Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Charles Bukowski
Pavão Ou Campainha
estou rindo com a boca fechada;
enquanto folheio meu jornal
é como uma sinfonia que desandou:
vendo demais para fazer-me duvidar
aí em clarões através da página.
é como um filme barato que endoidou;
minhas roupas repousam nas cadeiras
como os mortos que foram esvaziados,
cascas de coisas embaçando a vista;
está mais frio que no inferno (sim) mas
os cobertores são finos,
e as cortinas fechadas
estão cheias de buracos assim como o amor.
eu acho que você tem que ser um esportista;
sim, para o esportista tudo está certo:
basta você puxar a arma
e estourar a cabeça de alguém
talvez da donzela sentada na
cadeira na qual a vovó sentava,
mas não tendo uma arma
eu vou até o telefone
e ligo para uma mulher tão velha quanto a cadeira e a vovó,
e ela promete vir e me encantar;
ela tem uma escova de dentes mas não tem dentes
e provavelmente eu dançarei nu para ela
com a bola da minha barriga como um saco branco,
cada homem tem suas próprias escapatórias: a minha é duvidosa
mas tem dado certo ultimamente
e a música que ela faz às vezes me assusta,
mas então
eu acordo, compro um jornal,
chuto uma lata,
abro a cortina,
começo de novo.
enquanto folheio meu jornal
é como uma sinfonia que desandou:
vendo demais para fazer-me duvidar
aí em clarões através da página.
é como um filme barato que endoidou;
minhas roupas repousam nas cadeiras
como os mortos que foram esvaziados,
cascas de coisas embaçando a vista;
está mais frio que no inferno (sim) mas
os cobertores são finos,
e as cortinas fechadas
estão cheias de buracos assim como o amor.
eu acho que você tem que ser um esportista;
sim, para o esportista tudo está certo:
basta você puxar a arma
e estourar a cabeça de alguém
talvez da donzela sentada na
cadeira na qual a vovó sentava,
mas não tendo uma arma
eu vou até o telefone
e ligo para uma mulher tão velha quanto a cadeira e a vovó,
e ela promete vir e me encantar;
ela tem uma escova de dentes mas não tem dentes
e provavelmente eu dançarei nu para ela
com a bola da minha barriga como um saco branco,
cada homem tem suas próprias escapatórias: a minha é duvidosa
mas tem dado certo ultimamente
e a música que ela faz às vezes me assusta,
mas então
eu acordo, compro um jornal,
chuto uma lata,
abro a cortina,
começo de novo.
696
Charles Bukowski
Você Anda Bebendo?
desanimado, na praia, o velho caderno amarelo de anotações
mais uma vez aberto
escrevo na cama
como fiz ano
passado.
vamos ao médico,
segunda-feira.
“sim, doutor, pernas fracas, vertigem, dor-de-
cabeça e minhas costas
doem.”
“você anda bebendo?”, ele perguntará.
“tem feito seus
exercícios, tomado suas
vitaminas?”
acho que estou doente simplesmente de
viver, os mesmos elementos sem graça
ainda que
flutuantes.
mesmo nas corridas
vejo os cavalos correrem
e isso me parece
sem sentido.
vou embora mais cedo depois de ter comprado bilhetes para as
corridas restantes.
“já vai?”, pergunta o vendedor das
apostas.
“sim, estou de saco cheio”,
eu lhe digo.
“se você acha que é chato
aí fora”, ele me diz, “tem que ver como é
aqui dentro.”
então cá estou
mais uma vez apoiado em meus
travesseiros
apenas um cara velho
apenas um velho escritor
com uma caderneta
amarela.
alguma coisa
cruza pelo
chão
e vem até
mim.
oh, é apenas
meu gato
desta
vez.
mais uma vez aberto
escrevo na cama
como fiz ano
passado.
vamos ao médico,
segunda-feira.
“sim, doutor, pernas fracas, vertigem, dor-de-
cabeça e minhas costas
doem.”
“você anda bebendo?”, ele perguntará.
“tem feito seus
exercícios, tomado suas
vitaminas?”
acho que estou doente simplesmente de
viver, os mesmos elementos sem graça
ainda que
flutuantes.
mesmo nas corridas
vejo os cavalos correrem
e isso me parece
sem sentido.
vou embora mais cedo depois de ter comprado bilhetes para as
corridas restantes.
“já vai?”, pergunta o vendedor das
apostas.
“sim, estou de saco cheio”,
eu lhe digo.
“se você acha que é chato
aí fora”, ele me diz, “tem que ver como é
aqui dentro.”
então cá estou
mais uma vez apoiado em meus
travesseiros
apenas um cara velho
apenas um velho escritor
com uma caderneta
amarela.
alguma coisa
cruza pelo
chão
e vem até
mim.
oh, é apenas
meu gato
desta
vez.
1 029
Charles Bukowski
Perto Demais Do Matadouro
eu moro perto demais do matadouro.
o que você espera? sangue prateado
como em Chatterton? minhas horas pegajosas
não permitem prática de nenhuma previsão.
ouço os galhos que estalam e quebram
qual corvos que brigam,
e vejo minha mãe em seu caixão
imóvel
quieta e imóvel
enquanto acendo um cigarro
ou bebo um copo d'água
ou faço algo ignominioso.
o que você quer?
que eu me sinta
enganado?
(o verde das ervas
ao sol
é tudo o que temos
é tudo o que realmente temos.)
eu digo deixem os macacos dançarem,
deixem os macacos dançarem
à luz de Deus.
eu moro perto demais
do matadouro
e estou doente
de tanto me esforçar.
o que você espera? sangue prateado
como em Chatterton? minhas horas pegajosas
não permitem prática de nenhuma previsão.
ouço os galhos que estalam e quebram
qual corvos que brigam,
e vejo minha mãe em seu caixão
imóvel
quieta e imóvel
enquanto acendo um cigarro
ou bebo um copo d'água
ou faço algo ignominioso.
o que você quer?
que eu me sinta
enganado?
(o verde das ervas
ao sol
é tudo o que temos
é tudo o que realmente temos.)
eu digo deixem os macacos dançarem,
deixem os macacos dançarem
à luz de Deus.
eu moro perto demais
do matadouro
e estou doente
de tanto me esforçar.
947
Charles Bukowski
Perto Demais Do Matadouro
eu moro perto demais do matadouro.
o que você espera? sangue prateado
como em Chatterton? minhas horas pegajosas
não permitem prática de nenhuma previsão.
ouço os galhos que estalam e quebram
qual corvos que brigam,
e vejo minha mãe em seu caixão
imóvel
quieta e imóvel
enquanto acendo um cigarro
ou bebo um copo d'água
ou faço algo ignominioso.
o que você quer?
que eu me sinta
enganado?
(o verde das ervas
ao sol
é tudo o que temos
é tudo o que realmente temos.)
eu digo deixem os macacos dançarem,
deixem os macacos dançarem
à luz de Deus.
eu moro perto demais
do matadouro
e estou doente
de tanto me esforçar.
o que você espera? sangue prateado
como em Chatterton? minhas horas pegajosas
não permitem prática de nenhuma previsão.
ouço os galhos que estalam e quebram
qual corvos que brigam,
e vejo minha mãe em seu caixão
imóvel
quieta e imóvel
enquanto acendo um cigarro
ou bebo um copo d'água
ou faço algo ignominioso.
o que você quer?
que eu me sinta
enganado?
(o verde das ervas
ao sol
é tudo o que temos
é tudo o que realmente temos.)
eu digo deixem os macacos dançarem,
deixem os macacos dançarem
à luz de Deus.
eu moro perto demais
do matadouro
e estou doente
de tanto me esforçar.
947
Charles Bukowski
Estrangeiro Em Uma Cidade Estranha
eu havia acabado de chegar
a outra cidade estranha
e havia deixado meu quarto e
me encontrava caminhando ao longo
do que devia ter sido
uma avenida principal
na qual os automóveis corriam indo
e vindo com o que parecia ser
um propósito
definido.
aquele bulevar movimentado parecia
estender-se sem fim
à minha frente e
parecia seguir
direto até a beirada
da Terra,
e então
depois de caminhar por um tempo
eu me dei conta
de que estava
perdido, de que
havia esquecido o nome
da rua em que meu
quarto ficava
ou
onde estava.
não havia deixado nada
naquele quarto
a não ser a diária paga
por uma semana
mais uma mala
amarrotada
cheia de minhas roupas velhas
mas aquilo era
tudo o que
eu tinha
então comecei a examinar
as travessas
procurando
meu quarto
e logo fiquei
com medo, um
terror paralisante como uma doença
fatal
espalhando-se em mim
enquanto
eu continuava a andar
para cima e para baixo por ruas
desconhecidas
até que minha mente
me dissesse:
você está louco, é só
isso, você deveria
desistir e tentar
resolver
isso.
mas eu só continuava a andar.
havia sido uma
longa tarde e agora
deslizava
noite adentro.
meus pés doíam
em meus sapatos
baratos.
então foi
escurecendo, já era noite,
mas eu continuei
a caminhar.
sentia como se
tivesse caminhado
para cima e para baixo
pelas
mesmas ruas
de novo e de novo.
então finalmente
reconheci meu
prédio!
e subi correndo
os degraus
e pela escadaria até
o segundo andar
e meu quarto ainda estava
láeeu
abri a porta,
fechei-a depois de entrar,
e fiquei
seguro lá dentro.
lá estava a
mala
no assoalho,
ainda cheia das minhas
roupas velhas.
eu ouvi um homem
rir
em outro
dos quartos e subitamente
me senti muito
melhor.
eu tirei meus sapatos,
camisa, calças,
sentei-me na beirada
da cama e
enrolei um
cigarro.
e aí me reclinei no
travesseiro e
fumei.
eu tinha 20 anos de idade
e 14 dólares
na minha carteira.
então me lembrei
da minha garrafa de vinho.
puxei-a sob a
cama, destampei-a
e tomei um bom
trago.
resolvi que
não estava louco.
peguei um jornal
do chão
e fui para a seção de
empregos:
lavador de pratos, auxiliar
aduaneiro, estoquista,
guarda noturno...
joguei o jornal
no chão.
eu procuraria um
emprego
depois de
amanhã.
então apaguei
o cigarro
satisfeito
e fui
dormir.
a outra cidade estranha
e havia deixado meu quarto e
me encontrava caminhando ao longo
do que devia ter sido
uma avenida principal
na qual os automóveis corriam indo
e vindo com o que parecia ser
um propósito
definido.
aquele bulevar movimentado parecia
estender-se sem fim
à minha frente e
parecia seguir
direto até a beirada
da Terra,
e então
depois de caminhar por um tempo
eu me dei conta
de que estava
perdido, de que
havia esquecido o nome
da rua em que meu
quarto ficava
ou
onde estava.
não havia deixado nada
naquele quarto
a não ser a diária paga
por uma semana
mais uma mala
amarrotada
cheia de minhas roupas velhas
mas aquilo era
tudo o que
eu tinha
então comecei a examinar
as travessas
procurando
meu quarto
e logo fiquei
com medo, um
terror paralisante como uma doença
fatal
espalhando-se em mim
enquanto
eu continuava a andar
para cima e para baixo por ruas
desconhecidas
até que minha mente
me dissesse:
você está louco, é só
isso, você deveria
desistir e tentar
resolver
isso.
mas eu só continuava a andar.
havia sido uma
longa tarde e agora
deslizava
noite adentro.
meus pés doíam
em meus sapatos
baratos.
então foi
escurecendo, já era noite,
mas eu continuei
a caminhar.
sentia como se
tivesse caminhado
para cima e para baixo
pelas
mesmas ruas
de novo e de novo.
então finalmente
reconheci meu
prédio!
e subi correndo
os degraus
e pela escadaria até
o segundo andar
e meu quarto ainda estava
láeeu
abri a porta,
fechei-a depois de entrar,
e fiquei
seguro lá dentro.
lá estava a
mala
no assoalho,
ainda cheia das minhas
roupas velhas.
eu ouvi um homem
rir
em outro
dos quartos e subitamente
me senti muito
melhor.
eu tirei meus sapatos,
camisa, calças,
sentei-me na beirada
da cama e
enrolei um
cigarro.
e aí me reclinei no
travesseiro e
fumei.
eu tinha 20 anos de idade
e 14 dólares
na minha carteira.
então me lembrei
da minha garrafa de vinho.
puxei-a sob a
cama, destampei-a
e tomei um bom
trago.
resolvi que
não estava louco.
peguei um jornal
do chão
e fui para a seção de
empregos:
lavador de pratos, auxiliar
aduaneiro, estoquista,
guarda noturno...
joguei o jornal
no chão.
eu procuraria um
emprego
depois de
amanhã.
então apaguei
o cigarro
satisfeito
e fui
dormir.
878
Charles Bukowski
Estrangeiro Em Uma Cidade Estranha
eu havia acabado de chegar
a outra cidade estranha
e havia deixado meu quarto e
me encontrava caminhando ao longo
do que devia ter sido
uma avenida principal
na qual os automóveis corriam indo
e vindo com o que parecia ser
um propósito
definido.
aquele bulevar movimentado parecia
estender-se sem fim
à minha frente e
parecia seguir
direto até a beirada
da Terra,
e então
depois de caminhar por um tempo
eu me dei conta
de que estava
perdido, de que
havia esquecido o nome
da rua em que meu
quarto ficava
ou
onde estava.
não havia deixado nada
naquele quarto
a não ser a diária paga
por uma semana
mais uma mala
amarrotada
cheia de minhas roupas velhas
mas aquilo era
tudo o que
eu tinha
então comecei a examinar
as travessas
procurando
meu quarto
e logo fiquei
com medo, um
terror paralisante como uma doença
fatal
espalhando-se em mim
enquanto
eu continuava a andar
para cima e para baixo por ruas
desconhecidas
até que minha mente
me dissesse:
você está louco, é só
isso, você deveria
desistir e tentar
resolver
isso.
mas eu só continuava a andar.
havia sido uma
longa tarde e agora
deslizava
noite adentro.
meus pés doíam
em meus sapatos
baratos.
então foi
escurecendo, já era noite,
mas eu continuei
a caminhar.
sentia como se
tivesse caminhado
para cima e para baixo
pelas
mesmas ruas
de novo e de novo.
então finalmente
reconheci meu
prédio!
e subi correndo
os degraus
e pela escadaria até
o segundo andar
e meu quarto ainda estava
láeeu
abri a porta,
fechei-a depois de entrar,
e fiquei
seguro lá dentro.
lá estava a
mala
no assoalho,
ainda cheia das minhas
roupas velhas.
eu ouvi um homem
rir
em outro
dos quartos e subitamente
me senti muito
melhor.
eu tirei meus sapatos,
camisa, calças,
sentei-me na beirada
da cama e
enrolei um
cigarro.
e aí me reclinei no
travesseiro e
fumei.
eu tinha 20 anos de idade
e 14 dólares
na minha carteira.
então me lembrei
da minha garrafa de vinho.
puxei-a sob a
cama, destampei-a
e tomei um bom
trago.
resolvi que
não estava louco.
peguei um jornal
do chão
e fui para a seção de
empregos:
lavador de pratos, auxiliar
aduaneiro, estoquista,
guarda noturno...
joguei o jornal
no chão.
eu procuraria um
emprego
depois de
amanhã.
então apaguei
o cigarro
satisfeito
e fui
dormir.
a outra cidade estranha
e havia deixado meu quarto e
me encontrava caminhando ao longo
do que devia ter sido
uma avenida principal
na qual os automóveis corriam indo
e vindo com o que parecia ser
um propósito
definido.
aquele bulevar movimentado parecia
estender-se sem fim
à minha frente e
parecia seguir
direto até a beirada
da Terra,
e então
depois de caminhar por um tempo
eu me dei conta
de que estava
perdido, de que
havia esquecido o nome
da rua em que meu
quarto ficava
ou
onde estava.
não havia deixado nada
naquele quarto
a não ser a diária paga
por uma semana
mais uma mala
amarrotada
cheia de minhas roupas velhas
mas aquilo era
tudo o que
eu tinha
então comecei a examinar
as travessas
procurando
meu quarto
e logo fiquei
com medo, um
terror paralisante como uma doença
fatal
espalhando-se em mim
enquanto
eu continuava a andar
para cima e para baixo por ruas
desconhecidas
até que minha mente
me dissesse:
você está louco, é só
isso, você deveria
desistir e tentar
resolver
isso.
mas eu só continuava a andar.
havia sido uma
longa tarde e agora
deslizava
noite adentro.
meus pés doíam
em meus sapatos
baratos.
então foi
escurecendo, já era noite,
mas eu continuei
a caminhar.
sentia como se
tivesse caminhado
para cima e para baixo
pelas
mesmas ruas
de novo e de novo.
então finalmente
reconheci meu
prédio!
e subi correndo
os degraus
e pela escadaria até
o segundo andar
e meu quarto ainda estava
láeeu
abri a porta,
fechei-a depois de entrar,
e fiquei
seguro lá dentro.
lá estava a
mala
no assoalho,
ainda cheia das minhas
roupas velhas.
eu ouvi um homem
rir
em outro
dos quartos e subitamente
me senti muito
melhor.
eu tirei meus sapatos,
camisa, calças,
sentei-me na beirada
da cama e
enrolei um
cigarro.
e aí me reclinei no
travesseiro e
fumei.
eu tinha 20 anos de idade
e 14 dólares
na minha carteira.
então me lembrei
da minha garrafa de vinho.
puxei-a sob a
cama, destampei-a
e tomei um bom
trago.
resolvi que
não estava louco.
peguei um jornal
do chão
e fui para a seção de
empregos:
lavador de pratos, auxiliar
aduaneiro, estoquista,
guarda noturno...
joguei o jornal
no chão.
eu procuraria um
emprego
depois de
amanhã.
então apaguei
o cigarro
satisfeito
e fui
dormir.
878
Charles Bukowski
Agarre o Escuro
estou sentado aqui
agora bêbado
escutando as
mesmas sinfonias
que me deram a
vontade de seguir em frente
quando eu tinha 22 anos.
40 anos depois
elas e eu já não somos mais tão
mágicos.
você deveria ter-me
visto
tão
esbelto
sem
barriga
eu era
um pedaço de
homem:
flamejante, forte,
insano.
dissesse uma palavra
errada
para mim
e eu quebrava a sua cara
na hora.
eu não queria ser
incomodado
com qualquer coisa
ou por qualquer um.
eu parecia estar
sempre a caminho de alguma
cela
depois de ser fichado
por fazer coisas
na avenida
ou fora dela.
agora eu estou aqui
bêbado.
sou
uma série de
pequenas vitórias
e grandes derrotas
e estou tão
espantado
quanto qualquer outro
por
ter conseguido
chegar
até aqui
sem cometer um assassinato
ou ser
assassinado:
sem
ter acabado no
hospício.
enquanto bebo sozinho
de novo esta noite
minha alma apesar da agonia
passada
agradece a todos os deuses
que não estavam
lá
por mim
então.
agora bêbado
escutando as
mesmas sinfonias
que me deram a
vontade de seguir em frente
quando eu tinha 22 anos.
40 anos depois
elas e eu já não somos mais tão
mágicos.
você deveria ter-me
visto
tão
esbelto
sem
barriga
eu era
um pedaço de
homem:
flamejante, forte,
insano.
dissesse uma palavra
errada
para mim
e eu quebrava a sua cara
na hora.
eu não queria ser
incomodado
com qualquer coisa
ou por qualquer um.
eu parecia estar
sempre a caminho de alguma
cela
depois de ser fichado
por fazer coisas
na avenida
ou fora dela.
agora eu estou aqui
bêbado.
sou
uma série de
pequenas vitórias
e grandes derrotas
e estou tão
espantado
quanto qualquer outro
por
ter conseguido
chegar
até aqui
sem cometer um assassinato
ou ser
assassinado:
sem
ter acabado no
hospício.
enquanto bebo sozinho
de novo esta noite
minha alma apesar da agonia
passada
agradece a todos os deuses
que não estavam
lá
por mim
então.
944
Charles Bukowski
Chega Desses Rapazes
meu primeiro marido, Retzel, ela disse,
voava em paragliders. ele tinha só uma das mãos.
ele nunca me chupou, nem uma vez só.
ele quer conhecê-lo, ele mora em
Redondo Beach.
Redondo Beach, eu disse, Redondo Beach.
meu marido seguinte,
Craft, tomava comprimidos e tocava piano o dia todo.
depois ele precisou operar um dos dedos da mão.
uma verruga. ele foi cruel comigo. agora ele sabe
o quanto foi cruel comigo.
onde ele está agora?
África. ele ainda está na África.
eu rodei pela África toda. circulei por lá
de barco. conheci um homem que tinha um
leopardo. ele costumava levar seu leopardo para
passear todo dia preso a uma corrente.
um dia ele não apareceu. seu leopardo o havia
comido.
essa é uma história engraçada.
eu também acho. você entende
as coisas. para mim chega desses rapazes,
desses corpos duros. eu quero você. você está no controle
de tudo.
eu estou?
sim, meu marido seguinte,
Larry, certa vez cobriu meu corpo com
pétalas de rosa. todas aquelas flores! foi
adorável, mas ele não fez amor comigo
outra vez por 2 anos. ele foi tão ruim como
amante. você é um grande
amante.
eu sou?
sim, você não gostaria de ir à Holanda?
não.
a Paris?
não.
à África?
não.
Redondo Beach?
não.
você é esquisito. não gosta de
viajar?
estou cheio disso.
você devia ter-me visto voar no paraglider de Retzel!
eu era boa naquele paraglider.
mas ele nunca me
chupava.
Retzel?
sim, agora ele é publicitário. ganha um bom
dinheiro.
algum dia eu vou lhe contar sobre minhas
mulheres.
não quero saber de suas
mulheres. não quero saber de
nenhuma
delas.
ela se virou na cama
oferecendo-me suas costas e seu
rabo.
garota, eu disse, conte-me mais sobre
Retzel.
ela se virou em minha
direção. você realmente quer
ouvir?
com certeza.
então ficamos deitados de costas
e ela me contou sobre Retzel
e eu ouvi.
voava em paragliders. ele tinha só uma das mãos.
ele nunca me chupou, nem uma vez só.
ele quer conhecê-lo, ele mora em
Redondo Beach.
Redondo Beach, eu disse, Redondo Beach.
meu marido seguinte,
Craft, tomava comprimidos e tocava piano o dia todo.
depois ele precisou operar um dos dedos da mão.
uma verruga. ele foi cruel comigo. agora ele sabe
o quanto foi cruel comigo.
onde ele está agora?
África. ele ainda está na África.
eu rodei pela África toda. circulei por lá
de barco. conheci um homem que tinha um
leopardo. ele costumava levar seu leopardo para
passear todo dia preso a uma corrente.
um dia ele não apareceu. seu leopardo o havia
comido.
essa é uma história engraçada.
eu também acho. você entende
as coisas. para mim chega desses rapazes,
desses corpos duros. eu quero você. você está no controle
de tudo.
eu estou?
sim, meu marido seguinte,
Larry, certa vez cobriu meu corpo com
pétalas de rosa. todas aquelas flores! foi
adorável, mas ele não fez amor comigo
outra vez por 2 anos. ele foi tão ruim como
amante. você é um grande
amante.
eu sou?
sim, você não gostaria de ir à Holanda?
não.
a Paris?
não.
à África?
não.
Redondo Beach?
não.
você é esquisito. não gosta de
viajar?
estou cheio disso.
você devia ter-me visto voar no paraglider de Retzel!
eu era boa naquele paraglider.
mas ele nunca me
chupava.
Retzel?
sim, agora ele é publicitário. ganha um bom
dinheiro.
algum dia eu vou lhe contar sobre minhas
mulheres.
não quero saber de suas
mulheres. não quero saber de
nenhuma
delas.
ela se virou na cama
oferecendo-me suas costas e seu
rabo.
garota, eu disse, conte-me mais sobre
Retzel.
ela se virou em minha
direção. você realmente quer
ouvir?
com certeza.
então ficamos deitados de costas
e ela me contou sobre Retzel
e eu ouvi.
952
Charles Bukowski
Guerra e Paz
experimentar a
verdadeira agonia
é
algo
duro
de escrever a respeito,
impossível
de entender
quando o
pega:
você fica
amedrontado
até a
medula,
não pode parar
quieto,
mexer-se
ou até
ficar
louco
decentemente.
e então
quando sua compostura
finalmente
retorna
e você
consegue
avaliar
a
experiência
é quase
como se
tivesse acontecido
a
outra
pessoa
pois
veja
você
agora:
calmo
desligado
por exemplo
limpando suas
unhas
procurando em
uma
gaveta
por
selos
passando
graxa
em seus
sapatos
ou
pagando a
conta
da luz.
a vida é
e não é
uma
delicada
chatice.
verdadeira agonia
é
algo
duro
de escrever a respeito,
impossível
de entender
quando o
pega:
você fica
amedrontado
até a
medula,
não pode parar
quieto,
mexer-se
ou até
ficar
louco
decentemente.
e então
quando sua compostura
finalmente
retorna
e você
consegue
avaliar
a
experiência
é quase
como se
tivesse acontecido
a
outra
pessoa
pois
veja
você
agora:
calmo
desligado
por exemplo
limpando suas
unhas
procurando em
uma
gaveta
por
selos
passando
graxa
em seus
sapatos
ou
pagando a
conta
da luz.
a vida é
e não é
uma
delicada
chatice.
718
Charles Bukowski
Guerra e Paz
experimentar a
verdadeira agonia
é
algo
duro
de escrever a respeito,
impossível
de entender
quando o
pega:
você fica
amedrontado
até a
medula,
não pode parar
quieto,
mexer-se
ou até
ficar
louco
decentemente.
e então
quando sua compostura
finalmente
retorna
e você
consegue
avaliar
a
experiência
é quase
como se
tivesse acontecido
a
outra
pessoa
pois
veja
você
agora:
calmo
desligado
por exemplo
limpando suas
unhas
procurando em
uma
gaveta
por
selos
passando
graxa
em seus
sapatos
ou
pagando a
conta
da luz.
a vida é
e não é
uma
delicada
chatice.
verdadeira agonia
é
algo
duro
de escrever a respeito,
impossível
de entender
quando o
pega:
você fica
amedrontado
até a
medula,
não pode parar
quieto,
mexer-se
ou até
ficar
louco
decentemente.
e então
quando sua compostura
finalmente
retorna
e você
consegue
avaliar
a
experiência
é quase
como se
tivesse acontecido
a
outra
pessoa
pois
veja
você
agora:
calmo
desligado
por exemplo
limpando suas
unhas
procurando em
uma
gaveta
por
selos
passando
graxa
em seus
sapatos
ou
pagando a
conta
da luz.
a vida é
e não é
uma
delicada
chatice.
718
Charles Bukowski
O Anão com um Soco
isto foi muitos anos depois
e ainda não consigo entender direito
mas foi em Nova York
e Nova York tem suas próprias leis e
de qualquer modo eu estava à toa em um daqueles
lugares
com muitas mesas redondas
com seus cavaleiros fortes e terríveis;
eu não me sinto tão bem assim, como de costume,
nem forte nem terrível,
apenas podre,
e eu estou sentado com alguma mulher
com alguma espécie de capuz sobre a cabeça,
ela é meio maluca
mas isso não importa.
ela tem um nome, Fay,
eu acho,
e ficamos bebendo, indo de um lugar a
outro, e entramos lá,
e parecia terrivelmente
animado
pois havia um anão com cerca de um
metro de altura
e o anão estava circulando
bêbado
e ele parava em uma mesa
e olhava para um homem
e dizia,
"bem, o que VOCÊ tem para dizer?"
e depois o anão lhe acertava uma na boca
só que o anão tinha mãos muito boas e
um soco infernal
então todo mundo dava risada e o anão
seguia para o bar
para mais um drinque.
"mantenha-o longe de mim, Fay!", eu lhe disse.
"ah? o quê? quem?"
"mantenha-o longe de mim!"
"quê? o que é? longe?"
o anão mandou a mão em outro sujeito
e todo mundo riu,
até eu ri. o anão sabia socar.
ele tinha muita
prática.
ele dançou no bar
estilo pé de valsa
então ele reparou em um marinheiro
muito loiro e jovem e
amedrontado.
o garoto mijava nas calças
e sorria para O
anão.
o anão lhe mandou a mão
para valer;
seu sorriso seguinte foi um tanto
sangrento.
então o anão deu-lhe outra no queixo
jogando o marinheiro para trás
sobre sua cadeira, duro
e teso.
nocaute! todos saudaram
o campeão!
aí o anão me
viu. o homem da mesa
ao fundo.
"mantenha-o longe de mim, Fay!"
eu disse.
"vamo tomá outro drinque Pp? ela disse.
(estava com um copo cheio na frente dela)
ele veio para cima de mim
em todo o um metro da sua
glória.
"muito bem, o que VOCÊ tem para dizer?"
eu não respondi. eu não tinha nada para dizer
que ele pudesse entender.
"nada, hein?"
eu fiz que sim. ele veio. eu senti minha cadeira rodar, depois
parar de novo sobre seus pés. jorros de luz vermelha e amarela e
azul vieram em seguida, depois risadas.
sentado ali
eu revidei.
seu pobre um metro deslizou pelo chão como um
boneco de trapos
e então estavam em cima de mim
parecia uma dúzia de homens
(mas podiam ter sido 3 ou 4)
e tomei mais algumas
porradas.
então fui jogado para fora
eu me levantei
e achei um lenço
e tentei parar
o pior do sangue
e Fay estava lá,
"seu covarde, você bateu naquele
homenzinho!?"
eu desci pela rua
mas ela ficou lá junto comigo
e fomos ao bar mais próximo
e eu olhei ao redor
e, vendo que todo mundo tinha mais de 1 metro e 30,
mandei vir mais 2
drinques.
e ainda não consigo entender direito
mas foi em Nova York
e Nova York tem suas próprias leis e
de qualquer modo eu estava à toa em um daqueles
lugares
com muitas mesas redondas
com seus cavaleiros fortes e terríveis;
eu não me sinto tão bem assim, como de costume,
nem forte nem terrível,
apenas podre,
e eu estou sentado com alguma mulher
com alguma espécie de capuz sobre a cabeça,
ela é meio maluca
mas isso não importa.
ela tem um nome, Fay,
eu acho,
e ficamos bebendo, indo de um lugar a
outro, e entramos lá,
e parecia terrivelmente
animado
pois havia um anão com cerca de um
metro de altura
e o anão estava circulando
bêbado
e ele parava em uma mesa
e olhava para um homem
e dizia,
"bem, o que VOCÊ tem para dizer?"
e depois o anão lhe acertava uma na boca
só que o anão tinha mãos muito boas e
um soco infernal
então todo mundo dava risada e o anão
seguia para o bar
para mais um drinque.
"mantenha-o longe de mim, Fay!", eu lhe disse.
"ah? o quê? quem?"
"mantenha-o longe de mim!"
"quê? o que é? longe?"
o anão mandou a mão em outro sujeito
e todo mundo riu,
até eu ri. o anão sabia socar.
ele tinha muita
prática.
ele dançou no bar
estilo pé de valsa
então ele reparou em um marinheiro
muito loiro e jovem e
amedrontado.
o garoto mijava nas calças
e sorria para O
anão.
o anão lhe mandou a mão
para valer;
seu sorriso seguinte foi um tanto
sangrento.
então o anão deu-lhe outra no queixo
jogando o marinheiro para trás
sobre sua cadeira, duro
e teso.
nocaute! todos saudaram
o campeão!
aí o anão me
viu. o homem da mesa
ao fundo.
"mantenha-o longe de mim, Fay!"
eu disse.
"vamo tomá outro drinque Pp? ela disse.
(estava com um copo cheio na frente dela)
ele veio para cima de mim
em todo o um metro da sua
glória.
"muito bem, o que VOCÊ tem para dizer?"
eu não respondi. eu não tinha nada para dizer
que ele pudesse entender.
"nada, hein?"
eu fiz que sim. ele veio. eu senti minha cadeira rodar, depois
parar de novo sobre seus pés. jorros de luz vermelha e amarela e
azul vieram em seguida, depois risadas.
sentado ali
eu revidei.
seu pobre um metro deslizou pelo chão como um
boneco de trapos
e então estavam em cima de mim
parecia uma dúzia de homens
(mas podiam ter sido 3 ou 4)
e tomei mais algumas
porradas.
então fui jogado para fora
eu me levantei
e achei um lenço
e tentei parar
o pior do sangue
e Fay estava lá,
"seu covarde, você bateu naquele
homenzinho!?"
eu desci pela rua
mas ela ficou lá junto comigo
e fomos ao bar mais próximo
e eu olhei ao redor
e, vendo que todo mundo tinha mais de 1 metro e 30,
mandei vir mais 2
drinques.
1 043
Charles Bukowski
junto a uma vitrine
junto a uma vitrine
cachorros e anjos não estão
muito distantes.
eu vou muito a esse lugarzinho
para comer
por volta das 2:30 da tarde
porque todas as pessoas que comem
lá são completamente sãs,
contentes por estarem simplesmente vivas e
comendo sua comida
junto a uma vitrine
que dá boas-vindas ao sol
mas não deixa os carros e
as calçadas entrarem.
atravessando a rua há um bar
chinês de striptease
aberto já às 2:30 da
tarde
está pintado de
um pobre e pálido
azul.
dão-nos quantos cafés
de graça pudermos tomar
e todos nos sentamos e bebemos em silêncio
o café preto e forte.
é bom poder ficar em algum lugar
em público às 2:30 da tarde
sem que lhe arranquem a carne
de seus ossos.
ninguém nos incomoda.
não incomodamos ninguém.
anjos e cachorros não estão
muito distantes
às 2:30 da tarde.
tenho minha mesa favorita
junto da janela
e depois de haver terminado
eu empilho os pratos, tigelas,
a xícara, Os talheres etc.
direitinho
em uma pilha bem arrumada -
minha oferenda à
garçonete idosa -
comida e tempo
íntegros,
e o sol desgraçado
lá fora
fazendo seu serviço
para cima e
para baixo.
cachorros e anjos não estão
muito distantes.
eu vou muito a esse lugarzinho
para comer
por volta das 2:30 da tarde
porque todas as pessoas que comem
lá são completamente sãs,
contentes por estarem simplesmente vivas e
comendo sua comida
junto a uma vitrine
que dá boas-vindas ao sol
mas não deixa os carros e
as calçadas entrarem.
atravessando a rua há um bar
chinês de striptease
aberto já às 2:30 da
tarde
está pintado de
um pobre e pálido
azul.
dão-nos quantos cafés
de graça pudermos tomar
e todos nos sentamos e bebemos em silêncio
o café preto e forte.
é bom poder ficar em algum lugar
em público às 2:30 da tarde
sem que lhe arranquem a carne
de seus ossos.
ninguém nos incomoda.
não incomodamos ninguém.
anjos e cachorros não estão
muito distantes
às 2:30 da tarde.
tenho minha mesa favorita
junto da janela
e depois de haver terminado
eu empilho os pratos, tigelas,
a xícara, Os talheres etc.
direitinho
em uma pilha bem arrumada -
minha oferenda à
garçonete idosa -
comida e tempo
íntegros,
e o sol desgraçado
lá fora
fazendo seu serviço
para cima e
para baixo.
1 081
Charles Bukowski
Um Acordo Sobre Tchaikovsky
minhas duas pernas estão quebradas nos joelhos
e eu não posso mexer meu braço direito:
é primavera e os pássaros estão saltitando
para dentro e para fora dos arbustos
enlouquecendo os gatos.
meu bom amigo, Randy, frequenta os
sanitários para homens na pista de corridas
em busca de carteiras: garoto esperto:
se os pais dele fossem ricos
ele me diz que teria seguido
para Harvard.
ela fica tocando a 4a de Tchaikovsky,
aquela assim:
ka plunk plunk plunk plunk plunk;
não gosto
mas a velha senhora Rose
minha vizinha
na Casa de Repouso Sunset Park
acha que é
lindo.
todo mundo aqui é velho demais para usar
a quadra de tênis
há uma camada de pó em cima da coisa toda
e a rede é um emaranhado de fios rasgados.
a velha senhora Rose foi visitar seus filhos hoje -
isto é, eles vieram e a apanharam, o traste;
ela nem consegue andar
e suas pernas sequer estão quebradas -
ela não passa de um enfadonho
peido velho!
eu fui de cadeira de rodas há pouco até o quarto dela
e achei uma nota de 10 dólares dobrada bem
limpinha
e arrumadinha:
ela achava que ninguém a encontraria
dentro de um de seus velhos chinelos
mas eu estive rondando
e ela virá bater à minha porta esta noite
pedindo uma "pequena dose de scotch";
cara, toda essa besteira sobre as terras que ela COSTUMAVA
ter no Arizona e como seu marido COSTUMAVA
usar polainas e sair de bengala!
ele não precisa usar mais nada no lugar onde está agora;
e enquanto estive lá dentro
eu arrebentei a velha 4a de Tchaikovsky no braço de uma cadeira
quebrei-a para valer.
e a velha senhora Rose tinha razão:
soava maravilhosamente para mim:
qualquer coisa como
nozes quebrando.
e eu não posso mexer meu braço direito:
é primavera e os pássaros estão saltitando
para dentro e para fora dos arbustos
enlouquecendo os gatos.
meu bom amigo, Randy, frequenta os
sanitários para homens na pista de corridas
em busca de carteiras: garoto esperto:
se os pais dele fossem ricos
ele me diz que teria seguido
para Harvard.
ela fica tocando a 4a de Tchaikovsky,
aquela assim:
ka plunk plunk plunk plunk plunk;
não gosto
mas a velha senhora Rose
minha vizinha
na Casa de Repouso Sunset Park
acha que é
lindo.
todo mundo aqui é velho demais para usar
a quadra de tênis
há uma camada de pó em cima da coisa toda
e a rede é um emaranhado de fios rasgados.
a velha senhora Rose foi visitar seus filhos hoje -
isto é, eles vieram e a apanharam, o traste;
ela nem consegue andar
e suas pernas sequer estão quebradas -
ela não passa de um enfadonho
peido velho!
eu fui de cadeira de rodas há pouco até o quarto dela
e achei uma nota de 10 dólares dobrada bem
limpinha
e arrumadinha:
ela achava que ninguém a encontraria
dentro de um de seus velhos chinelos
mas eu estive rondando
e ela virá bater à minha porta esta noite
pedindo uma "pequena dose de scotch";
cara, toda essa besteira sobre as terras que ela COSTUMAVA
ter no Arizona e como seu marido COSTUMAVA
usar polainas e sair de bengala!
ele não precisa usar mais nada no lugar onde está agora;
e enquanto estive lá dentro
eu arrebentei a velha 4a de Tchaikovsky no braço de uma cadeira
quebrei-a para valer.
e a velha senhora Rose tinha razão:
soava maravilhosamente para mim:
qualquer coisa como
nozes quebrando.
1 134
Charles Bukowski
Um Acordo Sobre Tchaikovsky
minhas duas pernas estão quebradas nos joelhos
e eu não posso mexer meu braço direito:
é primavera e os pássaros estão saltitando
para dentro e para fora dos arbustos
enlouquecendo os gatos.
meu bom amigo, Randy, frequenta os
sanitários para homens na pista de corridas
em busca de carteiras: garoto esperto:
se os pais dele fossem ricos
ele me diz que teria seguido
para Harvard.
ela fica tocando a 4a de Tchaikovsky,
aquela assim:
ka plunk plunk plunk plunk plunk;
não gosto
mas a velha senhora Rose
minha vizinha
na Casa de Repouso Sunset Park
acha que é
lindo.
todo mundo aqui é velho demais para usar
a quadra de tênis
há uma camada de pó em cima da coisa toda
e a rede é um emaranhado de fios rasgados.
a velha senhora Rose foi visitar seus filhos hoje -
isto é, eles vieram e a apanharam, o traste;
ela nem consegue andar
e suas pernas sequer estão quebradas -
ela não passa de um enfadonho
peido velho!
eu fui de cadeira de rodas há pouco até o quarto dela
e achei uma nota de 10 dólares dobrada bem
limpinha
e arrumadinha:
ela achava que ninguém a encontraria
dentro de um de seus velhos chinelos
mas eu estive rondando
e ela virá bater à minha porta esta noite
pedindo uma "pequena dose de scotch";
cara, toda essa besteira sobre as terras que ela COSTUMAVA
ter no Arizona e como seu marido COSTUMAVA
usar polainas e sair de bengala!
ele não precisa usar mais nada no lugar onde está agora;
e enquanto estive lá dentro
eu arrebentei a velha 4a de Tchaikovsky no braço de uma cadeira
quebrei-a para valer.
e a velha senhora Rose tinha razão:
soava maravilhosamente para mim:
qualquer coisa como
nozes quebrando.
e eu não posso mexer meu braço direito:
é primavera e os pássaros estão saltitando
para dentro e para fora dos arbustos
enlouquecendo os gatos.
meu bom amigo, Randy, frequenta os
sanitários para homens na pista de corridas
em busca de carteiras: garoto esperto:
se os pais dele fossem ricos
ele me diz que teria seguido
para Harvard.
ela fica tocando a 4a de Tchaikovsky,
aquela assim:
ka plunk plunk plunk plunk plunk;
não gosto
mas a velha senhora Rose
minha vizinha
na Casa de Repouso Sunset Park
acha que é
lindo.
todo mundo aqui é velho demais para usar
a quadra de tênis
há uma camada de pó em cima da coisa toda
e a rede é um emaranhado de fios rasgados.
a velha senhora Rose foi visitar seus filhos hoje -
isto é, eles vieram e a apanharam, o traste;
ela nem consegue andar
e suas pernas sequer estão quebradas -
ela não passa de um enfadonho
peido velho!
eu fui de cadeira de rodas há pouco até o quarto dela
e achei uma nota de 10 dólares dobrada bem
limpinha
e arrumadinha:
ela achava que ninguém a encontraria
dentro de um de seus velhos chinelos
mas eu estive rondando
e ela virá bater à minha porta esta noite
pedindo uma "pequena dose de scotch";
cara, toda essa besteira sobre as terras que ela COSTUMAVA
ter no Arizona e como seu marido COSTUMAVA
usar polainas e sair de bengala!
ele não precisa usar mais nada no lugar onde está agora;
e enquanto estive lá dentro
eu arrebentei a velha 4a de Tchaikovsky no braço de uma cadeira
quebrei-a para valer.
e a velha senhora Rose tinha razão:
soava maravilhosamente para mim:
qualquer coisa como
nozes quebrando.
1 134
Charles Bukowski
Um Acordo Sobre Tchaikovsky
minhas duas pernas estão quebradas nos joelhos
e eu não posso mexer meu braço direito:
é primavera e os pássaros estão saltitando
para dentro e para fora dos arbustos
enlouquecendo os gatos.
meu bom amigo, Randy, frequenta os
sanitários para homens na pista de corridas
em busca de carteiras: garoto esperto:
se os pais dele fossem ricos
ele me diz que teria seguido
para Harvard.
ela fica tocando a 4a de Tchaikovsky,
aquela assim:
ka plunk plunk plunk plunk plunk;
não gosto
mas a velha senhora Rose
minha vizinha
na Casa de Repouso Sunset Park
acha que é
lindo.
todo mundo aqui é velho demais para usar
a quadra de tênis
há uma camada de pó em cima da coisa toda
e a rede é um emaranhado de fios rasgados.
a velha senhora Rose foi visitar seus filhos hoje -
isto é, eles vieram e a apanharam, o traste;
ela nem consegue andar
e suas pernas sequer estão quebradas -
ela não passa de um enfadonho
peido velho!
eu fui de cadeira de rodas há pouco até o quarto dela
e achei uma nota de 10 dólares dobrada bem
limpinha
e arrumadinha:
ela achava que ninguém a encontraria
dentro de um de seus velhos chinelos
mas eu estive rondando
e ela virá bater à minha porta esta noite
pedindo uma "pequena dose de scotch";
cara, toda essa besteira sobre as terras que ela COSTUMAVA
ter no Arizona e como seu marido COSTUMAVA
usar polainas e sair de bengala!
ele não precisa usar mais nada no lugar onde está agora;
e enquanto estive lá dentro
eu arrebentei a velha 4a de Tchaikovsky no braço de uma cadeira
quebrei-a para valer.
e a velha senhora Rose tinha razão:
soava maravilhosamente para mim:
qualquer coisa como
nozes quebrando.
e eu não posso mexer meu braço direito:
é primavera e os pássaros estão saltitando
para dentro e para fora dos arbustos
enlouquecendo os gatos.
meu bom amigo, Randy, frequenta os
sanitários para homens na pista de corridas
em busca de carteiras: garoto esperto:
se os pais dele fossem ricos
ele me diz que teria seguido
para Harvard.
ela fica tocando a 4a de Tchaikovsky,
aquela assim:
ka plunk plunk plunk plunk plunk;
não gosto
mas a velha senhora Rose
minha vizinha
na Casa de Repouso Sunset Park
acha que é
lindo.
todo mundo aqui é velho demais para usar
a quadra de tênis
há uma camada de pó em cima da coisa toda
e a rede é um emaranhado de fios rasgados.
a velha senhora Rose foi visitar seus filhos hoje -
isto é, eles vieram e a apanharam, o traste;
ela nem consegue andar
e suas pernas sequer estão quebradas -
ela não passa de um enfadonho
peido velho!
eu fui de cadeira de rodas há pouco até o quarto dela
e achei uma nota de 10 dólares dobrada bem
limpinha
e arrumadinha:
ela achava que ninguém a encontraria
dentro de um de seus velhos chinelos
mas eu estive rondando
e ela virá bater à minha porta esta noite
pedindo uma "pequena dose de scotch";
cara, toda essa besteira sobre as terras que ela COSTUMAVA
ter no Arizona e como seu marido COSTUMAVA
usar polainas e sair de bengala!
ele não precisa usar mais nada no lugar onde está agora;
e enquanto estive lá dentro
eu arrebentei a velha 4a de Tchaikovsky no braço de uma cadeira
quebrei-a para valer.
e a velha senhora Rose tinha razão:
soava maravilhosamente para mim:
qualquer coisa como
nozes quebrando.
1 134
Charles Bukowski
Todas as Garotinhas
foi lá no norte da Califórnia
e ele estava em pé no púlpito
e estava lendo há algum tempo
estava lendo muitos poemas sobre
a Mãe Natureza e a bondade inerente
ao homem.
ele acreditava que tudo estava
certo com o mundo.
e não dava para reclamar dele:
era um professor de carreira que nunca havia
estado na cadeia ou em um puteiro;
cujo carro usado nunca morreu
na autoestrada; que
nunca havia precisado de mais do que
três drinques durante a mais louca
das suas noitadas;
que nunca havia sido fichado, execrado ou
levado porrada;
que nunca havia sido mordido por um cachorro;
que recebia regularmente cartas cordiais de Gary
Snyder, e cujo rosto era
amável, sem marcas e
carinhoso. finalmente,
sua mulher nunca o havia traído
muito menos sua sorte.
ele disse: "só vou ler
mais três poemas e depois vou
descer daqui e deixar
Chinaski ler".
"ah, não", disseram todas as
garotinhas em seus vestidos rosados e azuis
e brancos e cor de laranja
e lilases. "ah, não,
leia mais alguns, leia mais
alguns!"
ele leu mais um poema e então disse,
"este é o último poema que
vou ler".
"ah, não", disseram todas as
garotinhas em seus vestidos meio transparentes
vermelhos e verdes. "ah, não", disseram
todas as garotinhas em seus jeans
apertados com corações costurados neles.
"ah, não", disseram todas as garotinhas,
"por favor, leia
mais poemas!"
mas ele cumpriu sua palavra.
recolheu os poemas e desceu e
desapareceu em algum lugar. quando levantei-me para ler
as garotinhas deram risadinhas em
seus assentos e uma delas assobiou e
algumas delas fizeram observações interessantes dirigidas a mim
que usarei em um poema em alguma data futura
pois este maldito poema em particular
tem que terminar em algum lugar.
de qualquer modo, foi duas ou três semanas depois
que recebi essa carta do poeta William
dizendo que ele havia apreciado minha leitura.
ele era um verdadeiro cavalheiro.
eu estava de cama com uma
ressaca de três dias. perdi o envelope
mas peguei a carta e a dobrei em
um desses aviõezinhos de papel
que eu havia aprendido a fazer na
escola. navegou ao redor do quarto
e aterrissou entre um velho boletim de corridas de cavalo
e um par de shorts puídos.
não nos correspondemos desde então.
e ele estava em pé no púlpito
e estava lendo há algum tempo
estava lendo muitos poemas sobre
a Mãe Natureza e a bondade inerente
ao homem.
ele acreditava que tudo estava
certo com o mundo.
e não dava para reclamar dele:
era um professor de carreira que nunca havia
estado na cadeia ou em um puteiro;
cujo carro usado nunca morreu
na autoestrada; que
nunca havia precisado de mais do que
três drinques durante a mais louca
das suas noitadas;
que nunca havia sido fichado, execrado ou
levado porrada;
que nunca havia sido mordido por um cachorro;
que recebia regularmente cartas cordiais de Gary
Snyder, e cujo rosto era
amável, sem marcas e
carinhoso. finalmente,
sua mulher nunca o havia traído
muito menos sua sorte.
ele disse: "só vou ler
mais três poemas e depois vou
descer daqui e deixar
Chinaski ler".
"ah, não", disseram todas as
garotinhas em seus vestidos rosados e azuis
e brancos e cor de laranja
e lilases. "ah, não,
leia mais alguns, leia mais
alguns!"
ele leu mais um poema e então disse,
"este é o último poema que
vou ler".
"ah, não", disseram todas as
garotinhas em seus vestidos meio transparentes
vermelhos e verdes. "ah, não", disseram
todas as garotinhas em seus jeans
apertados com corações costurados neles.
"ah, não", disseram todas as garotinhas,
"por favor, leia
mais poemas!"
mas ele cumpriu sua palavra.
recolheu os poemas e desceu e
desapareceu em algum lugar. quando levantei-me para ler
as garotinhas deram risadinhas em
seus assentos e uma delas assobiou e
algumas delas fizeram observações interessantes dirigidas a mim
que usarei em um poema em alguma data futura
pois este maldito poema em particular
tem que terminar em algum lugar.
de qualquer modo, foi duas ou três semanas depois
que recebi essa carta do poeta William
dizendo que ele havia apreciado minha leitura.
ele era um verdadeiro cavalheiro.
eu estava de cama com uma
ressaca de três dias. perdi o envelope
mas peguei a carta e a dobrei em
um desses aviõezinhos de papel
que eu havia aprendido a fazer na
escola. navegou ao redor do quarto
e aterrissou entre um velho boletim de corridas de cavalo
e um par de shorts puídos.
não nos correspondemos desde então.
1 034
Charles Bukowski
A Secretária Eletrônica
é uma das maiores invenções
do mundo.
raramente eu atendo o telefone
para interromper
a mensagem
e falar diretamente com
quem telefonou.
e dificilmente eu telefono
para alguém
por esses dias
e tampouco
no passado
a não ser que fosse alguma namorada nova
que me tivesse pego
para valer.
e ela nunca tinha uma
secretária eletrônica
só pílulas
contas a pagar
crianças rejeitadas
muitas necessidades prementes
e um sentido extremamente supervalorizado de
si mesma,
especialmente por
mim.
do mundo.
raramente eu atendo o telefone
para interromper
a mensagem
e falar diretamente com
quem telefonou.
e dificilmente eu telefono
para alguém
por esses dias
e tampouco
no passado
a não ser que fosse alguma namorada nova
que me tivesse pego
para valer.
e ela nunca tinha uma
secretária eletrônica
só pílulas
contas a pagar
crianças rejeitadas
muitas necessidades prementes
e um sentido extremamente supervalorizado de
si mesma,
especialmente por
mim.
1 072
Charles Bukowski
Doente
ter andado muito doente e muito fraco é algo muito
estranho.
quando é necessária toda sua força para ir do
quarto ao banheiro e voltar, isto parece
uma piada mas
você não ri.
de volta à cama você volta a pensar na morte e descobre
a mesma coisa: quanto mais perto se está dela
menos apavorante ela se
torna.
você tem tempo o suficiente para examinar as paredes
e lá fora
os passarinhos sobre o fio do telefone ganham tremenda
importância.
e ali está a tevê: homens jogando beisebol
dia após dia.
nenhum apetite.
a comida tem gosto de papelão, faz com que você se sinta
mal, além de todos os
limites.
a esposa dedicada não cansa de insistir para que você
coma.
“o médico disse...”
pobrezinha.
e os gatos.
os gatos pulam sobre a cama e me olham.
me encaram, e então pulam para o
chão.
que mundo, você pensa: comer, trabalhar, trepar,
morrer.
por sorte tenho uma doença contagiosa: nada de
visitas.
a balança marca 70, do que um dia foram
98.
pareço um homem num campo de concentração.
eu sou esse
homem.
ainda assim, tenho sorte: me agrada a solidão,
jamais sentirei falta das pessoas.
eu poderia ler os grandes livros mas os grandes livros não
me interessam.
me sento na cama e espero que tudo siga
por um caminho ou pelo
outro.
exatamente como faz todo
mundo.
estranho.
quando é necessária toda sua força para ir do
quarto ao banheiro e voltar, isto parece
uma piada mas
você não ri.
de volta à cama você volta a pensar na morte e descobre
a mesma coisa: quanto mais perto se está dela
menos apavorante ela se
torna.
você tem tempo o suficiente para examinar as paredes
e lá fora
os passarinhos sobre o fio do telefone ganham tremenda
importância.
e ali está a tevê: homens jogando beisebol
dia após dia.
nenhum apetite.
a comida tem gosto de papelão, faz com que você se sinta
mal, além de todos os
limites.
a esposa dedicada não cansa de insistir para que você
coma.
“o médico disse...”
pobrezinha.
e os gatos.
os gatos pulam sobre a cama e me olham.
me encaram, e então pulam para o
chão.
que mundo, você pensa: comer, trabalhar, trepar,
morrer.
por sorte tenho uma doença contagiosa: nada de
visitas.
a balança marca 70, do que um dia foram
98.
pareço um homem num campo de concentração.
eu sou esse
homem.
ainda assim, tenho sorte: me agrada a solidão,
jamais sentirei falta das pessoas.
eu poderia ler os grandes livros mas os grandes livros não
me interessam.
me sento na cama e espero que tudo siga
por um caminho ou pelo
outro.
exatamente como faz todo
mundo.
1 115
Charles Bukowski
Pode Ir Dando Adeus a Sua Bunda
eu finalmente o conheci. ele estava sentado em um velho roupão
e reclamou por 5 horas.
"olha," ele disse, "não confie em Krause,
Krause irá roubá-lo. ele me deve 10.000 dólares
e não tem jeito de eu arrancá-los
dele. um verdadeiro safado."
"Senhor", eu disse, "quando escreveu aquele primeiro romance,
tinha tanto humor, a verdade sempre é tão engraçada,
sabe, o jeito como as pessoas agem, como coisas mecânicas cegas,
matando sem razão, maravilhoso como conseguiu por tudo aquilo
no papel."
uma velha senhora entrou e serviu-lhe uma
xícara de chá. "eles arrebentaram minha motocicleta, roubaram meus
manuscritos,
me limparam. eles teriam me matado mas eu não estava
aqui. eles me chamaram de fascista, afirmaram que eu havia vendido os
planos
da Linha Maginot aos Krauts. agora, onde diabos eu poderia ter
conseguido os planos da Linha
Maginot?"
ele serviu-se de chá. ergueu a xícara. estava quente demais
ou algo assim. ele cuspiu tudo no tapete, um pouco em
meus sapatos e calças.
"Senhor", eu perguntei, "aquele primeiro romance, o senhor realmente
comeu sua própria
carne quando era um jovem escritor? estava tão
faminto assim? meu deus, que narrativa aquela, eu nunca
a esquecerei!"
"Martha!", ele chamou. "Martha!"
a velha senhora entrou.
"você esqueceu o limão e o açúcar, sua bruxa velha!"
a velha senhora saiu correndo
para pegar o limão e o açúcar.
"o governo reclama que eu lhe devo 70.000 dólares! eles não incomodam
Krause, o filho
da puta roda por aí em um Cadillac e tem uma propriedade
de cinco hectares. nunca confie em Krause. ele é um sanguessuga. ele
sugou
os corpos e talento de pelo menos 3 dúzias de escritores. ele é como uma
aranha
gigante, uma tarântula!
"Krause nunca me pediu nada..."
"se ele pedir, você pode ir dando adeus
a sua bunda!"
Martha entrou correndo com o limão e o açúcar.
"sua maldita puta sem vergonha! eu deveria chicotear sua bunda!"
"Senhor", eu disse, "o senhor é visto como
um dos mais poderosos escritores desde 1900."
"não confie em Krause! um sanguessuga!?"
ele se queixou por 5 horas. e eu ouvi. então sua cabeça caiu para trás,
sobre o encosto da sua cadeira de balanço, e eu vi aquele
famoso perfil de águia. então ele começou
a roncar.
ele era apenas um velho em um velho
roupão.
eu me levantei. Martha entrou.
"estou contente por ter tido uma chance de encontrá-lo",
disse a ela.
"tento lembrar-me de que ele já foi um grande escritor",
ela me disse.
"ele ainda tem um certo senso de humor",
disse a ela.
"eu não acho", ela disse,
"veja, eu sou
a mulher
dele."
"boa noite", eu
disse.
"boa noite", ela
respondeu.
e reclamou por 5 horas.
"olha," ele disse, "não confie em Krause,
Krause irá roubá-lo. ele me deve 10.000 dólares
e não tem jeito de eu arrancá-los
dele. um verdadeiro safado."
"Senhor", eu disse, "quando escreveu aquele primeiro romance,
tinha tanto humor, a verdade sempre é tão engraçada,
sabe, o jeito como as pessoas agem, como coisas mecânicas cegas,
matando sem razão, maravilhoso como conseguiu por tudo aquilo
no papel."
uma velha senhora entrou e serviu-lhe uma
xícara de chá. "eles arrebentaram minha motocicleta, roubaram meus
manuscritos,
me limparam. eles teriam me matado mas eu não estava
aqui. eles me chamaram de fascista, afirmaram que eu havia vendido os
planos
da Linha Maginot aos Krauts. agora, onde diabos eu poderia ter
conseguido os planos da Linha
Maginot?"
ele serviu-se de chá. ergueu a xícara. estava quente demais
ou algo assim. ele cuspiu tudo no tapete, um pouco em
meus sapatos e calças.
"Senhor", eu perguntei, "aquele primeiro romance, o senhor realmente
comeu sua própria
carne quando era um jovem escritor? estava tão
faminto assim? meu deus, que narrativa aquela, eu nunca
a esquecerei!"
"Martha!", ele chamou. "Martha!"
a velha senhora entrou.
"você esqueceu o limão e o açúcar, sua bruxa velha!"
a velha senhora saiu correndo
para pegar o limão e o açúcar.
"o governo reclama que eu lhe devo 70.000 dólares! eles não incomodam
Krause, o filho
da puta roda por aí em um Cadillac e tem uma propriedade
de cinco hectares. nunca confie em Krause. ele é um sanguessuga. ele
sugou
os corpos e talento de pelo menos 3 dúzias de escritores. ele é como uma
aranha
gigante, uma tarântula!
"Krause nunca me pediu nada..."
"se ele pedir, você pode ir dando adeus
a sua bunda!"
Martha entrou correndo com o limão e o açúcar.
"sua maldita puta sem vergonha! eu deveria chicotear sua bunda!"
"Senhor", eu disse, "o senhor é visto como
um dos mais poderosos escritores desde 1900."
"não confie em Krause! um sanguessuga!?"
ele se queixou por 5 horas. e eu ouvi. então sua cabeça caiu para trás,
sobre o encosto da sua cadeira de balanço, e eu vi aquele
famoso perfil de águia. então ele começou
a roncar.
ele era apenas um velho em um velho
roupão.
eu me levantei. Martha entrou.
"estou contente por ter tido uma chance de encontrá-lo",
disse a ela.
"tento lembrar-me de que ele já foi um grande escritor",
ela me disse.
"ele ainda tem um certo senso de humor",
disse a ela.
"eu não acho", ela disse,
"veja, eu sou
a mulher
dele."
"boa noite", eu
disse.
"boa noite", ela
respondeu.
1 081
Charles Bukowski
Traga-Me Seu Amor
Harry venceu os degraus que o separavam do jardim. Muitos dos pacientes estavam por ali. Haviam-lhe dito que sua esposa, Gloria, estava ali fora. Avistou-a sentada sozinha em uma mesa. Aproximou-se de forma oblíqua, por um dos lados e um pouco às costas dela. Gloria sentava-se bastante ereta, estava muito pálida. Olhava para ele, mas não o enxergava. Até que por fim o viu.
– Você é o condutor? – ela perguntou
– O condutor do quê?
– O condutor da verossimilhança?
– Não, não sou.
Ela estava pálida, seus olhos estavam pálidos, de um azul pálido.
– Como você se sente, Gloria?
Era uma mesa de ferro, pintada de branco, uma mesa capaz de resistir à ação dos séculos. Havia um pequeno vaso com flores no centro, flores murchas e mortas pendendo de tristes e curvas hastes.
–Você trepa com putas, Harry. Você gosta de trepar com putas.
– Isso não é verdade, Gloria.
– Elas também chupam você? Elas chupam seu pau?
– Ia trazer sua mãe, Gloria, mas ela ainda não melhorou da gripe.
– Aquela velha pilantra está sempre armando alguma coisa... Você é o condutor?
Os outros pacientes estavam sentados às mesas, escorados nas árvores ou estendidos sobre o gramado. Estavam imóveis e silenciosos.
– Que tal a comida aqui, Gloria? Já fez algum amigo?
– Terrível. E não. Seu comedor de putas.
– Quer alguma coisa pra ler? Algum tipo de leitura que eu possa trazer?
Gloria não respondeu. Então ela ergueu a mão direita, examinou-a, fechou o punho e golpeou a si mesma no nariz, com toda força. Harry cruzou a mesa e segurou suas duas mãos.
– Gloria, por favor!
Ela começou a chorar.
– Por que você não me trouxe chocolates?
– Gloria, você tinha me dito que odiava chocolate.
As lágrimas desciam em profusão.
– Eu não odeio chocolate! Eu amo chocolate!
– Não chore, Gloria, por favor... Trarei chocolates, trarei o que você quiser... Escute, aluguei o quarto num motel aqui perto, a umas poucas quadras, só pra estar perto de você.
Seus olhos pálidos se arregalaram.
– Um quarto de motel? Você deve estar lá com alguma vagabunda! Devem ficar vendo filmes pornôs juntos, espelho no teto e tudo!
– Vou ficar aqui por perto uns dois dias – disse Harry, com suavidade. – Posso trazer o que você quiser.
– Me traga seu amor, então – ela gritou. – Por que, diabos, você não me traz o seu amor?
Alguns dos pacientes se voltaram para olhar.
– Gloria, tenho certeza que não há no mundo alguém que se importe com você mais do que eu.
– Quer me trazer chocolates? Bem, pois enfie os chocolates no olho do cu!
Harry tirou um cartão de sua carteira. Era do motel. Alcançou-o para ela.
– Só quero dar isso a você, antes que eu me esqueça. Você tem permissão pra fazer chamadas externas? Está aqui o meu número, pra tudo o que você precisar.
Gloria não respondeu. Ela pegou o cartão e dobrou-o até que não restasse mais que um pequeno quadrado. Então se abaixou, tirou um dos sapatos, colocou o cartão lá dentro e voltou a calçá-lo.
Em seguida, Harry avistou o dr. Jensen se aproximando pelo gramado. O médico caminhava sorridente e logo disse:
– Bem, bem, bem...
– Olá, dr. Jensen – falou Gloria sem emoção.
– Posso me sentar? – perguntou o médico.
– Claro – disse Gloria.
O médico era um homem pesado. Emanava um ar de importância, autoridade e responsabilidade. Suas sobrancelhas tinham uma aparência grossa e pesada, eram, de fato, grossas e pesadas. Pareciam querer deslizar até sua boca úmida e redonda e desaparecer, mas a vida jamais lhes permitiria isso.
O médico olhou para Gloria. Depois para Harry.
– Bem, bem, bem – ele disse. – Estou realmente satisfeito com o progresso que fizemos até agora...
– Sim, dr. Jensen, eu estava dizendo pro Harry como me sinto mais estável, o quanto as consultas e as sessões de grupo têm me ajudado. Muito daquela minha raiva sem motivo aparente, daquela minha sensação inútil de frustração, da minha autocomiseração destrutiva já desapareceram...
Gloria se sentou com as mãos cruzadas sobre o colo, sorrindo.
O médico sorriu para Harry.
– Gloria fez um notável progresso!
– Sim – Harry disse –, pude perceber.
– Creio que é questão de um pouquinho mais de tempo, Harry, e Gloria poderá voltar pra casa com você.
– Doutor? – perguntou Gloria. – Posso fumar um cigarro?
– Como não – disse o médico, puxando um maço de cigarros exóticos, fazendo, com um tapinha, saltar um deles. Gloria o apanhou e o médico estendeu seu isqueiro folhado a ouro, acendendo-o. Gloria inalou, exalou...
– Você tem mãos lindas, dr. Jensen – ela disse.
– Oh, muito obrigado, querida.
– E uma gentileza que salva, uma gentileza que cura...
– Bem, fazemos o nosso melhor por aqui... – disse o dr. Jensen, com doçura. – Bem, se vocês puderem me dar licença, tenho que falar com outros pacientes.
Ergueu o corpanzil com facilidade da cadeira e seguiu na direção de uma mesa onde uma mulher visitava outro homem.
Gloria olhou fixamente para Harry.
– Aquele gordo fodido! Vive lambendo o rabo das enfermeiras...
– Gloria, foi ótimo ter estado com você, mas a viagem foi longa e eu preciso descansar um pouco. E acho que o doutor está certo. Pude notar sua melhora.
Ela deu uma risada. Mas não uma risada pura, foi mais como uma daquelas gargalhadas de palco, como se fizesse parte de um papel decorado.
– Não fiz nenhum progresso. Pra falar a verdade, acho até que piorei...
– Isso não é verdade, Gloria...
– Sou eu a paciente, cabeça de peixe. Posso chegar ao diagnóstico melhor do que ninguém.
– Que negócio é esse de “cabeça de peixe”?
– Ninguém nunca lhe disse que a sua cabeça parece a de um peixe?
– Não.
– A próxima vez que fizer a barba, repare nisso. E cuidado para não cortar suas guelras.
– Tenho que ir embora... mas amanhã eu venho fazer outra visita...
– Da próxima vez traga o condutor.
– Tem certeza de que não quer que eu traga nada?
– Eu sei que você vai voltar pro motel pra comer alguma vagabunda!
– Que tal se eu trouxer um número da New York? Você costumava gostar dessa revista...
– Enfia a New York no cu, cabeça de peixe. E aproveita o embalo e já mete junto uma TIME!
Harry estendeu um dos braços e apertou a mão que ela usara para se golpear, deu meia-volta e se afastou em direção à escada. Quando já havia subido metade dos degraus, voltou-se e fez um leve aceno para Gloria. Ela ficou sentada, sem esboçar reação.
Estavam no escuro, tudo ia bem, quando o telefone tocou.
Harry continuou metendo, mas o telefone não parava de tocar. Aquilo era extremamente perturbador. Logo seu pau amoleceu.
– Merda – ele disse, rolando por sobre o corpo. Acendeu a luz e atendeu o telefone.
– Alô?
Era Gloria.
– Você está comendo alguma vagabunda!
– Gloria, eles deixam você ligar a uma hora dessas? Não dão uma pílula pra você dormir ou algo assim?
– Por que você demorou tanto pra atender o telefone?
– Você nunca vai ao banheiro? Eu estava no meio de um cocô dos bons, tudo saindo que era uma maravilha.
– Sim, eu vou... Você ia terminar tudo pra só depois me atender?
– Gloria, tudo isso é culpa dessa sua paranoia extrema. Foi isso que pôs você aí onde você está.
– Cabeça de peixe, minha paranoia frequentemente tem sido a precursora de uma verdade muito aproximada.
– Escute, o que você está dizendo não faz nenhum sentido. Vá dormir um pouco. Amanhã eu lhe faço uma visita.
– Certo, cabeça de peixe, termine a sua TREPADA!
Gloria desligou.
Nan vestia camisola e estava sentada à beira do colchão, com uísque e água em sua cabeceira. Acendeu um cigarro e cruzou as pernas.
– Bem – ela perguntou – como vai a sua querida esposa?
Harry serviu uma bebida e se sentou ao lado dela.
– Sinto muito, Nan...
– Sente pelo quê? Por quem? Por ela, por mim ou o quê?
Harry secou sua dose de uísque.
– Tudo bem, não precisamos fazer um dramalhão por causa disso.
– Ah, não? Bem, como você quer encarar o assunto? Como uma trepadinha qualquer? Quer ver se consegue terminar ainda? Ou prefere ir pro banheiro e bater uma?
Harry olhou para Nan.
– Mas que diabos, não banque a espertinha. Você conhece a situação tão bem quanto eu. Foi você quem quis vir junto comigo!
– Porque sabia que se eu não viesse junto você traria uma vagabunda qualquer com você!
– Caralho – disse Harry –, eis a palavra mágica outra vez.
– Que palavra? Que palavra? – Nan esvaziou seu copo e o lançou contra a parede.
Harry se levantou, apanhou o copo dela, encheu-o novamente, alcançou-o a Nan, e depois voltou a se servir de uma dose.
Nan olhou para a bebida, tomou-a de um gole só, depositou o copo sobre a mesa de cabeceira.
– Vou ligar pra ela. Vou dizer tudo o que está acontecendo entre nós!
– Nem morta! Ela é uma mulher doente!
– E você é um filho da puta doente!
Neste instante o telefone voltou a tocar. Estava posicionado no centro do quarto, no chão, onde Harry o havia deixado. Os dois saltaram da cama ao mesmo tempo em direção ao aparelho. Ao segundo toque os dois já estavam ali, cada qual segurando uma das extremidades do fone. Rolaram sem parar por sobre o tapete, ofegantes, as pernas e os braços numa justaposição desesperada, assim refletida no espelho que cobria todo o teto.
– Septuagenarian Stew
– Você é o condutor? – ela perguntou
– O condutor do quê?
– O condutor da verossimilhança?
– Não, não sou.
Ela estava pálida, seus olhos estavam pálidos, de um azul pálido.
– Como você se sente, Gloria?
Era uma mesa de ferro, pintada de branco, uma mesa capaz de resistir à ação dos séculos. Havia um pequeno vaso com flores no centro, flores murchas e mortas pendendo de tristes e curvas hastes.
–Você trepa com putas, Harry. Você gosta de trepar com putas.
– Isso não é verdade, Gloria.
– Elas também chupam você? Elas chupam seu pau?
– Ia trazer sua mãe, Gloria, mas ela ainda não melhorou da gripe.
– Aquela velha pilantra está sempre armando alguma coisa... Você é o condutor?
Os outros pacientes estavam sentados às mesas, escorados nas árvores ou estendidos sobre o gramado. Estavam imóveis e silenciosos.
– Que tal a comida aqui, Gloria? Já fez algum amigo?
– Terrível. E não. Seu comedor de putas.
– Quer alguma coisa pra ler? Algum tipo de leitura que eu possa trazer?
Gloria não respondeu. Então ela ergueu a mão direita, examinou-a, fechou o punho e golpeou a si mesma no nariz, com toda força. Harry cruzou a mesa e segurou suas duas mãos.
– Gloria, por favor!
Ela começou a chorar.
– Por que você não me trouxe chocolates?
– Gloria, você tinha me dito que odiava chocolate.
As lágrimas desciam em profusão.
– Eu não odeio chocolate! Eu amo chocolate!
– Não chore, Gloria, por favor... Trarei chocolates, trarei o que você quiser... Escute, aluguei o quarto num motel aqui perto, a umas poucas quadras, só pra estar perto de você.
Seus olhos pálidos se arregalaram.
– Um quarto de motel? Você deve estar lá com alguma vagabunda! Devem ficar vendo filmes pornôs juntos, espelho no teto e tudo!
– Vou ficar aqui por perto uns dois dias – disse Harry, com suavidade. – Posso trazer o que você quiser.
– Me traga seu amor, então – ela gritou. – Por que, diabos, você não me traz o seu amor?
Alguns dos pacientes se voltaram para olhar.
– Gloria, tenho certeza que não há no mundo alguém que se importe com você mais do que eu.
– Quer me trazer chocolates? Bem, pois enfie os chocolates no olho do cu!
Harry tirou um cartão de sua carteira. Era do motel. Alcançou-o para ela.
– Só quero dar isso a você, antes que eu me esqueça. Você tem permissão pra fazer chamadas externas? Está aqui o meu número, pra tudo o que você precisar.
Gloria não respondeu. Ela pegou o cartão e dobrou-o até que não restasse mais que um pequeno quadrado. Então se abaixou, tirou um dos sapatos, colocou o cartão lá dentro e voltou a calçá-lo.
Em seguida, Harry avistou o dr. Jensen se aproximando pelo gramado. O médico caminhava sorridente e logo disse:
– Bem, bem, bem...
– Olá, dr. Jensen – falou Gloria sem emoção.
– Posso me sentar? – perguntou o médico.
– Claro – disse Gloria.
O médico era um homem pesado. Emanava um ar de importância, autoridade e responsabilidade. Suas sobrancelhas tinham uma aparência grossa e pesada, eram, de fato, grossas e pesadas. Pareciam querer deslizar até sua boca úmida e redonda e desaparecer, mas a vida jamais lhes permitiria isso.
O médico olhou para Gloria. Depois para Harry.
– Bem, bem, bem – ele disse. – Estou realmente satisfeito com o progresso que fizemos até agora...
– Sim, dr. Jensen, eu estava dizendo pro Harry como me sinto mais estável, o quanto as consultas e as sessões de grupo têm me ajudado. Muito daquela minha raiva sem motivo aparente, daquela minha sensação inútil de frustração, da minha autocomiseração destrutiva já desapareceram...
Gloria se sentou com as mãos cruzadas sobre o colo, sorrindo.
O médico sorriu para Harry.
– Gloria fez um notável progresso!
– Sim – Harry disse –, pude perceber.
– Creio que é questão de um pouquinho mais de tempo, Harry, e Gloria poderá voltar pra casa com você.
– Doutor? – perguntou Gloria. – Posso fumar um cigarro?
– Como não – disse o médico, puxando um maço de cigarros exóticos, fazendo, com um tapinha, saltar um deles. Gloria o apanhou e o médico estendeu seu isqueiro folhado a ouro, acendendo-o. Gloria inalou, exalou...
– Você tem mãos lindas, dr. Jensen – ela disse.
– Oh, muito obrigado, querida.
– E uma gentileza que salva, uma gentileza que cura...
– Bem, fazemos o nosso melhor por aqui... – disse o dr. Jensen, com doçura. – Bem, se vocês puderem me dar licença, tenho que falar com outros pacientes.
Ergueu o corpanzil com facilidade da cadeira e seguiu na direção de uma mesa onde uma mulher visitava outro homem.
Gloria olhou fixamente para Harry.
– Aquele gordo fodido! Vive lambendo o rabo das enfermeiras...
– Gloria, foi ótimo ter estado com você, mas a viagem foi longa e eu preciso descansar um pouco. E acho que o doutor está certo. Pude notar sua melhora.
Ela deu uma risada. Mas não uma risada pura, foi mais como uma daquelas gargalhadas de palco, como se fizesse parte de um papel decorado.
– Não fiz nenhum progresso. Pra falar a verdade, acho até que piorei...
– Isso não é verdade, Gloria...
– Sou eu a paciente, cabeça de peixe. Posso chegar ao diagnóstico melhor do que ninguém.
– Que negócio é esse de “cabeça de peixe”?
– Ninguém nunca lhe disse que a sua cabeça parece a de um peixe?
– Não.
– A próxima vez que fizer a barba, repare nisso. E cuidado para não cortar suas guelras.
– Tenho que ir embora... mas amanhã eu venho fazer outra visita...
– Da próxima vez traga o condutor.
– Tem certeza de que não quer que eu traga nada?
– Eu sei que você vai voltar pro motel pra comer alguma vagabunda!
– Que tal se eu trouxer um número da New York? Você costumava gostar dessa revista...
– Enfia a New York no cu, cabeça de peixe. E aproveita o embalo e já mete junto uma TIME!
Harry estendeu um dos braços e apertou a mão que ela usara para se golpear, deu meia-volta e se afastou em direção à escada. Quando já havia subido metade dos degraus, voltou-se e fez um leve aceno para Gloria. Ela ficou sentada, sem esboçar reação.
Estavam no escuro, tudo ia bem, quando o telefone tocou.
Harry continuou metendo, mas o telefone não parava de tocar. Aquilo era extremamente perturbador. Logo seu pau amoleceu.
– Merda – ele disse, rolando por sobre o corpo. Acendeu a luz e atendeu o telefone.
– Alô?
Era Gloria.
– Você está comendo alguma vagabunda!
– Gloria, eles deixam você ligar a uma hora dessas? Não dão uma pílula pra você dormir ou algo assim?
– Por que você demorou tanto pra atender o telefone?
– Você nunca vai ao banheiro? Eu estava no meio de um cocô dos bons, tudo saindo que era uma maravilha.
– Sim, eu vou... Você ia terminar tudo pra só depois me atender?
– Gloria, tudo isso é culpa dessa sua paranoia extrema. Foi isso que pôs você aí onde você está.
– Cabeça de peixe, minha paranoia frequentemente tem sido a precursora de uma verdade muito aproximada.
– Escute, o que você está dizendo não faz nenhum sentido. Vá dormir um pouco. Amanhã eu lhe faço uma visita.
– Certo, cabeça de peixe, termine a sua TREPADA!
Gloria desligou.
Nan vestia camisola e estava sentada à beira do colchão, com uísque e água em sua cabeceira. Acendeu um cigarro e cruzou as pernas.
– Bem – ela perguntou – como vai a sua querida esposa?
Harry serviu uma bebida e se sentou ao lado dela.
– Sinto muito, Nan...
– Sente pelo quê? Por quem? Por ela, por mim ou o quê?
Harry secou sua dose de uísque.
– Tudo bem, não precisamos fazer um dramalhão por causa disso.
– Ah, não? Bem, como você quer encarar o assunto? Como uma trepadinha qualquer? Quer ver se consegue terminar ainda? Ou prefere ir pro banheiro e bater uma?
Harry olhou para Nan.
– Mas que diabos, não banque a espertinha. Você conhece a situação tão bem quanto eu. Foi você quem quis vir junto comigo!
– Porque sabia que se eu não viesse junto você traria uma vagabunda qualquer com você!
– Caralho – disse Harry –, eis a palavra mágica outra vez.
– Que palavra? Que palavra? – Nan esvaziou seu copo e o lançou contra a parede.
Harry se levantou, apanhou o copo dela, encheu-o novamente, alcançou-o a Nan, e depois voltou a se servir de uma dose.
Nan olhou para a bebida, tomou-a de um gole só, depositou o copo sobre a mesa de cabeceira.
– Vou ligar pra ela. Vou dizer tudo o que está acontecendo entre nós!
– Nem morta! Ela é uma mulher doente!
– E você é um filho da puta doente!
Neste instante o telefone voltou a tocar. Estava posicionado no centro do quarto, no chão, onde Harry o havia deixado. Os dois saltaram da cama ao mesmo tempo em direção ao aparelho. Ao segundo toque os dois já estavam ali, cada qual segurando uma das extremidades do fone. Rolaram sem parar por sobre o tapete, ofegantes, as pernas e os braços numa justaposição desesperada, assim refletida no espelho que cobria todo o teto.
– Septuagenarian Stew
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Charles Bukowski
Traga-Me Seu Amor
Harry venceu os degraus que o separavam do jardim. Muitos dos pacientes estavam por ali. Haviam-lhe dito que sua esposa, Gloria, estava ali fora. Avistou-a sentada sozinha em uma mesa. Aproximou-se de forma oblíqua, por um dos lados e um pouco às costas dela. Gloria sentava-se bastante ereta, estava muito pálida. Olhava para ele, mas não o enxergava. Até que por fim o viu.
– Você é o condutor? – ela perguntou
– O condutor do quê?
– O condutor da verossimilhança?
– Não, não sou.
Ela estava pálida, seus olhos estavam pálidos, de um azul pálido.
– Como você se sente, Gloria?
Era uma mesa de ferro, pintada de branco, uma mesa capaz de resistir à ação dos séculos. Havia um pequeno vaso com flores no centro, flores murchas e mortas pendendo de tristes e curvas hastes.
–Você trepa com putas, Harry. Você gosta de trepar com putas.
– Isso não é verdade, Gloria.
– Elas também chupam você? Elas chupam seu pau?
– Ia trazer sua mãe, Gloria, mas ela ainda não melhorou da gripe.
– Aquela velha pilantra está sempre armando alguma coisa... Você é o condutor?
Os outros pacientes estavam sentados às mesas, escorados nas árvores ou estendidos sobre o gramado. Estavam imóveis e silenciosos.
– Que tal a comida aqui, Gloria? Já fez algum amigo?
– Terrível. E não. Seu comedor de putas.
– Quer alguma coisa pra ler? Algum tipo de leitura que eu possa trazer?
Gloria não respondeu. Então ela ergueu a mão direita, examinou-a, fechou o punho e golpeou a si mesma no nariz, com toda força. Harry cruzou a mesa e segurou suas duas mãos.
– Gloria, por favor!
Ela começou a chorar.
– Por que você não me trouxe chocolates?
– Gloria, você tinha me dito que odiava chocolate.
As lágrimas desciam em profusão.
– Eu não odeio chocolate! Eu amo chocolate!
– Não chore, Gloria, por favor... Trarei chocolates, trarei o que você quiser... Escute, aluguei o quarto num motel aqui perto, a umas poucas quadras, só pra estar perto de você.
Seus olhos pálidos se arregalaram.
– Um quarto de motel? Você deve estar lá com alguma vagabunda! Devem ficar vendo filmes pornôs juntos, espelho no teto e tudo!
– Vou ficar aqui por perto uns dois dias – disse Harry, com suavidade. – Posso trazer o que você quiser.
– Me traga seu amor, então – ela gritou. – Por que, diabos, você não me traz o seu amor?
Alguns dos pacientes se voltaram para olhar.
– Gloria, tenho certeza que não há no mundo alguém que se importe com você mais do que eu.
– Quer me trazer chocolates? Bem, pois enfie os chocolates no olho do cu!
Harry tirou um cartão de sua carteira. Era do motel. Alcançou-o para ela.
– Só quero dar isso a você, antes que eu me esqueça. Você tem permissão pra fazer chamadas externas? Está aqui o meu número, pra tudo o que você precisar.
Gloria não respondeu. Ela pegou o cartão e dobrou-o até que não restasse mais que um pequeno quadrado. Então se abaixou, tirou um dos sapatos, colocou o cartão lá dentro e voltou a calçá-lo.
Em seguida, Harry avistou o dr. Jensen se aproximando pelo gramado. O médico caminhava sorridente e logo disse:
– Bem, bem, bem...
– Olá, dr. Jensen – falou Gloria sem emoção.
– Posso me sentar? – perguntou o médico.
– Claro – disse Gloria.
O médico era um homem pesado. Emanava um ar de importância, autoridade e responsabilidade. Suas sobrancelhas tinham uma aparência grossa e pesada, eram, de fato, grossas e pesadas. Pareciam querer deslizar até sua boca úmida e redonda e desaparecer, mas a vida jamais lhes permitiria isso.
O médico olhou para Gloria. Depois para Harry.
– Bem, bem, bem – ele disse. – Estou realmente satisfeito com o progresso que fizemos até agora...
– Sim, dr. Jensen, eu estava dizendo pro Harry como me sinto mais estável, o quanto as consultas e as sessões de grupo têm me ajudado. Muito daquela minha raiva sem motivo aparente, daquela minha sensação inútil de frustração, da minha autocomiseração destrutiva já desapareceram...
Gloria se sentou com as mãos cruzadas sobre o colo, sorrindo.
O médico sorriu para Harry.
– Gloria fez um notável progresso!
– Sim – Harry disse –, pude perceber.
– Creio que é questão de um pouquinho mais de tempo, Harry, e Gloria poderá voltar pra casa com você.
– Doutor? – perguntou Gloria. – Posso fumar um cigarro?
– Como não – disse o médico, puxando um maço de cigarros exóticos, fazendo, com um tapinha, saltar um deles. Gloria o apanhou e o médico estendeu seu isqueiro folhado a ouro, acendendo-o. Gloria inalou, exalou...
– Você tem mãos lindas, dr. Jensen – ela disse.
– Oh, muito obrigado, querida.
– E uma gentileza que salva, uma gentileza que cura...
– Bem, fazemos o nosso melhor por aqui... – disse o dr. Jensen, com doçura. – Bem, se vocês puderem me dar licença, tenho que falar com outros pacientes.
Ergueu o corpanzil com facilidade da cadeira e seguiu na direção de uma mesa onde uma mulher visitava outro homem.
Gloria olhou fixamente para Harry.
– Aquele gordo fodido! Vive lambendo o rabo das enfermeiras...
– Gloria, foi ótimo ter estado com você, mas a viagem foi longa e eu preciso descansar um pouco. E acho que o doutor está certo. Pude notar sua melhora.
Ela deu uma risada. Mas não uma risada pura, foi mais como uma daquelas gargalhadas de palco, como se fizesse parte de um papel decorado.
– Não fiz nenhum progresso. Pra falar a verdade, acho até que piorei...
– Isso não é verdade, Gloria...
– Sou eu a paciente, cabeça de peixe. Posso chegar ao diagnóstico melhor do que ninguém.
– Que negócio é esse de “cabeça de peixe”?
– Ninguém nunca lhe disse que a sua cabeça parece a de um peixe?
– Não.
– A próxima vez que fizer a barba, repare nisso. E cuidado para não cortar suas guelras.
– Tenho que ir embora... mas amanhã eu venho fazer outra visita...
– Da próxima vez traga o condutor.
– Tem certeza de que não quer que eu traga nada?
– Eu sei que você vai voltar pro motel pra comer alguma vagabunda!
– Que tal se eu trouxer um número da New York? Você costumava gostar dessa revista...
– Enfia a New York no cu, cabeça de peixe. E aproveita o embalo e já mete junto uma TIME!
Harry estendeu um dos braços e apertou a mão que ela usara para se golpear, deu meia-volta e se afastou em direção à escada. Quando já havia subido metade dos degraus, voltou-se e fez um leve aceno para Gloria. Ela ficou sentada, sem esboçar reação.
Estavam no escuro, tudo ia bem, quando o telefone tocou.
Harry continuou metendo, mas o telefone não parava de tocar. Aquilo era extremamente perturbador. Logo seu pau amoleceu.
– Merda – ele disse, rolando por sobre o corpo. Acendeu a luz e atendeu o telefone.
– Alô?
Era Gloria.
– Você está comendo alguma vagabunda!
– Gloria, eles deixam você ligar a uma hora dessas? Não dão uma pílula pra você dormir ou algo assim?
– Por que você demorou tanto pra atender o telefone?
– Você nunca vai ao banheiro? Eu estava no meio de um cocô dos bons, tudo saindo que era uma maravilha.
– Sim, eu vou... Você ia terminar tudo pra só depois me atender?
– Gloria, tudo isso é culpa dessa sua paranoia extrema. Foi isso que pôs você aí onde você está.
– Cabeça de peixe, minha paranoia frequentemente tem sido a precursora de uma verdade muito aproximada.
– Escute, o que você está dizendo não faz nenhum sentido. Vá dormir um pouco. Amanhã eu lhe faço uma visita.
– Certo, cabeça de peixe, termine a sua TREPADA!
Gloria desligou.
Nan vestia camisola e estava sentada à beira do colchão, com uísque e água em sua cabeceira. Acendeu um cigarro e cruzou as pernas.
– Bem – ela perguntou – como vai a sua querida esposa?
Harry serviu uma bebida e se sentou ao lado dela.
– Sinto muito, Nan...
– Sente pelo quê? Por quem? Por ela, por mim ou o quê?
Harry secou sua dose de uísque.
– Tudo bem, não precisamos fazer um dramalhão por causa disso.
– Ah, não? Bem, como você quer encarar o assunto? Como uma trepadinha qualquer? Quer ver se consegue terminar ainda? Ou prefere ir pro banheiro e bater uma?
Harry olhou para Nan.
– Mas que diabos, não banque a espertinha. Você conhece a situação tão bem quanto eu. Foi você quem quis vir junto comigo!
– Porque sabia que se eu não viesse junto você traria uma vagabunda qualquer com você!
– Caralho – disse Harry –, eis a palavra mágica outra vez.
– Que palavra? Que palavra? – Nan esvaziou seu copo e o lançou contra a parede.
Harry se levantou, apanhou o copo dela, encheu-o novamente, alcançou-o a Nan, e depois voltou a se servir de uma dose.
Nan olhou para a bebida, tomou-a de um gole só, depositou o copo sobre a mesa de cabeceira.
– Vou ligar pra ela. Vou dizer tudo o que está acontecendo entre nós!
– Nem morta! Ela é uma mulher doente!
– E você é um filho da puta doente!
Neste instante o telefone voltou a tocar. Estava posicionado no centro do quarto, no chão, onde Harry o havia deixado. Os dois saltaram da cama ao mesmo tempo em direção ao aparelho. Ao segundo toque os dois já estavam ali, cada qual segurando uma das extremidades do fone. Rolaram sem parar por sobre o tapete, ofegantes, as pernas e os braços numa justaposição desesperada, assim refletida no espelho que cobria todo o teto.
– Septuagenarian Stew
– Você é o condutor? – ela perguntou
– O condutor do quê?
– O condutor da verossimilhança?
– Não, não sou.
Ela estava pálida, seus olhos estavam pálidos, de um azul pálido.
– Como você se sente, Gloria?
Era uma mesa de ferro, pintada de branco, uma mesa capaz de resistir à ação dos séculos. Havia um pequeno vaso com flores no centro, flores murchas e mortas pendendo de tristes e curvas hastes.
–Você trepa com putas, Harry. Você gosta de trepar com putas.
– Isso não é verdade, Gloria.
– Elas também chupam você? Elas chupam seu pau?
– Ia trazer sua mãe, Gloria, mas ela ainda não melhorou da gripe.
– Aquela velha pilantra está sempre armando alguma coisa... Você é o condutor?
Os outros pacientes estavam sentados às mesas, escorados nas árvores ou estendidos sobre o gramado. Estavam imóveis e silenciosos.
– Que tal a comida aqui, Gloria? Já fez algum amigo?
– Terrível. E não. Seu comedor de putas.
– Quer alguma coisa pra ler? Algum tipo de leitura que eu possa trazer?
Gloria não respondeu. Então ela ergueu a mão direita, examinou-a, fechou o punho e golpeou a si mesma no nariz, com toda força. Harry cruzou a mesa e segurou suas duas mãos.
– Gloria, por favor!
Ela começou a chorar.
– Por que você não me trouxe chocolates?
– Gloria, você tinha me dito que odiava chocolate.
As lágrimas desciam em profusão.
– Eu não odeio chocolate! Eu amo chocolate!
– Não chore, Gloria, por favor... Trarei chocolates, trarei o que você quiser... Escute, aluguei o quarto num motel aqui perto, a umas poucas quadras, só pra estar perto de você.
Seus olhos pálidos se arregalaram.
– Um quarto de motel? Você deve estar lá com alguma vagabunda! Devem ficar vendo filmes pornôs juntos, espelho no teto e tudo!
– Vou ficar aqui por perto uns dois dias – disse Harry, com suavidade. – Posso trazer o que você quiser.
– Me traga seu amor, então – ela gritou. – Por que, diabos, você não me traz o seu amor?
Alguns dos pacientes se voltaram para olhar.
– Gloria, tenho certeza que não há no mundo alguém que se importe com você mais do que eu.
– Quer me trazer chocolates? Bem, pois enfie os chocolates no olho do cu!
Harry tirou um cartão de sua carteira. Era do motel. Alcançou-o para ela.
– Só quero dar isso a você, antes que eu me esqueça. Você tem permissão pra fazer chamadas externas? Está aqui o meu número, pra tudo o que você precisar.
Gloria não respondeu. Ela pegou o cartão e dobrou-o até que não restasse mais que um pequeno quadrado. Então se abaixou, tirou um dos sapatos, colocou o cartão lá dentro e voltou a calçá-lo.
Em seguida, Harry avistou o dr. Jensen se aproximando pelo gramado. O médico caminhava sorridente e logo disse:
– Bem, bem, bem...
– Olá, dr. Jensen – falou Gloria sem emoção.
– Posso me sentar? – perguntou o médico.
– Claro – disse Gloria.
O médico era um homem pesado. Emanava um ar de importância, autoridade e responsabilidade. Suas sobrancelhas tinham uma aparência grossa e pesada, eram, de fato, grossas e pesadas. Pareciam querer deslizar até sua boca úmida e redonda e desaparecer, mas a vida jamais lhes permitiria isso.
O médico olhou para Gloria. Depois para Harry.
– Bem, bem, bem – ele disse. – Estou realmente satisfeito com o progresso que fizemos até agora...
– Sim, dr. Jensen, eu estava dizendo pro Harry como me sinto mais estável, o quanto as consultas e as sessões de grupo têm me ajudado. Muito daquela minha raiva sem motivo aparente, daquela minha sensação inútil de frustração, da minha autocomiseração destrutiva já desapareceram...
Gloria se sentou com as mãos cruzadas sobre o colo, sorrindo.
O médico sorriu para Harry.
– Gloria fez um notável progresso!
– Sim – Harry disse –, pude perceber.
– Creio que é questão de um pouquinho mais de tempo, Harry, e Gloria poderá voltar pra casa com você.
– Doutor? – perguntou Gloria. – Posso fumar um cigarro?
– Como não – disse o médico, puxando um maço de cigarros exóticos, fazendo, com um tapinha, saltar um deles. Gloria o apanhou e o médico estendeu seu isqueiro folhado a ouro, acendendo-o. Gloria inalou, exalou...
– Você tem mãos lindas, dr. Jensen – ela disse.
– Oh, muito obrigado, querida.
– E uma gentileza que salva, uma gentileza que cura...
– Bem, fazemos o nosso melhor por aqui... – disse o dr. Jensen, com doçura. – Bem, se vocês puderem me dar licença, tenho que falar com outros pacientes.
Ergueu o corpanzil com facilidade da cadeira e seguiu na direção de uma mesa onde uma mulher visitava outro homem.
Gloria olhou fixamente para Harry.
– Aquele gordo fodido! Vive lambendo o rabo das enfermeiras...
– Gloria, foi ótimo ter estado com você, mas a viagem foi longa e eu preciso descansar um pouco. E acho que o doutor está certo. Pude notar sua melhora.
Ela deu uma risada. Mas não uma risada pura, foi mais como uma daquelas gargalhadas de palco, como se fizesse parte de um papel decorado.
– Não fiz nenhum progresso. Pra falar a verdade, acho até que piorei...
– Isso não é verdade, Gloria...
– Sou eu a paciente, cabeça de peixe. Posso chegar ao diagnóstico melhor do que ninguém.
– Que negócio é esse de “cabeça de peixe”?
– Ninguém nunca lhe disse que a sua cabeça parece a de um peixe?
– Não.
– A próxima vez que fizer a barba, repare nisso. E cuidado para não cortar suas guelras.
– Tenho que ir embora... mas amanhã eu venho fazer outra visita...
– Da próxima vez traga o condutor.
– Tem certeza de que não quer que eu traga nada?
– Eu sei que você vai voltar pro motel pra comer alguma vagabunda!
– Que tal se eu trouxer um número da New York? Você costumava gostar dessa revista...
– Enfia a New York no cu, cabeça de peixe. E aproveita o embalo e já mete junto uma TIME!
Harry estendeu um dos braços e apertou a mão que ela usara para se golpear, deu meia-volta e se afastou em direção à escada. Quando já havia subido metade dos degraus, voltou-se e fez um leve aceno para Gloria. Ela ficou sentada, sem esboçar reação.
Estavam no escuro, tudo ia bem, quando o telefone tocou.
Harry continuou metendo, mas o telefone não parava de tocar. Aquilo era extremamente perturbador. Logo seu pau amoleceu.
– Merda – ele disse, rolando por sobre o corpo. Acendeu a luz e atendeu o telefone.
– Alô?
Era Gloria.
– Você está comendo alguma vagabunda!
– Gloria, eles deixam você ligar a uma hora dessas? Não dão uma pílula pra você dormir ou algo assim?
– Por que você demorou tanto pra atender o telefone?
– Você nunca vai ao banheiro? Eu estava no meio de um cocô dos bons, tudo saindo que era uma maravilha.
– Sim, eu vou... Você ia terminar tudo pra só depois me atender?
– Gloria, tudo isso é culpa dessa sua paranoia extrema. Foi isso que pôs você aí onde você está.
– Cabeça de peixe, minha paranoia frequentemente tem sido a precursora de uma verdade muito aproximada.
– Escute, o que você está dizendo não faz nenhum sentido. Vá dormir um pouco. Amanhã eu lhe faço uma visita.
– Certo, cabeça de peixe, termine a sua TREPADA!
Gloria desligou.
Nan vestia camisola e estava sentada à beira do colchão, com uísque e água em sua cabeceira. Acendeu um cigarro e cruzou as pernas.
– Bem – ela perguntou – como vai a sua querida esposa?
Harry serviu uma bebida e se sentou ao lado dela.
– Sinto muito, Nan...
– Sente pelo quê? Por quem? Por ela, por mim ou o quê?
Harry secou sua dose de uísque.
– Tudo bem, não precisamos fazer um dramalhão por causa disso.
– Ah, não? Bem, como você quer encarar o assunto? Como uma trepadinha qualquer? Quer ver se consegue terminar ainda? Ou prefere ir pro banheiro e bater uma?
Harry olhou para Nan.
– Mas que diabos, não banque a espertinha. Você conhece a situação tão bem quanto eu. Foi você quem quis vir junto comigo!
– Porque sabia que se eu não viesse junto você traria uma vagabunda qualquer com você!
– Caralho – disse Harry –, eis a palavra mágica outra vez.
– Que palavra? Que palavra? – Nan esvaziou seu copo e o lançou contra a parede.
Harry se levantou, apanhou o copo dela, encheu-o novamente, alcançou-o a Nan, e depois voltou a se servir de uma dose.
Nan olhou para a bebida, tomou-a de um gole só, depositou o copo sobre a mesa de cabeceira.
– Vou ligar pra ela. Vou dizer tudo o que está acontecendo entre nós!
– Nem morta! Ela é uma mulher doente!
– E você é um filho da puta doente!
Neste instante o telefone voltou a tocar. Estava posicionado no centro do quarto, no chão, onde Harry o havia deixado. Os dois saltaram da cama ao mesmo tempo em direção ao aparelho. Ao segundo toque os dois já estavam ali, cada qual segurando uma das extremidades do fone. Rolaram sem parar por sobre o tapete, ofegantes, as pernas e os braços numa justaposição desesperada, assim refletida no espelho que cobria todo o teto.
– Septuagenarian Stew
1 125
Charles Bukowski
Aquela Garota Linda Que Entrou Para Trocar A Roupa De Cama
eu a conheci quando ela entrou para
trocar a roupa de cama.
St. Louis.
ela me disse: você está doente.
e eu disse:
sim, estou doente.
e ela disse:
você precisar beber algo.
eu vim para trocar a roupa de cama
mas você precisa beber alguma coisa
dê-me algum dinheiro e
eu volto com alguma coisa para
beber.
então
eu dei a ela o dinheiro
sem conhecê-la
mas ela voltou com algo para
beber.
ela sentou em uma cadeira e eu
fiquei na cama e nós bebemos
silenciosamente.
e então começamos a conversar
e então rimos um pouco
e eu comecei a me sentir melhor e ela
a parecer mais bonita
e eu disse:
eu não achei que você fosse voltar
e ela disse:
diabo, eu trabalho aqui.
e eu disse:
ah, por isso você
voltou.
e ela disse:
não, não foi por isso que voltei.
e eu
gostei disso.
mal consigo me lembrar de como aconteceu
mas logo estávamos os dois na cama
fumando cigarros e tomando
cerveja
naqueles canecões pesados
de meio litro.
ninguém parecia estar com pressa.
e aí começou
a funcionar. não sei como funcionou
mas foi legal. nós
trepamos.
e ela se levantou e fechou as janelas para o sul
e disse:
é isso que o está matando
essa fumaceira subindo da avenida
isso
e a bebida. pelo menos dá para afastá-lo
da fumaceira.
nós rimos e então ela voltou para a cama e nós
conversamos mais um pouco e fumamos e ela
saiu da cama e disse
que precisava ir embora -
o namorado dela vivia no andar de baixo com ela,
e eu disse adeus
e ela foi embora e
então eu olhei para a cadeira
e vi os lençóis limpos e brancos.
ela havia esquecido de trocar a roupa de cama
então eu me levantei e
troquei a roupa de cama por ela.
trocar a roupa de cama.
St. Louis.
ela me disse: você está doente.
e eu disse:
sim, estou doente.
e ela disse:
você precisar beber algo.
eu vim para trocar a roupa de cama
mas você precisa beber alguma coisa
dê-me algum dinheiro e
eu volto com alguma coisa para
beber.
então
eu dei a ela o dinheiro
sem conhecê-la
mas ela voltou com algo para
beber.
ela sentou em uma cadeira e eu
fiquei na cama e nós bebemos
silenciosamente.
e então começamos a conversar
e então rimos um pouco
e eu comecei a me sentir melhor e ela
a parecer mais bonita
e eu disse:
eu não achei que você fosse voltar
e ela disse:
diabo, eu trabalho aqui.
e eu disse:
ah, por isso você
voltou.
e ela disse:
não, não foi por isso que voltei.
e eu
gostei disso.
mal consigo me lembrar de como aconteceu
mas logo estávamos os dois na cama
fumando cigarros e tomando
cerveja
naqueles canecões pesados
de meio litro.
ninguém parecia estar com pressa.
e aí começou
a funcionar. não sei como funcionou
mas foi legal. nós
trepamos.
e ela se levantou e fechou as janelas para o sul
e disse:
é isso que o está matando
essa fumaceira subindo da avenida
isso
e a bebida. pelo menos dá para afastá-lo
da fumaceira.
nós rimos e então ela voltou para a cama e nós
conversamos mais um pouco e fumamos e ela
saiu da cama e disse
que precisava ir embora -
o namorado dela vivia no andar de baixo com ela,
e eu disse adeus
e ela foi embora e
então eu olhei para a cadeira
e vi os lençóis limpos e brancos.
ela havia esquecido de trocar a roupa de cama
então eu me levantei e
troquei a roupa de cama por ela.
1 063
Charles Bukowski
Aquela Garota Linda Que Entrou Para Trocar A Roupa De Cama
eu a conheci quando ela entrou para
trocar a roupa de cama.
St. Louis.
ela me disse: você está doente.
e eu disse:
sim, estou doente.
e ela disse:
você precisar beber algo.
eu vim para trocar a roupa de cama
mas você precisa beber alguma coisa
dê-me algum dinheiro e
eu volto com alguma coisa para
beber.
então
eu dei a ela o dinheiro
sem conhecê-la
mas ela voltou com algo para
beber.
ela sentou em uma cadeira e eu
fiquei na cama e nós bebemos
silenciosamente.
e então começamos a conversar
e então rimos um pouco
e eu comecei a me sentir melhor e ela
a parecer mais bonita
e eu disse:
eu não achei que você fosse voltar
e ela disse:
diabo, eu trabalho aqui.
e eu disse:
ah, por isso você
voltou.
e ela disse:
não, não foi por isso que voltei.
e eu
gostei disso.
mal consigo me lembrar de como aconteceu
mas logo estávamos os dois na cama
fumando cigarros e tomando
cerveja
naqueles canecões pesados
de meio litro.
ninguém parecia estar com pressa.
e aí começou
a funcionar. não sei como funcionou
mas foi legal. nós
trepamos.
e ela se levantou e fechou as janelas para o sul
e disse:
é isso que o está matando
essa fumaceira subindo da avenida
isso
e a bebida. pelo menos dá para afastá-lo
da fumaceira.
nós rimos e então ela voltou para a cama e nós
conversamos mais um pouco e fumamos e ela
saiu da cama e disse
que precisava ir embora -
o namorado dela vivia no andar de baixo com ela,
e eu disse adeus
e ela foi embora e
então eu olhei para a cadeira
e vi os lençóis limpos e brancos.
ela havia esquecido de trocar a roupa de cama
então eu me levantei e
troquei a roupa de cama por ela.
trocar a roupa de cama.
St. Louis.
ela me disse: você está doente.
e eu disse:
sim, estou doente.
e ela disse:
você precisar beber algo.
eu vim para trocar a roupa de cama
mas você precisa beber alguma coisa
dê-me algum dinheiro e
eu volto com alguma coisa para
beber.
então
eu dei a ela o dinheiro
sem conhecê-la
mas ela voltou com algo para
beber.
ela sentou em uma cadeira e eu
fiquei na cama e nós bebemos
silenciosamente.
e então começamos a conversar
e então rimos um pouco
e eu comecei a me sentir melhor e ela
a parecer mais bonita
e eu disse:
eu não achei que você fosse voltar
e ela disse:
diabo, eu trabalho aqui.
e eu disse:
ah, por isso você
voltou.
e ela disse:
não, não foi por isso que voltei.
e eu
gostei disso.
mal consigo me lembrar de como aconteceu
mas logo estávamos os dois na cama
fumando cigarros e tomando
cerveja
naqueles canecões pesados
de meio litro.
ninguém parecia estar com pressa.
e aí começou
a funcionar. não sei como funcionou
mas foi legal. nós
trepamos.
e ela se levantou e fechou as janelas para o sul
e disse:
é isso que o está matando
essa fumaceira subindo da avenida
isso
e a bebida. pelo menos dá para afastá-lo
da fumaceira.
nós rimos e então ela voltou para a cama e nós
conversamos mais um pouco e fumamos e ela
saiu da cama e disse
que precisava ir embora -
o namorado dela vivia no andar de baixo com ela,
e eu disse adeus
e ela foi embora e
então eu olhei para a cadeira
e vi os lençóis limpos e brancos.
ela havia esquecido de trocar a roupa de cama
então eu me levantei e
troquei a roupa de cama por ela.
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Charles Bukowski
Aquela Garota Linda Que Entrou Para Trocar A Roupa De Cama
eu a conheci quando ela entrou para
trocar a roupa de cama.
St. Louis.
ela me disse: você está doente.
e eu disse:
sim, estou doente.
e ela disse:
você precisar beber algo.
eu vim para trocar a roupa de cama
mas você precisa beber alguma coisa
dê-me algum dinheiro e
eu volto com alguma coisa para
beber.
então
eu dei a ela o dinheiro
sem conhecê-la
mas ela voltou com algo para
beber.
ela sentou em uma cadeira e eu
fiquei na cama e nós bebemos
silenciosamente.
e então começamos a conversar
e então rimos um pouco
e eu comecei a me sentir melhor e ela
a parecer mais bonita
e eu disse:
eu não achei que você fosse voltar
e ela disse:
diabo, eu trabalho aqui.
e eu disse:
ah, por isso você
voltou.
e ela disse:
não, não foi por isso que voltei.
e eu
gostei disso.
mal consigo me lembrar de como aconteceu
mas logo estávamos os dois na cama
fumando cigarros e tomando
cerveja
naqueles canecões pesados
de meio litro.
ninguém parecia estar com pressa.
e aí começou
a funcionar. não sei como funcionou
mas foi legal. nós
trepamos.
e ela se levantou e fechou as janelas para o sul
e disse:
é isso que o está matando
essa fumaceira subindo da avenida
isso
e a bebida. pelo menos dá para afastá-lo
da fumaceira.
nós rimos e então ela voltou para a cama e nós
conversamos mais um pouco e fumamos e ela
saiu da cama e disse
que precisava ir embora -
o namorado dela vivia no andar de baixo com ela,
e eu disse adeus
e ela foi embora e
então eu olhei para a cadeira
e vi os lençóis limpos e brancos.
ela havia esquecido de trocar a roupa de cama
então eu me levantei e
troquei a roupa de cama por ela.
trocar a roupa de cama.
St. Louis.
ela me disse: você está doente.
e eu disse:
sim, estou doente.
e ela disse:
você precisar beber algo.
eu vim para trocar a roupa de cama
mas você precisa beber alguma coisa
dê-me algum dinheiro e
eu volto com alguma coisa para
beber.
então
eu dei a ela o dinheiro
sem conhecê-la
mas ela voltou com algo para
beber.
ela sentou em uma cadeira e eu
fiquei na cama e nós bebemos
silenciosamente.
e então começamos a conversar
e então rimos um pouco
e eu comecei a me sentir melhor e ela
a parecer mais bonita
e eu disse:
eu não achei que você fosse voltar
e ela disse:
diabo, eu trabalho aqui.
e eu disse:
ah, por isso você
voltou.
e ela disse:
não, não foi por isso que voltei.
e eu
gostei disso.
mal consigo me lembrar de como aconteceu
mas logo estávamos os dois na cama
fumando cigarros e tomando
cerveja
naqueles canecões pesados
de meio litro.
ninguém parecia estar com pressa.
e aí começou
a funcionar. não sei como funcionou
mas foi legal. nós
trepamos.
e ela se levantou e fechou as janelas para o sul
e disse:
é isso que o está matando
essa fumaceira subindo da avenida
isso
e a bebida. pelo menos dá para afastá-lo
da fumaceira.
nós rimos e então ela voltou para a cama e nós
conversamos mais um pouco e fumamos e ela
saiu da cama e disse
que precisava ir embora -
o namorado dela vivia no andar de baixo com ela,
e eu disse adeus
e ela foi embora e
então eu olhei para a cadeira
e vi os lençóis limpos e brancos.
ela havia esquecido de trocar a roupa de cama
então eu me levantei e
troquei a roupa de cama por ela.
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