Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Charles Bukowski
Como Está o Seu Coração?
durante os meus piores momentos
nos bancos de praça
nas cadeias
ou morando com
putas
sempre senti certo
contentamento –
eu não chamaria de
felicidade –
era mais um equilíbrio
íntimo
que se acomodava com
qualquer coisa que estivesse ocorrendo
e isso ajudou nas
fábricas
e quando relacionamentos
davam errado
com as
garotas.
ajudou
ao longo das
guerras e das
ressacas
das lutas nos becos
dos hospitais.
despertar num quarto barato
numa cidade estranha e
levantar a cortina –
esse era o tipo mais louco de
contentamento
e atravessar o piso
até uma velha cômoda com um
espelho rachado –
ver meu reflexo, feio,
sorrindo perante tudo.
o mais importante é
você saber
caminhar através do
fogo.
nos bancos de praça
nas cadeias
ou morando com
putas
sempre senti certo
contentamento –
eu não chamaria de
felicidade –
era mais um equilíbrio
íntimo
que se acomodava com
qualquer coisa que estivesse ocorrendo
e isso ajudou nas
fábricas
e quando relacionamentos
davam errado
com as
garotas.
ajudou
ao longo das
guerras e das
ressacas
das lutas nos becos
dos hospitais.
despertar num quarto barato
numa cidade estranha e
levantar a cortina –
esse era o tipo mais louco de
contentamento
e atravessar o piso
até uma velha cômoda com um
espelho rachado –
ver meu reflexo, feio,
sorrindo perante tudo.
o mais importante é
você saber
caminhar através do
fogo.
1 109
Charles Bukowski
Se Foi
foi embora como as damas de antigamente
enquanto eu abria a porta
para o quarto
cama
travesseiros
paredes
eu o perdi
eu o perdi em algum lugar
enquanto caminhava pela rua
ou enquanto levantava pesos
ou enquanto olhava um desfile
eu o perdi
enquanto olhava luta livre
ou enquanto esperava no sinal vermelho
ao meio-dia em certo dia poluído
eu o perdi enquanto inseria uma moeda
num parquímetro
eu o perdi
enquanto os cães selvagens dormiam.
enquanto eu abria a porta
para o quarto
cama
travesseiros
paredes
eu o perdi
eu o perdi em algum lugar
enquanto caminhava pela rua
ou enquanto levantava pesos
ou enquanto olhava um desfile
eu o perdi
enquanto olhava luta livre
ou enquanto esperava no sinal vermelho
ao meio-dia em certo dia poluído
eu o perdi enquanto inseria uma moeda
num parquímetro
eu o perdi
enquanto os cães selvagens dormiam.
1 288
Charles Bukowski
Se Foi
foi embora como as damas de antigamente
enquanto eu abria a porta
para o quarto
cama
travesseiros
paredes
eu o perdi
eu o perdi em algum lugar
enquanto caminhava pela rua
ou enquanto levantava pesos
ou enquanto olhava um desfile
eu o perdi
enquanto olhava luta livre
ou enquanto esperava no sinal vermelho
ao meio-dia em certo dia poluído
eu o perdi enquanto inseria uma moeda
num parquímetro
eu o perdi
enquanto os cães selvagens dormiam.
enquanto eu abria a porta
para o quarto
cama
travesseiros
paredes
eu o perdi
eu o perdi em algum lugar
enquanto caminhava pela rua
ou enquanto levantava pesos
ou enquanto olhava um desfile
eu o perdi
enquanto olhava luta livre
ou enquanto esperava no sinal vermelho
ao meio-dia em certo dia poluído
eu o perdi enquanto inseria uma moeda
num parquímetro
eu o perdi
enquanto os cães selvagens dormiam.
1 288
Charles Bukowski
Se Foi
foi embora como as damas de antigamente
enquanto eu abria a porta
para o quarto
cama
travesseiros
paredes
eu o perdi
eu o perdi em algum lugar
enquanto caminhava pela rua
ou enquanto levantava pesos
ou enquanto olhava um desfile
eu o perdi
enquanto olhava luta livre
ou enquanto esperava no sinal vermelho
ao meio-dia em certo dia poluído
eu o perdi enquanto inseria uma moeda
num parquímetro
eu o perdi
enquanto os cães selvagens dormiam.
enquanto eu abria a porta
para o quarto
cama
travesseiros
paredes
eu o perdi
eu o perdi em algum lugar
enquanto caminhava pela rua
ou enquanto levantava pesos
ou enquanto olhava um desfile
eu o perdi
enquanto olhava luta livre
ou enquanto esperava no sinal vermelho
ao meio-dia em certo dia poluído
eu o perdi enquanto inseria uma moeda
num parquímetro
eu o perdi
enquanto os cães selvagens dormiam.
1 288
Charles Bukowski
Nossa Risada É Silenciada Pelo Sofrimento Deles
enquanto a criança atravessa a rua enquanto mergulhadores de águas profundas
mergulham enquanto os pintores pintam –
o bom combate contra chances terríveis é a vin-
dicação e a glória enquanto a andorinha ascende rumo
à lua –
está tão escuro agora com a tristeza das
pessoas
elas foram enganadas, elas foram levadas a esperar o
máximo quando nada é
prometido
agora mocinhas choram sozinhas em pequenas salas
velhos brandem raivosamente suas bengalas contra
visões enquanto
damas penteiam seus cabelos enquanto
formigas buscam a sobrevivência
a história nos cerca
e as nossas vidas
afundam furtivamente
na
vergonha.
mergulham enquanto os pintores pintam –
o bom combate contra chances terríveis é a vin-
dicação e a glória enquanto a andorinha ascende rumo
à lua –
está tão escuro agora com a tristeza das
pessoas
elas foram enganadas, elas foram levadas a esperar o
máximo quando nada é
prometido
agora mocinhas choram sozinhas em pequenas salas
velhos brandem raivosamente suas bengalas contra
visões enquanto
damas penteiam seus cabelos enquanto
formigas buscam a sobrevivência
a história nos cerca
e as nossas vidas
afundam furtivamente
na
vergonha.
691
Charles Bukowski
Pessoas Nervosas
você entra para comprar uma mercadoria – leva ao funcionário da registradora – ele
não sabe o preço – pede licença – retorna depois de um longo
tempo – fica encarando a caixa registradora eletrônica – registra o valor na
máquina com certa dificuldade: $47.583,64 – você não tem esse valor
consigo – ele ri – chama ajuda – outro funcionário
aparece – depois de outro longo tempo ele chega a uma nova soma:
$1,27. eu pago – então preciso pedir uma sacola – agradeço ao
funcionário – caminho até o estacionamento com a dama com quem estou – “você
deixa as pessoas nervosas”, ela me diz –
rodamos para casa com a mercadoria – colocamos a mercadoria para executar sua tarefa – ela
não funciona – a mercadoria tem um defeito
de fábrica –
“vou devolver”, ela diz –
eu entro no banheiro e mijo em linha reta no centro do
vaso – a guerra é só um dos problemas que acossam todo mundo
durante a vida de um dia decente.
não sabe o preço – pede licença – retorna depois de um longo
tempo – fica encarando a caixa registradora eletrônica – registra o valor na
máquina com certa dificuldade: $47.583,64 – você não tem esse valor
consigo – ele ri – chama ajuda – outro funcionário
aparece – depois de outro longo tempo ele chega a uma nova soma:
$1,27. eu pago – então preciso pedir uma sacola – agradeço ao
funcionário – caminho até o estacionamento com a dama com quem estou – “você
deixa as pessoas nervosas”, ela me diz –
rodamos para casa com a mercadoria – colocamos a mercadoria para executar sua tarefa – ela
não funciona – a mercadoria tem um defeito
de fábrica –
“vou devolver”, ela diz –
eu entro no banheiro e mijo em linha reta no centro do
vaso – a guerra é só um dos problemas que acossam todo mundo
durante a vida de um dia decente.
1 056
Charles Bukowski
A Dama do Castelo
ela morava numa casa
que parecia um
castelo
e quando você entrava
os tetos eram tão absolutamente
altos
e eu era pobre
e aquilo tudo
me fascinava
bastante.
ela
já não era
jovem
mas tinha
volumosos
cabelos
que praticamente
desciam até os
tornozelos
e
eu pensava em
como seria
estranho
transar
em meio a todo aquele
cabelo.
fui até lá
diversas vezes
no meu velho
carro
e ela tinha refinadas
bebidas para
servir
e ficávamos sentados
mas eu nunca
conseguia chegar efetivamente
perto dela
e embora eu não
forçasse
nada
algo na ideia de
não
nos conectarmos
de fato machucava o meu
ego
pois por mais feio que eu fosse
eu sempre havia
tido sorte com as
mulheres.
isso me confundia
e creio que
eu precisava
daquilo.
ela gostava de
falar sobre
as artes e
sobre
criação cinematográfica
e ouvir
tudo aquilo
só me fazia
beber
mais.
por fim
eu
simplesmente
desisti
dela
e um bom ano
ou algo assim
havia passado
quando
certa noite
o telefone
tocou: era a
dama.
“eu quero ir aí ver
você”, ela disse.
“estou escrevendo agora, pegando
fogo... não posso receber
ninguém...”
“eu só quero fazer uma
visita, não vou incomodar você,
vou só ficar no sofá,
vou dormir no sofá,
não vou incomodar você...”
“NÃO! MEU DEUS DO CÉU,
NÃO POSSO RECEBER NINGUÉM!”
eu desliguei.
a dama que estava efetivamente
no sofá
disse “ah, você está todo
MOLE agora!”
“é.”
“vem aqui...”
ela envolveu meu pênis
com a mão
botou a língua
para fora
e aí
parou.
“o que você está escrevendo?”
“nada... estou com bloqueio de
escritor...”
“só podia... seus canos estão
entupidos... você precisa de uma
esvaziada...”
então ela botou meu pau na
boca
e aí o telefone tocou
de novo...
furioso
eu corri até o
telefone
e
atendi.
era a dama do
castelo:
“escuta, não vou incomodar você,
você nem vai notar a minha
presença...”
“SUA PUTA, EU TÔ GANHANDO UM
BOQUETE!”
eu desliguei e
voltei.
a outra dama estava indo
em direção à
porta.
“qual é o problema?”, eu
perguntei.
“eu DETESTO essa
palavra!”
“que palavra?”
“BOQUETE!”, ela
gritou.
ela bateu a porta e
foi embora...
eu fui até onde estava
a máquina de escrever
coloquei uma folha nova
no rolo.
era uma
da manhã.
fiquei ali sentado e
bebi scotch e
cerveja pra tirar o gosto
fumei charutos
baratos.
3:15 da manhã
ainda estava sentado
ali
reacendendo velhos
tocos de charuto e
bebendo ale.
a folha
nova continuava
em branco.
eu desliguei as
luzes
me arrastei na direção
do quarto
tratei de me atirar na
cama
roupas ainda
no corpo
dava para ouvir a água da privada
correndo
mas eu não conseguia me levantar
para fechar a alavanca
e dar fim àquele
som
meus malditos canos estavam
entupidos.
que parecia um
castelo
e quando você entrava
os tetos eram tão absolutamente
altos
e eu era pobre
e aquilo tudo
me fascinava
bastante.
ela
já não era
jovem
mas tinha
volumosos
cabelos
que praticamente
desciam até os
tornozelos
e
eu pensava em
como seria
estranho
transar
em meio a todo aquele
cabelo.
fui até lá
diversas vezes
no meu velho
carro
e ela tinha refinadas
bebidas para
servir
e ficávamos sentados
mas eu nunca
conseguia chegar efetivamente
perto dela
e embora eu não
forçasse
nada
algo na ideia de
não
nos conectarmos
de fato machucava o meu
ego
pois por mais feio que eu fosse
eu sempre havia
tido sorte com as
mulheres.
isso me confundia
e creio que
eu precisava
daquilo.
ela gostava de
falar sobre
as artes e
sobre
criação cinematográfica
e ouvir
tudo aquilo
só me fazia
beber
mais.
por fim
eu
simplesmente
desisti
dela
e um bom ano
ou algo assim
havia passado
quando
certa noite
o telefone
tocou: era a
dama.
“eu quero ir aí ver
você”, ela disse.
“estou escrevendo agora, pegando
fogo... não posso receber
ninguém...”
“eu só quero fazer uma
visita, não vou incomodar você,
vou só ficar no sofá,
vou dormir no sofá,
não vou incomodar você...”
“NÃO! MEU DEUS DO CÉU,
NÃO POSSO RECEBER NINGUÉM!”
eu desliguei.
a dama que estava efetivamente
no sofá
disse “ah, você está todo
MOLE agora!”
“é.”
“vem aqui...”
ela envolveu meu pênis
com a mão
botou a língua
para fora
e aí
parou.
“o que você está escrevendo?”
“nada... estou com bloqueio de
escritor...”
“só podia... seus canos estão
entupidos... você precisa de uma
esvaziada...”
então ela botou meu pau na
boca
e aí o telefone tocou
de novo...
furioso
eu corri até o
telefone
e
atendi.
era a dama do
castelo:
“escuta, não vou incomodar você,
você nem vai notar a minha
presença...”
“SUA PUTA, EU TÔ GANHANDO UM
BOQUETE!”
eu desliguei e
voltei.
a outra dama estava indo
em direção à
porta.
“qual é o problema?”, eu
perguntei.
“eu DETESTO essa
palavra!”
“que palavra?”
“BOQUETE!”, ela
gritou.
ela bateu a porta e
foi embora...
eu fui até onde estava
a máquina de escrever
coloquei uma folha nova
no rolo.
era uma
da manhã.
fiquei ali sentado e
bebi scotch e
cerveja pra tirar o gosto
fumei charutos
baratos.
3:15 da manhã
ainda estava sentado
ali
reacendendo velhos
tocos de charuto e
bebendo ale.
a folha
nova continuava
em branco.
eu desliguei as
luzes
me arrastei na direção
do quarto
tratei de me atirar na
cama
roupas ainda
no corpo
dava para ouvir a água da privada
correndo
mas eu não conseguia me levantar
para fechar a alavanca
e dar fim àquele
som
meus malditos canos estavam
entupidos.
1 335
Charles Bukowski
A Dama do Castelo
ela morava numa casa
que parecia um
castelo
e quando você entrava
os tetos eram tão absolutamente
altos
e eu era pobre
e aquilo tudo
me fascinava
bastante.
ela
já não era
jovem
mas tinha
volumosos
cabelos
que praticamente
desciam até os
tornozelos
e
eu pensava em
como seria
estranho
transar
em meio a todo aquele
cabelo.
fui até lá
diversas vezes
no meu velho
carro
e ela tinha refinadas
bebidas para
servir
e ficávamos sentados
mas eu nunca
conseguia chegar efetivamente
perto dela
e embora eu não
forçasse
nada
algo na ideia de
não
nos conectarmos
de fato machucava o meu
ego
pois por mais feio que eu fosse
eu sempre havia
tido sorte com as
mulheres.
isso me confundia
e creio que
eu precisava
daquilo.
ela gostava de
falar sobre
as artes e
sobre
criação cinematográfica
e ouvir
tudo aquilo
só me fazia
beber
mais.
por fim
eu
simplesmente
desisti
dela
e um bom ano
ou algo assim
havia passado
quando
certa noite
o telefone
tocou: era a
dama.
“eu quero ir aí ver
você”, ela disse.
“estou escrevendo agora, pegando
fogo... não posso receber
ninguém...”
“eu só quero fazer uma
visita, não vou incomodar você,
vou só ficar no sofá,
vou dormir no sofá,
não vou incomodar você...”
“NÃO! MEU DEUS DO CÉU,
NÃO POSSO RECEBER NINGUÉM!”
eu desliguei.
a dama que estava efetivamente
no sofá
disse “ah, você está todo
MOLE agora!”
“é.”
“vem aqui...”
ela envolveu meu pênis
com a mão
botou a língua
para fora
e aí
parou.
“o que você está escrevendo?”
“nada... estou com bloqueio de
escritor...”
“só podia... seus canos estão
entupidos... você precisa de uma
esvaziada...”
então ela botou meu pau na
boca
e aí o telefone tocou
de novo...
furioso
eu corri até o
telefone
e
atendi.
era a dama do
castelo:
“escuta, não vou incomodar você,
você nem vai notar a minha
presença...”
“SUA PUTA, EU TÔ GANHANDO UM
BOQUETE!”
eu desliguei e
voltei.
a outra dama estava indo
em direção à
porta.
“qual é o problema?”, eu
perguntei.
“eu DETESTO essa
palavra!”
“que palavra?”
“BOQUETE!”, ela
gritou.
ela bateu a porta e
foi embora...
eu fui até onde estava
a máquina de escrever
coloquei uma folha nova
no rolo.
era uma
da manhã.
fiquei ali sentado e
bebi scotch e
cerveja pra tirar o gosto
fumei charutos
baratos.
3:15 da manhã
ainda estava sentado
ali
reacendendo velhos
tocos de charuto e
bebendo ale.
a folha
nova continuava
em branco.
eu desliguei as
luzes
me arrastei na direção
do quarto
tratei de me atirar na
cama
roupas ainda
no corpo
dava para ouvir a água da privada
correndo
mas eu não conseguia me levantar
para fechar a alavanca
e dar fim àquele
som
meus malditos canos estavam
entupidos.
que parecia um
castelo
e quando você entrava
os tetos eram tão absolutamente
altos
e eu era pobre
e aquilo tudo
me fascinava
bastante.
ela
já não era
jovem
mas tinha
volumosos
cabelos
que praticamente
desciam até os
tornozelos
e
eu pensava em
como seria
estranho
transar
em meio a todo aquele
cabelo.
fui até lá
diversas vezes
no meu velho
carro
e ela tinha refinadas
bebidas para
servir
e ficávamos sentados
mas eu nunca
conseguia chegar efetivamente
perto dela
e embora eu não
forçasse
nada
algo na ideia de
não
nos conectarmos
de fato machucava o meu
ego
pois por mais feio que eu fosse
eu sempre havia
tido sorte com as
mulheres.
isso me confundia
e creio que
eu precisava
daquilo.
ela gostava de
falar sobre
as artes e
sobre
criação cinematográfica
e ouvir
tudo aquilo
só me fazia
beber
mais.
por fim
eu
simplesmente
desisti
dela
e um bom ano
ou algo assim
havia passado
quando
certa noite
o telefone
tocou: era a
dama.
“eu quero ir aí ver
você”, ela disse.
“estou escrevendo agora, pegando
fogo... não posso receber
ninguém...”
“eu só quero fazer uma
visita, não vou incomodar você,
vou só ficar no sofá,
vou dormir no sofá,
não vou incomodar você...”
“NÃO! MEU DEUS DO CÉU,
NÃO POSSO RECEBER NINGUÉM!”
eu desliguei.
a dama que estava efetivamente
no sofá
disse “ah, você está todo
MOLE agora!”
“é.”
“vem aqui...”
ela envolveu meu pênis
com a mão
botou a língua
para fora
e aí
parou.
“o que você está escrevendo?”
“nada... estou com bloqueio de
escritor...”
“só podia... seus canos estão
entupidos... você precisa de uma
esvaziada...”
então ela botou meu pau na
boca
e aí o telefone tocou
de novo...
furioso
eu corri até o
telefone
e
atendi.
era a dama do
castelo:
“escuta, não vou incomodar você,
você nem vai notar a minha
presença...”
“SUA PUTA, EU TÔ GANHANDO UM
BOQUETE!”
eu desliguei e
voltei.
a outra dama estava indo
em direção à
porta.
“qual é o problema?”, eu
perguntei.
“eu DETESTO essa
palavra!”
“que palavra?”
“BOQUETE!”, ela
gritou.
ela bateu a porta e
foi embora...
eu fui até onde estava
a máquina de escrever
coloquei uma folha nova
no rolo.
era uma
da manhã.
fiquei ali sentado e
bebi scotch e
cerveja pra tirar o gosto
fumei charutos
baratos.
3:15 da manhã
ainda estava sentado
ali
reacendendo velhos
tocos de charuto e
bebendo ale.
a folha
nova continuava
em branco.
eu desliguei as
luzes
me arrastei na direção
do quarto
tratei de me atirar na
cama
roupas ainda
no corpo
dava para ouvir a água da privada
correndo
mas eu não conseguia me levantar
para fechar a alavanca
e dar fim àquele
som
meus malditos canos estavam
entupidos.
1 335
Charles Bukowski
O Falecimento de Um Grande Homem
ele era o único escritor vivo que conheci e verdadeiramente
admirava e ele estava morrendo quando o
conheci.
(neste esporte somos retraídos nos louvores até mesmo para com
quem o pratica muito bem, mas nunca tive esse
problema com J.F.)
eu o visitei diversas vezes no
hospital (nunca havia ninguém por
perto) e ao entrar no quarto
eu nunca tinha certeza se ele estava adormecido
ou?
“John?”
ele estava estirado ali na cama, cego
e amputado:
diabetes
avançada.
“John, é o
Hank...”
ele respondia e aí nós conversávamos por
um breve tempo (quase sempre ele falava e eu
ouvia: afinal, ele era o nosso mentor, nosso
deus):
Pergunte ao pó
Espere a primavera, Bandini
Dago Red
todos os outros.
ir parar em Hollywood escrevendo
roteiros de cinema
foi isso que o
matou.
“a pior coisa”, ele me disse,
“é a amargura, as pessoas acabam tão
amargas.”
ele não estava amargo, embora tivesse
total direito de
estar...
no enterro eu
encontrei vários de seus coleguinhas
roteiristas.
“que tal a gente escrever algo sobre
o John”, um deles
sugeriu.
“acho que não consigo”, eu
disse a eles.
e, claro, eles nunca
escreveram.
admirava e ele estava morrendo quando o
conheci.
(neste esporte somos retraídos nos louvores até mesmo para com
quem o pratica muito bem, mas nunca tive esse
problema com J.F.)
eu o visitei diversas vezes no
hospital (nunca havia ninguém por
perto) e ao entrar no quarto
eu nunca tinha certeza se ele estava adormecido
ou?
“John?”
ele estava estirado ali na cama, cego
e amputado:
diabetes
avançada.
“John, é o
Hank...”
ele respondia e aí nós conversávamos por
um breve tempo (quase sempre ele falava e eu
ouvia: afinal, ele era o nosso mentor, nosso
deus):
Pergunte ao pó
Espere a primavera, Bandini
Dago Red
todos os outros.
ir parar em Hollywood escrevendo
roteiros de cinema
foi isso que o
matou.
“a pior coisa”, ele me disse,
“é a amargura, as pessoas acabam tão
amargas.”
ele não estava amargo, embora tivesse
total direito de
estar...
no enterro eu
encontrei vários de seus coleguinhas
roteiristas.
“que tal a gente escrever algo sobre
o John”, um deles
sugeriu.
“acho que não consigo”, eu
disse a eles.
e, claro, eles nunca
escreveram.
1 055
Charles Bukowski
Implacável Como a Tarântula
não vão deixar você
ocupar uma mesa de frente
num café qualquer na Europa
sob o sol do meio da tarde.
se você fizer isso, alguém vai
passar de carro e
pulverizar as suas tripas com uma
submetralhadora.
não vão deixar você
se sentir bem
por muito tempo
em lugar algum.
as forças não vão
deixar você ficar à toa
coçando o saco e
relaxando.
você precisa agir
como eles mandam.
os infelizes, os amargos e os
vingativos
precisam manter o
vício – que é
ver você ou alguém
qualquer um
em sofrimento, ou
melhor ainda
morto, jogado em algum
buraco.
enquanto existirem
seres humanos por aí
nunca existirá
nenhuma paz
para nenhum indivíduo
nesta terra (ou
em qualquer outro lugar
para onde eventualmente
alguém possa escapar).
tudo que você pode fazer
é talvez obter
dez minutos de sorte
aqui
ou talvez uma hora
ali.
algo
está trabalhando contra você
neste exato momento, e
me refiro a você
e ninguém senão
você.
ocupar uma mesa de frente
num café qualquer na Europa
sob o sol do meio da tarde.
se você fizer isso, alguém vai
passar de carro e
pulverizar as suas tripas com uma
submetralhadora.
não vão deixar você
se sentir bem
por muito tempo
em lugar algum.
as forças não vão
deixar você ficar à toa
coçando o saco e
relaxando.
você precisa agir
como eles mandam.
os infelizes, os amargos e os
vingativos
precisam manter o
vício – que é
ver você ou alguém
qualquer um
em sofrimento, ou
melhor ainda
morto, jogado em algum
buraco.
enquanto existirem
seres humanos por aí
nunca existirá
nenhuma paz
para nenhum indivíduo
nesta terra (ou
em qualquer outro lugar
para onde eventualmente
alguém possa escapar).
tudo que você pode fazer
é talvez obter
dez minutos de sorte
aqui
ou talvez uma hora
ali.
algo
está trabalhando contra você
neste exato momento, e
me refiro a você
e ninguém senão
você.
1 573
Charles Bukowski
Implacável Como a Tarântula
não vão deixar você
ocupar uma mesa de frente
num café qualquer na Europa
sob o sol do meio da tarde.
se você fizer isso, alguém vai
passar de carro e
pulverizar as suas tripas com uma
submetralhadora.
não vão deixar você
se sentir bem
por muito tempo
em lugar algum.
as forças não vão
deixar você ficar à toa
coçando o saco e
relaxando.
você precisa agir
como eles mandam.
os infelizes, os amargos e os
vingativos
precisam manter o
vício – que é
ver você ou alguém
qualquer um
em sofrimento, ou
melhor ainda
morto, jogado em algum
buraco.
enquanto existirem
seres humanos por aí
nunca existirá
nenhuma paz
para nenhum indivíduo
nesta terra (ou
em qualquer outro lugar
para onde eventualmente
alguém possa escapar).
tudo que você pode fazer
é talvez obter
dez minutos de sorte
aqui
ou talvez uma hora
ali.
algo
está trabalhando contra você
neste exato momento, e
me refiro a você
e ninguém senão
você.
ocupar uma mesa de frente
num café qualquer na Europa
sob o sol do meio da tarde.
se você fizer isso, alguém vai
passar de carro e
pulverizar as suas tripas com uma
submetralhadora.
não vão deixar você
se sentir bem
por muito tempo
em lugar algum.
as forças não vão
deixar você ficar à toa
coçando o saco e
relaxando.
você precisa agir
como eles mandam.
os infelizes, os amargos e os
vingativos
precisam manter o
vício – que é
ver você ou alguém
qualquer um
em sofrimento, ou
melhor ainda
morto, jogado em algum
buraco.
enquanto existirem
seres humanos por aí
nunca existirá
nenhuma paz
para nenhum indivíduo
nesta terra (ou
em qualquer outro lugar
para onde eventualmente
alguém possa escapar).
tudo que você pode fazer
é talvez obter
dez minutos de sorte
aqui
ou talvez uma hora
ali.
algo
está trabalhando contra você
neste exato momento, e
me refiro a você
e ninguém senão
você.
1 573
Charles Bukowski
Implacável Como a Tarântula
não vão deixar você
ocupar uma mesa de frente
num café qualquer na Europa
sob o sol do meio da tarde.
se você fizer isso, alguém vai
passar de carro e
pulverizar as suas tripas com uma
submetralhadora.
não vão deixar você
se sentir bem
por muito tempo
em lugar algum.
as forças não vão
deixar você ficar à toa
coçando o saco e
relaxando.
você precisa agir
como eles mandam.
os infelizes, os amargos e os
vingativos
precisam manter o
vício – que é
ver você ou alguém
qualquer um
em sofrimento, ou
melhor ainda
morto, jogado em algum
buraco.
enquanto existirem
seres humanos por aí
nunca existirá
nenhuma paz
para nenhum indivíduo
nesta terra (ou
em qualquer outro lugar
para onde eventualmente
alguém possa escapar).
tudo que você pode fazer
é talvez obter
dez minutos de sorte
aqui
ou talvez uma hora
ali.
algo
está trabalhando contra você
neste exato momento, e
me refiro a você
e ninguém senão
você.
ocupar uma mesa de frente
num café qualquer na Europa
sob o sol do meio da tarde.
se você fizer isso, alguém vai
passar de carro e
pulverizar as suas tripas com uma
submetralhadora.
não vão deixar você
se sentir bem
por muito tempo
em lugar algum.
as forças não vão
deixar você ficar à toa
coçando o saco e
relaxando.
você precisa agir
como eles mandam.
os infelizes, os amargos e os
vingativos
precisam manter o
vício – que é
ver você ou alguém
qualquer um
em sofrimento, ou
melhor ainda
morto, jogado em algum
buraco.
enquanto existirem
seres humanos por aí
nunca existirá
nenhuma paz
para nenhum indivíduo
nesta terra (ou
em qualquer outro lugar
para onde eventualmente
alguém possa escapar).
tudo que você pode fazer
é talvez obter
dez minutos de sorte
aqui
ou talvez uma hora
ali.
algo
está trabalhando contra você
neste exato momento, e
me refiro a você
e ninguém senão
você.
1 573
Charles Bukowski
Implacável Como a Tarântula
não vão deixar você
ocupar uma mesa de frente
num café qualquer na Europa
sob o sol do meio da tarde.
se você fizer isso, alguém vai
passar de carro e
pulverizar as suas tripas com uma
submetralhadora.
não vão deixar você
se sentir bem
por muito tempo
em lugar algum.
as forças não vão
deixar você ficar à toa
coçando o saco e
relaxando.
você precisa agir
como eles mandam.
os infelizes, os amargos e os
vingativos
precisam manter o
vício – que é
ver você ou alguém
qualquer um
em sofrimento, ou
melhor ainda
morto, jogado em algum
buraco.
enquanto existirem
seres humanos por aí
nunca existirá
nenhuma paz
para nenhum indivíduo
nesta terra (ou
em qualquer outro lugar
para onde eventualmente
alguém possa escapar).
tudo que você pode fazer
é talvez obter
dez minutos de sorte
aqui
ou talvez uma hora
ali.
algo
está trabalhando contra você
neste exato momento, e
me refiro a você
e ninguém senão
você.
ocupar uma mesa de frente
num café qualquer na Europa
sob o sol do meio da tarde.
se você fizer isso, alguém vai
passar de carro e
pulverizar as suas tripas com uma
submetralhadora.
não vão deixar você
se sentir bem
por muito tempo
em lugar algum.
as forças não vão
deixar você ficar à toa
coçando o saco e
relaxando.
você precisa agir
como eles mandam.
os infelizes, os amargos e os
vingativos
precisam manter o
vício – que é
ver você ou alguém
qualquer um
em sofrimento, ou
melhor ainda
morto, jogado em algum
buraco.
enquanto existirem
seres humanos por aí
nunca existirá
nenhuma paz
para nenhum indivíduo
nesta terra (ou
em qualquer outro lugar
para onde eventualmente
alguém possa escapar).
tudo que você pode fazer
é talvez obter
dez minutos de sorte
aqui
ou talvez uma hora
ali.
algo
está trabalhando contra você
neste exato momento, e
me refiro a você
e ninguém senão
você.
1 573
Charles Bukowski
Jon Edgar Webb
eu tive uma fase de poema lírico lá em New Orleans, martelando
uns versos gordos e roliços e
bebendo baldes de cerveja.
a sensação era de gritar num manicômio, o manicômio do
meu mundo
com os ratos dispersos em meio às
garrafas vazias.
às vezes eu entrava nos bares
mas não conseguia dar jeito com as pessoas que se sentavam nos
banquinhos:
os homens me evitavam e as mulheres ficavam aterrorizadas
comigo.
os bartenders pediam que eu
fosse embora.
eu ia, carregando com dificuldade os magníficos fardos de cerveja
no retorno ao quarto e aos ratos e àqueles gordos e roliços
versos.
aquela fase de poema lírico foi uma época de
doideira pura
e havia um editor logo ali na
esquina que
mandava toda e qualquer página para o prelo, nada
rejeitando
muito embora eu fosse desconhecido
ele me publicou em voraz papel
fabricado para durar
2.000 anos.
esse editor que era também o dono e
o impressor
mantinha o rosto sisudo enquanto eu lhe dava as dez ou
vinte páginas
toda manhã:
“isso é tudo?”
o louco daquele filho da puta, ele mesmo era um
poema
lírico.
uns versos gordos e roliços e
bebendo baldes de cerveja.
a sensação era de gritar num manicômio, o manicômio do
meu mundo
com os ratos dispersos em meio às
garrafas vazias.
às vezes eu entrava nos bares
mas não conseguia dar jeito com as pessoas que se sentavam nos
banquinhos:
os homens me evitavam e as mulheres ficavam aterrorizadas
comigo.
os bartenders pediam que eu
fosse embora.
eu ia, carregando com dificuldade os magníficos fardos de cerveja
no retorno ao quarto e aos ratos e àqueles gordos e roliços
versos.
aquela fase de poema lírico foi uma época de
doideira pura
e havia um editor logo ali na
esquina que
mandava toda e qualquer página para o prelo, nada
rejeitando
muito embora eu fosse desconhecido
ele me publicou em voraz papel
fabricado para durar
2.000 anos.
esse editor que era também o dono e
o impressor
mantinha o rosto sisudo enquanto eu lhe dava as dez ou
vinte páginas
toda manhã:
“isso é tudo?”
o louco daquele filho da puta, ele mesmo era um
poema
lírico.
1 164
Charles Bukowski
Zero
sentado aqui olhando o ponteiro de segundos do TIMEX dar voltas e mais
voltas...
dificilmente será uma noite memorável
sentado aqui procurando cravos na minha nuca
enquanto outros homens se lançam aos lençóis com bonecas chamejantes
eu olho para dentro de mim e encontro um perfeito vazio.
estou sem cigarros e não tenho sequer uma arma para apontar.
este bloqueio de escritor é minha única posse.
o ponteiro de segundos do TIMEX ainda dá voltas e mais
voltas...
eu sempre quis ser escritor
agora sou um que não consegue ser.
poderia muito bem descer a escada e olhar um programa de fim de noite na tv com a esposa
ela vai me perguntar como foi
vou acenar a mão com indiferença
me acomodar ao lado dela
e ver as pessoas de vidro falhando
como eu falhei.
vou descer os degraus agora
que visão:
um homem vazio cuidando para não tropeçar e rachar sua cabeça
vazia.
voltas...
dificilmente será uma noite memorável
sentado aqui procurando cravos na minha nuca
enquanto outros homens se lançam aos lençóis com bonecas chamejantes
eu olho para dentro de mim e encontro um perfeito vazio.
estou sem cigarros e não tenho sequer uma arma para apontar.
este bloqueio de escritor é minha única posse.
o ponteiro de segundos do TIMEX ainda dá voltas e mais
voltas...
eu sempre quis ser escritor
agora sou um que não consegue ser.
poderia muito bem descer a escada e olhar um programa de fim de noite na tv com a esposa
ela vai me perguntar como foi
vou acenar a mão com indiferença
me acomodar ao lado dela
e ver as pessoas de vidro falhando
como eu falhei.
vou descer os degraus agora
que visão:
um homem vazio cuidando para não tropeçar e rachar sua cabeça
vazia.
1 234
Charles Bukowski
Zero
sentado aqui olhando o ponteiro de segundos do TIMEX dar voltas e mais
voltas...
dificilmente será uma noite memorável
sentado aqui procurando cravos na minha nuca
enquanto outros homens se lançam aos lençóis com bonecas chamejantes
eu olho para dentro de mim e encontro um perfeito vazio.
estou sem cigarros e não tenho sequer uma arma para apontar.
este bloqueio de escritor é minha única posse.
o ponteiro de segundos do TIMEX ainda dá voltas e mais
voltas...
eu sempre quis ser escritor
agora sou um que não consegue ser.
poderia muito bem descer a escada e olhar um programa de fim de noite na tv com a esposa
ela vai me perguntar como foi
vou acenar a mão com indiferença
me acomodar ao lado dela
e ver as pessoas de vidro falhando
como eu falhei.
vou descer os degraus agora
que visão:
um homem vazio cuidando para não tropeçar e rachar sua cabeça
vazia.
voltas...
dificilmente será uma noite memorável
sentado aqui procurando cravos na minha nuca
enquanto outros homens se lançam aos lençóis com bonecas chamejantes
eu olho para dentro de mim e encontro um perfeito vazio.
estou sem cigarros e não tenho sequer uma arma para apontar.
este bloqueio de escritor é minha única posse.
o ponteiro de segundos do TIMEX ainda dá voltas e mais
voltas...
eu sempre quis ser escritor
agora sou um que não consegue ser.
poderia muito bem descer a escada e olhar um programa de fim de noite na tv com a esposa
ela vai me perguntar como foi
vou acenar a mão com indiferença
me acomodar ao lado dela
e ver as pessoas de vidro falhando
como eu falhei.
vou descer os degraus agora
que visão:
um homem vazio cuidando para não tropeçar e rachar sua cabeça
vazia.
1 234
Charles Bukowski
Achei o Gosto do Troço Pior do Que de Costume
eu costumava beber com Jane
toda noite
até duas ou
três
da manhã
e eu precisava
me apresentar no
trabalho
às 5:30
da manhã
certa manhã
eu estava sentado
encaixotando correspondência
perto de um
sujeito
saudável e
religioso
e ele disse
“ei, tô sentindo
um cheiro, você
não?”
eu respondi
negativamente.
“na verdade”, ele disse,
“o cheiro é meio parecido
com
gasolina.”
“bem”, eu disse a
ele, “não acenda um
fósforo porque
eu posso
explodir.”
toda noite
até duas ou
três
da manhã
e eu precisava
me apresentar no
trabalho
às 5:30
da manhã
certa manhã
eu estava sentado
encaixotando correspondência
perto de um
sujeito
saudável e
religioso
e ele disse
“ei, tô sentindo
um cheiro, você
não?”
eu respondi
negativamente.
“na verdade”, ele disse,
“o cheiro é meio parecido
com
gasolina.”
“bem”, eu disse a
ele, “não acenda um
fósforo porque
eu posso
explodir.”
1 196
Charles Bukowski
Algumas Sugestões
além da inveja e do rancor de alguns dos
meus pares
tem a outra coisa, vem por telefone e
carta: “você é o maior escritor vivo
do mundo”.
isso tampouco me agrada porque de certo modo
acredito que para ser o maior escritor vivo
do mundo
deve haver algo de
terrivelmente errado com você.
não quero ser sequer o maior escritor
morto do mundo.
só estar morto já seria bastante
justo.
e também a palavra “escritor” é uma palavra muito
enfadonha.
imagine só como seria bem mais agradável
escutar:
você é o maior jogador de sinuca
do mundo
ou
você é o maior comedor
do mundo
ou
você é o maior apostador de hipódromo
do mundo.
isso
sim
faria um homem
se sentir realmente
bem.
meus pares
tem a outra coisa, vem por telefone e
carta: “você é o maior escritor vivo
do mundo”.
isso tampouco me agrada porque de certo modo
acredito que para ser o maior escritor vivo
do mundo
deve haver algo de
terrivelmente errado com você.
não quero ser sequer o maior escritor
morto do mundo.
só estar morto já seria bastante
justo.
e também a palavra “escritor” é uma palavra muito
enfadonha.
imagine só como seria bem mais agradável
escutar:
você é o maior jogador de sinuca
do mundo
ou
você é o maior comedor
do mundo
ou
você é o maior apostador de hipódromo
do mundo.
isso
sim
faria um homem
se sentir realmente
bem.
1 088
Charles Bukowski
Café
eu estava tomando café no
balcão
quando um homem
3 ou 4 banquinhos abaixo
me perguntou
“vem cá, não era você o
cara que estava
pendurado pelos
calcanhares
daquele quarto de hotel
no quarto andar
outra
noite?”
“sim”, eu respondi, “eu
mesmo.”
“o que te levou a fazer
aquilo?”, ele perguntou.
“bem, é bastante
complicado.”
então ele virou a
cara.
a garçonete
que tinha ficado
ali parada
me perguntou
“ele estava brincando,
não
estava?”
“não”, eu
disse.
paguei, levantei, fui
até a porta,
abri.
ouvi o homem
dizendo “esse cara é
maluco”.
na rua eu fui
andando para o norte
me sentindo
curiosamente
homenageado.
balcão
quando um homem
3 ou 4 banquinhos abaixo
me perguntou
“vem cá, não era você o
cara que estava
pendurado pelos
calcanhares
daquele quarto de hotel
no quarto andar
outra
noite?”
“sim”, eu respondi, “eu
mesmo.”
“o que te levou a fazer
aquilo?”, ele perguntou.
“bem, é bastante
complicado.”
então ele virou a
cara.
a garçonete
que tinha ficado
ali parada
me perguntou
“ele estava brincando,
não
estava?”
“não”, eu
disse.
paguei, levantei, fui
até a porta,
abri.
ouvi o homem
dizendo “esse cara é
maluco”.
na rua eu fui
andando para o norte
me sentindo
curiosamente
homenageado.
1 231
Charles Bukowski
Concreto
ele tinha organizado a
leitura
ele era um dos principais praticantes
da poesia concreta
e depois da minha leitura eu
subi até o local onde ele
morava
sua casa ficava no alto das
montanhas e
nós bebemos e contemplamos pela grande
janela os enormes
pássaros
voando
planando na maioria
ele disse que eram águias
(talvez ele estivesse me
logrando)
e sua esposa tocou o
piano
um pouco de
Brahms
ele não falou
muito
ele era um homem
concreto
sua esposa era
belíssima
e o modo como as águias
planavam
isso era belíssimo
também
então chegou o crepúsculo
então chegou a noite
e não dava mais para ver as
águias
tinha sido uma leitura
vespertina
nós bebemos até uma
da manhã
então entrei no meu carro e
d
e
s
c
i
a estrada estreita e
sinuosa
eu estava bêbado demais para temer o
perigo
quando cheguei à minha casa eu
bebi duas garrafas de
cerveja e fui me
deitar.
então o telefone
tocou
era a minha
namorada
ela tinha ficado ligando a noite
toda
ela estava furiosa
ela me acusou de fornicar com
outra
eu falei das belíssimas
águias
de como elas planavam
e que eu estivera com um homem
concreto
conta outra
ela disse
e
desligou
eu me estirei ali
contemplei o teto e
me perguntei o que é que as águias
comiam
então o telefone tocou
de novo
e ela perguntou
por acaso o homem concreto tinha uma
esposa concreta e por acaso você enfiou seu
pau nela?
não
eu respondi
eu trepei com uma
águia
ela desligou
de novo
poesia concreta
eu pensei
que diabos é
isso?
então fui dormir e
dormi e
dormi.
leitura
ele era um dos principais praticantes
da poesia concreta
e depois da minha leitura eu
subi até o local onde ele
morava
sua casa ficava no alto das
montanhas e
nós bebemos e contemplamos pela grande
janela os enormes
pássaros
voando
planando na maioria
ele disse que eram águias
(talvez ele estivesse me
logrando)
e sua esposa tocou o
piano
um pouco de
Brahms
ele não falou
muito
ele era um homem
concreto
sua esposa era
belíssima
e o modo como as águias
planavam
isso era belíssimo
também
então chegou o crepúsculo
então chegou a noite
e não dava mais para ver as
águias
tinha sido uma leitura
vespertina
nós bebemos até uma
da manhã
então entrei no meu carro e
d
e
s
c
i
a estrada estreita e
sinuosa
eu estava bêbado demais para temer o
perigo
quando cheguei à minha casa eu
bebi duas garrafas de
cerveja e fui me
deitar.
então o telefone
tocou
era a minha
namorada
ela tinha ficado ligando a noite
toda
ela estava furiosa
ela me acusou de fornicar com
outra
eu falei das belíssimas
águias
de como elas planavam
e que eu estivera com um homem
concreto
conta outra
ela disse
e
desligou
eu me estirei ali
contemplei o teto e
me perguntei o que é que as águias
comiam
então o telefone tocou
de novo
e ela perguntou
por acaso o homem concreto tinha uma
esposa concreta e por acaso você enfiou seu
pau nela?
não
eu respondi
eu trepei com uma
águia
ela desligou
de novo
poesia concreta
eu pensei
que diabos é
isso?
então fui dormir e
dormi e
dormi.
1 126
Charles Bukowski
Concreto
ele tinha organizado a
leitura
ele era um dos principais praticantes
da poesia concreta
e depois da minha leitura eu
subi até o local onde ele
morava
sua casa ficava no alto das
montanhas e
nós bebemos e contemplamos pela grande
janela os enormes
pássaros
voando
planando na maioria
ele disse que eram águias
(talvez ele estivesse me
logrando)
e sua esposa tocou o
piano
um pouco de
Brahms
ele não falou
muito
ele era um homem
concreto
sua esposa era
belíssima
e o modo como as águias
planavam
isso era belíssimo
também
então chegou o crepúsculo
então chegou a noite
e não dava mais para ver as
águias
tinha sido uma leitura
vespertina
nós bebemos até uma
da manhã
então entrei no meu carro e
d
e
s
c
i
a estrada estreita e
sinuosa
eu estava bêbado demais para temer o
perigo
quando cheguei à minha casa eu
bebi duas garrafas de
cerveja e fui me
deitar.
então o telefone
tocou
era a minha
namorada
ela tinha ficado ligando a noite
toda
ela estava furiosa
ela me acusou de fornicar com
outra
eu falei das belíssimas
águias
de como elas planavam
e que eu estivera com um homem
concreto
conta outra
ela disse
e
desligou
eu me estirei ali
contemplei o teto e
me perguntei o que é que as águias
comiam
então o telefone tocou
de novo
e ela perguntou
por acaso o homem concreto tinha uma
esposa concreta e por acaso você enfiou seu
pau nela?
não
eu respondi
eu trepei com uma
águia
ela desligou
de novo
poesia concreta
eu pensei
que diabos é
isso?
então fui dormir e
dormi e
dormi.
leitura
ele era um dos principais praticantes
da poesia concreta
e depois da minha leitura eu
subi até o local onde ele
morava
sua casa ficava no alto das
montanhas e
nós bebemos e contemplamos pela grande
janela os enormes
pássaros
voando
planando na maioria
ele disse que eram águias
(talvez ele estivesse me
logrando)
e sua esposa tocou o
piano
um pouco de
Brahms
ele não falou
muito
ele era um homem
concreto
sua esposa era
belíssima
e o modo como as águias
planavam
isso era belíssimo
também
então chegou o crepúsculo
então chegou a noite
e não dava mais para ver as
águias
tinha sido uma leitura
vespertina
nós bebemos até uma
da manhã
então entrei no meu carro e
d
e
s
c
i
a estrada estreita e
sinuosa
eu estava bêbado demais para temer o
perigo
quando cheguei à minha casa eu
bebi duas garrafas de
cerveja e fui me
deitar.
então o telefone
tocou
era a minha
namorada
ela tinha ficado ligando a noite
toda
ela estava furiosa
ela me acusou de fornicar com
outra
eu falei das belíssimas
águias
de como elas planavam
e que eu estivera com um homem
concreto
conta outra
ela disse
e
desligou
eu me estirei ali
contemplei o teto e
me perguntei o que é que as águias
comiam
então o telefone tocou
de novo
e ela perguntou
por acaso o homem concreto tinha uma
esposa concreta e por acaso você enfiou seu
pau nela?
não
eu respondi
eu trepei com uma
águia
ela desligou
de novo
poesia concreta
eu pensei
que diabos é
isso?
então fui dormir e
dormi e
dormi.
1 126
Charles Bukowski
Sapatos
quando você é jovem
um par de
sapatos de salto alto
femininos
só ali guardado
sozinho
no armário
pode incendiar seus
ossos;
quando você é velho
é só
um par de sapatos
sem
ninguém
dentro
e
dá no
mesmo.
um par de
sapatos de salto alto
femininos
só ali guardado
sozinho
no armário
pode incendiar seus
ossos;
quando você é velho
é só
um par de sapatos
sem
ninguém
dentro
e
dá no
mesmo.
1 226
Charles Bukowski
A Última Dose
aqui vamos nós, mais uma vez, a última bebida, o último
poema – décadas desta esplêndida sorte – outra madrugada
bêbada, e não no chão da cadeia de bebuns nesta noite esperando que
o cafetão negro saia do telefone de modo que eu possa fazer minha única
ligação permitida (tantas daquelas madrugadas também) eu levei
um longo tempo para encontrar a pessoa mais interessante com
quem beber: eu mesmo, assim, agora pegando à minha esquerda
a última taça do Sangue do
Cordeiro.
poema – décadas desta esplêndida sorte – outra madrugada
bêbada, e não no chão da cadeia de bebuns nesta noite esperando que
o cafetão negro saia do telefone de modo que eu possa fazer minha única
ligação permitida (tantas daquelas madrugadas também) eu levei
um longo tempo para encontrar a pessoa mais interessante com
quem beber: eu mesmo, assim, agora pegando à minha esquerda
a última taça do Sangue do
Cordeiro.
1 270
Charles Bukowski
Supostamente Famoso
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada,
minha esposa, coitada, no andar de baixo,
e eu o dia todo no hipódromo e
aqui a noite toda com a garrafa e
esta máquina.
minha esposa, coitada, que ela possa encontrar seu lugar
no céu.
só que também
as poucas pessoas que eu
conheci, aquelas que me pareceram ter uma
chaminha extra
certa humanidade inventiva, bem, elas
se dissolveram
mas
sendo um solitário por natureza
não esquento muito
a cabeça –
restam meus 5
gatos: Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
sou agora um
escritor supostamente
famoso
influenciando hordas de
datilógrafos.
bem
que eu gostaria de poder
rir
de tudo
isso.
a Fama é a última puta, todas as outras se
foram.
bem, a competição não tem sido
dura
mas não tenho nada com
isso: percebi tudo
muito tempo atrás enquanto
passava fome e
mijava pela
janela
enquanto atirava copos de
trago nas
paredes
de-aluguel-atrasado.
Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
agora a Morte é uma planta crescendo em minha
mente
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
fico triste pelos mortos e fico triste pelos vivos
mas não por meus 5 gatos ou
por minha esposa, minha esposa que vai
encontrar seu lugar no
céu.
e quanto às pessoas
dissolvidas
eu não as dissolvi, elas mesmas se
dissolveram.
e que as calçadas estejam vazias e ao mesmo tempo
cheias de pés
passando –
isso é obra do
caminho.
nada de muito sólido
enquanto
um homem toca piano
no meu rádio e
as paredes
se erguem e
baixam
e a coragem de tudo
até das pulgas
dos piolhos
da tarântula
me assombra
nestes rosnados
da madrugada.
minha esposa, coitada, no andar de baixo,
e eu o dia todo no hipódromo e
aqui a noite toda com a garrafa e
esta máquina.
minha esposa, coitada, que ela possa encontrar seu lugar
no céu.
só que também
as poucas pessoas que eu
conheci, aquelas que me pareceram ter uma
chaminha extra
certa humanidade inventiva, bem, elas
se dissolveram
mas
sendo um solitário por natureza
não esquento muito
a cabeça –
restam meus 5
gatos: Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
sou agora um
escritor supostamente
famoso
influenciando hordas de
datilógrafos.
bem
que eu gostaria de poder
rir
de tudo
isso.
a Fama é a última puta, todas as outras se
foram.
bem, a competição não tem sido
dura
mas não tenho nada com
isso: percebi tudo
muito tempo atrás enquanto
passava fome e
mijava pela
janela
enquanto atirava copos de
trago nas
paredes
de-aluguel-atrasado.
Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
agora a Morte é uma planta crescendo em minha
mente
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
fico triste pelos mortos e fico triste pelos vivos
mas não por meus 5 gatos ou
por minha esposa, minha esposa que vai
encontrar seu lugar no
céu.
e quanto às pessoas
dissolvidas
eu não as dissolvi, elas mesmas se
dissolveram.
e que as calçadas estejam vazias e ao mesmo tempo
cheias de pés
passando –
isso é obra do
caminho.
nada de muito sólido
enquanto
um homem toca piano
no meu rádio e
as paredes
se erguem e
baixam
e a coragem de tudo
até das pulgas
dos piolhos
da tarântula
me assombra
nestes rosnados
da madrugada.
1 132