Emoções e Sentimentos
Sophia de Mello Breyner Andresen
Despedida
O rumor o vaivém as faces
Anónimas
Criam no interior do amor um outro cais
As lágrimas
O fogo da minha alma as queima antes que brotem
Sophia de Mello Breyner Andresen
Despedida
O rumor o vaivém as faces
Anónimas
Criam no interior do amor um outro cais
As lágrimas
O fogo da minha alma as queima antes que brotem
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vii. Trevas
Sereno amor das coisas e da vida
É hoje busca desesperada busca
De um corpo cuja face me é oculta.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vii. Trevas
Sereno amor das coisas e da vida
É hoje busca desesperada busca
De um corpo cuja face me é oculta.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vii. de Novo Em Delphos o Python Emerge
Do sono sob os séculos contido
As águias afastaram o seu voo
Só as abelhas zumbem ainda no flanco da montanha seu vozear de bronze
Sob negras nuvens e mórbidos estios o Python emerge
A ordem natural do divino é deslocada
De novo cresce o poder do monstruoso
De novo cresce o poder do «Apodrecido»
De novo o corpo de Python é reunido
Nenhum deus respira no respirar das coisas
As máquinas crescem o Python emerge
Sob o húmido interior da terra movem-se devagar os seus anéis
Ventos da Ásia em sua boca trazem
O estridente clamor da fúria tantra
Tudo vai rolar na violência do instante
Nenhuma coisa é construída em pedra
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ii. o Destino
Os homens escuros
Que assim lhe disseram:
— Tu esculpirás Seu rosto
de morte e de agonia.
Sophia de Mello Breyner Andresen
V. Inverno
Choverá desolação e frio
A mesma neve de horror desencarnada
A mesma solidão dentro das casas
Sophia de Mello Breyner Andresen
V. Inverno
Choverá desolação e frio
A mesma neve de horror desencarnada
A mesma solidão dentro das casas
Sophia de Mello Breyner Andresen
V. Inverno
Choverá desolação e frio
A mesma neve de horror desencarnada
A mesma solidão dentro das casas
Sophia de Mello Breyner Andresen
Noites Sem Nome, do Tempo Desligadas
Silêncio altíssimo e brilhante.
As imagens vivem e vão cantando libertadas
E no secreto murmurar de cada instante
Colhi a absolvição de toda a mágoa.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Noites Sem Nome, do Tempo Desligadas
Silêncio altíssimo e brilhante.
As imagens vivem e vão cantando libertadas
E no secreto murmurar de cada instante
Colhi a absolvição de toda a mágoa.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Noites Sem Nome, do Tempo Desligadas
Silêncio altíssimo e brilhante.
As imagens vivem e vão cantando libertadas
E no secreto murmurar de cada instante
Colhi a absolvição de toda a mágoa.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Iii. As Paredes São Brancas E Suam de Terror
A sombra devagar suga o meu sangue
Tudo é como eu fechado e interior
Não sei por onde o vento possa entrar
Toda esta verdura é um segredo
Um murmúrio em voz baixa para os mortos
A lamentação húmida da terra
Numa sombra sem dias e sem noites
Sophia de Mello Breyner Andresen
Iii. As Paredes São Brancas E Suam de Terror
A sombra devagar suga o meu sangue
Tudo é como eu fechado e interior
Não sei por onde o vento possa entrar
Toda esta verdura é um segredo
Um murmúrio em voz baixa para os mortos
A lamentação húmida da terra
Numa sombra sem dias e sem noites
Sophia de Mello Breyner Andresen
Iii. As Paredes São Brancas E Suam de Terror
A sombra devagar suga o meu sangue
Tudo é como eu fechado e interior
Não sei por onde o vento possa entrar
Toda esta verdura é um segredo
Um murmúrio em voz baixa para os mortos
A lamentação húmida da terra
Numa sombra sem dias e sem noites
Sophia de Mello Breyner Andresen
Saga
E por isso depois me arrependi.
Um homem morto em tudo o que perdi —
E olhos que são meus e não me esperam.
Florbela Espanca
Há de ser luz do sol em tardes quentes
Nos olhos de água clara há de trazer
As fúlgidas pupilas das videntes!
<Há de ser seiva no botão repleto
Voz no murmúrio do pequeno insecto,
Vento que enfuna as velas sobre os mastros!...
<Há de ser Outro e Outro num momento!
Força viva, brutal, em movimento,
Astro arrastando catadupas de astros!
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vi. Por Que Será Que Não Há Ninguém No Mundo
Só encontrei distância e mar
Sempre sem corpo os nomes ao soar
E todos a contarem o futuro
Como se fosse o único presente
Olhos criavam outras as imagens
Quebrando em dois o amor insuficiente
Eu nunca pedi nada porque era
Completa a minha esperança
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vi. Por Que Será Que Não Há Ninguém No Mundo
Só encontrei distância e mar
Sempre sem corpo os nomes ao soar
E todos a contarem o futuro
Como se fosse o único presente
Olhos criavam outras as imagens
Quebrando em dois o amor insuficiente
Eu nunca pedi nada porque era
Completa a minha esperança
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ii. Eurydice
Para que cercada sejas minha
Este é o canto do amor em que te falo
Para que escutando sejas minha
Este é o poema — engano do teu rosto
No qual eu busco a abolição da morte
Sophia de Mello Breyner Andresen
Eurydice
Sobre a triste poeira do meu ser
Quando escuto o cantar do seu morrer
Em que o meu coração todo se gasta.
Voam no firmamento os seus cabelos
Nas suas mãos a voz do mar ecoa
Usa as estrelas como uma coroa
E atravessa sorrindo os pesadelos.
Veio com ar de alguém que não existe,
Falava-me de tudo quanto morre
E devagar no ar quebrou-se, triste
De ser aparição, água que escorre.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Eurydice
Sobre a triste poeira do meu ser
Quando escuto o cantar do seu morrer
Em que o meu coração todo se gasta.
Voam no firmamento os seus cabelos
Nas suas mãos a voz do mar ecoa
Usa as estrelas como uma coroa
E atravessa sorrindo os pesadelos.
Veio com ar de alguém que não existe,
Falava-me de tudo quanto morre
E devagar no ar quebrou-se, triste
De ser aparição, água que escorre.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Quando Brilhou a Aurora, Dissolveram-Se
Arvoredos azuis e sombras verdes,
Como os astros da noite embranqueceram
Através da verdade da manhã.
E encontrei um país de areia e sol,
Plano, deserto, nu e sem caminhos.
Aí, ante a manhã, quebrado o encanto,
Não fui sol nem céu nem areal,
Fui só o meu olhar e o meu desejo.
Tinha a alma a cantar e os membros leves
E ouvia no silêncio os meus passos.
Caminhei na manhã eternamente.
O sol encheu o céu, foi meio-dia,
Branco, a pique, sobre as coisas mortas.
Mais adiante encontrei a tarde líquida,
A tarde leve, cheia de distâncias,
Escorrendo de céus azuis e fundos
Onde as nuvens se vão pra outros mundos.
Um ponto apareceu no horizonte,
Verde nos areais, como um sinal.
Era um lago entre calmos arvoredos.
Não bebi a sua água nem beijei
O homem que dormia junto às margens.
E ao encontro da noite caminhei.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ir Beber-Te Num Navio de Altos Mastros
Ó grande noite alucinada e pura,
Brilhante e escura,
Bordada de astros.
Para ti sobe a minha inquietação e sobressalto,
O meu caos, desilusão e agonia,
Pois trazes nos teus dedos
A sombra, o silêncio e os segredos,
A perfeição, a pureza e a harmonia.