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Poemas neste tema

Emoções e Sentimentos

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Incapazes de Sonhar

velhas e grisalhas garçonetes
à noite nos cafés
já desistiram,
e enquanto eu avanço por calçadas
luminosas e olho através das janelas
das casas de repouso
posso ver que alguma coisa não está mais
com eles.
vejo pessoas sentadas nos bancos dos parques
e posso ver pelo modo como
sentam e olham
que essa coisa se foi.
vejo pessoas dirigindo carros
e vejo pelo modo como
dirigem seus carros
que eles não amam nem sequer são
amados –
nem levam o sexo em
consideração. está tudo apagado
feito um filme antigo.
vejo pessoas em lojas de departamento e
supermercados
caminhando pelos corredores
comprando coisas
e posso ver pelo jeito como vestem suas
roupas e pelo modo como caminham
e por seus rostos e olhos
que não se importam com nada
e que nada se importa
com eles.
posso ver umas cem pessoas por dia
que desistiram de tudo
completamente.
se vou até o hipódromo
ou a um evento esportivo
posso ver milhares
que não têm apreço por nada ou
ninguém
e não obtêm nenhum sentimento
em troca.
em toda parte eu vejo aqueles
implorando por nada além de
comida, abrigo, e
roupas; eles se concentram
nisso,
incapazes de sonhar.
não consigo entender por que essas pessoas não
desaparecem
não consigo entender por que essas pessoas não
expiram
por que as nuvens
não os assassinam
ou por que os cães
não os assassinam
ou por que as flores e as crianças
não os assassinam,
não consigo entender.
suponho que eles sejam assassinados
ainda que não consiga me adequar
ao fato deles
porque eles são
muitos.
a cada dia,
a cada noite,
há mais deles
nos metrôs e
nos prédios e
nos parques
eles não sentem nenhum terror
por não amarem
ou não
serem amados
tantos tantos tantos
de meus camaradas
humanos.
1 104
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Incapazes de Sonhar

velhas e grisalhas garçonetes
à noite nos cafés
já desistiram,
e enquanto eu avanço por calçadas
luminosas e olho através das janelas
das casas de repouso
posso ver que alguma coisa não está mais
com eles.
vejo pessoas sentadas nos bancos dos parques
e posso ver pelo modo como
sentam e olham
que essa coisa se foi.
vejo pessoas dirigindo carros
e vejo pelo modo como
dirigem seus carros
que eles não amam nem sequer são
amados –
nem levam o sexo em
consideração. está tudo apagado
feito um filme antigo.
vejo pessoas em lojas de departamento e
supermercados
caminhando pelos corredores
comprando coisas
e posso ver pelo jeito como vestem suas
roupas e pelo modo como caminham
e por seus rostos e olhos
que não se importam com nada
e que nada se importa
com eles.
posso ver umas cem pessoas por dia
que desistiram de tudo
completamente.
se vou até o hipódromo
ou a um evento esportivo
posso ver milhares
que não têm apreço por nada ou
ninguém
e não obtêm nenhum sentimento
em troca.
em toda parte eu vejo aqueles
implorando por nada além de
comida, abrigo, e
roupas; eles se concentram
nisso,
incapazes de sonhar.
não consigo entender por que essas pessoas não
desaparecem
não consigo entender por que essas pessoas não
expiram
por que as nuvens
não os assassinam
ou por que os cães
não os assassinam
ou por que as flores e as crianças
não os assassinam,
não consigo entender.
suponho que eles sejam assassinados
ainda que não consiga me adequar
ao fato deles
porque eles são
muitos.
a cada dia,
a cada noite,
há mais deles
nos metrôs e
nos prédios e
nos parques
eles não sentem nenhum terror
por não amarem
ou não
serem amados
tantos tantos tantos
de meus camaradas
humanos.
1 104
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Eu Achei Que Ia Me Dar Bem

eu tinha acabado de vomitar fora da porta do meu carro
misturas vermelhas, vinho, cerveja e uísque.
tarde da noite no sábado
não, cedo na manhã de domingo;
eu não aguentaria muito mais; eu estava sempre
me matando
indo parar em cadeias, hospitais, soleiras de porta, pisos...
traduzido para 7 línguas
tema de meia dúzia de cursos de lit. moderna,
eu ainda não sabia nada,
não queria saber;
forcei o último jato
fechei a porta
e rodei a leste pelo Sunset –
quando vi uma coisa com longos cabelos loiros
vomitando, realmente botando pra
fora – expelindo a vida podre o trago podre –
as calças femininas caídas e arrastadas no chão,
bunda nua sob o luar hollywoodiano de cartolina –
a coisa estava realmente passando mal:
ela arfava, então andava um pouquinho,
arfava, aquela bunda branca toda,
e eu pensei, caralho, vou me dar bem –
já faz uns 2 anos e estou cansado de escrever sobre
punhetas –
mas quando me aproximei
percebi que não eram calças femininas e sim masculinas;
era só um garoto de cabelo comprido com uma grande bunda pelada,
mas ora, como dizia o meu amigão Benny –
“qual diabo é a diferença?”
e eu estava prestes a parar junto dele
quando a viatura o viu
e se intrometeu entre nós
e os dois tiras saltaram
bem felizes e empolgados com seu achado –
“ei, mãe, quê que cê tá fazendo com o furo
de fora?”
o garoto afastou as pernas, jogou os braços para o ar.
“ei, você!”, um dos tiras gritou para mim.
desliguei meus faróis e caí fora devagar como se eu não tivesse
escutado. aí pisei fundo na primeira
à direita. na Gramercy Place com Hollywood Blvd. eu parei
abri a porta e
vomitei de novo.
pobre filho da puta, pensei, em vez de
levá-lo pra casa ou para um hospital
vão levá-lo pra cadeia – aquela bunda branca toda.
talvez eles se aproveitem um pouco. bem, era tarde demais para
mim.
fechei a porta, liguei os faróis, rodei em frente,
tentando lembrar onde eu
morava.
1 122
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Eu Estava Feliz

eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
ressaca de sexta-feira à tarde
eu não tinha um emprego
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
eu não sabia tocar violão
ressaca de sexta-feira à tarde
ressaca de sexta-feira à tarde
do outro lado da rua do Norm’s
do outro lado da rua do Red Fez
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
rompido com minha namorada e deprimido e demente
eu estava feliz por ter minha caderneta de poupança e ficar na fila
eu via os ônibus seguirem até Vermont
eu estava louco demais para trabalhar como motorista de ônibus
e eu sequer olhava para as jovens garotas
fiquei tonto esperando na fila mas eu
apenas seguia pensando que eu tenho dinheiro neste prédio
ressaca de sexta-feira à tarde
eu não sabia como tocar piano
ou mesmo tocar a merda de um emprego num lava-jato
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
finalmente cheguei até o guichê
era a minha garota japonesa
ela me sorriu como se eu fosse algum deus espetacular
de volta, hein? ela disse e sorriu
quando mostrei a ela meu comprovante e minha caderneta
enquanto os ônibus aceleravam em direção a Vermont
os camelos trotavam através do Saara
ela me alcançou o dinheiro e eu peguei o dinheiro
ressaca de sexta-feira à tarde
segui para o mercado e peguei um carrinho
e joguei salsichas e ovos e bacon e pão para dentro
joguei cerveja e salame e tempero e picles e mostarda para dentro
eu olhava para as jovens donas de casa em seu rebolado natural
joguei costeletas e bifes e palitos de carne para dentro
e tomates e pepinos e laranjas para dentro do carrinho
ressaca de sexta-feira à tarde
rompido com minha namorada e deprimido e demente
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
1 179
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Direto Sem Parar

eu estou
suspenso por um prego
o sol derrete meu coração
eu estou
irmanado com a serpente
e tenho medo de quedas d’água
eu tenho
medo de mulheres e cercas vivas
a polícia me para e
me diz
enquanto as árvores se curvam ao vento
(estou de ressaca) que meu escapamento está furado e
minha ventarola não abre
e o farol da luz de ré está quebrado.
eu não tenho luz de ré,
assino a multa e me sinto grato,
já dentro,
que eles não tenham feito o que estou
pensando
a tristeza pinga como grandes gotas de água
num poço envenenado até a metade,
sei que minhas chances se afunilaram a ponto de chegar a
quase nada –
sou como um inseto no banheiro quando você acende o
interruptor às 3 da manhã.
o amor, por fim, como um pano de chão enfiado goela
abaixo, retratos de alegria
convertidos em clipes para papel, você
sabe você sabe você sabe.
uma vez que você tenha entendido este processo (o que você
precisa entender
é
que a maior parte das coisas
simplesmente não funciona, então
você não deve tentar
salvá-las, e ao tempo em que você aprender isto
seus anos já terão
rareado) – uma que tenha entendido este processo
você precisa ser queimado apenas 2 ou 3 vezes mais
antes que eles o transformem em entulho, e
é importante saber isso –
pare de ser tão fodidamente rápido com suas
respostinhas e relaxe –
você está prestes a ser liquidado, também, assim
como eu. não há motivo para
vergonha. posso entrar em qualquer bar e
pedir um uísque e água,
pagar,
e colocar a mão em volta do copo,
eles não sabem, eles não sabem,
nada sobre você nem sobre mim,
estarão todos falando sobre futebol e
sobre o tempo e sobre a crise energética,
e nossas mãos buscarão
o espelho observando as mãos
e então beberemos tudo –
Jane, Barbara, Frances, Linda, Liza, Stella,
o chinelo de couro marrom do pai
virado para baixo no banheiro,
cachorros mortos e sem nome,
o jornal de amanhã,
a água fervendo para fora do radiador numa
tarde de quinta-feira, queimando seu braço
até metade da distância do cotovelo, e sem ser sequer
capaz de se irritar com a dor,
arreganhando os dentes para os vencedores
arreganhando os dentes para o cara que trepa com sua garota
enquanto você está bêbado ou longe
e arreganhando os dentes para a garota que permite isso.
as rosas uivam
ao vento ameno,
já dissemos
as coisas necessárias, e
sair é a próxima, mas eu só gostaria
de dizer
não importa o que eles tenham dito
eu nunca me emputeci
com nada.
1 099
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Direto Sem Parar

eu estou
suspenso por um prego
o sol derrete meu coração
eu estou
irmanado com a serpente
e tenho medo de quedas d’água
eu tenho
medo de mulheres e cercas vivas
a polícia me para e
me diz
enquanto as árvores se curvam ao vento
(estou de ressaca) que meu escapamento está furado e
minha ventarola não abre
e o farol da luz de ré está quebrado.
eu não tenho luz de ré,
assino a multa e me sinto grato,
já dentro,
que eles não tenham feito o que estou
pensando
a tristeza pinga como grandes gotas de água
num poço envenenado até a metade,
sei que minhas chances se afunilaram a ponto de chegar a
quase nada –
sou como um inseto no banheiro quando você acende o
interruptor às 3 da manhã.
o amor, por fim, como um pano de chão enfiado goela
abaixo, retratos de alegria
convertidos em clipes para papel, você
sabe você sabe você sabe.
uma vez que você tenha entendido este processo (o que você
precisa entender
é
que a maior parte das coisas
simplesmente não funciona, então
você não deve tentar
salvá-las, e ao tempo em que você aprender isto
seus anos já terão
rareado) – uma que tenha entendido este processo
você precisa ser queimado apenas 2 ou 3 vezes mais
antes que eles o transformem em entulho, e
é importante saber isso –
pare de ser tão fodidamente rápido com suas
respostinhas e relaxe –
você está prestes a ser liquidado, também, assim
como eu. não há motivo para
vergonha. posso entrar em qualquer bar e
pedir um uísque e água,
pagar,
e colocar a mão em volta do copo,
eles não sabem, eles não sabem,
nada sobre você nem sobre mim,
estarão todos falando sobre futebol e
sobre o tempo e sobre a crise energética,
e nossas mãos buscarão
o espelho observando as mãos
e então beberemos tudo –
Jane, Barbara, Frances, Linda, Liza, Stella,
o chinelo de couro marrom do pai
virado para baixo no banheiro,
cachorros mortos e sem nome,
o jornal de amanhã,
a água fervendo para fora do radiador numa
tarde de quinta-feira, queimando seu braço
até metade da distância do cotovelo, e sem ser sequer
capaz de se irritar com a dor,
arreganhando os dentes para os vencedores
arreganhando os dentes para o cara que trepa com sua garota
enquanto você está bêbado ou longe
e arreganhando os dentes para a garota que permite isso.
as rosas uivam
ao vento ameno,
já dissemos
as coisas necessárias, e
sair é a próxima, mas eu só gostaria
de dizer
não importa o que eles tenham dito
eu nunca me emputeci
com nada.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Direto Sem Parar

eu estou
suspenso por um prego
o sol derrete meu coração
eu estou
irmanado com a serpente
e tenho medo de quedas d’água
eu tenho
medo de mulheres e cercas vivas
a polícia me para e
me diz
enquanto as árvores se curvam ao vento
(estou de ressaca) que meu escapamento está furado e
minha ventarola não abre
e o farol da luz de ré está quebrado.
eu não tenho luz de ré,
assino a multa e me sinto grato,
já dentro,
que eles não tenham feito o que estou
pensando
a tristeza pinga como grandes gotas de água
num poço envenenado até a metade,
sei que minhas chances se afunilaram a ponto de chegar a
quase nada –
sou como um inseto no banheiro quando você acende o
interruptor às 3 da manhã.
o amor, por fim, como um pano de chão enfiado goela
abaixo, retratos de alegria
convertidos em clipes para papel, você
sabe você sabe você sabe.
uma vez que você tenha entendido este processo (o que você
precisa entender
é
que a maior parte das coisas
simplesmente não funciona, então
você não deve tentar
salvá-las, e ao tempo em que você aprender isto
seus anos já terão
rareado) – uma que tenha entendido este processo
você precisa ser queimado apenas 2 ou 3 vezes mais
antes que eles o transformem em entulho, e
é importante saber isso –
pare de ser tão fodidamente rápido com suas
respostinhas e relaxe –
você está prestes a ser liquidado, também, assim
como eu. não há motivo para
vergonha. posso entrar em qualquer bar e
pedir um uísque e água,
pagar,
e colocar a mão em volta do copo,
eles não sabem, eles não sabem,
nada sobre você nem sobre mim,
estarão todos falando sobre futebol e
sobre o tempo e sobre a crise energética,
e nossas mãos buscarão
o espelho observando as mãos
e então beberemos tudo –
Jane, Barbara, Frances, Linda, Liza, Stella,
o chinelo de couro marrom do pai
virado para baixo no banheiro,
cachorros mortos e sem nome,
o jornal de amanhã,
a água fervendo para fora do radiador numa
tarde de quinta-feira, queimando seu braço
até metade da distância do cotovelo, e sem ser sequer
capaz de se irritar com a dor,
arreganhando os dentes para os vencedores
arreganhando os dentes para o cara que trepa com sua garota
enquanto você está bêbado ou longe
e arreganhando os dentes para a garota que permite isso.
as rosas uivam
ao vento ameno,
já dissemos
as coisas necessárias, e
sair é a próxima, mas eu só gostaria
de dizer
não importa o que eles tenham dito
eu nunca me emputeci
com nada.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Noite Úmida

a sobra.
ela se sentou ali, entristecida.
eu não podia fazer nada com ela.
estava chovendo.
ela se levantou e se foi.
bem, foda-se, mais uma vez isso, pensei
apanhei minha bebida e liguei o rádio,
tirei a pantalha do abajur
e fumei um charuto barato, negro e amargo
importado da Alemanha.
uma batida veio da porta
e eu abri a porta
um homenzinho estava na chuva
e ele disse,
você não viu por acaso um pombo na sua varanda?
eu lhe disse que não tinha visto um pombo na minha varanda
e ele me disse que se eu visse um pombo na minha varanda
que o avisasse.
fechei a porta
me sentei
e então um gato preto saltou através da
janela e pulou no meu
colo e ronronou, era um belo animal
e eu o levei até a cozinha e nós dois comemos uma
fatia de presunto.
então apaguei todas as luzes
e fui para a cama
e o gato preto foi para a cama comigo
e ronronou
e eu pensei, bem, alguém gosta de mim,
então o gato começou a mijar,
ele me mijou todo e também todo o lençol,
o mijo escorreu por minha barriga e desceu pelos lados
e eu disse: ei, o que há de errado com você?
apanhei o gato e o levei na direção da porta
e o joguei de volta no meio da chuva
e pensei, isso é muito estranho, esse gato
mijando em mim
seu mijo era gelado como a chuva.
então liguei para ela
e eu disse, veja, o que há de errado com você? você perdeu
a porra da sua cabeça?
desliguei e puxei os lençóis da cama
deitei e fiquei ali ouvindo a chuva.
às vezes um homem não sabe o que fazer com as coisas
e às vezes o melhor a fazer é ficar deitado sem se mexer
e tentar simplesmente não pensar
não pensar em nada.
o gato pertencia a alguém
ele tinha uma coleira antipulgas.
nada sei sobre a
mulher.
1 169
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Noite Úmida

a sobra.
ela se sentou ali, entristecida.
eu não podia fazer nada com ela.
estava chovendo.
ela se levantou e se foi.
bem, foda-se, mais uma vez isso, pensei
apanhei minha bebida e liguei o rádio,
tirei a pantalha do abajur
e fumei um charuto barato, negro e amargo
importado da Alemanha.
uma batida veio da porta
e eu abri a porta
um homenzinho estava na chuva
e ele disse,
você não viu por acaso um pombo na sua varanda?
eu lhe disse que não tinha visto um pombo na minha varanda
e ele me disse que se eu visse um pombo na minha varanda
que o avisasse.
fechei a porta
me sentei
e então um gato preto saltou através da
janela e pulou no meu
colo e ronronou, era um belo animal
e eu o levei até a cozinha e nós dois comemos uma
fatia de presunto.
então apaguei todas as luzes
e fui para a cama
e o gato preto foi para a cama comigo
e ronronou
e eu pensei, bem, alguém gosta de mim,
então o gato começou a mijar,
ele me mijou todo e também todo o lençol,
o mijo escorreu por minha barriga e desceu pelos lados
e eu disse: ei, o que há de errado com você?
apanhei o gato e o levei na direção da porta
e o joguei de volta no meio da chuva
e pensei, isso é muito estranho, esse gato
mijando em mim
seu mijo era gelado como a chuva.
então liguei para ela
e eu disse, veja, o que há de errado com você? você perdeu
a porra da sua cabeça?
desliguei e puxei os lençóis da cama
deitei e fiquei ali ouvindo a chuva.
às vezes um homem não sabe o que fazer com as coisas
e às vezes o melhor a fazer é ficar deitado sem se mexer
e tentar simplesmente não pensar
não pensar em nada.
o gato pertencia a alguém
ele tinha uma coleira antipulgas.
nada sei sobre a
mulher.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Às Vezes Quando Fico Triste Eu Ouço Mahler

nada disso de creme, Harry,
um Moisés peludo como eu só quer procurar abrigo agora
como um retrato de St. Louis na neve, mas não, está quente:
óleo suficiente no ventilador, e
preguiçoso demais pra trocar os lençóis sujos,
louco demais pra dar importância.

eu costumava escrever à minha mãe sobre lâminas de barbear na minha garganta
sobre o aspecto medonho dos rostos nas pessoas
como seus corpos pareciam alcatrão endurecido
mas a querida mamãe velha morreu de câncer enquanto eu me deitava com
uma puta de 130 quilos que veio nadando toda a distância desde a
Costa Rica
e precisei arranjar emprego nos pátios ferroviários,
isso mesmo porra, e fico pensando que a última navalha na minha garganta
vai entender a divindade do aço e
a não divindade da
espera.

não tenho escrito, Harry, nada de creme,

porque tenho um lugar nos fundos, eu me refiro a uma
janela dos fundos neste quarto
e eu olho lá fora e tem uma mulher toda hora pendurando roupa
tem uns 35
e quando ela se curva pra pegar suas calcinhas e sutiãs e lençóis
e náilons da cesta,
ah –
está tudo lá, Harry,
e eu estou olhando
olhos pulando através das vidraças sujas
e fico que nem um colegial espinhento de novo
nunca peguei um rabo como esse,
ali está ela no guingão engomado,
quadrados vermelhos e brancos
e aquela bunda do tamanho do Empire State Building
me olhando na boca
e o sol se atirando sobre tudo
e no canto do meu quarto
um quadrado de manteiga derretendo num prato
um naco de pão seco
e uma aranha no canto
sugando Pepsi-Cola de uma mosca –
creme, Harry, creme!
e
às vezes quando fico triste eu ouço Mahler
ou leio um pouco de Artaud
ou saio no pátio onde cuidam de uma tartaruga
e quando ninguém está olhando
eu queimo o pescoço dela com meu charuto
e quando a cabeça entra no casco eu meto o charuto no
buraco que nem uma pica
quente, mas você sabe, mesmo, não tem nada sendo escrito,
porém sigo recebendo rejeições,
e eu escrevo coisa boa, Harry, nada de creme –
só que o verdadeiro gênio não costuma ser reconhecido
em vida
e por isso não perco meu ânimo –
neste momento estou ouvindo “A marcha dos contrabandistas”
da Suíte Carmen de Bizet,
que bosta mais melosa,
acho que vou tentar aquele macaco Malone
da Wormwood – ele publica Bukowski
portanto publicaria qualquer um. a propósito, Bukowski mora no quarto
do outro lado do corredor,
um babaca, outro dia estávamos todos no quarto da Jane Suja,
bebendo vinho do porto
e Bukowski arranca as ceroulas da Jane Suja do nada
e manda bala
bem na frente de
todo mundo. sério, ele caiu
de boca. se ele pode
eu também posso. e ele teve a cara de pau de me dizer
“a próxima vez que eu te ver queimando aquela tartaruga
eu te mato!”
e ele estava tão bêbado que eu poderia ter derrubado ele no chão com um
mata-moscas.
nada disso de creme, Harry, eu não escrevo faz meses
mas a próxima coisa que eu escrever precisa dar
certo, posso sentir as palavras inchando em mim como as penas na pica de um gato
entalada no cu de um peru.
o sol está invadindo meus templos
e o papel de parede dança com garotas nuas depois da uma da
manhã
eu vejo modos cada vez melhores de lançar um verso sólido lá
nas alturas, sem brincadeira, rapaz, agora é a
hora, minha máquina de escrever é minha metralhadora
e rá tá tá tá rá
o céu todo vai despencar e belas garotas
com olhos de explosão celestial
vão pegar na minha banana; está tudo aqui –
os resíduos do esgoto, as montanhas obtusas,
equidade,
1690 pés cúbicos, anorexia, a sombra de
Marcus Junius Brutus &
uma fita nova na máquina de escrever.
uma foto de Hemingway colada no meu
banheiro.

cristo deus, Harry, eu sou um escritor,
e não é fácil quando sou o único que sabe disso,
com exceção talvez da Jane Suja,
mas vou provavelmente acabar tão famoso um dia
que não serei capaz de me aguentar
e aí vai ser a navalha.
de todo modo, estranho fim
para o mesmo jogo sujo.
Bukowski acabou de passar pra pedir emprestada uma lâmina de barbear –
por que será que ele precisa
com aquela
barba toda?
1 195
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Blues do Leito de Morte

se você não consegue suportar o calor, ele diz, saia da
cozinha. sabe quem falou isso?
Harry Truman.
não estou na cozinha, eu digo, estou no
forno.
meu editor é um cara difícil.
às vezes eu ligo pra ele em momentos de dúvida.
veja, ele responde, você estará acendendo charutos com notas de dez
dólares, você terá um ruiva num dos braços e uma loira
no outro.
outras vezes ele dirá, veja, acho que vou contratar
V.K. como meu editor associado. temos de cortar
5 poetas aqui do catálogo. vou deixar que ele
decida. (V.K. é um poeta com uma imaginação muito fértil e que crê
que eu o esfaqueei de N.Y. até a costa do Havaí.)
escute, garoto, liguei para meu editor, você sabe falar alemão?
não, ele respondeu.
bem, seja como for, preciso de uns pneus novos, baratos.
sabe onde eu poderia conseguir uns pneus novos, baratos?
ligo para você em meia hora, ele diz, estará por aí
em meia hora?
não estou em condições de ir para nenhum lugar, eu digo.
ele diz, disseram que você estava bêbado na leitura
em Oregon.
difamação imunda, eu respondo.
você estava?
não consigo
lembrar.
um dia ele me liga:
você já não está acertando a tacada. só está acertando a
garrafa e brigando com todas essas
mulheres. você sabe que temos um bom garoto no banco de reservas,
ele está louco para entrar
sabe rebater em qualquer uma das bases
consegue apanhar qualquer bola que não vá por cima da murada
é treinado por Duncan, Creeley, Wakoski
e ele sabe rimar, conhece
imagens, símiles, metáforas, figuras, conceitos,
assonâncias, aliterações, métricas, sim
todos os tipos de métrica, você sabe –
iâmbica, trocaica, anapéstica, espondaica,
conhece cesura, denotação, conotação, personificação,
dicção, voz, paradoxo, retórica, tom e
coalescência...
puta que pariu, eu digo, desligo e tomo um bom gole de
Old Grandad. Harry continua vivo
de acordo com os jornais. mas decido que em vez
de conseguir pneus novos é melhor
arrumar um jogo de recauchutados.
1 168