Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Charles Bukowski
Cinzas
peguei as cinzas dele, ela disse, e as lancei
ao mar e as espalhei e
elas nem sequer pareciam cinzas
e
o que dava peso à urna eram os
seixos verdes e azuis...
ele não lhe deixou nem um centavo de seus
milhões?
nada, ela disse.
mesmo depois de todos aqueles cafés da manhã
e almoços e jantares ao lado dele? depois
de ter escutado toda a merda que ele falava?
ele era um homem brilhante.
você sabe do que estou falando.
seja como for, eu fiquei com as cinzas. e você comeu
minhas irmãs.
nunca comi suas irmãs.
comeu sim.
comi uma delas.
qual?
a lésbica, respondi, ela me pagou o jantar e as bebidas,
não tive muita escolha.
estou indo, ela disse.
não se esqueça do frasco.
ela entrou para buscá-lo.
sobra tão pouco de você, ela disse, que quando você morre e eles te queimam precisam acrescentar uma porção de seixos verdes e azuis.
está bem, eu disse.
vejo você daqui a 6 meses! ela gritou e bateu a porta.
bem, pensei, creio que para me livrar dela terei que
comer a outra irmã. caminhei até o quarto e comecei a dar
uma olhada nos números de telefone. tudo o que eu
[lembrava
era que ela
vivia em San Mateo e tinha um ótimo
emprego.
ao mar e as espalhei e
elas nem sequer pareciam cinzas
e
o que dava peso à urna eram os
seixos verdes e azuis...
ele não lhe deixou nem um centavo de seus
milhões?
nada, ela disse.
mesmo depois de todos aqueles cafés da manhã
e almoços e jantares ao lado dele? depois
de ter escutado toda a merda que ele falava?
ele era um homem brilhante.
você sabe do que estou falando.
seja como for, eu fiquei com as cinzas. e você comeu
minhas irmãs.
nunca comi suas irmãs.
comeu sim.
comi uma delas.
qual?
a lésbica, respondi, ela me pagou o jantar e as bebidas,
não tive muita escolha.
estou indo, ela disse.
não se esqueça do frasco.
ela entrou para buscá-lo.
sobra tão pouco de você, ela disse, que quando você morre e eles te queimam precisam acrescentar uma porção de seixos verdes e azuis.
está bem, eu disse.
vejo você daqui a 6 meses! ela gritou e bateu a porta.
bem, pensei, creio que para me livrar dela terei que
comer a outra irmã. caminhei até o quarto e comecei a dar
uma olhada nos números de telefone. tudo o que eu
[lembrava
era que ela
vivia em San Mateo e tinha um ótimo
emprego.
1 169
Charles Bukowski
Comunhão
cavalos correndo
com ela a milhas de distância
rindo com um
louco
Bach e a bomba de hidrogênio
e ela a milhas de distância
rindo com um
louco
o sistema bancário
guinchos de carro
gôndolas em Veneza
e ela a milhas de distância
rindo com um
louco
você nunca viu de fato
uma escada antes
(cada degrau olhando
separadamente para você)
e do lado de fora
o vendedor de jornais parecendo
imortal
enquanto os carros passam
debaixo do sol
como um inimigo
e você se pergunta
por que é tão difícil
enlouquecer –
se é que você já não está
louco
até agora
você não tinha visto uma
escada que se parecesse com
uma escada
uma maçaneta que se parecesse com
uma maçaneta
e sons como esses sons
e quando a aranha aparece
e olha pra você
por fim
você já não a odeia
por fim
com ela a milhas de distância
rindo com um
louco.
com ela a milhas de distância
rindo com um
louco
Bach e a bomba de hidrogênio
e ela a milhas de distância
rindo com um
louco
o sistema bancário
guinchos de carro
gôndolas em Veneza
e ela a milhas de distância
rindo com um
louco
você nunca viu de fato
uma escada antes
(cada degrau olhando
separadamente para você)
e do lado de fora
o vendedor de jornais parecendo
imortal
enquanto os carros passam
debaixo do sol
como um inimigo
e você se pergunta
por que é tão difícil
enlouquecer –
se é que você já não está
louco
até agora
você não tinha visto uma
escada que se parecesse com
uma escada
uma maçaneta que se parecesse com
uma maçaneta
e sons como esses sons
e quando a aranha aparece
e olha pra você
por fim
você já não a odeia
por fim
com ela a milhas de distância
rindo com um
louco.
1 107
Charles Bukowski
Comunhão
cavalos correndo
com ela a milhas de distância
rindo com um
louco
Bach e a bomba de hidrogênio
e ela a milhas de distância
rindo com um
louco
o sistema bancário
guinchos de carro
gôndolas em Veneza
e ela a milhas de distância
rindo com um
louco
você nunca viu de fato
uma escada antes
(cada degrau olhando
separadamente para você)
e do lado de fora
o vendedor de jornais parecendo
imortal
enquanto os carros passam
debaixo do sol
como um inimigo
e você se pergunta
por que é tão difícil
enlouquecer –
se é que você já não está
louco
até agora
você não tinha visto uma
escada que se parecesse com
uma escada
uma maçaneta que se parecesse com
uma maçaneta
e sons como esses sons
e quando a aranha aparece
e olha pra você
por fim
você já não a odeia
por fim
com ela a milhas de distância
rindo com um
louco.
com ela a milhas de distância
rindo com um
louco
Bach e a bomba de hidrogênio
e ela a milhas de distância
rindo com um
louco
o sistema bancário
guinchos de carro
gôndolas em Veneza
e ela a milhas de distância
rindo com um
louco
você nunca viu de fato
uma escada antes
(cada degrau olhando
separadamente para você)
e do lado de fora
o vendedor de jornais parecendo
imortal
enquanto os carros passam
debaixo do sol
como um inimigo
e você se pergunta
por que é tão difícil
enlouquecer –
se é que você já não está
louco
até agora
você não tinha visto uma
escada que se parecesse com
uma escada
uma maçaneta que se parecesse com
uma maçaneta
e sons como esses sons
e quando a aranha aparece
e olha pra você
por fim
você já não a odeia
por fim
com ela a milhas de distância
rindo com um
louco.
1 107
Charles Bukowski
Comunhão
cavalos correndo
com ela a milhas de distância
rindo com um
louco
Bach e a bomba de hidrogênio
e ela a milhas de distância
rindo com um
louco
o sistema bancário
guinchos de carro
gôndolas em Veneza
e ela a milhas de distância
rindo com um
louco
você nunca viu de fato
uma escada antes
(cada degrau olhando
separadamente para você)
e do lado de fora
o vendedor de jornais parecendo
imortal
enquanto os carros passam
debaixo do sol
como um inimigo
e você se pergunta
por que é tão difícil
enlouquecer –
se é que você já não está
louco
até agora
você não tinha visto uma
escada que se parecesse com
uma escada
uma maçaneta que se parecesse com
uma maçaneta
e sons como esses sons
e quando a aranha aparece
e olha pra você
por fim
você já não a odeia
por fim
com ela a milhas de distância
rindo com um
louco.
com ela a milhas de distância
rindo com um
louco
Bach e a bomba de hidrogênio
e ela a milhas de distância
rindo com um
louco
o sistema bancário
guinchos de carro
gôndolas em Veneza
e ela a milhas de distância
rindo com um
louco
você nunca viu de fato
uma escada antes
(cada degrau olhando
separadamente para você)
e do lado de fora
o vendedor de jornais parecendo
imortal
enquanto os carros passam
debaixo do sol
como um inimigo
e você se pergunta
por que é tão difícil
enlouquecer –
se é que você já não está
louco
até agora
você não tinha visto uma
escada que se parecesse com
uma escada
uma maçaneta que se parecesse com
uma maçaneta
e sons como esses sons
e quando a aranha aparece
e olha pra você
por fim
você já não a odeia
por fim
com ela a milhas de distância
rindo com um
louco.
1 107
Charles Bukowski
M.T.
M.T.[1] ela morava em Galveston e fazia
M.T.
e eu fui visitá-la e fizemos amor
ininterruptamente ainda que o tempo estivesse muito
quente
e tomamos mescalina
e uma balsa até a ilha
e dirigimos 200 milhas até o hipódromo mais
próximo.
nós dois ganhamos e fomos sentar num bar de caipiras –
odiado e não frequentado pelos nativos –
e então fomos para um motel caipira
e voltamos um ou dois dias depois
e fiquei por lá mais uma semana
pintei-lhe um par de quadros decentes –
um de um homem sendo enforcado
e outro de uma mulher sendo fodida por um lobo.
acordei certa noite e ela não estava na cama
e levantei e caminhei ao redor perguntando,
“Gloria, Gloria, onde você está?”
era um lugar enorme e eu caminhava a esmo
abrindo porta atrás de porta,
então abri uma que parecia a de um closet
e lá estava ela de joelhos
cercada por fotografias de
7 ou 8 homens
as cabeças raspadas
em sua maioria usando óculos sem armações.
havia uma pequena vela acesa
e eu disse, “oh, me desculpe”.
Gloria vestia um quimono com águias
em pleno voo na parte de trás.
fechei a porta e voltei para a cama.
ela saiu 15 minutos depois.
começamos a nos beijar,
sua língua enorme deslizando para dentro e para fora da
[minha
boca.
ela era uma garota grande e saudável do Texas.
“escute, Gloria”, consegui finalmente dizer,
“preciso de uma noite de folga”.
no dia seguinte ela me levou até o aeroporto.
eu prometi escrever. Ela prometeu escrever.
nenhum de nós escreveu.
M.T.
e eu fui visitá-la e fizemos amor
ininterruptamente ainda que o tempo estivesse muito
quente
e tomamos mescalina
e uma balsa até a ilha
e dirigimos 200 milhas até o hipódromo mais
próximo.
nós dois ganhamos e fomos sentar num bar de caipiras –
odiado e não frequentado pelos nativos –
e então fomos para um motel caipira
e voltamos um ou dois dias depois
e fiquei por lá mais uma semana
pintei-lhe um par de quadros decentes –
um de um homem sendo enforcado
e outro de uma mulher sendo fodida por um lobo.
acordei certa noite e ela não estava na cama
e levantei e caminhei ao redor perguntando,
“Gloria, Gloria, onde você está?”
era um lugar enorme e eu caminhava a esmo
abrindo porta atrás de porta,
então abri uma que parecia a de um closet
e lá estava ela de joelhos
cercada por fotografias de
7 ou 8 homens
as cabeças raspadas
em sua maioria usando óculos sem armações.
havia uma pequena vela acesa
e eu disse, “oh, me desculpe”.
Gloria vestia um quimono com águias
em pleno voo na parte de trás.
fechei a porta e voltei para a cama.
ela saiu 15 minutos depois.
começamos a nos beijar,
sua língua enorme deslizando para dentro e para fora da
[minha
boca.
ela era uma garota grande e saudável do Texas.
“escute, Gloria”, consegui finalmente dizer,
“preciso de uma noite de folga”.
no dia seguinte ela me levou até o aeroporto.
eu prometi escrever. Ela prometeu escrever.
nenhum de nós escreveu.
1 151
Charles Bukowski
O Fim de Um Breve Caso
tentei fazer o negócio de pé
dessa vez.
normalmente não costuma
funcionar.
dessa vez parecia
que...
ela seguia dizendo
“ó, meu Deus, você tem
pernas lindas!”
tudo estava bem
até que ela tirou os
pés do chão
e enroscou suas pernas
em volta dos meus quadris.
“ó, meu Deus, você tem
pernas lindas!”
ela pesava cerca de 63
quilos e ficou ali presa enquanto eu
trabalhava.
foi só quando cheguei ao clímax
que senti a dor
correr espinha
acima.
deitei-a no sofá
e caminhei ao redor
da sala.
a dor continuava.
“olha só”, eu lhe disse,
“é melhor você ir. tenho
que revelar uns filmes
na minha câmara escura.”
ela se vestiu e se foi
e eu segui até a
cozinha para um copo
d’água. peguei um copo cheio
com a mão esquerda.
a dor correu para além de minhas
orelhas e
deixei cair o copo
que se espatifou no chão.
entrei numa banheira cheia de
água quente e sais Epsom.
recém tinha acabado de me esticar
quando o telefone tocou.
ao tentar endireitar
minhas costas
a dor se estendeu por
pescoço e braços.
caí pesadamente
me agarrei às bordas da banheira
consegui sair
com raios verdes e amarelos
e luzes vermelhas
lampejando em minha cabeça.
o telefone continuava tocando.
atendi.
“alô?”
“EU TE AMO!”, ela disse.
“obrigado”, eu disse.
“é tudo o que você tem
pra me dizer?”
“sim.”
“vá à merda!” ela disse e
desligou.
o amor se esgota, pensei
ao caminhar de volta ao
banheiro, mais rápido
do que um jato de esperma.
dessa vez.
normalmente não costuma
funcionar.
dessa vez parecia
que...
ela seguia dizendo
“ó, meu Deus, você tem
pernas lindas!”
tudo estava bem
até que ela tirou os
pés do chão
e enroscou suas pernas
em volta dos meus quadris.
“ó, meu Deus, você tem
pernas lindas!”
ela pesava cerca de 63
quilos e ficou ali presa enquanto eu
trabalhava.
foi só quando cheguei ao clímax
que senti a dor
correr espinha
acima.
deitei-a no sofá
e caminhei ao redor
da sala.
a dor continuava.
“olha só”, eu lhe disse,
“é melhor você ir. tenho
que revelar uns filmes
na minha câmara escura.”
ela se vestiu e se foi
e eu segui até a
cozinha para um copo
d’água. peguei um copo cheio
com a mão esquerda.
a dor correu para além de minhas
orelhas e
deixei cair o copo
que se espatifou no chão.
entrei numa banheira cheia de
água quente e sais Epsom.
recém tinha acabado de me esticar
quando o telefone tocou.
ao tentar endireitar
minhas costas
a dor se estendeu por
pescoço e braços.
caí pesadamente
me agarrei às bordas da banheira
consegui sair
com raios verdes e amarelos
e luzes vermelhas
lampejando em minha cabeça.
o telefone continuava tocando.
atendi.
“alô?”
“EU TE AMO!”, ela disse.
“obrigado”, eu disse.
“é tudo o que você tem
pra me dizer?”
“sim.”
“vá à merda!” ela disse e
desligou.
o amor se esgota, pensei
ao caminhar de volta ao
banheiro, mais rápido
do que um jato de esperma.
1 188
Charles Bukowski
O Fim de Um Breve Caso
tentei fazer o negócio de pé
dessa vez.
normalmente não costuma
funcionar.
dessa vez parecia
que...
ela seguia dizendo
“ó, meu Deus, você tem
pernas lindas!”
tudo estava bem
até que ela tirou os
pés do chão
e enroscou suas pernas
em volta dos meus quadris.
“ó, meu Deus, você tem
pernas lindas!”
ela pesava cerca de 63
quilos e ficou ali presa enquanto eu
trabalhava.
foi só quando cheguei ao clímax
que senti a dor
correr espinha
acima.
deitei-a no sofá
e caminhei ao redor
da sala.
a dor continuava.
“olha só”, eu lhe disse,
“é melhor você ir. tenho
que revelar uns filmes
na minha câmara escura.”
ela se vestiu e se foi
e eu segui até a
cozinha para um copo
d’água. peguei um copo cheio
com a mão esquerda.
a dor correu para além de minhas
orelhas e
deixei cair o copo
que se espatifou no chão.
entrei numa banheira cheia de
água quente e sais Epsom.
recém tinha acabado de me esticar
quando o telefone tocou.
ao tentar endireitar
minhas costas
a dor se estendeu por
pescoço e braços.
caí pesadamente
me agarrei às bordas da banheira
consegui sair
com raios verdes e amarelos
e luzes vermelhas
lampejando em minha cabeça.
o telefone continuava tocando.
atendi.
“alô?”
“EU TE AMO!”, ela disse.
“obrigado”, eu disse.
“é tudo o que você tem
pra me dizer?”
“sim.”
“vá à merda!” ela disse e
desligou.
o amor se esgota, pensei
ao caminhar de volta ao
banheiro, mais rápido
do que um jato de esperma.
dessa vez.
normalmente não costuma
funcionar.
dessa vez parecia
que...
ela seguia dizendo
“ó, meu Deus, você tem
pernas lindas!”
tudo estava bem
até que ela tirou os
pés do chão
e enroscou suas pernas
em volta dos meus quadris.
“ó, meu Deus, você tem
pernas lindas!”
ela pesava cerca de 63
quilos e ficou ali presa enquanto eu
trabalhava.
foi só quando cheguei ao clímax
que senti a dor
correr espinha
acima.
deitei-a no sofá
e caminhei ao redor
da sala.
a dor continuava.
“olha só”, eu lhe disse,
“é melhor você ir. tenho
que revelar uns filmes
na minha câmara escura.”
ela se vestiu e se foi
e eu segui até a
cozinha para um copo
d’água. peguei um copo cheio
com a mão esquerda.
a dor correu para além de minhas
orelhas e
deixei cair o copo
que se espatifou no chão.
entrei numa banheira cheia de
água quente e sais Epsom.
recém tinha acabado de me esticar
quando o telefone tocou.
ao tentar endireitar
minhas costas
a dor se estendeu por
pescoço e braços.
caí pesadamente
me agarrei às bordas da banheira
consegui sair
com raios verdes e amarelos
e luzes vermelhas
lampejando em minha cabeça.
o telefone continuava tocando.
atendi.
“alô?”
“EU TE AMO!”, ela disse.
“obrigado”, eu disse.
“é tudo o que você tem
pra me dizer?”
“sim.”
“vá à merda!” ela disse e
desligou.
o amor se esgota, pensei
ao caminhar de volta ao
banheiro, mais rápido
do que um jato de esperma.
1 188
Charles Bukowski
Você
você é uma fera, ela disse
sua enorme barriga branca
e seus pés cabeludos.
você jamais corta as unhas
e tem mãos gordas
como as patas de um gato
seu nariz vermelho e brilhante
e os maiores bagos que
eu já vi.
você lança esperma como
uma baleia lança água pelo
buraco das costas.
fera, fera, fera,
ela me beijou,
o que você quer para o
café da manhã?
sua enorme barriga branca
e seus pés cabeludos.
você jamais corta as unhas
e tem mãos gordas
como as patas de um gato
seu nariz vermelho e brilhante
e os maiores bagos que
eu já vi.
você lança esperma como
uma baleia lança água pelo
buraco das costas.
fera, fera, fera,
ela me beijou,
o que você quer para o
café da manhã?
1 221
Charles Bukowski
Você
você é uma fera, ela disse
sua enorme barriga branca
e seus pés cabeludos.
você jamais corta as unhas
e tem mãos gordas
como as patas de um gato
seu nariz vermelho e brilhante
e os maiores bagos que
eu já vi.
você lança esperma como
uma baleia lança água pelo
buraco das costas.
fera, fera, fera,
ela me beijou,
o que você quer para o
café da manhã?
sua enorme barriga branca
e seus pés cabeludos.
você jamais corta as unhas
e tem mãos gordas
como as patas de um gato
seu nariz vermelho e brilhante
e os maiores bagos que
eu já vi.
você lança esperma como
uma baleia lança água pelo
buraco das costas.
fera, fera, fera,
ela me beijou,
o que você quer para o
café da manhã?
1 221
Charles Bukowski
Já Vi Mendigos Demais Com Os Olhos Vidrados Bebendo Vinho Barato Debaixo da Ponte
você se senta comigo
no sofá
nesta noite
nova mulher.
você já viu os
documentários
sobre animais carnívoros?
eles mostram a morte.
e agora me pergunto
que animal entre
nós dois
devorará
primeiro o outro
física e
por fim
espiritualmente?
nós consumimos animais
e então um de nós
consome o outro,
meu amor.
enquanto isso
prefiro que você vá
primeiro e do primeiro jeito
se os gráficos de performance passadas
significarem alguma coisa
eu certamente irei
primeiro e do último
jeito.
no sofá
nesta noite
nova mulher.
você já viu os
documentários
sobre animais carnívoros?
eles mostram a morte.
e agora me pergunto
que animal entre
nós dois
devorará
primeiro o outro
física e
por fim
espiritualmente?
nós consumimos animais
e então um de nós
consome o outro,
meu amor.
enquanto isso
prefiro que você vá
primeiro e do primeiro jeito
se os gráficos de performance passadas
significarem alguma coisa
eu certamente irei
primeiro e do último
jeito.
1 425
Charles Bukowski
Inverno
um cachorro grande, sujo e ferido
atingido por um carro e caminhando
em direção ao meio-fio
emitindo enormes
sons
seu corpo curvado
vermelho explodindo pelo
cu e pela boca.
olho para ele e
sigo em frente
pois como seria
para mim segurar
um cão moribundo junto a
um meio-fio em Arcadia,
o sangue escorrendo por minha
camisa e calças e
cueca e meias e meus
sapatos? pareceria apenas
uma tolice.
além disso, pus o olho no cavalo
número 2 no primeiro páreo
e queria fazer uma dobradinha
com o número 9
no segundo. estudei o jornal para
pagar algo em torno de $ 140
assim eu tinha que deixar aquele
cachorro morrer ali sozinho
bem defronte ao
shopping center
com as senhoras à
procura de pechinchas
enquanto o primeiro floco de
neve caía sobre a
Sierra Madre.
atingido por um carro e caminhando
em direção ao meio-fio
emitindo enormes
sons
seu corpo curvado
vermelho explodindo pelo
cu e pela boca.
olho para ele e
sigo em frente
pois como seria
para mim segurar
um cão moribundo junto a
um meio-fio em Arcadia,
o sangue escorrendo por minha
camisa e calças e
cueca e meias e meus
sapatos? pareceria apenas
uma tolice.
além disso, pus o olho no cavalo
número 2 no primeiro páreo
e queria fazer uma dobradinha
com o número 9
no segundo. estudei o jornal para
pagar algo em torno de $ 140
assim eu tinha que deixar aquele
cachorro morrer ali sozinho
bem defronte ao
shopping center
com as senhoras à
procura de pechinchas
enquanto o primeiro floco de
neve caía sobre a
Sierra Madre.
1 144
Charles Bukowski
Uma Das Mais Quentes
ela usava uma peruca de um loiro platinado
e tinha a face carregada de rouge e pó
e não economizava no batom
traçando uma enorme boca pintada
e seu pescoço era coberto de rugas
mas ainda tinha o rabo de uma garota
e as pernas eram boas.
ela usava calcinhas azuis que eu baixei e
ergui seu vestido, e à luz bruxuleante da TV
tomei-a de pé.
enquanto nos digladiávamos ao redor do quarto
(estou fodendo uma cova, pensei,
trazendo os mortos de volta à vida, maravilhoso
tão maravilhoso
como comer azeitonas geladas às 3 da manhã
com metade da cidade em chamas)
gozei.
vocês podem ficar com suas virgens, rapazes
deem-me velhas gostosas no alto de seus saltos
com rabos que esqueceram de envelhecer.
claro, você tem que dar o fora depois
ou ficar muito bêbado
o que é a mesma
coisa.
bebemos vinho por horas e assistimos tevê
e quando fomos pra cama
para dormir
ela não tirou os dentes da boca
a noite toda.
e tinha a face carregada de rouge e pó
e não economizava no batom
traçando uma enorme boca pintada
e seu pescoço era coberto de rugas
mas ainda tinha o rabo de uma garota
e as pernas eram boas.
ela usava calcinhas azuis que eu baixei e
ergui seu vestido, e à luz bruxuleante da TV
tomei-a de pé.
enquanto nos digladiávamos ao redor do quarto
(estou fodendo uma cova, pensei,
trazendo os mortos de volta à vida, maravilhoso
tão maravilhoso
como comer azeitonas geladas às 3 da manhã
com metade da cidade em chamas)
gozei.
vocês podem ficar com suas virgens, rapazes
deem-me velhas gostosas no alto de seus saltos
com rabos que esqueceram de envelhecer.
claro, você tem que dar o fora depois
ou ficar muito bêbado
o que é a mesma
coisa.
bebemos vinho por horas e assistimos tevê
e quando fomos pra cama
para dormir
ela não tirou os dentes da boca
a noite toda.
1 188
Charles Bukowski
Uma Das Mais Quentes
ela usava uma peruca de um loiro platinado
e tinha a face carregada de rouge e pó
e não economizava no batom
traçando uma enorme boca pintada
e seu pescoço era coberto de rugas
mas ainda tinha o rabo de uma garota
e as pernas eram boas.
ela usava calcinhas azuis que eu baixei e
ergui seu vestido, e à luz bruxuleante da TV
tomei-a de pé.
enquanto nos digladiávamos ao redor do quarto
(estou fodendo uma cova, pensei,
trazendo os mortos de volta à vida, maravilhoso
tão maravilhoso
como comer azeitonas geladas às 3 da manhã
com metade da cidade em chamas)
gozei.
vocês podem ficar com suas virgens, rapazes
deem-me velhas gostosas no alto de seus saltos
com rabos que esqueceram de envelhecer.
claro, você tem que dar o fora depois
ou ficar muito bêbado
o que é a mesma
coisa.
bebemos vinho por horas e assistimos tevê
e quando fomos pra cama
para dormir
ela não tirou os dentes da boca
a noite toda.
e tinha a face carregada de rouge e pó
e não economizava no batom
traçando uma enorme boca pintada
e seu pescoço era coberto de rugas
mas ainda tinha o rabo de uma garota
e as pernas eram boas.
ela usava calcinhas azuis que eu baixei e
ergui seu vestido, e à luz bruxuleante da TV
tomei-a de pé.
enquanto nos digladiávamos ao redor do quarto
(estou fodendo uma cova, pensei,
trazendo os mortos de volta à vida, maravilhoso
tão maravilhoso
como comer azeitonas geladas às 3 da manhã
com metade da cidade em chamas)
gozei.
vocês podem ficar com suas virgens, rapazes
deem-me velhas gostosas no alto de seus saltos
com rabos que esqueceram de envelhecer.
claro, você tem que dar o fora depois
ou ficar muito bêbado
o que é a mesma
coisa.
bebemos vinho por horas e assistimos tevê
e quando fomos pra cama
para dormir
ela não tirou os dentes da boca
a noite toda.
1 188
Manuel Bandeira
Saudação a Murilo Mendes
Saudemos Murilo Medina Celi Monteiro Mendes que menino invadiu o céu na cola do cometa de Halley.
Saudemos Murilo
Grande poeta
Conciliador de contrários
Incorporador do eterno ao contingente
Saudemos Murilo
Grande amigo da Poesia
Da poesia em Cristo
E em Lúcifer
Antes da queda
Saudemos Murilo
Grande amigo da Música
Especialmente grande amigo de Mozart
Que lhe apareceu um dia
Vestido de casaca azul
Saudemos Murilo
Grande amigo das Belas-Artes
Descobridor do falecido Cícero
(Hoje reencarnado num pintor abstracionista que vive em Paris onde o chamam Diás).
Saudemos Murilo
Para quem a amizade é também uma das Belas-Artes
Murilo grande amigo de seus amigos
Delicado fiel atento amigo de seus amigos
Saudemos Murilo
Grande marido dessa encantadora Maria da Saudade
Portuguesa e brasileira
Como seu nome
Invenção de dois poetas
Saudemos Murilo
Antitotalitarista antipassadista antiburocratista
Anti tudo que é pau ou que é pífio
Saudemos o grande poeta
Perenemente em pânico
E em flor.
Saudemos Murilo
Grande poeta
Conciliador de contrários
Incorporador do eterno ao contingente
Saudemos Murilo
Grande amigo da Poesia
Da poesia em Cristo
E em Lúcifer
Antes da queda
Saudemos Murilo
Grande amigo da Música
Especialmente grande amigo de Mozart
Que lhe apareceu um dia
Vestido de casaca azul
Saudemos Murilo
Grande amigo das Belas-Artes
Descobridor do falecido Cícero
(Hoje reencarnado num pintor abstracionista que vive em Paris onde o chamam Diás).
Saudemos Murilo
Para quem a amizade é também uma das Belas-Artes
Murilo grande amigo de seus amigos
Delicado fiel atento amigo de seus amigos
Saudemos Murilo
Grande marido dessa encantadora Maria da Saudade
Portuguesa e brasileira
Como seu nome
Invenção de dois poetas
Saudemos Murilo
Antitotalitarista antipassadista antiburocratista
Anti tudo que é pau ou que é pífio
Saudemos o grande poeta
Perenemente em pânico
E em flor.
1 205
Charles Bukowski
Dama Melancólica
ela fica ali sentada
bebendo vinho
enquanto seu marido
está no trabalho.
ela considera
de suma importância
que seus poemas sejam
publicados
nas pequenas
revistas.
possui dois
ou três de pequenos
volumes de sua poesia
mimeografados.
tem dois ou
três filhos
com idades que vão
de 6 a 15.
já não é mais
a linda mulher que
costumava ser. manda
fotos em que aparece
sentada sobre uma pedra
junto ao oceano
sozinha e condenada.
podia ter estado com ela
uma vez. me pergunto
se ela acha que eu
poderia
salvá-la?
em todos os seus poemas
seu marido jamais
é mencionado.
mas costuma
falar sobre seu
jardim
assim sabemos que está
lá, de alguma maneira,
e que talvez ela
trepe com os botões de rosa
e os tentilhões
antes de escrever
seus poemas.
bebendo vinho
enquanto seu marido
está no trabalho.
ela considera
de suma importância
que seus poemas sejam
publicados
nas pequenas
revistas.
possui dois
ou três de pequenos
volumes de sua poesia
mimeografados.
tem dois ou
três filhos
com idades que vão
de 6 a 15.
já não é mais
a linda mulher que
costumava ser. manda
fotos em que aparece
sentada sobre uma pedra
junto ao oceano
sozinha e condenada.
podia ter estado com ela
uma vez. me pergunto
se ela acha que eu
poderia
salvá-la?
em todos os seus poemas
seu marido jamais
é mencionado.
mas costuma
falar sobre seu
jardim
assim sabemos que está
lá, de alguma maneira,
e que talvez ela
trepe com os botões de rosa
e os tentilhões
antes de escrever
seus poemas.
1 189
Charles Bukowski
Blue Cheese E Chili
essas mulheres supostamente deveriam aparecer
e me ver
mas elas nunca
vêm.
há aquela com uma enorme cicatriz ao longo
da barriga.
há a outra que escreve poemas
e liga às 3 da manhã, dizendo,
“eu te amo”.
há a que dança com uma
jiboia
e escreve a cada quatro
semanas, dizendo
que virá.
e a 4ª que alega dormir
sempre
com meu último livro
debaixo do
travesseiro.
bato uma punheta no calor
e escuto Brahms e como
blue cheese com chili.
essas mulheres são boas de cabeça e de
corpo, excelentes dentro ou fora da cama,
perigosas e fatais, é
claro...
mas por que todas têm de viver
lá no norte?
sei que um dia elas irão
chegar, mas duas ou três
no mesmo dia, e
vamos sentar e conversar
e então todas irão embora
juntas.
um outro qualquer as terá
e eu caminharei por aí
em meu short surrado
fumando cigarros demais
e tentando extrair algum
drama
de nenhum progresso
de fato.
e me ver
mas elas nunca
vêm.
há aquela com uma enorme cicatriz ao longo
da barriga.
há a outra que escreve poemas
e liga às 3 da manhã, dizendo,
“eu te amo”.
há a que dança com uma
jiboia
e escreve a cada quatro
semanas, dizendo
que virá.
e a 4ª que alega dormir
sempre
com meu último livro
debaixo do
travesseiro.
bato uma punheta no calor
e escuto Brahms e como
blue cheese com chili.
essas mulheres são boas de cabeça e de
corpo, excelentes dentro ou fora da cama,
perigosas e fatais, é
claro...
mas por que todas têm de viver
lá no norte?
sei que um dia elas irão
chegar, mas duas ou três
no mesmo dia, e
vamos sentar e conversar
e então todas irão embora
juntas.
um outro qualquer as terá
e eu caminharei por aí
em meu short surrado
fumando cigarros demais
e tentando extrair algum
drama
de nenhum progresso
de fato.
1 150
Charles Bukowski
Blue Cheese E Chili
essas mulheres supostamente deveriam aparecer
e me ver
mas elas nunca
vêm.
há aquela com uma enorme cicatriz ao longo
da barriga.
há a outra que escreve poemas
e liga às 3 da manhã, dizendo,
“eu te amo”.
há a que dança com uma
jiboia
e escreve a cada quatro
semanas, dizendo
que virá.
e a 4ª que alega dormir
sempre
com meu último livro
debaixo do
travesseiro.
bato uma punheta no calor
e escuto Brahms e como
blue cheese com chili.
essas mulheres são boas de cabeça e de
corpo, excelentes dentro ou fora da cama,
perigosas e fatais, é
claro...
mas por que todas têm de viver
lá no norte?
sei que um dia elas irão
chegar, mas duas ou três
no mesmo dia, e
vamos sentar e conversar
e então todas irão embora
juntas.
um outro qualquer as terá
e eu caminharei por aí
em meu short surrado
fumando cigarros demais
e tentando extrair algum
drama
de nenhum progresso
de fato.
e me ver
mas elas nunca
vêm.
há aquela com uma enorme cicatriz ao longo
da barriga.
há a outra que escreve poemas
e liga às 3 da manhã, dizendo,
“eu te amo”.
há a que dança com uma
jiboia
e escreve a cada quatro
semanas, dizendo
que virá.
e a 4ª que alega dormir
sempre
com meu último livro
debaixo do
travesseiro.
bato uma punheta no calor
e escuto Brahms e como
blue cheese com chili.
essas mulheres são boas de cabeça e de
corpo, excelentes dentro ou fora da cama,
perigosas e fatais, é
claro...
mas por que todas têm de viver
lá no norte?
sei que um dia elas irão
chegar, mas duas ou três
no mesmo dia, e
vamos sentar e conversar
e então todas irão embora
juntas.
um outro qualquer as terá
e eu caminharei por aí
em meu short surrado
fumando cigarros demais
e tentando extrair algum
drama
de nenhum progresso
de fato.
1 150
Charles Bukowski
Quem, Diabos, É Tom Jones?
por duas semanas
estive dormindo com uma
garota de 24 anos de
Nova York – na época
em que ocorria a greve dos
lixeiros, e certa noite
minha antiga mulher de 34 anos
chegou e disse, “quero ver
minha rival”. foi o que ela fez
e então disse, “ó, você
é a coisinha mais querida!”
depois disso reparei que houve uma
gritaria de gatas selvagens –
urros e unhadas,
lamentos de animal ferido,
sangue e mijo...
eu estava bêbado e só de
calção. tentei
separar as duas e caí,
torcendo o joelho. então
atravessaram a porta e
avançaram rua
afora.
chegaram viaturas cheias
de policiais. um helicóptero da
polícia sobrevoou o local.
fiquei no banheiro
e sorri para o espelho.
não é comum que coisas
tão esplêndidas assim
aconteçam aos 55 anos.
muito melhor do que os distúrbios em
Watts[3].
a de 34 retornou
para dentro. estava toda
mijada e sua roupa
transformada em farrapos e era
seguida por dois policiais que
queriam saber a razão daquilo tudo.
erguendo meus calções
eu tentava explicar.
estive dormindo com uma
garota de 24 anos de
Nova York – na época
em que ocorria a greve dos
lixeiros, e certa noite
minha antiga mulher de 34 anos
chegou e disse, “quero ver
minha rival”. foi o que ela fez
e então disse, “ó, você
é a coisinha mais querida!”
depois disso reparei que houve uma
gritaria de gatas selvagens –
urros e unhadas,
lamentos de animal ferido,
sangue e mijo...
eu estava bêbado e só de
calção. tentei
separar as duas e caí,
torcendo o joelho. então
atravessaram a porta e
avançaram rua
afora.
chegaram viaturas cheias
de policiais. um helicóptero da
polícia sobrevoou o local.
fiquei no banheiro
e sorri para o espelho.
não é comum que coisas
tão esplêndidas assim
aconteçam aos 55 anos.
muito melhor do que os distúrbios em
Watts[3].
a de 34 retornou
para dentro. estava toda
mijada e sua roupa
transformada em farrapos e era
seguida por dois policiais que
queriam saber a razão daquilo tudo.
erguendo meus calções
eu tentava explicar.
1 200
Charles Bukowski
Sozinho Com Todo Mundo
a carne cobre os ossos
e colocam uma mente
ali dentro e
algumas vezes uma alma,
e as mulheres quebram
vasos contra as paredes
e os homens bebem
demais
e ninguém encontra o
par ideal
mas seguem na
procura
rastejando para dentro e para fora
dos leitos.
a carne cobre
os ossos e a
carne busca
muito mais do que mera
carne.
de fato, não há qualquer
chance:
estamos todos presos
a um destino
singular.
ninguém nunca encontra
o par ideal.
as lixeiras da cidade se completam
os ferros-velhos se completam
os hospícios se completam
as sepulturas se completam
nada mais
se completa.
e colocam uma mente
ali dentro e
algumas vezes uma alma,
e as mulheres quebram
vasos contra as paredes
e os homens bebem
demais
e ninguém encontra o
par ideal
mas seguem na
procura
rastejando para dentro e para fora
dos leitos.
a carne cobre
os ossos e a
carne busca
muito mais do que mera
carne.
de fato, não há qualquer
chance:
estamos todos presos
a um destino
singular.
ninguém nunca encontra
o par ideal.
as lixeiras da cidade se completam
os ferros-velhos se completam
os hospícios se completam
as sepulturas se completam
nada mais
se completa.
1 301
Charles Bukowski
Provaremos As Ilhas E o Mar
sei que em alguma noite
em algum quarto
logo
meus dedos abrirão
caminho
através
de cabelos limpos e
macios
canções como as que nenhuma rádio
toca
toda a tristeza, escarnecendo
em correnteza.
em algum quarto
logo
meus dedos abrirão
caminho
através
de cabelos limpos e
macios
canções como as que nenhuma rádio
toca
toda a tristeza, escarnecendo
em correnteza.
1 234
Charles Bukowski
Provaremos As Ilhas E o Mar
sei que em alguma noite
em algum quarto
logo
meus dedos abrirão
caminho
através
de cabelos limpos e
macios
canções como as que nenhuma rádio
toca
toda a tristeza, escarnecendo
em correnteza.
em algum quarto
logo
meus dedos abrirão
caminho
através
de cabelos limpos e
macios
canções como as que nenhuma rádio
toca
toda a tristeza, escarnecendo
em correnteza.
1 234
Charles Bukowski
O Segundo Romance
eles apareciam e
perguntavam
“já terminou seu
segundo romance?”
“não.”
“o que tá pegando? o que tá pegando
que você não
termina?”
“hemorróidas e
insônia.”
“será que você não
perdeu?”
“perdi o quê?”
“você sabe.”
agora quando eles aparecem
eu lhes digo,
“sim. já terminei.
sairá em setembro.”
“você terminou o livro?”
“sim.”
“bem, escute. tenho que ir.”
nem mesmo o gato
aqui da vizinhança
bate mais à minha
porta.
que beleza.
perguntavam
“já terminou seu
segundo romance?”
“não.”
“o que tá pegando? o que tá pegando
que você não
termina?”
“hemorróidas e
insônia.”
“será que você não
perdeu?”
“perdi o quê?”
“você sabe.”
agora quando eles aparecem
eu lhes digo,
“sim. já terminei.
sairá em setembro.”
“você terminou o livro?”
“sim.”
“bem, escute. tenho que ir.”
nem mesmo o gato
aqui da vizinhança
bate mais à minha
porta.
que beleza.
1 025
Charles Bukowski
Reviravolta
ela dirige para a vaga no estacionamento enquanto
eu me escoro contra o para-choque de meu carro.
ela está bêbada e seus olhos estão molhados de lágrimas:
“seu filho da puta, você trepou comigo quando não
estava a fim. disse pra eu continuar ligando,
disse pra eu me mudar pra perto da cidade,
e então me disse pra deixar você em paz.”
tudo muito dramático e eu gostando daquilo.
“claro, bem, o que você quer?”
“quero falar com você. quero ir pra sua
casa e falar com você...”
“estou com alguém agora. ela foi buscar um
sanduíche.”
“quero falar com você... demora um pouco pra
superar as coisas. preciso de mais tempo.”
“claro. espere até que ela saia. não somos
desumanos. podemos tomar um drinque juntos.”
“merda,” ela disse, “oh, merda!”
pulou dentro do carro e arrancou.
a outra apareceu: “quem era aquela?”
“uma ex-amiga.”
agora ela se foi e estou aqui sentado e bêbado
e meus olhos parecem molhados de lágrimas.
está tudo muito silencioso e sinto como se um arpão
estivesse atravessado no meio das minhas tripas.
caminho até o banheiro e vomito.
piedade, eu penso, será que a raça humana não sabe nada
sobre piedade?
eu me escoro contra o para-choque de meu carro.
ela está bêbada e seus olhos estão molhados de lágrimas:
“seu filho da puta, você trepou comigo quando não
estava a fim. disse pra eu continuar ligando,
disse pra eu me mudar pra perto da cidade,
e então me disse pra deixar você em paz.”
tudo muito dramático e eu gostando daquilo.
“claro, bem, o que você quer?”
“quero falar com você. quero ir pra sua
casa e falar com você...”
“estou com alguém agora. ela foi buscar um
sanduíche.”
“quero falar com você... demora um pouco pra
superar as coisas. preciso de mais tempo.”
“claro. espere até que ela saia. não somos
desumanos. podemos tomar um drinque juntos.”
“merda,” ela disse, “oh, merda!”
pulou dentro do carro e arrancou.
a outra apareceu: “quem era aquela?”
“uma ex-amiga.”
agora ela se foi e estou aqui sentado e bêbado
e meus olhos parecem molhados de lágrimas.
está tudo muito silencioso e sinto como se um arpão
estivesse atravessado no meio das minhas tripas.
caminho até o banheiro e vomito.
piedade, eu penso, será que a raça humana não sabe nada
sobre piedade?
1 328
Charles Bukowski
Reviravolta
ela dirige para a vaga no estacionamento enquanto
eu me escoro contra o para-choque de meu carro.
ela está bêbada e seus olhos estão molhados de lágrimas:
“seu filho da puta, você trepou comigo quando não
estava a fim. disse pra eu continuar ligando,
disse pra eu me mudar pra perto da cidade,
e então me disse pra deixar você em paz.”
tudo muito dramático e eu gostando daquilo.
“claro, bem, o que você quer?”
“quero falar com você. quero ir pra sua
casa e falar com você...”
“estou com alguém agora. ela foi buscar um
sanduíche.”
“quero falar com você... demora um pouco pra
superar as coisas. preciso de mais tempo.”
“claro. espere até que ela saia. não somos
desumanos. podemos tomar um drinque juntos.”
“merda,” ela disse, “oh, merda!”
pulou dentro do carro e arrancou.
a outra apareceu: “quem era aquela?”
“uma ex-amiga.”
agora ela se foi e estou aqui sentado e bêbado
e meus olhos parecem molhados de lágrimas.
está tudo muito silencioso e sinto como se um arpão
estivesse atravessado no meio das minhas tripas.
caminho até o banheiro e vomito.
piedade, eu penso, será que a raça humana não sabe nada
sobre piedade?
eu me escoro contra o para-choque de meu carro.
ela está bêbada e seus olhos estão molhados de lágrimas:
“seu filho da puta, você trepou comigo quando não
estava a fim. disse pra eu continuar ligando,
disse pra eu me mudar pra perto da cidade,
e então me disse pra deixar você em paz.”
tudo muito dramático e eu gostando daquilo.
“claro, bem, o que você quer?”
“quero falar com você. quero ir pra sua
casa e falar com você...”
“estou com alguém agora. ela foi buscar um
sanduíche.”
“quero falar com você... demora um pouco pra
superar as coisas. preciso de mais tempo.”
“claro. espere até que ela saia. não somos
desumanos. podemos tomar um drinque juntos.”
“merda,” ela disse, “oh, merda!”
pulou dentro do carro e arrancou.
a outra apareceu: “quem era aquela?”
“uma ex-amiga.”
agora ela se foi e estou aqui sentado e bêbado
e meus olhos parecem molhados de lágrimas.
está tudo muito silencioso e sinto como se um arpão
estivesse atravessado no meio das minhas tripas.
caminho até o banheiro e vomito.
piedade, eu penso, será que a raça humana não sabe nada
sobre piedade?
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