Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Pablo Neruda
Os sonhos
Irmã da água empenhada e de suas adversárias
as pedras do rio, a argila evidente, a tosca madeira;
quando levantavas sonhando a fronte na noite de Capri
caíam espigas de tua cabeleira, e em meu pensamento
voava o hipnótico enxame do campo do Chile;
meu sonho desviava seus trens para Antofagasta;
entravam chovendo na alva de Pillanlelbún,
ali onde o rio recolhe o cheiro do velho curtume
e a chuva salpica o recinto dos derrubados.
as pedras do rio, a argila evidente, a tosca madeira;
quando levantavas sonhando a fronte na noite de Capri
caíam espigas de tua cabeleira, e em meu pensamento
voava o hipnótico enxame do campo do Chile;
meu sonho desviava seus trens para Antofagasta;
entravam chovendo na alva de Pillanlelbún,
ali onde o rio recolhe o cheiro do velho curtume
e a chuva salpica o recinto dos derrubados.
1 174
Pablo Neruda
Iii - Mas Deu Fruto
Porém quando
entre os áridos
sistemas dos píncaros
aparece
o homem,
transformado,
quando
da yurta
brota o homem
que lutará com a natureza,
o homem que é não só
de uma tribo,
mas da incendida massa humana,
não o errante
prófugo das altas solidões,
ginete da areia,
mas meu camarada,
associado ao destino de seu povo,
solidário de todo o ar humano,
filho e continuador da esperança,
então,
cumpriu-se a tarefa
entre as cicatrizes dos montes:
ali também o homem é nosso irmão.
Ali a terra dura deu seu fruto.
entre os áridos
sistemas dos píncaros
aparece
o homem,
transformado,
quando
da yurta
brota o homem
que lutará com a natureza,
o homem que é não só
de uma tribo,
mas da incendida massa humana,
não o errante
prófugo das altas solidões,
ginete da areia,
mas meu camarada,
associado ao destino de seu povo,
solidário de todo o ar humano,
filho e continuador da esperança,
então,
cumpriu-se a tarefa
entre as cicatrizes dos montes:
ali também o homem é nosso irmão.
Ali a terra dura deu seu fruto.
1 212
Pablo Neruda
Meio-Dia - XLI
Desventuras do mês de janeiro quando o indiferente
meio-dia estabelece sua equação no céu,
um ouro duro como o vinho de uma taça repleta
satura a terra até seus limites azuis.
Desventuras deste tempo semelhantes a uvas
pequenas que agruparam verde amargo,
confusas, escondidas lágrimas dos dias,
até que a intempérie publicou seus cachos.
Sim, germes, dores, tudo o que palpita
aterrado, à luz crepitante de janeiro,
madurará, arderá como arderam os frutos.
Divididos serão os pesares: a alma
dará um golpe de vento, e a morada
ficará limpa como o pão novo na mesa.
meio-dia estabelece sua equação no céu,
um ouro duro como o vinho de uma taça repleta
satura a terra até seus limites azuis.
Desventuras deste tempo semelhantes a uvas
pequenas que agruparam verde amargo,
confusas, escondidas lágrimas dos dias,
até que a intempérie publicou seus cachos.
Sim, germes, dores, tudo o que palpita
aterrado, à luz crepitante de janeiro,
madurará, arderá como arderam os frutos.
Divididos serão os pesares: a alma
dará um golpe de vento, e a morada
ficará limpa como o pão novo na mesa.
1 122
Pablo Neruda
Tarde - LXXIV
O caminho molhado pela água de agosto
brilha como se fosse cortado em lua cheia,
em plena claridade da maçã,
em metade da fruta do outono.
Neblina, espaço ou céu, a vaga rede do dia
cresce com frios sonhos, sons e pescados.
O vapor das ilhas combate a comarca,
palpita o mar sobre a luz do Chile.
Tudo se reconcentra como o metal, se escondem
as folhas, o inverno mascara sua estirpe
e só cegos somos, sem cessar, somente.
Somente sujeitos ao leito sigiloso
do movimento, adeus, da viagem, do caminho:
adeus, da natureza caem as lágrimas.
brilha como se fosse cortado em lua cheia,
em plena claridade da maçã,
em metade da fruta do outono.
Neblina, espaço ou céu, a vaga rede do dia
cresce com frios sonhos, sons e pescados.
O vapor das ilhas combate a comarca,
palpita o mar sobre a luz do Chile.
Tudo se reconcentra como o metal, se escondem
as folhas, o inverno mascara sua estirpe
e só cegos somos, sem cessar, somente.
Somente sujeitos ao leito sigiloso
do movimento, adeus, da viagem, do caminho:
adeus, da natureza caem as lágrimas.
963
Pablo Neruda
Manhã - XXIII
Foi luz o fogo e pão a lua rancorosa,
o jasmim duplicou seu estrelado segredo,
e do terrível amor as suaves mãos puras
deram paz a meus olhos e sol a meus sentidos.
Oh amor, como de repente, dos rasgos
fizeste o edifício da doce firmeza,
derrotaste as unhas malignas e zelosas
e hoje diante do mundo somos como uma só vida.
Assim foi, assim é e assim será até quando,
selvagem e doce amor, bem-amada Matilde,
o tempo nos assinale a flor final do dia.
Sem ti, sem mim, sem luz já não seremos:
então mais além da terra e a sombra
o resplendor de nosso amor seguirá vivo.
o jasmim duplicou seu estrelado segredo,
e do terrível amor as suaves mãos puras
deram paz a meus olhos e sol a meus sentidos.
Oh amor, como de repente, dos rasgos
fizeste o edifício da doce firmeza,
derrotaste as unhas malignas e zelosas
e hoje diante do mundo somos como uma só vida.
Assim foi, assim é e assim será até quando,
selvagem e doce amor, bem-amada Matilde,
o tempo nos assinale a flor final do dia.
Sem ti, sem mim, sem luz já não seremos:
então mais além da terra e a sombra
o resplendor de nosso amor seguirá vivo.
1 183
Pablo Neruda
Manhã - XXIII
Foi luz o fogo e pão a lua rancorosa,
o jasmim duplicou seu estrelado segredo,
e do terrível amor as suaves mãos puras
deram paz a meus olhos e sol a meus sentidos.
Oh amor, como de repente, dos rasgos
fizeste o edifício da doce firmeza,
derrotaste as unhas malignas e zelosas
e hoje diante do mundo somos como uma só vida.
Assim foi, assim é e assim será até quando,
selvagem e doce amor, bem-amada Matilde,
o tempo nos assinale a flor final do dia.
Sem ti, sem mim, sem luz já não seremos:
então mais além da terra e a sombra
o resplendor de nosso amor seguirá vivo.
o jasmim duplicou seu estrelado segredo,
e do terrível amor as suaves mãos puras
deram paz a meus olhos e sol a meus sentidos.
Oh amor, como de repente, dos rasgos
fizeste o edifício da doce firmeza,
derrotaste as unhas malignas e zelosas
e hoje diante do mundo somos como uma só vida.
Assim foi, assim é e assim será até quando,
selvagem e doce amor, bem-amada Matilde,
o tempo nos assinale a flor final do dia.
Sem ti, sem mim, sem luz já não seremos:
então mais além da terra e a sombra
o resplendor de nosso amor seguirá vivo.
1 183
Pablo Neruda
Tarde - LXV
Matilde, onde estás? Notei, para baixo,
entre gravata e coração, acima,
certa melancolia intercostal:
era que de repente estavas ausente.
Fez-me falta a luz de tua energia
e olhei devorando a esperança,
olhei o vazio que é sem ti uma casa,
não ficam senão trágicas janelas.
De puro taciturno o teto escuta
cair antigas chuvas desfolhadas,
plumas, o que a noite aprisionou:
e assim te espero como casa só
e voltarás a ver-me e habitar-me.
De outro modo me doem as janelas.
entre gravata e coração, acima,
certa melancolia intercostal:
era que de repente estavas ausente.
Fez-me falta a luz de tua energia
e olhei devorando a esperança,
olhei o vazio que é sem ti uma casa,
não ficam senão trágicas janelas.
De puro taciturno o teto escuta
cair antigas chuvas desfolhadas,
plumas, o que a noite aprisionou:
e assim te espero como casa só
e voltarás a ver-me e habitar-me.
De outro modo me doem as janelas.
1 177
Pablo Neruda
Tarde - LXV
Matilde, onde estás? Notei, para baixo,
entre gravata e coração, acima,
certa melancolia intercostal:
era que de repente estavas ausente.
Fez-me falta a luz de tua energia
e olhei devorando a esperança,
olhei o vazio que é sem ti uma casa,
não ficam senão trágicas janelas.
De puro taciturno o teto escuta
cair antigas chuvas desfolhadas,
plumas, o que a noite aprisionou:
e assim te espero como casa só
e voltarás a ver-me e habitar-me.
De outro modo me doem as janelas.
entre gravata e coração, acima,
certa melancolia intercostal:
era que de repente estavas ausente.
Fez-me falta a luz de tua energia
e olhei devorando a esperança,
olhei o vazio que é sem ti uma casa,
não ficam senão trágicas janelas.
De puro taciturno o teto escuta
cair antigas chuvas desfolhadas,
plumas, o que a noite aprisionou:
e assim te espero como casa só
e voltarás a ver-me e habitar-me.
De outro modo me doem as janelas.
1 177
Pablo Neruda
O canto
A torre do pão, a estrutura que o arco constrói na altura
com a melodia elevando sua fértil firmeza
e a pétala dura do canto crescendo na rosa,
assim tua presença e tua ausência e o peso de tua cabeleira,
o fresco calor do teu corpo de aveia na cama,
a pele vitoriosa que tua primavera dispôs ao lado
de meu coração que golpeava na pedra do muro,
o firme contato de trigo e de ouro de teus ensolarados quadris,
tua voz derramando doçura selvagem como uma cascata,
tua boca que amou a pressão dos meus beijos tardios,
foi como se o dia e a noite cortassem seu nó mostrando entreaberta
a porta que une e separa a luz da sombra
e pela abertura assomasse o distante domínio
que o homem buscava furando a pedra, a sombra, o vazio.
com a melodia elevando sua fértil firmeza
e a pétala dura do canto crescendo na rosa,
assim tua presença e tua ausência e o peso de tua cabeleira,
o fresco calor do teu corpo de aveia na cama,
a pele vitoriosa que tua primavera dispôs ao lado
de meu coração que golpeava na pedra do muro,
o firme contato de trigo e de ouro de teus ensolarados quadris,
tua voz derramando doçura selvagem como uma cascata,
tua boca que amou a pressão dos meus beijos tardios,
foi como se o dia e a noite cortassem seu nó mostrando entreaberta
a porta que une e separa a luz da sombra
e pela abertura assomasse o distante domínio
que o homem buscava furando a pedra, a sombra, o vazio.
1 201
Pablo Neruda
O canto
A torre do pão, a estrutura que o arco constrói na altura
com a melodia elevando sua fértil firmeza
e a pétala dura do canto crescendo na rosa,
assim tua presença e tua ausência e o peso de tua cabeleira,
o fresco calor do teu corpo de aveia na cama,
a pele vitoriosa que tua primavera dispôs ao lado
de meu coração que golpeava na pedra do muro,
o firme contato de trigo e de ouro de teus ensolarados quadris,
tua voz derramando doçura selvagem como uma cascata,
tua boca que amou a pressão dos meus beijos tardios,
foi como se o dia e a noite cortassem seu nó mostrando entreaberta
a porta que une e separa a luz da sombra
e pela abertura assomasse o distante domínio
que o homem buscava furando a pedra, a sombra, o vazio.
com a melodia elevando sua fértil firmeza
e a pétala dura do canto crescendo na rosa,
assim tua presença e tua ausência e o peso de tua cabeleira,
o fresco calor do teu corpo de aveia na cama,
a pele vitoriosa que tua primavera dispôs ao lado
de meu coração que golpeava na pedra do muro,
o firme contato de trigo e de ouro de teus ensolarados quadris,
tua voz derramando doçura selvagem como uma cascata,
tua boca que amou a pressão dos meus beijos tardios,
foi como se o dia e a noite cortassem seu nó mostrando entreaberta
a porta que une e separa a luz da sombra
e pela abertura assomasse o distante domínio
que o homem buscava furando a pedra, a sombra, o vazio.
1 201
Pablo Neruda
Vallejo
Mais tarde na Rua Delambre com Vallejo bebendo calvados
e cerveja nos copos imensos da Rua Alegria,
porque então meu irmão tinha alegria no copo
e levantávamos juntos a felicidade de um minuto que ardia no ar
e que se apagaria em sua morte deixando-me cego.
e cerveja nos copos imensos da Rua Alegria,
porque então meu irmão tinha alegria no copo
e levantávamos juntos a felicidade de um minuto que ardia no ar
e que se apagaria em sua morte deixando-me cego.
1 116
Pablo Neruda
Tarde - LXVIII
A menina de madeira não chegou caminhando:
ali esteve de súbito sentada nos ladrilhos,
velhas flores do mar cobriam sua cabeça,
seu olhar tinha tristeza de raízes.
Ali ficou olhando nossas vidas abertas,
o ir e ser e andar e voltar pela terra,
o dia descolorindo suas pétalas graduais.
Vigiava sem ver-nos a menina de madeira.
A menina coroada pelas antigas ondas
ali fitava com seus olhos derrotados:
sabia que vivemos numa rede remota
de tempo e água e ondas e sons e chuva,
sem saber se existimos ou se somos seu sonho.
Esta é a história da moça de madeira.
ali esteve de súbito sentada nos ladrilhos,
velhas flores do mar cobriam sua cabeça,
seu olhar tinha tristeza de raízes.
Ali ficou olhando nossas vidas abertas,
o ir e ser e andar e voltar pela terra,
o dia descolorindo suas pétalas graduais.
Vigiava sem ver-nos a menina de madeira.
A menina coroada pelas antigas ondas
ali fitava com seus olhos derrotados:
sabia que vivemos numa rede remota
de tempo e água e ondas e sons e chuva,
sem saber se existimos ou se somos seu sonho.
Esta é a história da moça de madeira.
1 072
Pablo Neruda
V
Que guardas sob tua corcova?
disse um camelo a uma tartaruga.
E a tartaruga perguntou:
Que conversas com as laranjas?
Tem mais folhas uma pereira
que Em Busca do Tempo Perdido?
Por que se suicidam as folhas
quando se sentem amarelas?
disse um camelo a uma tartaruga.
E a tartaruga perguntou:
Que conversas com as laranjas?
Tem mais folhas uma pereira
que Em Busca do Tempo Perdido?
Por que se suicidam as folhas
quando se sentem amarelas?
1 213
Pablo Neruda
XXXII
Há algo mais tolo na vida
que chamar-se Pablo Neruda?
Há no céu da Colômbia
um colecionador de nuvens?
Por que sempre se fazem em Londres
os congressos de guarda-chuvas?
Sangue cor de amaranto
tinha a rainha de Sabá?
Quando Baudelaire chorava
chorava com lágrimas negras?
que chamar-se Pablo Neruda?
Há no céu da Colômbia
um colecionador de nuvens?
Por que sempre se fazem em Londres
os congressos de guarda-chuvas?
Sangue cor de amaranto
tinha a rainha de Sabá?
Quando Baudelaire chorava
chorava com lágrimas negras?
1 079
Pablo Neruda
XXXII
Há algo mais tolo na vida
que chamar-se Pablo Neruda?
Há no céu da Colômbia
um colecionador de nuvens?
Por que sempre se fazem em Londres
os congressos de guarda-chuvas?
Sangue cor de amaranto
tinha a rainha de Sabá?
Quando Baudelaire chorava
chorava com lágrimas negras?
que chamar-se Pablo Neruda?
Há no céu da Colômbia
um colecionador de nuvens?
Por que sempre se fazem em Londres
os congressos de guarda-chuvas?
Sangue cor de amaranto
tinha a rainha de Sabá?
Quando Baudelaire chorava
chorava com lágrimas negras?
1 079
Pablo Neruda
XXX
Quando escreveu seu livro azul
Rubén Darío não era verde?
Não era escarlate Rimbaud e
Gôngora cor de violeta?
E Victor Hugo tricolor?
E eu listões amarelos?
Juntam-se todas as lembranças
dos pobres das aldeias?
E em uma caixa mineral
guardaram seus sonhos os ricos?
Rubén Darío não era verde?
Não era escarlate Rimbaud e
Gôngora cor de violeta?
E Victor Hugo tricolor?
E eu listões amarelos?
Juntam-se todas as lembranças
dos pobres das aldeias?
E em uma caixa mineral
guardaram seus sonhos os ricos?
1 040
Pablo Neruda
IX
É o mesmo o sol de ontem
ou é outro o seu fogo?
Como agradecer às nuvens
essa abundância fugitiva?
De onde vem a nuvem densa?
com seus negros sacos de pranto?
Onde estão aqueles nomes
doces como tortas de outrora?
Para onde foram as Donaldas,
as Clorindas, as Edwigis?
ou é outro o seu fogo?
Como agradecer às nuvens
essa abundância fugitiva?
De onde vem a nuvem densa?
com seus negros sacos de pranto?
Onde estão aqueles nomes
doces como tortas de outrora?
Para onde foram as Donaldas,
as Clorindas, as Edwigis?
1 168
Pablo Neruda
IX
É o mesmo o sol de ontem
ou é outro o seu fogo?
Como agradecer às nuvens
essa abundância fugitiva?
De onde vem a nuvem densa?
com seus negros sacos de pranto?
Onde estão aqueles nomes
doces como tortas de outrora?
Para onde foram as Donaldas,
as Clorindas, as Edwigis?
ou é outro o seu fogo?
Como agradecer às nuvens
essa abundância fugitiva?
De onde vem a nuvem densa?
com seus negros sacos de pranto?
Onde estão aqueles nomes
doces como tortas de outrora?
Para onde foram as Donaldas,
as Clorindas, as Edwigis?
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Pablo Neruda
LXII
Que significa persistir
no beco da morte?
No deserto do sal
como se pode florescer?
No mar do não ocorre nada
há vestido para morrer?
Quando já se foram os ossos
quem vive no pó final?
no beco da morte?
No deserto do sal
como se pode florescer?
No mar do não ocorre nada
há vestido para morrer?
Quando já se foram os ossos
quem vive no pó final?
1 024
Pablo Neruda
LXII
Que significa persistir
no beco da morte?
No deserto do sal
como se pode florescer?
No mar do não ocorre nada
há vestido para morrer?
Quando já se foram os ossos
quem vive no pó final?
no beco da morte?
No deserto do sal
como se pode florescer?
No mar do não ocorre nada
há vestido para morrer?
Quando já se foram os ossos
quem vive no pó final?
1 024
Pablo Neruda
VI
Por que o chapéu da noite
voa com tantos furos?
O que diz a velha cinza
quando caminha junto ao fogo?
Por que choram tanto as nuvens
e cada vez são mais alegres?
Para quem ardem os pistilos
do sol em sombra de eclipse?
Quantas abelhas tem o dia?
voa com tantos furos?
O que diz a velha cinza
quando caminha junto ao fogo?
Por que choram tanto as nuvens
e cada vez são mais alegres?
Para quem ardem os pistilos
do sol em sombra de eclipse?
Quantas abelhas tem o dia?
1 171
Pablo Neruda
X - Os homens
Sim, próximos desenganados, antes de regressar
ao curral, à colmeia das tristes abelhas,
turistas convencidos de voltar, companheiros
de rua negra com casas de antiguidades
e latas de lixo, meio irmãos
do número trinta e três mil quatrocentos e vinte e sete,
sexto andar, apartamento A, B ou J
diante do armazém "Astorquiza, Williams e Companhia"
sim, meu pobre irmão que sou eu mesmo,
agora que sabemos que não ficaremos
aqui, nem condenados, que sabemos
de hoje, que este esplendor nos ofusca,
a solidão nos aperta como a roupa de um menino
que cresce demais ou como quando
a escuridão se apodera do dia.
ao curral, à colmeia das tristes abelhas,
turistas convencidos de voltar, companheiros
de rua negra com casas de antiguidades
e latas de lixo, meio irmãos
do número trinta e três mil quatrocentos e vinte e sete,
sexto andar, apartamento A, B ou J
diante do armazém "Astorquiza, Williams e Companhia"
sim, meu pobre irmão que sou eu mesmo,
agora que sabemos que não ficaremos
aqui, nem condenados, que sabemos
de hoje, que este esplendor nos ofusca,
a solidão nos aperta como a roupa de um menino
que cresce demais ou como quando
a escuridão se apodera do dia.
967
Pablo Neruda
LII
Quanto media o polvo negro
que obscureceu a paz do dia?
Eram de ferro seus ramais
e de fogo morto seus olhos?
E a baleia tricolor
por que me atalhou no caminho?
que obscureceu a paz do dia?
Eram de ferro seus ramais
e de fogo morto seus olhos?
E a baleia tricolor
por que me atalhou no caminho?
557
Pablo Neruda
A doce pátria
A terra, minha terra, meu barro, a luz sanguinária do orto vulcânico
a paz claudicante do dia e a noite dos terremotos,
o boldo, o loureiro, a araucária ocupando o perfil do planeta,
o pastel de milho, a corvina saindo do forno silvestre,
o pulsar do condor subindo na ascética pele da neve,
o colar dos rios que ostentam as uvas de lagos sem nome,
os patos selvagens que emigram para o polo magnético riscando o crepúsculo dos litorais,
o homem e sua esposa que leem após a comida novelas heroicas,
as ruas de Rengo, Rancágua, Renaico, Lancoche,
a fumaça do campo no outono perto de Quirihue,
ali onde minha alma parece uma pobre guitarra que chora
cantando e caindo a tarde nas águas escuras do rio.
a paz claudicante do dia e a noite dos terremotos,
o boldo, o loureiro, a araucária ocupando o perfil do planeta,
o pastel de milho, a corvina saindo do forno silvestre,
o pulsar do condor subindo na ascética pele da neve,
o colar dos rios que ostentam as uvas de lagos sem nome,
os patos selvagens que emigram para o polo magnético riscando o crepúsculo dos litorais,
o homem e sua esposa que leem após a comida novelas heroicas,
as ruas de Rengo, Rancágua, Renaico, Lancoche,
a fumaça do campo no outono perto de Quirihue,
ali onde minha alma parece uma pobre guitarra que chora
cantando e caindo a tarde nas águas escuras do rio.
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