Temas
Poemas neste tema

Emoções e Sentimentos

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Comida de Cavalo

I
estaciono, saio, fecho o carro, é um dia perfeito, quente e fácil, me sinto bem, começo a caminhar para a entrada e um cara gordinho se aproxima, caminha a meu lado,
não sei de onde veio.
"oi", diz ele, "como vai indo?"
"ok", respondo.
ele diz "acho que você não se lembra de mim. você já me viu antes,
talvez duas ou três vezes".
"é possível", digo, "venho à pista diariamente."
"eu venho talvez três ou quatro vezes por mês", ele diz.
"com sua mulher?", eu pergunto.
"oh, não", ele diz, "nunca trago minha mulher."
seguimos juntos e eu vou mais depressa, ele luta para me acompanhar.

"qual para você vai chegar em primeiro?", ele pergunta
respondo que ainda não vi o programa.

"onde você fica?", pergunta ele.
respondo que em lugares diferentes a cada vez que vou.

"este maldito Gilligan", diz ele, "é o pior jóquei da pista. perdi uma nota nele outro dia. por que deixam ele correr?"
digo a ele que Whittingham e Longden acham que ele é legal.
"claro, são amigos", responde. "sei uma coisa sobre o Gilligan. quer saber o que é?" digo a ele que deixe pra lá.

vamos nos aproximando da banca de jornais perto da entrada
e eu desguio para a esquerda como se fosse comprar um jornal.
"boa sorte", digo a ele, enquanto caio fora.
ele fica perplexo, os olhos como em estado de choque, me lembra
algumas mulheres que só se sentem seguras quando sentem o polegar de alguém
enfiado na bunda.
ele olha em torno, mira um velho grisalho que puxa
pela perna, investe, emparelha com ele e começa a conversar...

II
Estar sozinho sempre foi fundamental para mim. Numa época entrei numa fase quente de vencer todas, nas corridas. O dinheiro caía do céu. Algum sistema básico e simples estava dando certo comigo. Os cavalos se deslocavam e eu saía do meu trabalho e ia atrás deles até Del Mar.

Era uma vida boa. Eu ganhava todo dia, na pista. Tinha uma rotina. Depois da corrida parava na loja de bebidas para comprar minha meia garrafa de uísque, as seis cervejas e os charutos. Ai voltava para o carro e seguia pela praia até algum motel, estacionava, levava meu material par Jentro, tomava uma chuveirada, trocava de roupa, então sentava o rabo no carro e seguia pela praia de novo - agora em busca de um restaurante. E o que procurava era um restaurante vazio. (São os piores, eu sei.) Mas eu não gostava de multidões. Sempre achava um como queria. Entrava e fazia meu pedido.

Assim, naquela noite em particular, encontrei um lugar, entrei, sentei no balcão, fiz o pedido: bife com fritas, cerveja. Estava tudo bem. A garçonete não me chateou Mamei minha cerveja, pedi outra. Aí veio a comida. Arre, diabos, parecia ótima! Comecei Comi uns tantos bocados bem bons e aí a porta se abriu e entrou um cara. Tinha uns 14 bancos vazios no balcão

O cara veio e sentou ao meu lado.
"Oi, Dóris, como vão as coisas?"
"Ok, Eddie. E você?"
"Ótimo."
"Que é que vai ser, Eddie?"
"Oh, somente um café, eu acho..."
Dóris trouxe o café para Eddie.
"Acho que estou ficando de saco cheio..."
"Sempre problemas, hein, Eddie?"
"É, Dóris, agora é minha mulher que quer pratos novos."
"Você diz louça de casa?"
"Não, novas comidas!"
"Oh, Eddie, há, há, há!"
"Bem", disse Eddie, "uma desgraça nunca vem só!"
Peguei meu prato e minha cerveja, meu garfo, minha faca, minha colher, meu guardanapo, minha bunda e arrastei tudo para um compartimento bem longe dali.
Sentei e comecei de novo. E enquanto isso espiava Eddie e Dóris
Estavam cochichando. Aí Dóris olhou pra mim:
"Está tudo certo, senhor?"
"Agora", eu respondi, "está."

III
uma mexicana gorda na fila na minha frente
deposita seus últimos dois dólares tudo trocadinho:
em moedas variadas e níqueis
enquanto aposta no número errado.
vou à frente, aposto vinte na cabeça
e erro também enquanto um
peido de trovões explode no céu, seguido
por uma luz distante
pequenas gotas de chuva começam seu trabalho e nós
saímos para ver o último páreo:
doze montarias de três anos para mil e seiscentos metros,
que não venceram em dois páreos
rompem num jorro de cor e esperança
lutando pela posição na curva rápida
entrando na reta distante diante das encantadoras
montanhas
há uma chance para todo mundo
exceto para o cavalo 6 que rompe uma
pata dianteira e joga um milionário chamado Pincay no chão duro duro enquanto alguns dos pobres apostadores gemem por ele
outros não se importam

e uns poucos ficam secretamente deliciados.
a ambulância de pista circula no
sentido anti-horário
a corrida se desdobra e desdobra
com três cavalos em linha
na reta de chegada
o favorito cede lugar
fica para trás
e o segundo melhor junto com um que pagaria 26 por um
cruzam o disco como uma criatura de oito patas,
o ponto mais avançado na foto pertencendo
ao azarão.
quase todos nós rasgamos nossos bilhetes e começamos
nossa caminhada para o estacionamento e o que
mais nos reste
as gotas quentes de chuva aumentam
esfriam
tudo o que esperamos agora é que nossos carros
ainda estejam lá
enquanto Pincay recobra a consciência na
enfermaria e pergunta
"que diabos
aconteceu?"
1 199
Charles Bukowski

Charles Bukowski

o tortuoso bem de socorrer quem sofre

tendo ficado muito magro e nervoso
como um músico passando fome
alimentei-o bem
e ele ficou gordo
como um texano magnata do petróleo e não tão
nervoso
mas mesmo assim
esquisito.

adormecido na cama eu desperto
e seu nariz está tocando meu
nariz e aqueles
grandes olhos amarelos
SONDANDO
o que resta de minha alma
e aí eu digo -
Sai, desgraçado!
tira esse seu nariz do meu
nariz!
ronronando como uma aranha cheia de
moscas ele se afasta um
pouco.

eu estava na banheira ontem
e ele veio andando
pernas esticadas alto
cauda sacudindo
e eu ali
fumando um charuto e lendo a
NEW YORKER
e ele pulou na borda da
banheira
equilibrando-se sobre o marfim escorregadio
curvando-se
e eu disse a ele:
meu caro, o senhor é um gato e gatos
não gostam de água.
mas ele se voltou rumo às torneiras
e ficou pendurado ali com seus pés pretos
e a outra parte dele estava
de cabeça para baixo
farejando a água e a água estava
QUENTE e ele começou a bebê-la
a fina língua vermelha
acanhada e milagrosa
mergulhando na água quente
e ele continuou
farejando
tentando imaginar o que eu estava fazendo ali dentro
o que eu via de tão bom naquilo
e então aquele tolo branco e gordo
caiu na água! -
nós todos saímos dali
molhados e velozes;
gato, eu, charuto e NEW YORKER
salivando, soando, silvando, ensaboados
e minha esposa entrou correndo
MEU DEUS! O QUE ACONTECEU? O QUE ACONTECEU?
falei por entre meu charuto desemaranhado:
o cara não pode nem mesmo ter um pouco de privacidade
em sua própria banheira, foi isso!
ela somente riu de nós
e O gato sequer ficou zangado
ainda estava molhado e inchado
exceto pelo rabo
que agora parecia quase tão fino quanto um
rabo de rato e muito triste e
ele começou a se
lamber.
usei uma toalha,
então fui para o quarto
deitei na cama
e tentei encontrar meu lugar na
revista.

mas o bom humor estava desfeito
larguei a publicação de lado
e olhei para o teto
lá para o espaço onde Deus supostamente
estava
então escutei:
MIIIAuiAU!

o próximo gato desgarrado que aparecer na minha porta vai
continuar sendo um
desgarrado.
1 173
Charles Bukowski

Charles Bukowski

aula noturna, 20 anos depois

a pressão famélica de ser tarde demais;
teias de agulhas,
as mesmas árvores estão aqui;
e grama crescida sobre a grama
mas os rostos agora são jovens
e enquanto você caminha pelo campus pensando
"memória é uma pobre desculpa para o presente"
as pernas querem deixar que o corpo caia enquanto
velhas imagens grudam em você como moluscos
e as garotas que agora se foram e que antes
pediam por sua substância
agora pendem como cortinas rasgadas
pelas janelas da sua mente;
- houve um tempo aqui
em que tudo era meu -
agora jovens leões reivindicam o território
e olham distraidamente
suas patas frouxas
e resolvem
misericordiosamente
deixar essa pobre presa passar. ele, é claro,
não é páreo para as jovens leoas,
ou a primavera no céu matinal.
uma vez aqui -
uma vez -
eu entro na sala e fico em pé contra a parede
e ouço meu nome ser lido, e
não, não é a mesma coisa:
meu velho professor parecia um leão-marinho
quando escarrava meu nome
na escarradeira do mundo
e eu dizia PRESENTE! enquanto
sentia o sol a escorrer
pelos cabelos da minha cabeça
como fios alimentando vida com vida:
chuva branca, mar bravo;
mas esse novo sussurra meu nome (e está escuro);
e como uma garra pegando algo profundo em mim,
rodeado por paredes como túmulos eu respondo de modo dócil:
presente,
e ele passa para outro nome.
sou mais velho que ele
e certamente não tão afortunado
enquanto as leoas se enrodilham a seus pés e ronronam prazerosamente,
e um velho gato cinza
vira O pescoço
e me pergunta: você já esteve aqui antes?
sim, sim, sim, sim
eu já
estive aqui
antes.
1 323
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Treinando para Kid Aztec

eu era um cara moço em Los Angeles.
havia uns bares pequenos
em torno do Plaza, pequenos bares
mexicanos, e havia um
grande, bem-freqüentado, e eu
comecei a noite por ele
mas ele estava muito comportado
cheio de trabalhadores decentes
e aí eu saí
e encontrei um beco pequeno e torto,
escuro,
e segui por ele
com meu canivete no bolso até
que encontrei esse pequeno bar
lá no fim
e entrei
sentei num banco e pedi
uma garrafa de cerveja.
havia quatro mexicanos lá dentro
incluindo o cara do balcão

e eu sentei olhando firme
para a frente
tomando um gole do meu copo
de quando em quando.

eu estava um filho-da-puta muito louco
pronto para ir até o fim
melhor não me
sacanear...

acabei a garrafa
pedi outra.

"onde diabos
estão as mulheres?" perguntei.

nenhuma resposta.

"eu não devia estar aqui",
eu disse, "estou treinando para uma
luta no Olímpico, uma de
quatro rounds, contra o Kid
Aztec..."

silêncio.

desci do meu banco, fiquei
de pé, escarneci: "alguém aqui topa
treinar um pouquinho, hã?"

nenhuma resposta.

botei uma moeda na
vitrola de ficha.
a música começou e comecei
a fazer boxe-sombra
com ela.

quando acabou
eu sentei e
pedi outra cerveja.

"sou um matador", eu disse
ao dono do bar, "um matador
nato... tenho pena
do Kid Aztec..."

o homem recebeu meu
dinheiro, e guardou
na registradora tilitante
de costas para mim.

eu disse para as costas
dele: "e acima de tudo
eu sou um escritor.
escrevo contos,
romances, poemas,
ensaios..."

"Señor, escreve
poemas?", perguntou um
mexicano grandão lá do fim
do bar.

"pô, claro..."

"e sobre que são
esses' poemas?"

"o amor..."

"oh, o amor, Señor?"

"poemas de amor para a
Morte..."

esvaziei minha garrafa
e pedi outra.

"eu também escrevo,
Señor..."

"ah, é?”

"oh, sim, eu meto minha caneta
nas mulheres e escrevo
lá dentro delas."

os outros mexicanos
riram.
esperei até que
parassem.

"vocês são uns idiotas, vocês
riem como uns idiotas!"

"talvez, Señor, mas até idiotas
têm direito de rir,
não?"

tirei o rótulo da cerveja,
colei-o no tampo
do bar, terminei
a garrafa.

"outra cerveja, Señor?", perguntou
o dono do bar.

"nah, já chega, tenho que
descansar..."

caminhei para a
saída.

"boa sorte na sua luta com
Kid Aztec, Senör", disse
alguém.

caminhei de volta pelo
pequeno beco, parei para vomitar num
canto escuro, terminei e alcancei
a rua,
procurando um poema, um bar
melhor, alguma coisa,
qualquer coisa.

eu só tinha enchido o saco deles com
minha periculosidade.
toda noite era a
mesma coisa e de dia era ainda
pior.

parei numa árvore na
esquina do Plaza
para acender um cigarro
e para tentar parecer com
um matador

ninguém notou.

talvez não viessem
a notar nunca.

segurei o fósforo aceso
por tempo demais, ele queimou meus
dedos.
praguejei alto, dei partida e
comecei a caminhar
para a estação de
trem

alguém tinha me avisado
que as putas estavam
chupando bem, lá,
nas escuras rampas de acesso...
1 121
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Treinando para Kid Aztec

eu era um cara moço em Los Angeles.
havia uns bares pequenos
em torno do Plaza, pequenos bares
mexicanos, e havia um
grande, bem-freqüentado, e eu
comecei a noite por ele
mas ele estava muito comportado
cheio de trabalhadores decentes
e aí eu saí
e encontrei um beco pequeno e torto,
escuro,
e segui por ele
com meu canivete no bolso até
que encontrei esse pequeno bar
lá no fim
e entrei
sentei num banco e pedi
uma garrafa de cerveja.
havia quatro mexicanos lá dentro
incluindo o cara do balcão

e eu sentei olhando firme
para a frente
tomando um gole do meu copo
de quando em quando.

eu estava um filho-da-puta muito louco
pronto para ir até o fim
melhor não me
sacanear...

acabei a garrafa
pedi outra.

"onde diabos
estão as mulheres?" perguntei.

nenhuma resposta.

"eu não devia estar aqui",
eu disse, "estou treinando para uma
luta no Olímpico, uma de
quatro rounds, contra o Kid
Aztec..."

silêncio.

desci do meu banco, fiquei
de pé, escarneci: "alguém aqui topa
treinar um pouquinho, hã?"

nenhuma resposta.

botei uma moeda na
vitrola de ficha.
a música começou e comecei
a fazer boxe-sombra
com ela.

quando acabou
eu sentei e
pedi outra cerveja.

"sou um matador", eu disse
ao dono do bar, "um matador
nato... tenho pena
do Kid Aztec..."

o homem recebeu meu
dinheiro, e guardou
na registradora tilitante
de costas para mim.

eu disse para as costas
dele: "e acima de tudo
eu sou um escritor.
escrevo contos,
romances, poemas,
ensaios..."

"Señor, escreve
poemas?", perguntou um
mexicano grandão lá do fim
do bar.

"pô, claro..."

"e sobre que são
esses' poemas?"

"o amor..."

"oh, o amor, Señor?"

"poemas de amor para a
Morte..."

esvaziei minha garrafa
e pedi outra.

"eu também escrevo,
Señor..."

"ah, é?”

"oh, sim, eu meto minha caneta
nas mulheres e escrevo
lá dentro delas."

os outros mexicanos
riram.
esperei até que
parassem.

"vocês são uns idiotas, vocês
riem como uns idiotas!"

"talvez, Señor, mas até idiotas
têm direito de rir,
não?"

tirei o rótulo da cerveja,
colei-o no tampo
do bar, terminei
a garrafa.

"outra cerveja, Señor?", perguntou
o dono do bar.

"nah, já chega, tenho que
descansar..."

caminhei para a
saída.

"boa sorte na sua luta com
Kid Aztec, Senör", disse
alguém.

caminhei de volta pelo
pequeno beco, parei para vomitar num
canto escuro, terminei e alcancei
a rua,
procurando um poema, um bar
melhor, alguma coisa,
qualquer coisa.

eu só tinha enchido o saco deles com
minha periculosidade.
toda noite era a
mesma coisa e de dia era ainda
pior.

parei numa árvore na
esquina do Plaza
para acender um cigarro
e para tentar parecer com
um matador

ninguém notou.

talvez não viessem
a notar nunca.

segurei o fósforo aceso
por tempo demais, ele queimou meus
dedos.
praguejei alto, dei partida e
comecei a caminhar
para a estação de
trem

alguém tinha me avisado
que as putas estavam
chupando bem, lá,
nas escuras rampas de acesso...
1 121
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Treinando para Kid Aztec

eu era um cara moço em Los Angeles.
havia uns bares pequenos
em torno do Plaza, pequenos bares
mexicanos, e havia um
grande, bem-freqüentado, e eu
comecei a noite por ele
mas ele estava muito comportado
cheio de trabalhadores decentes
e aí eu saí
e encontrei um beco pequeno e torto,
escuro,
e segui por ele
com meu canivete no bolso até
que encontrei esse pequeno bar
lá no fim
e entrei
sentei num banco e pedi
uma garrafa de cerveja.
havia quatro mexicanos lá dentro
incluindo o cara do balcão

e eu sentei olhando firme
para a frente
tomando um gole do meu copo
de quando em quando.

eu estava um filho-da-puta muito louco
pronto para ir até o fim
melhor não me
sacanear...

acabei a garrafa
pedi outra.

"onde diabos
estão as mulheres?" perguntei.

nenhuma resposta.

"eu não devia estar aqui",
eu disse, "estou treinando para uma
luta no Olímpico, uma de
quatro rounds, contra o Kid
Aztec..."

silêncio.

desci do meu banco, fiquei
de pé, escarneci: "alguém aqui topa
treinar um pouquinho, hã?"

nenhuma resposta.

botei uma moeda na
vitrola de ficha.
a música começou e comecei
a fazer boxe-sombra
com ela.

quando acabou
eu sentei e
pedi outra cerveja.

"sou um matador", eu disse
ao dono do bar, "um matador
nato... tenho pena
do Kid Aztec..."

o homem recebeu meu
dinheiro, e guardou
na registradora tilitante
de costas para mim.

eu disse para as costas
dele: "e acima de tudo
eu sou um escritor.
escrevo contos,
romances, poemas,
ensaios..."

"Señor, escreve
poemas?", perguntou um
mexicano grandão lá do fim
do bar.

"pô, claro..."

"e sobre que são
esses' poemas?"

"o amor..."

"oh, o amor, Señor?"

"poemas de amor para a
Morte..."

esvaziei minha garrafa
e pedi outra.

"eu também escrevo,
Señor..."

"ah, é?”

"oh, sim, eu meto minha caneta
nas mulheres e escrevo
lá dentro delas."

os outros mexicanos
riram.
esperei até que
parassem.

"vocês são uns idiotas, vocês
riem como uns idiotas!"

"talvez, Señor, mas até idiotas
têm direito de rir,
não?"

tirei o rótulo da cerveja,
colei-o no tampo
do bar, terminei
a garrafa.

"outra cerveja, Señor?", perguntou
o dono do bar.

"nah, já chega, tenho que
descansar..."

caminhei para a
saída.

"boa sorte na sua luta com
Kid Aztec, Senör", disse
alguém.

caminhei de volta pelo
pequeno beco, parei para vomitar num
canto escuro, terminei e alcancei
a rua,
procurando um poema, um bar
melhor, alguma coisa,
qualquer coisa.

eu só tinha enchido o saco deles com
minha periculosidade.
toda noite era a
mesma coisa e de dia era ainda
pior.

parei numa árvore na
esquina do Plaza
para acender um cigarro
e para tentar parecer com
um matador

ninguém notou.

talvez não viessem
a notar nunca.

segurei o fósforo aceso
por tempo demais, ele queimou meus
dedos.
praguejei alto, dei partida e
comecei a caminhar
para a estação de
trem

alguém tinha me avisado
que as putas estavam
chupando bem, lá,
nas escuras rampas de acesso...
1 121
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Homem Forte

eu fui vê-lo, lá naquele lugar em
Echo Park
depois do meu expediente
nos correios.
ele era um enorme sujeito barbudo
e estava sentado em sua cadeira como um
Buda
e ele era o meu Buda, meu guru
meu herói, meu rugido de
luz.
às vezes ele não era gentil
mas ele era sempre bem mais do que
interessante.
sair daqueles escravos
dos correios
e entrar naquela explosão de luz
me confundia,
mas era uma confusão
extraordinária e
deliciosa.
milhares de livros sobre
centenas de assuntos
apodreciam em seu
porão.
jogar xadrez com ele era
levar uma surra risível no
tabuleiro.
desafiá-lo
física ou
mentalmente era
inútil.
mas ele tinha a habilidade de
escutar nossa
caçoada
com paciência
e também a habilidade
de resumir as
fraquezas,
as ilusões daquilo
numa única frase.
eu muitas vezes me perguntava como é que
ele aguentava as minhas
queixas; ele era gentil,
afinal de contas.
as noites duravam 7,
8 horas.
eu tinha minhas libações.
ele tinha a si mesmo
e uma linda mulher
que sorria em silêncio enquanto
nos
escutava.
ela trabalhava numa prancheta
de desenho,
projetando coisas.
nunca perguntei o que era e
ela nunca
disse.
as paredes e os tetos
eram cobertos com
centenas de dizeres esquisitos
colados –
como as últimas palavras de
um homem numa cadeira
elétrica,
ou gângsteres em seus
leitos de morte,
ou as instruções de uma velha mulher de bandido
para suas crianças;
fotos de Hitler, Al Capone,
Chefe Touro Sentado,
Lucky Luciano.
era uma interminável
colmeia de faces
e
declarações estranhas.
era sombriamente revigorante.
e em momentos raros e ocasionais
até eu ficava bom.
então o Buda assentia
com a cabeça.
ele gravava tudo em
fitas.
às vezes numa outra
noite ele tocava uma
fita desde o começo para
mim.
e aí eu me dava
conta de como
eu soava lastimável,
desprezível,
inepto.
raramente ele falhava.
por vezes eu me perguntava por que
o mundo não
o
descobrira.
ele não fazia o menor esforço para ser
descoberto.
ele recebia outros
visitantes,
sempre gente maluca,
original,
revigorante.
era mais louco do que o
sol incendiando o
mar,
eram os morcegos do inferno
rodopiando pela
sala.
era a depuração
da merda na
psique
retalhada.
noite após noite após
noite, eu
me enchia, eu voava, eu me encharcava
num deslumbramento
especial.
isso foi décadas atrás
e ele ainda está
vivo, eu
também.
ele criou um lugar quando
não havia
lugar.
um lugar para ir quando tudo
estava se fechando,
estrangulando, esmagando,
debilitando,
quando não havia
voz, não havia som,
não havia sentido,
ele emprestava calma
salvando
a graça
natural.
eu sinto que lhe devo
uma,
eu sinto que lhe devo
várias.
mas consigo ouvi-lo
agora, aquela mesma
voz
de quando ele se sentava
tão imenso
naquela mesma
cadeira:
“Não há dívida alguma,
Bukowski.”
afinal você está errado
dessa vez,
John Thomas, seu
desgraçado.
718
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Homem Forte

eu fui vê-lo, lá naquele lugar em
Echo Park
depois do meu expediente
nos correios.
ele era um enorme sujeito barbudo
e estava sentado em sua cadeira como um
Buda
e ele era o meu Buda, meu guru
meu herói, meu rugido de
luz.
às vezes ele não era gentil
mas ele era sempre bem mais do que
interessante.
sair daqueles escravos
dos correios
e entrar naquela explosão de luz
me confundia,
mas era uma confusão
extraordinária e
deliciosa.
milhares de livros sobre
centenas de assuntos
apodreciam em seu
porão.
jogar xadrez com ele era
levar uma surra risível no
tabuleiro.
desafiá-lo
física ou
mentalmente era
inútil.
mas ele tinha a habilidade de
escutar nossa
caçoada
com paciência
e também a habilidade
de resumir as
fraquezas,
as ilusões daquilo
numa única frase.
eu muitas vezes me perguntava como é que
ele aguentava as minhas
queixas; ele era gentil,
afinal de contas.
as noites duravam 7,
8 horas.
eu tinha minhas libações.
ele tinha a si mesmo
e uma linda mulher
que sorria em silêncio enquanto
nos
escutava.
ela trabalhava numa prancheta
de desenho,
projetando coisas.
nunca perguntei o que era e
ela nunca
disse.
as paredes e os tetos
eram cobertos com
centenas de dizeres esquisitos
colados –
como as últimas palavras de
um homem numa cadeira
elétrica,
ou gângsteres em seus
leitos de morte,
ou as instruções de uma velha mulher de bandido
para suas crianças;
fotos de Hitler, Al Capone,
Chefe Touro Sentado,
Lucky Luciano.
era uma interminável
colmeia de faces
e
declarações estranhas.
era sombriamente revigorante.
e em momentos raros e ocasionais
até eu ficava bom.
então o Buda assentia
com a cabeça.
ele gravava tudo em
fitas.
às vezes numa outra
noite ele tocava uma
fita desde o começo para
mim.
e aí eu me dava
conta de como
eu soava lastimável,
desprezível,
inepto.
raramente ele falhava.
por vezes eu me perguntava por que
o mundo não
o
descobrira.
ele não fazia o menor esforço para ser
descoberto.
ele recebia outros
visitantes,
sempre gente maluca,
original,
revigorante.
era mais louco do que o
sol incendiando o
mar,
eram os morcegos do inferno
rodopiando pela
sala.
era a depuração
da merda na
psique
retalhada.
noite após noite após
noite, eu
me enchia, eu voava, eu me encharcava
num deslumbramento
especial.
isso foi décadas atrás
e ele ainda está
vivo, eu
também.
ele criou um lugar quando
não havia
lugar.
um lugar para ir quando tudo
estava se fechando,
estrangulando, esmagando,
debilitando,
quando não havia
voz, não havia som,
não havia sentido,
ele emprestava calma
salvando
a graça
natural.
eu sinto que lhe devo
uma,
eu sinto que lhe devo
várias.
mas consigo ouvi-lo
agora, aquela mesma
voz
de quando ele se sentava
tão imenso
naquela mesma
cadeira:
“Não há dívida alguma,
Bukowski.”
afinal você está errado
dessa vez,
John Thomas, seu
desgraçado.
718