Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Pablo Neruda
L
Quem pode convencer o mar
para que seja razoável?
De que lhe serve demolir
âmbar azul, granito verde?
E para que tantas marcas
e tantos sulcos no rochedo?
Cheguei de detrás do mar
e onde vou quando me atalha?
Por que encerrei meu caminho
caindo no ardil do mar?
para que seja razoável?
De que lhe serve demolir
âmbar azul, granito verde?
E para que tantas marcas
e tantos sulcos no rochedo?
Cheguei de detrás do mar
e onde vou quando me atalha?
Por que encerrei meu caminho
caindo no ardil do mar?
965
Pablo Neruda
XLIII
Quem era aquela que te amou
no sonho, quando dormias?
Onde vão as coisas do sonho?
Vão para o sonho dos outros?
E o pai que vive nos sonhos
volta a morrer quando despertas?
Florescem as plantas do sonho
e maduram seus graves frutos?
no sonho, quando dormias?
Onde vão as coisas do sonho?
Vão para o sonho dos outros?
E o pai que vive nos sonhos
volta a morrer quando despertas?
Florescem as plantas do sonho
e maduram seus graves frutos?
605
Pablo Neruda
LII
Quanto media o polvo negro
que obscureceu a paz do dia?
Eram de ferro seus ramais
e de fogo morto seus olhos?
E a baleia tricolor
por que me atalhou no caminho?
que obscureceu a paz do dia?
Eram de ferro seus ramais
e de fogo morto seus olhos?
E a baleia tricolor
por que me atalhou no caminho?
550
Pablo Neruda
XVI
Trabalham o sal e o açúcar
construindo uma torre branca?
É verdade que no formigueiro
os sonhos são obrigatórios?
Sabes que meditações
rumina a terra no outono?
(Por que não dar uma medalha
à primeira folha de ouro?)
construindo uma torre branca?
É verdade que no formigueiro
os sonhos são obrigatórios?
Sabes que meditações
rumina a terra no outono?
(Por que não dar uma medalha
à primeira folha de ouro?)
939
Pablo Neruda
XVIII
Como conheceram as uvas
a propaganda do cacho?
E sabes o que é mais difícil
entre granar e debulhar?
É mau viver sem inferno:
não podemos reconstruí-lo?
E colocar o triste Nixon
com o traseiro sobre o braseiro?
Queimando-o a fogo pausado
com napalm norte-americano?
a propaganda do cacho?
E sabes o que é mais difícil
entre granar e debulhar?
É mau viver sem inferno:
não podemos reconstruí-lo?
E colocar o triste Nixon
com o traseiro sobre o braseiro?
Queimando-o a fogo pausado
com napalm norte-americano?
1 028
Pablo Neruda
XVIII
Como conheceram as uvas
a propaganda do cacho?
E sabes o que é mais difícil
entre granar e debulhar?
É mau viver sem inferno:
não podemos reconstruí-lo?
E colocar o triste Nixon
com o traseiro sobre o braseiro?
Queimando-o a fogo pausado
com napalm norte-americano?
a propaganda do cacho?
E sabes o que é mais difícil
entre granar e debulhar?
É mau viver sem inferno:
não podemos reconstruí-lo?
E colocar o triste Nixon
com o traseiro sobre o braseiro?
Queimando-o a fogo pausado
com napalm norte-americano?
1 028
Pablo Neruda
XXI
E quando se fundou a luz
isto sucedeu na Venezuela?
Onde está o centro do mar?
Por que ali não vão as ondas?
É certo que aquele meteoro
foi uma pomba de ametista?
Posso perguntar a meu livro
se é verdade que eu o escrevi?
isto sucedeu na Venezuela?
Onde está o centro do mar?
Por que ali não vão as ondas?
É certo que aquele meteoro
foi uma pomba de ametista?
Posso perguntar a meu livro
se é verdade que eu o escrevi?
1 295
Pablo Neruda
XIX
Contaram o ouro que tem
o território do milho?
Sabes que é verde ao meio-dia
a neblina na Patagônia?
Quem canta no fundo da água
na lagoa abandonada?
De que ri a melancia
quando a estão assassinando?
o território do milho?
Sabes que é verde ao meio-dia
a neblina na Patagônia?
Quem canta no fundo da água
na lagoa abandonada?
De que ri a melancia
quando a estão assassinando?
1 044
Pablo Neruda
XL
A quem o condor andrajoso
dá conta de seu encargo?
Como se chama a tristeza
numa ovelha solitária?
E que ocorre no pombal
se aprendem canto as pombas?
Se as moscas fabricam mel
ofenderão as abelhas?
dá conta de seu encargo?
Como se chama a tristeza
numa ovelha solitária?
E que ocorre no pombal
se aprendem canto as pombas?
Se as moscas fabricam mel
ofenderão as abelhas?
1 125
Pablo Neruda
XXII
Amor, amor aquele e aquela,
se já não são, para onde foram?
Ontem, ontem disse a meus olhos
quando voltaremos a ver-nos?
E quando se muda a paisagem
são tuas mãos ou tuas luvas?
Quando canta o azul da água
como foge o rumor do céu?
se já não são, para onde foram?
Ontem, ontem disse a meus olhos
quando voltaremos a ver-nos?
E quando se muda a paisagem
são tuas mãos ou tuas luvas?
Quando canta o azul da água
como foge o rumor do céu?
651
Pablo Neruda
XLV
O amarelo dos bosques
é o mesmo do ano passado?
E se repete o vôo negro
da tenaz ave marinha?
E onde termina o espaço
se chama morte ou infinito?
Que pesam mais na cintura,
as dores ou as lembranças?
é o mesmo do ano passado?
E se repete o vôo negro
da tenaz ave marinha?
E onde termina o espaço
se chama morte ou infinito?
Que pesam mais na cintura,
as dores ou as lembranças?
1 011
Pablo Neruda
O Astronauto
I.
SE ME ENCONTREI nestas regiões reconcentradas e calcáreas
foi por equívocos de pai e mãe em meu planeta:
me aborreceram tanto uns como outros inclementes;
deixei plantados os puros, desencadeei certa loucura
e continuei presenteando os hostis.
II.
Cheguei porque me convidaram a uma estrela recém-aberta;
já Leonov me havia dito que cruzaríamos cores
de enxofre imenso e amaranto, fogo furioso de turquesa,
zonas insólitas de prata como espelhos efervescentes
e quando então fiquei só sobre a calvície do céu
nesta zona parecida com a extensão de Antofagasta,
com a solidão de Astacama, com as alturas da Mongólia
me despi para viver no calor do mundo virgem,
do mundo velho de uma estrela que agonizava ou que nascia.
III.
Não me fazia falta a roupa mas a linguagem, recolhi
uma suavíssima, metálica flor, uma rosa cujo orvalho
caiu perfurando o solo como uma torrente de mercúrio
e por esse álveo escutei de gruta em gruta o orvalho
descer as escadarias de cristal adormecido e gasto.
Gasto por quem? Pelos sonhos? Pela vida com sobrenome?
Por animais ou pessoas, elefantes ou analfabetos?
E de repente me surpreendi buscando outra vez com tristeza
a identidade, a história, o conto dos que deixei na terra.
IV.
Talvez aqui nestas rugas, sob estas crostas estépicas,
sob o vulcânico estandarte das cinzas celestiais
existiu ou existe a inveja que mordeu-me pelos caminhos
terrestres, como um caimão de quarenta caudas apodrecidas?
Aqui também prosperará o canibal parasitário,
o cínico, o frívolo, o piadista sustentado por seus cosméticos?
Aqui o Chamudar trocará de casaca pegajosa
como o Retamudez Gordillo da intervenção “oportuna”?
V.
Mas encontrei só os ossos do silêncio carbonizado;
buscando desci os estratos de mortífera astrologia:
iguanas mortas talvez eram os vestígios do pó,
idades que se trituraram e ficava só o fulgor
e era toda aquela estrela como uma antiga borboleta
de ancestrais asas que apenas tocadas se desvaneciam
aparecendo então um buraco de metal,
uma cova em cujo passado brilhavam as pedras do frio.
VI.
Perdi-me pelas galerias do sol talvez derrubado
ou na lua sem coração com seus espelhos carcomidos
e como na segurança de meu país inseguro
aqui o medo me dirigia os pés no descobrimento.
Mas não achei como alabar o alabastro que corria
derretido, pelas gargantas de pedra-pome adstringente,
e como, com quem falar do tesouro negro que fugia
com o rio do azeviche pelas ruas cicatrizadas?
VII.
Pouco a pouco o silêncio me fez um Robinson assustadiço
sem roupa mas sem fome, sem sede porque pelos poros
a luz mineral nutria e umedecia, mas pouco
a pouco o planeta se despencava de minha língua,
e errei sem idioma, escuro pelas areias do silêncio.
Oh solidão espacial do silêncio! Se desfaz
o ruído do coração e quando sobressaltado
ouvi um silêncio debaixo de outro silêncio maior:
fui emagrecendo até ser somente silêncio naquele bairro do céu
onde caí e fui enterrado por um álveo silencioso
por um grande rio de esmeraldas que não sabiam cantar.
SE ME ENCONTREI nestas regiões reconcentradas e calcáreas
foi por equívocos de pai e mãe em meu planeta:
me aborreceram tanto uns como outros inclementes;
deixei plantados os puros, desencadeei certa loucura
e continuei presenteando os hostis.
II.
Cheguei porque me convidaram a uma estrela recém-aberta;
já Leonov me havia dito que cruzaríamos cores
de enxofre imenso e amaranto, fogo furioso de turquesa,
zonas insólitas de prata como espelhos efervescentes
e quando então fiquei só sobre a calvície do céu
nesta zona parecida com a extensão de Antofagasta,
com a solidão de Astacama, com as alturas da Mongólia
me despi para viver no calor do mundo virgem,
do mundo velho de uma estrela que agonizava ou que nascia.
III.
Não me fazia falta a roupa mas a linguagem, recolhi
uma suavíssima, metálica flor, uma rosa cujo orvalho
caiu perfurando o solo como uma torrente de mercúrio
e por esse álveo escutei de gruta em gruta o orvalho
descer as escadarias de cristal adormecido e gasto.
Gasto por quem? Pelos sonhos? Pela vida com sobrenome?
Por animais ou pessoas, elefantes ou analfabetos?
E de repente me surpreendi buscando outra vez com tristeza
a identidade, a história, o conto dos que deixei na terra.
IV.
Talvez aqui nestas rugas, sob estas crostas estépicas,
sob o vulcânico estandarte das cinzas celestiais
existiu ou existe a inveja que mordeu-me pelos caminhos
terrestres, como um caimão de quarenta caudas apodrecidas?
Aqui também prosperará o canibal parasitário,
o cínico, o frívolo, o piadista sustentado por seus cosméticos?
Aqui o Chamudar trocará de casaca pegajosa
como o Retamudez Gordillo da intervenção “oportuna”?
V.
Mas encontrei só os ossos do silêncio carbonizado;
buscando desci os estratos de mortífera astrologia:
iguanas mortas talvez eram os vestígios do pó,
idades que se trituraram e ficava só o fulgor
e era toda aquela estrela como uma antiga borboleta
de ancestrais asas que apenas tocadas se desvaneciam
aparecendo então um buraco de metal,
uma cova em cujo passado brilhavam as pedras do frio.
VI.
Perdi-me pelas galerias do sol talvez derrubado
ou na lua sem coração com seus espelhos carcomidos
e como na segurança de meu país inseguro
aqui o medo me dirigia os pés no descobrimento.
Mas não achei como alabar o alabastro que corria
derretido, pelas gargantas de pedra-pome adstringente,
e como, com quem falar do tesouro negro que fugia
com o rio do azeviche pelas ruas cicatrizadas?
VII.
Pouco a pouco o silêncio me fez um Robinson assustadiço
sem roupa mas sem fome, sem sede porque pelos poros
a luz mineral nutria e umedecia, mas pouco
a pouco o planeta se despencava de minha língua,
e errei sem idioma, escuro pelas areias do silêncio.
Oh solidão espacial do silêncio! Se desfaz
o ruído do coração e quando sobressaltado
ouvi um silêncio debaixo de outro silêncio maior:
fui emagrecendo até ser somente silêncio naquele bairro do céu
onde caí e fui enterrado por um álveo silencioso
por um grande rio de esmeraldas que não sabiam cantar.
853
Pablo Neruda
O Astronauto
I.
SE ME ENCONTREI nestas regiões reconcentradas e calcáreas
foi por equívocos de pai e mãe em meu planeta:
me aborreceram tanto uns como outros inclementes;
deixei plantados os puros, desencadeei certa loucura
e continuei presenteando os hostis.
II.
Cheguei porque me convidaram a uma estrela recém-aberta;
já Leonov me havia dito que cruzaríamos cores
de enxofre imenso e amaranto, fogo furioso de turquesa,
zonas insólitas de prata como espelhos efervescentes
e quando então fiquei só sobre a calvície do céu
nesta zona parecida com a extensão de Antofagasta,
com a solidão de Astacama, com as alturas da Mongólia
me despi para viver no calor do mundo virgem,
do mundo velho de uma estrela que agonizava ou que nascia.
III.
Não me fazia falta a roupa mas a linguagem, recolhi
uma suavíssima, metálica flor, uma rosa cujo orvalho
caiu perfurando o solo como uma torrente de mercúrio
e por esse álveo escutei de gruta em gruta o orvalho
descer as escadarias de cristal adormecido e gasto.
Gasto por quem? Pelos sonhos? Pela vida com sobrenome?
Por animais ou pessoas, elefantes ou analfabetos?
E de repente me surpreendi buscando outra vez com tristeza
a identidade, a história, o conto dos que deixei na terra.
IV.
Talvez aqui nestas rugas, sob estas crostas estépicas,
sob o vulcânico estandarte das cinzas celestiais
existiu ou existe a inveja que mordeu-me pelos caminhos
terrestres, como um caimão de quarenta caudas apodrecidas?
Aqui também prosperará o canibal parasitário,
o cínico, o frívolo, o piadista sustentado por seus cosméticos?
Aqui o Chamudar trocará de casaca pegajosa
como o Retamudez Gordillo da intervenção “oportuna”?
V.
Mas encontrei só os ossos do silêncio carbonizado;
buscando desci os estratos de mortífera astrologia:
iguanas mortas talvez eram os vestígios do pó,
idades que se trituraram e ficava só o fulgor
e era toda aquela estrela como uma antiga borboleta
de ancestrais asas que apenas tocadas se desvaneciam
aparecendo então um buraco de metal,
uma cova em cujo passado brilhavam as pedras do frio.
VI.
Perdi-me pelas galerias do sol talvez derrubado
ou na lua sem coração com seus espelhos carcomidos
e como na segurança de meu país inseguro
aqui o medo me dirigia os pés no descobrimento.
Mas não achei como alabar o alabastro que corria
derretido, pelas gargantas de pedra-pome adstringente,
e como, com quem falar do tesouro negro que fugia
com o rio do azeviche pelas ruas cicatrizadas?
VII.
Pouco a pouco o silêncio me fez um Robinson assustadiço
sem roupa mas sem fome, sem sede porque pelos poros
a luz mineral nutria e umedecia, mas pouco
a pouco o planeta se despencava de minha língua,
e errei sem idioma, escuro pelas areias do silêncio.
Oh solidão espacial do silêncio! Se desfaz
o ruído do coração e quando sobressaltado
ouvi um silêncio debaixo de outro silêncio maior:
fui emagrecendo até ser somente silêncio naquele bairro do céu
onde caí e fui enterrado por um álveo silencioso
por um grande rio de esmeraldas que não sabiam cantar.
SE ME ENCONTREI nestas regiões reconcentradas e calcáreas
foi por equívocos de pai e mãe em meu planeta:
me aborreceram tanto uns como outros inclementes;
deixei plantados os puros, desencadeei certa loucura
e continuei presenteando os hostis.
II.
Cheguei porque me convidaram a uma estrela recém-aberta;
já Leonov me havia dito que cruzaríamos cores
de enxofre imenso e amaranto, fogo furioso de turquesa,
zonas insólitas de prata como espelhos efervescentes
e quando então fiquei só sobre a calvície do céu
nesta zona parecida com a extensão de Antofagasta,
com a solidão de Astacama, com as alturas da Mongólia
me despi para viver no calor do mundo virgem,
do mundo velho de uma estrela que agonizava ou que nascia.
III.
Não me fazia falta a roupa mas a linguagem, recolhi
uma suavíssima, metálica flor, uma rosa cujo orvalho
caiu perfurando o solo como uma torrente de mercúrio
e por esse álveo escutei de gruta em gruta o orvalho
descer as escadarias de cristal adormecido e gasto.
Gasto por quem? Pelos sonhos? Pela vida com sobrenome?
Por animais ou pessoas, elefantes ou analfabetos?
E de repente me surpreendi buscando outra vez com tristeza
a identidade, a história, o conto dos que deixei na terra.
IV.
Talvez aqui nestas rugas, sob estas crostas estépicas,
sob o vulcânico estandarte das cinzas celestiais
existiu ou existe a inveja que mordeu-me pelos caminhos
terrestres, como um caimão de quarenta caudas apodrecidas?
Aqui também prosperará o canibal parasitário,
o cínico, o frívolo, o piadista sustentado por seus cosméticos?
Aqui o Chamudar trocará de casaca pegajosa
como o Retamudez Gordillo da intervenção “oportuna”?
V.
Mas encontrei só os ossos do silêncio carbonizado;
buscando desci os estratos de mortífera astrologia:
iguanas mortas talvez eram os vestígios do pó,
idades que se trituraram e ficava só o fulgor
e era toda aquela estrela como uma antiga borboleta
de ancestrais asas que apenas tocadas se desvaneciam
aparecendo então um buraco de metal,
uma cova em cujo passado brilhavam as pedras do frio.
VI.
Perdi-me pelas galerias do sol talvez derrubado
ou na lua sem coração com seus espelhos carcomidos
e como na segurança de meu país inseguro
aqui o medo me dirigia os pés no descobrimento.
Mas não achei como alabar o alabastro que corria
derretido, pelas gargantas de pedra-pome adstringente,
e como, com quem falar do tesouro negro que fugia
com o rio do azeviche pelas ruas cicatrizadas?
VII.
Pouco a pouco o silêncio me fez um Robinson assustadiço
sem roupa mas sem fome, sem sede porque pelos poros
a luz mineral nutria e umedecia, mas pouco
a pouco o planeta se despencava de minha língua,
e errei sem idioma, escuro pelas areias do silêncio.
Oh solidão espacial do silêncio! Se desfaz
o ruído do coração e quando sobressaltado
ouvi um silêncio debaixo de outro silêncio maior:
fui emagrecendo até ser somente silêncio naquele bairro do céu
onde caí e fui enterrado por um álveo silencioso
por um grande rio de esmeraldas que não sabiam cantar.
853
Pablo Neruda
Te Amo
Amante, te amo e me amas e te amo,
são curtos os dias, os meses, a chuva, os trens;
são altas as casas, as árvores, e somos mais altos;
se acerca na areia a espuma que quer beijar-te;
transmigram as aves dos arquipélagos
e crescem em meu coração tuas raízes de trigo.
Não há dúvida, amor meu, que a tempestade de setembro
caiu com seu ferro oxidado sobre tua cabeça
e quando, entre rajadas de espinhos te vi caminhando indefesa,
tomei tua guitarra de âmbar, pus-me a teu lado,
sentindo que eu não podia cantar sem tua boca,
que eu morria se não me olhasses chorando na chuva.
Porque os quebrantos de amor à beira do rio,
porque a cantata que em pleno crepúsculo ardia em minha sombra,
por que se encerraram em ti, chillaneja* fragrante,
e restituíram o dom e o aroma que necessitava
minha roupa gasta por tantas batalhas de inverno?
são curtos os dias, os meses, a chuva, os trens;
são altas as casas, as árvores, e somos mais altos;
se acerca na areia a espuma que quer beijar-te;
transmigram as aves dos arquipélagos
e crescem em meu coração tuas raízes de trigo.
Não há dúvida, amor meu, que a tempestade de setembro
caiu com seu ferro oxidado sobre tua cabeça
e quando, entre rajadas de espinhos te vi caminhando indefesa,
tomei tua guitarra de âmbar, pus-me a teu lado,
sentindo que eu não podia cantar sem tua boca,
que eu morria se não me olhasses chorando na chuva.
Porque os quebrantos de amor à beira do rio,
porque a cantata que em pleno crepúsculo ardia em minha sombra,
por que se encerraram em ti, chillaneja* fragrante,
e restituíram o dom e o aroma que necessitava
minha roupa gasta por tantas batalhas de inverno?
962
Pablo Neruda
Coroa do Arquipélago para Ruben Azócar
Do Chile chegou a notícia mal-escrita por mão da Morte:
o melhor dos meus, meu irmão Rubén está imóvel
dentro de um nicho, na tumba mesquinha dos cidadãos.
Bem-amada, na hora do ar recolhe uma lágrima e leva-a
através do Atlântico negro à sua rude cabeça adormecida;
não me tragas notícias; não posso entender sua agonia:
ele deveria terminar como um tronco queimado na selva,
erguido na ilustre armadura de sua desarmada inocência.
Nunca vi outra árvore como esta, não vi no bosque
tal cortiça gigante riscada e escrita pelas cicatrizes:
o rosto de Azócar, de pedra e de vento, de luz macerada,
e sob a pele da estátua de couro e de pelo
o magnânimo mel que ninguém possui na terra.
Talvez no fundo da África, no meio-dia compacto,
uma flecha revela na ave que cai voando o esplêndido sal da safira,
ou melhor o arpão baleeiro saindo sangrento da besta pura
tocou uma presença que ali preservava o aroma do âmbar:
assim foi em meu caminho meu irmão que agora chorando recubro
com a mínima pompa que não necessitam seus olhos
adormecidos.
Assim foi por aquelas épocas felizes e malbaratadas
que descobri a bondade no homem, porque ele me ensinava,
abrindo sorrindo com sobrancelhas de árvore, o ninho de abelhas invictas
que andava com ele sussurrando de noite e de dia
e então, a mim que saía da juventude invejosa e suprema,
tocando o peito coberto por sua abandonada jaqueta,
me deu a conhecer a bondade, e provei a bondade, e até agora
não tenho podido mudar a medida do homem em meu canto;
nunca mais aprendi senão aquilo que aprendi de meu irmão nas ilhas.
Ele passeava em Boroa, em Temuco com um charlatão agregado,
com um pobre ladrão de galinhas vestido de negro
que burlava, servil e silvestre, os fazendeiros:
era um cão avariado e roído pela enfermidade literária
que, graças a Nietzsche e a Whitman, se dissimulava ladrando
e meu pobre Rubén antagônico suportava o pedante inclemente
até que o charlatão o deixou de refém no pobre hoteleco
sem dinheiro e sem roupa, em honra da literatura.
Meu irmão! Meu pobre leão das gredas amargas de Lota,
mineral, inflamado como os fulgores do raio na noite de chuva,
meu irmão, recordo teus olhos atônitos ante o desacato
e tua pura pureza empenhada por um espantalhovargasvilovante.
Nunca vi uns olhos tranquilos como em ti nesse instante teus olhos
ao pesar o veneno do mundo e apartar com sombria inteireza
o punhal da dor, e seguir o caminho do homem.
Ai irmão, ai irmão de ciência escondida, ai irmão de todo o inverno nas ilhas:
ai, irmão, comendo contigo feijão com milho verde recém-separado
do marfim silencioso que educa o milho em suas lanças,
e depois os mexilhões saindo do mar arquipélago,
as ostras de Ancud, cheirosas à mitologia,
o vinho de inverno bebido sem trégua na chuva
e teu coração debulhando-se sobre o território.
Não é a vida que faz os homens, é antes,
é antes: remoto é o peso da alma no sangue;
os séculos azuis, os sonhos do bosque, os sáurios perdidos
na caravana, o terror vegetal do silêncio,
se agregaram a ti antes de nada, teceram com sombra e madeira
o assombro da criança que te acompanhou pela terra.
Sei que no México bravio em um dia desértico esteve
tua cabeça angustiada, tua boca com fome, teu riso feito pó.
E não posso olvidar que ao cruzar o Peru te esqueceram em um calabouço.
Enquanto no Panamá na maranha de umidade e raízes,
tu, sabendo que ali as serpentes tomavam o tórrido sol e mordiam,
ali te estendeste para morrer de regresso às lianas, e então
um milagre salvou tua pele para nossa alegria.
Já se sabe que um dia em Cuba, transformado em donoso donzel,
parodiaste com verso e donaire os exílios daquele Cavaleiro
que deixou à sua galante Madama uma recordação em um cofre cheiroso
e se sabe que quando com flor na mão tua graça passeava
pelo equinócio da história hilariante e patética,
Fidel com sua barba e altura ficou assombrado ao ouvir-te e olhar-te
e depois abraçando-te, com riso e delícia, baixou a cabeça,
porque entre uma batalha e outra não há louro que mais cative o guerreiro
que tua generosa presença regalando a magia e o mel,
adorável palhaço, capitão da dissipação, redentor da sabedoria.
Se contasse, se pudesse contar teus milagres, as histórias
que penduraste no colo do mundo como um colar claro:
dispuseste de um amplo desvão com navios
e bonecas, bonecos que te obedeciam logo que
se moviam tuas sobrancelhas povoadas por árvores negras.
Porque tu antes de ser o adivinho, escolheste teu reino,
tua pequena estatura, tua cabeça de rei araucano,
e de quanto mais nobre e mais firme encontraste no nada
construíste teu corpo e teu sonho, pequeno monarca,
agregando-lhe inúteis fibras que continuam brilhando
com o ouro enlutado de tua travessura grandiosa.
Às vezes olhando-te o cenho com que vigilavas meus passos,
temendo por mim como o pai do pai do pai do filho,
divisei em teu olhar uma antiga tristeza
e teria tido razão a tristeza em teus olhos antigos:
os próximos a ti não souberam venerar tua madeira celeste
e a miúdo puseram espinhos em tua cabeleira
e com lanças de ferro oxidado te cravaram na desventura.
Mas aquela água escura que certa vez encontrei em teu olhar
guardava o silêncio normal da natureza
e se tinham caído as folhas no fundo do poço em trevas
não apodreceram as folhas defuntas a cisterna de onde surgia
tua solene bondade florescida por um ramo indomável de rosas.
Tenho o Ás! Tenho o Dois! Tenho o Três! cantarão e talvez cantaremos;
cantarão, cantaremos na borda do vinho de Outubro;
cantaremos a inútil beleza do mundo sem que tu a vejas,
sem que tu, companheiro, respondas rindo e cantando,
cantando e chorando algum dia na nave ou melhor à beira
do mar das ilhas que amaste, marinheiro sonoro;
cantarão, cantaremos, e o bosque do homem perdido,
a bruma huaiteca, o lariço de peito implacável
te acompanharão, companheiro, em teu canto invisível.
Tenho o Ás! Tenho o Dois! Tenho o Três! Mas falta tu, irmão!
Falta o rei que se foi para sempre com o riso e a rosa na mão.
o melhor dos meus, meu irmão Rubén está imóvel
dentro de um nicho, na tumba mesquinha dos cidadãos.
Bem-amada, na hora do ar recolhe uma lágrima e leva-a
através do Atlântico negro à sua rude cabeça adormecida;
não me tragas notícias; não posso entender sua agonia:
ele deveria terminar como um tronco queimado na selva,
erguido na ilustre armadura de sua desarmada inocência.
Nunca vi outra árvore como esta, não vi no bosque
tal cortiça gigante riscada e escrita pelas cicatrizes:
o rosto de Azócar, de pedra e de vento, de luz macerada,
e sob a pele da estátua de couro e de pelo
o magnânimo mel que ninguém possui na terra.
Talvez no fundo da África, no meio-dia compacto,
uma flecha revela na ave que cai voando o esplêndido sal da safira,
ou melhor o arpão baleeiro saindo sangrento da besta pura
tocou uma presença que ali preservava o aroma do âmbar:
assim foi em meu caminho meu irmão que agora chorando recubro
com a mínima pompa que não necessitam seus olhos
adormecidos.
Assim foi por aquelas épocas felizes e malbaratadas
que descobri a bondade no homem, porque ele me ensinava,
abrindo sorrindo com sobrancelhas de árvore, o ninho de abelhas invictas
que andava com ele sussurrando de noite e de dia
e então, a mim que saía da juventude invejosa e suprema,
tocando o peito coberto por sua abandonada jaqueta,
me deu a conhecer a bondade, e provei a bondade, e até agora
não tenho podido mudar a medida do homem em meu canto;
nunca mais aprendi senão aquilo que aprendi de meu irmão nas ilhas.
Ele passeava em Boroa, em Temuco com um charlatão agregado,
com um pobre ladrão de galinhas vestido de negro
que burlava, servil e silvestre, os fazendeiros:
era um cão avariado e roído pela enfermidade literária
que, graças a Nietzsche e a Whitman, se dissimulava ladrando
e meu pobre Rubén antagônico suportava o pedante inclemente
até que o charlatão o deixou de refém no pobre hoteleco
sem dinheiro e sem roupa, em honra da literatura.
Meu irmão! Meu pobre leão das gredas amargas de Lota,
mineral, inflamado como os fulgores do raio na noite de chuva,
meu irmão, recordo teus olhos atônitos ante o desacato
e tua pura pureza empenhada por um espantalhovargasvilovante.
Nunca vi uns olhos tranquilos como em ti nesse instante teus olhos
ao pesar o veneno do mundo e apartar com sombria inteireza
o punhal da dor, e seguir o caminho do homem.
Ai irmão, ai irmão de ciência escondida, ai irmão de todo o inverno nas ilhas:
ai, irmão, comendo contigo feijão com milho verde recém-separado
do marfim silencioso que educa o milho em suas lanças,
e depois os mexilhões saindo do mar arquipélago,
as ostras de Ancud, cheirosas à mitologia,
o vinho de inverno bebido sem trégua na chuva
e teu coração debulhando-se sobre o território.
Não é a vida que faz os homens, é antes,
é antes: remoto é o peso da alma no sangue;
os séculos azuis, os sonhos do bosque, os sáurios perdidos
na caravana, o terror vegetal do silêncio,
se agregaram a ti antes de nada, teceram com sombra e madeira
o assombro da criança que te acompanhou pela terra.
Sei que no México bravio em um dia desértico esteve
tua cabeça angustiada, tua boca com fome, teu riso feito pó.
E não posso olvidar que ao cruzar o Peru te esqueceram em um calabouço.
Enquanto no Panamá na maranha de umidade e raízes,
tu, sabendo que ali as serpentes tomavam o tórrido sol e mordiam,
ali te estendeste para morrer de regresso às lianas, e então
um milagre salvou tua pele para nossa alegria.
Já se sabe que um dia em Cuba, transformado em donoso donzel,
parodiaste com verso e donaire os exílios daquele Cavaleiro
que deixou à sua galante Madama uma recordação em um cofre cheiroso
e se sabe que quando com flor na mão tua graça passeava
pelo equinócio da história hilariante e patética,
Fidel com sua barba e altura ficou assombrado ao ouvir-te e olhar-te
e depois abraçando-te, com riso e delícia, baixou a cabeça,
porque entre uma batalha e outra não há louro que mais cative o guerreiro
que tua generosa presença regalando a magia e o mel,
adorável palhaço, capitão da dissipação, redentor da sabedoria.
Se contasse, se pudesse contar teus milagres, as histórias
que penduraste no colo do mundo como um colar claro:
dispuseste de um amplo desvão com navios
e bonecas, bonecos que te obedeciam logo que
se moviam tuas sobrancelhas povoadas por árvores negras.
Porque tu antes de ser o adivinho, escolheste teu reino,
tua pequena estatura, tua cabeça de rei araucano,
e de quanto mais nobre e mais firme encontraste no nada
construíste teu corpo e teu sonho, pequeno monarca,
agregando-lhe inúteis fibras que continuam brilhando
com o ouro enlutado de tua travessura grandiosa.
Às vezes olhando-te o cenho com que vigilavas meus passos,
temendo por mim como o pai do pai do pai do filho,
divisei em teu olhar uma antiga tristeza
e teria tido razão a tristeza em teus olhos antigos:
os próximos a ti não souberam venerar tua madeira celeste
e a miúdo puseram espinhos em tua cabeleira
e com lanças de ferro oxidado te cravaram na desventura.
Mas aquela água escura que certa vez encontrei em teu olhar
guardava o silêncio normal da natureza
e se tinham caído as folhas no fundo do poço em trevas
não apodreceram as folhas defuntas a cisterna de onde surgia
tua solene bondade florescida por um ramo indomável de rosas.
Tenho o Ás! Tenho o Dois! Tenho o Três! cantarão e talvez cantaremos;
cantarão, cantaremos na borda do vinho de Outubro;
cantaremos a inútil beleza do mundo sem que tu a vejas,
sem que tu, companheiro, respondas rindo e cantando,
cantando e chorando algum dia na nave ou melhor à beira
do mar das ilhas que amaste, marinheiro sonoro;
cantarão, cantaremos, e o bosque do homem perdido,
a bruma huaiteca, o lariço de peito implacável
te acompanharão, companheiro, em teu canto invisível.
Tenho o Ás! Tenho o Dois! Tenho o Três! Mas falta tu, irmão!
Falta o rei que se foi para sempre com o riso e a rosa na mão.
1 082
Pablo Neruda
Coroa do Arquipélago para Ruben Azócar
Do Chile chegou a notícia mal-escrita por mão da Morte:
o melhor dos meus, meu irmão Rubén está imóvel
dentro de um nicho, na tumba mesquinha dos cidadãos.
Bem-amada, na hora do ar recolhe uma lágrima e leva-a
através do Atlântico negro à sua rude cabeça adormecida;
não me tragas notícias; não posso entender sua agonia:
ele deveria terminar como um tronco queimado na selva,
erguido na ilustre armadura de sua desarmada inocência.
Nunca vi outra árvore como esta, não vi no bosque
tal cortiça gigante riscada e escrita pelas cicatrizes:
o rosto de Azócar, de pedra e de vento, de luz macerada,
e sob a pele da estátua de couro e de pelo
o magnânimo mel que ninguém possui na terra.
Talvez no fundo da África, no meio-dia compacto,
uma flecha revela na ave que cai voando o esplêndido sal da safira,
ou melhor o arpão baleeiro saindo sangrento da besta pura
tocou uma presença que ali preservava o aroma do âmbar:
assim foi em meu caminho meu irmão que agora chorando recubro
com a mínima pompa que não necessitam seus olhos
adormecidos.
Assim foi por aquelas épocas felizes e malbaratadas
que descobri a bondade no homem, porque ele me ensinava,
abrindo sorrindo com sobrancelhas de árvore, o ninho de abelhas invictas
que andava com ele sussurrando de noite e de dia
e então, a mim que saía da juventude invejosa e suprema,
tocando o peito coberto por sua abandonada jaqueta,
me deu a conhecer a bondade, e provei a bondade, e até agora
não tenho podido mudar a medida do homem em meu canto;
nunca mais aprendi senão aquilo que aprendi de meu irmão nas ilhas.
Ele passeava em Boroa, em Temuco com um charlatão agregado,
com um pobre ladrão de galinhas vestido de negro
que burlava, servil e silvestre, os fazendeiros:
era um cão avariado e roído pela enfermidade literária
que, graças a Nietzsche e a Whitman, se dissimulava ladrando
e meu pobre Rubén antagônico suportava o pedante inclemente
até que o charlatão o deixou de refém no pobre hoteleco
sem dinheiro e sem roupa, em honra da literatura.
Meu irmão! Meu pobre leão das gredas amargas de Lota,
mineral, inflamado como os fulgores do raio na noite de chuva,
meu irmão, recordo teus olhos atônitos ante o desacato
e tua pura pureza empenhada por um espantalhovargasvilovante.
Nunca vi uns olhos tranquilos como em ti nesse instante teus olhos
ao pesar o veneno do mundo e apartar com sombria inteireza
o punhal da dor, e seguir o caminho do homem.
Ai irmão, ai irmão de ciência escondida, ai irmão de todo o inverno nas ilhas:
ai, irmão, comendo contigo feijão com milho verde recém-separado
do marfim silencioso que educa o milho em suas lanças,
e depois os mexilhões saindo do mar arquipélago,
as ostras de Ancud, cheirosas à mitologia,
o vinho de inverno bebido sem trégua na chuva
e teu coração debulhando-se sobre o território.
Não é a vida que faz os homens, é antes,
é antes: remoto é o peso da alma no sangue;
os séculos azuis, os sonhos do bosque, os sáurios perdidos
na caravana, o terror vegetal do silêncio,
se agregaram a ti antes de nada, teceram com sombra e madeira
o assombro da criança que te acompanhou pela terra.
Sei que no México bravio em um dia desértico esteve
tua cabeça angustiada, tua boca com fome, teu riso feito pó.
E não posso olvidar que ao cruzar o Peru te esqueceram em um calabouço.
Enquanto no Panamá na maranha de umidade e raízes,
tu, sabendo que ali as serpentes tomavam o tórrido sol e mordiam,
ali te estendeste para morrer de regresso às lianas, e então
um milagre salvou tua pele para nossa alegria.
Já se sabe que um dia em Cuba, transformado em donoso donzel,
parodiaste com verso e donaire os exílios daquele Cavaleiro
que deixou à sua galante Madama uma recordação em um cofre cheiroso
e se sabe que quando com flor na mão tua graça passeava
pelo equinócio da história hilariante e patética,
Fidel com sua barba e altura ficou assombrado ao ouvir-te e olhar-te
e depois abraçando-te, com riso e delícia, baixou a cabeça,
porque entre uma batalha e outra não há louro que mais cative o guerreiro
que tua generosa presença regalando a magia e o mel,
adorável palhaço, capitão da dissipação, redentor da sabedoria.
Se contasse, se pudesse contar teus milagres, as histórias
que penduraste no colo do mundo como um colar claro:
dispuseste de um amplo desvão com navios
e bonecas, bonecos que te obedeciam logo que
se moviam tuas sobrancelhas povoadas por árvores negras.
Porque tu antes de ser o adivinho, escolheste teu reino,
tua pequena estatura, tua cabeça de rei araucano,
e de quanto mais nobre e mais firme encontraste no nada
construíste teu corpo e teu sonho, pequeno monarca,
agregando-lhe inúteis fibras que continuam brilhando
com o ouro enlutado de tua travessura grandiosa.
Às vezes olhando-te o cenho com que vigilavas meus passos,
temendo por mim como o pai do pai do pai do filho,
divisei em teu olhar uma antiga tristeza
e teria tido razão a tristeza em teus olhos antigos:
os próximos a ti não souberam venerar tua madeira celeste
e a miúdo puseram espinhos em tua cabeleira
e com lanças de ferro oxidado te cravaram na desventura.
Mas aquela água escura que certa vez encontrei em teu olhar
guardava o silêncio normal da natureza
e se tinham caído as folhas no fundo do poço em trevas
não apodreceram as folhas defuntas a cisterna de onde surgia
tua solene bondade florescida por um ramo indomável de rosas.
Tenho o Ás! Tenho o Dois! Tenho o Três! cantarão e talvez cantaremos;
cantarão, cantaremos na borda do vinho de Outubro;
cantaremos a inútil beleza do mundo sem que tu a vejas,
sem que tu, companheiro, respondas rindo e cantando,
cantando e chorando algum dia na nave ou melhor à beira
do mar das ilhas que amaste, marinheiro sonoro;
cantarão, cantaremos, e o bosque do homem perdido,
a bruma huaiteca, o lariço de peito implacável
te acompanharão, companheiro, em teu canto invisível.
Tenho o Ás! Tenho o Dois! Tenho o Três! Mas falta tu, irmão!
Falta o rei que se foi para sempre com o riso e a rosa na mão.
o melhor dos meus, meu irmão Rubén está imóvel
dentro de um nicho, na tumba mesquinha dos cidadãos.
Bem-amada, na hora do ar recolhe uma lágrima e leva-a
através do Atlântico negro à sua rude cabeça adormecida;
não me tragas notícias; não posso entender sua agonia:
ele deveria terminar como um tronco queimado na selva,
erguido na ilustre armadura de sua desarmada inocência.
Nunca vi outra árvore como esta, não vi no bosque
tal cortiça gigante riscada e escrita pelas cicatrizes:
o rosto de Azócar, de pedra e de vento, de luz macerada,
e sob a pele da estátua de couro e de pelo
o magnânimo mel que ninguém possui na terra.
Talvez no fundo da África, no meio-dia compacto,
uma flecha revela na ave que cai voando o esplêndido sal da safira,
ou melhor o arpão baleeiro saindo sangrento da besta pura
tocou uma presença que ali preservava o aroma do âmbar:
assim foi em meu caminho meu irmão que agora chorando recubro
com a mínima pompa que não necessitam seus olhos
adormecidos.
Assim foi por aquelas épocas felizes e malbaratadas
que descobri a bondade no homem, porque ele me ensinava,
abrindo sorrindo com sobrancelhas de árvore, o ninho de abelhas invictas
que andava com ele sussurrando de noite e de dia
e então, a mim que saía da juventude invejosa e suprema,
tocando o peito coberto por sua abandonada jaqueta,
me deu a conhecer a bondade, e provei a bondade, e até agora
não tenho podido mudar a medida do homem em meu canto;
nunca mais aprendi senão aquilo que aprendi de meu irmão nas ilhas.
Ele passeava em Boroa, em Temuco com um charlatão agregado,
com um pobre ladrão de galinhas vestido de negro
que burlava, servil e silvestre, os fazendeiros:
era um cão avariado e roído pela enfermidade literária
que, graças a Nietzsche e a Whitman, se dissimulava ladrando
e meu pobre Rubén antagônico suportava o pedante inclemente
até que o charlatão o deixou de refém no pobre hoteleco
sem dinheiro e sem roupa, em honra da literatura.
Meu irmão! Meu pobre leão das gredas amargas de Lota,
mineral, inflamado como os fulgores do raio na noite de chuva,
meu irmão, recordo teus olhos atônitos ante o desacato
e tua pura pureza empenhada por um espantalhovargasvilovante.
Nunca vi uns olhos tranquilos como em ti nesse instante teus olhos
ao pesar o veneno do mundo e apartar com sombria inteireza
o punhal da dor, e seguir o caminho do homem.
Ai irmão, ai irmão de ciência escondida, ai irmão de todo o inverno nas ilhas:
ai, irmão, comendo contigo feijão com milho verde recém-separado
do marfim silencioso que educa o milho em suas lanças,
e depois os mexilhões saindo do mar arquipélago,
as ostras de Ancud, cheirosas à mitologia,
o vinho de inverno bebido sem trégua na chuva
e teu coração debulhando-se sobre o território.
Não é a vida que faz os homens, é antes,
é antes: remoto é o peso da alma no sangue;
os séculos azuis, os sonhos do bosque, os sáurios perdidos
na caravana, o terror vegetal do silêncio,
se agregaram a ti antes de nada, teceram com sombra e madeira
o assombro da criança que te acompanhou pela terra.
Sei que no México bravio em um dia desértico esteve
tua cabeça angustiada, tua boca com fome, teu riso feito pó.
E não posso olvidar que ao cruzar o Peru te esqueceram em um calabouço.
Enquanto no Panamá na maranha de umidade e raízes,
tu, sabendo que ali as serpentes tomavam o tórrido sol e mordiam,
ali te estendeste para morrer de regresso às lianas, e então
um milagre salvou tua pele para nossa alegria.
Já se sabe que um dia em Cuba, transformado em donoso donzel,
parodiaste com verso e donaire os exílios daquele Cavaleiro
que deixou à sua galante Madama uma recordação em um cofre cheiroso
e se sabe que quando com flor na mão tua graça passeava
pelo equinócio da história hilariante e patética,
Fidel com sua barba e altura ficou assombrado ao ouvir-te e olhar-te
e depois abraçando-te, com riso e delícia, baixou a cabeça,
porque entre uma batalha e outra não há louro que mais cative o guerreiro
que tua generosa presença regalando a magia e o mel,
adorável palhaço, capitão da dissipação, redentor da sabedoria.
Se contasse, se pudesse contar teus milagres, as histórias
que penduraste no colo do mundo como um colar claro:
dispuseste de um amplo desvão com navios
e bonecas, bonecos que te obedeciam logo que
se moviam tuas sobrancelhas povoadas por árvores negras.
Porque tu antes de ser o adivinho, escolheste teu reino,
tua pequena estatura, tua cabeça de rei araucano,
e de quanto mais nobre e mais firme encontraste no nada
construíste teu corpo e teu sonho, pequeno monarca,
agregando-lhe inúteis fibras que continuam brilhando
com o ouro enlutado de tua travessura grandiosa.
Às vezes olhando-te o cenho com que vigilavas meus passos,
temendo por mim como o pai do pai do pai do filho,
divisei em teu olhar uma antiga tristeza
e teria tido razão a tristeza em teus olhos antigos:
os próximos a ti não souberam venerar tua madeira celeste
e a miúdo puseram espinhos em tua cabeleira
e com lanças de ferro oxidado te cravaram na desventura.
Mas aquela água escura que certa vez encontrei em teu olhar
guardava o silêncio normal da natureza
e se tinham caído as folhas no fundo do poço em trevas
não apodreceram as folhas defuntas a cisterna de onde surgia
tua solene bondade florescida por um ramo indomável de rosas.
Tenho o Ás! Tenho o Dois! Tenho o Três! cantarão e talvez cantaremos;
cantarão, cantaremos na borda do vinho de Outubro;
cantaremos a inútil beleza do mundo sem que tu a vejas,
sem que tu, companheiro, respondas rindo e cantando,
cantando e chorando algum dia na nave ou melhor à beira
do mar das ilhas que amaste, marinheiro sonoro;
cantarão, cantaremos, e o bosque do homem perdido,
a bruma huaiteca, o lariço de peito implacável
te acompanharão, companheiro, em teu canto invisível.
Tenho o Ás! Tenho o Dois! Tenho o Três! Mas falta tu, irmão!
Falta o rei que se foi para sempre com o riso e a rosa na mão.
1 082
Pablo Neruda
Amizade
Amigos, oh todos, Albertos e Olgas de toda a terra!
Não escrevem os livros de amor a amizade do amigo ao amor,
não escrevem o dom que suscitam e o pão que outorgaram ao amante errante,
esqueça o sortilégio olhando os olhos de puma de sua
bem-amada
que mãos amigas lavraram madeiras, elevaram estacas
para que enlaçassem em paz sua alegria os dois errabundos.
Injusto ou tardio tu e eu inauguramos Matilde no livro do amor
o capítulo aberto que indica ao amor o que deve
e aqui se estabelece com mel a amizade verdadeira:
a dos que acolhem na felicidade sem empalidecer de nevralgia
e elevam a taça de ouro em honra da honra e do amor.
Não escrevem os livros de amor a amizade do amigo ao amor,
não escrevem o dom que suscitam e o pão que outorgaram ao amante errante,
esqueça o sortilégio olhando os olhos de puma de sua
bem-amada
que mãos amigas lavraram madeiras, elevaram estacas
para que enlaçassem em paz sua alegria os dois errabundos.
Injusto ou tardio tu e eu inauguramos Matilde no livro do amor
o capítulo aberto que indica ao amor o que deve
e aqui se estabelece com mel a amizade verdadeira:
a dos que acolhem na felicidade sem empalidecer de nevralgia
e elevam a taça de ouro em honra da honra e do amor.
1 579
Pablo Neruda
XX
É verdade que o âmbar contém
as lágrimas das sereias?
Como se chama uma flor
que voa de pássaro em pássaro?
Não é melhor nunca que tarde?
E por que o queijo se dispôs
a exercer proezas na França?
as lágrimas das sereias?
Como se chama uma flor
que voa de pássaro em pássaro?
Não é melhor nunca que tarde?
E por que o queijo se dispôs
a exercer proezas na França?
1 072
Pablo Neruda
Amor
Onde estás, oh pomba marinha que sob meus beijos caíste
ferida e selvagem na trêmula relva do Sul transparente,
ali onde move seus raios glaciais minha soberania,
garota campestre, amassada com barro e com trigo,
amante que ao mar galopando roubei com punhal, oh sereia,
e ao vulcão desafiei para amar-te trazendo sobre a sela
tuas crinas que o fogo tingiu elaborando sua chama acobreada,
Amada, é tua sombra como a frescura que deixa o racimo
sobre o amarelo sino do vasto verão
e é o submerso calor de teu abraço em meu corpo
a resposta ao raio e ao calafrio de ouro que eu precipito.
Porque dos nupciais com uma cereja, com um só rio,
e uma só cama e uma só lua que o vento derruba sob a pradaria
são duas claridades que fundem sobre suas cabeças o arco do dia
e estrelam a noite com os minerais de seu desamparo,
com o desamparo do amor nu que rompe uma rosa e constrói uma rosa,
e constrói uma rosa que vive, palpita, perece e renasce,
porque essa é a lei do amor e não sabe minha boca
senão falar sem falar com tua boca no fim e no começo de tudo,
amorosa, meu amor, minha mulher deitada no trigo,
nas eras de Março, no barro da Araucânia.
ferida e selvagem na trêmula relva do Sul transparente,
ali onde move seus raios glaciais minha soberania,
garota campestre, amassada com barro e com trigo,
amante que ao mar galopando roubei com punhal, oh sereia,
e ao vulcão desafiei para amar-te trazendo sobre a sela
tuas crinas que o fogo tingiu elaborando sua chama acobreada,
Amada, é tua sombra como a frescura que deixa o racimo
sobre o amarelo sino do vasto verão
e é o submerso calor de teu abraço em meu corpo
a resposta ao raio e ao calafrio de ouro que eu precipito.
Porque dos nupciais com uma cereja, com um só rio,
e uma só cama e uma só lua que o vento derruba sob a pradaria
são duas claridades que fundem sobre suas cabeças o arco do dia
e estrelam a noite com os minerais de seu desamparo,
com o desamparo do amor nu que rompe uma rosa e constrói uma rosa,
e constrói uma rosa que vive, palpita, perece e renasce,
porque essa é a lei do amor e não sabe minha boca
senão falar sem falar com tua boca no fim e no começo de tudo,
amorosa, meu amor, minha mulher deitada no trigo,
nas eras de Março, no barro da Araucânia.
1 248
Pablo Neruda
XXIX
Que distância em metros redondos
há entre o sol e as laranjas?
Quem desperta o sol quando dorme
sobre sua cama abrasadora?
Canta a terra como um grilo
entre a música celeste?
É mesmo ampla a tristeza
e tênue a melancolia?
há entre o sol e as laranjas?
Quem desperta o sol quando dorme
sobre sua cama abrasadora?
Canta a terra como um grilo
entre a música celeste?
É mesmo ampla a tristeza
e tênue a melancolia?
1 069
Pablo Neruda
IV. O coro dos mares oprimidos
Lord do mar, vem a nós, somos água e areia oprimidas!
Lord do mar, somos povos bloqueados e mudos!
Lord do mar, te chamamos cantando para a luta!
Lord do mar, a corrente espanhola fecha-nos as águas!
Lord do mar, amarra-nos os sonhos a noite espanhola!
Lord do mar, no porto te esperam o pranto e a ira!
Lord do mar, reclamam-te os Mares do Sul!
Lord do mar, somos povos bloqueados e mudos!
Lord do mar, te chamamos cantando para a luta!
Lord do mar, a corrente espanhola fecha-nos as águas!
Lord do mar, amarra-nos os sonhos a noite espanhola!
Lord do mar, no porto te esperam o pranto e a ira!
Lord do mar, reclamam-te os Mares do Sul!
968
Pablo Neruda
Crevel
Ou talvez aqui devo recordar que canto
quando desço do trem em Bordéus e compro um jornal
e a linha mais negra levanta um punhal e me fere:
Crevel tinha morrido, dizia a linha, no forno de gás, sua cabeça,
sua cabeça dourada, riçada no forno como o pão para um rito,
e eu que vinha da Espanha porque ele me esperava
ali na plataforma de Bordéus lendo o punhal
com que a França acolhia minha viagem naquela estação, no frio.
Passa o tempo e não passa Paris, se te caem
os cabelos, as folhas à árvore, os soldados ao ódio,
e na Catedral os apóstolos reluzem com a barba fresca,
com a barba fresca de morangueiro da França fragrante.
Mesmo que a desventura galope a teu lado golpeando o tambor da morte
a rosa murcha te oferece sua taça de líquido impuro
e a multidão de pétalas que ardem sem rumo na noite
até que a rosa tomou com o tempo entre os automóveis
sua cor de cinza queimada por bocas e beijos.
quando desço do trem em Bordéus e compro um jornal
e a linha mais negra levanta um punhal e me fere:
Crevel tinha morrido, dizia a linha, no forno de gás, sua cabeça,
sua cabeça dourada, riçada no forno como o pão para um rito,
e eu que vinha da Espanha porque ele me esperava
ali na plataforma de Bordéus lendo o punhal
com que a França acolhia minha viagem naquela estação, no frio.
Passa o tempo e não passa Paris, se te caem
os cabelos, as folhas à árvore, os soldados ao ódio,
e na Catedral os apóstolos reluzem com a barba fresca,
com a barba fresca de morangueiro da França fragrante.
Mesmo que a desventura galope a teu lado golpeando o tambor da morte
a rosa murcha te oferece sua taça de líquido impuro
e a multidão de pétalas que ardem sem rumo na noite
até que a rosa tomou com o tempo entre os automóveis
sua cor de cinza queimada por bocas e beijos.
1 187
Pablo Neruda
XIV
E que disseram os rubis
ante o jugo das granadas?
Mas por que não se convence
a quinta de ir depois da sexta?
Quem gritou de alegria
ao nascer a cor azul?
Por que se entristece a terra
quando aparecem as violetas?
ante o jugo das granadas?
Mas por que não se convence
a quinta de ir depois da sexta?
Quem gritou de alegria
ao nascer a cor azul?
Por que se entristece a terra
quando aparecem as violetas?
1 077
Pablo Neruda
Fulgor e morte de Joaquín Murieta
Esta é a longa história de um homem inflamado.
Natural, valoroso, sua memória é uma acha de guerra.
É tempo de abrir o repouso, o sepulcro do claro bandido
e romper o ouvido oxidado que agora o enterra.
Talvez não encontrou seu destino o soldado e lamento
não ter conversado com ele, e com uma garrafa de vinho
ter esperado na História que passasse algum dia seu grande regimento.
Talvez aquele homem perdido no vento houvesse mudado o caminho.
O sangue caído lhe pôs nas mãos um raio violento,
agora passaram cem anos e já não podemos mudar seu destino:
assim é que comecemos sem ele e sem vinho nesta hora quieta
a história de meu compatriota, o bandido honorável don Joaquín Murieta.
É longa a história que aterra mais tarde e que nasce aqui abaixo
nesta angustura de terra que o Polo nos trouxe e o mar e a neve disputam,
aqui entre pereiras e telhas e chuva brilhavam as uvas chilenas
e como uma taça de prata que enche a noite sombria de pálido vinho
a lua do Chile crescia entre boldos, maitenes10, alfavacas, orégano, jasmins, feijões, loureiros, orvalho,
então nascia à luz do planeta um infante moreno
e na sombra serena é o raio que nasce, se chama Murieta,
e ninguém suspeita à luz da lua que um raio nascente
adormece no berço enquanto se esconde nos montes a lua:
é um menino chileno cor de azeitona e seus olhos ignoram o pranto.
Minha pátria lhe deu as medalhas do campo bravio, do pampa ardente:
parece ter forjado com frio e com brasas para uma batalha
seu corpo de arado e é um desafio sua voz e suas mãos são duas ameaças.
Vingança é o ferro, a pedra, a chuva, a fúria, a lança,
a chama, o rancor do desterro, a paz crepitante,
e o homem distante fica cego clamando na sombra vingança,
buscando na noite esperança sangrenta e castigo constante,
desperta o arredio e percorre a cavalo a terra noturna. Deus meu,
que busca o escuro à espreita do dano que brilha em sua mão cortante?
Vingança é o nome instantâneo de seu calafrio
que crava a carne ou golpeia no crânio ou assusta com boca alarmante
e mata e se afasta o dançante mortal galopando à beira do rio.
A chama do ouro percorre a terra do Chile do mar aos montes
e começa o desfile do horizonte até o Porto, o magnético feitiço,
despovoa Quillota, debulha Coquimbo, as naves esperam em Valparaíso.
Crescendo à sombra de salgueiros flexíveis nadava nos rios, domava os potros, lançava os laços,
ardia no brio, educava os braços, a alma, os olhos, e se ouviam cantar as esporas
quando do fundo do outono vermelho descia a galope em sua égua de estanho
vinha da cordilheira, de pedras hirsutas, de cerros hostis, de vento inumano,
trazia nas mãos o golpe vizinho do rio que fustiga e divide a neve fragrante e jazente
e o transpassava aquele livre alvedrio, a virtude selvagem que toca a fronte
dos indomáveis e sela com ira e limpeza o orgulho de algumas cabeças
que guarda o destino em suas atas de fogo e pureza, e assim o elegido
não sabe que está prometido e que deve matar e morrer na empresa.
Assim são as coisas amigo e é bom aprender e que saiba e conheça
os versos que escrevi e repita contando e cantando a lembrança de um livre chileno proscrito
que andando e andando e morrendo foi um mito infinito:
sua infância cantei ao instante e sabemos que foi o caminhante muito longe,
um dia mataram o chileno errante, contam os velhos de noite ao braseiro
e é como se falasse o riacho, a chuva silvante ou na nevasca chorasse no vento a neve distante
porque de Aconcágua partiu num veleiro buscando na água um caminho
e para a Califórnia a morte e o ouro chamavam com vozes ardentes que no fim decidiram seu negro destino.
Mas no caminho marinho, no branco veleiro maulino11
o amor sobreveio e Murieta descobre uns olhos escuros,
se sente inseguro perdido na nova certeza:
sua noiva se chama Tereza e ele não conheceu mulher camponesa
como esta Tereza que beija sua boca e seu sangue, e no grande oceano
perdida a barca na bruma, o amor se consuma e Murieta pressente que é este o amor infinito
e sabe talvez que está escrito seu fim e a morte o espera
e pede à Tereza sua noiva e mulher que se case com ele na nave veleira
e na primavera marinha Joaquín, domador de cavalos, tomou por esposa Tereza, mulher camponesa,
e os imigrantes em busca do ouro inumano e distante celebram este casamento
ouvindo as ondas que elevam seu eterno lamento;
e tal é a estranha cegueira do homem no rito da passageira alegria;
na nave o amor acendeu uma fogueira; não sabem que já começou a agonia.
Natural, valoroso, sua memória é uma acha de guerra.
É tempo de abrir o repouso, o sepulcro do claro bandido
e romper o ouvido oxidado que agora o enterra.
Talvez não encontrou seu destino o soldado e lamento
não ter conversado com ele, e com uma garrafa de vinho
ter esperado na História que passasse algum dia seu grande regimento.
Talvez aquele homem perdido no vento houvesse mudado o caminho.
O sangue caído lhe pôs nas mãos um raio violento,
agora passaram cem anos e já não podemos mudar seu destino:
assim é que comecemos sem ele e sem vinho nesta hora quieta
a história de meu compatriota, o bandido honorável don Joaquín Murieta.
É longa a história que aterra mais tarde e que nasce aqui abaixo
nesta angustura de terra que o Polo nos trouxe e o mar e a neve disputam,
aqui entre pereiras e telhas e chuva brilhavam as uvas chilenas
e como uma taça de prata que enche a noite sombria de pálido vinho
a lua do Chile crescia entre boldos, maitenes10, alfavacas, orégano, jasmins, feijões, loureiros, orvalho,
então nascia à luz do planeta um infante moreno
e na sombra serena é o raio que nasce, se chama Murieta,
e ninguém suspeita à luz da lua que um raio nascente
adormece no berço enquanto se esconde nos montes a lua:
é um menino chileno cor de azeitona e seus olhos ignoram o pranto.
Minha pátria lhe deu as medalhas do campo bravio, do pampa ardente:
parece ter forjado com frio e com brasas para uma batalha
seu corpo de arado e é um desafio sua voz e suas mãos são duas ameaças.
Vingança é o ferro, a pedra, a chuva, a fúria, a lança,
a chama, o rancor do desterro, a paz crepitante,
e o homem distante fica cego clamando na sombra vingança,
buscando na noite esperança sangrenta e castigo constante,
desperta o arredio e percorre a cavalo a terra noturna. Deus meu,
que busca o escuro à espreita do dano que brilha em sua mão cortante?
Vingança é o nome instantâneo de seu calafrio
que crava a carne ou golpeia no crânio ou assusta com boca alarmante
e mata e se afasta o dançante mortal galopando à beira do rio.
A chama do ouro percorre a terra do Chile do mar aos montes
e começa o desfile do horizonte até o Porto, o magnético feitiço,
despovoa Quillota, debulha Coquimbo, as naves esperam em Valparaíso.
Crescendo à sombra de salgueiros flexíveis nadava nos rios, domava os potros, lançava os laços,
ardia no brio, educava os braços, a alma, os olhos, e se ouviam cantar as esporas
quando do fundo do outono vermelho descia a galope em sua égua de estanho
vinha da cordilheira, de pedras hirsutas, de cerros hostis, de vento inumano,
trazia nas mãos o golpe vizinho do rio que fustiga e divide a neve fragrante e jazente
e o transpassava aquele livre alvedrio, a virtude selvagem que toca a fronte
dos indomáveis e sela com ira e limpeza o orgulho de algumas cabeças
que guarda o destino em suas atas de fogo e pureza, e assim o elegido
não sabe que está prometido e que deve matar e morrer na empresa.
Assim são as coisas amigo e é bom aprender e que saiba e conheça
os versos que escrevi e repita contando e cantando a lembrança de um livre chileno proscrito
que andando e andando e morrendo foi um mito infinito:
sua infância cantei ao instante e sabemos que foi o caminhante muito longe,
um dia mataram o chileno errante, contam os velhos de noite ao braseiro
e é como se falasse o riacho, a chuva silvante ou na nevasca chorasse no vento a neve distante
porque de Aconcágua partiu num veleiro buscando na água um caminho
e para a Califórnia a morte e o ouro chamavam com vozes ardentes que no fim decidiram seu negro destino.
Mas no caminho marinho, no branco veleiro maulino11
o amor sobreveio e Murieta descobre uns olhos escuros,
se sente inseguro perdido na nova certeza:
sua noiva se chama Tereza e ele não conheceu mulher camponesa
como esta Tereza que beija sua boca e seu sangue, e no grande oceano
perdida a barca na bruma, o amor se consuma e Murieta pressente que é este o amor infinito
e sabe talvez que está escrito seu fim e a morte o espera
e pede à Tereza sua noiva e mulher que se case com ele na nave veleira
e na primavera marinha Joaquín, domador de cavalos, tomou por esposa Tereza, mulher camponesa,
e os imigrantes em busca do ouro inumano e distante celebram este casamento
ouvindo as ondas que elevam seu eterno lamento;
e tal é a estranha cegueira do homem no rito da passageira alegria;
na nave o amor acendeu uma fogueira; não sabem que já começou a agonia.
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