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Poemas neste tema

Emoções e Sentimentos

Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Casa

estão construindo uma casa
meia quadra abaixo
e eu fico aqui sentado
com as persianas baixadas
escutando os ruídos,
os martelos batendo nos pregos,
tac tac tac tac,
então escutei os pássaros, e
tac tac tac
e vou para a cama,
puxo as cobertas até a altura da garganta;
eles estão erguendo essa casa
há um mês, e logo ela estará ocupada com
suas pessoas... dormindo, comendo,
amando, vagando por ali,
mas de algum modo
agora
isso não está certo,
parece loucura,
homens caminham sobre o telhado com pregos em suas bocas
e eu leio sobre Castro e Cuba
e à noite passo caminhando por ali
e a ossatura da casa está à mostra
e lá dentro posso ver os gatos a caminhar
daquele jeito que os gatos caminham,
e então um garoto surge em uma bicicleta,
e a casa continua inacabada
e pela manhã os homens
voltarão
caminhando pela casa
com seus martelos,
parece que as pessoas não deveriam mais erguer casas
que deveriam parar de trabalhar
e se sentar em pequenas peças
em segundos andares
sob lâmpadas elétricas sem pantalhas;
parece que há muito a esquecer
e muito a não fazer
e nos armazéns, mercados, bares
as pessoas estão cansadas, elas não querem
se mover, e eu fico lá à noite
e olho através dessa casa e a
casa não quer ser construída;
por suas laterais consigo ver as colinas púrpuras
e as primeiras luzes do entardecer,
e faz frio
e eu abotoo meu casaco
e fico ali olhando através da casa
e os gatos param e olham para mim
até que fico constrangido
e sigo na direção norte pela calçada
onde comprarei
cigarros e cerveja
para depois retornar ao meu quarto.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Agora, Se Você Tivesse Que Ensinar Escrita Criativa, Ele Perguntou, o Que Você Lhes Diria?

eu lhes diria para terem um caso de amor
fracassado, hemorróidas, dentes podres
e beber vinho barato,
para evitarem a ópera e o golfe e o xadrez,
seguirem trocando a guarda de suas
camas de parede em parede
e depois eu lhes diria para terem
outro caso de amor fracassado
e nunca usar uma fita de seda na máquina
de escrever,
evitar os piqueniques em família
ou serem fotografados em um jardim coberto de
rosas;
para lerem Hemingway apenas uma vez,
pularem Faulkner
ignorarem Gogol
olharem fixo para as fotos de Gertrude Stein
e ler Sherwood Anderson na cama
comendo biscoitos Ritz água e sal,
perceberem que as pessoas que não param
de falar sobre a liberação sexual
na verdade estão mais assustadas do que vocês.
para ouvirem E. Power Biggs debulhar o
órgão no rádio enquanto estão
fumando um Bull Durham no escuro
numa cidade estranha
restando apenas um dia pago de aluguel
após terem desistido de tudo
amigos, parentes e empregos.
jamais se considerem superiores e/
ou dentro da média
nem nunca tentem sê-lo.
tenham um outro caso de amor fracassado.
observem uma mosca sobre uma cortina de verão.
jamais tentem ter sucesso.
não joguem sinuca.
deixem que uma fúria legítima tome conta de vocês
quando seus carros estiverem com um pneu no chão.
tomem vitaminas mas não levantem pesos nem corram.

então depois disso tudo
revertam o processo.
tenham um bom caso de amor.
e a coisa
que vocês talvez aprendam
é que ninguém sabe nada –
nem o Estado, nem os ratos
nem a mangueira no jardim nem a Estrela Polar.
e se por acaso vocês me pegarem
ensinando numa classe de escrita criativa
e me lerem este poema
eu lhes darei um A com louvor
bem no olho
do cu.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

As Garotinhas

lá no norte da Califórnia
ele estava de pé no púlpito
e estivera lendo por algum tempo
poemas sobre
a natureza e a bondade
do homem.

ele sabia que tudo estava
certo e não se podia culpá-lo:
ele era um professor e nunca
estivera na cadeia ou num bordel
nunca tivera uma lata velha que enguiçou
no meio de um engarrafamento;
jamais precisara de mais de
3 drinques durante sua noite mais
selvagem;
jamais tinha sido logrado, espancado,
assaltado,
nem fora mordido por um cachorro
ele recebia cartas bacanas de Gary
Snyder, e seu rosto era
amável, liso e
meigo.
sua esposa jamais o traíra,
nem tivera sua sorte.

ele disse, “vou ler apenas mais
3 poemas e então
desço daqui e passo a
palavra ao Bukowski”.

“oh, não, William”, disseram todas
as garotinhas em seus vestidos rosas
e azuis e brancos e laranjas e
lavandas, “oh, não, William,
leia um pouco mais, leia um pouco
mais”!

ele leu mais um poema e então disse,
“este será o último poema que
lerei”.

“oh, não, William”, disseram todas as
garotinhas em seus vestidos transparentes
vermelhos e verdes, “oh, não, William”, disseram
todas as garotinhas em seus jeans colados
com pequenos corações a eles bordados,
“oh, não, William”, disseram todas as garotinhas,
“leia mais poemas, leia mais poemas!”

mas ele manteve a palavra.
terminou o poema e desceu do púlpito e
desapareceu. quando me levantei para ler
as garotinhas se agitaram em
seus assentos e algumas delas assobiaram e
algumas fizeram comentários a meu respeito
que usarei em outra ocasião.

duas ou três semanas depois
recebi uma carta de William
dizendo que tinha gostado de fato da minha leitura.
um cavalheiro de verdade.
eu estava na cama de cuecas e com uma
ressaca de 3 dias. perdi o envelope
mas peguei a carta e fiz com ela
um aviãozinho como aqueles que
aprendi a fazer na época do
colégio. ele cruzou o quarto
antes de aterrissar entre um velho programa de corrida
e um par de cuecas carimbadas.

não nos correspondemos desde então.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Poema de 56 Anos

segui com duas damas
até Venice
para dar uma olhada nuns móveis antigos.
estacionei no fundo da loja
e entrei com elas.
US$ 125 por um relógio, US$ 700 por 6 cadeiras.
parei de olhar.

as damas circulavam
olhando tudo.
tinham classe.
me despedi de uma delas
e dei o fora.

era domingo e o bar
não estava muito melhor,
todos nervosos e jovens
e loiros e pálidos.
terminei minha bebida, peguei 4 cervejas
na loja de conveniências
e sentei em meu carro para bebê-las.

ao terminar a 4ª cerveja
as damas apareceram.
perguntaram-me se eu estava bem.
eu lhes disse que toda experiência
era válida
e que elas me haviam tirado de
meu habitualmente negro estado de
espírito.

a que eu conhecia melhor havia comprado uma mesa
com tampo de mármore por US$ 100.
ela possuía seu próprio negócio e era uma
pessoa civilizada.
civilizada o suficiente para conhecer um vizinho
que tinha uma van
e enquanto eu estava acomodado em seu apartamento
[bebendo
um Zeller Schwarze Katz 1974
eles foram apanhar a mesa.

mais tarde ela quis saber a minha opinião sobre
a mesa e eu disse que me parecia bacana,
às vezes eu perdia cem pratas nos
cavalinhos. assistimos tevê na cama e mais tarde
naquela noite eu não consegui gozar. pensei que era
porque não conseguia deixar de pensar na mesa de
[mármore.
tinha certeza de que era isso. eu não possuía nenhuma
[antiguidade
em mármore na minha casa, quase nunca tive problemas
[sexuais na
minha casa. algumas vezes, mas
muito raramente.
não consigo entender toda essa função de
antiguidades

tenho certeza de que é uma gigantesca
vigarice.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Poema de 56 Anos

segui com duas damas
até Venice
para dar uma olhada nuns móveis antigos.
estacionei no fundo da loja
e entrei com elas.
US$ 125 por um relógio, US$ 700 por 6 cadeiras.
parei de olhar.

as damas circulavam
olhando tudo.
tinham classe.
me despedi de uma delas
e dei o fora.

era domingo e o bar
não estava muito melhor,
todos nervosos e jovens
e loiros e pálidos.
terminei minha bebida, peguei 4 cervejas
na loja de conveniências
e sentei em meu carro para bebê-las.

ao terminar a 4ª cerveja
as damas apareceram.
perguntaram-me se eu estava bem.
eu lhes disse que toda experiência
era válida
e que elas me haviam tirado de
meu habitualmente negro estado de
espírito.

a que eu conhecia melhor havia comprado uma mesa
com tampo de mármore por US$ 100.
ela possuía seu próprio negócio e era uma
pessoa civilizada.
civilizada o suficiente para conhecer um vizinho
que tinha uma van
e enquanto eu estava acomodado em seu apartamento
[bebendo
um Zeller Schwarze Katz 1974
eles foram apanhar a mesa.

mais tarde ela quis saber a minha opinião sobre
a mesa e eu disse que me parecia bacana,
às vezes eu perdia cem pratas nos
cavalinhos. assistimos tevê na cama e mais tarde
naquela noite eu não consegui gozar. pensei que era
porque não conseguia deixar de pensar na mesa de
[mármore.
tinha certeza de que era isso. eu não possuía nenhuma
[antiguidade
em mármore na minha casa, quase nunca tive problemas
[sexuais na
minha casa. algumas vezes, mas
muito raramente.
não consigo entender toda essa função de
antiguidades

tenho certeza de que é uma gigantesca
vigarice.
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