Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Charles Bukowski
Dando Um Jeito
nesta manhã fumegante Hades bate palma com suas mãos de Herpes e
uma mulher canta pelo meu rádio, sua voz vem escalando
pela fumaça e pelas emanações do vinho...
é um momento solitário, ela canta, e você não é
meu e isso me deixa tão mal,
essa coisa de ser eu...
consigo escutar carros na autoestrada, é como um mar distante
com sedimentos de pessoas
e por sobre o meu outro ombro, lá longe na 7th street
perto da Western
está o hospital, aquela casa do suplício –
lençóis e urinóis e braços e cabeças e
expirações;
tudo é tão docemente medonho, tão contínua e
docemente medonho: a arte da consumação: a vida comendo
a vida...
certa vez num sonho eu vi uma cobra engolindo sua própria
cauda, ela engoliu e engoliu até completar
meia-volta, e ali parou e
ali ficou, ela estava estufada de si
mesma. que situação.
só temos nós mesmos para ir em frente, e é o
bastante...
desço a escada pra pegar outra garrafa, ligo a
tevê a cabo e eis Greg Peck fingindo ser
F. Scott e ele está muito empolgado e está lendo seu
manuscrito para sua dama.
desligo o
aparelho.
que tipo de escritor é esse? lendo suas páginas para
uma dama? isso é uma violação...
volto ao andar de cima e meus dois gatos me seguem, eles são
bons camaradas, não temos desentendimentos, não
temos discussões, ouvimos a mesma música, nunca votamos para
presidente.
um dos meus gatos, o grande, salta no encosto
da minha cadeira, se esfrega em meus ombros e meu
pescoço.
“não adianta”, digo a ele, “não vou
ler pra você esse
poema.”
ele salta para o chão e sai pela
sacada e seu amigo
segue atrás.
eles sentam e olham a noite; nós temos o
poder da sanidade aqui.
nestas primeiras horas da manhã, quando quase todo mundo
está dormindo, pequenos insetos noturnos, coisas aladas
entram e circulam e giram.
a máquina zumbe seu zumbido elétrico, e tendo
aberto e provado a nova garrafa eu bato o próximo
verso. você
pode lê-lo para sua dama e ela provavelmente lhe dirá
que é bobagem. ela estará
lendo Suave é a
noite.
uma mulher canta pelo meu rádio, sua voz vem escalando
pela fumaça e pelas emanações do vinho...
é um momento solitário, ela canta, e você não é
meu e isso me deixa tão mal,
essa coisa de ser eu...
consigo escutar carros na autoestrada, é como um mar distante
com sedimentos de pessoas
e por sobre o meu outro ombro, lá longe na 7th street
perto da Western
está o hospital, aquela casa do suplício –
lençóis e urinóis e braços e cabeças e
expirações;
tudo é tão docemente medonho, tão contínua e
docemente medonho: a arte da consumação: a vida comendo
a vida...
certa vez num sonho eu vi uma cobra engolindo sua própria
cauda, ela engoliu e engoliu até completar
meia-volta, e ali parou e
ali ficou, ela estava estufada de si
mesma. que situação.
só temos nós mesmos para ir em frente, e é o
bastante...
desço a escada pra pegar outra garrafa, ligo a
tevê a cabo e eis Greg Peck fingindo ser
F. Scott e ele está muito empolgado e está lendo seu
manuscrito para sua dama.
desligo o
aparelho.
que tipo de escritor é esse? lendo suas páginas para
uma dama? isso é uma violação...
volto ao andar de cima e meus dois gatos me seguem, eles são
bons camaradas, não temos desentendimentos, não
temos discussões, ouvimos a mesma música, nunca votamos para
presidente.
um dos meus gatos, o grande, salta no encosto
da minha cadeira, se esfrega em meus ombros e meu
pescoço.
“não adianta”, digo a ele, “não vou
ler pra você esse
poema.”
ele salta para o chão e sai pela
sacada e seu amigo
segue atrás.
eles sentam e olham a noite; nós temos o
poder da sanidade aqui.
nestas primeiras horas da manhã, quando quase todo mundo
está dormindo, pequenos insetos noturnos, coisas aladas
entram e circulam e giram.
a máquina zumbe seu zumbido elétrico, e tendo
aberto e provado a nova garrafa eu bato o próximo
verso. você
pode lê-lo para sua dama e ela provavelmente lhe dirá
que é bobagem. ela estará
lendo Suave é a
noite.
1 480
Charles Bukowski
Encurralado
bem, disseram que acabaria
assim: velho. talento esgotado. sem encontrar a
palavra
ouvindo os passos
escuros, eu me viro
olho para trás...
ainda não, cão velho...
muito em breve.
agora
eles se reúnem falando de
mim: “sim, aconteceu, ele
já era... é
triste...”
“ele nunca foi grande coisa,
foi?”
“bem, não, mas agora...”
agora
eles estão comemorando a minha queda
em tabernas que já não
frequento.
agora
eu bebo sozinho
nesta máquina
defeituosa
enquanto as sombras assumem
formas
eu luto na lenta
retirada
agora
minha promessa de outrora
definhando
definhando
agora
acendendo novos cigarros
servindo mais
bebidas
foi uma belíssima
luta
ainda
é.
assim: velho. talento esgotado. sem encontrar a
palavra
ouvindo os passos
escuros, eu me viro
olho para trás...
ainda não, cão velho...
muito em breve.
agora
eles se reúnem falando de
mim: “sim, aconteceu, ele
já era... é
triste...”
“ele nunca foi grande coisa,
foi?”
“bem, não, mas agora...”
agora
eles estão comemorando a minha queda
em tabernas que já não
frequento.
agora
eu bebo sozinho
nesta máquina
defeituosa
enquanto as sombras assumem
formas
eu luto na lenta
retirada
agora
minha promessa de outrora
definhando
definhando
agora
acendendo novos cigarros
servindo mais
bebidas
foi uma belíssima
luta
ainda
é.
1 338
Charles Bukowski
Encurralado
bem, disseram que acabaria
assim: velho. talento esgotado. sem encontrar a
palavra
ouvindo os passos
escuros, eu me viro
olho para trás...
ainda não, cão velho...
muito em breve.
agora
eles se reúnem falando de
mim: “sim, aconteceu, ele
já era... é
triste...”
“ele nunca foi grande coisa,
foi?”
“bem, não, mas agora...”
agora
eles estão comemorando a minha queda
em tabernas que já não
frequento.
agora
eu bebo sozinho
nesta máquina
defeituosa
enquanto as sombras assumem
formas
eu luto na lenta
retirada
agora
minha promessa de outrora
definhando
definhando
agora
acendendo novos cigarros
servindo mais
bebidas
foi uma belíssima
luta
ainda
é.
assim: velho. talento esgotado. sem encontrar a
palavra
ouvindo os passos
escuros, eu me viro
olho para trás...
ainda não, cão velho...
muito em breve.
agora
eles se reúnem falando de
mim: “sim, aconteceu, ele
já era... é
triste...”
“ele nunca foi grande coisa,
foi?”
“bem, não, mas agora...”
agora
eles estão comemorando a minha queda
em tabernas que já não
frequento.
agora
eu bebo sozinho
nesta máquina
defeituosa
enquanto as sombras assumem
formas
eu luto na lenta
retirada
agora
minha promessa de outrora
definhando
definhando
agora
acendendo novos cigarros
servindo mais
bebidas
foi uma belíssima
luta
ainda
é.
1 338
Charles Bukowski
Encurralado
bem, disseram que acabaria
assim: velho. talento esgotado. sem encontrar a
palavra
ouvindo os passos
escuros, eu me viro
olho para trás...
ainda não, cão velho...
muito em breve.
agora
eles se reúnem falando de
mim: “sim, aconteceu, ele
já era... é
triste...”
“ele nunca foi grande coisa,
foi?”
“bem, não, mas agora...”
agora
eles estão comemorando a minha queda
em tabernas que já não
frequento.
agora
eu bebo sozinho
nesta máquina
defeituosa
enquanto as sombras assumem
formas
eu luto na lenta
retirada
agora
minha promessa de outrora
definhando
definhando
agora
acendendo novos cigarros
servindo mais
bebidas
foi uma belíssima
luta
ainda
é.
assim: velho. talento esgotado. sem encontrar a
palavra
ouvindo os passos
escuros, eu me viro
olho para trás...
ainda não, cão velho...
muito em breve.
agora
eles se reúnem falando de
mim: “sim, aconteceu, ele
já era... é
triste...”
“ele nunca foi grande coisa,
foi?”
“bem, não, mas agora...”
agora
eles estão comemorando a minha queda
em tabernas que já não
frequento.
agora
eu bebo sozinho
nesta máquina
defeituosa
enquanto as sombras assumem
formas
eu luto na lenta
retirada
agora
minha promessa de outrora
definhando
definhando
agora
acendendo novos cigarros
servindo mais
bebidas
foi uma belíssima
luta
ainda
é.
1 338
Charles Bukowski
Reflexões
o templo do vão da minha porta está
trancado.
só concordo com meus críticos quando eles estão
errados.
meu pai era cego de um olho, surdo de um ouvido
e errado de uma vida.
os selos postais dos Estados Unidos são os mais feios
do mundo.
os personagens de Hemingway eram consistentemente
sombrios, ou seja, eles se esforçavam
demais.
as manhãs são o pior, os meios-dias um pouco
melhor e as noites o melhor de tudo.
pela altura em que você está pronto pra dormir você
sente a melhor sensação de todas.
os constantes vazamentos de esgoto apenas fortalecem minhas
convicções.
a melhor coisa sobre Immanuel Kant era
seu nome.
viver bem é uma questão de definição.
Deus é uma invenção do Homem; a Mulher, do
Diabo.
só pessoas entediantes se entediam.
todos fogem das pessoas solitárias porque elas são
solitárias e elas são solitárias porque todos
fogem delas.
pessoas que preferem ficar sozinhas têm
belíssimas razões para tal preferência.
pessoas que preferem ficar sozinhas e pessoas solitárias
não podem ser colocadas juntas no mesmo recinto.
se você colar um coco na bunda por baixo das calças,
você pode andar por aí com ele por duas semanas antes
que alguém pergunte a respeito.
o melhor livro é aquele que você nunca leu; a
melhor mulher, aquela que você nunca conheceu.
se o homem fosse feito para voar ele teria
nascido com asas ligadas ao corpo.
admito que já voei sem elas mas é
um ato antinatural, é por isso que não paro de pedir
bebidas à comissária de bordo.
se ficar sentado num quarto escuro por alguns meses você
terá uns pensamentos maravilhosos antes de
enlouquecer.
dificilmente haverá coisa mais triste do que um gato
atropelado.
a base do capitalismo é vender algo por
bem mais do que seu valor.
quanto mais você conseguir fazer isso, tanto mais rico poderá
ficar.
todo mundo ferra alguém de um jeito
diferente.
eu ferro você escrevendo palavras.
bem-aventurança só significa esquecer por um tempo o que há
de vir.
o Inferno nunca para ele só pausa.
isto é uma pausa.
aproveite enquanto puder.
trancado.
só concordo com meus críticos quando eles estão
errados.
meu pai era cego de um olho, surdo de um ouvido
e errado de uma vida.
os selos postais dos Estados Unidos são os mais feios
do mundo.
os personagens de Hemingway eram consistentemente
sombrios, ou seja, eles se esforçavam
demais.
as manhãs são o pior, os meios-dias um pouco
melhor e as noites o melhor de tudo.
pela altura em que você está pronto pra dormir você
sente a melhor sensação de todas.
os constantes vazamentos de esgoto apenas fortalecem minhas
convicções.
a melhor coisa sobre Immanuel Kant era
seu nome.
viver bem é uma questão de definição.
Deus é uma invenção do Homem; a Mulher, do
Diabo.
só pessoas entediantes se entediam.
todos fogem das pessoas solitárias porque elas são
solitárias e elas são solitárias porque todos
fogem delas.
pessoas que preferem ficar sozinhas têm
belíssimas razões para tal preferência.
pessoas que preferem ficar sozinhas e pessoas solitárias
não podem ser colocadas juntas no mesmo recinto.
se você colar um coco na bunda por baixo das calças,
você pode andar por aí com ele por duas semanas antes
que alguém pergunte a respeito.
o melhor livro é aquele que você nunca leu; a
melhor mulher, aquela que você nunca conheceu.
se o homem fosse feito para voar ele teria
nascido com asas ligadas ao corpo.
admito que já voei sem elas mas é
um ato antinatural, é por isso que não paro de pedir
bebidas à comissária de bordo.
se ficar sentado num quarto escuro por alguns meses você
terá uns pensamentos maravilhosos antes de
enlouquecer.
dificilmente haverá coisa mais triste do que um gato
atropelado.
a base do capitalismo é vender algo por
bem mais do que seu valor.
quanto mais você conseguir fazer isso, tanto mais rico poderá
ficar.
todo mundo ferra alguém de um jeito
diferente.
eu ferro você escrevendo palavras.
bem-aventurança só significa esquecer por um tempo o que há
de vir.
o Inferno nunca para ele só pausa.
isto é uma pausa.
aproveite enquanto puder.
1 082
Charles Bukowski
Reflexões
o templo do vão da minha porta está
trancado.
só concordo com meus críticos quando eles estão
errados.
meu pai era cego de um olho, surdo de um ouvido
e errado de uma vida.
os selos postais dos Estados Unidos são os mais feios
do mundo.
os personagens de Hemingway eram consistentemente
sombrios, ou seja, eles se esforçavam
demais.
as manhãs são o pior, os meios-dias um pouco
melhor e as noites o melhor de tudo.
pela altura em que você está pronto pra dormir você
sente a melhor sensação de todas.
os constantes vazamentos de esgoto apenas fortalecem minhas
convicções.
a melhor coisa sobre Immanuel Kant era
seu nome.
viver bem é uma questão de definição.
Deus é uma invenção do Homem; a Mulher, do
Diabo.
só pessoas entediantes se entediam.
todos fogem das pessoas solitárias porque elas são
solitárias e elas são solitárias porque todos
fogem delas.
pessoas que preferem ficar sozinhas têm
belíssimas razões para tal preferência.
pessoas que preferem ficar sozinhas e pessoas solitárias
não podem ser colocadas juntas no mesmo recinto.
se você colar um coco na bunda por baixo das calças,
você pode andar por aí com ele por duas semanas antes
que alguém pergunte a respeito.
o melhor livro é aquele que você nunca leu; a
melhor mulher, aquela que você nunca conheceu.
se o homem fosse feito para voar ele teria
nascido com asas ligadas ao corpo.
admito que já voei sem elas mas é
um ato antinatural, é por isso que não paro de pedir
bebidas à comissária de bordo.
se ficar sentado num quarto escuro por alguns meses você
terá uns pensamentos maravilhosos antes de
enlouquecer.
dificilmente haverá coisa mais triste do que um gato
atropelado.
a base do capitalismo é vender algo por
bem mais do que seu valor.
quanto mais você conseguir fazer isso, tanto mais rico poderá
ficar.
todo mundo ferra alguém de um jeito
diferente.
eu ferro você escrevendo palavras.
bem-aventurança só significa esquecer por um tempo o que há
de vir.
o Inferno nunca para ele só pausa.
isto é uma pausa.
aproveite enquanto puder.
trancado.
só concordo com meus críticos quando eles estão
errados.
meu pai era cego de um olho, surdo de um ouvido
e errado de uma vida.
os selos postais dos Estados Unidos são os mais feios
do mundo.
os personagens de Hemingway eram consistentemente
sombrios, ou seja, eles se esforçavam
demais.
as manhãs são o pior, os meios-dias um pouco
melhor e as noites o melhor de tudo.
pela altura em que você está pronto pra dormir você
sente a melhor sensação de todas.
os constantes vazamentos de esgoto apenas fortalecem minhas
convicções.
a melhor coisa sobre Immanuel Kant era
seu nome.
viver bem é uma questão de definição.
Deus é uma invenção do Homem; a Mulher, do
Diabo.
só pessoas entediantes se entediam.
todos fogem das pessoas solitárias porque elas são
solitárias e elas são solitárias porque todos
fogem delas.
pessoas que preferem ficar sozinhas têm
belíssimas razões para tal preferência.
pessoas que preferem ficar sozinhas e pessoas solitárias
não podem ser colocadas juntas no mesmo recinto.
se você colar um coco na bunda por baixo das calças,
você pode andar por aí com ele por duas semanas antes
que alguém pergunte a respeito.
o melhor livro é aquele que você nunca leu; a
melhor mulher, aquela que você nunca conheceu.
se o homem fosse feito para voar ele teria
nascido com asas ligadas ao corpo.
admito que já voei sem elas mas é
um ato antinatural, é por isso que não paro de pedir
bebidas à comissária de bordo.
se ficar sentado num quarto escuro por alguns meses você
terá uns pensamentos maravilhosos antes de
enlouquecer.
dificilmente haverá coisa mais triste do que um gato
atropelado.
a base do capitalismo é vender algo por
bem mais do que seu valor.
quanto mais você conseguir fazer isso, tanto mais rico poderá
ficar.
todo mundo ferra alguém de um jeito
diferente.
eu ferro você escrevendo palavras.
bem-aventurança só significa esquecer por um tempo o que há
de vir.
o Inferno nunca para ele só pausa.
isto é uma pausa.
aproveite enquanto puder.
1 082
Charles Bukowski
Reflexões
o templo do vão da minha porta está
trancado.
só concordo com meus críticos quando eles estão
errados.
meu pai era cego de um olho, surdo de um ouvido
e errado de uma vida.
os selos postais dos Estados Unidos são os mais feios
do mundo.
os personagens de Hemingway eram consistentemente
sombrios, ou seja, eles se esforçavam
demais.
as manhãs são o pior, os meios-dias um pouco
melhor e as noites o melhor de tudo.
pela altura em que você está pronto pra dormir você
sente a melhor sensação de todas.
os constantes vazamentos de esgoto apenas fortalecem minhas
convicções.
a melhor coisa sobre Immanuel Kant era
seu nome.
viver bem é uma questão de definição.
Deus é uma invenção do Homem; a Mulher, do
Diabo.
só pessoas entediantes se entediam.
todos fogem das pessoas solitárias porque elas são
solitárias e elas são solitárias porque todos
fogem delas.
pessoas que preferem ficar sozinhas têm
belíssimas razões para tal preferência.
pessoas que preferem ficar sozinhas e pessoas solitárias
não podem ser colocadas juntas no mesmo recinto.
se você colar um coco na bunda por baixo das calças,
você pode andar por aí com ele por duas semanas antes
que alguém pergunte a respeito.
o melhor livro é aquele que você nunca leu; a
melhor mulher, aquela que você nunca conheceu.
se o homem fosse feito para voar ele teria
nascido com asas ligadas ao corpo.
admito que já voei sem elas mas é
um ato antinatural, é por isso que não paro de pedir
bebidas à comissária de bordo.
se ficar sentado num quarto escuro por alguns meses você
terá uns pensamentos maravilhosos antes de
enlouquecer.
dificilmente haverá coisa mais triste do que um gato
atropelado.
a base do capitalismo é vender algo por
bem mais do que seu valor.
quanto mais você conseguir fazer isso, tanto mais rico poderá
ficar.
todo mundo ferra alguém de um jeito
diferente.
eu ferro você escrevendo palavras.
bem-aventurança só significa esquecer por um tempo o que há
de vir.
o Inferno nunca para ele só pausa.
isto é uma pausa.
aproveite enquanto puder.
trancado.
só concordo com meus críticos quando eles estão
errados.
meu pai era cego de um olho, surdo de um ouvido
e errado de uma vida.
os selos postais dos Estados Unidos são os mais feios
do mundo.
os personagens de Hemingway eram consistentemente
sombrios, ou seja, eles se esforçavam
demais.
as manhãs são o pior, os meios-dias um pouco
melhor e as noites o melhor de tudo.
pela altura em que você está pronto pra dormir você
sente a melhor sensação de todas.
os constantes vazamentos de esgoto apenas fortalecem minhas
convicções.
a melhor coisa sobre Immanuel Kant era
seu nome.
viver bem é uma questão de definição.
Deus é uma invenção do Homem; a Mulher, do
Diabo.
só pessoas entediantes se entediam.
todos fogem das pessoas solitárias porque elas são
solitárias e elas são solitárias porque todos
fogem delas.
pessoas que preferem ficar sozinhas têm
belíssimas razões para tal preferência.
pessoas que preferem ficar sozinhas e pessoas solitárias
não podem ser colocadas juntas no mesmo recinto.
se você colar um coco na bunda por baixo das calças,
você pode andar por aí com ele por duas semanas antes
que alguém pergunte a respeito.
o melhor livro é aquele que você nunca leu; a
melhor mulher, aquela que você nunca conheceu.
se o homem fosse feito para voar ele teria
nascido com asas ligadas ao corpo.
admito que já voei sem elas mas é
um ato antinatural, é por isso que não paro de pedir
bebidas à comissária de bordo.
se ficar sentado num quarto escuro por alguns meses você
terá uns pensamentos maravilhosos antes de
enlouquecer.
dificilmente haverá coisa mais triste do que um gato
atropelado.
a base do capitalismo é vender algo por
bem mais do que seu valor.
quanto mais você conseguir fazer isso, tanto mais rico poderá
ficar.
todo mundo ferra alguém de um jeito
diferente.
eu ferro você escrevendo palavras.
bem-aventurança só significa esquecer por um tempo o que há
de vir.
o Inferno nunca para ele só pausa.
isto é uma pausa.
aproveite enquanto puder.
1 082
Charles Bukowski
Ovo Desestrelado
NADA. sentados num café tomando café da manhã. NADA. a garçonete,
e as pessoas comendo. o tráfego passa. não importa o que
Napoleão fez, o que Platão fez. Turguêniev poderia ter sido uma mosca. estamos
esgotados, esperança erradicada. pegamos xícaras de café como os robôs que tomarão em breve
o nosso lugar. coragem em Salerno, banhos de sangue no front oriental não
importaram. sabemos que estamos derrotados. NADA. agora é só uma questão de
continuar
de alguma maneira –
mastigar a comida e ler o jornal. nós
lemos sobre nós mesmos. a notícia é
ruim. algo sobre
NADA.
Joe Louis morto há muito enquanto a mosca-da-fruta invade Beverly Hills.
bem, pelo menos podemos sentar e
comer. tem sido uma viagem
árdua. poderia ser
pior. poderia ser pior do que
NADA.
peçamos mais café à
garçonete.
a vadia! ela sabe que estamos tentando chamar sua
atenção.
ela só fica lá parada fazendo
NADA.
não importa que o príncipe Charles caia do cavalo
ou que o beija-flor seja tão raramente
visto
ou que sejamos insensatos demais para
enlouquecer.
café. sirvam-nos mais desse café do
NADA.
e as pessoas comendo. o tráfego passa. não importa o que
Napoleão fez, o que Platão fez. Turguêniev poderia ter sido uma mosca. estamos
esgotados, esperança erradicada. pegamos xícaras de café como os robôs que tomarão em breve
o nosso lugar. coragem em Salerno, banhos de sangue no front oriental não
importaram. sabemos que estamos derrotados. NADA. agora é só uma questão de
continuar
de alguma maneira –
mastigar a comida e ler o jornal. nós
lemos sobre nós mesmos. a notícia é
ruim. algo sobre
NADA.
Joe Louis morto há muito enquanto a mosca-da-fruta invade Beverly Hills.
bem, pelo menos podemos sentar e
comer. tem sido uma viagem
árdua. poderia ser
pior. poderia ser pior do que
NADA.
peçamos mais café à
garçonete.
a vadia! ela sabe que estamos tentando chamar sua
atenção.
ela só fica lá parada fazendo
NADA.
não importa que o príncipe Charles caia do cavalo
ou que o beija-flor seja tão raramente
visto
ou que sejamos insensatos demais para
enlouquecer.
café. sirvam-nos mais desse café do
NADA.
1 156
Charles Bukowski
Ovo Desestrelado
NADA. sentados num café tomando café da manhã. NADA. a garçonete,
e as pessoas comendo. o tráfego passa. não importa o que
Napoleão fez, o que Platão fez. Turguêniev poderia ter sido uma mosca. estamos
esgotados, esperança erradicada. pegamos xícaras de café como os robôs que tomarão em breve
o nosso lugar. coragem em Salerno, banhos de sangue no front oriental não
importaram. sabemos que estamos derrotados. NADA. agora é só uma questão de
continuar
de alguma maneira –
mastigar a comida e ler o jornal. nós
lemos sobre nós mesmos. a notícia é
ruim. algo sobre
NADA.
Joe Louis morto há muito enquanto a mosca-da-fruta invade Beverly Hills.
bem, pelo menos podemos sentar e
comer. tem sido uma viagem
árdua. poderia ser
pior. poderia ser pior do que
NADA.
peçamos mais café à
garçonete.
a vadia! ela sabe que estamos tentando chamar sua
atenção.
ela só fica lá parada fazendo
NADA.
não importa que o príncipe Charles caia do cavalo
ou que o beija-flor seja tão raramente
visto
ou que sejamos insensatos demais para
enlouquecer.
café. sirvam-nos mais desse café do
NADA.
e as pessoas comendo. o tráfego passa. não importa o que
Napoleão fez, o que Platão fez. Turguêniev poderia ter sido uma mosca. estamos
esgotados, esperança erradicada. pegamos xícaras de café como os robôs que tomarão em breve
o nosso lugar. coragem em Salerno, banhos de sangue no front oriental não
importaram. sabemos que estamos derrotados. NADA. agora é só uma questão de
continuar
de alguma maneira –
mastigar a comida e ler o jornal. nós
lemos sobre nós mesmos. a notícia é
ruim. algo sobre
NADA.
Joe Louis morto há muito enquanto a mosca-da-fruta invade Beverly Hills.
bem, pelo menos podemos sentar e
comer. tem sido uma viagem
árdua. poderia ser
pior. poderia ser pior do que
NADA.
peçamos mais café à
garçonete.
a vadia! ela sabe que estamos tentando chamar sua
atenção.
ela só fica lá parada fazendo
NADA.
não importa que o príncipe Charles caia do cavalo
ou que o beija-flor seja tão raramente
visto
ou que sejamos insensatos demais para
enlouquecer.
café. sirvam-nos mais desse café do
NADA.
1 156
Charles Bukowski
Exame de Direção
motoristas
em reação de defesa e raiva
com frequência mostram o
dedo
àqueles
que se envolvem em seus
problemas de direção.
tenho noção daquilo que o
sinal do dedo
sugere
mas quando ele é dirigido
a mim
às vezes
não consigo deixar de rir dos
rubicundos
semblantes
retorcidos
e do
gesto.
mas hoje
eu me vi
mostrando o dedo
para um cara que
se atravessou
na minha pista
sem esperar
na saída de um
supermercado.
mostrei o dedo para
ele.
ele viu
e eu fui dirigindo colado em seu
para-choque
traseiro.
foi a minha primeira
vez.
eu era um membro do
clube
e me senti um
puta
idiota.
em reação de defesa e raiva
com frequência mostram o
dedo
àqueles
que se envolvem em seus
problemas de direção.
tenho noção daquilo que o
sinal do dedo
sugere
mas quando ele é dirigido
a mim
às vezes
não consigo deixar de rir dos
rubicundos
semblantes
retorcidos
e do
gesto.
mas hoje
eu me vi
mostrando o dedo
para um cara que
se atravessou
na minha pista
sem esperar
na saída de um
supermercado.
mostrei o dedo para
ele.
ele viu
e eu fui dirigindo colado em seu
para-choque
traseiro.
foi a minha primeira
vez.
eu era um membro do
clube
e me senti um
puta
idiota.
1 315
Charles Bukowski
Exame de Direção
motoristas
em reação de defesa e raiva
com frequência mostram o
dedo
àqueles
que se envolvem em seus
problemas de direção.
tenho noção daquilo que o
sinal do dedo
sugere
mas quando ele é dirigido
a mim
às vezes
não consigo deixar de rir dos
rubicundos
semblantes
retorcidos
e do
gesto.
mas hoje
eu me vi
mostrando o dedo
para um cara que
se atravessou
na minha pista
sem esperar
na saída de um
supermercado.
mostrei o dedo para
ele.
ele viu
e eu fui dirigindo colado em seu
para-choque
traseiro.
foi a minha primeira
vez.
eu era um membro do
clube
e me senti um
puta
idiota.
em reação de defesa e raiva
com frequência mostram o
dedo
àqueles
que se envolvem em seus
problemas de direção.
tenho noção daquilo que o
sinal do dedo
sugere
mas quando ele é dirigido
a mim
às vezes
não consigo deixar de rir dos
rubicundos
semblantes
retorcidos
e do
gesto.
mas hoje
eu me vi
mostrando o dedo
para um cara que
se atravessou
na minha pista
sem esperar
na saída de um
supermercado.
mostrei o dedo para
ele.
ele viu
e eu fui dirigindo colado em seu
para-choque
traseiro.
foi a minha primeira
vez.
eu era um membro do
clube
e me senti um
puta
idiota.
1 315
Charles Bukowski
Exame de Direção
motoristas
em reação de defesa e raiva
com frequência mostram o
dedo
àqueles
que se envolvem em seus
problemas de direção.
tenho noção daquilo que o
sinal do dedo
sugere
mas quando ele é dirigido
a mim
às vezes
não consigo deixar de rir dos
rubicundos
semblantes
retorcidos
e do
gesto.
mas hoje
eu me vi
mostrando o dedo
para um cara que
se atravessou
na minha pista
sem esperar
na saída de um
supermercado.
mostrei o dedo para
ele.
ele viu
e eu fui dirigindo colado em seu
para-choque
traseiro.
foi a minha primeira
vez.
eu era um membro do
clube
e me senti um
puta
idiota.
em reação de defesa e raiva
com frequência mostram o
dedo
àqueles
que se envolvem em seus
problemas de direção.
tenho noção daquilo que o
sinal do dedo
sugere
mas quando ele é dirigido
a mim
às vezes
não consigo deixar de rir dos
rubicundos
semblantes
retorcidos
e do
gesto.
mas hoje
eu me vi
mostrando o dedo
para um cara que
se atravessou
na minha pista
sem esperar
na saída de um
supermercado.
mostrei o dedo para
ele.
ele viu
e eu fui dirigindo colado em seu
para-choque
traseiro.
foi a minha primeira
vez.
eu era um membro do
clube
e me senti um
puta
idiota.
1 315
Charles Bukowski
Saia Antes do Sol
vire à esquerda na Moscow ou
me encontre na Enchilada House.
os cães me arrastaram até
aqui.
estou entorpecido pelo Destino
mas disposto a jogar como um linebacker no
quarto tempo.
beber?
ou pensar?
melhor beber.
nós viramos o filósofo
da pedra
por falta de coisas melhores.
costumávamos destruir, agora notamos
o que resta:
nós, eles, nós e a
maquinaria.
perfeitamente unidos como a lesma e
a folha.
que tenebrosa fraude são essas
regras!
quem inventou isso?
peguem o desgraçado, assem com o
carneiro!
engraçado falar, o quê?
tipo Mary tinha um carneirinho e saiu
da cidade às
9:15.
coisa de pedra.
coisa de perda, com um sorriso
cabisbaixo.
bebida?
não importa,
e importa.
o que mais importa é o que acontece com
outra pessoa, não
com você.
que curioso que tenha chegado a
isso.
água de nascente alpina não diria
melhor.
ou a contagem até dez.
a inesperada mágica de um argumento
bem apresentado
pode te levar de fogo para fogo,
de inferno para inferno.
tudo diz respeito a isso, ali ao
lado da
pedra.
vire à esquerda na Moscow, desça
pela Denver.
beba.
me encontre na Enchilada House.
os cães me arrastaram até
aqui.
estou entorpecido pelo Destino
mas disposto a jogar como um linebacker no
quarto tempo.
beber?
ou pensar?
melhor beber.
nós viramos o filósofo
da pedra
por falta de coisas melhores.
costumávamos destruir, agora notamos
o que resta:
nós, eles, nós e a
maquinaria.
perfeitamente unidos como a lesma e
a folha.
que tenebrosa fraude são essas
regras!
quem inventou isso?
peguem o desgraçado, assem com o
carneiro!
engraçado falar, o quê?
tipo Mary tinha um carneirinho e saiu
da cidade às
9:15.
coisa de pedra.
coisa de perda, com um sorriso
cabisbaixo.
bebida?
não importa,
e importa.
o que mais importa é o que acontece com
outra pessoa, não
com você.
que curioso que tenha chegado a
isso.
água de nascente alpina não diria
melhor.
ou a contagem até dez.
a inesperada mágica de um argumento
bem apresentado
pode te levar de fogo para fogo,
de inferno para inferno.
tudo diz respeito a isso, ali ao
lado da
pedra.
vire à esquerda na Moscow, desça
pela Denver.
beba.
1 022
Charles Bukowski
#1
ah me perdoem Por quem os sinos dobram,
ah me perdoe Homem que andou sobre as águas,
ah me perdoe velhinha que morava num sapato,
ah me perdoe a montanha que rugia à meia-noite,
ah me perdoem os sons bobos da noite do dia e da morte,
ah me perdoe a morte da última bela pantera,
ah me perdoem todos os navios afundados e exércitos derrotados.
este é o meu primeiro POEMA EM FAX.
é tarde demais:
fui
conquistado.
ah me perdoe Homem que andou sobre as águas,
ah me perdoe velhinha que morava num sapato,
ah me perdoe a montanha que rugia à meia-noite,
ah me perdoem os sons bobos da noite do dia e da morte,
ah me perdoe a morte da última bela pantera,
ah me perdoem todos os navios afundados e exércitos derrotados.
este é o meu primeiro POEMA EM FAX.
é tarde demais:
fui
conquistado.
1 132
Charles Bukowski
Vamos Fazer Um Acordo
em conjunção com
esses rios de merda
que não param de correr no meu cérebro, Capitão
Morsa, posso apenas dizer que mal consigo entendê-los
e eu rezaria
qualquer quantidade de AVE-MARIAS
para lhes dar um fim –
eu até mesmo voltaria a morar com aquela vadia do
coração de pedra só
para impedir que esses rios de merda rolem no meu
cérebro, Capitão Morsa, mas
claro
eu jamais pararia de apostar nos cavalos ou de
beber
mas
Capitão
para interromper o curso desses rios
eu prometeria nunca mais
comer ovos e
eu rasparia minha cabeça e minhas bolas, eu moraria no
estado de Delaware e eu até mesmo
me forçaria a ver até o fim qualquer filme estrelado por
qualquer membro da família
Fonda.
pense a respeito, Capitão Morsa, a
uva-passa está no bolo e o guarda-sol se dobra para
o vento oeste
preciso fazer algo a respeito de tudo
isso...
parece que nunca vai
parar.
o inferno de cada homem fica num lugar
diferente: o meu é logo acima e
atrás
do meu rosto
arruinado.
esses rios de merda
que não param de correr no meu cérebro, Capitão
Morsa, posso apenas dizer que mal consigo entendê-los
e eu rezaria
qualquer quantidade de AVE-MARIAS
para lhes dar um fim –
eu até mesmo voltaria a morar com aquela vadia do
coração de pedra só
para impedir que esses rios de merda rolem no meu
cérebro, Capitão Morsa, mas
claro
eu jamais pararia de apostar nos cavalos ou de
beber
mas
Capitão
para interromper o curso desses rios
eu prometeria nunca mais
comer ovos e
eu rasparia minha cabeça e minhas bolas, eu moraria no
estado de Delaware e eu até mesmo
me forçaria a ver até o fim qualquer filme estrelado por
qualquer membro da família
Fonda.
pense a respeito, Capitão Morsa, a
uva-passa está no bolo e o guarda-sol se dobra para
o vento oeste
preciso fazer algo a respeito de tudo
isso...
parece que nunca vai
parar.
o inferno de cada homem fica num lugar
diferente: o meu é logo acima e
atrás
do meu rosto
arruinado.
1 292
Charles Bukowski
Vamos Fazer Um Acordo
em conjunção com
esses rios de merda
que não param de correr no meu cérebro, Capitão
Morsa, posso apenas dizer que mal consigo entendê-los
e eu rezaria
qualquer quantidade de AVE-MARIAS
para lhes dar um fim –
eu até mesmo voltaria a morar com aquela vadia do
coração de pedra só
para impedir que esses rios de merda rolem no meu
cérebro, Capitão Morsa, mas
claro
eu jamais pararia de apostar nos cavalos ou de
beber
mas
Capitão
para interromper o curso desses rios
eu prometeria nunca mais
comer ovos e
eu rasparia minha cabeça e minhas bolas, eu moraria no
estado de Delaware e eu até mesmo
me forçaria a ver até o fim qualquer filme estrelado por
qualquer membro da família
Fonda.
pense a respeito, Capitão Morsa, a
uva-passa está no bolo e o guarda-sol se dobra para
o vento oeste
preciso fazer algo a respeito de tudo
isso...
parece que nunca vai
parar.
o inferno de cada homem fica num lugar
diferente: o meu é logo acima e
atrás
do meu rosto
arruinado.
esses rios de merda
que não param de correr no meu cérebro, Capitão
Morsa, posso apenas dizer que mal consigo entendê-los
e eu rezaria
qualquer quantidade de AVE-MARIAS
para lhes dar um fim –
eu até mesmo voltaria a morar com aquela vadia do
coração de pedra só
para impedir que esses rios de merda rolem no meu
cérebro, Capitão Morsa, mas
claro
eu jamais pararia de apostar nos cavalos ou de
beber
mas
Capitão
para interromper o curso desses rios
eu prometeria nunca mais
comer ovos e
eu rasparia minha cabeça e minhas bolas, eu moraria no
estado de Delaware e eu até mesmo
me forçaria a ver até o fim qualquer filme estrelado por
qualquer membro da família
Fonda.
pense a respeito, Capitão Morsa, a
uva-passa está no bolo e o guarda-sol se dobra para
o vento oeste
preciso fazer algo a respeito de tudo
isso...
parece que nunca vai
parar.
o inferno de cada homem fica num lugar
diferente: o meu é logo acima e
atrás
do meu rosto
arruinado.
1 292
Charles Bukowski
Vamos Fazer Um Acordo
em conjunção com
esses rios de merda
que não param de correr no meu cérebro, Capitão
Morsa, posso apenas dizer que mal consigo entendê-los
e eu rezaria
qualquer quantidade de AVE-MARIAS
para lhes dar um fim –
eu até mesmo voltaria a morar com aquela vadia do
coração de pedra só
para impedir que esses rios de merda rolem no meu
cérebro, Capitão Morsa, mas
claro
eu jamais pararia de apostar nos cavalos ou de
beber
mas
Capitão
para interromper o curso desses rios
eu prometeria nunca mais
comer ovos e
eu rasparia minha cabeça e minhas bolas, eu moraria no
estado de Delaware e eu até mesmo
me forçaria a ver até o fim qualquer filme estrelado por
qualquer membro da família
Fonda.
pense a respeito, Capitão Morsa, a
uva-passa está no bolo e o guarda-sol se dobra para
o vento oeste
preciso fazer algo a respeito de tudo
isso...
parece que nunca vai
parar.
o inferno de cada homem fica num lugar
diferente: o meu é logo acima e
atrás
do meu rosto
arruinado.
esses rios de merda
que não param de correr no meu cérebro, Capitão
Morsa, posso apenas dizer que mal consigo entendê-los
e eu rezaria
qualquer quantidade de AVE-MARIAS
para lhes dar um fim –
eu até mesmo voltaria a morar com aquela vadia do
coração de pedra só
para impedir que esses rios de merda rolem no meu
cérebro, Capitão Morsa, mas
claro
eu jamais pararia de apostar nos cavalos ou de
beber
mas
Capitão
para interromper o curso desses rios
eu prometeria nunca mais
comer ovos e
eu rasparia minha cabeça e minhas bolas, eu moraria no
estado de Delaware e eu até mesmo
me forçaria a ver até o fim qualquer filme estrelado por
qualquer membro da família
Fonda.
pense a respeito, Capitão Morsa, a
uva-passa está no bolo e o guarda-sol se dobra para
o vento oeste
preciso fazer algo a respeito de tudo
isso...
parece que nunca vai
parar.
o inferno de cada homem fica num lugar
diferente: o meu é logo acima e
atrás
do meu rosto
arruinado.
1 292
Charles Bukowski
Couvert Artístico
Doug e eu pegamos uma mesa na frente,
uma das melhores, as garotas
chutavam as pernas lá no alto, a música
era boa e as bebidas não
paravam.
mas bem no meio da diversão eu
vi algo passar.
ah não, pensei, era a minha
morte, acabei de ver minha morte
passar.
“acabei de ver minha morte passar”, falei
ao Doug.
“o quê?”, ele perguntou, “não dá pra
escutar!”
“MORTE!”, gritei.
“esquece”, ele disse, “bebe mais!”
ao fim da apresentação, uma das
garotas, Mandy, Doug a
conhecia, veio e se sentou.
sua cabeça era a cabeça da
Morte.
“por que você está me encarando?”,
ela perguntou.
“você me lembra de algo”,
falei.
“o quê?”, ela perguntou.
apenas sorri.
“preciso ir”, ela disse.
“você assustou ela”, disse
Doug.
“ela me assustou”, eu disse.
então olhei para Doug.
a cabeça dele era a cabeça da
Morte.
ele não sabia disso, só eu
sabia.
“que diabo você tá
olhando?”, ele me perguntou.
“nada”, respondi.
“você tá com cara de quem viu
fantasma”, ele disse, “tá doente
ou algo assim?”
“estou bem, Doug.”
“bem, Jesus, quer dizer, a gente
gasta um monte de grana pra
fazer a farra e você age
como se fosse um
enterro.”
aí o comediante subiu
no palco, um cara gordão com
chapéu de papel, ele soprou um
apito e tirou um
balão da bunda
e disse algo que
não escutei direito
e todo mundo riu
e riu.
não consegui rir.
vi minha morte passando.
era o garçom.
fiz sinal para ele
trazer uma bebida.
de repente ele virou uma
dura bola de aço
e veio ribombando na
minha direção veloz como
bala enquanto eu me levantava
arrancando a mesa do chão,
lâmpada estilhaçada.
algumas pessoas riram
e outras gritaram.
uma das melhores, as garotas
chutavam as pernas lá no alto, a música
era boa e as bebidas não
paravam.
mas bem no meio da diversão eu
vi algo passar.
ah não, pensei, era a minha
morte, acabei de ver minha morte
passar.
“acabei de ver minha morte passar”, falei
ao Doug.
“o quê?”, ele perguntou, “não dá pra
escutar!”
“MORTE!”, gritei.
“esquece”, ele disse, “bebe mais!”
ao fim da apresentação, uma das
garotas, Mandy, Doug a
conhecia, veio e se sentou.
sua cabeça era a cabeça da
Morte.
“por que você está me encarando?”,
ela perguntou.
“você me lembra de algo”,
falei.
“o quê?”, ela perguntou.
apenas sorri.
“preciso ir”, ela disse.
“você assustou ela”, disse
Doug.
“ela me assustou”, eu disse.
então olhei para Doug.
a cabeça dele era a cabeça da
Morte.
ele não sabia disso, só eu
sabia.
“que diabo você tá
olhando?”, ele me perguntou.
“nada”, respondi.
“você tá com cara de quem viu
fantasma”, ele disse, “tá doente
ou algo assim?”
“estou bem, Doug.”
“bem, Jesus, quer dizer, a gente
gasta um monte de grana pra
fazer a farra e você age
como se fosse um
enterro.”
aí o comediante subiu
no palco, um cara gordão com
chapéu de papel, ele soprou um
apito e tirou um
balão da bunda
e disse algo que
não escutei direito
e todo mundo riu
e riu.
não consegui rir.
vi minha morte passando.
era o garçom.
fiz sinal para ele
trazer uma bebida.
de repente ele virou uma
dura bola de aço
e veio ribombando na
minha direção veloz como
bala enquanto eu me levantava
arrancando a mesa do chão,
lâmpada estilhaçada.
algumas pessoas riram
e outras gritaram.
1 086
Charles Bukowski
Couvert Artístico
Doug e eu pegamos uma mesa na frente,
uma das melhores, as garotas
chutavam as pernas lá no alto, a música
era boa e as bebidas não
paravam.
mas bem no meio da diversão eu
vi algo passar.
ah não, pensei, era a minha
morte, acabei de ver minha morte
passar.
“acabei de ver minha morte passar”, falei
ao Doug.
“o quê?”, ele perguntou, “não dá pra
escutar!”
“MORTE!”, gritei.
“esquece”, ele disse, “bebe mais!”
ao fim da apresentação, uma das
garotas, Mandy, Doug a
conhecia, veio e se sentou.
sua cabeça era a cabeça da
Morte.
“por que você está me encarando?”,
ela perguntou.
“você me lembra de algo”,
falei.
“o quê?”, ela perguntou.
apenas sorri.
“preciso ir”, ela disse.
“você assustou ela”, disse
Doug.
“ela me assustou”, eu disse.
então olhei para Doug.
a cabeça dele era a cabeça da
Morte.
ele não sabia disso, só eu
sabia.
“que diabo você tá
olhando?”, ele me perguntou.
“nada”, respondi.
“você tá com cara de quem viu
fantasma”, ele disse, “tá doente
ou algo assim?”
“estou bem, Doug.”
“bem, Jesus, quer dizer, a gente
gasta um monte de grana pra
fazer a farra e você age
como se fosse um
enterro.”
aí o comediante subiu
no palco, um cara gordão com
chapéu de papel, ele soprou um
apito e tirou um
balão da bunda
e disse algo que
não escutei direito
e todo mundo riu
e riu.
não consegui rir.
vi minha morte passando.
era o garçom.
fiz sinal para ele
trazer uma bebida.
de repente ele virou uma
dura bola de aço
e veio ribombando na
minha direção veloz como
bala enquanto eu me levantava
arrancando a mesa do chão,
lâmpada estilhaçada.
algumas pessoas riram
e outras gritaram.
uma das melhores, as garotas
chutavam as pernas lá no alto, a música
era boa e as bebidas não
paravam.
mas bem no meio da diversão eu
vi algo passar.
ah não, pensei, era a minha
morte, acabei de ver minha morte
passar.
“acabei de ver minha morte passar”, falei
ao Doug.
“o quê?”, ele perguntou, “não dá pra
escutar!”
“MORTE!”, gritei.
“esquece”, ele disse, “bebe mais!”
ao fim da apresentação, uma das
garotas, Mandy, Doug a
conhecia, veio e se sentou.
sua cabeça era a cabeça da
Morte.
“por que você está me encarando?”,
ela perguntou.
“você me lembra de algo”,
falei.
“o quê?”, ela perguntou.
apenas sorri.
“preciso ir”, ela disse.
“você assustou ela”, disse
Doug.
“ela me assustou”, eu disse.
então olhei para Doug.
a cabeça dele era a cabeça da
Morte.
ele não sabia disso, só eu
sabia.
“que diabo você tá
olhando?”, ele me perguntou.
“nada”, respondi.
“você tá com cara de quem viu
fantasma”, ele disse, “tá doente
ou algo assim?”
“estou bem, Doug.”
“bem, Jesus, quer dizer, a gente
gasta um monte de grana pra
fazer a farra e você age
como se fosse um
enterro.”
aí o comediante subiu
no palco, um cara gordão com
chapéu de papel, ele soprou um
apito e tirou um
balão da bunda
e disse algo que
não escutei direito
e todo mundo riu
e riu.
não consegui rir.
vi minha morte passando.
era o garçom.
fiz sinal para ele
trazer uma bebida.
de repente ele virou uma
dura bola de aço
e veio ribombando na
minha direção veloz como
bala enquanto eu me levantava
arrancando a mesa do chão,
lâmpada estilhaçada.
algumas pessoas riram
e outras gritaram.
1 086
Charles Bukowski
Vagabundeando Com Jane
não havia fogão
e colocávamos latas de feijão
na água quente da pia
para aquecê-las
e
nós líamos os jornais dominicais
na segunda-feira
depois de desenterrá-los nas
latas de lixo
mas de algum jeito arranjávamos
dinheiro para o vinho
e para o
aluguel
e o dinheiro vinha
das ruas
das lojas de penhores
do nada
e tudo que importava
era a próxima
garrafa
e bebíamos e cantávamos
e
brigávamos
dentro e fora
de detenções
por embriaguez
carros acidentados
hospitais
fazíamos barricadas
contra a
polícia
e os outros hóspedes
nos
detestavam
e o recepcionista
do hotel
nos
temia
e aquilo nunca
tinha
fim
e foi uma das
épocas mais maravilhosas
da minha
vida.
e colocávamos latas de feijão
na água quente da pia
para aquecê-las
e
nós líamos os jornais dominicais
na segunda-feira
depois de desenterrá-los nas
latas de lixo
mas de algum jeito arranjávamos
dinheiro para o vinho
e para o
aluguel
e o dinheiro vinha
das ruas
das lojas de penhores
do nada
e tudo que importava
era a próxima
garrafa
e bebíamos e cantávamos
e
brigávamos
dentro e fora
de detenções
por embriaguez
carros acidentados
hospitais
fazíamos barricadas
contra a
polícia
e os outros hóspedes
nos
detestavam
e o recepcionista
do hotel
nos
temia
e aquilo nunca
tinha
fim
e foi uma das
épocas mais maravilhosas
da minha
vida.
1 147
Charles Bukowski
Vagabundeando Com Jane
não havia fogão
e colocávamos latas de feijão
na água quente da pia
para aquecê-las
e
nós líamos os jornais dominicais
na segunda-feira
depois de desenterrá-los nas
latas de lixo
mas de algum jeito arranjávamos
dinheiro para o vinho
e para o
aluguel
e o dinheiro vinha
das ruas
das lojas de penhores
do nada
e tudo que importava
era a próxima
garrafa
e bebíamos e cantávamos
e
brigávamos
dentro e fora
de detenções
por embriaguez
carros acidentados
hospitais
fazíamos barricadas
contra a
polícia
e os outros hóspedes
nos
detestavam
e o recepcionista
do hotel
nos
temia
e aquilo nunca
tinha
fim
e foi uma das
épocas mais maravilhosas
da minha
vida.
e colocávamos latas de feijão
na água quente da pia
para aquecê-las
e
nós líamos os jornais dominicais
na segunda-feira
depois de desenterrá-los nas
latas de lixo
mas de algum jeito arranjávamos
dinheiro para o vinho
e para o
aluguel
e o dinheiro vinha
das ruas
das lojas de penhores
do nada
e tudo que importava
era a próxima
garrafa
e bebíamos e cantávamos
e
brigávamos
dentro e fora
de detenções
por embriaguez
carros acidentados
hospitais
fazíamos barricadas
contra a
polícia
e os outros hóspedes
nos
detestavam
e o recepcionista
do hotel
nos
temia
e aquilo nunca
tinha
fim
e foi uma das
épocas mais maravilhosas
da minha
vida.
1 147
Charles Bukowski
A Vida Estradeira
um idiota ficou me fechando e por fim consegui passar por ele, e na
exaltação da liberdade eu acelerei até 135 (naturalmente, não sem antes ver no retrovisor
se havia presença dos nossos protetores de uniforme azul); aí senti e ouvi o CHOQUE de um objeto
duro contra o fundo do meu carro, mas querendo chegar a tempo ao hipódromo me convenci
a ignorá-lo (como se isso eliminasse o problema) muito embora eu começasse a sentir
o cheiro de gasolina.
conferi o medidor do tanque e o nível parecia estável...
já tinha sido uma semana terrível
mas, sabe como é, a derrota pode fortalecer assim como a vitória pode enfraquecer, e se
você tiver a devida sorte e a santa paciência os deuses até poderão conceder
a devida dose...
aí
o tráfego se congestionou e parou, e aí o cheiro de gasolina ficou forte pra valer e eu vi meu
medidor despencando rapidamente, aí meu rádio me informou que um homem 5 quilômetros adiante
no viaduto de Vernon estava sentado na grade de proteção e ameaçava
suicídio,
e assim me vi sob ameaça de ser mandado ao inferno numa explosão
com as pessoas me gritando que meu tanque estava rachado e vazando gasolina;
sim, eu assentia em resposta, eu sei, eu sei...
enquanto isso, enxotando carros com a mão e abrindo caminho rumo à faixa externa
pensando, eles estão mais aterrorizados do que eu:
se eu me ferrar, quem estiver perto é capaz de se ferrar também.
não havia o menor movimento no tráfego – o suicida ainda tentava se
decidir e o meu medidor de gasolina caiu no vermelho
e aí a necessidade de ser um cidadão exemplar e de esperar pela oportunidade
desapareceu e tratei de manobrar
por cima de um anteparo de cimento
entortando minha roda dianteira direita
consegui chegar à saída da autoestrada que estava totalmente
livre
aí rodei como deu até um posto de gasolina na Imperial Highway
estacionei
ainda pingando gasolina, saí, fui até o telefone, chamei um
guincho, não demorou nem um pouco, bela carona de volta com um camarada
negro que me contou histórias estranhas sobre motoristas em apuros...
(como certa mulher, suas mãos estavam grudadas no volante, levaram 15 minutos
conversando e forçando até fazê-la soltar.)
peguei o carro de volta uns dois dias depois, estava voltando do hipódromo,
pisei no freio e o pedal não descia, por sorte eu não estava na autoestrada
mesmo assim desliguei o motor, deslizei até o meio-fio, notei que a cobertura
da coluna de direção havia se soltado e bloqueado o freio, arranquei ela dali, aí
arranquei um pouco mais para garantir, aí jorrou todo um emaranhado de fios,
m e r d a...
girei a chave, pisei no acelerador mas o motor PEGOU
e saí rodando com os fios pendentes derramados na minha perna
pensando
será que essas coisas acontecem com as outras
pessoas ou sou
eu justamente o escolhido?
decidi que era o segundo caso e entrei na autoestrada onde
um cara num fusca me cortou a frente e trancou minha
faixa
consequentemente eu costurei para passar o filho da puta e pisei até
120, 130, 140...
pensando, a coragem necessária para sair da cama toda
manhã
para encarar as mesmas coisas
outra e outra vez
era
enorme.
exaltação da liberdade eu acelerei até 135 (naturalmente, não sem antes ver no retrovisor
se havia presença dos nossos protetores de uniforme azul); aí senti e ouvi o CHOQUE de um objeto
duro contra o fundo do meu carro, mas querendo chegar a tempo ao hipódromo me convenci
a ignorá-lo (como se isso eliminasse o problema) muito embora eu começasse a sentir
o cheiro de gasolina.
conferi o medidor do tanque e o nível parecia estável...
já tinha sido uma semana terrível
mas, sabe como é, a derrota pode fortalecer assim como a vitória pode enfraquecer, e se
você tiver a devida sorte e a santa paciência os deuses até poderão conceder
a devida dose...
aí
o tráfego se congestionou e parou, e aí o cheiro de gasolina ficou forte pra valer e eu vi meu
medidor despencando rapidamente, aí meu rádio me informou que um homem 5 quilômetros adiante
no viaduto de Vernon estava sentado na grade de proteção e ameaçava
suicídio,
e assim me vi sob ameaça de ser mandado ao inferno numa explosão
com as pessoas me gritando que meu tanque estava rachado e vazando gasolina;
sim, eu assentia em resposta, eu sei, eu sei...
enquanto isso, enxotando carros com a mão e abrindo caminho rumo à faixa externa
pensando, eles estão mais aterrorizados do que eu:
se eu me ferrar, quem estiver perto é capaz de se ferrar também.
não havia o menor movimento no tráfego – o suicida ainda tentava se
decidir e o meu medidor de gasolina caiu no vermelho
e aí a necessidade de ser um cidadão exemplar e de esperar pela oportunidade
desapareceu e tratei de manobrar
por cima de um anteparo de cimento
entortando minha roda dianteira direita
consegui chegar à saída da autoestrada que estava totalmente
livre
aí rodei como deu até um posto de gasolina na Imperial Highway
estacionei
ainda pingando gasolina, saí, fui até o telefone, chamei um
guincho, não demorou nem um pouco, bela carona de volta com um camarada
negro que me contou histórias estranhas sobre motoristas em apuros...
(como certa mulher, suas mãos estavam grudadas no volante, levaram 15 minutos
conversando e forçando até fazê-la soltar.)
peguei o carro de volta uns dois dias depois, estava voltando do hipódromo,
pisei no freio e o pedal não descia, por sorte eu não estava na autoestrada
mesmo assim desliguei o motor, deslizei até o meio-fio, notei que a cobertura
da coluna de direção havia se soltado e bloqueado o freio, arranquei ela dali, aí
arranquei um pouco mais para garantir, aí jorrou todo um emaranhado de fios,
m e r d a...
girei a chave, pisei no acelerador mas o motor PEGOU
e saí rodando com os fios pendentes derramados na minha perna
pensando
será que essas coisas acontecem com as outras
pessoas ou sou
eu justamente o escolhido?
decidi que era o segundo caso e entrei na autoestrada onde
um cara num fusca me cortou a frente e trancou minha
faixa
consequentemente eu costurei para passar o filho da puta e pisei até
120, 130, 140...
pensando, a coragem necessária para sair da cama toda
manhã
para encarar as mesmas coisas
outra e outra vez
era
enorme.
1 136
Charles Bukowski
A Vida Estradeira
um idiota ficou me fechando e por fim consegui passar por ele, e na
exaltação da liberdade eu acelerei até 135 (naturalmente, não sem antes ver no retrovisor
se havia presença dos nossos protetores de uniforme azul); aí senti e ouvi o CHOQUE de um objeto
duro contra o fundo do meu carro, mas querendo chegar a tempo ao hipódromo me convenci
a ignorá-lo (como se isso eliminasse o problema) muito embora eu começasse a sentir
o cheiro de gasolina.
conferi o medidor do tanque e o nível parecia estável...
já tinha sido uma semana terrível
mas, sabe como é, a derrota pode fortalecer assim como a vitória pode enfraquecer, e se
você tiver a devida sorte e a santa paciência os deuses até poderão conceder
a devida dose...
aí
o tráfego se congestionou e parou, e aí o cheiro de gasolina ficou forte pra valer e eu vi meu
medidor despencando rapidamente, aí meu rádio me informou que um homem 5 quilômetros adiante
no viaduto de Vernon estava sentado na grade de proteção e ameaçava
suicídio,
e assim me vi sob ameaça de ser mandado ao inferno numa explosão
com as pessoas me gritando que meu tanque estava rachado e vazando gasolina;
sim, eu assentia em resposta, eu sei, eu sei...
enquanto isso, enxotando carros com a mão e abrindo caminho rumo à faixa externa
pensando, eles estão mais aterrorizados do que eu:
se eu me ferrar, quem estiver perto é capaz de se ferrar também.
não havia o menor movimento no tráfego – o suicida ainda tentava se
decidir e o meu medidor de gasolina caiu no vermelho
e aí a necessidade de ser um cidadão exemplar e de esperar pela oportunidade
desapareceu e tratei de manobrar
por cima de um anteparo de cimento
entortando minha roda dianteira direita
consegui chegar à saída da autoestrada que estava totalmente
livre
aí rodei como deu até um posto de gasolina na Imperial Highway
estacionei
ainda pingando gasolina, saí, fui até o telefone, chamei um
guincho, não demorou nem um pouco, bela carona de volta com um camarada
negro que me contou histórias estranhas sobre motoristas em apuros...
(como certa mulher, suas mãos estavam grudadas no volante, levaram 15 minutos
conversando e forçando até fazê-la soltar.)
peguei o carro de volta uns dois dias depois, estava voltando do hipódromo,
pisei no freio e o pedal não descia, por sorte eu não estava na autoestrada
mesmo assim desliguei o motor, deslizei até o meio-fio, notei que a cobertura
da coluna de direção havia se soltado e bloqueado o freio, arranquei ela dali, aí
arranquei um pouco mais para garantir, aí jorrou todo um emaranhado de fios,
m e r d a...
girei a chave, pisei no acelerador mas o motor PEGOU
e saí rodando com os fios pendentes derramados na minha perna
pensando
será que essas coisas acontecem com as outras
pessoas ou sou
eu justamente o escolhido?
decidi que era o segundo caso e entrei na autoestrada onde
um cara num fusca me cortou a frente e trancou minha
faixa
consequentemente eu costurei para passar o filho da puta e pisei até
120, 130, 140...
pensando, a coragem necessária para sair da cama toda
manhã
para encarar as mesmas coisas
outra e outra vez
era
enorme.
exaltação da liberdade eu acelerei até 135 (naturalmente, não sem antes ver no retrovisor
se havia presença dos nossos protetores de uniforme azul); aí senti e ouvi o CHOQUE de um objeto
duro contra o fundo do meu carro, mas querendo chegar a tempo ao hipódromo me convenci
a ignorá-lo (como se isso eliminasse o problema) muito embora eu começasse a sentir
o cheiro de gasolina.
conferi o medidor do tanque e o nível parecia estável...
já tinha sido uma semana terrível
mas, sabe como é, a derrota pode fortalecer assim como a vitória pode enfraquecer, e se
você tiver a devida sorte e a santa paciência os deuses até poderão conceder
a devida dose...
aí
o tráfego se congestionou e parou, e aí o cheiro de gasolina ficou forte pra valer e eu vi meu
medidor despencando rapidamente, aí meu rádio me informou que um homem 5 quilômetros adiante
no viaduto de Vernon estava sentado na grade de proteção e ameaçava
suicídio,
e assim me vi sob ameaça de ser mandado ao inferno numa explosão
com as pessoas me gritando que meu tanque estava rachado e vazando gasolina;
sim, eu assentia em resposta, eu sei, eu sei...
enquanto isso, enxotando carros com a mão e abrindo caminho rumo à faixa externa
pensando, eles estão mais aterrorizados do que eu:
se eu me ferrar, quem estiver perto é capaz de se ferrar também.
não havia o menor movimento no tráfego – o suicida ainda tentava se
decidir e o meu medidor de gasolina caiu no vermelho
e aí a necessidade de ser um cidadão exemplar e de esperar pela oportunidade
desapareceu e tratei de manobrar
por cima de um anteparo de cimento
entortando minha roda dianteira direita
consegui chegar à saída da autoestrada que estava totalmente
livre
aí rodei como deu até um posto de gasolina na Imperial Highway
estacionei
ainda pingando gasolina, saí, fui até o telefone, chamei um
guincho, não demorou nem um pouco, bela carona de volta com um camarada
negro que me contou histórias estranhas sobre motoristas em apuros...
(como certa mulher, suas mãos estavam grudadas no volante, levaram 15 minutos
conversando e forçando até fazê-la soltar.)
peguei o carro de volta uns dois dias depois, estava voltando do hipódromo,
pisei no freio e o pedal não descia, por sorte eu não estava na autoestrada
mesmo assim desliguei o motor, deslizei até o meio-fio, notei que a cobertura
da coluna de direção havia se soltado e bloqueado o freio, arranquei ela dali, aí
arranquei um pouco mais para garantir, aí jorrou todo um emaranhado de fios,
m e r d a...
girei a chave, pisei no acelerador mas o motor PEGOU
e saí rodando com os fios pendentes derramados na minha perna
pensando
será que essas coisas acontecem com as outras
pessoas ou sou
eu justamente o escolhido?
decidi que era o segundo caso e entrei na autoestrada onde
um cara num fusca me cortou a frente e trancou minha
faixa
consequentemente eu costurei para passar o filho da puta e pisei até
120, 130, 140...
pensando, a coragem necessária para sair da cama toda
manhã
para encarar as mesmas coisas
outra e outra vez
era
enorme.
1 136
Charles Bukowski
Todos Os Meus Amigos
Van Gogh acabou de vir aqui me reclamar
que Theo tinha lhe mandado as tintas
erradas.
mal passara um momento desde sua saída
quando Dostoiévski bateu e pediu um
empréstimo para pagar a roleta,
alegou estar trabalhando numa obra-prima,
algo chamado Crime e castigo
então Chatterton bateu e perguntou se eu não
tinha um pouco de veneno de rato, disse que tinha uma ideia de
como se livrar dos ratos.
Villon ficou sentado dando chilique metade da noite sobre
como tinha sido banido de Paris – não por sua
escrita mas simplesmente por causa de certo roubo
trivial, sério, ele disse, titica de galinha.
depois o Ernie chegou, ele estava bêbado e começou
a falar sobre as touradas, é só disso que ele fala:
touradas e pescaria, o GRANDE que escapou,
e ele não se desliga da guerra, da guerra, da guerra.
fiquei contente quando ele saiu.
Picasso chegou em seguida e reclamou que sua
amante da vez, também uma pintora, tinha inveja
dele, ela achava que sabia pintar mas era
contida por ser mulher e que um
dia pintaria um livro sobre ele chamando-o
de reles monstro babaca e com isso ela ganharia
a única fama pela qual tanto ansiava.
então Knut Hamsun apareceu e afirmou ter sofrido
armação na história dos crimes de guerra.
seguido por Ezra que falou do mesmo assunto.
seguido pelo bom doutor Céline.
então H.D. veio e disse “agora eu só queria que eu
tivesse usado meu nome verdadeiro, Hilda Doolittle, que vá pro inferno
o Manifesto Imagista, acabou acontecendo de todo modo que quando
as pessoas viam ‘H.D.’ tudo que faziam era inverter as iniciais
e pensar naquele merda do D.H. Lawrence.”
depois Mozart, o ex-menino prodígio, bateu e pediu
uma moedinha, eu dei, que impostor fingindo estar
em apuros depois de escrever mais sinfonias do que qualquer homem
que eu consiga lembrar.
depois o Ernie veio de novo, pedindo pra pegar emprestado um cartucho
de espingarda, dizendo ter uma caça especial em
mente.
deixei que ele levasse.
aí Borodin bateu, alegando que sua esposa o fazia dormir nas
escadas e sempre virava um demônio quando ele apertava o saquinho de chá
com a colher.
depois disso me cansei de todas as batidas e de todas as pessoas – fiquei
gritando para Beethoven ir embora mas ele não parava de bater –
então desliguei as luzes, meti meus tampões de ouvido e fui dormir
mas não adiantou porque tive um pesadelo e eis ali
o tal Van Gogh de novo, só que ele não tinha cortado fora só uma orelha
e sim as duas orelhas, quero dizer, ele realmente parecia fodido, e ele mandou
uma orelha para uma prostituta e a outra para outra e a primeira
prostituta teve ânsia de vômito e jogou a orelha por cima do ombro esquerdo mas
a segunda prostituta só riu, baixou as calcinhas e
enfiou a orelha no reto dizendo “agora posso escutar os cacetes
entrando e a merda caindo.”
então acordei e os ossos do crânio e o sangue de Hemingway pingaram
em mim do
teto.
que Theo tinha lhe mandado as tintas
erradas.
mal passara um momento desde sua saída
quando Dostoiévski bateu e pediu um
empréstimo para pagar a roleta,
alegou estar trabalhando numa obra-prima,
algo chamado Crime e castigo
então Chatterton bateu e perguntou se eu não
tinha um pouco de veneno de rato, disse que tinha uma ideia de
como se livrar dos ratos.
Villon ficou sentado dando chilique metade da noite sobre
como tinha sido banido de Paris – não por sua
escrita mas simplesmente por causa de certo roubo
trivial, sério, ele disse, titica de galinha.
depois o Ernie chegou, ele estava bêbado e começou
a falar sobre as touradas, é só disso que ele fala:
touradas e pescaria, o GRANDE que escapou,
e ele não se desliga da guerra, da guerra, da guerra.
fiquei contente quando ele saiu.
Picasso chegou em seguida e reclamou que sua
amante da vez, também uma pintora, tinha inveja
dele, ela achava que sabia pintar mas era
contida por ser mulher e que um
dia pintaria um livro sobre ele chamando-o
de reles monstro babaca e com isso ela ganharia
a única fama pela qual tanto ansiava.
então Knut Hamsun apareceu e afirmou ter sofrido
armação na história dos crimes de guerra.
seguido por Ezra que falou do mesmo assunto.
seguido pelo bom doutor Céline.
então H.D. veio e disse “agora eu só queria que eu
tivesse usado meu nome verdadeiro, Hilda Doolittle, que vá pro inferno
o Manifesto Imagista, acabou acontecendo de todo modo que quando
as pessoas viam ‘H.D.’ tudo que faziam era inverter as iniciais
e pensar naquele merda do D.H. Lawrence.”
depois Mozart, o ex-menino prodígio, bateu e pediu
uma moedinha, eu dei, que impostor fingindo estar
em apuros depois de escrever mais sinfonias do que qualquer homem
que eu consiga lembrar.
depois o Ernie veio de novo, pedindo pra pegar emprestado um cartucho
de espingarda, dizendo ter uma caça especial em
mente.
deixei que ele levasse.
aí Borodin bateu, alegando que sua esposa o fazia dormir nas
escadas e sempre virava um demônio quando ele apertava o saquinho de chá
com a colher.
depois disso me cansei de todas as batidas e de todas as pessoas – fiquei
gritando para Beethoven ir embora mas ele não parava de bater –
então desliguei as luzes, meti meus tampões de ouvido e fui dormir
mas não adiantou porque tive um pesadelo e eis ali
o tal Van Gogh de novo, só que ele não tinha cortado fora só uma orelha
e sim as duas orelhas, quero dizer, ele realmente parecia fodido, e ele mandou
uma orelha para uma prostituta e a outra para outra e a primeira
prostituta teve ânsia de vômito e jogou a orelha por cima do ombro esquerdo mas
a segunda prostituta só riu, baixou as calcinhas e
enfiou a orelha no reto dizendo “agora posso escutar os cacetes
entrando e a merda caindo.”
então acordei e os ossos do crânio e o sangue de Hemingway pingaram
em mim do
teto.
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