Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Charles Bukowski
Eu E Meu Amigão
eu ainda consigo nos ver
juntos
naquele tempo
sentados na margem do rio
enchendo
a cara de
vinho
e brincando com o
poema
sabendo que era
totalmente inútil
mas algo para
fazer
durante
a espera
os imperadores
com seus assustados
semblantes de argila
nos observam enquanto
bebemos
Li Po estraçalha seus
poemas
põe fogo
neles
e os lança flutuando rio
abaixo.
“o que você
fez?”, eu
pergunto.
Li passa a
garrafa: “eles
vão terminar
não importa o que
aconteça...”
eu bebo para saudar seu
conhecimento
passo a garrafa
de volta
sento firme sobre meus
poemas
que eu
enfiei virilha
adentro
ajudo Li a queimar
mais algumas de suas
poesias
elas flutuam bem
rio
abaixo
iluminando a
noite
como deveriam fazer
as boas palavras.
juntos
naquele tempo
sentados na margem do rio
enchendo
a cara de
vinho
e brincando com o
poema
sabendo que era
totalmente inútil
mas algo para
fazer
durante
a espera
os imperadores
com seus assustados
semblantes de argila
nos observam enquanto
bebemos
Li Po estraçalha seus
poemas
põe fogo
neles
e os lança flutuando rio
abaixo.
“o que você
fez?”, eu
pergunto.
Li passa a
garrafa: “eles
vão terminar
não importa o que
aconteça...”
eu bebo para saudar seu
conhecimento
passo a garrafa
de volta
sento firme sobre meus
poemas
que eu
enfiei virilha
adentro
ajudo Li a queimar
mais algumas de suas
poesias
elas flutuam bem
rio
abaixo
iluminando a
noite
como deveriam fazer
as boas palavras.
1 242
Charles Bukowski
O Tempora! o Mores!
venho recebendo revistas de mulherzinha no correio porque
estou escrevendo contos para elas de novo
e aqui nestas páginas aparecem essas damas
expondo suas caixas de joias –
parece mais um periódico de
ginecologia –
tudo descarada e clinicamente
exposto
sob fisionomias insípidas e entediadas.
é um brochante de gigantescas
proporções:
o segredo está na imaginação –
elimine isso e você terá carne
morta.
um século atrás
um homem podia ser levado à loucura
por um tornozelo
bem torneado, e
por que não?
você podia imaginar
que o resto
seria
mágico
sem dúvida!
agora nos empurram tudo como se fosse
um hambúrguer do McDonald’s
numa bandeja.
não há praticamente nada mais lindo do que
uma mulher de vestido longo
nem mesmo o nascer do sol
nem mesmo os gansos voando para o sul
na longa formação em V
na brilhante frescura
da manhã.
estou escrevendo contos para elas de novo
e aqui nestas páginas aparecem essas damas
expondo suas caixas de joias –
parece mais um periódico de
ginecologia –
tudo descarada e clinicamente
exposto
sob fisionomias insípidas e entediadas.
é um brochante de gigantescas
proporções:
o segredo está na imaginação –
elimine isso e você terá carne
morta.
um século atrás
um homem podia ser levado à loucura
por um tornozelo
bem torneado, e
por que não?
você podia imaginar
que o resto
seria
mágico
sem dúvida!
agora nos empurram tudo como se fosse
um hambúrguer do McDonald’s
numa bandeja.
não há praticamente nada mais lindo do que
uma mulher de vestido longo
nem mesmo o nascer do sol
nem mesmo os gansos voando para o sul
na longa formação em V
na brilhante frescura
da manhã.
1 188
Charles Bukowski
A Lâmina
não havia estacionamento perto da agência dos correios onde
eu trabalhava à noite
então encontrei um lugar esplêndido
(ninguém parecia gostar de estacionar ali)
numa estrada de chão atrás de um
matadouro
e ali sentado no meu carro
pouco antes do trabalho
fumando um último cigarro
eu era entretido com a mesma
cena
enquanto cada noitinha afundava em
noite –
os porcos eram pastoreados para fora dos
cercados
e ao longo de rampas
por um homem fazendo sons de porco e
agitando uma grande lona
e os porcos corriam alucinados
pela rampa
rumo à lâmina
que os esperava,
e várias noites
depois de ver aquilo
depois de terminar meu
cigarro
eu simplesmente ligava o carro
recuava dali e
acelerava para longe do meu
emprego.
meu absentismo atingiu tão espantosas
proporções
que precisei afinal
estacionar
a certo custo
atrás de um bar chinês
onde tudo que eu podia ver eram minúsculas janelas
fechadas
com letreiros em neon anunciando certa
libação
oriental.
parecia menos real, e era disso
que se
precisava.
eu trabalhava à noite
então encontrei um lugar esplêndido
(ninguém parecia gostar de estacionar ali)
numa estrada de chão atrás de um
matadouro
e ali sentado no meu carro
pouco antes do trabalho
fumando um último cigarro
eu era entretido com a mesma
cena
enquanto cada noitinha afundava em
noite –
os porcos eram pastoreados para fora dos
cercados
e ao longo de rampas
por um homem fazendo sons de porco e
agitando uma grande lona
e os porcos corriam alucinados
pela rampa
rumo à lâmina
que os esperava,
e várias noites
depois de ver aquilo
depois de terminar meu
cigarro
eu simplesmente ligava o carro
recuava dali e
acelerava para longe do meu
emprego.
meu absentismo atingiu tão espantosas
proporções
que precisei afinal
estacionar
a certo custo
atrás de um bar chinês
onde tudo que eu podia ver eram minúsculas janelas
fechadas
com letreiros em neon anunciando certa
libação
oriental.
parecia menos real, e era disso
que se
precisava.
1 146
Charles Bukowski
Aos Interessados:
se você se casar acham que você está
liquidado
e se você estiver sem mulher acham que você está
incompleto
grande parte dos meus leitores quer que eu
continue escrevendo sobre deitar com loucas e
profissionais de rua –
também sobre estar em cadeias e hospitais, ou
passar fome ou
vomitar até as
tripas.
concordo que a autocomplacência dificilmente rende uma
literatura imortal
mas tampouco a rende a
repetição.
para os leitores ora
deprimidos pela
crença de que sou um homem
contente –
por favor queiram se
alegrar: a aflição às vezes muda
de forma
mas
nunca termina para
ninguém.
liquidado
e se você estiver sem mulher acham que você está
incompleto
grande parte dos meus leitores quer que eu
continue escrevendo sobre deitar com loucas e
profissionais de rua –
também sobre estar em cadeias e hospitais, ou
passar fome ou
vomitar até as
tripas.
concordo que a autocomplacência dificilmente rende uma
literatura imortal
mas tampouco a rende a
repetição.
para os leitores ora
deprimidos pela
crença de que sou um homem
contente –
por favor queiram se
alegrar: a aflição às vezes muda
de forma
mas
nunca termina para
ninguém.
909
Charles Bukowski
É Engraçado, Não É? #2
quando éramos meninos
atirados pelo gramado
de barriga
no chão
falávamos com frequência
sobre
como
gostaríamos de
morrer
e
todos
concordávamos no
mesmo
ponto:
todos
gostaríamos de morrer
fodendo
(embora
nenhum de nós
já tivesse
fodido com
alguém)
e agora
que
não somos mais
nem um pouco
meninos
pensamos mais
sobre
como
não
morrer
e
embora
estejamos
prontos
quase todos
nós
preferiríamos
morrer
sozinhos
sob os
lençóis
agora
que
quase todos
nós
já fodemos
com as nossas
vidas.
atirados pelo gramado
de barriga
no chão
falávamos com frequência
sobre
como
gostaríamos de
morrer
e
todos
concordávamos no
mesmo
ponto:
todos
gostaríamos de morrer
fodendo
(embora
nenhum de nós
já tivesse
fodido com
alguém)
e agora
que
não somos mais
nem um pouco
meninos
pensamos mais
sobre
como
não
morrer
e
embora
estejamos
prontos
quase todos
nós
preferiríamos
morrer
sozinhos
sob os
lençóis
agora
que
quase todos
nós
já fodemos
com as nossas
vidas.
1 353
Charles Bukowski
Glenn Miller
muito tempo atrás
na frente do campus
na sorveteria
a juke-box tocando
as garotas em sintonia perfeita
dançando com os jogadores de futebol
e com os rapazes brilhantes da faculdade
Glenn Miller era o grande sucesso
e todo mundo entrava na dança
quase todo mundo
eu ficava sentado com alguns discípulos
éramos supostos foras da lei
os exploradores da Verdade
mas eu gostava da música
e da preguiça da espera
com o mundo se lançando em guerra
com Hitler arengando
as garotas rodopiavam
graciosas
pernas à mostra
aquele último sol brilhante
nós nos aquecíamos nele
excluindo tudo mais
enquanto o universo abria sua boca
numa tentativa de
engolir todos nós.
na frente do campus
na sorveteria
a juke-box tocando
as garotas em sintonia perfeita
dançando com os jogadores de futebol
e com os rapazes brilhantes da faculdade
Glenn Miller era o grande sucesso
e todo mundo entrava na dança
quase todo mundo
eu ficava sentado com alguns discípulos
éramos supostos foras da lei
os exploradores da Verdade
mas eu gostava da música
e da preguiça da espera
com o mundo se lançando em guerra
com Hitler arengando
as garotas rodopiavam
graciosas
pernas à mostra
aquele último sol brilhante
nós nos aquecíamos nele
excluindo tudo mais
enquanto o universo abria sua boca
numa tentativa de
engolir todos nós.
1 229
Charles Bukowski
Verdade
um dos melhores versos de Lorca
é
“agonia, sempre
agonia...”
pense nisso quando você
matar uma
barata ou
pegar uma navalha para
se barbear
ou despertar na manhã
para
encarar o
sol.
é
“agonia, sempre
agonia...”
pense nisso quando você
matar uma
barata ou
pegar uma navalha para
se barbear
ou despertar na manhã
para
encarar o
sol.
1 320
Charles Bukowski
Verdade
um dos melhores versos de Lorca
é
“agonia, sempre
agonia...”
pense nisso quando você
matar uma
barata ou
pegar uma navalha para
se barbear
ou despertar na manhã
para
encarar o
sol.
é
“agonia, sempre
agonia...”
pense nisso quando você
matar uma
barata ou
pegar uma navalha para
se barbear
ou despertar na manhã
para
encarar o
sol.
1 320
Charles Bukowski
Meu Amigão
para um garoto de 21 anos em Nova Orleans eu não valia grande
coisa: eu tinha um quartinho escuro que cheirava a
mijo e morte
no entanto eu só queria permanecer ali, e havia
duas garotas animadas no fim do corredor que
ficavam batendo na minha porta e gritando “Levante!
Há coisas boas lá fora!”
“Vão embora”, eu lhes dizia, mas isso só as incentivava
mais ainda, elas deixavam bilhetes embaixo da minha porta e
fixavam flores com fita adesiva na
maçaneta.
eu vivia à base de vinho barato e cerveja verde e
demência...
eu acabei conhecendo um velho do quarto
ao lado, de algum modo eu me sentia velho como
ele; ele tinha os pés e os tornozelos inchados e não conseguia
amarrar seus sapatos.
todo dia por volta da uma da tarde nós saíamos juntos para
dar uma caminhada e era uma caminhada muito
lenta: cada passo era doloroso para
ele.
quando chegávamos ao meio-fio eu o ajudava
a subir e descer
agarrando um ombro
e a parte de trás do
cinto, nós conseguíamos.
eu gostava dele: ele nunca me questionava sobre
o que eu estava ou não estava
fazendo.
ele deveria ter sido meu pai, e eu gostava
muitíssimo do que ele dizia o tempo
todo: “Nada vale a
pena”.
ele era um
sábio.
aquelas mocinhas deveriam ter
deixado para ele
os bilhetes e as
flores.
coisa: eu tinha um quartinho escuro que cheirava a
mijo e morte
no entanto eu só queria permanecer ali, e havia
duas garotas animadas no fim do corredor que
ficavam batendo na minha porta e gritando “Levante!
Há coisas boas lá fora!”
“Vão embora”, eu lhes dizia, mas isso só as incentivava
mais ainda, elas deixavam bilhetes embaixo da minha porta e
fixavam flores com fita adesiva na
maçaneta.
eu vivia à base de vinho barato e cerveja verde e
demência...
eu acabei conhecendo um velho do quarto
ao lado, de algum modo eu me sentia velho como
ele; ele tinha os pés e os tornozelos inchados e não conseguia
amarrar seus sapatos.
todo dia por volta da uma da tarde nós saíamos juntos para
dar uma caminhada e era uma caminhada muito
lenta: cada passo era doloroso para
ele.
quando chegávamos ao meio-fio eu o ajudava
a subir e descer
agarrando um ombro
e a parte de trás do
cinto, nós conseguíamos.
eu gostava dele: ele nunca me questionava sobre
o que eu estava ou não estava
fazendo.
ele deveria ter sido meu pai, e eu gostava
muitíssimo do que ele dizia o tempo
todo: “Nada vale a
pena”.
ele era um
sábio.
aquelas mocinhas deveriam ter
deixado para ele
os bilhetes e as
flores.
1 117
Charles Bukowski
Meu Amigão
para um garoto de 21 anos em Nova Orleans eu não valia grande
coisa: eu tinha um quartinho escuro que cheirava a
mijo e morte
no entanto eu só queria permanecer ali, e havia
duas garotas animadas no fim do corredor que
ficavam batendo na minha porta e gritando “Levante!
Há coisas boas lá fora!”
“Vão embora”, eu lhes dizia, mas isso só as incentivava
mais ainda, elas deixavam bilhetes embaixo da minha porta e
fixavam flores com fita adesiva na
maçaneta.
eu vivia à base de vinho barato e cerveja verde e
demência...
eu acabei conhecendo um velho do quarto
ao lado, de algum modo eu me sentia velho como
ele; ele tinha os pés e os tornozelos inchados e não conseguia
amarrar seus sapatos.
todo dia por volta da uma da tarde nós saíamos juntos para
dar uma caminhada e era uma caminhada muito
lenta: cada passo era doloroso para
ele.
quando chegávamos ao meio-fio eu o ajudava
a subir e descer
agarrando um ombro
e a parte de trás do
cinto, nós conseguíamos.
eu gostava dele: ele nunca me questionava sobre
o que eu estava ou não estava
fazendo.
ele deveria ter sido meu pai, e eu gostava
muitíssimo do que ele dizia o tempo
todo: “Nada vale a
pena”.
ele era um
sábio.
aquelas mocinhas deveriam ter
deixado para ele
os bilhetes e as
flores.
coisa: eu tinha um quartinho escuro que cheirava a
mijo e morte
no entanto eu só queria permanecer ali, e havia
duas garotas animadas no fim do corredor que
ficavam batendo na minha porta e gritando “Levante!
Há coisas boas lá fora!”
“Vão embora”, eu lhes dizia, mas isso só as incentivava
mais ainda, elas deixavam bilhetes embaixo da minha porta e
fixavam flores com fita adesiva na
maçaneta.
eu vivia à base de vinho barato e cerveja verde e
demência...
eu acabei conhecendo um velho do quarto
ao lado, de algum modo eu me sentia velho como
ele; ele tinha os pés e os tornozelos inchados e não conseguia
amarrar seus sapatos.
todo dia por volta da uma da tarde nós saíamos juntos para
dar uma caminhada e era uma caminhada muito
lenta: cada passo era doloroso para
ele.
quando chegávamos ao meio-fio eu o ajudava
a subir e descer
agarrando um ombro
e a parte de trás do
cinto, nós conseguíamos.
eu gostava dele: ele nunca me questionava sobre
o que eu estava ou não estava
fazendo.
ele deveria ter sido meu pai, e eu gostava
muitíssimo do que ele dizia o tempo
todo: “Nada vale a
pena”.
ele era um
sábio.
aquelas mocinhas deveriam ter
deixado para ele
os bilhetes e as
flores.
1 117
Charles Bukowski
A Belíssima Editora
ela era uma mulher belíssima, eu costumava ver fotografias
dela nas revistas literárias daquele
tempo.
eu era jovem mas estava sempre sozinho – eu sentia que precisava de
tempo para realizar algo e a única coisa que me permitia comprar tempo
era a
pobreza.
eu trabalhava não tanto com técnica mas mais com registrar
aquilo que me empurrava rumo à beira da loucura – e eu tinha
lampejos de sorte, mas estava longe de ser uma existência
prazerosa.
acho que dei mostras de uma bela resistência mas aí lentamente
a saúde e a coragem começaram a ir pelo ralo.
e chegou a noite em que tudo desmoronou – e
o medo, a dúvida e a humilhação apareceram...
e eu escrevi algumas cartas usando meus últimos selos
contando para poucas e seletas pessoas que eu havia cometido um
erro, que eu estava passando fome e vivendo aprisionado numa pequena
e congelante cabana das trevas numa cidade estranha num
estado
estranho.
eu enviei as cartas e aí esperei por intermináveis dias e noites de
loucura, torcendo, ansiando afinal por uma resposta
decente.
somente duas cartas vieram – no mesmo dia –
e eu abri as páginas e sacudi as páginas à procura de
dinheiro mas não havia
nada.
uma carta era do meu pai, seis páginas me dizendo que
eu merecia o que estava acontecendo, que eu devia ter me tornado
um engenheiro como ele me aconselhou, e que ninguém jamais leria
o tipo de coisa que eu escrevia, e isso e aquilo, nesse
tom.
a outra carta era da belíssima editora, impecavelmente datilografada em
caro papel de carta, e ela dizia que não estava mais
publicando sua revista literária, ela tinha encontrado Deus e estava
morando em um castelo numa colina na Itália e ajudando os pobres, e
ela assinava seu famoso nome com um “Deus o abençoe” e era
isso.
ah, você não faz ideia, naquela cabana escura e gélida, de como eu queria
ser pobre na Itália e não em Atlanta, ser um camponês pobre,
sim, ou até mesmo um cachorro na colcha dela, ou até mesmo uma pulga naquele
cachorro naquela
colcha: como eu queria o mais ínfimo
calor.
a dama havia me publicado junto com Henry Miller, Sartre, Céline,
outros.
eu jamais deveria ter pedido dinheiro num mundo em que milhões de
camponeses rastejavam pelas ruas
famintas
e mesmo alguns anos depois quando a editora
morreu
eu ainda a considerava
belíssima.
dela nas revistas literárias daquele
tempo.
eu era jovem mas estava sempre sozinho – eu sentia que precisava de
tempo para realizar algo e a única coisa que me permitia comprar tempo
era a
pobreza.
eu trabalhava não tanto com técnica mas mais com registrar
aquilo que me empurrava rumo à beira da loucura – e eu tinha
lampejos de sorte, mas estava longe de ser uma existência
prazerosa.
acho que dei mostras de uma bela resistência mas aí lentamente
a saúde e a coragem começaram a ir pelo ralo.
e chegou a noite em que tudo desmoronou – e
o medo, a dúvida e a humilhação apareceram...
e eu escrevi algumas cartas usando meus últimos selos
contando para poucas e seletas pessoas que eu havia cometido um
erro, que eu estava passando fome e vivendo aprisionado numa pequena
e congelante cabana das trevas numa cidade estranha num
estado
estranho.
eu enviei as cartas e aí esperei por intermináveis dias e noites de
loucura, torcendo, ansiando afinal por uma resposta
decente.
somente duas cartas vieram – no mesmo dia –
e eu abri as páginas e sacudi as páginas à procura de
dinheiro mas não havia
nada.
uma carta era do meu pai, seis páginas me dizendo que
eu merecia o que estava acontecendo, que eu devia ter me tornado
um engenheiro como ele me aconselhou, e que ninguém jamais leria
o tipo de coisa que eu escrevia, e isso e aquilo, nesse
tom.
a outra carta era da belíssima editora, impecavelmente datilografada em
caro papel de carta, e ela dizia que não estava mais
publicando sua revista literária, ela tinha encontrado Deus e estava
morando em um castelo numa colina na Itália e ajudando os pobres, e
ela assinava seu famoso nome com um “Deus o abençoe” e era
isso.
ah, você não faz ideia, naquela cabana escura e gélida, de como eu queria
ser pobre na Itália e não em Atlanta, ser um camponês pobre,
sim, ou até mesmo um cachorro na colcha dela, ou até mesmo uma pulga naquele
cachorro naquela
colcha: como eu queria o mais ínfimo
calor.
a dama havia me publicado junto com Henry Miller, Sartre, Céline,
outros.
eu jamais deveria ter pedido dinheiro num mundo em que milhões de
camponeses rastejavam pelas ruas
famintas
e mesmo alguns anos depois quando a editora
morreu
eu ainda a considerava
belíssima.
1 162
Charles Bukowski
A Belíssima Editora
ela era uma mulher belíssima, eu costumava ver fotografias
dela nas revistas literárias daquele
tempo.
eu era jovem mas estava sempre sozinho – eu sentia que precisava de
tempo para realizar algo e a única coisa que me permitia comprar tempo
era a
pobreza.
eu trabalhava não tanto com técnica mas mais com registrar
aquilo que me empurrava rumo à beira da loucura – e eu tinha
lampejos de sorte, mas estava longe de ser uma existência
prazerosa.
acho que dei mostras de uma bela resistência mas aí lentamente
a saúde e a coragem começaram a ir pelo ralo.
e chegou a noite em que tudo desmoronou – e
o medo, a dúvida e a humilhação apareceram...
e eu escrevi algumas cartas usando meus últimos selos
contando para poucas e seletas pessoas que eu havia cometido um
erro, que eu estava passando fome e vivendo aprisionado numa pequena
e congelante cabana das trevas numa cidade estranha num
estado
estranho.
eu enviei as cartas e aí esperei por intermináveis dias e noites de
loucura, torcendo, ansiando afinal por uma resposta
decente.
somente duas cartas vieram – no mesmo dia –
e eu abri as páginas e sacudi as páginas à procura de
dinheiro mas não havia
nada.
uma carta era do meu pai, seis páginas me dizendo que
eu merecia o que estava acontecendo, que eu devia ter me tornado
um engenheiro como ele me aconselhou, e que ninguém jamais leria
o tipo de coisa que eu escrevia, e isso e aquilo, nesse
tom.
a outra carta era da belíssima editora, impecavelmente datilografada em
caro papel de carta, e ela dizia que não estava mais
publicando sua revista literária, ela tinha encontrado Deus e estava
morando em um castelo numa colina na Itália e ajudando os pobres, e
ela assinava seu famoso nome com um “Deus o abençoe” e era
isso.
ah, você não faz ideia, naquela cabana escura e gélida, de como eu queria
ser pobre na Itália e não em Atlanta, ser um camponês pobre,
sim, ou até mesmo um cachorro na colcha dela, ou até mesmo uma pulga naquele
cachorro naquela
colcha: como eu queria o mais ínfimo
calor.
a dama havia me publicado junto com Henry Miller, Sartre, Céline,
outros.
eu jamais deveria ter pedido dinheiro num mundo em que milhões de
camponeses rastejavam pelas ruas
famintas
e mesmo alguns anos depois quando a editora
morreu
eu ainda a considerava
belíssima.
dela nas revistas literárias daquele
tempo.
eu era jovem mas estava sempre sozinho – eu sentia que precisava de
tempo para realizar algo e a única coisa que me permitia comprar tempo
era a
pobreza.
eu trabalhava não tanto com técnica mas mais com registrar
aquilo que me empurrava rumo à beira da loucura – e eu tinha
lampejos de sorte, mas estava longe de ser uma existência
prazerosa.
acho que dei mostras de uma bela resistência mas aí lentamente
a saúde e a coragem começaram a ir pelo ralo.
e chegou a noite em que tudo desmoronou – e
o medo, a dúvida e a humilhação apareceram...
e eu escrevi algumas cartas usando meus últimos selos
contando para poucas e seletas pessoas que eu havia cometido um
erro, que eu estava passando fome e vivendo aprisionado numa pequena
e congelante cabana das trevas numa cidade estranha num
estado
estranho.
eu enviei as cartas e aí esperei por intermináveis dias e noites de
loucura, torcendo, ansiando afinal por uma resposta
decente.
somente duas cartas vieram – no mesmo dia –
e eu abri as páginas e sacudi as páginas à procura de
dinheiro mas não havia
nada.
uma carta era do meu pai, seis páginas me dizendo que
eu merecia o que estava acontecendo, que eu devia ter me tornado
um engenheiro como ele me aconselhou, e que ninguém jamais leria
o tipo de coisa que eu escrevia, e isso e aquilo, nesse
tom.
a outra carta era da belíssima editora, impecavelmente datilografada em
caro papel de carta, e ela dizia que não estava mais
publicando sua revista literária, ela tinha encontrado Deus e estava
morando em um castelo numa colina na Itália e ajudando os pobres, e
ela assinava seu famoso nome com um “Deus o abençoe” e era
isso.
ah, você não faz ideia, naquela cabana escura e gélida, de como eu queria
ser pobre na Itália e não em Atlanta, ser um camponês pobre,
sim, ou até mesmo um cachorro na colcha dela, ou até mesmo uma pulga naquele
cachorro naquela
colcha: como eu queria o mais ínfimo
calor.
a dama havia me publicado junto com Henry Miller, Sartre, Céline,
outros.
eu jamais deveria ter pedido dinheiro num mundo em que milhões de
camponeses rastejavam pelas ruas
famintas
e mesmo alguns anos depois quando a editora
morreu
eu ainda a considerava
belíssima.
1 162
Charles Bukowski
O Melhor da Raça
não há nada para
discutir
não há nada para
lembrar
não há nada para
esquecer
é triste
e
não é
triste
parece que a
coisa
mais sensata
que uma pessoa pode
fazer
é
sentar
com bebida na
mão
enquanto as paredes
acenam
seus sorrisos
de adeus
a gente sobrevive
a
tudo
com certa
dose de
eficiência e
bravura
e aí
se manda
alguns aceitam
a possibilidade de que
Deus
os ajude
a
superar
outros
encaram
de frente
e à saúde destes
eu bebo
esta noite.
discutir
não há nada para
lembrar
não há nada para
esquecer
é triste
e
não é
triste
parece que a
coisa
mais sensata
que uma pessoa pode
fazer
é
sentar
com bebida na
mão
enquanto as paredes
acenam
seus sorrisos
de adeus
a gente sobrevive
a
tudo
com certa
dose de
eficiência e
bravura
e aí
se manda
alguns aceitam
a possibilidade de que
Deus
os ajude
a
superar
outros
encaram
de frente
e à saúde destes
eu bebo
esta noite.
1 453
Charles Bukowski
O Melhor da Raça
não há nada para
discutir
não há nada para
lembrar
não há nada para
esquecer
é triste
e
não é
triste
parece que a
coisa
mais sensata
que uma pessoa pode
fazer
é
sentar
com bebida na
mão
enquanto as paredes
acenam
seus sorrisos
de adeus
a gente sobrevive
a
tudo
com certa
dose de
eficiência e
bravura
e aí
se manda
alguns aceitam
a possibilidade de que
Deus
os ajude
a
superar
outros
encaram
de frente
e à saúde destes
eu bebo
esta noite.
discutir
não há nada para
lembrar
não há nada para
esquecer
é triste
e
não é
triste
parece que a
coisa
mais sensata
que uma pessoa pode
fazer
é
sentar
com bebida na
mão
enquanto as paredes
acenam
seus sorrisos
de adeus
a gente sobrevive
a
tudo
com certa
dose de
eficiência e
bravura
e aí
se manda
alguns aceitam
a possibilidade de que
Deus
os ajude
a
superar
outros
encaram
de frente
e à saúde destes
eu bebo
esta noite.
1 453
Charles Bukowski
O Melhor da Raça
não há nada para
discutir
não há nada para
lembrar
não há nada para
esquecer
é triste
e
não é
triste
parece que a
coisa
mais sensata
que uma pessoa pode
fazer
é
sentar
com bebida na
mão
enquanto as paredes
acenam
seus sorrisos
de adeus
a gente sobrevive
a
tudo
com certa
dose de
eficiência e
bravura
e aí
se manda
alguns aceitam
a possibilidade de que
Deus
os ajude
a
superar
outros
encaram
de frente
e à saúde destes
eu bebo
esta noite.
discutir
não há nada para
lembrar
não há nada para
esquecer
é triste
e
não é
triste
parece que a
coisa
mais sensata
que uma pessoa pode
fazer
é
sentar
com bebida na
mão
enquanto as paredes
acenam
seus sorrisos
de adeus
a gente sobrevive
a
tudo
com certa
dose de
eficiência e
bravura
e aí
se manda
alguns aceitam
a possibilidade de que
Deus
os ajude
a
superar
outros
encaram
de frente
e à saúde destes
eu bebo
esta noite.
1 453
Charles Bukowski
Puteiro
minha primeira experiência num puteiro
foi em Tijuana.
era uma casa enorme nos confins da
cidade.
eu tinha 17 anos, com dois amigos.
enchemos a cara para criar
coragem
aí fomos lá e
entramos.
o lugar estava lotado de
militares
principalmente
marinheiros.
os marinheiros formavam longas
filas
bradando e batendo nas
portas.
Lance entrou numa fila
pequena (as filas indicavam a
idade da puta: quanto menor a
fila mais velha a
puta)
e resolveu a
parada, saiu audaz e
sorridente: “bem, o que é que vocês
estão esperando?”
o outro cara, Jack, ele me passou
a garrafa de tequila e eu dei um
gole e passei de volta e ele
deu um gole.
Lance olhou para nós: “vou esperar
no carro, tirar minha soneca
reparadora”.
Jack e eu esperamos até ele
sumir
e aí começamos a andar na direção da
saída.
Jack estava usando um grande
sombreiro
e bem na saída havia uma
puta velha sentada numa
cadeira.
ela esticou a perna
barrando nosso
caminho: “ora, meninos, dou
gostoso pra vocês e
barato!”
de algum modo aquilo deixou
Jack cagado de medo e ele
disse “meu deus, eu vou
VOMITAR!”
“NÃO NO PISO!”, gritou
a puta
e sob tal aviso
Jack arrancou seu
sombreiro
e o segurando
diante de si
deve ter vomitado um
galão.
aí ele só ficou ali parado
olhando
aquilo nas mãos
e a puta
disse “fora
daqui!”
Jack correu porta afora com
seu sombreiro
e aí a puta
olhou para mim com um rosto muito
bondoso e disse:
“barato!” e eu entrei
num quarto com ela
e havia um homem gordo e grandalhão
sentado numa cadeira e
perguntei a ela “quem
é esse aí?”
e ela disse “ele está aqui pra
garantir que ninguém me
machuque”.
e eu fui até o
homem e disse “ei, como cê
tá?”
e ele disse “bem,
señor...”
e eu disse
“você mora por
aqui?”
e ele disse “dê
o dinheiro pra
ela”.
“quanto?”
“dois dólares.”
dei os dois dólares
à dama
então voltei até o
homem.
“pode ser que eu venha viver
no México um dia”, eu
disse a ele.
“dá o fora
daqui”, ele disse,
“AGORA!”
quando passei pela
saída
Jack ainda estava ali esperando
sem seu
sombreiro
mas ele ainda estava
cambaleando
de bêbado.
“meu Jesus”, eu disse, “ela foi
ótima, ela sem brincadeira botou minhas
bolas na
boca!”
nós fomos andando até o carro.
Lance estava desmaiado, nós
o acordamos e ele nos
levou
dali
de algum modo
nós passamos pela
fronteira
e rodamos todo
o caminho de volta para
L.A.
debochamos de Jack por ele ser um
virgem
cagão.
Lance debochou com
delicadeza
mas eu esbravejava
humilhando Jack por sua falta de
fibra
e não me calei
até Jack desmaiar
perto de
San Clemente.
fiquei ali ao lado de Lance
passando e repassando
a última garrafa de
tequila.
enquanto Los Angeles voava na nossa
direção
Jack perguntou “como é que
foi?”
e eu respondi
num tom de
conhecedor: “já peguei
melhores”.
foi em Tijuana.
era uma casa enorme nos confins da
cidade.
eu tinha 17 anos, com dois amigos.
enchemos a cara para criar
coragem
aí fomos lá e
entramos.
o lugar estava lotado de
militares
principalmente
marinheiros.
os marinheiros formavam longas
filas
bradando e batendo nas
portas.
Lance entrou numa fila
pequena (as filas indicavam a
idade da puta: quanto menor a
fila mais velha a
puta)
e resolveu a
parada, saiu audaz e
sorridente: “bem, o que é que vocês
estão esperando?”
o outro cara, Jack, ele me passou
a garrafa de tequila e eu dei um
gole e passei de volta e ele
deu um gole.
Lance olhou para nós: “vou esperar
no carro, tirar minha soneca
reparadora”.
Jack e eu esperamos até ele
sumir
e aí começamos a andar na direção da
saída.
Jack estava usando um grande
sombreiro
e bem na saída havia uma
puta velha sentada numa
cadeira.
ela esticou a perna
barrando nosso
caminho: “ora, meninos, dou
gostoso pra vocês e
barato!”
de algum modo aquilo deixou
Jack cagado de medo e ele
disse “meu deus, eu vou
VOMITAR!”
“NÃO NO PISO!”, gritou
a puta
e sob tal aviso
Jack arrancou seu
sombreiro
e o segurando
diante de si
deve ter vomitado um
galão.
aí ele só ficou ali parado
olhando
aquilo nas mãos
e a puta
disse “fora
daqui!”
Jack correu porta afora com
seu sombreiro
e aí a puta
olhou para mim com um rosto muito
bondoso e disse:
“barato!” e eu entrei
num quarto com ela
e havia um homem gordo e grandalhão
sentado numa cadeira e
perguntei a ela “quem
é esse aí?”
e ela disse “ele está aqui pra
garantir que ninguém me
machuque”.
e eu fui até o
homem e disse “ei, como cê
tá?”
e ele disse “bem,
señor...”
e eu disse
“você mora por
aqui?”
e ele disse “dê
o dinheiro pra
ela”.
“quanto?”
“dois dólares.”
dei os dois dólares
à dama
então voltei até o
homem.
“pode ser que eu venha viver
no México um dia”, eu
disse a ele.
“dá o fora
daqui”, ele disse,
“AGORA!”
quando passei pela
saída
Jack ainda estava ali esperando
sem seu
sombreiro
mas ele ainda estava
cambaleando
de bêbado.
“meu Jesus”, eu disse, “ela foi
ótima, ela sem brincadeira botou minhas
bolas na
boca!”
nós fomos andando até o carro.
Lance estava desmaiado, nós
o acordamos e ele nos
levou
dali
de algum modo
nós passamos pela
fronteira
e rodamos todo
o caminho de volta para
L.A.
debochamos de Jack por ele ser um
virgem
cagão.
Lance debochou com
delicadeza
mas eu esbravejava
humilhando Jack por sua falta de
fibra
e não me calei
até Jack desmaiar
perto de
San Clemente.
fiquei ali ao lado de Lance
passando e repassando
a última garrafa de
tequila.
enquanto Los Angeles voava na nossa
direção
Jack perguntou “como é que
foi?”
e eu respondi
num tom de
conhecedor: “já peguei
melhores”.
1 923
Charles Bukowski
História Final
meu deus, lá está ele bêbado de novo
contando as mesmas histórias de sempre
outra e outra vez
enquanto o pressionam por
mais – alguns nada mais
tendo para fazer, outros
secretamente escarnecendo
daquele
grande escritor
balbuciando
babando
em seu bigodinho
branco
de rato
falando sobre
guerra
falando sobre as
guerras
falando sobre os bravos
peixes
as touradas
até sobre suas esposas.
as pessoas
entram no
bar
noite após noite
para ver o mesmo
espetáculo de sempre
que um dia ele
terminará
sozinho
espalhando seus miolos
pelas paredes.
o preço da criação
nunca é
alto demais.
o preço de viver
com outras pessoas
sempre
é.
contando as mesmas histórias de sempre
outra e outra vez
enquanto o pressionam por
mais – alguns nada mais
tendo para fazer, outros
secretamente escarnecendo
daquele
grande escritor
balbuciando
babando
em seu bigodinho
branco
de rato
falando sobre
guerra
falando sobre as
guerras
falando sobre os bravos
peixes
as touradas
até sobre suas esposas.
as pessoas
entram no
bar
noite após noite
para ver o mesmo
espetáculo de sempre
que um dia ele
terminará
sozinho
espalhando seus miolos
pelas paredes.
o preço da criação
nunca é
alto demais.
o preço de viver
com outras pessoas
sempre
é.
1 272
Charles Bukowski
História Final
meu deus, lá está ele bêbado de novo
contando as mesmas histórias de sempre
outra e outra vez
enquanto o pressionam por
mais – alguns nada mais
tendo para fazer, outros
secretamente escarnecendo
daquele
grande escritor
balbuciando
babando
em seu bigodinho
branco
de rato
falando sobre
guerra
falando sobre as
guerras
falando sobre os bravos
peixes
as touradas
até sobre suas esposas.
as pessoas
entram no
bar
noite após noite
para ver o mesmo
espetáculo de sempre
que um dia ele
terminará
sozinho
espalhando seus miolos
pelas paredes.
o preço da criação
nunca é
alto demais.
o preço de viver
com outras pessoas
sempre
é.
contando as mesmas histórias de sempre
outra e outra vez
enquanto o pressionam por
mais – alguns nada mais
tendo para fazer, outros
secretamente escarnecendo
daquele
grande escritor
balbuciando
babando
em seu bigodinho
branco
de rato
falando sobre
guerra
falando sobre as
guerras
falando sobre os bravos
peixes
as touradas
até sobre suas esposas.
as pessoas
entram no
bar
noite após noite
para ver o mesmo
espetáculo de sempre
que um dia ele
terminará
sozinho
espalhando seus miolos
pelas paredes.
o preço da criação
nunca é
alto demais.
o preço de viver
com outras pessoas
sempre
é.
1 272
Charles Bukowski
Escuridão
a escuridão cai sobre a Humanidade
e os rostos se tornam coisas
terríveis
que queriam mais do que
havia.
todos os nossos dias são marcados por
afrontas
inesperadas – algumas
desastrosas, outras
menos
mas o processo é
desgastante e
contínuo.
o atrito é a norma.
a maioria cede
o lugar
deixando
espaços vazios
onde deveriam existir
pessoas.
nossos progenitores, nossos
sistemas educacionais, a
terra, a mídia, o
modo
só
iludiram e desencaminharam as
massas: elas foram
derrotadas pela aridez do
sonho
efetivo.
elas
ignoravam que
a conquista ou a vitória ou
a sorte ou
seja lá como você
quiser chamar
por certo
tem
suas derrotas.
somente o reencontro e
o ir em frente
é que conferem substância
a qualquer magia
possivelmente
derivada.
e agora
quando estamos prontos para nos autodestruir
resta muito pouco para
matar
o que torna a tragédia
menor e maior
bem bem
maior.
e os rostos se tornam coisas
terríveis
que queriam mais do que
havia.
todos os nossos dias são marcados por
afrontas
inesperadas – algumas
desastrosas, outras
menos
mas o processo é
desgastante e
contínuo.
o atrito é a norma.
a maioria cede
o lugar
deixando
espaços vazios
onde deveriam existir
pessoas.
nossos progenitores, nossos
sistemas educacionais, a
terra, a mídia, o
modo
só
iludiram e desencaminharam as
massas: elas foram
derrotadas pela aridez do
sonho
efetivo.
elas
ignoravam que
a conquista ou a vitória ou
a sorte ou
seja lá como você
quiser chamar
por certo
tem
suas derrotas.
somente o reencontro e
o ir em frente
é que conferem substância
a qualquer magia
possivelmente
derivada.
e agora
quando estamos prontos para nos autodestruir
resta muito pouco para
matar
o que torna a tragédia
menor e maior
bem bem
maior.
824
Charles Bukowski
#1
ah me perdoem Por quem os sinos dobram,
ah me perdoe Homem que andou sobre as águas,
ah me perdoe velhinha que morava num sapato,
ah me perdoe a montanha que rugia à meia-noite,
ah me perdoem os sons bobos da noite do dia e da morte,
ah me perdoe a morte da última bela pantera,
ah me perdoem todos os navios afundados e exércitos derrotados.
este é o meu primeiro POEMA EM FAX.
é tarde demais:
fui
conquistado.
ah me perdoe Homem que andou sobre as águas,
ah me perdoe velhinha que morava num sapato,
ah me perdoe a montanha que rugia à meia-noite,
ah me perdoem os sons bobos da noite do dia e da morte,
ah me perdoe a morte da última bela pantera,
ah me perdoem todos os navios afundados e exércitos derrotados.
este é o meu primeiro POEMA EM FAX.
é tarde demais:
fui
conquistado.
1 114
Charles Bukowski
Ele Atacou Os Moinhos de Vento, Sim
algo que nos faça prosseguir é necessário
ao extremo
agora que as leiteiras gritam obscenidades
em dialetos diversos,
o moinho foi fechado,
há assassinatos em massa nas
lanchonetes,
o frade Tuck está ferrado,
os Estados Unidos aparecem em 17o nas
nações com maior longevidade do
indivíduo,
e ninguém limpa o para-brisa.
a besta dorme em Beverly Hills,
Van Gogh é um bilionário ausente,
o Homem de Marte dá um ás de
espadas,
Hollywood vira novela,
o cavalo cavalga o jóquei,
a puta chupa o congresso,
o gato tem só uma vida restante,
a rua sem saída é um psiquiatra,
a mesa está servida com fantasias da cabeça do peixe,
o sonho bate como um porrete na latrina
dos homens,
os sem-teto são roubados,
os dados são viciados,
a cortina está baixada,
os assentos estão vazios,
o vigia se suicidou,
as luzes estão apagadas,
ninguém espera por Godot
algo que nos faça prosseguir é necessário
ao extremo,
absurdamente,
agora mesmo
na floresta em chamas
no mar moribundo
nos sonetos maçantes
e nos desperdiçados
nasceres do sol,
algo é necessário
aqui
além dessa música
podre,
dessas décadas ceifadas,
desse lugar desse jeito,
desse tempo,
o seu,
mutilado, cuspido
para longe,
as costas de um espelho, a
teta de uma porca;
semente sobre rocha,
fria,
nem mesmo a morte de
uma barata
agora.
ao extremo
agora que as leiteiras gritam obscenidades
em dialetos diversos,
o moinho foi fechado,
há assassinatos em massa nas
lanchonetes,
o frade Tuck está ferrado,
os Estados Unidos aparecem em 17o nas
nações com maior longevidade do
indivíduo,
e ninguém limpa o para-brisa.
a besta dorme em Beverly Hills,
Van Gogh é um bilionário ausente,
o Homem de Marte dá um ás de
espadas,
Hollywood vira novela,
o cavalo cavalga o jóquei,
a puta chupa o congresso,
o gato tem só uma vida restante,
a rua sem saída é um psiquiatra,
a mesa está servida com fantasias da cabeça do peixe,
o sonho bate como um porrete na latrina
dos homens,
os sem-teto são roubados,
os dados são viciados,
a cortina está baixada,
os assentos estão vazios,
o vigia se suicidou,
as luzes estão apagadas,
ninguém espera por Godot
algo que nos faça prosseguir é necessário
ao extremo,
absurdamente,
agora mesmo
na floresta em chamas
no mar moribundo
nos sonetos maçantes
e nos desperdiçados
nasceres do sol,
algo é necessário
aqui
além dessa música
podre,
dessas décadas ceifadas,
desse lugar desse jeito,
desse tempo,
o seu,
mutilado, cuspido
para longe,
as costas de um espelho, a
teta de uma porca;
semente sobre rocha,
fria,
nem mesmo a morte de
uma barata
agora.
975
Charles Bukowski
1813-1883
ouvindo Wagner
e lá fora no escuro o vento sopra uma chuva fria as
árvores oscilam e balançam luzes se
apagam e acendem as paredes rangem e os gatos correm para baixo da
cama...
Wagner enfrenta os tormentos, ele é sentimental mas
sólido, é o lutador supremo, gigante num mundo de
pigmeus, ele se joga de frente, rompe
barreiras
uma
espantosa FORÇA sonora enquanto
tudo aqui balança
treme
verga
estoura
em feroz aposta
sim, Wagner e a tempestade se misturam com o vinho quando
noites como esta sobem dos meus pulsos até a cabeça e
recaem nas
tripas
certos homens nunca
morrem
e certos homens nunca
vivem
mas estamos todos vivos
nesta noite.
e lá fora no escuro o vento sopra uma chuva fria as
árvores oscilam e balançam luzes se
apagam e acendem as paredes rangem e os gatos correm para baixo da
cama...
Wagner enfrenta os tormentos, ele é sentimental mas
sólido, é o lutador supremo, gigante num mundo de
pigmeus, ele se joga de frente, rompe
barreiras
uma
espantosa FORÇA sonora enquanto
tudo aqui balança
treme
verga
estoura
em feroz aposta
sim, Wagner e a tempestade se misturam com o vinho quando
noites como esta sobem dos meus pulsos até a cabeça e
recaem nas
tripas
certos homens nunca
morrem
e certos homens nunca
vivem
mas estamos todos vivos
nesta noite.
1 627
Charles Bukowski
Minha América, 1936
você não tem pegada,
disse o meu pai,
você sabe quanto dinheiro
eu gastei pra te criar?
sabe o custo de comprar roupa?
o custo de comprar comida?
você só fica no seu maldito
quarto deprimindo essa
bunda morta!
16 anos de idade e você age
como um morto!
o que é que você vai fazer
quando sair no mundo?
olha o Benny Halsey, ele é
porteiro num
cinema!
Billy Evans vende jornais
na esquina da Crenshaw
com Olympic
e você fala que não consegue
arranjar emprego!
bem, a verdade é que você simplesmente
não quer um emprego!
eu tenho um emprego!
qualquer um que realmente quiser um
emprego consegue arranjar um emprego!
eu penso cada vez mais na porra de uma
bela ideia de te botar pra
rua,
tudo que você faz é ficar atirado se
deprimindo!
não acredito que você seja o meu
filho!
sua mãe tem vergonha
de você!
você está matando a sua mãe!
eu penso cada vez mais na porra de uma bela ideia de
te cagar na porrada, só pra
te acordar!
o quê?
não fala comigo desse jeito!
eu sou seu pai!
nunca mais fale
comigo desse jeito!
o quê?
tá bom, tá bom,
fora dessa casa!
você tá na rua!
rua!
rua!
mãe, eu tô botando
esse filho da puta
na rua!
mãe!
disse o meu pai,
você sabe quanto dinheiro
eu gastei pra te criar?
sabe o custo de comprar roupa?
o custo de comprar comida?
você só fica no seu maldito
quarto deprimindo essa
bunda morta!
16 anos de idade e você age
como um morto!
o que é que você vai fazer
quando sair no mundo?
olha o Benny Halsey, ele é
porteiro num
cinema!
Billy Evans vende jornais
na esquina da Crenshaw
com Olympic
e você fala que não consegue
arranjar emprego!
bem, a verdade é que você simplesmente
não quer um emprego!
eu tenho um emprego!
qualquer um que realmente quiser um
emprego consegue arranjar um emprego!
eu penso cada vez mais na porra de uma
bela ideia de te botar pra
rua,
tudo que você faz é ficar atirado se
deprimindo!
não acredito que você seja o meu
filho!
sua mãe tem vergonha
de você!
você está matando a sua mãe!
eu penso cada vez mais na porra de uma bela ideia de
te cagar na porrada, só pra
te acordar!
o quê?
não fala comigo desse jeito!
eu sou seu pai!
nunca mais fale
comigo desse jeito!
o quê?
tá bom, tá bom,
fora dessa casa!
você tá na rua!
rua!
rua!
mãe, eu tô botando
esse filho da puta
na rua!
mãe!
893
Charles Bukowski
Reflexões
o templo do vão da minha porta está
trancado.
só concordo com meus críticos quando eles estão
errados.
meu pai era cego de um olho, surdo de um ouvido
e errado de uma vida.
os selos postais dos Estados Unidos são os mais feios
do mundo.
os personagens de Hemingway eram consistentemente
sombrios, ou seja, eles se esforçavam
demais.
as manhãs são o pior, os meios-dias um pouco
melhor e as noites o melhor de tudo.
pela altura em que você está pronto pra dormir você
sente a melhor sensação de todas.
os constantes vazamentos de esgoto apenas fortalecem minhas
convicções.
a melhor coisa sobre Immanuel Kant era
seu nome.
viver bem é uma questão de definição.
Deus é uma invenção do Homem; a Mulher, do
Diabo.
só pessoas entediantes se entediam.
todos fogem das pessoas solitárias porque elas são
solitárias e elas são solitárias porque todos
fogem delas.
pessoas que preferem ficar sozinhas têm
belíssimas razões para tal preferência.
pessoas que preferem ficar sozinhas e pessoas solitárias
não podem ser colocadas juntas no mesmo recinto.
se você colar um coco na bunda por baixo das calças,
você pode andar por aí com ele por duas semanas antes
que alguém pergunte a respeito.
o melhor livro é aquele que você nunca leu; a
melhor mulher, aquela que você nunca conheceu.
se o homem fosse feito para voar ele teria
nascido com asas ligadas ao corpo.
admito que já voei sem elas mas é
um ato antinatural, é por isso que não paro de pedir
bebidas à comissária de bordo.
se ficar sentado num quarto escuro por alguns meses você
terá uns pensamentos maravilhosos antes de
enlouquecer.
dificilmente haverá coisa mais triste do que um gato
atropelado.
a base do capitalismo é vender algo por
bem mais do que seu valor.
quanto mais você conseguir fazer isso, tanto mais rico poderá
ficar.
todo mundo ferra alguém de um jeito
diferente.
eu ferro você escrevendo palavras.
bem-aventurança só significa esquecer por um tempo o que há
de vir.
o Inferno nunca para ele só pausa.
isto é uma pausa.
aproveite enquanto puder.
trancado.
só concordo com meus críticos quando eles estão
errados.
meu pai era cego de um olho, surdo de um ouvido
e errado de uma vida.
os selos postais dos Estados Unidos são os mais feios
do mundo.
os personagens de Hemingway eram consistentemente
sombrios, ou seja, eles se esforçavam
demais.
as manhãs são o pior, os meios-dias um pouco
melhor e as noites o melhor de tudo.
pela altura em que você está pronto pra dormir você
sente a melhor sensação de todas.
os constantes vazamentos de esgoto apenas fortalecem minhas
convicções.
a melhor coisa sobre Immanuel Kant era
seu nome.
viver bem é uma questão de definição.
Deus é uma invenção do Homem; a Mulher, do
Diabo.
só pessoas entediantes se entediam.
todos fogem das pessoas solitárias porque elas são
solitárias e elas são solitárias porque todos
fogem delas.
pessoas que preferem ficar sozinhas têm
belíssimas razões para tal preferência.
pessoas que preferem ficar sozinhas e pessoas solitárias
não podem ser colocadas juntas no mesmo recinto.
se você colar um coco na bunda por baixo das calças,
você pode andar por aí com ele por duas semanas antes
que alguém pergunte a respeito.
o melhor livro é aquele que você nunca leu; a
melhor mulher, aquela que você nunca conheceu.
se o homem fosse feito para voar ele teria
nascido com asas ligadas ao corpo.
admito que já voei sem elas mas é
um ato antinatural, é por isso que não paro de pedir
bebidas à comissária de bordo.
se ficar sentado num quarto escuro por alguns meses você
terá uns pensamentos maravilhosos antes de
enlouquecer.
dificilmente haverá coisa mais triste do que um gato
atropelado.
a base do capitalismo é vender algo por
bem mais do que seu valor.
quanto mais você conseguir fazer isso, tanto mais rico poderá
ficar.
todo mundo ferra alguém de um jeito
diferente.
eu ferro você escrevendo palavras.
bem-aventurança só significa esquecer por um tempo o que há
de vir.
o Inferno nunca para ele só pausa.
isto é uma pausa.
aproveite enquanto puder.
1 062