ela fica tocando a 4a de Tchaikovsky,
aquela assim:
ka plunk plunk plunk plunk plunk;
não gosto
mas a velha senhora Rose
minha vizinha
na Casa de Repouso Sunset Park
acha que é
lindo.
todo mundo aqui é velho demais para usar
a quadra de tênis
há uma camada de pó em cima da coisa toda
e a rede é um emaranhado de fios rasgados.
a velha senhora Rose foi visitar seus filhos hoje -
isto é, eles vieram e a apanharam, o traste;
ela nem consegue andar
e suas pernas sequer estão quebradas -
ela não passa de um enfadonho
peido velho!
eu fui de cadeira de rodas há pouco até o quarto dela
e achei uma nota de 10 dólares dobrada bem
limpinha
e arrumadinha:
ela achava que ninguém a encontraria
dentro de um de seus velhos chinelos
mas eu estive rondando
e ela virá bater à minha porta esta noite
pedindo uma "pequena dose de scotch";
cara, toda essa besteira sobre as terras que ela COSTUMAVA
ter no Arizona e como seu marido COSTUMAVA
usar polainas e sair de bengala!
ele não precisa usar mais nada no lugar onde está agora;
e enquanto estive lá dentro
eu arrebentei a velha 4a de Tchaikovsky no braço de uma cadeira
quebrei-a para valer.
e a velha senhora Rose tinha razão:
soava maravilhosamente para mim:
qualquer coisa como
nozes quebrando.
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Charles Bukowski
Um Acordo Sobre Tchaikovsky
minhas duas pernas estão quebradas nos joelhos
e eu não posso mexer meu braço direito:
é primavera e os pássaros estão saltitando
para dentro e para fora dos arbustos
enlouquecendo os gatos.
meu bom amigo, Randy, frequenta os
sanitários para homens na pista de corridas
em busca de carteiras: garoto esperto:
se os pais dele fossem ricos
ele me diz que teria seguido
para Harvard.
ela fica tocando a 4a de Tchaikovsky,
aquela assim:
ka plunk plunk plunk plunk plunk;
não gosto
mas a velha senhora Rose
minha vizinha
na Casa de Repouso Sunset Park
acha que é
lindo.
todo mundo aqui é velho demais para usar
a quadra de tênis
há uma camada de pó em cima da coisa toda
e a rede é um emaranhado de fios rasgados.
a velha senhora Rose foi visitar seus filhos hoje -
isto é, eles vieram e a apanharam, o traste;
ela nem consegue andar
e suas pernas sequer estão quebradas -
ela não passa de um enfadonho
peido velho!
eu fui de cadeira de rodas há pouco até o quarto dela
e achei uma nota de 10 dólares dobrada bem
limpinha
e arrumadinha:
ela achava que ninguém a encontraria
dentro de um de seus velhos chinelos
mas eu estive rondando
e ela virá bater à minha porta esta noite
pedindo uma "pequena dose de scotch";
cara, toda essa besteira sobre as terras que ela COSTUMAVA
ter no Arizona e como seu marido COSTUMAVA
usar polainas e sair de bengala!
ele não precisa usar mais nada no lugar onde está agora;
e enquanto estive lá dentro
eu arrebentei a velha 4a de Tchaikovsky no braço de uma cadeira
quebrei-a para valer.
e a velha senhora Rose tinha razão:
soava maravilhosamente para mim:
qualquer coisa como
nozes quebrando.
e eu não posso mexer meu braço direito:
é primavera e os pássaros estão saltitando
para dentro e para fora dos arbustos
enlouquecendo os gatos.
meu bom amigo, Randy, frequenta os
sanitários para homens na pista de corridas
em busca de carteiras: garoto esperto:
se os pais dele fossem ricos
ele me diz que teria seguido
para Harvard.
ela fica tocando a 4a de Tchaikovsky,
aquela assim:
ka plunk plunk plunk plunk plunk;
não gosto
mas a velha senhora Rose
minha vizinha
na Casa de Repouso Sunset Park
acha que é
lindo.
todo mundo aqui é velho demais para usar
a quadra de tênis
há uma camada de pó em cima da coisa toda
e a rede é um emaranhado de fios rasgados.
a velha senhora Rose foi visitar seus filhos hoje -
isto é, eles vieram e a apanharam, o traste;
ela nem consegue andar
e suas pernas sequer estão quebradas -
ela não passa de um enfadonho
peido velho!
eu fui de cadeira de rodas há pouco até o quarto dela
e achei uma nota de 10 dólares dobrada bem
limpinha
e arrumadinha:
ela achava que ninguém a encontraria
dentro de um de seus velhos chinelos
mas eu estive rondando
e ela virá bater à minha porta esta noite
pedindo uma "pequena dose de scotch";
cara, toda essa besteira sobre as terras que ela COSTUMAVA
ter no Arizona e como seu marido COSTUMAVA
usar polainas e sair de bengala!
ele não precisa usar mais nada no lugar onde está agora;
e enquanto estive lá dentro
eu arrebentei a velha 4a de Tchaikovsky no braço de uma cadeira
quebrei-a para valer.
e a velha senhora Rose tinha razão:
soava maravilhosamente para mim:
qualquer coisa como
nozes quebrando.
1 128
Charles Bukowski
Sopa, Cosmos e Lágrimas
conheci muitas mulheres loucas
porém a mais louca foi
Annette
e parece que quanto mais loucas são
tanto melhor trepam,
e que corpo elas
têm. Annette sempre viveu com
chineses
mas você nunca os via
e era isso o que metia medo.
até a Máfia tem medo dos chineses -
"cadê o dragão, garota?"
"está tudo bem. ele sabe que está tudo bem com você."
"tem certeza? quando põem o X em você,
então você pode muito bem
esquecer."
"eu disse a eles que está tudo bem com você. isso é tudo que
eles precisam."
Annette tinha incenso queimando,
toda espécie de mapas e livros malucos,
ela sempre falava sobre os deuses
ela tinha uma linha direta com os deuses.
"você foi selecionado pelos deuses", ela me
disse.
"está bem, garota, vamos transar
então."
"agora não. quero que você experimente esta sopa especial
que eu fiz."
"sopa especial?"
"sim, tome-a e você herdará as forças da
terra e do sol, o cosmos
inteiro."
lá fui eu e tomei a sopa. francamente, o gosto era bom,
embora meio enferrujado. nem queira saber que diabos ela
pôs lá dentro. eu a tomei
toda.
"eu me sinto como um homem de aço
agora."
"você herdou a força", ela disse, "os deuses estão
orgulhosos de você."
no sofá eu finalmente a
agarrei. debaixo daquele leve vestido cor de laranja
havia bastante mulher para matar um
boi.
"morei naquele hotel em Paris", ela disse. "dormi com todos
eles. Burroughs, a turma
toda. conheci Pound em St. Liz."
"você dormiu com Ezra?"
"mais do que com qualquer outro!"
"ora, vá se foder!"
"vá", ela riu, "em frente."
foi uma boa
sopa. aqueles rapazes de Paris e
Ezra haviam conhecido uma boa
égua.
eu saí
dela.
quando ela voltou do banheiro estava
com uma garrafa na mão e começou a me salpicar
com o
conteúdo.
"ei, que porra é essa?"
"as lágrimas dos
deuses."
"as lágrimas dos deuses?"
"sim, as lágrimas dos
deuses."
eu fiquei lá deitado até que ela
terminasse.
então eu me levantei e me
vesti.
"quando posso ver você
de novo?"
"em 2 horas ou
amanhã"
eu saí em direção à porta.
"você caminha como um
poema", ela disse.
"vejo você em 2
horas", eu lhe
disse.
a porta se fechou. o que um homem tem que aguentar por
um rabo
nestes tempos modernos é
altamente
suspeito.
porém a mais louca foi
Annette
e parece que quanto mais loucas são
tanto melhor trepam,
e que corpo elas
têm. Annette sempre viveu com
chineses
mas você nunca os via
e era isso o que metia medo.
até a Máfia tem medo dos chineses -
"cadê o dragão, garota?"
"está tudo bem. ele sabe que está tudo bem com você."
"tem certeza? quando põem o X em você,
então você pode muito bem
esquecer."
"eu disse a eles que está tudo bem com você. isso é tudo que
eles precisam."
Annette tinha incenso queimando,
toda espécie de mapas e livros malucos,
ela sempre falava sobre os deuses
ela tinha uma linha direta com os deuses.
"você foi selecionado pelos deuses", ela me
disse.
"está bem, garota, vamos transar
então."
"agora não. quero que você experimente esta sopa especial
que eu fiz."
"sopa especial?"
"sim, tome-a e você herdará as forças da
terra e do sol, o cosmos
inteiro."
lá fui eu e tomei a sopa. francamente, o gosto era bom,
embora meio enferrujado. nem queira saber que diabos ela
pôs lá dentro. eu a tomei
toda.
"eu me sinto como um homem de aço
agora."
"você herdou a força", ela disse, "os deuses estão
orgulhosos de você."
no sofá eu finalmente a
agarrei. debaixo daquele leve vestido cor de laranja
havia bastante mulher para matar um
boi.
"morei naquele hotel em Paris", ela disse. "dormi com todos
eles. Burroughs, a turma
toda. conheci Pound em St. Liz."
"você dormiu com Ezra?"
"mais do que com qualquer outro!"
"ora, vá se foder!"
"vá", ela riu, "em frente."
foi uma boa
sopa. aqueles rapazes de Paris e
Ezra haviam conhecido uma boa
égua.
eu saí
dela.
quando ela voltou do banheiro estava
com uma garrafa na mão e começou a me salpicar
com o
conteúdo.
"ei, que porra é essa?"
"as lágrimas dos
deuses."
"as lágrimas dos deuses?"
"sim, as lágrimas dos
deuses."
eu fiquei lá deitado até que ela
terminasse.
então eu me levantei e me
vesti.
"quando posso ver você
de novo?"
"em 2 horas ou
amanhã"
eu saí em direção à porta.
"você caminha como um
poema", ela disse.
"vejo você em 2
horas", eu lhe
disse.
a porta se fechou. o que um homem tem que aguentar por
um rabo
nestes tempos modernos é
altamente
suspeito.
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Charles Bukowski
Sopa, Cosmos e Lágrimas
conheci muitas mulheres loucas
porém a mais louca foi
Annette
e parece que quanto mais loucas são
tanto melhor trepam,
e que corpo elas
têm. Annette sempre viveu com
chineses
mas você nunca os via
e era isso o que metia medo.
até a Máfia tem medo dos chineses -
"cadê o dragão, garota?"
"está tudo bem. ele sabe que está tudo bem com você."
"tem certeza? quando põem o X em você,
então você pode muito bem
esquecer."
"eu disse a eles que está tudo bem com você. isso é tudo que
eles precisam."
Annette tinha incenso queimando,
toda espécie de mapas e livros malucos,
ela sempre falava sobre os deuses
ela tinha uma linha direta com os deuses.
"você foi selecionado pelos deuses", ela me
disse.
"está bem, garota, vamos transar
então."
"agora não. quero que você experimente esta sopa especial
que eu fiz."
"sopa especial?"
"sim, tome-a e você herdará as forças da
terra e do sol, o cosmos
inteiro."
lá fui eu e tomei a sopa. francamente, o gosto era bom,
embora meio enferrujado. nem queira saber que diabos ela
pôs lá dentro. eu a tomei
toda.
"eu me sinto como um homem de aço
agora."
"você herdou a força", ela disse, "os deuses estão
orgulhosos de você."
no sofá eu finalmente a
agarrei. debaixo daquele leve vestido cor de laranja
havia bastante mulher para matar um
boi.
"morei naquele hotel em Paris", ela disse. "dormi com todos
eles. Burroughs, a turma
toda. conheci Pound em St. Liz."
"você dormiu com Ezra?"
"mais do que com qualquer outro!"
"ora, vá se foder!"
"vá", ela riu, "em frente."
foi uma boa
sopa. aqueles rapazes de Paris e
Ezra haviam conhecido uma boa
égua.
eu saí
dela.
quando ela voltou do banheiro estava
com uma garrafa na mão e começou a me salpicar
com o
conteúdo.
"ei, que porra é essa?"
"as lágrimas dos
deuses."
"as lágrimas dos deuses?"
"sim, as lágrimas dos
deuses."
eu fiquei lá deitado até que ela
terminasse.
então eu me levantei e me
vesti.
"quando posso ver você
de novo?"
"em 2 horas ou
amanhã"
eu saí em direção à porta.
"você caminha como um
poema", ela disse.
"vejo você em 2
horas", eu lhe
disse.
a porta se fechou. o que um homem tem que aguentar por
um rabo
nestes tempos modernos é
altamente
suspeito.
porém a mais louca foi
Annette
e parece que quanto mais loucas são
tanto melhor trepam,
e que corpo elas
têm. Annette sempre viveu com
chineses
mas você nunca os via
e era isso o que metia medo.
até a Máfia tem medo dos chineses -
"cadê o dragão, garota?"
"está tudo bem. ele sabe que está tudo bem com você."
"tem certeza? quando põem o X em você,
então você pode muito bem
esquecer."
"eu disse a eles que está tudo bem com você. isso é tudo que
eles precisam."
Annette tinha incenso queimando,
toda espécie de mapas e livros malucos,
ela sempre falava sobre os deuses
ela tinha uma linha direta com os deuses.
"você foi selecionado pelos deuses", ela me
disse.
"está bem, garota, vamos transar
então."
"agora não. quero que você experimente esta sopa especial
que eu fiz."
"sopa especial?"
"sim, tome-a e você herdará as forças da
terra e do sol, o cosmos
inteiro."
lá fui eu e tomei a sopa. francamente, o gosto era bom,
embora meio enferrujado. nem queira saber que diabos ela
pôs lá dentro. eu a tomei
toda.
"eu me sinto como um homem de aço
agora."
"você herdou a força", ela disse, "os deuses estão
orgulhosos de você."
no sofá eu finalmente a
agarrei. debaixo daquele leve vestido cor de laranja
havia bastante mulher para matar um
boi.
"morei naquele hotel em Paris", ela disse. "dormi com todos
eles. Burroughs, a turma
toda. conheci Pound em St. Liz."
"você dormiu com Ezra?"
"mais do que com qualquer outro!"
"ora, vá se foder!"
"vá", ela riu, "em frente."
foi uma boa
sopa. aqueles rapazes de Paris e
Ezra haviam conhecido uma boa
égua.
eu saí
dela.
quando ela voltou do banheiro estava
com uma garrafa na mão e começou a me salpicar
com o
conteúdo.
"ei, que porra é essa?"
"as lágrimas dos
deuses."
"as lágrimas dos deuses?"
"sim, as lágrimas dos
deuses."
eu fiquei lá deitado até que ela
terminasse.
então eu me levantei e me
vesti.
"quando posso ver você
de novo?"
"em 2 horas ou
amanhã"
eu saí em direção à porta.
"você caminha como um
poema", ela disse.
"vejo você em 2
horas", eu lhe
disse.
a porta se fechou. o que um homem tem que aguentar por
um rabo
nestes tempos modernos é
altamente
suspeito.
1 220
Charles Bukowski
Dois Tipos de Inferno
frequentei o mesmo bar por 7 anos, das 6 da manhã
até as 2 da madrugada.
às vezes eu não me lembrava de haver voltado
para meu quarto.
era como se eu ficasse sentado naquela banqueta do bar
continuamente.
eu não tinha dinheiro mas de algum modo os drinques iam
chegando.
eu não era o palhaço do bar mas sim o
louco do bar.
mas com frequência um louco pode encontrar alguém ainda mais
louco para
lhe oferecer bebidas.
afortunadamente,
era um lugar
cheio de gente.
mas eu tinha um objetivo: eu estava esperando que
algo extraordinário
acontecesse.
mas enquanto os anos se passavam à deriva
nada acontecia a não ser que eu
provocasse.
um espelho de bar quebrado, uma luta com um gigante
de mais de dois metros, um flerte com uma lésbica,
a habilidade de dar nome aos bois e de
resolver discussões que eu não havia
começado etc.
um dia eu simplesmente me levantei e caí fora.
simples assim.
e quando comecei a beber sozinho achei minha própria companhia
mais que satisfatória.
então, como se os deuses estivessem chateados por minha paz de
espírito, as mulheres começaram a bater à minha porta.
os deuses estavam mandando mulheres para o
louco!
as mulheres chegavam uma por vez e quando uma ia embora
os deuses imediatamente - sem dar nenhuma folga - me mandavam
outra.
e cada uma delas parecia à primeira vista ser um milagre renovado, mas
então tudo
que à primeira vista parecia maravilhoso acabava
mal.
minha culpa, é claro, era o que elas habitualmente me
diziam
os deuses simplesmente não deixarão um homem beber sozinho; eles têm
ciúmes dos
prazeres simples; assim eles mandam que uma mulher vá
bater em sua porta.
lembro todos aqueles hotéis baratos; era como se todas as mulheres
fossem uma; a primeira batida delicada na madeira e então,
"oh, ouvi você tocando aquela música adorável em seu rádio. somos
vizinhos. moro aqui no 603 mas nunca o vi
no saguão antes!"
"entre?
e lá se foi sua reclusão.
você também se lembra da vez em que
subiu atrás do gigante de 2 metros e derrubou seu
chapéu de caubói, berrando,
"aposto que você é alto demais para chupar os
peitos da sua mãe!"
e alguém no bar dizendo, "ei, senhor, esqueça, ele é um caso
psiquiátrico, é um chato, ele não sabe o que está
dizendo!"
"sei EXATAMENTE o que eu estou dizendo e vou dizer de novo,
"aposto que você é alto demais...""
ele ganhou a briga mas você não morreu, não do modo como você
morreu por dentro depois
de os deuses arranjarem para que todas aquelas mulheres viessem bater à
sua porta.
a troca de socos foi mais justa: ele era lento, estúpido e estava até um
pouco
assustado e a batalha foi a seu favor por algum tempo
do mesmo modo como aconteceu no começo com aquelas mulheres que
os deuses
lhe mandaram.
a diferença sendo, eu resolvi, que ao menos tive uma chance com as
mulheres.
até as 2 da madrugada.
às vezes eu não me lembrava de haver voltado
para meu quarto.
era como se eu ficasse sentado naquela banqueta do bar
continuamente.
eu não tinha dinheiro mas de algum modo os drinques iam
chegando.
eu não era o palhaço do bar mas sim o
louco do bar.
mas com frequência um louco pode encontrar alguém ainda mais
louco para
lhe oferecer bebidas.
afortunadamente,
era um lugar
cheio de gente.
mas eu tinha um objetivo: eu estava esperando que
algo extraordinário
acontecesse.
mas enquanto os anos se passavam à deriva
nada acontecia a não ser que eu
provocasse.
um espelho de bar quebrado, uma luta com um gigante
de mais de dois metros, um flerte com uma lésbica,
a habilidade de dar nome aos bois e de
resolver discussões que eu não havia
começado etc.
um dia eu simplesmente me levantei e caí fora.
simples assim.
e quando comecei a beber sozinho achei minha própria companhia
mais que satisfatória.
então, como se os deuses estivessem chateados por minha paz de
espírito, as mulheres começaram a bater à minha porta.
os deuses estavam mandando mulheres para o
louco!
as mulheres chegavam uma por vez e quando uma ia embora
os deuses imediatamente - sem dar nenhuma folga - me mandavam
outra.
e cada uma delas parecia à primeira vista ser um milagre renovado, mas
então tudo
que à primeira vista parecia maravilhoso acabava
mal.
minha culpa, é claro, era o que elas habitualmente me
diziam
os deuses simplesmente não deixarão um homem beber sozinho; eles têm
ciúmes dos
prazeres simples; assim eles mandam que uma mulher vá
bater em sua porta.
lembro todos aqueles hotéis baratos; era como se todas as mulheres
fossem uma; a primeira batida delicada na madeira e então,
"oh, ouvi você tocando aquela música adorável em seu rádio. somos
vizinhos. moro aqui no 603 mas nunca o vi
no saguão antes!"
"entre?
e lá se foi sua reclusão.
você também se lembra da vez em que
subiu atrás do gigante de 2 metros e derrubou seu
chapéu de caubói, berrando,
"aposto que você é alto demais para chupar os
peitos da sua mãe!"
e alguém no bar dizendo, "ei, senhor, esqueça, ele é um caso
psiquiátrico, é um chato, ele não sabe o que está
dizendo!"
"sei EXATAMENTE o que eu estou dizendo e vou dizer de novo,
"aposto que você é alto demais...""
ele ganhou a briga mas você não morreu, não do modo como você
morreu por dentro depois
de os deuses arranjarem para que todas aquelas mulheres viessem bater à
sua porta.
a troca de socos foi mais justa: ele era lento, estúpido e estava até um
pouco
assustado e a batalha foi a seu favor por algum tempo
do mesmo modo como aconteceu no começo com aquelas mulheres que
os deuses
lhe mandaram.
a diferença sendo, eu resolvi, que ao menos tive uma chance com as
mulheres.
1 270
Charles Bukowski
Pavão Ou Campainha
estou rindo com a boca fechada;
enquanto folheio meu jornal
é como uma sinfonia que desandou:
vendo demais para fazer-me duvidar
aí em clarões através da página.
é como um filme barato que endoidou;
minhas roupas repousam nas cadeiras
como os mortos que foram esvaziados,
cascas de coisas embaçando a vista;
está mais frio que no inferno (sim) mas
os cobertores são finos,
e as cortinas fechadas
estão cheias de buracos assim como o amor.
eu acho que você tem que ser um esportista;
sim, para o esportista tudo está certo:
basta você puxar a arma
e estourar a cabeça de alguém
talvez da donzela sentada na
cadeira na qual a vovó sentava,
mas não tendo uma arma
eu vou até o telefone
e ligo para uma mulher tão velha quanto a cadeira e a vovó,
e ela promete vir e me encantar;
ela tem uma escova de dentes mas não tem dentes
e provavelmente eu dançarei nu para ela
com a bola da minha barriga como um saco branco,
cada homem tem suas próprias escapatórias: a minha é duvidosa
mas tem dado certo ultimamente
e a música que ela faz às vezes me assusta,
mas então
eu acordo, compro um jornal,
chuto uma lata,
abro a cortina,
começo de novo.
enquanto folheio meu jornal
é como uma sinfonia que desandou:
vendo demais para fazer-me duvidar
aí em clarões através da página.
é como um filme barato que endoidou;
minhas roupas repousam nas cadeiras
como os mortos que foram esvaziados,
cascas de coisas embaçando a vista;
está mais frio que no inferno (sim) mas
os cobertores são finos,
e as cortinas fechadas
estão cheias de buracos assim como o amor.
eu acho que você tem que ser um esportista;
sim, para o esportista tudo está certo:
basta você puxar a arma
e estourar a cabeça de alguém
talvez da donzela sentada na
cadeira na qual a vovó sentava,
mas não tendo uma arma
eu vou até o telefone
e ligo para uma mulher tão velha quanto a cadeira e a vovó,
e ela promete vir e me encantar;
ela tem uma escova de dentes mas não tem dentes
e provavelmente eu dançarei nu para ela
com a bola da minha barriga como um saco branco,
cada homem tem suas próprias escapatórias: a minha é duvidosa
mas tem dado certo ultimamente
e a música que ela faz às vezes me assusta,
mas então
eu acordo, compro um jornal,
chuto uma lata,
abro a cortina,
começo de novo.
695
Charles Bukowski
Pavão Ou Campainha
estou rindo com a boca fechada;
enquanto folheio meu jornal
é como uma sinfonia que desandou:
vendo demais para fazer-me duvidar
aí em clarões através da página.
é como um filme barato que endoidou;
minhas roupas repousam nas cadeiras
como os mortos que foram esvaziados,
cascas de coisas embaçando a vista;
está mais frio que no inferno (sim) mas
os cobertores são finos,
e as cortinas fechadas
estão cheias de buracos assim como o amor.
eu acho que você tem que ser um esportista;
sim, para o esportista tudo está certo:
basta você puxar a arma
e estourar a cabeça de alguém
talvez da donzela sentada na
cadeira na qual a vovó sentava,
mas não tendo uma arma
eu vou até o telefone
e ligo para uma mulher tão velha quanto a cadeira e a vovó,
e ela promete vir e me encantar;
ela tem uma escova de dentes mas não tem dentes
e provavelmente eu dançarei nu para ela
com a bola da minha barriga como um saco branco,
cada homem tem suas próprias escapatórias: a minha é duvidosa
mas tem dado certo ultimamente
e a música que ela faz às vezes me assusta,
mas então
eu acordo, compro um jornal,
chuto uma lata,
abro a cortina,
começo de novo.
enquanto folheio meu jornal
é como uma sinfonia que desandou:
vendo demais para fazer-me duvidar
aí em clarões através da página.
é como um filme barato que endoidou;
minhas roupas repousam nas cadeiras
como os mortos que foram esvaziados,
cascas de coisas embaçando a vista;
está mais frio que no inferno (sim) mas
os cobertores são finos,
e as cortinas fechadas
estão cheias de buracos assim como o amor.
eu acho que você tem que ser um esportista;
sim, para o esportista tudo está certo:
basta você puxar a arma
e estourar a cabeça de alguém
talvez da donzela sentada na
cadeira na qual a vovó sentava,
mas não tendo uma arma
eu vou até o telefone
e ligo para uma mulher tão velha quanto a cadeira e a vovó,
e ela promete vir e me encantar;
ela tem uma escova de dentes mas não tem dentes
e provavelmente eu dançarei nu para ela
com a bola da minha barriga como um saco branco,
cada homem tem suas próprias escapatórias: a minha é duvidosa
mas tem dado certo ultimamente
e a música que ela faz às vezes me assusta,
mas então
eu acordo, compro um jornal,
chuto uma lata,
abro a cortina,
começo de novo.
695
Charles Bukowski
Pavão Ou Campainha
estou rindo com a boca fechada;
enquanto folheio meu jornal
é como uma sinfonia que desandou:
vendo demais para fazer-me duvidar
aí em clarões através da página.
é como um filme barato que endoidou;
minhas roupas repousam nas cadeiras
como os mortos que foram esvaziados,
cascas de coisas embaçando a vista;
está mais frio que no inferno (sim) mas
os cobertores são finos,
e as cortinas fechadas
estão cheias de buracos assim como o amor.
eu acho que você tem que ser um esportista;
sim, para o esportista tudo está certo:
basta você puxar a arma
e estourar a cabeça de alguém
talvez da donzela sentada na
cadeira na qual a vovó sentava,
mas não tendo uma arma
eu vou até o telefone
e ligo para uma mulher tão velha quanto a cadeira e a vovó,
e ela promete vir e me encantar;
ela tem uma escova de dentes mas não tem dentes
e provavelmente eu dançarei nu para ela
com a bola da minha barriga como um saco branco,
cada homem tem suas próprias escapatórias: a minha é duvidosa
mas tem dado certo ultimamente
e a música que ela faz às vezes me assusta,
mas então
eu acordo, compro um jornal,
chuto uma lata,
abro a cortina,
começo de novo.
enquanto folheio meu jornal
é como uma sinfonia que desandou:
vendo demais para fazer-me duvidar
aí em clarões através da página.
é como um filme barato que endoidou;
minhas roupas repousam nas cadeiras
como os mortos que foram esvaziados,
cascas de coisas embaçando a vista;
está mais frio que no inferno (sim) mas
os cobertores são finos,
e as cortinas fechadas
estão cheias de buracos assim como o amor.
eu acho que você tem que ser um esportista;
sim, para o esportista tudo está certo:
basta você puxar a arma
e estourar a cabeça de alguém
talvez da donzela sentada na
cadeira na qual a vovó sentava,
mas não tendo uma arma
eu vou até o telefone
e ligo para uma mulher tão velha quanto a cadeira e a vovó,
e ela promete vir e me encantar;
ela tem uma escova de dentes mas não tem dentes
e provavelmente eu dançarei nu para ela
com a bola da minha barriga como um saco branco,
cada homem tem suas próprias escapatórias: a minha é duvidosa
mas tem dado certo ultimamente
e a música que ela faz às vezes me assusta,
mas então
eu acordo, compro um jornal,
chuto uma lata,
abro a cortina,
começo de novo.
695
Charles Bukowski
Perfeitos Dentes Brancos
eu finalmente comprei uma TV a cores
e a outra noite
deparei com esse filme
e lá está um cara em
Paris
ele não tem dinheiro
mas veste um terno muito bom
e o nó da sua gravata está perfeito
e ele não está nem preocupado nem bêbado
mas está em um café
e todas as mulheres maravilhosas estão
apaixonadas por ele
e de algum modo ele continua a pagar seu aluguel
e a subir e descer por escadarias
usando camisas muito limpas
e ele aconselha algumas das garotas
sobre não poderem escrever poesia
enquanto ele pode
mas que não está realmente com vontade de fazer isso
naquele momento -
em vez disso ele está procurando a Verdade.
enquanto isso ele tem um corte de cabelo perfeito
nenhuma ressaca
nada de tiques nervosos ao redor dos olhos e perfeitos
dentes brancos.
eu sabia o que ia acontecer:
ele conseguiria a poesia, as mulheres e
a Verdade.
desliguei o televisor
pensando, seu safado filho da puta
você merece
todas
as três.
e a outra noite
deparei com esse filme
e lá está um cara em
Paris
ele não tem dinheiro
mas veste um terno muito bom
e o nó da sua gravata está perfeito
e ele não está nem preocupado nem bêbado
mas está em um café
e todas as mulheres maravilhosas estão
apaixonadas por ele
e de algum modo ele continua a pagar seu aluguel
e a subir e descer por escadarias
usando camisas muito limpas
e ele aconselha algumas das garotas
sobre não poderem escrever poesia
enquanto ele pode
mas que não está realmente com vontade de fazer isso
naquele momento -
em vez disso ele está procurando a Verdade.
enquanto isso ele tem um corte de cabelo perfeito
nenhuma ressaca
nada de tiques nervosos ao redor dos olhos e perfeitos
dentes brancos.
eu sabia o que ia acontecer:
ele conseguiria a poesia, as mulheres e
a Verdade.
desliguei o televisor
pensando, seu safado filho da puta
você merece
todas
as três.
652
Charles Bukowski
Pernas
ela chegou de táxi
completamente embriagada.
foi
depois de um dos meus longos dias como
estoquista na Companhia May
e lá estava eu
exausto e
mamando minha
cerveja e
olhando-a em seu
estado derrubado
estendida sobre a cama
a saia erguida bem alto.
eu mamei meu drinque
e então a segui até
a cama e ergui
sua saia mais alto ainda:
que vista
aquelas pernas gloriosas
descobertas e indefesas.
ela era uma grande mulher com
grandes pernas.
fizemos uma tamanha farra
e passamos por muita agonia juntos
por alguns anos
mas ela achou
a vida dura demais;
ela morreu
há 34 anos e
eu nunca vi
pernas como aquelas
desde então
e eu nunca
deixei de
procurar.
completamente embriagada.
foi
depois de um dos meus longos dias como
estoquista na Companhia May
e lá estava eu
exausto e
mamando minha
cerveja e
olhando-a em seu
estado derrubado
estendida sobre a cama
a saia erguida bem alto.
eu mamei meu drinque
e então a segui até
a cama e ergui
sua saia mais alto ainda:
que vista
aquelas pernas gloriosas
descobertas e indefesas.
ela era uma grande mulher com
grandes pernas.
fizemos uma tamanha farra
e passamos por muita agonia juntos
por alguns anos
mas ela achou
a vida dura demais;
ela morreu
há 34 anos e
eu nunca vi
pernas como aquelas
desde então
e eu nunca
deixei de
procurar.
1 352
Charles Bukowski
Perto Demais Do Matadouro
eu moro perto demais do matadouro.
o que você espera? sangue prateado
como em Chatterton? minhas horas pegajosas
não permitem prática de nenhuma previsão.
ouço os galhos que estalam e quebram
qual corvos que brigam,
e vejo minha mãe em seu caixão
imóvel
quieta e imóvel
enquanto acendo um cigarro
ou bebo um copo d'água
ou faço algo ignominioso.
o que você quer?
que eu me sinta
enganado?
(o verde das ervas
ao sol
é tudo o que temos
é tudo o que realmente temos.)
eu digo deixem os macacos dançarem,
deixem os macacos dançarem
à luz de Deus.
eu moro perto demais
do matadouro
e estou doente
de tanto me esforçar.
o que você espera? sangue prateado
como em Chatterton? minhas horas pegajosas
não permitem prática de nenhuma previsão.
ouço os galhos que estalam e quebram
qual corvos que brigam,
e vejo minha mãe em seu caixão
imóvel
quieta e imóvel
enquanto acendo um cigarro
ou bebo um copo d'água
ou faço algo ignominioso.
o que você quer?
que eu me sinta
enganado?
(o verde das ervas
ao sol
é tudo o que temos
é tudo o que realmente temos.)
eu digo deixem os macacos dançarem,
deixem os macacos dançarem
à luz de Deus.
eu moro perto demais
do matadouro
e estou doente
de tanto me esforçar.
946
Charles Bukowski
Perto Demais Do Matadouro
eu moro perto demais do matadouro.
o que você espera? sangue prateado
como em Chatterton? minhas horas pegajosas
não permitem prática de nenhuma previsão.
ouço os galhos que estalam e quebram
qual corvos que brigam,
e vejo minha mãe em seu caixão
imóvel
quieta e imóvel
enquanto acendo um cigarro
ou bebo um copo d'água
ou faço algo ignominioso.
o que você quer?
que eu me sinta
enganado?
(o verde das ervas
ao sol
é tudo o que temos
é tudo o que realmente temos.)
eu digo deixem os macacos dançarem,
deixem os macacos dançarem
à luz de Deus.
eu moro perto demais
do matadouro
e estou doente
de tanto me esforçar.
o que você espera? sangue prateado
como em Chatterton? minhas horas pegajosas
não permitem prática de nenhuma previsão.
ouço os galhos que estalam e quebram
qual corvos que brigam,
e vejo minha mãe em seu caixão
imóvel
quieta e imóvel
enquanto acendo um cigarro
ou bebo um copo d'água
ou faço algo ignominioso.
o que você quer?
que eu me sinta
enganado?
(o verde das ervas
ao sol
é tudo o que temos
é tudo o que realmente temos.)
eu digo deixem os macacos dançarem,
deixem os macacos dançarem
à luz de Deus.
eu moro perto demais
do matadouro
e estou doente
de tanto me esforçar.
946
Charles Bukowski
Enganando Marie
Era uma noite quente nas corridas de quarto de milha. Ted chegara trazendo duzentos dólares e agora, entrando no quarto páreo, estava com 530. Conhecia os cavalinhos. Talvez não fosse muito bom em nada mais, mas conhecia os cavalinhos. Ted ficou olhando o placar e as pessoas. Elas não tinham a menor capacidade para avaliar um cavalo. Mas mesmo assim trazem o seu dinheiro e seus sonhos para as pistas. O hipódromo tinha uma dupla de dois dólares em quase toda corrida para atraí-los. Isso e o Pick-6. Ted jamais escolhia o Pick-6 nem as duplas. Só a vitória direta no melhor cavalo, que não era necessariamente o favorito.
Marie enchia tanto o saco sobre sua ida às corridas que ele só ia duas ou três vezes por semana. Vendera sua empresa e se aposentara cedo do ramo da construção. Na verdade não havia muito mais coisas que ele pudesse fazer.
Os quatro cavalos pareciam bons a seis por um, mas ainda havia dezoito minutos para a chegada. Sentiu um puxão na manga do paletó.
– Perdão, senhor, mas eu perdi nas duas primeiras corridas. Vi o senhor trocando suas pules. O senhor parece exatamente um cara que sabe o que está fazendo. Quem prefere nessa próxima corrida?
Era uma ruiva, de uns 24 anos, quadris estreitos, seios surpreendentemente grandes, pernas compridas, um lindo narizinho arrebitado, boca de flor, usando um vestido azul-claro e sapatos brancos de saltos altos. Os olhos azuis dela olhavam-no de baixo para cima.
– Bem – sorriu-lhe Ted –, eu geralmente prefiro o vencedor.
– Estou acostumada a jogar em puros-sangues – disse a ruiva. – Esses páreos de quarto de milha são muito rápidos!
– É. A maioria é corrida em menos de dezoito segundos. A gente descobre muito rápido se acertou ou errou.
– Se minha mãe descobrisse que estou aqui perdendo meu dinheiro, ela me daria uma surra de cinto.
– Eu mesmo gostaria de lhe dar uma surra de cinto – disse Ted.
– Você não é desses, é? – ela perguntou.
– Brincadeira – disse Ted. – Vamos, vamos ao bar. Talvez a gente consiga escolher um vencedor pra você.
– Tudo bem, senhor...?
– Pode me chamar de Ted. E você, como se chama?
– Victoria.
Entraram no bar.
– Que vai tomar? – perguntou Ted.
– O que você tomar – disse Victoria.
Ele pediu dois Jack Daniels. De pé, ele virou o seu, e ela bebericou o dela, olhando direto em frente. Ted conferiu o traseiro dela: perfeito. Era melhor do que muita candidatazinha ao estrelato no cinema, e não parecia mimada.
– Agora – disse Ted, apontando seu programa – na próxima corrida o cavalo quatro aparece melhor, e está dando possibilidades de seis por um...
Victoria exalou um “Ooohhh...?” muito sexy. Curvou-se para olhar o programa dele, tocando-o com o braço. Depois ele sentiu a perna dela comprimir-se contra a sua.
– As pessoas não sabem avaliar uma corrida – ele disse. – Me mostre um cara que sabe avaliar uma corrida, que eu lhe mostro um cara que pode ganhar todo o dinheiro que possa levar.
Ela sorriu para ele.
– Eu queria ter o que você tem.
– Você tem muita coisa, boneca. Quer outra bebida?
– Oh, não, obrigada...
– Bem, escuta – disse Ted –, é melhor fazermos as apostas.
– Tudo bem, vou apostar dois dólares no vencedor. Qual é, o cavalo número quatro?
– É, boneca, é o quatro...
Fizeram suas apostas e saíram para assistir ao páreo. O quatro não largou bem, foi abalroado de ambos os lados, endireitou-se, ficou em quinto num campo de nove, mas aí começou a acelerar e chegou à linha cabeça a cabeça com o favorito de dois a um. Foto.
Porra, pensou Ted, eu tenho de ganhar essa. Por favor, me dê essa!
– Oh – disse Victoria –, estou tão excitada!
O placar anunciou o número. Quatro.
Victoria gritou e pulou de alegria.
– Nós ganhamos, nós ganhamos, nós GANHAMOS!
Agarrou Ted e ele sentiu o beijo no rosto.
– Vá com calma, boneca, o melhor cavalo venceu, só isso.
Esperaram o aviso oficial e aí o placar exibiu o pagamento. Quatorze dólares e sessenta.
– Quanto você apostou? – perguntou Victoria.
– Quarenta no vencedor – disse Ted.
– Quanto vai receber?
– Duzentos e noventa e dois. Vamos pegar.
Dirigiram-se para os guichês. Então Ted sentiu a mão de Victoria na sua. Ela o fez parar.
– Se abaixe – ela disse –, que eu quero dizer uma coisa em seu ouvido.
Ted abaixou-se, sentiu os frios lábios róseos dela em sua orelha.
– Você é um... mágico... Eu quero... foder com você...
Ele ficou ali parado sorrindo debilmente para ela.
– Deus do céu – disse.
– Que é que há? Está com medo?
– Não, não, não é isso.
– Que é que há então?
– É Marie... minha esposa... eu sou casado... e ela me controla no mínimo minuto. Sabe quando as corridas acabam e quando devo chegar.
Victoria deu uma risada.
– A gente sai agora! Vamos a um motel!
– Bem, claro – disse Ted...
Trocaram as pules e voltaram para o estacionamento.
– Vamos no meu carro. Eu trago você de volta quando a gente acabar – disse Victoria.
Foram ao carro dela, um Fiat azul 1982, combinando com o vestido. A placa dizia VICKY. Quando ela pôs a chave na porta, hesitou.
– Você não é mesmo um daqueles, é?
– Daqueles quais?
– Que batem com o cinto, um daqueles. Minha mãe teve uma experiência terrível uma vez...
– Relaxe – ele disse. – Eu sou inofensivo.
Encontraram um motel a pouco mais de dois quilômetros do hipódromo. O Lua Azul. Só que a Lua Azul estava pintada de verde. Victoria estacionou e saltaram, se registraram, deram-lhes o quarto 302. Tinham parado para pegar uma garrafa de Cutty Sark no caminho.
Ted rasgou a embalagem de celofane dos copos, acendeu um cigarro e serviu duas doses enquanto Victoria se despia. A calcinha e o sutiã eram cor-de-rosa, e o corpo cor-de-rosa e branco e lindo. Era espantoso como de vez em quando se criava uma mulher daquelas, quando todas as outras, a maioria das outras, não tinham nada, ou quase nada. Era de enlouquecer. Victoria era um sonho lindo, enlouquecedor.
Victoria estava nua. Aproximou-se e sentou-se na borda da cama junto a Ted. Cruzou as pernas. Tinha os seios firmes e parecia já estar com tesão. Ele realmente não acreditava em sua sorte. Aí ela deu uma risadinha.
– Que foi? – ele perguntou.
– Está pensando em sua mulher?
– Bem, não, estava pensando em outra coisa.
– Bem, devia pensar em sua mulher...
– Diabos – disse Ted –, foi você quem sugeriu a foda!
– Eu gostaria que você não usasse essa palavra...
– Está recuando?
– Bem, não. Escuta, tem um cigarro?
– Claro...
Ted pegou um, entregou a ela, acendeu-o e ela o manteve na boca.
– Você tem o corpo mais lindo que eu já vi – disse Ted.
– Eu não duvido – ela disse, sorrindo.
– Escuta, você está recuando dessa coisa? – ele perguntou.
– Claro que não – ela respondeu –, tire a roupa.
Ted começou a despir-se, sentindo-se gordo, velho e feio, mas também sortudo – tinha sido seu melhor dia nas corridas, em muitos aspectos. Dobrou suas roupas numa cadeira e sentou-se junto a Victoria.
Serviram mais um drinque para cada um.
– Sabe – ele disse –, você é um número de classe, mas eu também sou. Nós dois temos nossa própria maneira de mostrar isso. Eu faturei uma nota no ramo da construção, e ainda estou faturando nas corridas. Nem todo mundo tem esse instinto.
Victoria bebeu metade de seu Cutty Sark e sorriu para ele.
– Oh, você é meu grande Buda gordo!
Ted enxugou a sua bebida.
– Escuta, se você não quiser, a gente não faz. Esqueça.
– Me deixa ver o que é que Buda tem aí...
Victoria baixou o braço e enfiou a mão entre as pernas dele. Pegou-o, segurou-o.
– Oh, oh... estou sentindo uma coisa... – disse.
– Claro... E daí?
Então ela baixou a cabeça. Beijou-o a princípio. Depois ele sentiu que ela abria a boca, e a língua.
– Sua puta! – disse.
Victoria ergueu a cabeça e olhou-o.
– Por favor. Eu não gosto de palavrão.
– Tudo bem, Vicky, tudo bem. Nada de palavrão.
– Se meta entre os lençóis, Buda.
Ted se meteu e sentiu o corpo dela junto ao seu. A pele era fria, e a boca abriu-se e ele a beijou e enfiou a língua. Gostava daquilo assim, fresco, com o frescor da primavera, jovem, novo, bom. Que prazer do caralho. Ia lascar ela ao meio! Masturbou-a, ela demorou muito para gozar. Depois ele a sentiu abrir-se e enfiou o dedo. Pegara-a, a puta. Puxou o dedo e esfregou o clitóris. Você quer aquecimento, vai ter aquecimento!, pensou.
Sentiu os dentes dela enterrarem-se em seu lábio inferior, a dor foi terrível. Ted afastou-se, sentindo o gosto do sangue e a ferida no lábio. Ergueu-se pela metade e deu-lhe um tapa no rosto, depois com as costas da mão no outro lado. Encontrou-a lá embaixo, enfiou e estocou, pondo a boca de volta na dela. Prosseguiu em selvagem vingança, de vez em quando recuando a cabeça e olhando-a. Tentou segurar, se conter, e agora via aquela nuvem de cabelos cor de morango espalhados no travesseiro ao luar.
Ted gemia e suava como um ginasiano. Era aquilo. Nirvana. O lugar a se alcançar. Victoria continuava calada. Os gemidos de Ted foram diminuindo, e então, após um instante, ele rolou para o lado.
Ficou fitando a escuridão.
Esqueci de chupar os peitos dela, pensou.
Então ouviu a voz dela.
– Sabe de uma coisa? – ela perguntou.
– Que é?
– Você me lembra um daqueles cavalos de quarto de milha.
– Que quer dizer?
– Tudo acaba em dezoito segundos.
– A gente corre de novo, boneca – ele disse...
Ela foi ao banheiro. Ted limpou-se no lençol, o velho profissional. Victoria era uma coisa meio desagradável, de certa forma. Mas podia ser manobrada. Ele tinha alguma coisa. Quantos homens eram donos de sua própria casa e tinham 150 mil paus no banco na sua idade? Ele era um número de classe, e ela sabia disso muito bem.
Victoria saiu do banheiro ainda parecendo fresca, intocada, quase virginal. Ted acendeu o abajur de cabeceira. Sentou-se e serviu dois drinques. Ela sentou-se na beira da cama com sua bebida e ele desceu e sentou-se na beira da cama junto dela.
– Victoria – disse –, posso tornar tudo bom pra você.
– Acho que você tem lá seus meios, Buda.
– E vou ser um amante melhor.
– Claro.
– Escuta, devia ter me conhecido quando eu era jovem. Era durão, mas bom. Eu tinha aquilo. Ainda tenho.
Ela sorriu para ele.
– Ora, vamos, Buda, não é tão ruim assim. Você tem uma esposa, você tem um monte de coisas a seu favor.
– Menos uma coisa – ele disse, enxugando sua bebida e olhando-a. – Menos a única coisa que eu quero mesmo...
– Veja o seu lábio! Está sangrando!
Ted baixou o olhar para seu copo. Viu gotas de sangue na bebida e sentiu o sangue escorrendo pelo queixo. Limpou o queixo com as costas da mão.
– Vou ao banheiro lavar isso, boneca, já volto.
Entrou no banheiro, correu a porta do chuveiro e abriu a água, testando-a com a mão. Parecia mais ou menos no ponto e ele entrou, a água escorrendo dele. Via o sangue na água escorrendo para o ralo. Que gata selvagem. Só precisava de uma mão forte.
Marie era legal, era bondosa, na verdade meio chata. Perdera a intensidade da juventude. Não era culpa dela. Talvez ele pudesse arranjar um meio de continuar com Marie e ter Victoria por fora. Victoria renovava sua juventude. Precisava de uma porra de uma renovação. E de mais umas boas fodas como aquela. Claro, as mulheres eram todas loucas. Não entendiam que vencer não era uma experiência gloriosa, só necessária.
– Vamos com isso, Buda! – ouviu-a gritar. – Não me deixe aqui sozinha!
– Não demoro, boneca – ele gritou debaixo do chuveiro. Ensaboou-se bem, lavando tudo.
Depois saiu, enxugou-se, abriu a porta do banheiro e foi para o quarto.
O quarto de motel estava vazio. Ela se fora.
A distância entre os objetos comuns e entre os fatos era notável. De repente, ele viu as paredes, o tapete, a cama, as cortinas, a mesa de café, a penteadeira, o cinzeiro com os cigarros deles. A distância entre essas coisas era imensa. O então e o agora estavam anos-luz separados.
Num impulso, ele correu para o armário e abriu a porta. Nada além de cabides.
Então Ted percebeu que suas roupas haviam desaparecido. A roupa de baixo, a camisa, as calças, as chaves do carro e a carteira, seu dinheiro, seus sapatos, suas meias, tudo.
Em outro impulso, olhou embaixo da cama. Nada.
Então viu a garrafa de Cutty Sark, pela metade, sobre a penteadeira, e aproximou-se, pegou-a e serviu-se uma dose. E ao fazer isso viu duas palavras riscadas no espelho da penteadeira com batom cor-de-rosa: “ADEUS, BUDA!”
Ted tomou a bebida, depôs o copo e viu-se no espelho – muito gordo, muito velho. Não tinha ideia do que fazer em seguida.
Levou o Cutty Sark de volta para a cama, sentou-se pesadamente na beira do colchão onde ele e Victoria tinham-se sentado juntos. Ergueu a garrafa e sugou-a, enquanto as vívidas luzes de néon do boulevard entravam pelas persianas empoeiradas.
Ficou sentado, olhando para fora, sem se mover, vendo os carros passarem de um lado para outro.
– Numa fria
Marie enchia tanto o saco sobre sua ida às corridas que ele só ia duas ou três vezes por semana. Vendera sua empresa e se aposentara cedo do ramo da construção. Na verdade não havia muito mais coisas que ele pudesse fazer.
Os quatro cavalos pareciam bons a seis por um, mas ainda havia dezoito minutos para a chegada. Sentiu um puxão na manga do paletó.
– Perdão, senhor, mas eu perdi nas duas primeiras corridas. Vi o senhor trocando suas pules. O senhor parece exatamente um cara que sabe o que está fazendo. Quem prefere nessa próxima corrida?
Era uma ruiva, de uns 24 anos, quadris estreitos, seios surpreendentemente grandes, pernas compridas, um lindo narizinho arrebitado, boca de flor, usando um vestido azul-claro e sapatos brancos de saltos altos. Os olhos azuis dela olhavam-no de baixo para cima.
– Bem – sorriu-lhe Ted –, eu geralmente prefiro o vencedor.
– Estou acostumada a jogar em puros-sangues – disse a ruiva. – Esses páreos de quarto de milha são muito rápidos!
– É. A maioria é corrida em menos de dezoito segundos. A gente descobre muito rápido se acertou ou errou.
– Se minha mãe descobrisse que estou aqui perdendo meu dinheiro, ela me daria uma surra de cinto.
– Eu mesmo gostaria de lhe dar uma surra de cinto – disse Ted.
– Você não é desses, é? – ela perguntou.
– Brincadeira – disse Ted. – Vamos, vamos ao bar. Talvez a gente consiga escolher um vencedor pra você.
– Tudo bem, senhor...?
– Pode me chamar de Ted. E você, como se chama?
– Victoria.
Entraram no bar.
– Que vai tomar? – perguntou Ted.
– O que você tomar – disse Victoria.
Ele pediu dois Jack Daniels. De pé, ele virou o seu, e ela bebericou o dela, olhando direto em frente. Ted conferiu o traseiro dela: perfeito. Era melhor do que muita candidatazinha ao estrelato no cinema, e não parecia mimada.
– Agora – disse Ted, apontando seu programa – na próxima corrida o cavalo quatro aparece melhor, e está dando possibilidades de seis por um...
Victoria exalou um “Ooohhh...?” muito sexy. Curvou-se para olhar o programa dele, tocando-o com o braço. Depois ele sentiu a perna dela comprimir-se contra a sua.
– As pessoas não sabem avaliar uma corrida – ele disse. – Me mostre um cara que sabe avaliar uma corrida, que eu lhe mostro um cara que pode ganhar todo o dinheiro que possa levar.
Ela sorriu para ele.
– Eu queria ter o que você tem.
– Você tem muita coisa, boneca. Quer outra bebida?
– Oh, não, obrigada...
– Bem, escuta – disse Ted –, é melhor fazermos as apostas.
– Tudo bem, vou apostar dois dólares no vencedor. Qual é, o cavalo número quatro?
– É, boneca, é o quatro...
Fizeram suas apostas e saíram para assistir ao páreo. O quatro não largou bem, foi abalroado de ambos os lados, endireitou-se, ficou em quinto num campo de nove, mas aí começou a acelerar e chegou à linha cabeça a cabeça com o favorito de dois a um. Foto.
Porra, pensou Ted, eu tenho de ganhar essa. Por favor, me dê essa!
– Oh – disse Victoria –, estou tão excitada!
O placar anunciou o número. Quatro.
Victoria gritou e pulou de alegria.
– Nós ganhamos, nós ganhamos, nós GANHAMOS!
Agarrou Ted e ele sentiu o beijo no rosto.
– Vá com calma, boneca, o melhor cavalo venceu, só isso.
Esperaram o aviso oficial e aí o placar exibiu o pagamento. Quatorze dólares e sessenta.
– Quanto você apostou? – perguntou Victoria.
– Quarenta no vencedor – disse Ted.
– Quanto vai receber?
– Duzentos e noventa e dois. Vamos pegar.
Dirigiram-se para os guichês. Então Ted sentiu a mão de Victoria na sua. Ela o fez parar.
– Se abaixe – ela disse –, que eu quero dizer uma coisa em seu ouvido.
Ted abaixou-se, sentiu os frios lábios róseos dela em sua orelha.
– Você é um... mágico... Eu quero... foder com você...
Ele ficou ali parado sorrindo debilmente para ela.
– Deus do céu – disse.
– Que é que há? Está com medo?
– Não, não, não é isso.
– Que é que há então?
– É Marie... minha esposa... eu sou casado... e ela me controla no mínimo minuto. Sabe quando as corridas acabam e quando devo chegar.
Victoria deu uma risada.
– A gente sai agora! Vamos a um motel!
– Bem, claro – disse Ted...
Trocaram as pules e voltaram para o estacionamento.
– Vamos no meu carro. Eu trago você de volta quando a gente acabar – disse Victoria.
Foram ao carro dela, um Fiat azul 1982, combinando com o vestido. A placa dizia VICKY. Quando ela pôs a chave na porta, hesitou.
– Você não é mesmo um daqueles, é?
– Daqueles quais?
– Que batem com o cinto, um daqueles. Minha mãe teve uma experiência terrível uma vez...
– Relaxe – ele disse. – Eu sou inofensivo.
Encontraram um motel a pouco mais de dois quilômetros do hipódromo. O Lua Azul. Só que a Lua Azul estava pintada de verde. Victoria estacionou e saltaram, se registraram, deram-lhes o quarto 302. Tinham parado para pegar uma garrafa de Cutty Sark no caminho.
Ted rasgou a embalagem de celofane dos copos, acendeu um cigarro e serviu duas doses enquanto Victoria se despia. A calcinha e o sutiã eram cor-de-rosa, e o corpo cor-de-rosa e branco e lindo. Era espantoso como de vez em quando se criava uma mulher daquelas, quando todas as outras, a maioria das outras, não tinham nada, ou quase nada. Era de enlouquecer. Victoria era um sonho lindo, enlouquecedor.
Victoria estava nua. Aproximou-se e sentou-se na borda da cama junto a Ted. Cruzou as pernas. Tinha os seios firmes e parecia já estar com tesão. Ele realmente não acreditava em sua sorte. Aí ela deu uma risadinha.
– Que foi? – ele perguntou.
– Está pensando em sua mulher?
– Bem, não, estava pensando em outra coisa.
– Bem, devia pensar em sua mulher...
– Diabos – disse Ted –, foi você quem sugeriu a foda!
– Eu gostaria que você não usasse essa palavra...
– Está recuando?
– Bem, não. Escuta, tem um cigarro?
– Claro...
Ted pegou um, entregou a ela, acendeu-o e ela o manteve na boca.
– Você tem o corpo mais lindo que eu já vi – disse Ted.
– Eu não duvido – ela disse, sorrindo.
– Escuta, você está recuando dessa coisa? – ele perguntou.
– Claro que não – ela respondeu –, tire a roupa.
Ted começou a despir-se, sentindo-se gordo, velho e feio, mas também sortudo – tinha sido seu melhor dia nas corridas, em muitos aspectos. Dobrou suas roupas numa cadeira e sentou-se junto a Victoria.
Serviram mais um drinque para cada um.
– Sabe – ele disse –, você é um número de classe, mas eu também sou. Nós dois temos nossa própria maneira de mostrar isso. Eu faturei uma nota no ramo da construção, e ainda estou faturando nas corridas. Nem todo mundo tem esse instinto.
Victoria bebeu metade de seu Cutty Sark e sorriu para ele.
– Oh, você é meu grande Buda gordo!
Ted enxugou a sua bebida.
– Escuta, se você não quiser, a gente não faz. Esqueça.
– Me deixa ver o que é que Buda tem aí...
Victoria baixou o braço e enfiou a mão entre as pernas dele. Pegou-o, segurou-o.
– Oh, oh... estou sentindo uma coisa... – disse.
– Claro... E daí?
Então ela baixou a cabeça. Beijou-o a princípio. Depois ele sentiu que ela abria a boca, e a língua.
– Sua puta! – disse.
Victoria ergueu a cabeça e olhou-o.
– Por favor. Eu não gosto de palavrão.
– Tudo bem, Vicky, tudo bem. Nada de palavrão.
– Se meta entre os lençóis, Buda.
Ted se meteu e sentiu o corpo dela junto ao seu. A pele era fria, e a boca abriu-se e ele a beijou e enfiou a língua. Gostava daquilo assim, fresco, com o frescor da primavera, jovem, novo, bom. Que prazer do caralho. Ia lascar ela ao meio! Masturbou-a, ela demorou muito para gozar. Depois ele a sentiu abrir-se e enfiou o dedo. Pegara-a, a puta. Puxou o dedo e esfregou o clitóris. Você quer aquecimento, vai ter aquecimento!, pensou.
Sentiu os dentes dela enterrarem-se em seu lábio inferior, a dor foi terrível. Ted afastou-se, sentindo o gosto do sangue e a ferida no lábio. Ergueu-se pela metade e deu-lhe um tapa no rosto, depois com as costas da mão no outro lado. Encontrou-a lá embaixo, enfiou e estocou, pondo a boca de volta na dela. Prosseguiu em selvagem vingança, de vez em quando recuando a cabeça e olhando-a. Tentou segurar, se conter, e agora via aquela nuvem de cabelos cor de morango espalhados no travesseiro ao luar.
Ted gemia e suava como um ginasiano. Era aquilo. Nirvana. O lugar a se alcançar. Victoria continuava calada. Os gemidos de Ted foram diminuindo, e então, após um instante, ele rolou para o lado.
Ficou fitando a escuridão.
Esqueci de chupar os peitos dela, pensou.
Então ouviu a voz dela.
– Sabe de uma coisa? – ela perguntou.
– Que é?
– Você me lembra um daqueles cavalos de quarto de milha.
– Que quer dizer?
– Tudo acaba em dezoito segundos.
– A gente corre de novo, boneca – ele disse...
Ela foi ao banheiro. Ted limpou-se no lençol, o velho profissional. Victoria era uma coisa meio desagradável, de certa forma. Mas podia ser manobrada. Ele tinha alguma coisa. Quantos homens eram donos de sua própria casa e tinham 150 mil paus no banco na sua idade? Ele era um número de classe, e ela sabia disso muito bem.
Victoria saiu do banheiro ainda parecendo fresca, intocada, quase virginal. Ted acendeu o abajur de cabeceira. Sentou-se e serviu dois drinques. Ela sentou-se na beira da cama com sua bebida e ele desceu e sentou-se na beira da cama junto dela.
– Victoria – disse –, posso tornar tudo bom pra você.
– Acho que você tem lá seus meios, Buda.
– E vou ser um amante melhor.
– Claro.
– Escuta, devia ter me conhecido quando eu era jovem. Era durão, mas bom. Eu tinha aquilo. Ainda tenho.
Ela sorriu para ele.
– Ora, vamos, Buda, não é tão ruim assim. Você tem uma esposa, você tem um monte de coisas a seu favor.
– Menos uma coisa – ele disse, enxugando sua bebida e olhando-a. – Menos a única coisa que eu quero mesmo...
– Veja o seu lábio! Está sangrando!
Ted baixou o olhar para seu copo. Viu gotas de sangue na bebida e sentiu o sangue escorrendo pelo queixo. Limpou o queixo com as costas da mão.
– Vou ao banheiro lavar isso, boneca, já volto.
Entrou no banheiro, correu a porta do chuveiro e abriu a água, testando-a com a mão. Parecia mais ou menos no ponto e ele entrou, a água escorrendo dele. Via o sangue na água escorrendo para o ralo. Que gata selvagem. Só precisava de uma mão forte.
Marie era legal, era bondosa, na verdade meio chata. Perdera a intensidade da juventude. Não era culpa dela. Talvez ele pudesse arranjar um meio de continuar com Marie e ter Victoria por fora. Victoria renovava sua juventude. Precisava de uma porra de uma renovação. E de mais umas boas fodas como aquela. Claro, as mulheres eram todas loucas. Não entendiam que vencer não era uma experiência gloriosa, só necessária.
– Vamos com isso, Buda! – ouviu-a gritar. – Não me deixe aqui sozinha!
– Não demoro, boneca – ele gritou debaixo do chuveiro. Ensaboou-se bem, lavando tudo.
Depois saiu, enxugou-se, abriu a porta do banheiro e foi para o quarto.
O quarto de motel estava vazio. Ela se fora.
A distância entre os objetos comuns e entre os fatos era notável. De repente, ele viu as paredes, o tapete, a cama, as cortinas, a mesa de café, a penteadeira, o cinzeiro com os cigarros deles. A distância entre essas coisas era imensa. O então e o agora estavam anos-luz separados.
Num impulso, ele correu para o armário e abriu a porta. Nada além de cabides.
Então Ted percebeu que suas roupas haviam desaparecido. A roupa de baixo, a camisa, as calças, as chaves do carro e a carteira, seu dinheiro, seus sapatos, suas meias, tudo.
Em outro impulso, olhou embaixo da cama. Nada.
Então viu a garrafa de Cutty Sark, pela metade, sobre a penteadeira, e aproximou-se, pegou-a e serviu-se uma dose. E ao fazer isso viu duas palavras riscadas no espelho da penteadeira com batom cor-de-rosa: “ADEUS, BUDA!”
Ted tomou a bebida, depôs o copo e viu-se no espelho – muito gordo, muito velho. Não tinha ideia do que fazer em seguida.
Levou o Cutty Sark de volta para a cama, sentou-se pesadamente na beira do colchão onde ele e Victoria tinham-se sentado juntos. Ergueu a garrafa e sugou-a, enquanto as vívidas luzes de néon do boulevard entravam pelas persianas empoeiradas.
Ficou sentado, olhando para fora, sem se mover, vendo os carros passarem de um lado para outro.
– Numa fria
1 161
Charles Bukowski
Canção de Amor Invertida
eu poderia desmanchar 90 montanhas aos berros
até torná-las menos que pó
se apenas um ser humano tivesse olhos na cabeça
e coração no corpo,
mas não há chance,
meu deus,
nenhuma chance.
rato com rato cão com cão porco com porco,
ouça o piano bêbado,
perceba o mito da misericórdia
fique quieto
pois até a voz de uma criança rosna
e nós não fomos enganados,
foi só porque quisemos acreditar.
até torná-las menos que pó
se apenas um ser humano tivesse olhos na cabeça
e coração no corpo,
mas não há chance,
meu deus,
nenhuma chance.
rato com rato cão com cão porco com porco,
ouça o piano bêbado,
perceba o mito da misericórdia
fique quieto
pois até a voz de uma criança rosna
e nós não fomos enganados,
foi só porque quisemos acreditar.
965
Charles Bukowski
Canção de Amor Invertida
eu poderia desmanchar 90 montanhas aos berros
até torná-las menos que pó
se apenas um ser humano tivesse olhos na cabeça
e coração no corpo,
mas não há chance,
meu deus,
nenhuma chance.
rato com rato cão com cão porco com porco,
ouça o piano bêbado,
perceba o mito da misericórdia
fique quieto
pois até a voz de uma criança rosna
e nós não fomos enganados,
foi só porque quisemos acreditar.
até torná-las menos que pó
se apenas um ser humano tivesse olhos na cabeça
e coração no corpo,
mas não há chance,
meu deus,
nenhuma chance.
rato com rato cão com cão porco com porco,
ouça o piano bêbado,
perceba o mito da misericórdia
fique quieto
pois até a voz de uma criança rosna
e nós não fomos enganados,
foi só porque quisemos acreditar.
965
Charles Bukowski
Os Elefantes do Vietnã
primeiro eles costumavam, ele me contou,
atirar e jogar bombas nos elefantes,
dava para ouvir seus gritos sobre todos os outros sons;
mas você voava alto para bombardear o povo,
você nunca o enxergava,
só um pequeno clarão de lá de cima
mas com os elefantes
você podia olhar aquilo acontecendo
e ouvir como gritavam;
eu dizia a meus companheiros, ouçam, caras,
parem com isso,
mas eles se limitavam a rir
enquanto os elefantes se dispersavam
erguendo a tromba (se não tivesse sido estourada)
abrindo a boca
bem grande e
tropeçando nas pernas grossas e desajeitadas
enquanto o sangue escorria dos grandes buracos na barriga.
então voaríamos de volta,
missão cumprida.
acertávamos qualquer coisa:
comboios, depósitos, pontes, gente, elefantes e
todo o resto.
ele me contou mais tarde, eu
me senti mal pelos
elefantes.
atirar e jogar bombas nos elefantes,
dava para ouvir seus gritos sobre todos os outros sons;
mas você voava alto para bombardear o povo,
você nunca o enxergava,
só um pequeno clarão de lá de cima
mas com os elefantes
você podia olhar aquilo acontecendo
e ouvir como gritavam;
eu dizia a meus companheiros, ouçam, caras,
parem com isso,
mas eles se limitavam a rir
enquanto os elefantes se dispersavam
erguendo a tromba (se não tivesse sido estourada)
abrindo a boca
bem grande e
tropeçando nas pernas grossas e desajeitadas
enquanto o sangue escorria dos grandes buracos na barriga.
então voaríamos de volta,
missão cumprida.
acertávamos qualquer coisa:
comboios, depósitos, pontes, gente, elefantes e
todo o resto.
ele me contou mais tarde, eu
me senti mal pelos
elefantes.
1 166
Charles Bukowski
Guerra e Paz
experimentar a
verdadeira agonia
é
algo
duro
de escrever a respeito,
impossível
de entender
quando o
pega:
você fica
amedrontado
até a
medula,
não pode parar
quieto,
mexer-se
ou até
ficar
louco
decentemente.
e então
quando sua compostura
finalmente
retorna
e você
consegue
avaliar
a
experiência
é quase
como se
tivesse acontecido
a
outra
pessoa
pois
veja
você
agora:
calmo
desligado
por exemplo
limpando suas
unhas
procurando em
uma
gaveta
por
selos
passando
graxa
em seus
sapatos
ou
pagando a
conta
da luz.
a vida é
e não é
uma
delicada
chatice.
verdadeira agonia
é
algo
duro
de escrever a respeito,
impossível
de entender
quando o
pega:
você fica
amedrontado
até a
medula,
não pode parar
quieto,
mexer-se
ou até
ficar
louco
decentemente.
e então
quando sua compostura
finalmente
retorna
e você
consegue
avaliar
a
experiência
é quase
como se
tivesse acontecido
a
outra
pessoa
pois
veja
você
agora:
calmo
desligado
por exemplo
limpando suas
unhas
procurando em
uma
gaveta
por
selos
passando
graxa
em seus
sapatos
ou
pagando a
conta
da luz.
a vida é
e não é
uma
delicada
chatice.
715
Charles Bukowski
Guerra e Paz
experimentar a
verdadeira agonia
é
algo
duro
de escrever a respeito,
impossível
de entender
quando o
pega:
você fica
amedrontado
até a
medula,
não pode parar
quieto,
mexer-se
ou até
ficar
louco
decentemente.
e então
quando sua compostura
finalmente
retorna
e você
consegue
avaliar
a
experiência
é quase
como se
tivesse acontecido
a
outra
pessoa
pois
veja
você
agora:
calmo
desligado
por exemplo
limpando suas
unhas
procurando em
uma
gaveta
por
selos
passando
graxa
em seus
sapatos
ou
pagando a
conta
da luz.
a vida é
e não é
uma
delicada
chatice.
verdadeira agonia
é
algo
duro
de escrever a respeito,
impossível
de entender
quando o
pega:
você fica
amedrontado
até a
medula,
não pode parar
quieto,
mexer-se
ou até
ficar
louco
decentemente.
e então
quando sua compostura
finalmente
retorna
e você
consegue
avaliar
a
experiência
é quase
como se
tivesse acontecido
a
outra
pessoa
pois
veja
você
agora:
calmo
desligado
por exemplo
limpando suas
unhas
procurando em
uma
gaveta
por
selos
passando
graxa
em seus
sapatos
ou
pagando a
conta
da luz.
a vida é
e não é
uma
delicada
chatice.
715
Charles Bukowski
Globulárias e Latadas
claro, posso morrer nos próximos dez minutos
e estou pronto para isso
mas o que realmente me preocupa é
que meu editor venha a se aposentar
ainda que ele seja dez anos mais jovem do que
eu.
tudo começou 25 anos atrás (eu estava na madura
faixa dos 45)
quando começamos nossa profana aliança para
testar as águas literárias,
nenhum de nós sendo muito
conhecido.
acho que tivemos um pouco de sorte e que ainda nos
resta um pouco da
mesma
as possibilidades são bem favoráveis
para que ele opte por tardes quentes e
prazenteiras
no jardim
muito antes de mim.
a escrita é sua própria bebedeira
enquanto que publicar e editar,
esforçar-se por pagar as contas
carrega consigo seu próprio
atrito
que ainda inclui lidar com
os faniquitos tolos e as exigências
de tantos
assim chamados gênios extravagantes que nada
são.
não vou culpá-lo por dar o
fora
e espero que me mande fotos de sua
Alameda Rosa, de sua
Avenida Gardênia.
terei que procurar outros
promulgadores?
aquele camarada com o chapéu de pelúcia
russo?
ou aquela besta no leste
com todos aqueles pelos
saindo dos ouvidos, com aqueles lábios
úmidos e gordurosos?
ou será que meu editor
ao sair do mundo de Globulárias e
latadas
passará a
maquinaria
de seu antigo negócio a um
primo, uma
filha ou a
algum poundiano do Grande
Sul?
ou simplesmente transmitirá seu legado
a um
funcionário do despacho
que ressurgirá como
Lázaro,
manuseando uma importância
recém-encontrada?
alguém pode imaginar coisas
terríveis:
“Sr. Chinaski, seus textos
devem agora ser submetidos em
forma de Rondó
e
digitados
em espaço três em papel de
arroz”.
o poder corrompe,
a vida aborta
e tudo o que
lhe resta
é um
bocado de
verrugas.
“não, não, sr. Chinaski:
tem que ser em Rondó!”
“ei, cara”, perguntarei,
“você já ouviu falar
dos anos 30?”
“os anos 30? o que é
isso?”
meu atual editor
e eu
às vezes
discutíamos os anos 30,
a Depressão
e
alguns dos truques que
nos ensinaram –
como perseverar apoiado em quase
nada
e como seguir em
frente.
bem, John, se isso acontecer aproveite seu
ócio para
se dedicar à agricultura
cultivar e viver ao ar livre
no meio do
mato, água apenas
cedo pela manhã, plante
com folga para desencorajar
as ervas daninhas
e
como faço com minha escrita:
use muito
adubo.
e obrigado
por ter me ajeitado aqui no
5124 da DeLongpre Avenue
em algum lugar entre o
alcoolismo e a
loucura.
juntos nós
lançamos o desafio
e até os dias de hoje
há aceitadores
para serem
encontrados
enquanto o fogo canta
por entre as
árvores.
e estou pronto para isso
mas o que realmente me preocupa é
que meu editor venha a se aposentar
ainda que ele seja dez anos mais jovem do que
eu.
tudo começou 25 anos atrás (eu estava na madura
faixa dos 45)
quando começamos nossa profana aliança para
testar as águas literárias,
nenhum de nós sendo muito
conhecido.
acho que tivemos um pouco de sorte e que ainda nos
resta um pouco da
mesma
as possibilidades são bem favoráveis
para que ele opte por tardes quentes e
prazenteiras
no jardim
muito antes de mim.
a escrita é sua própria bebedeira
enquanto que publicar e editar,
esforçar-se por pagar as contas
carrega consigo seu próprio
atrito
que ainda inclui lidar com
os faniquitos tolos e as exigências
de tantos
assim chamados gênios extravagantes que nada
são.
não vou culpá-lo por dar o
fora
e espero que me mande fotos de sua
Alameda Rosa, de sua
Avenida Gardênia.
terei que procurar outros
promulgadores?
aquele camarada com o chapéu de pelúcia
russo?
ou aquela besta no leste
com todos aqueles pelos
saindo dos ouvidos, com aqueles lábios
úmidos e gordurosos?
ou será que meu editor
ao sair do mundo de Globulárias e
latadas
passará a
maquinaria
de seu antigo negócio a um
primo, uma
filha ou a
algum poundiano do Grande
Sul?
ou simplesmente transmitirá seu legado
a um
funcionário do despacho
que ressurgirá como
Lázaro,
manuseando uma importância
recém-encontrada?
alguém pode imaginar coisas
terríveis:
“Sr. Chinaski, seus textos
devem agora ser submetidos em
forma de Rondó
e
digitados
em espaço três em papel de
arroz”.
o poder corrompe,
a vida aborta
e tudo o que
lhe resta
é um
bocado de
verrugas.
“não, não, sr. Chinaski:
tem que ser em Rondó!”
“ei, cara”, perguntarei,
“você já ouviu falar
dos anos 30?”
“os anos 30? o que é
isso?”
meu atual editor
e eu
às vezes
discutíamos os anos 30,
a Depressão
e
alguns dos truques que
nos ensinaram –
como perseverar apoiado em quase
nada
e como seguir em
frente.
bem, John, se isso acontecer aproveite seu
ócio para
se dedicar à agricultura
cultivar e viver ao ar livre
no meio do
mato, água apenas
cedo pela manhã, plante
com folga para desencorajar
as ervas daninhas
e
como faço com minha escrita:
use muito
adubo.
e obrigado
por ter me ajeitado aqui no
5124 da DeLongpre Avenue
em algum lugar entre o
alcoolismo e a
loucura.
juntos nós
lançamos o desafio
e até os dias de hoje
há aceitadores
para serem
encontrados
enquanto o fogo canta
por entre as
árvores.
934
Charles Bukowski
junto a uma vitrine
junto a uma vitrine
cachorros e anjos não estão
muito distantes.
eu vou muito a esse lugarzinho
para comer
por volta das 2:30 da tarde
porque todas as pessoas que comem
lá são completamente sãs,
contentes por estarem simplesmente vivas e
comendo sua comida
junto a uma vitrine
que dá boas-vindas ao sol
mas não deixa os carros e
as calçadas entrarem.
atravessando a rua há um bar
chinês de striptease
aberto já às 2:30 da
tarde
está pintado de
um pobre e pálido
azul.
dão-nos quantos cafés
de graça pudermos tomar
e todos nos sentamos e bebemos em silêncio
o café preto e forte.
é bom poder ficar em algum lugar
em público às 2:30 da tarde
sem que lhe arranquem a carne
de seus ossos.
ninguém nos incomoda.
não incomodamos ninguém.
anjos e cachorros não estão
muito distantes
às 2:30 da tarde.
tenho minha mesa favorita
junto da janela
e depois de haver terminado
eu empilho os pratos, tigelas,
a xícara, Os talheres etc.
direitinho
em uma pilha bem arrumada -
minha oferenda à
garçonete idosa -
comida e tempo
íntegros,
e o sol desgraçado
lá fora
fazendo seu serviço
para cima e
para baixo.
cachorros e anjos não estão
muito distantes.
eu vou muito a esse lugarzinho
para comer
por volta das 2:30 da tarde
porque todas as pessoas que comem
lá são completamente sãs,
contentes por estarem simplesmente vivas e
comendo sua comida
junto a uma vitrine
que dá boas-vindas ao sol
mas não deixa os carros e
as calçadas entrarem.
atravessando a rua há um bar
chinês de striptease
aberto já às 2:30 da
tarde
está pintado de
um pobre e pálido
azul.
dão-nos quantos cafés
de graça pudermos tomar
e todos nos sentamos e bebemos em silêncio
o café preto e forte.
é bom poder ficar em algum lugar
em público às 2:30 da tarde
sem que lhe arranquem a carne
de seus ossos.
ninguém nos incomoda.
não incomodamos ninguém.
anjos e cachorros não estão
muito distantes
às 2:30 da tarde.
tenho minha mesa favorita
junto da janela
e depois de haver terminado
eu empilho os pratos, tigelas,
a xícara, Os talheres etc.
direitinho
em uma pilha bem arrumada -
minha oferenda à
garçonete idosa -
comida e tempo
íntegros,
e o sol desgraçado
lá fora
fazendo seu serviço
para cima e
para baixo.
1 078
Charles Bukowski
Estrangeiro Em Uma Cidade Estranha
eu havia acabado de chegar
a outra cidade estranha
e havia deixado meu quarto e
me encontrava caminhando ao longo
do que devia ter sido
uma avenida principal
na qual os automóveis corriam indo
e vindo com o que parecia ser
um propósito
definido.
aquele bulevar movimentado parecia
estender-se sem fim
à minha frente e
parecia seguir
direto até a beirada
da Terra,
e então
depois de caminhar por um tempo
eu me dei conta
de que estava
perdido, de que
havia esquecido o nome
da rua em que meu
quarto ficava
ou
onde estava.
não havia deixado nada
naquele quarto
a não ser a diária paga
por uma semana
mais uma mala
amarrotada
cheia de minhas roupas velhas
mas aquilo era
tudo o que
eu tinha
então comecei a examinar
as travessas
procurando
meu quarto
e logo fiquei
com medo, um
terror paralisante como uma doença
fatal
espalhando-se em mim
enquanto
eu continuava a andar
para cima e para baixo por ruas
desconhecidas
até que minha mente
me dissesse:
você está louco, é só
isso, você deveria
desistir e tentar
resolver
isso.
mas eu só continuava a andar.
havia sido uma
longa tarde e agora
deslizava
noite adentro.
meus pés doíam
em meus sapatos
baratos.
então foi
escurecendo, já era noite,
mas eu continuei
a caminhar.
sentia como se
tivesse caminhado
para cima e para baixo
pelas
mesmas ruas
de novo e de novo.
então finalmente
reconheci meu
prédio!
e subi correndo
os degraus
e pela escadaria até
o segundo andar
e meu quarto ainda estava
láeeu
abri a porta,
fechei-a depois de entrar,
e fiquei
seguro lá dentro.
lá estava a
mala
no assoalho,
ainda cheia das minhas
roupas velhas.
eu ouvi um homem
rir
em outro
dos quartos e subitamente
me senti muito
melhor.
eu tirei meus sapatos,
camisa, calças,
sentei-me na beirada
da cama e
enrolei um
cigarro.
e aí me reclinei no
travesseiro e
fumei.
eu tinha 20 anos de idade
e 14 dólares
na minha carteira.
então me lembrei
da minha garrafa de vinho.
puxei-a sob a
cama, destampei-a
e tomei um bom
trago.
resolvi que
não estava louco.
peguei um jornal
do chão
e fui para a seção de
empregos:
lavador de pratos, auxiliar
aduaneiro, estoquista,
guarda noturno...
joguei o jornal
no chão.
eu procuraria um
emprego
depois de
amanhã.
então apaguei
o cigarro
satisfeito
e fui
dormir.
a outra cidade estranha
e havia deixado meu quarto e
me encontrava caminhando ao longo
do que devia ter sido
uma avenida principal
na qual os automóveis corriam indo
e vindo com o que parecia ser
um propósito
definido.
aquele bulevar movimentado parecia
estender-se sem fim
à minha frente e
parecia seguir
direto até a beirada
da Terra,
e então
depois de caminhar por um tempo
eu me dei conta
de que estava
perdido, de que
havia esquecido o nome
da rua em que meu
quarto ficava
ou
onde estava.
não havia deixado nada
naquele quarto
a não ser a diária paga
por uma semana
mais uma mala
amarrotada
cheia de minhas roupas velhas
mas aquilo era
tudo o que
eu tinha
então comecei a examinar
as travessas
procurando
meu quarto
e logo fiquei
com medo, um
terror paralisante como uma doença
fatal
espalhando-se em mim
enquanto
eu continuava a andar
para cima e para baixo por ruas
desconhecidas
até que minha mente
me dissesse:
você está louco, é só
isso, você deveria
desistir e tentar
resolver
isso.
mas eu só continuava a andar.
havia sido uma
longa tarde e agora
deslizava
noite adentro.
meus pés doíam
em meus sapatos
baratos.
então foi
escurecendo, já era noite,
mas eu continuei
a caminhar.
sentia como se
tivesse caminhado
para cima e para baixo
pelas
mesmas ruas
de novo e de novo.
então finalmente
reconheci meu
prédio!
e subi correndo
os degraus
e pela escadaria até
o segundo andar
e meu quarto ainda estava
láeeu
abri a porta,
fechei-a depois de entrar,
e fiquei
seguro lá dentro.
lá estava a
mala
no assoalho,
ainda cheia das minhas
roupas velhas.
eu ouvi um homem
rir
em outro
dos quartos e subitamente
me senti muito
melhor.
eu tirei meus sapatos,
camisa, calças,
sentei-me na beirada
da cama e
enrolei um
cigarro.
e aí me reclinei no
travesseiro e
fumei.
eu tinha 20 anos de idade
e 14 dólares
na minha carteira.
então me lembrei
da minha garrafa de vinho.
puxei-a sob a
cama, destampei-a
e tomei um bom
trago.
resolvi que
não estava louco.
peguei um jornal
do chão
e fui para a seção de
empregos:
lavador de pratos, auxiliar
aduaneiro, estoquista,
guarda noturno...
joguei o jornal
no chão.
eu procuraria um
emprego
depois de
amanhã.
então apaguei
o cigarro
satisfeito
e fui
dormir.
877
Charles Bukowski
Estrangeiro Em Uma Cidade Estranha
eu havia acabado de chegar
a outra cidade estranha
e havia deixado meu quarto e
me encontrava caminhando ao longo
do que devia ter sido
uma avenida principal
na qual os automóveis corriam indo
e vindo com o que parecia ser
um propósito
definido.
aquele bulevar movimentado parecia
estender-se sem fim
à minha frente e
parecia seguir
direto até a beirada
da Terra,
e então
depois de caminhar por um tempo
eu me dei conta
de que estava
perdido, de que
havia esquecido o nome
da rua em que meu
quarto ficava
ou
onde estava.
não havia deixado nada
naquele quarto
a não ser a diária paga
por uma semana
mais uma mala
amarrotada
cheia de minhas roupas velhas
mas aquilo era
tudo o que
eu tinha
então comecei a examinar
as travessas
procurando
meu quarto
e logo fiquei
com medo, um
terror paralisante como uma doença
fatal
espalhando-se em mim
enquanto
eu continuava a andar
para cima e para baixo por ruas
desconhecidas
até que minha mente
me dissesse:
você está louco, é só
isso, você deveria
desistir e tentar
resolver
isso.
mas eu só continuava a andar.
havia sido uma
longa tarde e agora
deslizava
noite adentro.
meus pés doíam
em meus sapatos
baratos.
então foi
escurecendo, já era noite,
mas eu continuei
a caminhar.
sentia como se
tivesse caminhado
para cima e para baixo
pelas
mesmas ruas
de novo e de novo.
então finalmente
reconheci meu
prédio!
e subi correndo
os degraus
e pela escadaria até
o segundo andar
e meu quarto ainda estava
láeeu
abri a porta,
fechei-a depois de entrar,
e fiquei
seguro lá dentro.
lá estava a
mala
no assoalho,
ainda cheia das minhas
roupas velhas.
eu ouvi um homem
rir
em outro
dos quartos e subitamente
me senti muito
melhor.
eu tirei meus sapatos,
camisa, calças,
sentei-me na beirada
da cama e
enrolei um
cigarro.
e aí me reclinei no
travesseiro e
fumei.
eu tinha 20 anos de idade
e 14 dólares
na minha carteira.
então me lembrei
da minha garrafa de vinho.
puxei-a sob a
cama, destampei-a
e tomei um bom
trago.
resolvi que
não estava louco.
peguei um jornal
do chão
e fui para a seção de
empregos:
lavador de pratos, auxiliar
aduaneiro, estoquista,
guarda noturno...
joguei o jornal
no chão.
eu procuraria um
emprego
depois de
amanhã.
então apaguei
o cigarro
satisfeito
e fui
dormir.
a outra cidade estranha
e havia deixado meu quarto e
me encontrava caminhando ao longo
do que devia ter sido
uma avenida principal
na qual os automóveis corriam indo
e vindo com o que parecia ser
um propósito
definido.
aquele bulevar movimentado parecia
estender-se sem fim
à minha frente e
parecia seguir
direto até a beirada
da Terra,
e então
depois de caminhar por um tempo
eu me dei conta
de que estava
perdido, de que
havia esquecido o nome
da rua em que meu
quarto ficava
ou
onde estava.
não havia deixado nada
naquele quarto
a não ser a diária paga
por uma semana
mais uma mala
amarrotada
cheia de minhas roupas velhas
mas aquilo era
tudo o que
eu tinha
então comecei a examinar
as travessas
procurando
meu quarto
e logo fiquei
com medo, um
terror paralisante como uma doença
fatal
espalhando-se em mim
enquanto
eu continuava a andar
para cima e para baixo por ruas
desconhecidas
até que minha mente
me dissesse:
você está louco, é só
isso, você deveria
desistir e tentar
resolver
isso.
mas eu só continuava a andar.
havia sido uma
longa tarde e agora
deslizava
noite adentro.
meus pés doíam
em meus sapatos
baratos.
então foi
escurecendo, já era noite,
mas eu continuei
a caminhar.
sentia como se
tivesse caminhado
para cima e para baixo
pelas
mesmas ruas
de novo e de novo.
então finalmente
reconheci meu
prédio!
e subi correndo
os degraus
e pela escadaria até
o segundo andar
e meu quarto ainda estava
láeeu
abri a porta,
fechei-a depois de entrar,
e fiquei
seguro lá dentro.
lá estava a
mala
no assoalho,
ainda cheia das minhas
roupas velhas.
eu ouvi um homem
rir
em outro
dos quartos e subitamente
me senti muito
melhor.
eu tirei meus sapatos,
camisa, calças,
sentei-me na beirada
da cama e
enrolei um
cigarro.
e aí me reclinei no
travesseiro e
fumei.
eu tinha 20 anos de idade
e 14 dólares
na minha carteira.
então me lembrei
da minha garrafa de vinho.
puxei-a sob a
cama, destampei-a
e tomei um bom
trago.
resolvi que
não estava louco.
peguei um jornal
do chão
e fui para a seção de
empregos:
lavador de pratos, auxiliar
aduaneiro, estoquista,
guarda noturno...
joguei o jornal
no chão.
eu procuraria um
emprego
depois de
amanhã.
então apaguei
o cigarro
satisfeito
e fui
dormir.
877
Charles Bukowski
Um Futuro Parlamentar
no toalete masculino do
hipódromo
o garoto de uns
7 ou 8 anos de idade
sai do reservado
e o homem
à espera dele
(provavelmente seu
pai)
perguntou,
"o que você fez com o
programa das corridas?
eu lhe dei
para que o guardasse".
"não", diz o garoto,
"eu não vi! eu não
estou com ele!"
eles saíram e
eu entrei no reservado
porque era o único
vago
e lá
na privada
estava O
programa.
eu tentei fazer com que a descarga
levasse
o programa
mas ele só nadou
preguiçosamente
e
ficou lá.
eu saí
e achei
outro
reservado vago.
o garoto estava pronto
para sua vida futura.
ele seria sem dúvida
muito bem-sucedido,
o fedelho
mentiroso.
hipódromo
o garoto de uns
7 ou 8 anos de idade
sai do reservado
e o homem
à espera dele
(provavelmente seu
pai)
perguntou,
"o que você fez com o
programa das corridas?
eu lhe dei
para que o guardasse".
"não", diz o garoto,
"eu não vi! eu não
estou com ele!"
eles saíram e
eu entrei no reservado
porque era o único
vago
e lá
na privada
estava O
programa.
eu tentei fazer com que a descarga
levasse
o programa
mas ele só nadou
preguiçosamente
e
ficou lá.
eu saí
e achei
outro
reservado vago.
o garoto estava pronto
para sua vida futura.
ele seria sem dúvida
muito bem-sucedido,
o fedelho
mentiroso.
1 011
Charles Bukowski
Encurralado
bem, eles diziam que tudo terminaria
assim: velho. o talento perdido. tateando às cegas em busca
da palavra
ouvindo os passos
na escuridão, volto-me
para olhar atrás de mim...
ainda não, velho cão...
logo em breve.
agora
eles se sentam falando sobre
mim: “sim, acontece, ele já
era... é
triste...”
“ele nunca teve muito, não é
mesmo?”
“bem, não, mas agora...”
agora
eles celebram minha derrocada
em tavernas que há muito já não
frequento.
agora
bebo sozinho
junto a essa máquina que mal
funciona
enquanto as sombras assumem
formas
combato retirando-me
lentamente
agora
minha antiga promessa
definha
definha
agora
acendendo novos cigarros
servindo mais
bebidas
tem sido um belo
combate
ainda
é.
assim: velho. o talento perdido. tateando às cegas em busca
da palavra
ouvindo os passos
na escuridão, volto-me
para olhar atrás de mim...
ainda não, velho cão...
logo em breve.
agora
eles se sentam falando sobre
mim: “sim, acontece, ele já
era... é
triste...”
“ele nunca teve muito, não é
mesmo?”
“bem, não, mas agora...”
agora
eles celebram minha derrocada
em tavernas que há muito já não
frequento.
agora
bebo sozinho
junto a essa máquina que mal
funciona
enquanto as sombras assumem
formas
combato retirando-me
lentamente
agora
minha antiga promessa
definha
definha
agora
acendendo novos cigarros
servindo mais
bebidas
tem sido um belo
combate
ainda
é.
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