Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
António Ramos Rosa
Caminhar Através de Corredores Intermináveis
Caminhar através de corredores intermináveis
brancos
Caminhar entre paredes lisas brancas
sem que nenhuma porta se abra sem que
nenhuma luz me ilumine
a não ser esta
sem sombra
sem origem
Quartos vazios amplos e vazios
mas sem dimensões concretas corredores
paredes brancas
o lugar está exposto
com uma evidência violenta irrecusável
Uma figura surge no centro de uma sala
É a mesma de outrora
e é a única aqui neste momento
De pé e destroçada ela vacila
É preciso desenhá-la, fixá-la talvez
A imagem repercute-se
no espelho
É este o corpo idêntico nu e nulo?
A figura desvanece-se por ser tão só imagem?
Próximo o lugar ausente reflexos Não são
palavras Neste momento surgem espaços
profundidades manchas cintilantes
Clareiras
brancos
Caminhar entre paredes lisas brancas
sem que nenhuma porta se abra sem que
nenhuma luz me ilumine
a não ser esta
sem sombra
sem origem
Quartos vazios amplos e vazios
mas sem dimensões concretas corredores
paredes brancas
o lugar está exposto
com uma evidência violenta irrecusável
Uma figura surge no centro de uma sala
É a mesma de outrora
e é a única aqui neste momento
De pé e destroçada ela vacila
É preciso desenhá-la, fixá-la talvez
A imagem repercute-se
no espelho
É este o corpo idêntico nu e nulo?
A figura desvanece-se por ser tão só imagem?
Próximo o lugar ausente reflexos Não são
palavras Neste momento surgem espaços
profundidades manchas cintilantes
Clareiras
665
António Ramos Rosa
Mediadora Branca
Inacessível próxima
sim do vagar e de um cimo
magia de sempre e nunca
água que nasce da água
Branco jardim na noite
um acorde entre ruínas
de novo a beleza branca
a transparência do corpo
Continuamente desnuda
azulada inalcançada
nada acumula ou retém
no seu redondo horizonte
Que mensageira tu és
que só o branco revelas
inundas como se nada
em teus relâmpagos brancos
Presença feita de ausência
do silêncio estrela branca
em ti permanece o idêntico
sem miragens nem figura
Solitária e povoada
glória imóvel vigília
branco palácio do ar
balança sobre o vazio
Quieta de sílabas altas
fonte do espaço presença
tudo se apaga e exalta
em tua branca morada
Uma água de distância
flui em tuas largas veias
Magia íntima música
pureza metal brancura
Na pausa de um grande círculo
transpareces repentina
centro de ser incêndio liso
viva palavra da vida
sim do vagar e de um cimo
magia de sempre e nunca
água que nasce da água
Branco jardim na noite
um acorde entre ruínas
de novo a beleza branca
a transparência do corpo
Continuamente desnuda
azulada inalcançada
nada acumula ou retém
no seu redondo horizonte
Que mensageira tu és
que só o branco revelas
inundas como se nada
em teus relâmpagos brancos
Presença feita de ausência
do silêncio estrela branca
em ti permanece o idêntico
sem miragens nem figura
Solitária e povoada
glória imóvel vigília
branco palácio do ar
balança sobre o vazio
Quieta de sílabas altas
fonte do espaço presença
tudo se apaga e exalta
em tua branca morada
Uma água de distância
flui em tuas largas veias
Magia íntima música
pureza metal brancura
Na pausa de um grande círculo
transpareces repentina
centro de ser incêndio liso
viva palavra da vida
976
António Ramos Rosa
Qual É a Cena? Hesito À Luz Escassa
Qual é a cena? Hesito à luz escassa
Caminho para ela na distância
atravesso salas e salas
dispostas numa ordem regular
e decisiva
que não consigo definir Aqui
o espectáculo começou antes de mim
Quero tocá-la ou vê-la ou antes
quero-a quando ela deflagra
o meu andar é flexível: não desloco os objectos
Lenda ou narrativa vivi talvez o que em tempos me contaram
e o que escrevo agora Tudo se duplica
num movimento presente
As coisas não voltam para mim as faces cegas
e divididas
É um espaço que se move e desenvolve
Um sopro que vem de todos os lados
anima cada coisa
O meu desejo dela a distante figura
identifica-se
com o percurso obscuro em que já não me distingo
do ilimitado organismo dos sinais
Sou a diferença que caminha e que adere à distância
Cada palavra me separa e me diz o lugar
ou não lugar
em que vou falar-lhe É preciso que lhe fale
Ela não me vê e parece não me ouvir
Alguma vez caminhámos nesta cidade, nesta rede?
Alguma vez te perdeste com ela nesta rua?
O rumo repete-se mas desvia-se do passado
há uma recusa viva na sua face inabordável
Não é possível chegar Não é possível deter-me
É para o labirinto que falo e a linguagem responde-me
Assim posso entender o murmúrio das lâmpadas
cada palavra é um acto com que avanço no escuro
estou mais perto da terra de uma árvore de uma erva
e os meus dedos sentem as raízes do obscuro
Adiro a uma chama insubmissa ao sexo do repouso
o percurso é uma fábula o desesperado encanto
do para sempre perdido na maravilha obscura
Não há centro e a figura distancia-se
mas cada passo meu define uma distância solar
em que a figura dela por vezes é um canto
que se confunde com os meandros do labirinto
Caminho para ela na distância
atravesso salas e salas
dispostas numa ordem regular
e decisiva
que não consigo definir Aqui
o espectáculo começou antes de mim
Quero tocá-la ou vê-la ou antes
quero-a quando ela deflagra
o meu andar é flexível: não desloco os objectos
Lenda ou narrativa vivi talvez o que em tempos me contaram
e o que escrevo agora Tudo se duplica
num movimento presente
As coisas não voltam para mim as faces cegas
e divididas
É um espaço que se move e desenvolve
Um sopro que vem de todos os lados
anima cada coisa
O meu desejo dela a distante figura
identifica-se
com o percurso obscuro em que já não me distingo
do ilimitado organismo dos sinais
Sou a diferença que caminha e que adere à distância
Cada palavra me separa e me diz o lugar
ou não lugar
em que vou falar-lhe É preciso que lhe fale
Ela não me vê e parece não me ouvir
Alguma vez caminhámos nesta cidade, nesta rede?
Alguma vez te perdeste com ela nesta rua?
O rumo repete-se mas desvia-se do passado
há uma recusa viva na sua face inabordável
Não é possível chegar Não é possível deter-me
É para o labirinto que falo e a linguagem responde-me
Assim posso entender o murmúrio das lâmpadas
cada palavra é um acto com que avanço no escuro
estou mais perto da terra de uma árvore de uma erva
e os meus dedos sentem as raízes do obscuro
Adiro a uma chama insubmissa ao sexo do repouso
o percurso é uma fábula o desesperado encanto
do para sempre perdido na maravilha obscura
Não há centro e a figura distancia-se
mas cada passo meu define uma distância solar
em que a figura dela por vezes é um canto
que se confunde com os meandros do labirinto
1 027
António Ramos Rosa
Qual É a Cena? Hesito À Luz Escassa
Qual é a cena? Hesito à luz escassa
Caminho para ela na distância
atravesso salas e salas
dispostas numa ordem regular
e decisiva
que não consigo definir Aqui
o espectáculo começou antes de mim
Quero tocá-la ou vê-la ou antes
quero-a quando ela deflagra
o meu andar é flexível: não desloco os objectos
Lenda ou narrativa vivi talvez o que em tempos me contaram
e o que escrevo agora Tudo se duplica
num movimento presente
As coisas não voltam para mim as faces cegas
e divididas
É um espaço que se move e desenvolve
Um sopro que vem de todos os lados
anima cada coisa
O meu desejo dela a distante figura
identifica-se
com o percurso obscuro em que já não me distingo
do ilimitado organismo dos sinais
Sou a diferença que caminha e que adere à distância
Cada palavra me separa e me diz o lugar
ou não lugar
em que vou falar-lhe É preciso que lhe fale
Ela não me vê e parece não me ouvir
Alguma vez caminhámos nesta cidade, nesta rede?
Alguma vez te perdeste com ela nesta rua?
O rumo repete-se mas desvia-se do passado
há uma recusa viva na sua face inabordável
Não é possível chegar Não é possível deter-me
É para o labirinto que falo e a linguagem responde-me
Assim posso entender o murmúrio das lâmpadas
cada palavra é um acto com que avanço no escuro
estou mais perto da terra de uma árvore de uma erva
e os meus dedos sentem as raízes do obscuro
Adiro a uma chama insubmissa ao sexo do repouso
o percurso é uma fábula o desesperado encanto
do para sempre perdido na maravilha obscura
Não há centro e a figura distancia-se
mas cada passo meu define uma distância solar
em que a figura dela por vezes é um canto
que se confunde com os meandros do labirinto
Caminho para ela na distância
atravesso salas e salas
dispostas numa ordem regular
e decisiva
que não consigo definir Aqui
o espectáculo começou antes de mim
Quero tocá-la ou vê-la ou antes
quero-a quando ela deflagra
o meu andar é flexível: não desloco os objectos
Lenda ou narrativa vivi talvez o que em tempos me contaram
e o que escrevo agora Tudo se duplica
num movimento presente
As coisas não voltam para mim as faces cegas
e divididas
É um espaço que se move e desenvolve
Um sopro que vem de todos os lados
anima cada coisa
O meu desejo dela a distante figura
identifica-se
com o percurso obscuro em que já não me distingo
do ilimitado organismo dos sinais
Sou a diferença que caminha e que adere à distância
Cada palavra me separa e me diz o lugar
ou não lugar
em que vou falar-lhe É preciso que lhe fale
Ela não me vê e parece não me ouvir
Alguma vez caminhámos nesta cidade, nesta rede?
Alguma vez te perdeste com ela nesta rua?
O rumo repete-se mas desvia-se do passado
há uma recusa viva na sua face inabordável
Não é possível chegar Não é possível deter-me
É para o labirinto que falo e a linguagem responde-me
Assim posso entender o murmúrio das lâmpadas
cada palavra é um acto com que avanço no escuro
estou mais perto da terra de uma árvore de uma erva
e os meus dedos sentem as raízes do obscuro
Adiro a uma chama insubmissa ao sexo do repouso
o percurso é uma fábula o desesperado encanto
do para sempre perdido na maravilha obscura
Não há centro e a figura distancia-se
mas cada passo meu define uma distância solar
em que a figura dela por vezes é um canto
que se confunde com os meandros do labirinto
1 027
António Ramos Rosa
Mediadora Simples
Demora em sossegos fundos
sonoros o seu fogo azul
por simples caminhos de erva,
talvez cristal, mas argila.
Sempre amiga e silenciosa
inunda a sombra dos quartos
sem esplendor nem coroa vã
mas em suas flores de água.
Não irrompe, surge plácida
entre a surdina das coisas.
Límpida, intensa, suave
cheia de fulgores minúsculos.
Mulher de serenidade,
sem grutas nem sombras ácidas,
abre o âmbito mais suave
na simplicidade de ser.
sonoros o seu fogo azul
por simples caminhos de erva,
talvez cristal, mas argila.
Sempre amiga e silenciosa
inunda a sombra dos quartos
sem esplendor nem coroa vã
mas em suas flores de água.
Não irrompe, surge plácida
entre a surdina das coisas.
Límpida, intensa, suave
cheia de fulgores minúsculos.
Mulher de serenidade,
sem grutas nem sombras ácidas,
abre o âmbito mais suave
na simplicidade de ser.
1 030
António Ramos Rosa
Mediadora Árida
Que pedra de música
subsiste
na argila cega?
Que navios no subsolo?
Ouço a sombra árida
do corpo, ouço os animais
sem água
nas caves clandestinas.
Onde as vogais do fogo
no fulgor do vento?
subsiste
na argila cega?
Que navios no subsolo?
Ouço a sombra árida
do corpo, ouço os animais
sem água
nas caves clandestinas.
Onde as vogais do fogo
no fulgor do vento?
1 039
António Ramos Rosa
Mediadora Dos Dias
Cada página um dia
na alegria simples
de um jogo. Cada átrio
um grito. Pequenas chamas
do mar. Feliz sombra,
rumor de rio, silêncio
claro. Transparência.
Sabor do desejo salvo.
Respira a lâmpada
frágil. Tempo: repouso
na água. Vogais
entre os veios do sono.
No rumor dos frutos
simples, a plenitude
de estar. Vertentes
onde o silêncio aflui.
Colinas. Águas
de um tranquilo fulgor.
Pedras cintilam, sílabas
num mundo aéreo.
na alegria simples
de um jogo. Cada átrio
um grito. Pequenas chamas
do mar. Feliz sombra,
rumor de rio, silêncio
claro. Transparência.
Sabor do desejo salvo.
Respira a lâmpada
frágil. Tempo: repouso
na água. Vogais
entre os veios do sono.
No rumor dos frutos
simples, a plenitude
de estar. Vertentes
onde o silêncio aflui.
Colinas. Águas
de um tranquilo fulgor.
Pedras cintilam, sílabas
num mundo aéreo.
1 000
António Ramos Rosa
Mediadora Dos Dias
Cada página um dia
na alegria simples
de um jogo. Cada átrio
um grito. Pequenas chamas
do mar. Feliz sombra,
rumor de rio, silêncio
claro. Transparência.
Sabor do desejo salvo.
Respira a lâmpada
frágil. Tempo: repouso
na água. Vogais
entre os veios do sono.
No rumor dos frutos
simples, a plenitude
de estar. Vertentes
onde o silêncio aflui.
Colinas. Águas
de um tranquilo fulgor.
Pedras cintilam, sílabas
num mundo aéreo.
na alegria simples
de um jogo. Cada átrio
um grito. Pequenas chamas
do mar. Feliz sombra,
rumor de rio, silêncio
claro. Transparência.
Sabor do desejo salvo.
Respira a lâmpada
frágil. Tempo: repouso
na água. Vogais
entre os veios do sono.
No rumor dos frutos
simples, a plenitude
de estar. Vertentes
onde o silêncio aflui.
Colinas. Águas
de um tranquilo fulgor.
Pedras cintilam, sílabas
num mundo aéreo.
1 000
António Ramos Rosa
Mediadora Sonâmbula
Dançarina do sono,
a que raízes se ligam as pupilas
nocturnas? Obedece
à árvore dos seus passos.
Conduz os animais
minuciosos
do desejo errante.
Sua inocência
tem a forma do silêncio.
O vazio vibra na leveza
do andar.
Desenha o astro em que caminha.
a que raízes se ligam as pupilas
nocturnas? Obedece
à árvore dos seus passos.
Conduz os animais
minuciosos
do desejo errante.
Sua inocência
tem a forma do silêncio.
O vazio vibra na leveza
do andar.
Desenha o astro em que caminha.
1 056
António Ramos Rosa
Mediadora Negra Iii
Germina ainda um desenho
de alegria? Quem ouve as densas
raízes, as constelações
do pólen?
de alegria? Quem ouve as densas
raízes, as constelações
do pólen?
1 039
António Ramos Rosa
Mediadora Negra Iii
Germina ainda um desenho
de alegria? Quem ouve as densas
raízes, as constelações
do pólen?
de alegria? Quem ouve as densas
raízes, as constelações
do pólen?
1 039
António Ramos Rosa
Mediadora Negra I
A que diz não e nunca
inexorável e negra
a impossível e só
pedra desolação.
Quando imensamente cresce
abraçando desmembrando
toda a distância obscura
estéril inútil cega.
Que silêncios alucinam
a já nunca mensageira
dos obscuros relâmpagos
de um pensamento sem música.
Já nos cinzentos abismos
sem jardim nem horizonte.
Ávida, inerme, enorme
delira palavras vãs.
inexorável e negra
a impossível e só
pedra desolação.
Quando imensamente cresce
abraçando desmembrando
toda a distância obscura
estéril inútil cega.
Que silêncios alucinam
a já nunca mensageira
dos obscuros relâmpagos
de um pensamento sem música.
Já nos cinzentos abismos
sem jardim nem horizonte.
Ávida, inerme, enorme
delira palavras vãs.
1 057
António Ramos Rosa
Mediadora Negra I
A que diz não e nunca
inexorável e negra
a impossível e só
pedra desolação.
Quando imensamente cresce
abraçando desmembrando
toda a distância obscura
estéril inútil cega.
Que silêncios alucinam
a já nunca mensageira
dos obscuros relâmpagos
de um pensamento sem música.
Já nos cinzentos abismos
sem jardim nem horizonte.
Ávida, inerme, enorme
delira palavras vãs.
inexorável e negra
a impossível e só
pedra desolação.
Quando imensamente cresce
abraçando desmembrando
toda a distância obscura
estéril inútil cega.
Que silêncios alucinam
a já nunca mensageira
dos obscuros relâmpagos
de um pensamento sem música.
Já nos cinzentos abismos
sem jardim nem horizonte.
Ávida, inerme, enorme
delira palavras vãs.
1 057
António Ramos Rosa
Algo Se Precipita Ou Se Afasta
Algo se precipita ou se afasta
árvores que sobrevivem obscuras
não há ponte entre uma frase e outra
um cão vigia ou sonha no silêncio das ruas
no interior do texto
ela desloca-se
uma dupla superfície define o espaço
não há identidade entre o texto e a leitura
tudo é outro e outro
o que se repete é diferente e o diferente é o mesmo
Não é ainda o silêncio: espero pelas figuras
é antes um rumor o ruído de um organismo
um funcionamento obstinado e anónimo
eis a diferença a precária tensão que segrega o visível
Onde encontrar a figura senão nos interstícios
Ignoro se posso penetrar nessa zona proibida
Sei que alguém escreveu: «a impregnação de um sangue
oculto antes da ferida que abre a superfície»
A imagem aqui seria
a dança das figuras
Não se sabe ainda
a que fim se destinam tantos gestos lentos
palavras segregadas
frases inacabadas que se dirigem talvez a todos
olhares de súbito fixos
confundidos pelo mesmo desejo de uma semelhança
anónima e alheia
Não é a dança ainda
mas é como se fosse começar
árvores que sobrevivem obscuras
não há ponte entre uma frase e outra
um cão vigia ou sonha no silêncio das ruas
no interior do texto
ela desloca-se
uma dupla superfície define o espaço
não há identidade entre o texto e a leitura
tudo é outro e outro
o que se repete é diferente e o diferente é o mesmo
Não é ainda o silêncio: espero pelas figuras
é antes um rumor o ruído de um organismo
um funcionamento obstinado e anónimo
eis a diferença a precária tensão que segrega o visível
Onde encontrar a figura senão nos interstícios
Ignoro se posso penetrar nessa zona proibida
Sei que alguém escreveu: «a impregnação de um sangue
oculto antes da ferida que abre a superfície»
A imagem aqui seria
a dança das figuras
Não se sabe ainda
a que fim se destinam tantos gestos lentos
palavras segregadas
frases inacabadas que se dirigem talvez a todos
olhares de súbito fixos
confundidos pelo mesmo desejo de uma semelhança
anónima e alheia
Não é a dança ainda
mas é como se fosse começar
1 033
António Ramos Rosa
Mediadora do Acaso
Nua, no acaso,
táctil, leve,
fácil, viva.
Júbilo cristalino,
hipérboles. Dançam
nas veias, diluem-se,
amanhecem.
Nomes do excesso
subtil, conciso.
Pleonasmos
do corpo
impenetrável.
táctil, leve,
fácil, viva.
Júbilo cristalino,
hipérboles. Dançam
nas veias, diluem-se,
amanhecem.
Nomes do excesso
subtil, conciso.
Pleonasmos
do corpo
impenetrável.
1 084
António Ramos Rosa
Mediadora do Real
Suavidade e tumulto.
Aroma da nudez.
Luz redonda, luz delícia
de evidência.
Prodígio da terra, grande
enlace
de imediatas moradas
confiantes.
Profusa maravilha, o centro
abriu-se.
Júbilo da nudez. Delírio fulvo.
A alegria lê a fábula real.
Aroma da nudez.
Luz redonda, luz delícia
de evidência.
Prodígio da terra, grande
enlace
de imediatas moradas
confiantes.
Profusa maravilha, o centro
abriu-se.
Júbilo da nudez. Delírio fulvo.
A alegria lê a fábula real.
1 232
António Ramos Rosa
Mediadora do Real
Suavidade e tumulto.
Aroma da nudez.
Luz redonda, luz delícia
de evidência.
Prodígio da terra, grande
enlace
de imediatas moradas
confiantes.
Profusa maravilha, o centro
abriu-se.
Júbilo da nudez. Delírio fulvo.
A alegria lê a fábula real.
Aroma da nudez.
Luz redonda, luz delícia
de evidência.
Prodígio da terra, grande
enlace
de imediatas moradas
confiantes.
Profusa maravilha, o centro
abriu-se.
Júbilo da nudez. Delírio fulvo.
A alegria lê a fábula real.
1 232
António Ramos Rosa
Mediadora do Inicial Constante
Fuga que restitui: ritmo
de cinzas. Obscuro
destino na aragem
das artérias.
O longínquo respira num corpo
de penumbra.
No alento se abre
o labirinto.
Visão do ilimite compacto.
Surge
o inicial constante.
Unidade vertical de um convertido abismo.
de cinzas. Obscuro
destino na aragem
das artérias.
O longínquo respira num corpo
de penumbra.
No alento se abre
o labirinto.
Visão do ilimite compacto.
Surge
o inicial constante.
Unidade vertical de um convertido abismo.
1 003
António Ramos Rosa
Agora Que a Água É Clara E o Vento Livre
Agora que a água é clara e o vento livre
atiro esta cega flecha sobre o teu dorso
Tu dormes entre caminhos e sombras
e bebes as luzes da terra como um cavalo selvagem
Ouço um clamor na escada e há um gesto esquecido
não vejo no mar senão um navio silencioso
Tuas palavras seriam as sombras musicais
enquanto a minha mão se agita como uma chama
Há um massacre de insectos no metal negro do teu sangue
Tu és mais do que a virgem a imperceptível coluna
Distingo ainda teus olhos semicerrados entre as pedras
Suspenso de ti da tua distância desço à tua seiva
Sou um animal moribundo uivando silencioso
A minha morte nasce do teu olhar Morro de te ver
Interrompo os teus olhos Sou uma sombra interminável
Desapareço sempre que te levantas entre as ervas
Afasto-me para dar lugar à sombra de um cavalo
Por vezes o teu silêncio desperta sobre o mar
e vivo nas tuas mãos um sono maternal
Mas agora sou tão escuro como um pedaço de terra
Algum cão ladra às tuas pernas de deusa
Se eu te fizesse gritar acertando em tuas coxas
com estas cegas flechas ó branca sombra da noite!
atiro esta cega flecha sobre o teu dorso
Tu dormes entre caminhos e sombras
e bebes as luzes da terra como um cavalo selvagem
Ouço um clamor na escada e há um gesto esquecido
não vejo no mar senão um navio silencioso
Tuas palavras seriam as sombras musicais
enquanto a minha mão se agita como uma chama
Há um massacre de insectos no metal negro do teu sangue
Tu és mais do que a virgem a imperceptível coluna
Distingo ainda teus olhos semicerrados entre as pedras
Suspenso de ti da tua distância desço à tua seiva
Sou um animal moribundo uivando silencioso
A minha morte nasce do teu olhar Morro de te ver
Interrompo os teus olhos Sou uma sombra interminável
Desapareço sempre que te levantas entre as ervas
Afasto-me para dar lugar à sombra de um cavalo
Por vezes o teu silêncio desperta sobre o mar
e vivo nas tuas mãos um sono maternal
Mas agora sou tão escuro como um pedaço de terra
Algum cão ladra às tuas pernas de deusa
Se eu te fizesse gritar acertando em tuas coxas
com estas cegas flechas ó branca sombra da noite!
1 167
António Ramos Rosa
Mediadora do Não Lugar
Múltiplas vozes anulam-se
no branco. A visão não é
da vibração dos actos
mas de máscaras brancas
invioláveis. A perspectiva
muda por momentos. Súbitas
muralhas fulgurantes,
uma mão tão antiga como a terra.
De súbito enegrece
a paisagem do mar. Nenhum rosto
ou palavra
ascende da terra.
Apenas uma árvore solitária
e um fogo negro na espuma
enevoada. É o lugar da
disparidade e da cegueira.
A opressão é permanente,
as relações indiscerníveis.
no branco. A visão não é
da vibração dos actos
mas de máscaras brancas
invioláveis. A perspectiva
muda por momentos. Súbitas
muralhas fulgurantes,
uma mão tão antiga como a terra.
De súbito enegrece
a paisagem do mar. Nenhum rosto
ou palavra
ascende da terra.
Apenas uma árvore solitária
e um fogo negro na espuma
enevoada. É o lugar da
disparidade e da cegueira.
A opressão é permanente,
as relações indiscerníveis.
715
António Ramos Rosa
Mediadora do Não Lugar
Múltiplas vozes anulam-se
no branco. A visão não é
da vibração dos actos
mas de máscaras brancas
invioláveis. A perspectiva
muda por momentos. Súbitas
muralhas fulgurantes,
uma mão tão antiga como a terra.
De súbito enegrece
a paisagem do mar. Nenhum rosto
ou palavra
ascende da terra.
Apenas uma árvore solitária
e um fogo negro na espuma
enevoada. É o lugar da
disparidade e da cegueira.
A opressão é permanente,
as relações indiscerníveis.
no branco. A visão não é
da vibração dos actos
mas de máscaras brancas
invioláveis. A perspectiva
muda por momentos. Súbitas
muralhas fulgurantes,
uma mão tão antiga como a terra.
De súbito enegrece
a paisagem do mar. Nenhum rosto
ou palavra
ascende da terra.
Apenas uma árvore solitária
e um fogo negro na espuma
enevoada. É o lugar da
disparidade e da cegueira.
A opressão é permanente,
as relações indiscerníveis.
715
António Ramos Rosa
Mediadora Leve
De que suaves declives
ela desce, tão efémera
em sua fresca lucidez.
Imediata fluência
perfumada. Com um hálito
de espuma transparece
entre vertentes e vértices.
Não é mais que folha ou água.
Nada pesa e tudo queda
no seu círculo subtil:
cada vez mais leve o ar
entre a penumbra dos músculos.
Nada oculta sob as pedras
do vento. A claridade lisa.
O espaço escuta. Uma fábula
de calma profundidade.
Tão próxima sempre, aviva
o fulgor dos ângulos, o brilho
do pensamento das lâmpadas.
Rosa de um círculo latente.
Ninguém a espera e é esperada
no seu fluxo de inocência.
A densidade é mais leve.
Carne da luz e da alma.
Enquanto dura o seu estar
tudo é sossego e visão
ama-se a água na água.
Amam-se as veias da sombra.
ela desce, tão efémera
em sua fresca lucidez.
Imediata fluência
perfumada. Com um hálito
de espuma transparece
entre vertentes e vértices.
Não é mais que folha ou água.
Nada pesa e tudo queda
no seu círculo subtil:
cada vez mais leve o ar
entre a penumbra dos músculos.
Nada oculta sob as pedras
do vento. A claridade lisa.
O espaço escuta. Uma fábula
de calma profundidade.
Tão próxima sempre, aviva
o fulgor dos ângulos, o brilho
do pensamento das lâmpadas.
Rosa de um círculo latente.
Ninguém a espera e é esperada
no seu fluxo de inocência.
A densidade é mais leve.
Carne da luz e da alma.
Enquanto dura o seu estar
tudo é sossego e visão
ama-se a água na água.
Amam-se as veias da sombra.
1 131
António Ramos Rosa
Viagem Sem Caminho
De um sim a outro sim, viaja sem caminho.
Com desertos de sombra, irmã viva do mar.
Adormece embalada, desliza adormecida.
De reflexo em reflexo, divaga entre a folhagem.
Escrevo através do calor das suas veias.
Ninguém te cercou de muros nem de abismos.
Danças, quieta, no mais lúcido delírio.
O teu grande mistério são beijos, são palavras?
Saborosa mulher que te espojas nas dunas
e acaricias límpida o sono azul do céu.
É contigo que danço nas varandas do vento,
solitária e transparente, mais viva do que nós.
Abolida e intacta, velada e límpida
circulas de arco em arco em voluptuosa festa.
As palavras que dizes dançam dentro do sono.
Com desertos de sombra, irmã viva do mar.
Adormece embalada, desliza adormecida.
De reflexo em reflexo, divaga entre a folhagem.
Escrevo através do calor das suas veias.
Ninguém te cercou de muros nem de abismos.
Danças, quieta, no mais lúcido delírio.
O teu grande mistério são beijos, são palavras?
Saborosa mulher que te espojas nas dunas
e acaricias límpida o sono azul do céu.
É contigo que danço nas varandas do vento,
solitária e transparente, mais viva do que nós.
Abolida e intacta, velada e límpida
circulas de arco em arco em voluptuosa festa.
As palavras que dizes dançam dentro do sono.
972
António Ramos Rosa
Figuras
Delícia dos movimentos calmos, ecos
talvez de um sonho, mas figuras tão vivas
com as suas espáduas largas e vazias.
Corpos sem sombras entre a chama e o vento.
Adormecem no ar, navegam sem navios.
Não vivem no mar mas na ausência que é o mar
quando a palavra o diz. Não estão no bosque
mas na folha que escrevo. Chega a noite das árvores
em que eles são no silêncio uma folhagem de olhos.
Não murmuram sequer, na mais pura cadência.
Escrevo a lentidão das figuras serenas
que respiram na tranquila nitidez aérea.
Os nomes dão-lhes vida sem caminhos prévios.
No vazio do desejo se acende o seu fulgor.
Estão no nosso estar de campos sossegados.
talvez de um sonho, mas figuras tão vivas
com as suas espáduas largas e vazias.
Corpos sem sombras entre a chama e o vento.
Adormecem no ar, navegam sem navios.
Não vivem no mar mas na ausência que é o mar
quando a palavra o diz. Não estão no bosque
mas na folha que escrevo. Chega a noite das árvores
em que eles são no silêncio uma folhagem de olhos.
Não murmuram sequer, na mais pura cadência.
Escrevo a lentidão das figuras serenas
que respiram na tranquila nitidez aérea.
Os nomes dão-lhes vida sem caminhos prévios.
No vazio do desejo se acende o seu fulgor.
Estão no nosso estar de campos sossegados.
1 199