Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Manuel Bandeira
A Lourdes
Nesta estrada tão áspera que trilho
Agora tu me dás em meu caminho
Os tesouros sem par do teu carinho
Como se eu fosse teu segundo filho.
Deus te abençoe, minha amiga, minha
Irmã, irmã que fosse uma mãezinha.
8 maio 1867*
Agora tu me dás em meu caminho
Os tesouros sem par do teu carinho
Como se eu fosse teu segundo filho.
Deus te abençoe, minha amiga, minha
Irmã, irmã que fosse uma mãezinha.
8 maio 1867*
1 163
Manuel Bandeira
A Lourdes
Nesta estrada tão áspera que trilho
Agora tu me dás em meu caminho
Os tesouros sem par do teu carinho
Como se eu fosse teu segundo filho.
Deus te abençoe, minha amiga, minha
Irmã, irmã que fosse uma mãezinha.
8 maio 1867*
Agora tu me dás em meu caminho
Os tesouros sem par do teu carinho
Como se eu fosse teu segundo filho.
Deus te abençoe, minha amiga, minha
Irmã, irmã que fosse uma mãezinha.
8 maio 1867*
1 163
Manuel Bandeira
Soneto Italiano
Frescura das sereias e do orvalho,
Graça dos brancos pés dos pequeninos,
Voz das manhãs cantando pelos sinos,
Rosa mais alta no mais alto galho:
De quem me valerei, se não me valho
De ti, que tens a chave dos destinos
Em que arderam meus sonhos cristalinos
Feitos cinza que em pranto ao vento espalho?
Também te vi chorar... Também sofreste
A dor de ver secarem pela estrada
As fontes da esperança... E não cedeste!
Antes, pobre, despida e trespassada,
Soubeste dar à vida, em que morreste,
Tudo — à vida, que nunca te deu nada!
28 de janeiro de1939
Graça dos brancos pés dos pequeninos,
Voz das manhãs cantando pelos sinos,
Rosa mais alta no mais alto galho:
De quem me valerei, se não me valho
De ti, que tens a chave dos destinos
Em que arderam meus sonhos cristalinos
Feitos cinza que em pranto ao vento espalho?
Também te vi chorar... Também sofreste
A dor de ver secarem pela estrada
As fontes da esperança... E não cedeste!
Antes, pobre, despida e trespassada,
Soubeste dar à vida, em que morreste,
Tudo — à vida, que nunca te deu nada!
28 de janeiro de1939
1 462
Manuel Bandeira
Soneto Italiano
Frescura das sereias e do orvalho,
Graça dos brancos pés dos pequeninos,
Voz das manhãs cantando pelos sinos,
Rosa mais alta no mais alto galho:
De quem me valerei, se não me valho
De ti, que tens a chave dos destinos
Em que arderam meus sonhos cristalinos
Feitos cinza que em pranto ao vento espalho?
Também te vi chorar... Também sofreste
A dor de ver secarem pela estrada
As fontes da esperança... E não cedeste!
Antes, pobre, despida e trespassada,
Soubeste dar à vida, em que morreste,
Tudo — à vida, que nunca te deu nada!
28 de janeiro de1939
Graça dos brancos pés dos pequeninos,
Voz das manhãs cantando pelos sinos,
Rosa mais alta no mais alto galho:
De quem me valerei, se não me valho
De ti, que tens a chave dos destinos
Em que arderam meus sonhos cristalinos
Feitos cinza que em pranto ao vento espalho?
Também te vi chorar... Também sofreste
A dor de ver secarem pela estrada
As fontes da esperança... E não cedeste!
Antes, pobre, despida e trespassada,
Soubeste dar à vida, em que morreste,
Tudo — à vida, que nunca te deu nada!
28 de janeiro de1939
1 462
Manuel Bandeira
Soneto Italiano
Frescura das sereias e do orvalho,
Graça dos brancos pés dos pequeninos,
Voz das manhãs cantando pelos sinos,
Rosa mais alta no mais alto galho:
De quem me valerei, se não me valho
De ti, que tens a chave dos destinos
Em que arderam meus sonhos cristalinos
Feitos cinza que em pranto ao vento espalho?
Também te vi chorar... Também sofreste
A dor de ver secarem pela estrada
As fontes da esperança... E não cedeste!
Antes, pobre, despida e trespassada,
Soubeste dar à vida, em que morreste,
Tudo — à vida, que nunca te deu nada!
28 de janeiro de1939
Graça dos brancos pés dos pequeninos,
Voz das manhãs cantando pelos sinos,
Rosa mais alta no mais alto galho:
De quem me valerei, se não me valho
De ti, que tens a chave dos destinos
Em que arderam meus sonhos cristalinos
Feitos cinza que em pranto ao vento espalho?
Também te vi chorar... Também sofreste
A dor de ver secarem pela estrada
As fontes da esperança... E não cedeste!
Antes, pobre, despida e trespassada,
Soubeste dar à vida, em que morreste,
Tudo — à vida, que nunca te deu nada!
28 de janeiro de1939
1 462
Manuel Bandeira
Cantar de Amor
Quer'eu en maneyra de proençal
Fazer agora hum cantar d'amor...
D. Dinís
Mha senhor, com'oje dia son,
Atan cuitad'e sen cor assi!
E par Deus non sei que farei,
Ca non dormho á mui gran sazon.
Mha senhor, ai meu lum'e meu ben,
Meu coraçon non sei o que ten.
Noit'e dia no meu coraçon
Nulha ren se non a morte vi,
E pois tal coita non mereci,
Moir'eu logo, se Deus mi perdon.
- Mha senhor, ai meu lum'e meu ben,
Meu coraçon non sei o que ten.
Des oimais o viver m'é prison:
Grave di'aquel en que naci!
Mha senhor, ai rezade por mi,
Ca per'ço sen e per'ça razon.
Mha senhor, ai meu lum'e meu ben,
Meu coraçon non sei o que ten.
Fazer agora hum cantar d'amor...
D. Dinís
Mha senhor, com'oje dia son,
Atan cuitad'e sen cor assi!
E par Deus non sei que farei,
Ca non dormho á mui gran sazon.
Mha senhor, ai meu lum'e meu ben,
Meu coraçon non sei o que ten.
Noit'e dia no meu coraçon
Nulha ren se non a morte vi,
E pois tal coita non mereci,
Moir'eu logo, se Deus mi perdon.
- Mha senhor, ai meu lum'e meu ben,
Meu coraçon non sei o que ten.
Des oimais o viver m'é prison:
Grave di'aquel en que naci!
Mha senhor, ai rezade por mi,
Ca per'ço sen e per'ça razon.
Mha senhor, ai meu lum'e meu ben,
Meu coraçon non sei o que ten.
1 862
Manuel Bandeira
Poema Desentranhado de Uma Prosa de Augusto Frederico Schmidt
A luz da tua poesia é triste mas pura.
A solidão é o grande sinal do teu destino.
O pitoresco, as cores vivas, o mistério e calor dos outros seres te interessam realmente
Mas tu estás apartado de tudo isso, porque vives na companhia dos teus desaparecidos,
Dos que brincaram e cantaram um dia à luz das fogueiras de S. João
E hoje estão para sempre dormindo profundamente.
Da poesia feita como quem ama e quem morre
Caminhaste para uma poesia de quem vive e recebe a tristeza
Naturalmente
— Como o céu escuro recebe a companhia das primeiras estrelas.
A solidão é o grande sinal do teu destino.
O pitoresco, as cores vivas, o mistério e calor dos outros seres te interessam realmente
Mas tu estás apartado de tudo isso, porque vives na companhia dos teus desaparecidos,
Dos que brincaram e cantaram um dia à luz das fogueiras de S. João
E hoje estão para sempre dormindo profundamente.
Da poesia feita como quem ama e quem morre
Caminhaste para uma poesia de quem vive e recebe a tristeza
Naturalmente
— Como o céu escuro recebe a companhia das primeiras estrelas.
819
Manuel Bandeira
Poema Desentranhado de Uma Prosa de Augusto Frederico Schmidt
A luz da tua poesia é triste mas pura.
A solidão é o grande sinal do teu destino.
O pitoresco, as cores vivas, o mistério e calor dos outros seres te interessam realmente
Mas tu estás apartado de tudo isso, porque vives na companhia dos teus desaparecidos,
Dos que brincaram e cantaram um dia à luz das fogueiras de S. João
E hoje estão para sempre dormindo profundamente.
Da poesia feita como quem ama e quem morre
Caminhaste para uma poesia de quem vive e recebe a tristeza
Naturalmente
— Como o céu escuro recebe a companhia das primeiras estrelas.
A solidão é o grande sinal do teu destino.
O pitoresco, as cores vivas, o mistério e calor dos outros seres te interessam realmente
Mas tu estás apartado de tudo isso, porque vives na companhia dos teus desaparecidos,
Dos que brincaram e cantaram um dia à luz das fogueiras de S. João
E hoje estão para sempre dormindo profundamente.
Da poesia feita como quem ama e quem morre
Caminhaste para uma poesia de quem vive e recebe a tristeza
Naturalmente
— Como o céu escuro recebe a companhia das primeiras estrelas.
819
Manuel Bandeira
Luís Jardim
Louvo o Padre, louvo o Filho,
Louvo o alto Espírito Santo.
Após quê, Pégaso ensilho
E, para mundial espanto,
Remonto à paragem calma
Onde, em práticas sem fim,
Deambulam as Musas: na alma
De Lula — Lula Jardim.
Um jardim de muitas flores
e sem espinhos nenhuns.
Jardim da Ilha dos Amores
Replanto em Garanhuns.
Louvo o desenhista exato:
Maneje lápis, carvão
Ou pena, trace retrato
Ou paisagem, é sua mão
Segura, certeira, leve:
Nunca vi tão leve assim.
E é assim também quando escreve
Romance ou conto o Jardim.
Faz igualmente bom teatro,
Ótima crítica. Tem
Arte e engenho como quatro...
Deus conserve-o tal, amém!
Um dia a menina Alice
No País das Maravilhas
Passeava. Lula lhe disse:
“Vamos ter filhos e filhas?
Casemo-nos!” E casaram-se.
Mas os filhos não vieram.
Lula e Alice conformaram-se.
Foi o melhor que fizeram.
Pois louvo Lula de novo
E louvo Alice também.
Louvo o Padre, o Filho louvo
E o Espírito Santo. Amém!
Louvo o alto Espírito Santo.
Após quê, Pégaso ensilho
E, para mundial espanto,
Remonto à paragem calma
Onde, em práticas sem fim,
Deambulam as Musas: na alma
De Lula — Lula Jardim.
Um jardim de muitas flores
e sem espinhos nenhuns.
Jardim da Ilha dos Amores
Replanto em Garanhuns.
Louvo o desenhista exato:
Maneje lápis, carvão
Ou pena, trace retrato
Ou paisagem, é sua mão
Segura, certeira, leve:
Nunca vi tão leve assim.
E é assim também quando escreve
Romance ou conto o Jardim.
Faz igualmente bom teatro,
Ótima crítica. Tem
Arte e engenho como quatro...
Deus conserve-o tal, amém!
Um dia a menina Alice
No País das Maravilhas
Passeava. Lula lhe disse:
“Vamos ter filhos e filhas?
Casemo-nos!” E casaram-se.
Mas os filhos não vieram.
Lula e Alice conformaram-se.
Foi o melhor que fizeram.
Pois louvo Lula de novo
E louvo Alice também.
Louvo o Padre, o Filho louvo
E o Espírito Santo. Amém!
993
Manuel Bandeira
Oração no Saco de Mangaratiba
Nossa Senhora me dê paciência
Para estes mares para esta vida!
Me dê paciência pra que eu não caia
Pra que eu não pare nesta existência
Tão mal cumprida tão mais comprida
Do que a restinga de Marambaia!...
1926
Para estes mares para esta vida!
Me dê paciência pra que eu não caia
Pra que eu não pare nesta existência
Tão mal cumprida tão mais comprida
Do que a restinga de Marambaia!...
1926
1 897
Manuel Bandeira
Oração no Saco de Mangaratiba
Nossa Senhora me dê paciência
Para estes mares para esta vida!
Me dê paciência pra que eu não caia
Pra que eu não pare nesta existência
Tão mal cumprida tão mais comprida
Do que a restinga de Marambaia!...
1926
Para estes mares para esta vida!
Me dê paciência pra que eu não caia
Pra que eu não pare nesta existência
Tão mal cumprida tão mais comprida
Do que a restinga de Marambaia!...
1926
1 897
Manuel Bandeira
Noturno da Parada Amorim
O violoncelista estava a meio do Concerto de Schumann
Subitamente o coronel ficou transportado e começou a gritar: — Je vois des anges! Je vois des anges! — E deixou-se escorregar sentado pela escada abaixo.
O telefone tilintou.
Alguém chamava?... Alguém pedia socorro?...
Mas do outro lado não vinha senão o rumor de um pranto desesperado!...
(Eram três horas.
Todas as agências postais estavam fechadas.
Dentro da noite a voz do coronel continuava gritando: — Je vois des anges! Je vois de anges!)
Subitamente o coronel ficou transportado e começou a gritar: — Je vois des anges! Je vois des anges! — E deixou-se escorregar sentado pela escada abaixo.
O telefone tilintou.
Alguém chamava?... Alguém pedia socorro?...
Mas do outro lado não vinha senão o rumor de um pranto desesperado!...
(Eram três horas.
Todas as agências postais estavam fechadas.
Dentro da noite a voz do coronel continuava gritando: — Je vois des anges! Je vois de anges!)
1 019
Manuel Bandeira
Programa para depois de Minha Morte
.. esta outra vida de aquém-túmulo.
Guimarães Rosa
Depois de morto, quando eu chegar ao outro mundo,
Primeiro quererei beijar meus pais, meus irmãos, meus avós, meus tios, meus primos.
Depois irei abraçar longamente uns amigos — Vasconcelos, Ovalle, Mário...
Gostaria ainda de me avistar com o santo Francisco de Assis.
Mas quem sou eu? Não mereço.
Isto feito, me abismarei na contemplação de Deus e de sua glória
Esquecido para sempre de todas as delícias, dores, perplexidades
Desta outra vida de aquém-túmulo.
Guimarães Rosa
Depois de morto, quando eu chegar ao outro mundo,
Primeiro quererei beijar meus pais, meus irmãos, meus avós, meus tios, meus primos.
Depois irei abraçar longamente uns amigos — Vasconcelos, Ovalle, Mário...
Gostaria ainda de me avistar com o santo Francisco de Assis.
Mas quem sou eu? Não mereço.
Isto feito, me abismarei na contemplação de Deus e de sua glória
Esquecido para sempre de todas as delícias, dores, perplexidades
Desta outra vida de aquém-túmulo.
1 140
Manuel Bandeira
Bonheur Lyrique
Coeur de phtisique
O mon ceeur lyrique
Ton bonheur ne peut pas être comme celui des autres
Il faut que tu te fabriques
Un bonheur unique
Um bonheur qui soit comme le piteux lustucru en chiffon d'une enfant pauvre
— Fait par elle-même.
O mon ceeur lyrique
Ton bonheur ne peut pas être comme celui des autres
Il faut que tu te fabriques
Un bonheur unique
Um bonheur qui soit comme le piteux lustucru en chiffon d'une enfant pauvre
— Fait par elle-même.
1 523
Manuel Bandeira
Camelôs
Abençoado seja o camelô dos brinquedos de tostão:
O que vende balõezinhos de cor
O macaquinho que trepa no coqueiro
O cachorrinho que bate com o rabo
Os homenzinhos que jogam box
A perereca verde que de repente dá um pulo que engraçado
E as canêétinhas-tinteiro que jamais escreverão coisa alguma.
Alegria das calçadas
Uns falam pelos cotovelos:
— “O cavalheiro chega em casa e diz: Meu filho, vai buscar um pedaço de banana para eu acender o charuto. Naturalmente o menino pensará: Papai está malu...”
Outros, coitados, têm a língua atada.
Todos porém sabem mexer nos cordéis com o tino ingênuo de demiurgos de inutilidades.
E ensinam no tumulto das ruas os mitos heróicos da meninice...
E dão aos homens que passam preocupados ou tristes uma lição de infância.
O que vende balõezinhos de cor
O macaquinho que trepa no coqueiro
O cachorrinho que bate com o rabo
Os homenzinhos que jogam box
A perereca verde que de repente dá um pulo que engraçado
E as canêétinhas-tinteiro que jamais escreverão coisa alguma.
Alegria das calçadas
Uns falam pelos cotovelos:
— “O cavalheiro chega em casa e diz: Meu filho, vai buscar um pedaço de banana para eu acender o charuto. Naturalmente o menino pensará: Papai está malu...”
Outros, coitados, têm a língua atada.
Todos porém sabem mexer nos cordéis com o tino ingênuo de demiurgos de inutilidades.
E ensinam no tumulto das ruas os mitos heróicos da meninice...
E dão aos homens que passam preocupados ou tristes uma lição de infância.
2 653
Manuel Bandeira
Dedicatória
Estou triste estou triste
Estou desinfeliz
Ó maninha Ó maninha
Ó maninha te ofereço
Com muita vergonha
Um presente de pobre
Estes versos que fiz
Ó maninha Ó maninha.
Estou desinfeliz
Ó maninha Ó maninha
Ó maninha te ofereço
Com muita vergonha
Um presente de pobre
Estes versos que fiz
Ó maninha Ó maninha.
763
Manuel Bandeira
Louvado para Daniel
Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
Feito isto, ainda que sem brilho
Quero louvar outro tanto
Quem de quem é seu amigo
Sempre é amigo fiel:
Esse homem bom como o trigo,
Hoje cinquentão, Daniel.
Louvo Daniel bom marido,
Daniel bom pai, bom irmão.
E esse meu dever cumprido,
Cumpro a grata obrigação
De desejar-lhe outro tanto
De vida como a que tem.
Louvo o Padre, o Filho, o Santo
Espírito, e Daniel também!
E louvo o Espírito Santo.
Feito isto, ainda que sem brilho
Quero louvar outro tanto
Quem de quem é seu amigo
Sempre é amigo fiel:
Esse homem bom como o trigo,
Hoje cinquentão, Daniel.
Louvo Daniel bom marido,
Daniel bom pai, bom irmão.
E esse meu dever cumprido,
Cumpro a grata obrigação
De desejar-lhe outro tanto
De vida como a que tem.
Louvo o Padre, o Filho, o Santo
Espírito, e Daniel também!
979
Manuel Bandeira
Louvado para Daniel
Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
Feito isto, ainda que sem brilho
Quero louvar outro tanto
Quem de quem é seu amigo
Sempre é amigo fiel:
Esse homem bom como o trigo,
Hoje cinquentão, Daniel.
Louvo Daniel bom marido,
Daniel bom pai, bom irmão.
E esse meu dever cumprido,
Cumpro a grata obrigação
De desejar-lhe outro tanto
De vida como a que tem.
Louvo o Padre, o Filho, o Santo
Espírito, e Daniel também!
E louvo o Espírito Santo.
Feito isto, ainda que sem brilho
Quero louvar outro tanto
Quem de quem é seu amigo
Sempre é amigo fiel:
Esse homem bom como o trigo,
Hoje cinquentão, Daniel.
Louvo Daniel bom marido,
Daniel bom pai, bom irmão.
E esse meu dever cumprido,
Cumpro a grata obrigação
De desejar-lhe outro tanto
De vida como a que tem.
Louvo o Padre, o Filho, o Santo
Espírito, e Daniel também!
979
Manuel Bandeira
A Alphonsus de Guimaraens Filho
Scorn not the sonnet, disse o inglês. Ouviste
O conselho do poeta e um dia, quando
Mais o espinho pungiu da ausência triste,
O primeiro soneto abriu cantando.
Musa do verso livre, hoje ela insiste
Na imortal forma, da paterna herdando.
Todos em louvor dessa que ora assiste
Em teu lar, dois destinos misturando.
No molde exíguo, onde infinita a mágoa
Humana vem caber, como o universo
A refletir-se numa gota d'água,
Disseste o mal da ausência. E ais e saudades
E vigílias e castas soledades
Choram lágrimas novas no teu verso.
Petrópolis, 5.1.1944
O conselho do poeta e um dia, quando
Mais o espinho pungiu da ausência triste,
O primeiro soneto abriu cantando.
Musa do verso livre, hoje ela insiste
Na imortal forma, da paterna herdando.
Todos em louvor dessa que ora assiste
Em teu lar, dois destinos misturando.
No molde exíguo, onde infinita a mágoa
Humana vem caber, como o universo
A refletir-se numa gota d'água,
Disseste o mal da ausência. E ais e saudades
E vigílias e castas soledades
Choram lágrimas novas no teu verso.
Petrópolis, 5.1.1944
1 113
Manuel Bandeira
Canção
Mandaste a sombra de um beijo
Na brancura de um papel:
Tremi de susto e desejo,
Beijei chorando o papel.
No entanto, deste o teu beijo
A um homem que não amavas!
Esqueceste o meu desejo
Pelo de quem não amavas!
Da sombra daquele beijo
Que farei, se a tua boca
É dessas que sem desejo
Podem beijar outra boca?
Na brancura de um papel:
Tremi de susto e desejo,
Beijei chorando o papel.
No entanto, deste o teu beijo
A um homem que não amavas!
Esqueceste o meu desejo
Pelo de quem não amavas!
Da sombra daquele beijo
Que farei, se a tua boca
É dessas que sem desejo
Podem beijar outra boca?
1 624
Manuel Bandeira
Louvação de Adalardo
Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
Lançado o sacro estribilho
Com que abro e fecho o meu canto,
Recolho aqui toda a minha
Mestria de velho bardo
Para entoar não louvaminha
Mas real louvor de Adalardo:
O que dá duro e se esfalfa
No batente, e cujo nome
Mais por de uma estrela alfa
É provável que se tome.
Eis que um tanto desmaiada
Esteve a estrela. Trombose?
Infarto? Não! não foi nada
Disso. Uma simples micose!
Por causa dela sumida
Andou a estrela. E o que mais é,
Por um triz no mar da vida
Quase a estrela perdeu pé!
Mas reintegrado Adalardo
Volta à roda dos amigos,
Reto e rijo como um dardo,
Vencedor de mil perigos,
E ovante como o estribilho
Do meu jubiloso canto.
Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
E louvo o Espírito Santo.
Lançado o sacro estribilho
Com que abro e fecho o meu canto,
Recolho aqui toda a minha
Mestria de velho bardo
Para entoar não louvaminha
Mas real louvor de Adalardo:
O que dá duro e se esfalfa
No batente, e cujo nome
Mais por de uma estrela alfa
É provável que se tome.
Eis que um tanto desmaiada
Esteve a estrela. Trombose?
Infarto? Não! não foi nada
Disso. Uma simples micose!
Por causa dela sumida
Andou a estrela. E o que mais é,
Por um triz no mar da vida
Quase a estrela perdeu pé!
Mas reintegrado Adalardo
Volta à roda dos amigos,
Reto e rijo como um dardo,
Vencedor de mil perigos,
E ovante como o estribilho
Do meu jubiloso canto.
Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
1 029
Manuel Bandeira
Noturno da Rua da Lapa
A janela estava aberta. Para o quê não sei, mas o que entrava era o vento dos lupanáres, de mistura com o eco que se partia nas curvas cicloidais, e fragmentos do hino da bandeira.
Não posso atinar no que eu fazia: se meditava, se morria de espanto ou se vinha de muito longe.
Nesse momento (oh! por que precisamente nesse momento?...) é que penetrou no quarto o bicho que voava, o articulado implacável, implacável!
Compreendi desde logo não haver possibilidade alguma de evasão. Nascer de novo também não adiantava. — A bomba de flit! pensei comigo, é um inseto!
Quando o jacto fumigatório partiu, nada mudou em mim; os sinos da redenção continuaram em silêncio; nenhuma porta se abriu nem fechou.
Mas o monstruoso animal FICOU MAIOR. Senti que ele não morreria nunca mais, nem sairia, conquanto não houvesse no aposento nenhum busto de Palas, nem na minh'alma, o que é pior, a recordação persistente de alguma extinta Lenora.
Não posso atinar no que eu fazia: se meditava, se morria de espanto ou se vinha de muito longe.
Nesse momento (oh! por que precisamente nesse momento?...) é que penetrou no quarto o bicho que voava, o articulado implacável, implacável!
Compreendi desde logo não haver possibilidade alguma de evasão. Nascer de novo também não adiantava. — A bomba de flit! pensei comigo, é um inseto!
Quando o jacto fumigatório partiu, nada mudou em mim; os sinos da redenção continuaram em silêncio; nenhuma porta se abriu nem fechou.
Mas o monstruoso animal FICOU MAIOR. Senti que ele não morreria nunca mais, nem sairia, conquanto não houvesse no aposento nenhum busto de Palas, nem na minh'alma, o que é pior, a recordação persistente de alguma extinta Lenora.
1 149
Manuel Bandeira
Noturno da Rua da Lapa
A janela estava aberta. Para o quê não sei, mas o que entrava era o vento dos lupanáres, de mistura com o eco que se partia nas curvas cicloidais, e fragmentos do hino da bandeira.
Não posso atinar no que eu fazia: se meditava, se morria de espanto ou se vinha de muito longe.
Nesse momento (oh! por que precisamente nesse momento?...) é que penetrou no quarto o bicho que voava, o articulado implacável, implacável!
Compreendi desde logo não haver possibilidade alguma de evasão. Nascer de novo também não adiantava. — A bomba de flit! pensei comigo, é um inseto!
Quando o jacto fumigatório partiu, nada mudou em mim; os sinos da redenção continuaram em silêncio; nenhuma porta se abriu nem fechou.
Mas o monstruoso animal FICOU MAIOR. Senti que ele não morreria nunca mais, nem sairia, conquanto não houvesse no aposento nenhum busto de Palas, nem na minh'alma, o que é pior, a recordação persistente de alguma extinta Lenora.
Não posso atinar no que eu fazia: se meditava, se morria de espanto ou se vinha de muito longe.
Nesse momento (oh! por que precisamente nesse momento?...) é que penetrou no quarto o bicho que voava, o articulado implacável, implacável!
Compreendi desde logo não haver possibilidade alguma de evasão. Nascer de novo também não adiantava. — A bomba de flit! pensei comigo, é um inseto!
Quando o jacto fumigatório partiu, nada mudou em mim; os sinos da redenção continuaram em silêncio; nenhuma porta se abriu nem fechou.
Mas o monstruoso animal FICOU MAIOR. Senti que ele não morreria nunca mais, nem sairia, conquanto não houvesse no aposento nenhum busto de Palas, nem na minh'alma, o que é pior, a recordação persistente de alguma extinta Lenora.
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Manuel Bandeira
Noturno da Rua da Lapa
A janela estava aberta. Para o quê não sei, mas o que entrava era o vento dos lupanáres, de mistura com o eco que se partia nas curvas cicloidais, e fragmentos do hino da bandeira.
Não posso atinar no que eu fazia: se meditava, se morria de espanto ou se vinha de muito longe.
Nesse momento (oh! por que precisamente nesse momento?...) é que penetrou no quarto o bicho que voava, o articulado implacável, implacável!
Compreendi desde logo não haver possibilidade alguma de evasão. Nascer de novo também não adiantava. — A bomba de flit! pensei comigo, é um inseto!
Quando o jacto fumigatório partiu, nada mudou em mim; os sinos da redenção continuaram em silêncio; nenhuma porta se abriu nem fechou.
Mas o monstruoso animal FICOU MAIOR. Senti que ele não morreria nunca mais, nem sairia, conquanto não houvesse no aposento nenhum busto de Palas, nem na minh'alma, o que é pior, a recordação persistente de alguma extinta Lenora.
Não posso atinar no que eu fazia: se meditava, se morria de espanto ou se vinha de muito longe.
Nesse momento (oh! por que precisamente nesse momento?...) é que penetrou no quarto o bicho que voava, o articulado implacável, implacável!
Compreendi desde logo não haver possibilidade alguma de evasão. Nascer de novo também não adiantava. — A bomba de flit! pensei comigo, é um inseto!
Quando o jacto fumigatório partiu, nada mudou em mim; os sinos da redenção continuaram em silêncio; nenhuma porta se abriu nem fechou.
Mas o monstruoso animal FICOU MAIOR. Senti que ele não morreria nunca mais, nem sairia, conquanto não houvesse no aposento nenhum busto de Palas, nem na minh'alma, o que é pior, a recordação persistente de alguma extinta Lenora.
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