Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Marina Colasanti
Desde o início
Na escura caixa do peito
meu coração se sabe destinado
à lança.
Dorme a serpente
inchando seu veneno
os escorpiões se escondem
sob as pedras
corre ainda o meu sangue
livre de peçonha.
Uma lâmina aguarda
além da esquina
uma gilete um vírus um projétil
marcam na estrada pontos de fronteira
na mesma estrada em que caminho
há tempos
presos meus pés a inarredáveis trilhos.
meu coração se sabe destinado
à lança.
Dorme a serpente
inchando seu veneno
os escorpiões se escondem
sob as pedras
corre ainda o meu sangue
livre de peçonha.
Uma lâmina aguarda
além da esquina
uma gilete um vírus um projétil
marcam na estrada pontos de fronteira
na mesma estrada em que caminho
há tempos
presos meus pés a inarredáveis trilhos.
1 160
Marina Colasanti
A coxa
Sendo redonda
a coxa
ainda assim tem
dois lados
pois tem um lado de fora
que sem medo se mostra
e tem um lado de dentro
que é sagrado.
No lado de fora
a coxa
é carne sem fronteira
que do joelho sobe
até a cintura
sem entrave ou ruptura
mas do lado de dentro
se fratura contra a beira fechada
da virilha.
Roliça, embora,
a coxa
como o diamante é
plurifacetada
próxima ao toque em
alguns pontos e
em outros
afastada.
Nem é a mesma
a pele
que os dois lados veste
e que ao olhar se diz inteira
e una
enquanto a mão
conhece a mais secreta e fina
que ao seu roçar
floresce
e aquela
que na quina do corpo
se oferece.
Mais que suporte
a coxa
é ponte levadiça
guardiã que a entrada
tranca a todo intruso,
defesa que se abaixa
repentina
para atrair o invasor
e
fazer uso.
a coxa
ainda assim tem
dois lados
pois tem um lado de fora
que sem medo se mostra
e tem um lado de dentro
que é sagrado.
No lado de fora
a coxa
é carne sem fronteira
que do joelho sobe
até a cintura
sem entrave ou ruptura
mas do lado de dentro
se fratura contra a beira fechada
da virilha.
Roliça, embora,
a coxa
como o diamante é
plurifacetada
próxima ao toque em
alguns pontos e
em outros
afastada.
Nem é a mesma
a pele
que os dois lados veste
e que ao olhar se diz inteira
e una
enquanto a mão
conhece a mais secreta e fina
que ao seu roçar
floresce
e aquela
que na quina do corpo
se oferece.
Mais que suporte
a coxa
é ponte levadiça
guardiã que a entrada
tranca a todo intruso,
defesa que se abaixa
repentina
para atrair o invasor
e
fazer uso.
1 249
Marina Colasanti
Aberta frincha
Há tempos não abraço meu amado
com essa alma aberta
mais que os braços.
O corpo dele é tão parelho ao meu
que às vezes quando o envolvo
nos meus braços
é como se em meus braços
me abraçasse.
Mas hoje
uma frincha no espelho
me revela
que a pele dele não é minha pele
que suas coxas e peito são só dele.
E os corpos
tão alheios por instantes
por serem mais alheios
mais se querem.
com essa alma aberta
mais que os braços.
O corpo dele é tão parelho ao meu
que às vezes quando o envolvo
nos meus braços
é como se em meus braços
me abraçasse.
Mas hoje
uma frincha no espelho
me revela
que a pele dele não é minha pele
que suas coxas e peito são só dele.
E os corpos
tão alheios por instantes
por serem mais alheios
mais se querem.
1 139
Marina Colasanti
Com o sol na língua
Ó Senhor!, que a garganta
não aguenta
tanto leandro em flor
tanta giesta
e o mar lá embaixo
como mesa posta.
Quero água de fonte
sobre os pulsos
e o sol na língua
como pão ou hóstia.
Quero descer
subir
a escadaria da encosta
a alma escancarada
a carne exposta
e esse explodir de sinos
na cabeça.
não aguenta
tanto leandro em flor
tanta giesta
e o mar lá embaixo
como mesa posta.
Quero água de fonte
sobre os pulsos
e o sol na língua
como pão ou hóstia.
Quero descer
subir
a escadaria da encosta
a alma escancarada
a carne exposta
e esse explodir de sinos
na cabeça.
949
Marina Colasanti
Neblina no lago de Como
Essa neblina
que não pousa no lago
mas que do lago ascende
como se duplicasse
água em água,
essa neblina densa
como um sono
que num mesmo casulo
nos envolve
e aos brotos das glicínias
e às montanhas,
essa neblina vem da minha infância
e eu a esperava
desde que cheguei.
Marina em Como
as sirenes da guerra
as Ursulinas
a oleografia de hortênsias
na moldura
o Duomo do outro lado da janela.
E lá fora a neblina.
A neblina deitada rente ao cais
cabelo esparramado dentro d'água
sereia.
A neblina galgando o meu terraço
meneio deslizando entre paredes
serpente.
Neblina
que Quixote lacera com sua lança
que Rolando derrota em Roncesvalle
que Ulisses dilacera com seu barco
que os piratas de Salgari destroçam.
Na sala escura
onde os livros se empilham
duas crianças conversam
longos contos de sol.
A neblina encosta os dedos no vidro
e ouve.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
que não pousa no lago
mas que do lago ascende
como se duplicasse
água em água,
essa neblina densa
como um sono
que num mesmo casulo
nos envolve
e aos brotos das glicínias
e às montanhas,
essa neblina vem da minha infância
e eu a esperava
desde que cheguei.
Marina em Como
as sirenes da guerra
as Ursulinas
a oleografia de hortênsias
na moldura
o Duomo do outro lado da janela.
E lá fora a neblina.
A neblina deitada rente ao cais
cabelo esparramado dentro d'água
sereia.
A neblina galgando o meu terraço
meneio deslizando entre paredes
serpente.
Neblina
que Quixote lacera com sua lança
que Rolando derrota em Roncesvalle
que Ulisses dilacera com seu barco
que os piratas de Salgari destroçam.
Na sala escura
onde os livros se empilham
duas crianças conversam
longos contos de sol.
A neblina encosta os dedos no vidro
e ouve.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 234
Marina Colasanti
Mesmo se
Corredores do dia
umbral da noite
e o pensamento em fuga
entre as arcadas
mesmo se o corpo deita
e finge estar dormindo
mesmo se nas campinas
os dentes-de-leão afiam
as garras amarelas
de suas flores.
umbral da noite
e o pensamento em fuga
entre as arcadas
mesmo se o corpo deita
e finge estar dormindo
mesmo se nas campinas
os dentes-de-leão afiam
as garras amarelas
de suas flores.
1 148
Marina Colasanti
Mesmo se
Corredores do dia
umbral da noite
e o pensamento em fuga
entre as arcadas
mesmo se o corpo deita
e finge estar dormindo
mesmo se nas campinas
os dentes-de-leão afiam
as garras amarelas
de suas flores.
umbral da noite
e o pensamento em fuga
entre as arcadas
mesmo se o corpo deita
e finge estar dormindo
mesmo se nas campinas
os dentes-de-leão afiam
as garras amarelas
de suas flores.
1 148
Marina Colasanti
A todos igualmente
Aquele homem tinha um zoológico
no armário.
Um dia
no almoço
trouxe elefantes no peito
até a cintura,
no outro
girafas rodeavam-lhe o pescoço.
Houve joaninhas
gatos e macacos.
A todos ignorava
embora os escolhesse
com cuidado.
E sem olhar-lhes pelo
ou pena
sem deter-se em seus nomes
a todos igualmente chamava
gravatas.
no armário.
Um dia
no almoço
trouxe elefantes no peito
até a cintura,
no outro
girafas rodeavam-lhe o pescoço.
Houve joaninhas
gatos e macacos.
A todos ignorava
embora os escolhesse
com cuidado.
E sem olhar-lhes pelo
ou pena
sem deter-se em seus nomes
a todos igualmente chamava
gravatas.
1 143
Marina Colasanti
De cinza a cinza
Há um momento no lago
que não é de neblina
e que não é de chuva
que é água em suspensão
sem que água seja
antigo respirar de
boi ou burro.
Calam-se as sombras
cegam-se os contornos.
Tudo se iguala
no deslizar macio
de cinza a cinza.
O gume longínquo de um voo
já nada corta.
O grito perdido do trem
se afoga no túnel.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
que não é de neblina
e que não é de chuva
que é água em suspensão
sem que água seja
antigo respirar de
boi ou burro.
Calam-se as sombras
cegam-se os contornos.
Tudo se iguala
no deslizar macio
de cinza a cinza.
O gume longínquo de um voo
já nada corta.
O grito perdido do trem
se afoga no túnel.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 203
Marina Colasanti
Tinnitus auricularis
Há muito
não me habita o silêncio.
Sou constante verão
cantar de grilos
que em meio ao meu pensar
fizeram ninho.
Tudo é noite de estio
sendo tormento
tudo é estridor.
Quisera estar sozinha
e não consigo
com este vozerio que
me acompanha,
e ainda assim, sempre só
estou comigo
pois ouço sons que ninguém mais escuta
como se ouvir cantar fosse
castigo.
Ponho brincos de ouro
nas orelhas
mas na oculta raiz
dos meus cabelos
o farfalhar se expande
das espigas.
E eu,
tão urbana, vou
por entre carros
com meu secreto campo
atrás do rosto
contracanto de insetos
como escudo
que interponho ao alarido da cidade.
não me habita o silêncio.
Sou constante verão
cantar de grilos
que em meio ao meu pensar
fizeram ninho.
Tudo é noite de estio
sendo tormento
tudo é estridor.
Quisera estar sozinha
e não consigo
com este vozerio que
me acompanha,
e ainda assim, sempre só
estou comigo
pois ouço sons que ninguém mais escuta
como se ouvir cantar fosse
castigo.
Ponho brincos de ouro
nas orelhas
mas na oculta raiz
dos meus cabelos
o farfalhar se expande
das espigas.
E eu,
tão urbana, vou
por entre carros
com meu secreto campo
atrás do rosto
contracanto de insetos
como escudo
que interponho ao alarido da cidade.
1 144
Marina Colasanti
Tinnitus auricularis
Há muito
não me habita o silêncio.
Sou constante verão
cantar de grilos
que em meio ao meu pensar
fizeram ninho.
Tudo é noite de estio
sendo tormento
tudo é estridor.
Quisera estar sozinha
e não consigo
com este vozerio que
me acompanha,
e ainda assim, sempre só
estou comigo
pois ouço sons que ninguém mais escuta
como se ouvir cantar fosse
castigo.
Ponho brincos de ouro
nas orelhas
mas na oculta raiz
dos meus cabelos
o farfalhar se expande
das espigas.
E eu,
tão urbana, vou
por entre carros
com meu secreto campo
atrás do rosto
contracanto de insetos
como escudo
que interponho ao alarido da cidade.
não me habita o silêncio.
Sou constante verão
cantar de grilos
que em meio ao meu pensar
fizeram ninho.
Tudo é noite de estio
sendo tormento
tudo é estridor.
Quisera estar sozinha
e não consigo
com este vozerio que
me acompanha,
e ainda assim, sempre só
estou comigo
pois ouço sons que ninguém mais escuta
como se ouvir cantar fosse
castigo.
Ponho brincos de ouro
nas orelhas
mas na oculta raiz
dos meus cabelos
o farfalhar se expande
das espigas.
E eu,
tão urbana, vou
por entre carros
com meu secreto campo
atrás do rosto
contracanto de insetos
como escudo
que interponho ao alarido da cidade.
1 144
Marina Colasanti
ALI, ONDE
Onde a coxa acaba
e a nádega começa
fronteira do obscuro
que ainda não é sexo
mas diz do seu início
há um resvalar de curvas
beirando o precipicio
prenúncio de voragem
onde o futuro é agora.
Ali, onde sol não nasce,
evadem-se os caminhos
ali traçam-se os rumos
se homem
se mulher
carta marcada.
E ali o desejo dorme
ou canta
senhor da encruzilhada.
e a nádega começa
fronteira do obscuro
que ainda não é sexo
mas diz do seu início
há um resvalar de curvas
beirando o precipicio
prenúncio de voragem
onde o futuro é agora.
Ali, onde sol não nasce,
evadem-se os caminhos
ali traçam-se os rumos
se homem
se mulher
carta marcada.
E ali o desejo dorme
ou canta
senhor da encruzilhada.
1 201
Marina Colasanti
E TINHA O NARIZ EM PONTA
Para Michelle Bourjea
A alma daquela mulher
era como água de copo
em casa antiga.
Que estremece se alguém
desce as escadas
se um carro passa
ou quando um gato salta
de um armário.
A alma daquela mulher
era como água de copo
em casa antiga.
Que estremece se alguém
desce as escadas
se um carro passa
ou quando um gato salta
de um armário.
1 107
Marina Colasanti
E TINHA O NARIZ EM PONTA
Para Michelle Bourjea
A alma daquela mulher
era como água de copo
em casa antiga.
Que estremece se alguém
desce as escadas
se um carro passa
ou quando um gato salta
de um armário.
A alma daquela mulher
era como água de copo
em casa antiga.
Que estremece se alguém
desce as escadas
se um carro passa
ou quando um gato salta
de um armário.
1 107
Marina Colasanti
AMISH COUNTRY
Neste país em que as roupas
se lavam
nas máquinas
se secam
nas máquinas
em que sujeira e manchas
não se sujeitam com os nós
dos dedos mas
se escondem
se esquecem
se negam
nas máquinas
afaga o coração
- senão as mãos -
ver lençóis
camisas
brancos panos
estalando no vento dos varais
o cotidiano.
Illinois 96
se lavam
nas máquinas
se secam
nas máquinas
em que sujeira e manchas
não se sujeitam com os nós
dos dedos mas
se escondem
se esquecem
se negam
nas máquinas
afaga o coração
- senão as mãos -
ver lençóis
camisas
brancos panos
estalando no vento dos varais
o cotidiano.
Illinois 96
1 198
Marina Colasanti
AINDA ASSIM
Cada vez que você
vai ao Centro
compra uma lanterna
pilhas
e um canivete
para mim.
Os canivetes perco
nos bolsos
nas bolsas
ou vendo esquecidos com o carro.
As lanternas
quando preciso delas
estão mortas
gotejando azinhavre
nas gavetas.
Assim mesmo me alegro
toda vez que você
pega o chapéu e orgulhoso
anuncia
que vai ao Centro.
vai ao Centro
compra uma lanterna
pilhas
e um canivete
para mim.
Os canivetes perco
nos bolsos
nas bolsas
ou vendo esquecidos com o carro.
As lanternas
quando preciso delas
estão mortas
gotejando azinhavre
nas gavetas.
Assim mesmo me alegro
toda vez que você
pega o chapéu e orgulhoso
anuncia
que vai ao Centro.
974
Marina Colasanti
AINDA ASSIM
Cada vez que você
vai ao Centro
compra uma lanterna
pilhas
e um canivete
para mim.
Os canivetes perco
nos bolsos
nas bolsas
ou vendo esquecidos com o carro.
As lanternas
quando preciso delas
estão mortas
gotejando azinhavre
nas gavetas.
Assim mesmo me alegro
toda vez que você
pega o chapéu e orgulhoso
anuncia
que vai ao Centro.
vai ao Centro
compra uma lanterna
pilhas
e um canivete
para mim.
Os canivetes perco
nos bolsos
nas bolsas
ou vendo esquecidos com o carro.
As lanternas
quando preciso delas
estão mortas
gotejando azinhavre
nas gavetas.
Assim mesmo me alegro
toda vez que você
pega o chapéu e orgulhoso
anuncia
que vai ao Centro.
974
Marina Colasanti
COM A DESTREZA DE QUEM
Quando Artemisia degolou
Holofernes
com que prazer o fez.
Não dorme
o general
está desperto e luta
contra a aia que o crava
sobre a cama
contra as mãos de Judite que
enojada
livres os braços das pesadas mangas
fortes os pulsos
com a destreza de quem mata
um frango
empurra-lhe a cabeça para um lado
e para o outro corta-lhe
o pescoço.
Gentileschi
era o nome de Artemisia
estuprada no estúdio
de seu pai
e frente a seus juízes
torturada.
Doce deve ter sido
para ela
vingar-se em Holofernes
sobre a tela.
Holofernes
com que prazer o fez.
Não dorme
o general
está desperto e luta
contra a aia que o crava
sobre a cama
contra as mãos de Judite que
enojada
livres os braços das pesadas mangas
fortes os pulsos
com a destreza de quem mata
um frango
empurra-lhe a cabeça para um lado
e para o outro corta-lhe
o pescoço.
Gentileschi
era o nome de Artemisia
estuprada no estúdio
de seu pai
e frente a seus juízes
torturada.
Doce deve ter sido
para ela
vingar-se em Holofernes
sobre a tela.
937
Marina Colasanti
CARNE DE LEITE E LUA
Nenhuma mulher foi mais branca
que Suzana
despida para o banho.
Carne de leite e lua
papel da pele
e o sangue todo oculto
em falsa neve.
Uma perna na água
verde
escuro
um reflexo no espelho
negro
fundo
e um pente de marfim
sobre o gramado.
Não tem corpo
Suzana
luz somente
que em forma de mulher
se banha à fonte.
Nem tem corpo
esse velho que rasteja
vermelha larva
duas mãos e uma calvicie
arrastando a luxúria como
um manto.
As escamas das tranças
coroam Suzana.
Ao longe
entre folhagens
outro velho espia.
Só Tintoretto olha
sem cobiça
a carne
que se banha
em sua palheta.
que Suzana
despida para o banho.
Carne de leite e lua
papel da pele
e o sangue todo oculto
em falsa neve.
Uma perna na água
verde
escuro
um reflexo no espelho
negro
fundo
e um pente de marfim
sobre o gramado.
Não tem corpo
Suzana
luz somente
que em forma de mulher
se banha à fonte.
Nem tem corpo
esse velho que rasteja
vermelha larva
duas mãos e uma calvicie
arrastando a luxúria como
um manto.
As escamas das tranças
coroam Suzana.
Ao longe
entre folhagens
outro velho espia.
Só Tintoretto olha
sem cobiça
a carne
que se banha
em sua palheta.
1 184
Marina Colasanti
E LOGO PASSA
A vida é uma praça às duas da tarde
o sol queimando a nuca e o coração
e nós andando cegos no destino
que nos crava a pino.
o sol queimando a nuca e o coração
e nós andando cegos no destino
que nos crava a pino.
1 088
Marina Colasanti
NA CORTE DE HAAKON
Para bem degolar
um viking
agarra-se por trás
o cabelo comprido
e puxa-se com força.
Só então
na curva da garganta
afia-se o fio
da espada.
Na corte de Haakon
da Noruega
oito cabeças sobre o chão de pedra
olham a festa
com seus olhos mortos.
Chegada é a vez de
Sved
-e Sved não tem sequer
dezoito anos -
longos cabelos
para curta vida
longos cabelos
como rédea ou laço
enrolados nos punhos
do inimigo.
A garganta de Sved se tende
em arco
a espada canta
atenta ao seu chamado.
Mas num arranco
Sved
ergue a cabeça
e a lâmina decepa
aqueles punhos
que a seda envolve
como dois casulos.
Na corte de Haakon
da Noruega
pergunta a voz de Sved
aço cortante:
- Que arrogante esqueceu
suas mãos
nos meus cabelos?
um viking
agarra-se por trás
o cabelo comprido
e puxa-se com força.
Só então
na curva da garganta
afia-se o fio
da espada.
Na corte de Haakon
da Noruega
oito cabeças sobre o chão de pedra
olham a festa
com seus olhos mortos.
Chegada é a vez de
Sved
-e Sved não tem sequer
dezoito anos -
longos cabelos
para curta vida
longos cabelos
como rédea ou laço
enrolados nos punhos
do inimigo.
A garganta de Sved se tende
em arco
a espada canta
atenta ao seu chamado.
Mas num arranco
Sved
ergue a cabeça
e a lâmina decepa
aqueles punhos
que a seda envolve
como dois casulos.
Na corte de Haakon
da Noruega
pergunta a voz de Sved
aço cortante:
- Que arrogante esqueceu
suas mãos
nos meus cabelos?
1 132
Marina Colasanti
UM DOS ÚLTIMOS DA SUA ESPÉCIE
Chamava-se Giulio e era conde
o amigo da minha mãe.
Gomalina e colônia
boas maneiras
um hotel elegante com brocados
e o barbeiro que vinha
todo dia
escanhoar-lhe o rosto
ainda na cama.
Nunca ninguém o viu fazer
algo de útil.
Sabia beber
jogar
dobrar com elegância o lenço
no bolsinho.
Gastar também sabia
comeu trigais
vinhedos
a vila avita
as pérolas da mãe.
Mas eu gostava dele
do seu jeito sem âncora
e sem pressa
e porque às vezes
ganhando no baralho
me dava algum dinheiro,
e os adultos, empenhados no jogo,
me deixavam sair
já noite alta
para ir sozinha até a confeitaria
buscar balas, torrone,
e a primeira experiência de perigo.
o amigo da minha mãe.
Gomalina e colônia
boas maneiras
um hotel elegante com brocados
e o barbeiro que vinha
todo dia
escanhoar-lhe o rosto
ainda na cama.
Nunca ninguém o viu fazer
algo de útil.
Sabia beber
jogar
dobrar com elegância o lenço
no bolsinho.
Gastar também sabia
comeu trigais
vinhedos
a vila avita
as pérolas da mãe.
Mas eu gostava dele
do seu jeito sem âncora
e sem pressa
e porque às vezes
ganhando no baralho
me dava algum dinheiro,
e os adultos, empenhados no jogo,
me deixavam sair
já noite alta
para ir sozinha até a confeitaria
buscar balas, torrone,
e a primeira experiência de perigo.
1 028
Marina Colasanti
CARNAVAL EM FRIBURGO
Dirigiam trator à tarde
à noite iam dançar
no baile do Euterpe.
Tinham calos nas mãos
palmas molhadas
e aquele cheiro jovem de
banho e brilhantina.
Dançavam com respeito
- não fosse a ereção
denunciar-se nas calças -
e puxavam conversa.
Mas nós, moças que tinham
passado rimel nos cílios,
só pensávamos que havia outro baile depois
no Clube Xadrez.
E que nós íamos.
Nós iamos.
à noite iam dançar
no baile do Euterpe.
Tinham calos nas mãos
palmas molhadas
e aquele cheiro jovem de
banho e brilhantina.
Dançavam com respeito
- não fosse a ereção
denunciar-se nas calças -
e puxavam conversa.
Mas nós, moças que tinham
passado rimel nos cílios,
só pensávamos que havia outro baile depois
no Clube Xadrez.
E que nós íamos.
Nós iamos.
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