Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Charles Bukowski
Como Uma Violeta Na Neve
na primeira ocasião possível
na tarde de um supremo azul
telegrafarei para você
uma
mão ossuda
decorada com
pele de tubarão
um
menino grande com
dentes amarelos e um pai
epilético
vai trazê-lo
até sua
porta
sorria
e
aceite
isto é melhor do que
a outra
alternativa
na tarde de um supremo azul
telegrafarei para você
uma
mão ossuda
decorada com
pele de tubarão
um
menino grande com
dentes amarelos e um pai
epilético
vai trazê-lo
até sua
porta
sorria
e
aceite
isto é melhor do que
a outra
alternativa
1 189
Charles Bukowski
Como Uma Violeta Na Neve
na primeira ocasião possível
na tarde de um supremo azul
telegrafarei para você
uma
mão ossuda
decorada com
pele de tubarão
um
menino grande com
dentes amarelos e um pai
epilético
vai trazê-lo
até sua
porta
sorria
e
aceite
isto é melhor do que
a outra
alternativa
na tarde de um supremo azul
telegrafarei para você
uma
mão ossuda
decorada com
pele de tubarão
um
menino grande com
dentes amarelos e um pai
epilético
vai trazê-lo
até sua
porta
sorria
e
aceite
isto é melhor do que
a outra
alternativa
1 189
Charles Bukowski
Visão a Partir da Tela
cruzo a peça
até a última parede
a última janela
o último sol cor-de-rosa
com seus braços em torno do mundo
com seus braços em torno de mim
escuto o sussurro surdo da garça
os pensamentos ósseos das coisas do mar
que são quase feitas de pedra;
esta tela escavada como uma alma
e garatujada de moscas,
minhas tensões e danações
são as de um porco,
sol rosa sol rosa
odeio sua completude
rastejando a cruz áurea de vida
enquanto meus dedos e pés e rosto
terminam assim
dormindo com a puta da sua esposa sofisticada
você deve um dia morrer por causa nenhuma
como eu
vivi.
até a última parede
a última janela
o último sol cor-de-rosa
com seus braços em torno do mundo
com seus braços em torno de mim
escuto o sussurro surdo da garça
os pensamentos ósseos das coisas do mar
que são quase feitas de pedra;
esta tela escavada como uma alma
e garatujada de moscas,
minhas tensões e danações
são as de um porco,
sol rosa sol rosa
odeio sua completude
rastejando a cruz áurea de vida
enquanto meus dedos e pés e rosto
terminam assim
dormindo com a puta da sua esposa sofisticada
você deve um dia morrer por causa nenhuma
como eu
vivi.
1 275
Charles Bukowski
O Dia Em Que Choveu No Museu do Condado de Los Angeles
o judeu se curvou e
morreu. 99 metralhadoras
foram embarcadas para a França. alguém ganhou o 3o páreo
enquanto eu inspecionava
a hélice de um antigo monoplano
um homem se aproximou com uma faixa sobre o olho. começou a
chover. choveu e choveu e as ambulâncias seguiam
juntas
pelas ruas, e ainda que
tudo fosse apropriadamente monótono
curti o momento
como a temporada em Nova Orleans
vivendo de barras de chocolate
e observando os pombos
em uma ruela com nome francês
enquanto às minhas costas o rio se tornava
um golfo
e as nuvens se moviam enfermas por
um céu já morto
por volta da época em que César fora apunhalado,
e prometi a mim mesmo que
algum dia eu lembraria daquilo
tal qual aconteceu.
um homem se aproximou e tossiu.
será que para de chover? ele disse.
não respondi. toquei a
velha hélice e escutei as
formigas no teto dispararem apressadas
em direção ao fim do mundo. saia daqui, eu disse,
saia daqui ou chamarei
o guarda.
morreu. 99 metralhadoras
foram embarcadas para a França. alguém ganhou o 3o páreo
enquanto eu inspecionava
a hélice de um antigo monoplano
um homem se aproximou com uma faixa sobre o olho. começou a
chover. choveu e choveu e as ambulâncias seguiam
juntas
pelas ruas, e ainda que
tudo fosse apropriadamente monótono
curti o momento
como a temporada em Nova Orleans
vivendo de barras de chocolate
e observando os pombos
em uma ruela com nome francês
enquanto às minhas costas o rio se tornava
um golfo
e as nuvens se moviam enfermas por
um céu já morto
por volta da época em que César fora apunhalado,
e prometi a mim mesmo que
algum dia eu lembraria daquilo
tal qual aconteceu.
um homem se aproximou e tossiu.
será que para de chover? ele disse.
não respondi. toquei a
velha hélice e escutei as
formigas no teto dispararem apressadas
em direção ao fim do mundo. saia daqui, eu disse,
saia daqui ou chamarei
o guarda.
1 071
Charles Bukowski
Para a Puta Que Levou Meus Poemas
alguns dizem que deveríamos evitar remorsos particulares no
poema,
manter-nos abstratos, e há certa razão nisso,
mas jezus;
lá se vão doze poemas e eu não tenho cópias deles em carbono e você está com
minhas
pinturas também, as melhores; é sufocante;
quer me destruir como fez com todos os outros?
por que não leva meu dinheiro? é o que normalmente fazem com
os bêbados desacordados na esquina de quem batem os bolsos das calças.
da próxima vez leve meu braço esquerdo ou cinquenta contos
mas não meus poemas:
eu não sou Shakespeare
mas vai chegar um tempo em que simplesmente
não haverá mais nenhum, abstrato ou como quer que seja;
sempre haverá dinheiro e putas e bêbados
até a última bomba cair,
mas como Deus disse,
cruzando as pernas,
sei muito bem onde coloquei um bocado de poetas
mas não muita
poesia.
poema,
manter-nos abstratos, e há certa razão nisso,
mas jezus;
lá se vão doze poemas e eu não tenho cópias deles em carbono e você está com
minhas
pinturas também, as melhores; é sufocante;
quer me destruir como fez com todos os outros?
por que não leva meu dinheiro? é o que normalmente fazem com
os bêbados desacordados na esquina de quem batem os bolsos das calças.
da próxima vez leve meu braço esquerdo ou cinquenta contos
mas não meus poemas:
eu não sou Shakespeare
mas vai chegar um tempo em que simplesmente
não haverá mais nenhum, abstrato ou como quer que seja;
sempre haverá dinheiro e putas e bêbados
até a última bomba cair,
mas como Deus disse,
cruzando as pernas,
sei muito bem onde coloquei um bocado de poetas
mas não muita
poesia.
1 495
Charles Bukowski
Para a Puta Que Levou Meus Poemas
alguns dizem que deveríamos evitar remorsos particulares no
poema,
manter-nos abstratos, e há certa razão nisso,
mas jezus;
lá se vão doze poemas e eu não tenho cópias deles em carbono e você está com
minhas
pinturas também, as melhores; é sufocante;
quer me destruir como fez com todos os outros?
por que não leva meu dinheiro? é o que normalmente fazem com
os bêbados desacordados na esquina de quem batem os bolsos das calças.
da próxima vez leve meu braço esquerdo ou cinquenta contos
mas não meus poemas:
eu não sou Shakespeare
mas vai chegar um tempo em que simplesmente
não haverá mais nenhum, abstrato ou como quer que seja;
sempre haverá dinheiro e putas e bêbados
até a última bomba cair,
mas como Deus disse,
cruzando as pernas,
sei muito bem onde coloquei um bocado de poetas
mas não muita
poesia.
poema,
manter-nos abstratos, e há certa razão nisso,
mas jezus;
lá se vão doze poemas e eu não tenho cópias deles em carbono e você está com
minhas
pinturas também, as melhores; é sufocante;
quer me destruir como fez com todos os outros?
por que não leva meu dinheiro? é o que normalmente fazem com
os bêbados desacordados na esquina de quem batem os bolsos das calças.
da próxima vez leve meu braço esquerdo ou cinquenta contos
mas não meus poemas:
eu não sou Shakespeare
mas vai chegar um tempo em que simplesmente
não haverá mais nenhum, abstrato ou como quer que seja;
sempre haverá dinheiro e putas e bêbados
até a última bomba cair,
mas como Deus disse,
cruzando as pernas,
sei muito bem onde coloquei um bocado de poetas
mas não muita
poesia.
1 495
Charles Bukowski
Carta de Muito Longe
ela me escreveu uma carta de um pequeno
quarto próximo ao Sena.
ela disse que estava indo a uma aula de
dança. ela levantava, me disse
às 5 da manhã
e escrevia poemas
ou pintava
e quando era tomada por uma vontade de chorar
tinha um banco especial
junto ao rio.
seu livro de Canções
sairia
no outono.
eu não sabia o que dizer a ela
mas
eu lhe disse
para arrancar qualquer dente podre
e para tomar cuidado com os amantes
franceses.
coloquei a foto dela sobre o rádio
perto do ventilador
e ela se movia
como uma coisa
viva.
fiquei ali sentado a olhar para ela
até fumar
os 5 ou 6
cigarros restantes.
depois me levantei
e fui para a cama.
quarto próximo ao Sena.
ela disse que estava indo a uma aula de
dança. ela levantava, me disse
às 5 da manhã
e escrevia poemas
ou pintava
e quando era tomada por uma vontade de chorar
tinha um banco especial
junto ao rio.
seu livro de Canções
sairia
no outono.
eu não sabia o que dizer a ela
mas
eu lhe disse
para arrancar qualquer dente podre
e para tomar cuidado com os amantes
franceses.
coloquei a foto dela sobre o rádio
perto do ventilador
e ela se movia
como uma coisa
viva.
fiquei ali sentado a olhar para ela
até fumar
os 5 ou 6
cigarros restantes.
depois me levantei
e fui para a cama.
765
Charles Bukowski
Agora, Se Você Tivesse Que Ensinar Escrita Criativa, Ele Perguntou, o Que Você Lhes Diria?
eu lhes diria para terem um caso de amor
fracassado, hemorróidas, dentes podres
e beber vinho barato,
para evitarem a ópera e o golfe e o xadrez,
seguirem trocando a guarda de suas
camas de parede em parede
e depois eu lhes diria para terem
outro caso de amor fracassado
e nunca usar uma fita de seda na máquina
de escrever,
evitar os piqueniques em família
ou serem fotografados em um jardim coberto de
rosas;
para lerem Hemingway apenas uma vez,
pularem Faulkner
ignorarem Gogol
olharem fixo para as fotos de Gertrude Stein
e ler Sherwood Anderson na cama
comendo biscoitos Ritz água e sal,
perceberem que as pessoas que não param
de falar sobre a liberação sexual
na verdade estão mais assustadas do que vocês.
para ouvirem E. Power Biggs debulhar o
órgão no rádio enquanto estão
fumando um Bull Durham no escuro
numa cidade estranha
restando apenas um dia pago de aluguel
após terem desistido de tudo
amigos, parentes e empregos.
jamais se considerem superiores e/
ou dentro da média
nem nunca tentem sê-lo.
tenham um outro caso de amor fracassado.
observem uma mosca sobre uma cortina de verão.
jamais tentem ter sucesso.
não joguem sinuca.
deixem que uma fúria legítima tome conta de vocês
quando seus carros estiverem com um pneu no chão.
tomem vitaminas mas não levantem pesos nem corram.
então depois disso tudo
revertam o processo.
tenham um bom caso de amor.
e a coisa
que vocês talvez aprendam
é que ninguém sabe nada –
nem o Estado, nem os ratos
nem a mangueira no jardim nem a Estrela Polar.
e se por acaso vocês me pegarem
ensinando numa classe de escrita criativa
e me lerem este poema
eu lhes darei um A com louvor
bem no olho
do cu.
fracassado, hemorróidas, dentes podres
e beber vinho barato,
para evitarem a ópera e o golfe e o xadrez,
seguirem trocando a guarda de suas
camas de parede em parede
e depois eu lhes diria para terem
outro caso de amor fracassado
e nunca usar uma fita de seda na máquina
de escrever,
evitar os piqueniques em família
ou serem fotografados em um jardim coberto de
rosas;
para lerem Hemingway apenas uma vez,
pularem Faulkner
ignorarem Gogol
olharem fixo para as fotos de Gertrude Stein
e ler Sherwood Anderson na cama
comendo biscoitos Ritz água e sal,
perceberem que as pessoas que não param
de falar sobre a liberação sexual
na verdade estão mais assustadas do que vocês.
para ouvirem E. Power Biggs debulhar o
órgão no rádio enquanto estão
fumando um Bull Durham no escuro
numa cidade estranha
restando apenas um dia pago de aluguel
após terem desistido de tudo
amigos, parentes e empregos.
jamais se considerem superiores e/
ou dentro da média
nem nunca tentem sê-lo.
tenham um outro caso de amor fracassado.
observem uma mosca sobre uma cortina de verão.
jamais tentem ter sucesso.
não joguem sinuca.
deixem que uma fúria legítima tome conta de vocês
quando seus carros estiverem com um pneu no chão.
tomem vitaminas mas não levantem pesos nem corram.
então depois disso tudo
revertam o processo.
tenham um bom caso de amor.
e a coisa
que vocês talvez aprendam
é que ninguém sabe nada –
nem o Estado, nem os ratos
nem a mangueira no jardim nem a Estrela Polar.
e se por acaso vocês me pegarem
ensinando numa classe de escrita criativa
e me lerem este poema
eu lhes darei um A com louvor
bem no olho
do cu.
846
Charles Bukowski
A Garota No Banco da Parada de Ônibus
eu a vi quando eu estava na pista da esquerda
indo a leste pela Sunset.
ela estava sentada
as pernas cruzadas
lendo um livro de bolso.
era italiana ou indiana ou
grega
e enquanto eu estava parado no sinal vermelho
vez ou outra um vento
erguia sua saia,
eu tinha a visão desimpedida,
revelando
pernas da mais imaculada perfeição
que eu jamais vira.
sou essencialmente tímido
mas olhei e fiquei olhando
até que uma pessoa no carro atrás de mim
começou a buzinar.
isso nunca tinha acontecido dessa
maneira.
dei a volta na quadra
e estacionei numa vaga do
supermercado
bem em frente ao lugar em que ela estava
de óculos escuros
eu não deixava de olhar
como um colegial em sua primeira
excitação.
memorizei seus sapatos
seu vestido
suas meias
seu rosto.
os carros passavam e me bloqueavam
a visão.
então eu a via novamente.
o vento erguia sua saia
para muito além das coxas
e comecei a me tocar.
um pouco antes do ônibus dela aparecer
cheguei ao orgasmo.
senti o cheiro do meu esperma
sua umidade em meu calção
e cueca.
era um ônibus branco e feio
e a levou embora.
dei a ré no estacionamento
pensando, eu sou um voyeur pervertido
mas ao menos não me
expus.
sou um voyeur pervertido
mas por que elas fazem isso?
por que têm essa aparência?
por que deixam o vento soprar
assim?
ao chegar em casa
tirei a roupa e fui para o banho
saí enrolado na
toalha
liguei
as notícias
apaguei as notícias
e
escrevi este poema.
indo a leste pela Sunset.
ela estava sentada
as pernas cruzadas
lendo um livro de bolso.
era italiana ou indiana ou
grega
e enquanto eu estava parado no sinal vermelho
vez ou outra um vento
erguia sua saia,
eu tinha a visão desimpedida,
revelando
pernas da mais imaculada perfeição
que eu jamais vira.
sou essencialmente tímido
mas olhei e fiquei olhando
até que uma pessoa no carro atrás de mim
começou a buzinar.
isso nunca tinha acontecido dessa
maneira.
dei a volta na quadra
e estacionei numa vaga do
supermercado
bem em frente ao lugar em que ela estava
de óculos escuros
eu não deixava de olhar
como um colegial em sua primeira
excitação.
memorizei seus sapatos
seu vestido
suas meias
seu rosto.
os carros passavam e me bloqueavam
a visão.
então eu a via novamente.
o vento erguia sua saia
para muito além das coxas
e comecei a me tocar.
um pouco antes do ônibus dela aparecer
cheguei ao orgasmo.
senti o cheiro do meu esperma
sua umidade em meu calção
e cueca.
era um ônibus branco e feio
e a levou embora.
dei a ré no estacionamento
pensando, eu sou um voyeur pervertido
mas ao menos não me
expus.
sou um voyeur pervertido
mas por que elas fazem isso?
por que têm essa aparência?
por que deixam o vento soprar
assim?
ao chegar em casa
tirei a roupa e fui para o banho
saí enrolado na
toalha
liguei
as notícias
apaguei as notícias
e
escrevi este poema.
1 196
Charles Bukowski
O Amor É Um Cão Dos Diabos
pé de queijo
alma de cafeteira
mãos que odeiam tacos de bilhar
olhos como clipes de papel
eu prefiro vinho tinto
entedio-me em aviões
sou dócil durante terremotos
sonolento em funerais
vomito nos desfiles
e vou para o sacrifício no xadrez
e nas bocetas e nos afetos
cheiro urina nas igrejas
já não consigo mais ler
já não consigo mais dormir
olhos como clipes de papel
meus olhos verdes
prefiro vinho branco
minha caixa de camisinhas está passando da
validade
eu as tiro pra fora
Trojan-Enz[6]
lubrificadas
para maior sensibilidade
tiro todas pra fora
e ponho três ao mesmo tempo
as paredes do meu quarto são azuis
para onde você foi, Linda?
para onde você foi, Katherine?
(e Nina partiu pra Inglaterra)
tenho cortadores de unha
e limpa-vidros Windex
olhos verdes
quarto azul
brilhante metralhadora solar
essa coisa toda é como uma foca
presa em oleosas rochas
e cercada pela Banda Marcial de Long Beach
às 3h26 da tarde
há um tiquetaquear atrás de mim
mas nenhum relógio
sinto algo rastejar
ao longo de minha narina esquerda:
memórias de aviões
minha mãe tinha dentes postiços
meu pai tinha dentes postiços
e durante todos os sábados de suas vidas
eles recolhiam todos os tapetes de sua casa
enceravam o chão de tabuões
e o cobriam novamente com os tapetes
e Nina está na Inglaterra
e Irene está no abrigo municipal
e eu pego meus olhos verdes
e me deito em meu quarto azul
alma de cafeteira
mãos que odeiam tacos de bilhar
olhos como clipes de papel
eu prefiro vinho tinto
entedio-me em aviões
sou dócil durante terremotos
sonolento em funerais
vomito nos desfiles
e vou para o sacrifício no xadrez
e nas bocetas e nos afetos
cheiro urina nas igrejas
já não consigo mais ler
já não consigo mais dormir
olhos como clipes de papel
meus olhos verdes
prefiro vinho branco
minha caixa de camisinhas está passando da
validade
eu as tiro pra fora
Trojan-Enz[6]
lubrificadas
para maior sensibilidade
tiro todas pra fora
e ponho três ao mesmo tempo
as paredes do meu quarto são azuis
para onde você foi, Linda?
para onde você foi, Katherine?
(e Nina partiu pra Inglaterra)
tenho cortadores de unha
e limpa-vidros Windex
olhos verdes
quarto azul
brilhante metralhadora solar
essa coisa toda é como uma foca
presa em oleosas rochas
e cercada pela Banda Marcial de Long Beach
às 3h26 da tarde
há um tiquetaquear atrás de mim
mas nenhum relógio
sinto algo rastejar
ao longo de minha narina esquerda:
memórias de aviões
minha mãe tinha dentes postiços
meu pai tinha dentes postiços
e durante todos os sábados de suas vidas
eles recolhiam todos os tapetes de sua casa
enceravam o chão de tabuões
e o cobriam novamente com os tapetes
e Nina está na Inglaterra
e Irene está no abrigo municipal
e eu pego meus olhos verdes
e me deito em meu quarto azul
1 905
Charles Bukowski
O Amor É Um Cão Dos Diabos
pé de queijo
alma de cafeteira
mãos que odeiam tacos de bilhar
olhos como clipes de papel
eu prefiro vinho tinto
entedio-me em aviões
sou dócil durante terremotos
sonolento em funerais
vomito nos desfiles
e vou para o sacrifício no xadrez
e nas bocetas e nos afetos
cheiro urina nas igrejas
já não consigo mais ler
já não consigo mais dormir
olhos como clipes de papel
meus olhos verdes
prefiro vinho branco
minha caixa de camisinhas está passando da
validade
eu as tiro pra fora
Trojan-Enz[6]
lubrificadas
para maior sensibilidade
tiro todas pra fora
e ponho três ao mesmo tempo
as paredes do meu quarto são azuis
para onde você foi, Linda?
para onde você foi, Katherine?
(e Nina partiu pra Inglaterra)
tenho cortadores de unha
e limpa-vidros Windex
olhos verdes
quarto azul
brilhante metralhadora solar
essa coisa toda é como uma foca
presa em oleosas rochas
e cercada pela Banda Marcial de Long Beach
às 3h26 da tarde
há um tiquetaquear atrás de mim
mas nenhum relógio
sinto algo rastejar
ao longo de minha narina esquerda:
memórias de aviões
minha mãe tinha dentes postiços
meu pai tinha dentes postiços
e durante todos os sábados de suas vidas
eles recolhiam todos os tapetes de sua casa
enceravam o chão de tabuões
e o cobriam novamente com os tapetes
e Nina está na Inglaterra
e Irene está no abrigo municipal
e eu pego meus olhos verdes
e me deito em meu quarto azul
alma de cafeteira
mãos que odeiam tacos de bilhar
olhos como clipes de papel
eu prefiro vinho tinto
entedio-me em aviões
sou dócil durante terremotos
sonolento em funerais
vomito nos desfiles
e vou para o sacrifício no xadrez
e nas bocetas e nos afetos
cheiro urina nas igrejas
já não consigo mais ler
já não consigo mais dormir
olhos como clipes de papel
meus olhos verdes
prefiro vinho branco
minha caixa de camisinhas está passando da
validade
eu as tiro pra fora
Trojan-Enz[6]
lubrificadas
para maior sensibilidade
tiro todas pra fora
e ponho três ao mesmo tempo
as paredes do meu quarto são azuis
para onde você foi, Linda?
para onde você foi, Katherine?
(e Nina partiu pra Inglaterra)
tenho cortadores de unha
e limpa-vidros Windex
olhos verdes
quarto azul
brilhante metralhadora solar
essa coisa toda é como uma foca
presa em oleosas rochas
e cercada pela Banda Marcial de Long Beach
às 3h26 da tarde
há um tiquetaquear atrás de mim
mas nenhum relógio
sinto algo rastejar
ao longo de minha narina esquerda:
memórias de aviões
minha mãe tinha dentes postiços
meu pai tinha dentes postiços
e durante todos os sábados de suas vidas
eles recolhiam todos os tapetes de sua casa
enceravam o chão de tabuões
e o cobriam novamente com os tapetes
e Nina está na Inglaterra
e Irene está no abrigo municipal
e eu pego meus olhos verdes
e me deito em meu quarto azul
1 905
Charles Bukowski
Tão Louco Quanto Sempre Fui
bêbado e escrevendo poemas
às 3 da manhã.
o que importa agora
é mais uma
boceta
apertada
antes que a luz
se apague
bêbado e escrevendo poemas
às 3h15 da manhã.
algumas pessoas me dizem que sou
famoso.
o que estou fazendo sozinho
bêbado e escrevendo poemas às
3h18 da manhã?
sou tão louco quanto sempre fui
eles não entendem
que não parei de me pendurar pelos calcanhares
da janela do 4º andar –
eu ainda o faço
agora mesmo
aqui sentado
ao escrever estas linhas
estou pendurado pelos calcanhares
vários andares acima:
68, 72, 101,
a sensação é a
mesma:
implacável
banal e
necessária
aqui sentado
bêbado e escrevendo poemas
às 3h24 da manhã.
às 3 da manhã.
o que importa agora
é mais uma
boceta
apertada
antes que a luz
se apague
bêbado e escrevendo poemas
às 3h15 da manhã.
algumas pessoas me dizem que sou
famoso.
o que estou fazendo sozinho
bêbado e escrevendo poemas às
3h18 da manhã?
sou tão louco quanto sempre fui
eles não entendem
que não parei de me pendurar pelos calcanhares
da janela do 4º andar –
eu ainda o faço
agora mesmo
aqui sentado
ao escrever estas linhas
estou pendurado pelos calcanhares
vários andares acima:
68, 72, 101,
a sensação é a
mesma:
implacável
banal e
necessária
aqui sentado
bêbado e escrevendo poemas
às 3h24 da manhã.
1 160
Charles Bukowski
Sobre Guindastes
às vezes, após você ter recebido
das forças um belo chute no rabo
você costuma desejar ser um guindaste
estendido sobre uma perna
na água azul
mas há sempre
a
velha questão
que você conhece:
você não quer ser
um guindaste
estendido sobre uma perna
na água azul
o infortúnio não é
suficiente
e
a vitória
claudica
um guindaste não pode
pagar por um rabo
ou
vadiar às tardes
em Monterey
essas são algumas
das coisas
que os humanos podem fazer
além de
ficar sobre uma perna só
das forças um belo chute no rabo
você costuma desejar ser um guindaste
estendido sobre uma perna
na água azul
mas há sempre
a
velha questão
que você conhece:
você não quer ser
um guindaste
estendido sobre uma perna
na água azul
o infortúnio não é
suficiente
e
a vitória
claudica
um guindaste não pode
pagar por um rabo
ou
vadiar às tardes
em Monterey
essas são algumas
das coisas
que os humanos podem fazer
além de
ficar sobre uma perna só
1 178
Charles Bukowski
$$$$$$
sempre tive problemas com
dinheiro.
num dos lugares em que trabalhei
todos comiam cachorro-quente
e batatas fritas
na cantina da empresa
3 dias antes de cada
pagamento.
eu queria uns bifes,
cheguei inclusive a procurar o gerente
da cantina e
exigir que ele servisse
uns bifes. ele se recusou.
Eu esqueci do dia do pagamento.
eu tinha um alto grau de indiferença e
o dia do pagamento chegava e todos
não falavam em outra
coisa.
“pagamento?” eu dizia, “diabo, hoje é dia de
receber? me esqueci de pegar meu
último cheque...”
“pare de falar merda, cara...”
“não, não, é sério...”
eu me erguia e ia até o caixa
e claro que o cheque estava lá
e na volta eu o mostrava
a todos eles. “Jesus Cristo, esqueci completamente
do negócio...”
por alguma razão isso os deixava
furiosos. então o funcionário do caixa
aparecia. eu tinha dois
cheques. “Jesus”, eu dizia, “dois cheques”.
e eles ficavam
furiosos.
alguns deles mantinham
dois empregos.
No pior dos dias
chovia pesadamente
eu não tinha uma capa de chuva então
vesti um velho casaco que eu não usava havia
meses e
cheguei um pouco atrasado
quando eles já estavam no batente.
procurei por cigarros nos bolsos
e num deles encontrei uma nota de
cinco dólares:
“ei, vejam”, eu disse, “acabo de encontrar cinco pratas
que eu não sabia que tinha, que
beleza”.
“ei, cara, não venha com essa
merda!”
“não, não, estou falando sério, de verdade, lembro
de ter vestido este casaco quando
estava bêbado e vagando de bar
em bar. já me tomaram dinheiro muitas vezes,
fiquei desconfiado... tiro o dinheiro da
minha carteira e o escondo em
outras partes.”
“sente de uma vez e comece a
trabalhar.”
meti a mão num bolso interno:
“ei, vejam, tem um VINTÃO aqui! Deus, não sabia
que tinha este VINTÃO!
estou
RICO!”
“ninguém está achando graça, seu
filho da puta...”
“ei, meu Deus, aqui tem mais OUTRA
de vinte! é muita, muita muita
grana... eu sabia que não tinha gasto todo o
dinheiro naquela noite. pensei que tinham me
levado os cobres outra vez...”
continuei vasculhando o
casaco. “ei, aqui tem uma de dez e
aqui mais um cinquinho! meu Deus...”
“escute, já disse pra você sentar
e calar a boca...”
“meu Deus, estou RICO... não preciso nem mais
deste emprego...”
“cara, senta aí...”
achei mais outra de dez depois que me sentei
mas não disse
nada.
podia sentir as ondas de ódio e
estava confuso,
eles achavam que eu tinha
armado toda aquela história
apenas para fazê-los se
sentirem mal. não era o que eu
queria. pessoas que tem que passar a cachorros-quentes e
batatas fritas por
3 dias antes de sair o pagamento
já se sentem mal o
suficiente.
sentei-me
inclinei-me para a frente e
comecei a
trabalhar.
do lado de fora
continuava
chovendo.
dinheiro.
num dos lugares em que trabalhei
todos comiam cachorro-quente
e batatas fritas
na cantina da empresa
3 dias antes de cada
pagamento.
eu queria uns bifes,
cheguei inclusive a procurar o gerente
da cantina e
exigir que ele servisse
uns bifes. ele se recusou.
Eu esqueci do dia do pagamento.
eu tinha um alto grau de indiferença e
o dia do pagamento chegava e todos
não falavam em outra
coisa.
“pagamento?” eu dizia, “diabo, hoje é dia de
receber? me esqueci de pegar meu
último cheque...”
“pare de falar merda, cara...”
“não, não, é sério...”
eu me erguia e ia até o caixa
e claro que o cheque estava lá
e na volta eu o mostrava
a todos eles. “Jesus Cristo, esqueci completamente
do negócio...”
por alguma razão isso os deixava
furiosos. então o funcionário do caixa
aparecia. eu tinha dois
cheques. “Jesus”, eu dizia, “dois cheques”.
e eles ficavam
furiosos.
alguns deles mantinham
dois empregos.
No pior dos dias
chovia pesadamente
eu não tinha uma capa de chuva então
vesti um velho casaco que eu não usava havia
meses e
cheguei um pouco atrasado
quando eles já estavam no batente.
procurei por cigarros nos bolsos
e num deles encontrei uma nota de
cinco dólares:
“ei, vejam”, eu disse, “acabo de encontrar cinco pratas
que eu não sabia que tinha, que
beleza”.
“ei, cara, não venha com essa
merda!”
“não, não, estou falando sério, de verdade, lembro
de ter vestido este casaco quando
estava bêbado e vagando de bar
em bar. já me tomaram dinheiro muitas vezes,
fiquei desconfiado... tiro o dinheiro da
minha carteira e o escondo em
outras partes.”
“sente de uma vez e comece a
trabalhar.”
meti a mão num bolso interno:
“ei, vejam, tem um VINTÃO aqui! Deus, não sabia
que tinha este VINTÃO!
estou
RICO!”
“ninguém está achando graça, seu
filho da puta...”
“ei, meu Deus, aqui tem mais OUTRA
de vinte! é muita, muita muita
grana... eu sabia que não tinha gasto todo o
dinheiro naquela noite. pensei que tinham me
levado os cobres outra vez...”
continuei vasculhando o
casaco. “ei, aqui tem uma de dez e
aqui mais um cinquinho! meu Deus...”
“escute, já disse pra você sentar
e calar a boca...”
“meu Deus, estou RICO... não preciso nem mais
deste emprego...”
“cara, senta aí...”
achei mais outra de dez depois que me sentei
mas não disse
nada.
podia sentir as ondas de ódio e
estava confuso,
eles achavam que eu tinha
armado toda aquela história
apenas para fazê-los se
sentirem mal. não era o que eu
queria. pessoas que tem que passar a cachorros-quentes e
batatas fritas por
3 dias antes de sair o pagamento
já se sentem mal o
suficiente.
sentei-me
inclinei-me para a frente e
comecei a
trabalhar.
do lado de fora
continuava
chovendo.
673
Charles Bukowski
Ah...
bebendo cerveja alemã
e tentando alcançar o
o poema imortal às
5 da tarde.
mas, ah, eu disse aos
estudantes que a coisa certa
a fazer é não tentar.
mas quando as mulheres não estão
por perto e os cavalos não estão
correndo
o que mais se pode fazer?
tive um par de
fantasias sexuais
almocei fora
enviei três cartas
fui à mercearia.
nada na tv.
o telefone está calado.
passei fio dental
entre meus dentes.
não vai chover e eu escuto
os primeiros a chegar das
8 horas de trabalho enquanto
dirigem e estacionam seus carros
atrás do apartamento
ao lado.
me sento bebendo cerveja alemã
e tento alcançar
o grande poema
e não irei conseguir.
apenas seguirei bebendo
mais e mais cerveja alemã
e enrolando cigarros
e lá pelas 11 horas
estarei deitado
na cama desfeita
olhando para cima
acordado sob a luz
elétrica
esperando ainda pelo poema
imortal.
e tentando alcançar o
o poema imortal às
5 da tarde.
mas, ah, eu disse aos
estudantes que a coisa certa
a fazer é não tentar.
mas quando as mulheres não estão
por perto e os cavalos não estão
correndo
o que mais se pode fazer?
tive um par de
fantasias sexuais
almocei fora
enviei três cartas
fui à mercearia.
nada na tv.
o telefone está calado.
passei fio dental
entre meus dentes.
não vai chover e eu escuto
os primeiros a chegar das
8 horas de trabalho enquanto
dirigem e estacionam seus carros
atrás do apartamento
ao lado.
me sento bebendo cerveja alemã
e tento alcançar
o grande poema
e não irei conseguir.
apenas seguirei bebendo
mais e mais cerveja alemã
e enrolando cigarros
e lá pelas 11 horas
estarei deitado
na cama desfeita
olhando para cima
acordado sob a luz
elétrica
esperando ainda pelo poema
imortal.
1 216
Charles Bukowski
Sentado Numa Lancheria
minha filha é a maior
das glórias.
comíamos um lanche
para viagem em meu carro
em Santa Mônica.
eu digo, “ei, filha,
minha vida tem sido
boa, tão boa”.
ela me olha.
baixo minha cabeça
contra o volante,
tremo, depois
abro a porta de supetão,
finjo
vomitar.
me endireito.
ela ri
mordendo seu
sanduíche.
pego quatro
batatas fritas
coloco-as em minha boca,
mastigo-as.
são 5h20 da tarde
e os carros passam voando por nós
pra lá e pra cá.
lanço um olhar furtivo:
tivemos toda a sorte de
que precisamos:
seus olhos brilham
enquanto o dia
cai, e ela está
sorrindo.
das glórias.
comíamos um lanche
para viagem em meu carro
em Santa Mônica.
eu digo, “ei, filha,
minha vida tem sido
boa, tão boa”.
ela me olha.
baixo minha cabeça
contra o volante,
tremo, depois
abro a porta de supetão,
finjo
vomitar.
me endireito.
ela ri
mordendo seu
sanduíche.
pego quatro
batatas fritas
coloco-as em minha boca,
mastigo-as.
são 5h20 da tarde
e os carros passam voando por nós
pra lá e pra cá.
lanço um olhar furtivo:
tivemos toda a sorte de
que precisamos:
seus olhos brilham
enquanto o dia
cai, e ela está
sorrindo.
1 300
Charles Bukowski
Sentado Numa Lancheria
minha filha é a maior
das glórias.
comíamos um lanche
para viagem em meu carro
em Santa Mônica.
eu digo, “ei, filha,
minha vida tem sido
boa, tão boa”.
ela me olha.
baixo minha cabeça
contra o volante,
tremo, depois
abro a porta de supetão,
finjo
vomitar.
me endireito.
ela ri
mordendo seu
sanduíche.
pego quatro
batatas fritas
coloco-as em minha boca,
mastigo-as.
são 5h20 da tarde
e os carros passam voando por nós
pra lá e pra cá.
lanço um olhar furtivo:
tivemos toda a sorte de
que precisamos:
seus olhos brilham
enquanto o dia
cai, e ela está
sorrindo.
das glórias.
comíamos um lanche
para viagem em meu carro
em Santa Mônica.
eu digo, “ei, filha,
minha vida tem sido
boa, tão boa”.
ela me olha.
baixo minha cabeça
contra o volante,
tremo, depois
abro a porta de supetão,
finjo
vomitar.
me endireito.
ela ri
mordendo seu
sanduíche.
pego quatro
batatas fritas
coloco-as em minha boca,
mastigo-as.
são 5h20 da tarde
e os carros passam voando por nós
pra lá e pra cá.
lanço um olhar furtivo:
tivemos toda a sorte de
que precisamos:
seus olhos brilham
enquanto o dia
cai, e ela está
sorrindo.
1 300
Charles Bukowski
Loucura
não bato com meus punhos nas paredes
apenas sento
mas a loucura entra de assalto
uma maré de loucura.
a mulher do quintal dos fundos urra,
chora todas as noites.
às vezes a polícia chega
e a leva por um ou dois dias.
eu acreditava que ela sofria com a perda
de um grande amor
até que um dia ela superou aquilo e me contou
sua história –
ela perdera 8 apartamentos
para um gigolô que a havia logrado e ficado
com eles.
ela urrava e chorava por causa da perda das propriedades.
começou a soluçar enquanto me contava aquilo
então com uma boca cheirando a alho e cebolas
delineada com um batom vencido
ela me beijou e disse:
“Hank, ninguém te ama se você não tiver dinheiro”.
ela é velha, quase tão velha quanto eu.
ela se foi, ainda chorosa...
na manhã seguinte às 7h20 dois enfermeiros negros
apareceram com uma maca,
só que bateram na minha porta.
“vamos lá, cara”, disse o mais alto.
“esperem”, eu disse, “isso é um engano.”
eu estava numa terrível ressaca
parado com meu roupão surrado
os cabelos caindo sobre os olhos.
“este é o endereço que nos deram, cara,
aqui não é o 5437?”
“sim.”
“vamos lá, cara, não foda com a gente.”
“a mulher que vocês querem mora lá nos fundos.”
os dois contornaram o pátio.
“esta porta aqui?”
“não, não, esta é a minha porta dos fundos. olhem, subam esses degraus atrás de vocês. é a porta da direita, a que está com a caixa do correio pendurada.”
eles foram até lá e bateram na porta. eu vi os dois a levarem
consigo. não usaram a maca. ela seguiu entre eles.
e me passou rapidamente a impressão de que estavam
[levando
a pessoa errada, mas não tive certeza.
apenas sento
mas a loucura entra de assalto
uma maré de loucura.
a mulher do quintal dos fundos urra,
chora todas as noites.
às vezes a polícia chega
e a leva por um ou dois dias.
eu acreditava que ela sofria com a perda
de um grande amor
até que um dia ela superou aquilo e me contou
sua história –
ela perdera 8 apartamentos
para um gigolô que a havia logrado e ficado
com eles.
ela urrava e chorava por causa da perda das propriedades.
começou a soluçar enquanto me contava aquilo
então com uma boca cheirando a alho e cebolas
delineada com um batom vencido
ela me beijou e disse:
“Hank, ninguém te ama se você não tiver dinheiro”.
ela é velha, quase tão velha quanto eu.
ela se foi, ainda chorosa...
na manhã seguinte às 7h20 dois enfermeiros negros
apareceram com uma maca,
só que bateram na minha porta.
“vamos lá, cara”, disse o mais alto.
“esperem”, eu disse, “isso é um engano.”
eu estava numa terrível ressaca
parado com meu roupão surrado
os cabelos caindo sobre os olhos.
“este é o endereço que nos deram, cara,
aqui não é o 5437?”
“sim.”
“vamos lá, cara, não foda com a gente.”
“a mulher que vocês querem mora lá nos fundos.”
os dois contornaram o pátio.
“esta porta aqui?”
“não, não, esta é a minha porta dos fundos. olhem, subam esses degraus atrás de vocês. é a porta da direita, a que está com a caixa do correio pendurada.”
eles foram até lá e bateram na porta. eu vi os dois a levarem
consigo. não usaram a maca. ela seguiu entre eles.
e me passou rapidamente a impressão de que estavam
[levando
a pessoa errada, mas não tive certeza.
1 263
Charles Bukowski
Loucura
não bato com meus punhos nas paredes
apenas sento
mas a loucura entra de assalto
uma maré de loucura.
a mulher do quintal dos fundos urra,
chora todas as noites.
às vezes a polícia chega
e a leva por um ou dois dias.
eu acreditava que ela sofria com a perda
de um grande amor
até que um dia ela superou aquilo e me contou
sua história –
ela perdera 8 apartamentos
para um gigolô que a havia logrado e ficado
com eles.
ela urrava e chorava por causa da perda das propriedades.
começou a soluçar enquanto me contava aquilo
então com uma boca cheirando a alho e cebolas
delineada com um batom vencido
ela me beijou e disse:
“Hank, ninguém te ama se você não tiver dinheiro”.
ela é velha, quase tão velha quanto eu.
ela se foi, ainda chorosa...
na manhã seguinte às 7h20 dois enfermeiros negros
apareceram com uma maca,
só que bateram na minha porta.
“vamos lá, cara”, disse o mais alto.
“esperem”, eu disse, “isso é um engano.”
eu estava numa terrível ressaca
parado com meu roupão surrado
os cabelos caindo sobre os olhos.
“este é o endereço que nos deram, cara,
aqui não é o 5437?”
“sim.”
“vamos lá, cara, não foda com a gente.”
“a mulher que vocês querem mora lá nos fundos.”
os dois contornaram o pátio.
“esta porta aqui?”
“não, não, esta é a minha porta dos fundos. olhem, subam esses degraus atrás de vocês. é a porta da direita, a que está com a caixa do correio pendurada.”
eles foram até lá e bateram na porta. eu vi os dois a levarem
consigo. não usaram a maca. ela seguiu entre eles.
e me passou rapidamente a impressão de que estavam
[levando
a pessoa errada, mas não tive certeza.
apenas sento
mas a loucura entra de assalto
uma maré de loucura.
a mulher do quintal dos fundos urra,
chora todas as noites.
às vezes a polícia chega
e a leva por um ou dois dias.
eu acreditava que ela sofria com a perda
de um grande amor
até que um dia ela superou aquilo e me contou
sua história –
ela perdera 8 apartamentos
para um gigolô que a havia logrado e ficado
com eles.
ela urrava e chorava por causa da perda das propriedades.
começou a soluçar enquanto me contava aquilo
então com uma boca cheirando a alho e cebolas
delineada com um batom vencido
ela me beijou e disse:
“Hank, ninguém te ama se você não tiver dinheiro”.
ela é velha, quase tão velha quanto eu.
ela se foi, ainda chorosa...
na manhã seguinte às 7h20 dois enfermeiros negros
apareceram com uma maca,
só que bateram na minha porta.
“vamos lá, cara”, disse o mais alto.
“esperem”, eu disse, “isso é um engano.”
eu estava numa terrível ressaca
parado com meu roupão surrado
os cabelos caindo sobre os olhos.
“este é o endereço que nos deram, cara,
aqui não é o 5437?”
“sim.”
“vamos lá, cara, não foda com a gente.”
“a mulher que vocês querem mora lá nos fundos.”
os dois contornaram o pátio.
“esta porta aqui?”
“não, não, esta é a minha porta dos fundos. olhem, subam esses degraus atrás de vocês. é a porta da direita, a que está com a caixa do correio pendurada.”
eles foram até lá e bateram na porta. eu vi os dois a levarem
consigo. não usaram a maca. ela seguiu entre eles.
e me passou rapidamente a impressão de que estavam
[levando
a pessoa errada, mas não tive certeza.
1 263
Charles Bukowski
Uma Abelha
suponho que como qualquer garoto
tive um melhor amigo na vizinhança.
o nome dele era Eugene e era muito maior
do que eu e um ano mais velho.
Eugene costumava me encher de porrada.
estávamos sempre brigando.
eu tentava vencê-lo mas sempre sem muito
sucesso.
uma vez pulamos juntos de cima do telhado da garagem
para provar que éramos valentes.
torci meu tornozelo e ele saiu ileso
como manteiga recém-tirada do papel.
acho que a única coisa boa que ele fez por mim
foi quando uma abelha me picou o pé descalço
e assim que me sentei para tirar o ferrão
ele disse,
“vou pegar a filha da puta!”
e foi o que ele fez
com uma raquete de tênis
mais um martelo de borracha.
estava tudo bem
dizem que de qualquer modo
elas morrem.
meu pé inchou e dobrou de tamanho
e eu fiquei de cama
rezando para morrer
e Eugene seguiu em frente e se tornou um
almirante ou comandante
de alguma coisa de vulto na Marinha dos Estados Unidos
e conseguiu passar por uma ou duas guerras
sem se ferir.
imagino-o envelhecido agora
numa cadeira de balanço
com seus dentes postiços
bebendo seu leitinho...
enquanto eu bêbado
masturbo esta tiete de 19 anos
que divide a cama comigo.
mas o pior é que
(assim como naquele salto do telhado da garagem)
Eugene segue vencendo
porque ele nem sequer está pensando
em mim.
tive um melhor amigo na vizinhança.
o nome dele era Eugene e era muito maior
do que eu e um ano mais velho.
Eugene costumava me encher de porrada.
estávamos sempre brigando.
eu tentava vencê-lo mas sempre sem muito
sucesso.
uma vez pulamos juntos de cima do telhado da garagem
para provar que éramos valentes.
torci meu tornozelo e ele saiu ileso
como manteiga recém-tirada do papel.
acho que a única coisa boa que ele fez por mim
foi quando uma abelha me picou o pé descalço
e assim que me sentei para tirar o ferrão
ele disse,
“vou pegar a filha da puta!”
e foi o que ele fez
com uma raquete de tênis
mais um martelo de borracha.
estava tudo bem
dizem que de qualquer modo
elas morrem.
meu pé inchou e dobrou de tamanho
e eu fiquei de cama
rezando para morrer
e Eugene seguiu em frente e se tornou um
almirante ou comandante
de alguma coisa de vulto na Marinha dos Estados Unidos
e conseguiu passar por uma ou duas guerras
sem se ferir.
imagino-o envelhecido agora
numa cadeira de balanço
com seus dentes postiços
bebendo seu leitinho...
enquanto eu bêbado
masturbo esta tiete de 19 anos
que divide a cama comigo.
mas o pior é que
(assim como naquele salto do telhado da garagem)
Eugene segue vencendo
porque ele nem sequer está pensando
em mim.
1 525
Charles Bukowski
Danação E Hora da Sesta
meu amigo está preocupado com a morte
ele vive em Frisco
eu em L.A.
ele vai à academia e
puxa uns ferros e dá golpes
num grande saco.
a velhice o diminui.
não pode beber por causa
do fígado.
consegue fazer
50 flexões.
ele me escreve
cartas
me dizendo
que sou o único que
o escuta.
claro, Hal, eu lhe respondo
num cartão-postal.
mas não quero gastar
toda essa grana em academia.
vou para a cama
com um sanduíche de
linguiça de fígado e cebola
à uma hora da tarde.
depois de comer
tiro um cochilo
com os heli-
cópteros e os abutres
circulando sobre meu
colchão de molas deformado.
ele vive em Frisco
eu em L.A.
ele vai à academia e
puxa uns ferros e dá golpes
num grande saco.
a velhice o diminui.
não pode beber por causa
do fígado.
consegue fazer
50 flexões.
ele me escreve
cartas
me dizendo
que sou o único que
o escuta.
claro, Hal, eu lhe respondo
num cartão-postal.
mas não quero gastar
toda essa grana em academia.
vou para a cama
com um sanduíche de
linguiça de fígado e cebola
à uma hora da tarde.
depois de comer
tiro um cochilo
com os heli-
cópteros e os abutres
circulando sobre meu
colchão de molas deformado.
993
Charles Bukowski
Chuva Ou Sol
os abutres no zoo
(todos os 3)
sentam-se bastante tranquilos em sua
árvore enjaulada
e abaixo
no chão
há postas de carne podre.
os abutres estão empanturrados
nossos impostos os têm mantido
bem alimentados.
seguimos para a próxima
jaula.
um homem está ali
sentado no chão
comendo
a própria merda.
reconheço a figura
de nosso antigo carteiro.
sua expressão favorita
sempre fora:
“tenha um ótimo dia”.
naquele dia, foi o que me aconteceu.
(todos os 3)
sentam-se bastante tranquilos em sua
árvore enjaulada
e abaixo
no chão
há postas de carne podre.
os abutres estão empanturrados
nossos impostos os têm mantido
bem alimentados.
seguimos para a próxima
jaula.
um homem está ali
sentado no chão
comendo
a própria merda.
reconheço a figura
de nosso antigo carteiro.
sua expressão favorita
sempre fora:
“tenha um ótimo dia”.
naquele dia, foi o que me aconteceu.
1 091
Charles Bukowski
Ameixas Geladas
comendo ameixas geladas na cama
ela me contou sobre o alemão
que era dono de toda quadra
exceto da loja de tecidos
e de como ele tentou comprar
a loja de tecidos
mas as garotas disseram, não.
o alemão tinha a melhor mercearia em
Pasadena, suas carnes eram caras
mas valiam o preço
e suas frutas e verduras eram
muito baratas e
ele também vendia flores. as pessoas vinham
de toda Pasadena para ir à sua
loja
mas ele queria comprar a loja de tecidos
e as garotas seguiam dizendo, não.
certa noite alguém foi visto saindo
a correr pela porta dos fundos da loja de tecidos
e então o fogo se ergueu
e quase tudo foi destruído –
elas fizeram um tremendo inventário
tentaram salvar tudo o que tinha sobrado
fizeram uma liquidação de incêndio
mas não funcionou
elas tiveram que vender, por fim,
e então o alemão comprou a loja de tecido
mas a deixou lá, vazia,
a esposa do alemão tentou reerguer o negócio
tentou vender pequenas cestas e outras quinquilharias
mas não funcionou.
terminamos as ameixas.
“é uma história triste”, eu lhe disse.
então ela se inclinou e começou a me chupar.
as janelas estavam abertas e meus gritos
podiam ser ouvidos por toda vizinhança
às 5h20 de um fim de tarde.
ela me contou sobre o alemão
que era dono de toda quadra
exceto da loja de tecidos
e de como ele tentou comprar
a loja de tecidos
mas as garotas disseram, não.
o alemão tinha a melhor mercearia em
Pasadena, suas carnes eram caras
mas valiam o preço
e suas frutas e verduras eram
muito baratas e
ele também vendia flores. as pessoas vinham
de toda Pasadena para ir à sua
loja
mas ele queria comprar a loja de tecidos
e as garotas seguiam dizendo, não.
certa noite alguém foi visto saindo
a correr pela porta dos fundos da loja de tecidos
e então o fogo se ergueu
e quase tudo foi destruído –
elas fizeram um tremendo inventário
tentaram salvar tudo o que tinha sobrado
fizeram uma liquidação de incêndio
mas não funcionou
elas tiveram que vender, por fim,
e então o alemão comprou a loja de tecido
mas a deixou lá, vazia,
a esposa do alemão tentou reerguer o negócio
tentou vender pequenas cestas e outras quinquilharias
mas não funcionou.
terminamos as ameixas.
“é uma história triste”, eu lhe disse.
então ela se inclinou e começou a me chupar.
as janelas estavam abertas e meus gritos
podiam ser ouvidos por toda vizinhança
às 5h20 de um fim de tarde.
710
Charles Bukowski
Numa Vizinhança de Assassinos
as baratas cospem
clipes de papel
e o helicóptero descreve círculos e mais círculos
em busca de sangue
luzes de busca deslizando furtivas por nosso
quarto
5 caras nesta área têm pistolas
outro um
facão
somos todos assassinos e
alcoólatras
mas a coisa é ainda pior no hotel
do outro lado da rua
eles ficam sentados na entrada verde e branca
banais e depravados
esperando para serem institucionalizados
aqui cada um de nós tem um pequeno vaso
na janela
e quando brigamos com nossas mulheres às 3 da manhã
falamos
baixinho
e em cada uma das varandas
há um pequeno prato de comida
sempre esvaziado pela manhã
presumimos
pelos
gatos.
clipes de papel
e o helicóptero descreve círculos e mais círculos
em busca de sangue
luzes de busca deslizando furtivas por nosso
quarto
5 caras nesta área têm pistolas
outro um
facão
somos todos assassinos e
alcoólatras
mas a coisa é ainda pior no hotel
do outro lado da rua
eles ficam sentados na entrada verde e branca
banais e depravados
esperando para serem institucionalizados
aqui cada um de nós tem um pequeno vaso
na janela
e quando brigamos com nossas mulheres às 3 da manhã
falamos
baixinho
e em cada uma das varandas
há um pequeno prato de comida
sempre esvaziado pela manhã
presumimos
pelos
gatos.
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