Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
José Saramago
3
O elevador deixou de funcionar não se sabe quando mas a escada ainda serve
O que está para cima não importa do rés-do-chão ao vigésimo andar é senhorio do vento e das poucas aves que sobreviveram
Embora se afirme que em um dos milhares de compartimentos do edifício uma mulher ainda não parou o mais longo gemido da história do mundo
E também se diz que em outro dos compartimentos um homem aguarda que lhe cresçam as unhas o suficiente
Para espetando-as nos olhos chegar com elas ao côncavo do outro lado do crânio até porventura fazer calar o gemido invisível e abrir novos olhos para um mundo atrás deste
Mas o caminho por enquanto é para baixo menos um menos dois menos três ditos caves ou subterrâneos ou casas-fortes
Entre o primeiro e o segundo o elevador mostra o que resta do contínuo e do director principal
Ainda que não seja possível distinguir um do outro nem perguntando
Por acaso ficaram todas as portas abertas ou tiveram forças para se abrirem no último momento que lhes restara para isso
Razão por que podemos perceber sem necessidade de melhor lição a diferença entre riqueza mobiliária e riqueza imobiliária
Pelos corredores e salas reforçadas consoante as correntes de ar as notas voam com aquele rumor que fazem as folhas secas quando roçam umas nas outras
Enquanto os lingotes de ouro brilham sob uma luz que misteriosamente não se apagou
Como uma espécie de podridão fosforescente e venenosa
O que está para cima não importa do rés-do-chão ao vigésimo andar é senhorio do vento e das poucas aves que sobreviveram
Embora se afirme que em um dos milhares de compartimentos do edifício uma mulher ainda não parou o mais longo gemido da história do mundo
E também se diz que em outro dos compartimentos um homem aguarda que lhe cresçam as unhas o suficiente
Para espetando-as nos olhos chegar com elas ao côncavo do outro lado do crânio até porventura fazer calar o gemido invisível e abrir novos olhos para um mundo atrás deste
Mas o caminho por enquanto é para baixo menos um menos dois menos três ditos caves ou subterrâneos ou casas-fortes
Entre o primeiro e o segundo o elevador mostra o que resta do contínuo e do director principal
Ainda que não seja possível distinguir um do outro nem perguntando
Por acaso ficaram todas as portas abertas ou tiveram forças para se abrirem no último momento que lhes restara para isso
Razão por que podemos perceber sem necessidade de melhor lição a diferença entre riqueza mobiliária e riqueza imobiliária
Pelos corredores e salas reforçadas consoante as correntes de ar as notas voam com aquele rumor que fazem as folhas secas quando roçam umas nas outras
Enquanto os lingotes de ouro brilham sob uma luz que misteriosamente não se apagou
Como uma espécie de podridão fosforescente e venenosa
1 060
José Saramago
3
O elevador deixou de funcionar não se sabe quando mas a escada ainda serve
O que está para cima não importa do rés-do-chão ao vigésimo andar é senhorio do vento e das poucas aves que sobreviveram
Embora se afirme que em um dos milhares de compartimentos do edifício uma mulher ainda não parou o mais longo gemido da história do mundo
E também se diz que em outro dos compartimentos um homem aguarda que lhe cresçam as unhas o suficiente
Para espetando-as nos olhos chegar com elas ao côncavo do outro lado do crânio até porventura fazer calar o gemido invisível e abrir novos olhos para um mundo atrás deste
Mas o caminho por enquanto é para baixo menos um menos dois menos três ditos caves ou subterrâneos ou casas-fortes
Entre o primeiro e o segundo o elevador mostra o que resta do contínuo e do director principal
Ainda que não seja possível distinguir um do outro nem perguntando
Por acaso ficaram todas as portas abertas ou tiveram forças para se abrirem no último momento que lhes restara para isso
Razão por que podemos perceber sem necessidade de melhor lição a diferença entre riqueza mobiliária e riqueza imobiliária
Pelos corredores e salas reforçadas consoante as correntes de ar as notas voam com aquele rumor que fazem as folhas secas quando roçam umas nas outras
Enquanto os lingotes de ouro brilham sob uma luz que misteriosamente não se apagou
Como uma espécie de podridão fosforescente e venenosa
O que está para cima não importa do rés-do-chão ao vigésimo andar é senhorio do vento e das poucas aves que sobreviveram
Embora se afirme que em um dos milhares de compartimentos do edifício uma mulher ainda não parou o mais longo gemido da história do mundo
E também se diz que em outro dos compartimentos um homem aguarda que lhe cresçam as unhas o suficiente
Para espetando-as nos olhos chegar com elas ao côncavo do outro lado do crânio até porventura fazer calar o gemido invisível e abrir novos olhos para um mundo atrás deste
Mas o caminho por enquanto é para baixo menos um menos dois menos três ditos caves ou subterrâneos ou casas-fortes
Entre o primeiro e o segundo o elevador mostra o que resta do contínuo e do director principal
Ainda que não seja possível distinguir um do outro nem perguntando
Por acaso ficaram todas as portas abertas ou tiveram forças para se abrirem no último momento que lhes restara para isso
Razão por que podemos perceber sem necessidade de melhor lição a diferença entre riqueza mobiliária e riqueza imobiliária
Pelos corredores e salas reforçadas consoante as correntes de ar as notas voam com aquele rumor que fazem as folhas secas quando roçam umas nas outras
Enquanto os lingotes de ouro brilham sob uma luz que misteriosamente não se apagou
Como uma espécie de podridão fosforescente e venenosa
1 060
José Saramago
3
O elevador deixou de funcionar não se sabe quando mas a escada ainda serve
O que está para cima não importa do rés-do-chão ao vigésimo andar é senhorio do vento e das poucas aves que sobreviveram
Embora se afirme que em um dos milhares de compartimentos do edifício uma mulher ainda não parou o mais longo gemido da história do mundo
E também se diz que em outro dos compartimentos um homem aguarda que lhe cresçam as unhas o suficiente
Para espetando-as nos olhos chegar com elas ao côncavo do outro lado do crânio até porventura fazer calar o gemido invisível e abrir novos olhos para um mundo atrás deste
Mas o caminho por enquanto é para baixo menos um menos dois menos três ditos caves ou subterrâneos ou casas-fortes
Entre o primeiro e o segundo o elevador mostra o que resta do contínuo e do director principal
Ainda que não seja possível distinguir um do outro nem perguntando
Por acaso ficaram todas as portas abertas ou tiveram forças para se abrirem no último momento que lhes restara para isso
Razão por que podemos perceber sem necessidade de melhor lição a diferença entre riqueza mobiliária e riqueza imobiliária
Pelos corredores e salas reforçadas consoante as correntes de ar as notas voam com aquele rumor que fazem as folhas secas quando roçam umas nas outras
Enquanto os lingotes de ouro brilham sob uma luz que misteriosamente não se apagou
Como uma espécie de podridão fosforescente e venenosa
O que está para cima não importa do rés-do-chão ao vigésimo andar é senhorio do vento e das poucas aves que sobreviveram
Embora se afirme que em um dos milhares de compartimentos do edifício uma mulher ainda não parou o mais longo gemido da história do mundo
E também se diz que em outro dos compartimentos um homem aguarda que lhe cresçam as unhas o suficiente
Para espetando-as nos olhos chegar com elas ao côncavo do outro lado do crânio até porventura fazer calar o gemido invisível e abrir novos olhos para um mundo atrás deste
Mas o caminho por enquanto é para baixo menos um menos dois menos três ditos caves ou subterrâneos ou casas-fortes
Entre o primeiro e o segundo o elevador mostra o que resta do contínuo e do director principal
Ainda que não seja possível distinguir um do outro nem perguntando
Por acaso ficaram todas as portas abertas ou tiveram forças para se abrirem no último momento que lhes restara para isso
Razão por que podemos perceber sem necessidade de melhor lição a diferença entre riqueza mobiliária e riqueza imobiliária
Pelos corredores e salas reforçadas consoante as correntes de ar as notas voam com aquele rumor que fazem as folhas secas quando roçam umas nas outras
Enquanto os lingotes de ouro brilham sob uma luz que misteriosamente não se apagou
Como uma espécie de podridão fosforescente e venenosa
1 060
José Saramago
30
Uma vez mais os lugares conhecidos os lugares de solidão e de morte os centímetros quadrados de tortura as cores do sangue até à sua final cor de terra
Uma vez mais o infinito combate as batalhas aquelas que se ganharam e essas outras humildes perdidas e de que não se quer falar
Uma vez mais os suspiros sobretudo os últimos e os primeiros e os que estão entre uns e outros uma vez mais o braço sobre o ombro e o corpo sobre o corpo
Uma vez mais tudo o que uma vez foi ou muitas as pegadas de hoje na marca dos pés antigos uma vez mais a mão no gesto começado e interrompido e assim sucessivamente
Uma vez mais a ida e o regresso e agora a esperada fadiga entre duas altas montanhas num chão de pedra onde a sombra de repente fica enquanto o corpo se dissolve no ar
Assim olhar apartado a própria sombra com olhos invisíveis e sorrir disso enquanto as pessoas perplexas procuram onde nada está
E uma criança objectiva se aproxima e estende as mãos para a sombra que fragilmente retém o contorno ainda mas não já o cheiro do corpo sumido
Uma vez mais enfim o mundo o mundo algumas coisas feitas contadas tantas não e sabê-lo
Uma vez mais o impossível ficar ou a simples memória de ter sido
Consoante se conclui de nada haver debaixo da sombra que a criança levanta como uma pele esfolada
Uma vez mais o infinito combate as batalhas aquelas que se ganharam e essas outras humildes perdidas e de que não se quer falar
Uma vez mais os suspiros sobretudo os últimos e os primeiros e os que estão entre uns e outros uma vez mais o braço sobre o ombro e o corpo sobre o corpo
Uma vez mais tudo o que uma vez foi ou muitas as pegadas de hoje na marca dos pés antigos uma vez mais a mão no gesto começado e interrompido e assim sucessivamente
Uma vez mais a ida e o regresso e agora a esperada fadiga entre duas altas montanhas num chão de pedra onde a sombra de repente fica enquanto o corpo se dissolve no ar
Assim olhar apartado a própria sombra com olhos invisíveis e sorrir disso enquanto as pessoas perplexas procuram onde nada está
E uma criança objectiva se aproxima e estende as mãos para a sombra que fragilmente retém o contorno ainda mas não já o cheiro do corpo sumido
Uma vez mais enfim o mundo o mundo algumas coisas feitas contadas tantas não e sabê-lo
Uma vez mais o impossível ficar ou a simples memória de ter sido
Consoante se conclui de nada haver debaixo da sombra que a criança levanta como uma pele esfolada
1 111
José Saramago
30
Uma vez mais os lugares conhecidos os lugares de solidão e de morte os centímetros quadrados de tortura as cores do sangue até à sua final cor de terra
Uma vez mais o infinito combate as batalhas aquelas que se ganharam e essas outras humildes perdidas e de que não se quer falar
Uma vez mais os suspiros sobretudo os últimos e os primeiros e os que estão entre uns e outros uma vez mais o braço sobre o ombro e o corpo sobre o corpo
Uma vez mais tudo o que uma vez foi ou muitas as pegadas de hoje na marca dos pés antigos uma vez mais a mão no gesto começado e interrompido e assim sucessivamente
Uma vez mais a ida e o regresso e agora a esperada fadiga entre duas altas montanhas num chão de pedra onde a sombra de repente fica enquanto o corpo se dissolve no ar
Assim olhar apartado a própria sombra com olhos invisíveis e sorrir disso enquanto as pessoas perplexas procuram onde nada está
E uma criança objectiva se aproxima e estende as mãos para a sombra que fragilmente retém o contorno ainda mas não já o cheiro do corpo sumido
Uma vez mais enfim o mundo o mundo algumas coisas feitas contadas tantas não e sabê-lo
Uma vez mais o impossível ficar ou a simples memória de ter sido
Consoante se conclui de nada haver debaixo da sombra que a criança levanta como uma pele esfolada
Uma vez mais o infinito combate as batalhas aquelas que se ganharam e essas outras humildes perdidas e de que não se quer falar
Uma vez mais os suspiros sobretudo os últimos e os primeiros e os que estão entre uns e outros uma vez mais o braço sobre o ombro e o corpo sobre o corpo
Uma vez mais tudo o que uma vez foi ou muitas as pegadas de hoje na marca dos pés antigos uma vez mais a mão no gesto começado e interrompido e assim sucessivamente
Uma vez mais a ida e o regresso e agora a esperada fadiga entre duas altas montanhas num chão de pedra onde a sombra de repente fica enquanto o corpo se dissolve no ar
Assim olhar apartado a própria sombra com olhos invisíveis e sorrir disso enquanto as pessoas perplexas procuram onde nada está
E uma criança objectiva se aproxima e estende as mãos para a sombra que fragilmente retém o contorno ainda mas não já o cheiro do corpo sumido
Uma vez mais enfim o mundo o mundo algumas coisas feitas contadas tantas não e sabê-lo
Uma vez mais o impossível ficar ou a simples memória de ter sido
Consoante se conclui de nada haver debaixo da sombra que a criança levanta como uma pele esfolada
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José Saramago
2
Os habitantes da cidade doente de peste estão reunidos na praça grande que assim ficou conhecida porque todas as outras se atulharam de ruínas
Foram tirados das suas casas por uma ordem que ninguém ouviu
Porém segundo estava escrito em lendas antiquíssimas haveria vozes vindas do céu ou trombetas ou luzes extraordinárias e todos quiseram estar presentes
Alguma coisa podia talvez suceder no mundo antes do triunfo final da peste nem que fosse uma peste maior
Ali estão pois na praça angustiados e em silêncio à espera
E depois nada mais se ouve que uma aérea e delicada música de cravo
Qualquer fuga composta há duzentos e cinquenta anos por João Sebastião Bach em Leipzig
É então que os homens e as mulheres sem esperança se deixam cair no pavimento estalado da praça
Enquanto a música se afasta e voa sobre os campos devastados
Foram tirados das suas casas por uma ordem que ninguém ouviu
Porém segundo estava escrito em lendas antiquíssimas haveria vozes vindas do céu ou trombetas ou luzes extraordinárias e todos quiseram estar presentes
Alguma coisa podia talvez suceder no mundo antes do triunfo final da peste nem que fosse uma peste maior
Ali estão pois na praça angustiados e em silêncio à espera
E depois nada mais se ouve que uma aérea e delicada música de cravo
Qualquer fuga composta há duzentos e cinquenta anos por João Sebastião Bach em Leipzig
É então que os homens e as mulheres sem esperança se deixam cair no pavimento estalado da praça
Enquanto a música se afasta e voa sobre os campos devastados
977
José Saramago
18
Muito perto do lugar escolhido para o novo acampamento as quatro mulheres que transportavam o fogo gritaram de desespero
Ninguém morrera subitamente ninguém fora arrebatado aos ares pelas águias mecânicas que os ocupantes lançavam sobre os bandos fugitivos
Mas ao apagar-se o fogo acontecera a desgraça de todas mais temida porque com ela seria o tempo do pavor sem remédio do negrume gelado da solidão
E metade da horda viria certamente a sucumbir na tentativa de arrancar às cidades ocupadas um novo lume se para tanto tivesse coragem
Reuniram-se em volta das cinzas e ali mesmo o chefe foi deposto e as quatro mulheres apedrejadas mas não até à morte
Porque os perseguidos estavam tão certos de morrer que respeitavam a vida e provavelmente por isso morriam com tanta facilidade
Assim começou aquela primeira noite de escuridão com todo o bando amassado numa nódoa de sombra sob o pálido e distante luzeiro das estrelas
Como sempre faziam ao fim do dia contaram-se e souberam que eram menos um
E quando apesar da sua tão grande miséria tornaram a lamentar-se por este pouco
Uma criança disse que vira afastar-se na direcção do poente um homem da tribo e que isso fora depois de o lume se apagar
A noite foi como um lastro de lama porque as estrelas estavam longe e ardiam friamente
E o dia seguinte nasceu e passou sem que se movessem dali comeram dormiram e alguns juntaram os sexos para não terem tanto medo
Outra noite se levantou da terra e vieram os lobos mecânicos que levaram consigo de rastos os dez homens mais fortes
Só se afastaram quando o sol começou a aparecer e uivaram de longe com as suas gargantas de ferro enquanto das feridas dos mortos pingava o sangue
Então sobre o disco vermelho viram os homens e as mulheres sobreviventes um ponto negro que aumentava e julgaram que o próprio sol ia apagar-se
Até ao momento em que distinguiram o homem que corria para eles o companheiro que os deixara duas noites antes e que nesse homem havia também um ponto luminoso
Uma labareda que vinha no braço levantado e que era a própria mão ardendo da luz do sol roubada
Ninguém morrera subitamente ninguém fora arrebatado aos ares pelas águias mecânicas que os ocupantes lançavam sobre os bandos fugitivos
Mas ao apagar-se o fogo acontecera a desgraça de todas mais temida porque com ela seria o tempo do pavor sem remédio do negrume gelado da solidão
E metade da horda viria certamente a sucumbir na tentativa de arrancar às cidades ocupadas um novo lume se para tanto tivesse coragem
Reuniram-se em volta das cinzas e ali mesmo o chefe foi deposto e as quatro mulheres apedrejadas mas não até à morte
Porque os perseguidos estavam tão certos de morrer que respeitavam a vida e provavelmente por isso morriam com tanta facilidade
Assim começou aquela primeira noite de escuridão com todo o bando amassado numa nódoa de sombra sob o pálido e distante luzeiro das estrelas
Como sempre faziam ao fim do dia contaram-se e souberam que eram menos um
E quando apesar da sua tão grande miséria tornaram a lamentar-se por este pouco
Uma criança disse que vira afastar-se na direcção do poente um homem da tribo e que isso fora depois de o lume se apagar
A noite foi como um lastro de lama porque as estrelas estavam longe e ardiam friamente
E o dia seguinte nasceu e passou sem que se movessem dali comeram dormiram e alguns juntaram os sexos para não terem tanto medo
Outra noite se levantou da terra e vieram os lobos mecânicos que levaram consigo de rastos os dez homens mais fortes
Só se afastaram quando o sol começou a aparecer e uivaram de longe com as suas gargantas de ferro enquanto das feridas dos mortos pingava o sangue
Então sobre o disco vermelho viram os homens e as mulheres sobreviventes um ponto negro que aumentava e julgaram que o próprio sol ia apagar-se
Até ao momento em que distinguiram o homem que corria para eles o companheiro que os deixara duas noites antes e que nesse homem havia também um ponto luminoso
Uma labareda que vinha no braço levantado e que era a própria mão ardendo da luz do sol roubada
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José Saramago
18
Muito perto do lugar escolhido para o novo acampamento as quatro mulheres que transportavam o fogo gritaram de desespero
Ninguém morrera subitamente ninguém fora arrebatado aos ares pelas águias mecânicas que os ocupantes lançavam sobre os bandos fugitivos
Mas ao apagar-se o fogo acontecera a desgraça de todas mais temida porque com ela seria o tempo do pavor sem remédio do negrume gelado da solidão
E metade da horda viria certamente a sucumbir na tentativa de arrancar às cidades ocupadas um novo lume se para tanto tivesse coragem
Reuniram-se em volta das cinzas e ali mesmo o chefe foi deposto e as quatro mulheres apedrejadas mas não até à morte
Porque os perseguidos estavam tão certos de morrer que respeitavam a vida e provavelmente por isso morriam com tanta facilidade
Assim começou aquela primeira noite de escuridão com todo o bando amassado numa nódoa de sombra sob o pálido e distante luzeiro das estrelas
Como sempre faziam ao fim do dia contaram-se e souberam que eram menos um
E quando apesar da sua tão grande miséria tornaram a lamentar-se por este pouco
Uma criança disse que vira afastar-se na direcção do poente um homem da tribo e que isso fora depois de o lume se apagar
A noite foi como um lastro de lama porque as estrelas estavam longe e ardiam friamente
E o dia seguinte nasceu e passou sem que se movessem dali comeram dormiram e alguns juntaram os sexos para não terem tanto medo
Outra noite se levantou da terra e vieram os lobos mecânicos que levaram consigo de rastos os dez homens mais fortes
Só se afastaram quando o sol começou a aparecer e uivaram de longe com as suas gargantas de ferro enquanto das feridas dos mortos pingava o sangue
Então sobre o disco vermelho viram os homens e as mulheres sobreviventes um ponto negro que aumentava e julgaram que o próprio sol ia apagar-se
Até ao momento em que distinguiram o homem que corria para eles o companheiro que os deixara duas noites antes e que nesse homem havia também um ponto luminoso
Uma labareda que vinha no braço levantado e que era a própria mão ardendo da luz do sol roubada
Ninguém morrera subitamente ninguém fora arrebatado aos ares pelas águias mecânicas que os ocupantes lançavam sobre os bandos fugitivos
Mas ao apagar-se o fogo acontecera a desgraça de todas mais temida porque com ela seria o tempo do pavor sem remédio do negrume gelado da solidão
E metade da horda viria certamente a sucumbir na tentativa de arrancar às cidades ocupadas um novo lume se para tanto tivesse coragem
Reuniram-se em volta das cinzas e ali mesmo o chefe foi deposto e as quatro mulheres apedrejadas mas não até à morte
Porque os perseguidos estavam tão certos de morrer que respeitavam a vida e provavelmente por isso morriam com tanta facilidade
Assim começou aquela primeira noite de escuridão com todo o bando amassado numa nódoa de sombra sob o pálido e distante luzeiro das estrelas
Como sempre faziam ao fim do dia contaram-se e souberam que eram menos um
E quando apesar da sua tão grande miséria tornaram a lamentar-se por este pouco
Uma criança disse que vira afastar-se na direcção do poente um homem da tribo e que isso fora depois de o lume se apagar
A noite foi como um lastro de lama porque as estrelas estavam longe e ardiam friamente
E o dia seguinte nasceu e passou sem que se movessem dali comeram dormiram e alguns juntaram os sexos para não terem tanto medo
Outra noite se levantou da terra e vieram os lobos mecânicos que levaram consigo de rastos os dez homens mais fortes
Só se afastaram quando o sol começou a aparecer e uivaram de longe com as suas gargantas de ferro enquanto das feridas dos mortos pingava o sangue
Então sobre o disco vermelho viram os homens e as mulheres sobreviventes um ponto negro que aumentava e julgaram que o próprio sol ia apagar-se
Até ao momento em que distinguiram o homem que corria para eles o companheiro que os deixara duas noites antes e que nesse homem havia também um ponto luminoso
Uma labareda que vinha no braço levantado e que era a própria mão ardendo da luz do sol roubada
1 125
José Saramago
11
Foram requisitados todos os termómetros da cidade e proibida sob pena de morte a sua posse
Nenhuma explicação por notícia no diário da ocupação ou edital
Também nenhum locutor da rádio ou da televisão ousou juntar qualquer comentário à leitura da ordem redigida pelas autoridades encarregadas da informação
Graças ao desaparecimento dos termómetros as crianças puderam muitas pela primeira vez sentir a frescura das mãos do pai ou da mãe sobre a testa quente
Alguma coisa portanto parecia ter sido ganha
Até ao dia em que a população compreendeu o fim a que se destinava o mercúrio retirado dos termómetros e todo o outro existente noutros lugares
As pessoas que moravam na periferia da cidade e por isso podiam ver o nascer do sol
Acreditaram enfim que o mundo ia acabar porque ao lado do velho sol alaranjado subia uma esfera fria e negra com reflexos de cinza
Só essas pessoas assistiram ao primeiro aparecimento do grande olho que iria passar a vigiar a cidade
Só esses o viram no seu primeiro tamanho
Mal o sol verdadeiro subiu um pouco no horizonte a esfera de mercúrio dividiu-se em duas em quatro em oito em dezasseis em trinta e duas em centenas de esferas que se espalharam por toda a parte
Deslocavam-se no ar silenciosamente e continuavam a dividir-se até que houve tantas esferas quantos os habitantes da cidade
Fora instituído o olho de vigilância individual o olho que não dorme nunca
Mas as mães têm reparado que sobre a esfera de mercúrio desce uma espécie de véu sempre que as suas mãos pousam nas testas das crianças com febre
Nessas ocasiões o ordenador central recebe dados insólitos que falseiam a informação geral
Embora pareça incrível que tenha sido por qualquer razão dessas que desapareceu há pouco tempo sem deixar rasto um batalhão inteiro do exército ocupante
Nenhuma explicação por notícia no diário da ocupação ou edital
Também nenhum locutor da rádio ou da televisão ousou juntar qualquer comentário à leitura da ordem redigida pelas autoridades encarregadas da informação
Graças ao desaparecimento dos termómetros as crianças puderam muitas pela primeira vez sentir a frescura das mãos do pai ou da mãe sobre a testa quente
Alguma coisa portanto parecia ter sido ganha
Até ao dia em que a população compreendeu o fim a que se destinava o mercúrio retirado dos termómetros e todo o outro existente noutros lugares
As pessoas que moravam na periferia da cidade e por isso podiam ver o nascer do sol
Acreditaram enfim que o mundo ia acabar porque ao lado do velho sol alaranjado subia uma esfera fria e negra com reflexos de cinza
Só essas pessoas assistiram ao primeiro aparecimento do grande olho que iria passar a vigiar a cidade
Só esses o viram no seu primeiro tamanho
Mal o sol verdadeiro subiu um pouco no horizonte a esfera de mercúrio dividiu-se em duas em quatro em oito em dezasseis em trinta e duas em centenas de esferas que se espalharam por toda a parte
Deslocavam-se no ar silenciosamente e continuavam a dividir-se até que houve tantas esferas quantos os habitantes da cidade
Fora instituído o olho de vigilância individual o olho que não dorme nunca
Mas as mães têm reparado que sobre a esfera de mercúrio desce uma espécie de véu sempre que as suas mãos pousam nas testas das crianças com febre
Nessas ocasiões o ordenador central recebe dados insólitos que falseiam a informação geral
Embora pareça incrível que tenha sido por qualquer razão dessas que desapareceu há pouco tempo sem deixar rasto um batalhão inteiro do exército ocupante
932
José Saramago
Espaço Curvo E Finito
Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças e ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe, um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças e ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe, um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.
1 378
Stela do Patrocínio
Eu não queria me formar
Eu não queria me formar
Não queria nascer
Não queria formar forma humana
Carne humana e matéria humana
Não queria saber de viver
Não queria saber da vida
Eu não tive querer
Nem vontade para essas coisas
E até hoje eu não tenho querer
nem vontade para essas coisas
Não queria nascer
Não queria formar forma humana
Carne humana e matéria humana
Não queria saber de viver
Não queria saber da vida
Eu não tive querer
Nem vontade para essas coisas
E até hoje eu não tenho querer
nem vontade para essas coisas
731
Stela do Patrocínio
Eu não queria me formar
Eu não queria me formar
Não queria nascer
Não queria formar forma humana
Carne humana e matéria humana
Não queria saber de viver
Não queria saber da vida
Eu não tive querer
Nem vontade para essas coisas
E até hoje eu não tenho querer
nem vontade para essas coisas
Não queria nascer
Não queria formar forma humana
Carne humana e matéria humana
Não queria saber de viver
Não queria saber da vida
Eu não tive querer
Nem vontade para essas coisas
E até hoje eu não tenho querer
nem vontade para essas coisas
731
José Saramago
Pesadelo
Há um terror de mãos na madrugada,
Um rangido de porta, uma suspeita,
Um grito perfurante como espada,
Um olho exorbitado que me espreita.
Há um fragor de fim e derrocada,
Um doente que rasga uma receita,
Uma criança que chora sufocada,
Um juramento que ninguém aceita,
Uma esquina que salta de emboscada,
Um risco negro, um braço que rejeita,
Um resto de comida mastigada,
Uma mulher espancada que se deita.
Nove círculos de inferno teve o sonho,
Doze provas mortais para vencer,
Mas nasce o dia, e o dia recomponho:
Tinha de ser, amor, tinha de ser.
Um rangido de porta, uma suspeita,
Um grito perfurante como espada,
Um olho exorbitado que me espreita.
Há um fragor de fim e derrocada,
Um doente que rasga uma receita,
Uma criança que chora sufocada,
Um juramento que ninguém aceita,
Uma esquina que salta de emboscada,
Um risco negro, um braço que rejeita,
Um resto de comida mastigada,
Uma mulher espancada que se deita.
Nove círculos de inferno teve o sonho,
Doze provas mortais para vencer,
Mas nasce o dia, e o dia recomponho:
Tinha de ser, amor, tinha de ser.
887
José Saramago
Pesadelo
Há um terror de mãos na madrugada,
Um rangido de porta, uma suspeita,
Um grito perfurante como espada,
Um olho exorbitado que me espreita.
Há um fragor de fim e derrocada,
Um doente que rasga uma receita,
Uma criança que chora sufocada,
Um juramento que ninguém aceita,
Uma esquina que salta de emboscada,
Um risco negro, um braço que rejeita,
Um resto de comida mastigada,
Uma mulher espancada que se deita.
Nove círculos de inferno teve o sonho,
Doze provas mortais para vencer,
Mas nasce o dia, e o dia recomponho:
Tinha de ser, amor, tinha de ser.
Um rangido de porta, uma suspeita,
Um grito perfurante como espada,
Um olho exorbitado que me espreita.
Há um fragor de fim e derrocada,
Um doente que rasga uma receita,
Uma criança que chora sufocada,
Um juramento que ninguém aceita,
Uma esquina que salta de emboscada,
Um risco negro, um braço que rejeita,
Um resto de comida mastigada,
Uma mulher espancada que se deita.
Nove círculos de inferno teve o sonho,
Doze provas mortais para vencer,
Mas nasce o dia, e o dia recomponho:
Tinha de ser, amor, tinha de ser.
887
José Saramago
Pesadelo
Há um terror de mãos na madrugada,
Um rangido de porta, uma suspeita,
Um grito perfurante como espada,
Um olho exorbitado que me espreita.
Há um fragor de fim e derrocada,
Um doente que rasga uma receita,
Uma criança que chora sufocada,
Um juramento que ninguém aceita,
Uma esquina que salta de emboscada,
Um risco negro, um braço que rejeita,
Um resto de comida mastigada,
Uma mulher espancada que se deita.
Nove círculos de inferno teve o sonho,
Doze provas mortais para vencer,
Mas nasce o dia, e o dia recomponho:
Tinha de ser, amor, tinha de ser.
Um rangido de porta, uma suspeita,
Um grito perfurante como espada,
Um olho exorbitado que me espreita.
Há um fragor de fim e derrocada,
Um doente que rasga uma receita,
Uma criança que chora sufocada,
Um juramento que ninguém aceita,
Uma esquina que salta de emboscada,
Um risco negro, um braço que rejeita,
Um resto de comida mastigada,
Uma mulher espancada que se deita.
Nove círculos de inferno teve o sonho,
Doze provas mortais para vencer,
Mas nasce o dia, e o dia recomponho:
Tinha de ser, amor, tinha de ser.
887
Stela do Patrocínio
Eu já não tenho mais voz
Eu já não tenho mais voz
Porque já falei tudo o que tinha pra falar
Falo, falo, falo, falo o tempo todo
E é como se eu não tivesse falado nada
Eu sinto fome e matam minha fome
Eu sinto sede e matam a minha sede
Fico cansada falo que tô cansada
Matam meu cansaço
Eu fico com preguiça matam minha preguiça
Fico com sono
Quando eu reclamo
Porque já falei tudo o que tinha pra falar
Falo, falo, falo, falo o tempo todo
E é como se eu não tivesse falado nada
Eu sinto fome e matam minha fome
Eu sinto sede e matam a minha sede
Fico cansada falo que tô cansada
Matam meu cansaço
Eu fico com preguiça matam minha preguiça
Fico com sono
Quando eu reclamo
904
Stela do Patrocínio
Eu já não tenho mais voz
Eu já não tenho mais voz
Porque já falei tudo o que tinha pra falar
Falo, falo, falo, falo o tempo todo
E é como se eu não tivesse falado nada
Eu sinto fome e matam minha fome
Eu sinto sede e matam a minha sede
Fico cansada falo que tô cansada
Matam meu cansaço
Eu fico com preguiça matam minha preguiça
Fico com sono
Quando eu reclamo
Porque já falei tudo o que tinha pra falar
Falo, falo, falo, falo o tempo todo
E é como se eu não tivesse falado nada
Eu sinto fome e matam minha fome
Eu sinto sede e matam a minha sede
Fico cansada falo que tô cansada
Matam meu cansaço
Eu fico com preguiça matam minha preguiça
Fico com sono
Quando eu reclamo
904
José Saramago
28
Uma após a outra as cidades foram reconquistadas e de todos os lugares afluíam as hordas que outro nome começavam a merecer
Vinham uns pelas planícies como vagarosos formigueiros outros subindo e descendo pelas lombas das colinas outros cortando caminho a meia encosta das montanhas
E todos vadeando os rios ou neles navegando nos barcos que restavam ou em jangadas que derivavam nas correntes rápidas
E quando chegavam à vista das cidades vinham os de dentro a recebê-los levando flores e pão porque de ambos tinham fome os que haviam vivido nas terras devastadas
E diziam os sofrimentos mútuos e riam chorando e mostravam as feridas dos combates e depois iam aos julgamentos dos invasores que todos seriam condenados à morte sem excepção
Porque eram os senhores da morte os empresários da tortura e por isso tinham de ser retribuídos na única moeda que conheciam
Porém muitas batalhas farão ainda mortos entre os que riem agora e choram não a morte para eles próxima mas a alegria de estar vivo
Ó este povo que corre nas ruas e estas bandeiras e estes gritos e estes punhos fechados enquanto as cobras os ratos e as aranhas da contagem se somem no chão
Ó estes olhos luminosos que apagam um a um os frios olhos de mercúrio que flutuavam sobre as cabeças da gente da cidade
E agora é necessário ir ao deserto destruir a pirâmide que os faraós fizeram construir sobre o dorso dos escravos e com o suor dos escravos
E arrancar pedra a pedra porque faltam os explosivos mas sobretudo porque este trabalho deve ser feito com as nuas mãos de cada um
Para que verdadeiramente seja um trabalho nosso e comecem a ser possíveis todas as coisas que ninguém prometeu aos homens mas que não poderão existir sem eles
Vinham uns pelas planícies como vagarosos formigueiros outros subindo e descendo pelas lombas das colinas outros cortando caminho a meia encosta das montanhas
E todos vadeando os rios ou neles navegando nos barcos que restavam ou em jangadas que derivavam nas correntes rápidas
E quando chegavam à vista das cidades vinham os de dentro a recebê-los levando flores e pão porque de ambos tinham fome os que haviam vivido nas terras devastadas
E diziam os sofrimentos mútuos e riam chorando e mostravam as feridas dos combates e depois iam aos julgamentos dos invasores que todos seriam condenados à morte sem excepção
Porque eram os senhores da morte os empresários da tortura e por isso tinham de ser retribuídos na única moeda que conheciam
Porém muitas batalhas farão ainda mortos entre os que riem agora e choram não a morte para eles próxima mas a alegria de estar vivo
Ó este povo que corre nas ruas e estas bandeiras e estes gritos e estes punhos fechados enquanto as cobras os ratos e as aranhas da contagem se somem no chão
Ó estes olhos luminosos que apagam um a um os frios olhos de mercúrio que flutuavam sobre as cabeças da gente da cidade
E agora é necessário ir ao deserto destruir a pirâmide que os faraós fizeram construir sobre o dorso dos escravos e com o suor dos escravos
E arrancar pedra a pedra porque faltam os explosivos mas sobretudo porque este trabalho deve ser feito com as nuas mãos de cada um
Para que verdadeiramente seja um trabalho nosso e comecem a ser possíveis todas as coisas que ninguém prometeu aos homens mas que não poderão existir sem eles
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José Saramago
15
Porém não devemos esquecer o mar que é o princípio e o fim de todas as coisas
É certo que nos dias de 1993 poucas pessoas ainda serão capazes de imaginar os primeiros tempos do mundo
Quando nenhum animal percorria a terra ou voava sobre ela
Quando nada que merecesse o nome de planta rompia o solo instável
Então a enorme caldeira do mar elaborava a alquimia da pedra filosofal que tudo mudava em vida e alguma coisa em ouro
Também para os dias de 1993 o futuro para além do futuro parecerá impossível
Quando o mar cobrir os continentes gastos e a terra rebrilhar no espaço como um espelho gelado
E outra vez nenhuma planta a não ser as algas marinhas nenhum animal a não ser os mais pesados e já moribundos peixes
Agora os homens apenas procuram o mar para se lamentarem diante da grande voz das ondas
E postos de joelhos em linha com os braços abertos recebendo no rosto a fustigação do vento e da espuma
Gritam ensurdecidos pelo estrépito a miséria extrema que por agora os dispersa na terra
E quando enfim se calam assombrados pelo pavor que são capazes de suportar
O mar subitamente acalma e um lento murmúrio de um lado e do outro reconsidera os factos
Que em verdade não excluem uma maré renovada e uma coragem à medida do tempo que passou desde a primeira de todas as mortes
Sem o que não seria possível juntarem-se outra vez os homens e subirem a escarpa a caminho da terra ocupada
É certo que nos dias de 1993 poucas pessoas ainda serão capazes de imaginar os primeiros tempos do mundo
Quando nenhum animal percorria a terra ou voava sobre ela
Quando nada que merecesse o nome de planta rompia o solo instável
Então a enorme caldeira do mar elaborava a alquimia da pedra filosofal que tudo mudava em vida e alguma coisa em ouro
Também para os dias de 1993 o futuro para além do futuro parecerá impossível
Quando o mar cobrir os continentes gastos e a terra rebrilhar no espaço como um espelho gelado
E outra vez nenhuma planta a não ser as algas marinhas nenhum animal a não ser os mais pesados e já moribundos peixes
Agora os homens apenas procuram o mar para se lamentarem diante da grande voz das ondas
E postos de joelhos em linha com os braços abertos recebendo no rosto a fustigação do vento e da espuma
Gritam ensurdecidos pelo estrépito a miséria extrema que por agora os dispersa na terra
E quando enfim se calam assombrados pelo pavor que são capazes de suportar
O mar subitamente acalma e um lento murmúrio de um lado e do outro reconsidera os factos
Que em verdade não excluem uma maré renovada e uma coragem à medida do tempo que passou desde a primeira de todas as mortes
Sem o que não seria possível juntarem-se outra vez os homens e subirem a escarpa a caminho da terra ocupada
932
José Saramago
7
O comandante das tropas de ocupação tem um feiticeiro no seu estado-maior
Mas o sentido da honra militar embora condescendente noutros casos sempre o impediu de utilizar esses poderes sobrenaturais para ganhar batalhas
O feiticeiro apenas intervém quando ao comandante das tropas de ocupação apraz usar o chicote
Nessas ocasiões saem ambos para os arredores da cidade e postos num ponto alto convoca o mágico os poderes ocultos e por eles reduz a cidade ao tamanho de um corpo humano
Então o comandante das tropas de ocupação faz estalar três vezes a ponta para habituar o braço e logo a seguir chicoteia a cidade até se cansar
O feiticeiro que entretanto assistira respeitosamente afastado apela para os poderes ocultos contrários e a cidade torna ao seu tamanho natural
Sempre que isto acontece os habitantes ao encontrarem-se nas ruas perguntam uns aos outros que sinais são aqueles de chicotadas na cara
Quando tão seguros estão de que ninguém os chicoteou nem tal consentiriam
Mas o sentido da honra militar embora condescendente noutros casos sempre o impediu de utilizar esses poderes sobrenaturais para ganhar batalhas
O feiticeiro apenas intervém quando ao comandante das tropas de ocupação apraz usar o chicote
Nessas ocasiões saem ambos para os arredores da cidade e postos num ponto alto convoca o mágico os poderes ocultos e por eles reduz a cidade ao tamanho de um corpo humano
Então o comandante das tropas de ocupação faz estalar três vezes a ponta para habituar o braço e logo a seguir chicoteia a cidade até se cansar
O feiticeiro que entretanto assistira respeitosamente afastado apela para os poderes ocultos contrários e a cidade torna ao seu tamanho natural
Sempre que isto acontece os habitantes ao encontrarem-se nas ruas perguntam uns aos outros que sinais são aqueles de chicotadas na cara
Quando tão seguros estão de que ninguém os chicoteou nem tal consentiriam
623
José Saramago
16
Podia ter acontecido a qualquer hora do dia
Quando debaixo do sol a horda se deslocasse na rasa e dura planície
Ou quando à sombra de uma rocha alta acreditasse no fim dos males do mundo só porque ali uma frescura passageira os tornava distantes
Ou quando a penumbra miserável fizesse apetecer uma lenta dissolução no espaço
Mas foi de noite na negrura aflita da caverna lá onde só o olho vermelho das brasas tinha pena dos homens
Onde o cheiro dos corpos humilhados de gases de suor de descargas de sémen
E onde intermináveis insónias se resolviam em suicídios
Que subitamente um homem descobriu que não sabia ler
Em vão recordava as letras em vão as desenhava ele próprio na memória
Eram riscos cegos na escuridão desenhos de Marte Mercúrio ou Plutão ou ainda a escrita do sistema planetário da Betelgeuse
Nada que fosse humano e fraterno nada que tivesse o gosto comum do pão e do sal
Quando o sol nasceu e a horda saiu para o ar livre e para o mundo aprisionado
O homem sentou-se no chão dobrado como um feto
E prometeu morrer sem resistência se a lepra que lhe nascera durante a noite não fosse nunca descoberta pelos companheiros que talvez ainda soubessem ler
Quando debaixo do sol a horda se deslocasse na rasa e dura planície
Ou quando à sombra de uma rocha alta acreditasse no fim dos males do mundo só porque ali uma frescura passageira os tornava distantes
Ou quando a penumbra miserável fizesse apetecer uma lenta dissolução no espaço
Mas foi de noite na negrura aflita da caverna lá onde só o olho vermelho das brasas tinha pena dos homens
Onde o cheiro dos corpos humilhados de gases de suor de descargas de sémen
E onde intermináveis insónias se resolviam em suicídios
Que subitamente um homem descobriu que não sabia ler
Em vão recordava as letras em vão as desenhava ele próprio na memória
Eram riscos cegos na escuridão desenhos de Marte Mercúrio ou Plutão ou ainda a escrita do sistema planetário da Betelgeuse
Nada que fosse humano e fraterno nada que tivesse o gosto comum do pão e do sal
Quando o sol nasceu e a horda saiu para o ar livre e para o mundo aprisionado
O homem sentou-se no chão dobrado como um feto
E prometeu morrer sem resistência se a lepra que lhe nascera durante a noite não fosse nunca descoberta pelos companheiros que talvez ainda soubessem ler
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José Saramago
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Podia ter acontecido a qualquer hora do dia
Quando debaixo do sol a horda se deslocasse na rasa e dura planície
Ou quando à sombra de uma rocha alta acreditasse no fim dos males do mundo só porque ali uma frescura passageira os tornava distantes
Ou quando a penumbra miserável fizesse apetecer uma lenta dissolução no espaço
Mas foi de noite na negrura aflita da caverna lá onde só o olho vermelho das brasas tinha pena dos homens
Onde o cheiro dos corpos humilhados de gases de suor de descargas de sémen
E onde intermináveis insónias se resolviam em suicídios
Que subitamente um homem descobriu que não sabia ler
Em vão recordava as letras em vão as desenhava ele próprio na memória
Eram riscos cegos na escuridão desenhos de Marte Mercúrio ou Plutão ou ainda a escrita do sistema planetário da Betelgeuse
Nada que fosse humano e fraterno nada que tivesse o gosto comum do pão e do sal
Quando o sol nasceu e a horda saiu para o ar livre e para o mundo aprisionado
O homem sentou-se no chão dobrado como um feto
E prometeu morrer sem resistência se a lepra que lhe nascera durante a noite não fosse nunca descoberta pelos companheiros que talvez ainda soubessem ler
Quando debaixo do sol a horda se deslocasse na rasa e dura planície
Ou quando à sombra de uma rocha alta acreditasse no fim dos males do mundo só porque ali uma frescura passageira os tornava distantes
Ou quando a penumbra miserável fizesse apetecer uma lenta dissolução no espaço
Mas foi de noite na negrura aflita da caverna lá onde só o olho vermelho das brasas tinha pena dos homens
Onde o cheiro dos corpos humilhados de gases de suor de descargas de sémen
E onde intermináveis insónias se resolviam em suicídios
Que subitamente um homem descobriu que não sabia ler
Em vão recordava as letras em vão as desenhava ele próprio na memória
Eram riscos cegos na escuridão desenhos de Marte Mercúrio ou Plutão ou ainda a escrita do sistema planetário da Betelgeuse
Nada que fosse humano e fraterno nada que tivesse o gosto comum do pão e do sal
Quando o sol nasceu e a horda saiu para o ar livre e para o mundo aprisionado
O homem sentou-se no chão dobrado como um feto
E prometeu morrer sem resistência se a lepra que lhe nascera durante a noite não fosse nunca descoberta pelos companheiros que talvez ainda soubessem ler
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José Saramago
21
Não admira que fosse preciso reaprender a linguagem simplificada da fome e do frio
E também as palavras da manhã e da noite e aquelas que determinam no céu o caminho das estrelas ou apenas o perfil da montanha
Porque se sabiam as sensações e não as palavras que as tornavam úteis no comércio ou simplesmente suportáveis
Se durante o descanso nocturno uma mulher puxava para si um homem e ambos por minutos calados cuidavam do seu próprio prazer sem mais
Nenhum dos dois ou dos outros homens e mulheres que distraidamente olhavam
Diria amor ou desejo ou vontade de suicídio ou somente acto mecânico sobrante do espelho multiplicado do lento erguer dos membros viris para as vulvas húmidas
E se alguma coisa fizessem precisamente seria erguer e humedecer sem que a vontade o decidisse mas o instinto o gosto de imitar mesmo sabendo de antemão como tudo se acabaria
Só por isso às vezes a caverna se enchia de gemidos e os vultos se sacudiam no chão deitados enquanto as crianças olhavam já atentas e imitavam os gestos cada vez mais pobres
Ninguém o saberia dizer mas o tempo era de tristeza a pior por ser a aresta agudíssima e cruel que junta as faces da vida e da morte que em algum lugar haviam de encontrar-se
Talvez porém o diferente olhar que trocaram agora mesmo um homem e uma mulher no caminho estreito
E tendo-se olhado e visto prosseguiram enquanto o sangue rolava nos apertados túneis das artérias
Como quem tranquilamente sabe que outra vez virão a encontrar-se para enfim
Talvez este silêncio seja o esforço abrindo os foles do pulmão prosaicamente abrindo ó sem poesia abrindo
Para começar o outra vez doloroso nascimento duma primeira palavra
E também as palavras da manhã e da noite e aquelas que determinam no céu o caminho das estrelas ou apenas o perfil da montanha
Porque se sabiam as sensações e não as palavras que as tornavam úteis no comércio ou simplesmente suportáveis
Se durante o descanso nocturno uma mulher puxava para si um homem e ambos por minutos calados cuidavam do seu próprio prazer sem mais
Nenhum dos dois ou dos outros homens e mulheres que distraidamente olhavam
Diria amor ou desejo ou vontade de suicídio ou somente acto mecânico sobrante do espelho multiplicado do lento erguer dos membros viris para as vulvas húmidas
E se alguma coisa fizessem precisamente seria erguer e humedecer sem que a vontade o decidisse mas o instinto o gosto de imitar mesmo sabendo de antemão como tudo se acabaria
Só por isso às vezes a caverna se enchia de gemidos e os vultos se sacudiam no chão deitados enquanto as crianças olhavam já atentas e imitavam os gestos cada vez mais pobres
Ninguém o saberia dizer mas o tempo era de tristeza a pior por ser a aresta agudíssima e cruel que junta as faces da vida e da morte que em algum lugar haviam de encontrar-se
Talvez porém o diferente olhar que trocaram agora mesmo um homem e uma mulher no caminho estreito
E tendo-se olhado e visto prosseguiram enquanto o sangue rolava nos apertados túneis das artérias
Como quem tranquilamente sabe que outra vez virão a encontrar-se para enfim
Talvez este silêncio seja o esforço abrindo os foles do pulmão prosaicamente abrindo ó sem poesia abrindo
Para começar o outra vez doloroso nascimento duma primeira palavra
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José Saramago
8
Está determinado que hoje se travará uma grande batalha e não obstante o número de mortos previsto assim se fará
Nunca a certeza dos mortos evitou uma guerra muito menos em 1993 quando os escrúpulos não são prisão e impedimento
Não os têm os perseguidores aos perseguidos aconselha-se que os não tenham
Mas só no fim da batalha o como vai saber-se porque a contagem dos mortos será contra o costume repartida pelos dois campos
Apenas porque o ódio entrou enfim no corpo das mulheres
Será visto que estando mortos os homens perseguidos os perseguidores hão-de de violá-las conforme mandam as imemoriais regras da guerra
Já tudo isto aconteceu infinitas vezes tantas que violação se não deve dizer pelo contrário entrega
Por isso a longa fileira das mulheres deitadas espera com indiferença que é simulada a penetração dos perseguidores
Elas mesmas levantaram as roupas e oferecem à luz do sol e aos olhos as vulvas húmidas
Silenciosamente suportam o assalto e abrem os braços enquanto a raiva corre pelo sangue para o centro do corpo
Há um derradeiro momento em que o perseguidor ainda poderia retirar-se
Mas logo é tarde e no exacto instante em que o espasmo militarmente iria deflagrar
Com um estalo seco e definitivo os dentes que o ódio fizera nascer nas vulvas frenéticas
Cortam cerce os pénis do exército perseguidor que as vaginas cospem para fora com o mesmo desprezo com que os homens perseguidos haviam sido degolados
Uma só mulher porém enquanto as outras celebram a justa vitória retira suavemente o membro amputado que ainda tivera tempo de ejacular
E levantada comprime o sexo com as mãos e afasta-se pela planície na direcção das montanhas
Nunca a certeza dos mortos evitou uma guerra muito menos em 1993 quando os escrúpulos não são prisão e impedimento
Não os têm os perseguidores aos perseguidos aconselha-se que os não tenham
Mas só no fim da batalha o como vai saber-se porque a contagem dos mortos será contra o costume repartida pelos dois campos
Apenas porque o ódio entrou enfim no corpo das mulheres
Será visto que estando mortos os homens perseguidos os perseguidores hão-de de violá-las conforme mandam as imemoriais regras da guerra
Já tudo isto aconteceu infinitas vezes tantas que violação se não deve dizer pelo contrário entrega
Por isso a longa fileira das mulheres deitadas espera com indiferença que é simulada a penetração dos perseguidores
Elas mesmas levantaram as roupas e oferecem à luz do sol e aos olhos as vulvas húmidas
Silenciosamente suportam o assalto e abrem os braços enquanto a raiva corre pelo sangue para o centro do corpo
Há um derradeiro momento em que o perseguidor ainda poderia retirar-se
Mas logo é tarde e no exacto instante em que o espasmo militarmente iria deflagrar
Com um estalo seco e definitivo os dentes que o ódio fizera nascer nas vulvas frenéticas
Cortam cerce os pénis do exército perseguidor que as vaginas cospem para fora com o mesmo desprezo com que os homens perseguidos haviam sido degolados
Uma só mulher porém enquanto as outras celebram a justa vitória retira suavemente o membro amputado que ainda tivera tempo de ejacular
E levantada comprime o sexo com as mãos e afasta-se pela planície na direcção das montanhas
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