Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Sophia de Mello Breyner Andresen
X. Aparição
Devagar devagar um homem morre
Escura no jardim a noite se abre
A noite com miríades de estrelas
Cintilantes límpidas sem mácula
Veloz veloz o sangue foge
Já não ouve cantar o moribundo
Sua interior exaltação antiga
Uma ferida no seu flanco o mata
Somente em sua frente vê paredes
Paredes onde o branco se retrata
Seus olhos devagar ficam de vidro
Uma ferida no seu flanco o mata
Já não tem esplendor nem tem beleza
Já não é semelhante ao sol e à lua
Seu corpo já não lembra uma coluna
É feito de suor o seu vestido
A sua face é dor e morte crua
E devagar devagar o rosto surge
O rosto onde outro rosto se retrata
O rosto desde sempre pressentido
Por aquele que ao viver o mata
Seus traços seu perfil mostra
A morte como um escultor
Os traços e o perfil
Da semelhança interior.
Escura no jardim a noite se abre
A noite com miríades de estrelas
Cintilantes límpidas sem mácula
Veloz veloz o sangue foge
Já não ouve cantar o moribundo
Sua interior exaltação antiga
Uma ferida no seu flanco o mata
Somente em sua frente vê paredes
Paredes onde o branco se retrata
Seus olhos devagar ficam de vidro
Uma ferida no seu flanco o mata
Já não tem esplendor nem tem beleza
Já não é semelhante ao sol e à lua
Seu corpo já não lembra uma coluna
É feito de suor o seu vestido
A sua face é dor e morte crua
E devagar devagar o rosto surge
O rosto onde outro rosto se retrata
O rosto desde sempre pressentido
Por aquele que ao viver o mata
Seus traços seu perfil mostra
A morte como um escultor
Os traços e o perfil
Da semelhança interior.
1 948
Sophia de Mello Breyner Andresen
Portas da Vila
I
A casa está na tarde
Actual mas nos espelhos
Há o brilho febril de um tempo antigo
Que se debate emerge balbucia
II
Com um barulho de papel o vento range na palmeira
O brilho das estrelas suspende nosso rosto
Com seu jardim nocturno de paixão e perfume
A casa nos invade e nos rodeia
III
A casa vê-se de longe porque é branca
Mas sombrio
É o quarto atravessado pelo rio
IV
A casa jaz com mil portas abertas
O interior dos armários é obscuro e vazio
A ausência começa poisando seus primeiros passos
No quarto onde poisei o rosto sobre a lua
A casa está na tarde
Actual mas nos espelhos
Há o brilho febril de um tempo antigo
Que se debate emerge balbucia
II
Com um barulho de papel o vento range na palmeira
O brilho das estrelas suspende nosso rosto
Com seu jardim nocturno de paixão e perfume
A casa nos invade e nos rodeia
III
A casa vê-se de longe porque é branca
Mas sombrio
É o quarto atravessado pelo rio
IV
A casa jaz com mil portas abertas
O interior dos armários é obscuro e vazio
A ausência começa poisando seus primeiros passos
No quarto onde poisei o rosto sobre a lua
1 245
Sophia de Mello Breyner Andresen
No Deserto
Metade de mim cavalo de mim mesma eu te domino
Eu te debelo com espora e rédea
Para que não te percas nas cidades mortas
Para que não te percas
Nem nos comércios de Babilónia
Nem nos ritos sangrentos de Nínive
Eu aponto o teu nariz para o deserto limpo
Para o perfume limpo do deserto
Para a sua solidão de extremo a extremo
Por isso te debelo te combato te domino
E o freio te corta a espora te fere a rédea te retém
Para poder soltar-te livre no deserto
Onde não somos nós dois mas só um mesmo
No deserto limpo com seu perfume de astros
Na grande claridade limpa do deserto
No espaço interior de cada poema
Luz e fogo perdidos mas tão perto
Onde não somos nós dois mas só um mesmo
Eu te debelo com espora e rédea
Para que não te percas nas cidades mortas
Para que não te percas
Nem nos comércios de Babilónia
Nem nos ritos sangrentos de Nínive
Eu aponto o teu nariz para o deserto limpo
Para o perfume limpo do deserto
Para a sua solidão de extremo a extremo
Por isso te debelo te combato te domino
E o freio te corta a espora te fere a rédea te retém
Para poder soltar-te livre no deserto
Onde não somos nós dois mas só um mesmo
No deserto limpo com seu perfume de astros
Na grande claridade limpa do deserto
No espaço interior de cada poema
Luz e fogo perdidos mas tão perto
Onde não somos nós dois mas só um mesmo
1 730
Sophia de Mello Breyner Andresen
As Cigarras
Com o fogo do céu a calma cai
No muro branco as sombras são direitas
A luz persegue cada coisa até
Ao mais extremo limite do visível
Ouvem-se mais as cigarras do que o mar
No muro branco as sombras são direitas
A luz persegue cada coisa até
Ao mais extremo limite do visível
Ouvem-se mais as cigarras do que o mar
1 259
Sophia de Mello Breyner Andresen
Cidade
As ameaças quase visíveis surgem
Nascem
Do exausto horizonte mortas luas
E estrangulada sou por grandes polvos
Na tristeza das ruas
Nascem
Do exausto horizonte mortas luas
E estrangulada sou por grandes polvos
Na tristeza das ruas
1 556
Sophia de Mello Breyner Andresen
Cidade
As ameaças quase visíveis surgem
Nascem
Do exausto horizonte mortas luas
E estrangulada sou por grandes polvos
Na tristeza das ruas
Nascem
Do exausto horizonte mortas luas
E estrangulada sou por grandes polvos
Na tristeza das ruas
1 556
Sophia de Mello Breyner Andresen
Cidade
As ameaças quase visíveis surgem
Nascem
Do exausto horizonte mortas luas
E estrangulada sou por grandes polvos
Na tristeza das ruas
Nascem
Do exausto horizonte mortas luas
E estrangulada sou por grandes polvos
Na tristeza das ruas
1 556
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vii. Trevas
O que foi antigamente manhã limpa
Sereno amor das coisas e da vida
É hoje busca desesperada busca
De um corpo cuja face me é oculta.
Sereno amor das coisas e da vida
É hoje busca desesperada busca
De um corpo cuja face me é oculta.
1 742
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vii. Trevas
O que foi antigamente manhã limpa
Sereno amor das coisas e da vida
É hoje busca desesperada busca
De um corpo cuja face me é oculta.
Sereno amor das coisas e da vida
É hoje busca desesperada busca
De um corpo cuja face me é oculta.
1 742
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ii. o Destino
O destino eram
Os homens escuros
Que assim lhe disseram:
— Tu esculpirás Seu rosto
de morte e de agonia.
Os homens escuros
Que assim lhe disseram:
— Tu esculpirás Seu rosto
de morte e de agonia.
1 953
Sophia de Mello Breyner Andresen
Esquemáticos Caminhos
De múltiplas esperas.
Que abandono divide
A minha alma em dois?
Dois que se combatem
Irmãos e diversos
Tão alheios que
Sem amor se conhecem.
Intacto rosto
Mas tão perdido agora
Na infinita noite
Do tempo que pára.
Esperança e demora
Entre duas luas
Caminhei suspensa.
No rosto dos barcos
Perdi os meus gestos
E o vento cortou
A minha face em dois
Rostos vãos e dispersos.
Ó náufragos azuis enrolados
Em colunas de sal e de corais
E algas verdes e mastros quebrados
Que gemem como pinhais.
Ó quanto vos vejo porque estais
Onde se vive sem memória alguma
E todo o pensamento e toda a posse
São desfeita espuma.
Que abandono divide
A minha alma em dois?
Dois que se combatem
Irmãos e diversos
Tão alheios que
Sem amor se conhecem.
Intacto rosto
Mas tão perdido agora
Na infinita noite
Do tempo que pára.
Esperança e demora
Entre duas luas
Caminhei suspensa.
No rosto dos barcos
Perdi os meus gestos
E o vento cortou
A minha face em dois
Rostos vãos e dispersos.
Ó náufragos azuis enrolados
Em colunas de sal e de corais
E algas verdes e mastros quebrados
Que gemem como pinhais.
Ó quanto vos vejo porque estais
Onde se vive sem memória alguma
E todo o pensamento e toda a posse
São desfeita espuma.
1 099
Sophia de Mello Breyner Andresen
Esquemáticos Caminhos
De múltiplas esperas.
Que abandono divide
A minha alma em dois?
Dois que se combatem
Irmãos e diversos
Tão alheios que
Sem amor se conhecem.
Intacto rosto
Mas tão perdido agora
Na infinita noite
Do tempo que pára.
Esperança e demora
Entre duas luas
Caminhei suspensa.
No rosto dos barcos
Perdi os meus gestos
E o vento cortou
A minha face em dois
Rostos vãos e dispersos.
Ó náufragos azuis enrolados
Em colunas de sal e de corais
E algas verdes e mastros quebrados
Que gemem como pinhais.
Ó quanto vos vejo porque estais
Onde se vive sem memória alguma
E todo o pensamento e toda a posse
São desfeita espuma.
Que abandono divide
A minha alma em dois?
Dois que se combatem
Irmãos e diversos
Tão alheios que
Sem amor se conhecem.
Intacto rosto
Mas tão perdido agora
Na infinita noite
Do tempo que pára.
Esperança e demora
Entre duas luas
Caminhei suspensa.
No rosto dos barcos
Perdi os meus gestos
E o vento cortou
A minha face em dois
Rostos vãos e dispersos.
Ó náufragos azuis enrolados
Em colunas de sal e de corais
E algas verdes e mastros quebrados
Que gemem como pinhais.
Ó quanto vos vejo porque estais
Onde se vive sem memória alguma
E todo o pensamento e toda a posse
São desfeita espuma.
1 099
Sophia de Mello Breyner Andresen
Porque Nos Outros Há Sempre Qualquer Nojo
Porque nos outros há sempre qualquer nojo
Que me gela e me afasta
E em ti há sempre um pouco de mar largo
Que de olhos cegos atrás de ti me arrasta.
Que me gela e me afasta
E em ti há sempre um pouco de mar largo
Que de olhos cegos atrás de ti me arrasta.
1 321
Sophia de Mello Breyner Andresen
Porque Nos Outros Há Sempre Qualquer Nojo
Porque nos outros há sempre qualquer nojo
Que me gela e me afasta
E em ti há sempre um pouco de mar largo
Que de olhos cegos atrás de ti me arrasta.
Que me gela e me afasta
E em ti há sempre um pouco de mar largo
Que de olhos cegos atrás de ti me arrasta.
1 321
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Luz E a Casa
Em redor da luz
Com sombras e brancos
A casa se procura
Minhas mãos quase tocam
O brando respirar
Da sua atenção pura
Com sombras e brancos
A casa se procura
Minhas mãos quase tocam
O brando respirar
Da sua atenção pura
1 470
Sophia de Mello Breyner Andresen
Profetas Falsos Vieram Em Teu Nome
Anjos errados disseram que tu eras
Um poema frustrado
Na angústia sem razão das Primaveras
Porém eu sei que tu és a verdade
E és o caminho transparente e puro
Embora eu não te encontre e no obscuro
Mundo das sombras morra de saudade.
Um poema frustrado
Na angústia sem razão das Primaveras
Porém eu sei que tu és a verdade
E és o caminho transparente e puro
Embora eu não te encontre e no obscuro
Mundo das sombras morra de saudade.
1 290
Sophia de Mello Breyner Andresen
Pescador
1
Irmão limpo das coisas
Sem pranto interior
Sem introversão
2
Este que está inteiro em sua vida
Fez do mar e do céu seu ser profundo
E manteve com serena lucidez
Aberto seu olhar e posto sobre o mundo
Irmão limpo das coisas
Sem pranto interior
Sem introversão
2
Este que está inteiro em sua vida
Fez do mar e do céu seu ser profundo
E manteve com serena lucidez
Aberto seu olhar e posto sobre o mundo
1 436
Sophia de Mello Breyner Andresen
V. o Amor
Não há para mim outro amor nem tardes limpas
A minha própria vida a desertei
Só existe o teu rosto geometria
Clara que sem descanso esculpirei.
E noite onde sem fim me afundarei.
A minha própria vida a desertei
Só existe o teu rosto geometria
Clara que sem descanso esculpirei.
E noite onde sem fim me afundarei.
2 143
Sophia de Mello Breyner Andresen
Morte
Que triângulo ou círculo poderá cercar-te
Para que te detenhas demorada e minha
Para que não desças toda pela escada
Para que te detenhas demorada e minha
Para que não desças toda pela escada
1 308
Sophia de Mello Breyner Andresen
Morte
Que triângulo ou círculo poderá cercar-te
Para que te detenhas demorada e minha
Para que não desças toda pela escada
Para que te detenhas demorada e minha
Para que não desças toda pela escada
1 308
Sophia de Mello Breyner Andresen
Electra
Os muros da casa dos Manon escorrem sangue
E as árvores do jardim escorrem lágrimas.
O lago busca em vão o reflexo antigo duma infância
Que se tornou homens, mulheres, ódios e armas.
Numa janela aparecem duas mãos torcidas
E nos corredores ressoam as palavras
Da traição, da náusea, da mentira
E o tempo vestido de verde senta-se nas salas.
O rosto de Electra é absurdo.
Ninguém o pediu e não pertence ao jogo.
As suas mãos vingadoras destoam na conversa
Assustam a penumbra e ofendem o pecado.
E as árvores do jardim escorrem lágrimas.
O lago busca em vão o reflexo antigo duma infância
Que se tornou homens, mulheres, ódios e armas.
Numa janela aparecem duas mãos torcidas
E nos corredores ressoam as palavras
Da traição, da náusea, da mentira
E o tempo vestido de verde senta-se nas salas.
O rosto de Electra é absurdo.
Ninguém o pediu e não pertence ao jogo.
As suas mãos vingadoras destoam na conversa
Assustam a penumbra e ofendem o pecado.
1 432
Sophia de Mello Breyner Andresen
Iv. o Encontro
Redonda era a tarde
Sossegada e lisa
Na margem do rio
Alguém se despia.
Sozinho o cigano
Sozinho na tarde
Na margem do rio
Seu corpo surgia
Brilhante da água
Semelhante à lua
Que se vê de dia
Semelhante à lua
E semelhante ao brilho
De uma faca nua.
Redonda era a tarde.
Sossegada e lisa
Na margem do rio
Alguém se despia.
Sozinho o cigano
Sozinho na tarde
Na margem do rio
Seu corpo surgia
Brilhante da água
Semelhante à lua
Que se vê de dia
Semelhante à lua
E semelhante ao brilho
De uma faca nua.
Redonda era a tarde.
1 808