Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
António Ramos Rosa
O Desejo a Surpresa
O desejo A surpresa
Ou a maravilha
Não pela igual imagem
mas destroçando-a
Resíduos só ou a passagem dos sinais
que dizem a passagem
do que será
se for o contacto imprevisível
do obscuro
inacessível corpo em outro corpo vivo
Ou a maravilha
Não pela igual imagem
mas destroçando-a
Resíduos só ou a passagem dos sinais
que dizem a passagem
do que será
se for o contacto imprevisível
do obscuro
inacessível corpo em outro corpo vivo
1 065
António Ramos Rosa
Um Furor de Espuma Entre As Algas
Um furor de espuma entre as algas
e o abandono de qualquer coisa escura
A violência extrema a extremidade
desejável
Que verde a violência e que brancura
Neste outro branco agora balbucio
pássaro branco
insecto
espuma
e o abandono de qualquer coisa escura
A violência extrema a extremidade
desejável
Que verde a violência e que brancura
Neste outro branco agora balbucio
pássaro branco
insecto
espuma
1 113
António Ramos Rosa
Um Furor de Espuma Entre As Algas
Um furor de espuma entre as algas
e o abandono de qualquer coisa escura
A violência extrema a extremidade
desejável
Que verde a violência e que brancura
Neste outro branco agora balbucio
pássaro branco
insecto
espuma
e o abandono de qualquer coisa escura
A violência extrema a extremidade
desejável
Que verde a violência e que brancura
Neste outro branco agora balbucio
pássaro branco
insecto
espuma
1 113
António Ramos Rosa
Catarina Palavra Viva
Catarina esta palavra vibra
vive
em nós
não é uma palavra morta
nem perdida
Catarina
é a palavra viva
que ninguém fuzila
Catarina
o teu nome é mais que um nome
ou é o nome
que encontrou
um rosto
a alegria viva
além de nós
aqui
presente
Catarina
não é um bosque musical
mas uma pedra
que canta
de pé
claramente
pura
com um rosto
de água
sua palavra viva
vive
em nós
não é uma palavra morta
nem perdida
Catarina
é a palavra viva
que ninguém fuzila
Catarina
o teu nome é mais que um nome
ou é o nome
que encontrou
um rosto
a alegria viva
além de nós
aqui
presente
Catarina
não é um bosque musical
mas uma pedra
que canta
de pé
claramente
pura
com um rosto
de água
sua palavra viva
1 205
António Ramos Rosa
Um Tempo de Semente
Um tempo de semente
sob os passos
e a lâmpada
sob as traves
sob os passos
e a lâmpada
sob as traves
1 057
António Ramos Rosa
O Tecto Respira Pelas Vértebras
O tecto respira pelas vértebras
e a madeira do sol
na fonte
e a madeira do sol
na fonte
1 110
António Ramos Rosa
Toco Os Pés de Terra
Toco os pés de terra
e os ombros da parede
sobre as nuvens
e os ombros da parede
sobre as nuvens
1 099
António Ramos Rosa
O Que Nos Diz a Imagem? Diz-Nos o Que É E Não o Diz
O que nos diz a imagem? Diz-nos o que é e não o diz.
Porque não é uma palavra. Antes um silêncio,
uma ausência, um vazio.
O seu sentido é uma promessa de sentido
ou o silêncio do sentido que respira e transparece
Ausência na presença plena
Cintilação silenciosa e fixa de um olhar sem fim
Um olhar vazio de tudo — que vê e não vê
e só vê porque é cego.
Tudo nele é visão, mas a visão vê tudo.
Um signo que aponta a uma infinidade de sentidos
ou o sentido é infinito. Um sentido impossível.
Este é o aspecto incessante do signo,
o seu vazio e a sua vida,
todos os signos de um signo
de um incessante signo.
O olhar vazio é visão de um puro espaço
onde tudo é exterior e ao mesmo tempo íntimo
Todo o interior é nele o puro olhar do exterior
e a profundidade infinita do olhar silencioso.
Tudo o que ele vê a partir do puro espaço
o horizonte que está em si e à sua frente
e vem de dentro, do íntimo exterior,
e é todo ele olhar em si
a pura exterioridade de si mesmo
que ao abrir-se fecha-se e para dentro se abre.
Mas este olhar vazio
é ainda mais exterior do que qualquer olhar
porque reflecte à superfície todo o exterior
o puro exterior a partir do qual nos olha
e em si mesmo vê
numa esfera
em que a visão é presença fascinante
do que não vemos,
a ausência do que ela vê
— o tudo e o nada da visão,
a vacuidade do próprio acto de ver.
Ela olha… Não. Não olha. Vê.
Não vê. Olha.
Olha o vazio, o vazio do centro.
E ela vê.
Mas quando vê
deixa de ver: olha
apenas.
Porque a visão suspende-se
ante o vazio do centro.
Ela não pode ver-nos. Ela olha-nos.
Olhemo-la.
Olhemos os seus olhos, o seu olhar.
Não vemos, olhamos apenas.
Estes olhos não se vêem.
Como não se vê a luz vazia,
a luz do imo,
o fundo sem fundo do próprio fundo.
Mas podemos olhá-la
porque olhar é deixar-se fascinar
e o que olhamos é a fascinação do vazio
sem fundo algum.
Mas o seu rosto reflecte a harmonia
do seu fundo sem fundo com a superfície pura.
O seu rosto fala do silêncio
que é o silêncio da sua beleza.
E a discreta plenitude deste rosto
revela-nos
que o puro espaço inacessível
é também a pura presença da terra,
a misteriosa transparência de cada ser,
a plenitude de uma semelhança.
Este rosto reconhece-nos
porque é a própria semelhança.
Esta semelhança reúne-nos,
reconcilia-nos connosco
é o nosso coração reencontrado.
Este rosto aceita-nos no seu silêncio
na sua distância próxima.
É um sorriso de uma serena plenitude,
um sorriso de aceitação e amor,
uma amizade no mistério do ser.
Este rosto atrai-nos para uma distância
uma longínqua proximidade
ponderação da nossa transparência
porque nela nós estamos presentes
através de uma contemplação
que recusa olhar o que não deve ser visto
que atravessa o visível para ver.
Ela vê o que se oculta no visível,
o único, o ser,
o centro onde não estamos
mas que talvez em nós amadureça
que o seu olhar faz amadurecer.
Não a vemos. Olhamo-la.
E é todo o seu corpo que nos olha
que não cessa de nos olhar.
Vemos o seu corpo.
Mas é antes o seu corpo que nos olha.
O seu corpo é palavra e silêncio da palavra.
A palavra-silêncio do seu corpo
entra no íntimo de nós
onde recolhe o sonho de viver
que só pode revelar-se numa infinita
contemplação
que não pode deter-se em nenhum sentido
porque é o incessante, o interminável sim do amor.
Porque não é uma palavra. Antes um silêncio,
uma ausência, um vazio.
O seu sentido é uma promessa de sentido
ou o silêncio do sentido que respira e transparece
Ausência na presença plena
Cintilação silenciosa e fixa de um olhar sem fim
Um olhar vazio de tudo — que vê e não vê
e só vê porque é cego.
Tudo nele é visão, mas a visão vê tudo.
Um signo que aponta a uma infinidade de sentidos
ou o sentido é infinito. Um sentido impossível.
Este é o aspecto incessante do signo,
o seu vazio e a sua vida,
todos os signos de um signo
de um incessante signo.
O olhar vazio é visão de um puro espaço
onde tudo é exterior e ao mesmo tempo íntimo
Todo o interior é nele o puro olhar do exterior
e a profundidade infinita do olhar silencioso.
Tudo o que ele vê a partir do puro espaço
o horizonte que está em si e à sua frente
e vem de dentro, do íntimo exterior,
e é todo ele olhar em si
a pura exterioridade de si mesmo
que ao abrir-se fecha-se e para dentro se abre.
Mas este olhar vazio
é ainda mais exterior do que qualquer olhar
porque reflecte à superfície todo o exterior
o puro exterior a partir do qual nos olha
e em si mesmo vê
numa esfera
em que a visão é presença fascinante
do que não vemos,
a ausência do que ela vê
— o tudo e o nada da visão,
a vacuidade do próprio acto de ver.
Ela olha… Não. Não olha. Vê.
Não vê. Olha.
Olha o vazio, o vazio do centro.
E ela vê.
Mas quando vê
deixa de ver: olha
apenas.
Porque a visão suspende-se
ante o vazio do centro.
Ela não pode ver-nos. Ela olha-nos.
Olhemo-la.
Olhemos os seus olhos, o seu olhar.
Não vemos, olhamos apenas.
Estes olhos não se vêem.
Como não se vê a luz vazia,
a luz do imo,
o fundo sem fundo do próprio fundo.
Mas podemos olhá-la
porque olhar é deixar-se fascinar
e o que olhamos é a fascinação do vazio
sem fundo algum.
Mas o seu rosto reflecte a harmonia
do seu fundo sem fundo com a superfície pura.
O seu rosto fala do silêncio
que é o silêncio da sua beleza.
E a discreta plenitude deste rosto
revela-nos
que o puro espaço inacessível
é também a pura presença da terra,
a misteriosa transparência de cada ser,
a plenitude de uma semelhança.
Este rosto reconhece-nos
porque é a própria semelhança.
Esta semelhança reúne-nos,
reconcilia-nos connosco
é o nosso coração reencontrado.
Este rosto aceita-nos no seu silêncio
na sua distância próxima.
É um sorriso de uma serena plenitude,
um sorriso de aceitação e amor,
uma amizade no mistério do ser.
Este rosto atrai-nos para uma distância
uma longínqua proximidade
ponderação da nossa transparência
porque nela nós estamos presentes
através de uma contemplação
que recusa olhar o que não deve ser visto
que atravessa o visível para ver.
Ela vê o que se oculta no visível,
o único, o ser,
o centro onde não estamos
mas que talvez em nós amadureça
que o seu olhar faz amadurecer.
Não a vemos. Olhamo-la.
E é todo o seu corpo que nos olha
que não cessa de nos olhar.
Vemos o seu corpo.
Mas é antes o seu corpo que nos olha.
O seu corpo é palavra e silêncio da palavra.
A palavra-silêncio do seu corpo
entra no íntimo de nós
onde recolhe o sonho de viver
que só pode revelar-se numa infinita
contemplação
que não pode deter-se em nenhum sentido
porque é o incessante, o interminável sim do amor.
575
António Ramos Rosa
A Mão Baixa
A mão baixa
aranha de ar
rápida intranquila
as armas que respiram
o desejo e a surpresa
aranha de ar
rápida intranquila
as armas que respiram
o desejo e a surpresa
1 156
António Ramos Rosa
Precipício: Vento Na Face
Precipício : vento na face
um nome
a lâmina de um nome
um nome
a lâmina de um nome
560
António Ramos Rosa
Precipício: Vento Na Face
Precipício : vento na face
um nome
a lâmina de um nome
um nome
a lâmina de um nome
560
António Ramos Rosa
Até Onde Vós Estais
Ó presenças amigas, ó momento
em que alongo o braço e toco em cheio os rostos.
A minha língua abriu-se para dizer a face
do vento que percorre as vossas vidas.
Estou perante a noite mais profunda,
a delicada noite das raízes: vejo rostos
vejo os sinais e os suores das vossas vidas.
Atravesso árvores submersas, ruas obscuras,
poços de água verde, e vou convosco ter,
minhas faces lívidas, mãe, amigos, amores.
A terra que penetro é este chão de terra
com as raízes feridas, com os ferozes pulsos,
a vertente que desço é uma subida às vossas vidas.
em que alongo o braço e toco em cheio os rostos.
A minha língua abriu-se para dizer a face
do vento que percorre as vossas vidas.
Estou perante a noite mais profunda,
a delicada noite das raízes: vejo rostos
vejo os sinais e os suores das vossas vidas.
Atravesso árvores submersas, ruas obscuras,
poços de água verde, e vou convosco ter,
minhas faces lívidas, mãe, amigos, amores.
A terra que penetro é este chão de terra
com as raízes feridas, com os ferozes pulsos,
a vertente que desço é uma subida às vossas vidas.
1 039
António Ramos Rosa
Sem Casa E Sem Caminho
Sem casa e sem caminho
na sombra do caminho
sem a casa no corpo do caminho
na sombra do caminho
sem a casa no corpo do caminho
1 166
António Ramos Rosa
Quase
Quase
a garganta forte a respiração do tronco
obsessão branca
a casa do nome
com o vento das ervas
e o fogo sem o nome
a garganta forte a respiração do tronco
obsessão branca
a casa do nome
com o vento das ervas
e o fogo sem o nome
1 091
António Ramos Rosa
A Face Ergueu-Se Contra a Face
A face ergueu-se contra a face
quase
a palavra
dos dentes
quase
a palavra
dos dentes
1 114
António Ramos Rosa
Uma Substância de Sombra Um Aroma Quase
Uma substância de sombra um aroma quase
um desenho frágil
o espaço branco
cintilações de água sobre o muro
intensidade nua
a semelhança livre
do rosto e do lugar
Sinuosa e nua
sobre o vazio terra latente
Marca breve à superfície para não escrever
imagem do contacto
entre o branco e o negro
a semelhança
de nascer
de não nascer
Um seio verde
no fundo
do quarto
e tudo o que circula
os desenhos vermelhos
os insectos as nuvens
Entras no dia branco
na distância viva
Dedos incandescentes
sobre a laranja
e a lâmpada
Silenciosa intensidade
de um obscuro sabor
Rumor de uma corola
aberta pelo silêncio
Deslumbramento Espaço
Onde deixaste a noite
a noite
com a sua noite
e as suas dunas brancas
Sol dos lagos no rosto
sol cimo suave
Linha silenciosa
para o intangível
centro
de horizontal brancura
Tu és o centro móvel
na noite da nudez
folha verde
de luz
O traço que desenhas
é o sussurro branco
da semelhança liberta
Semelhança uma folha move-se
para um centro
de coexistência pura
A semelhança de um rosto é a diferença de um arco
A semelhança é uma surpresa culminando
na imagem
Aliança translúcida de alianças
semelhança de semelhanças
A semelhança da nostalgia e da presença
A semelhança do desejo e da inocência
A semelhança é uma viagem na ausência
o centro na distância
Nada é tão novo como a semelhança na sua ínfima diferença
A semelhança é o gérmen de si mesma e da presença da origem
No silêncio da imagem o teu rosto é a semelhança da Presença
um desenho frágil
o espaço branco
cintilações de água sobre o muro
intensidade nua
a semelhança livre
do rosto e do lugar
Sinuosa e nua
sobre o vazio terra latente
Marca breve à superfície para não escrever
imagem do contacto
entre o branco e o negro
a semelhança
de nascer
de não nascer
Um seio verde
no fundo
do quarto
e tudo o que circula
os desenhos vermelhos
os insectos as nuvens
Entras no dia branco
na distância viva
Dedos incandescentes
sobre a laranja
e a lâmpada
Silenciosa intensidade
de um obscuro sabor
Rumor de uma corola
aberta pelo silêncio
Deslumbramento Espaço
Onde deixaste a noite
a noite
com a sua noite
e as suas dunas brancas
Sol dos lagos no rosto
sol cimo suave
Linha silenciosa
para o intangível
centro
de horizontal brancura
Tu és o centro móvel
na noite da nudez
folha verde
de luz
O traço que desenhas
é o sussurro branco
da semelhança liberta
Semelhança uma folha move-se
para um centro
de coexistência pura
A semelhança de um rosto é a diferença de um arco
A semelhança é uma surpresa culminando
na imagem
Aliança translúcida de alianças
semelhança de semelhanças
A semelhança da nostalgia e da presença
A semelhança do desejo e da inocência
A semelhança é uma viagem na ausência
o centro na distância
Nada é tão novo como a semelhança na sua ínfima diferença
A semelhança é o gérmen de si mesma e da presença da origem
No silêncio da imagem o teu rosto é a semelhança da Presença
1 051
António Ramos Rosa
Uma Substância de Sombra Um Aroma Quase
Uma substância de sombra um aroma quase
um desenho frágil
o espaço branco
cintilações de água sobre o muro
intensidade nua
a semelhança livre
do rosto e do lugar
Sinuosa e nua
sobre o vazio terra latente
Marca breve à superfície para não escrever
imagem do contacto
entre o branco e o negro
a semelhança
de nascer
de não nascer
Um seio verde
no fundo
do quarto
e tudo o que circula
os desenhos vermelhos
os insectos as nuvens
Entras no dia branco
na distância viva
Dedos incandescentes
sobre a laranja
e a lâmpada
Silenciosa intensidade
de um obscuro sabor
Rumor de uma corola
aberta pelo silêncio
Deslumbramento Espaço
Onde deixaste a noite
a noite
com a sua noite
e as suas dunas brancas
Sol dos lagos no rosto
sol cimo suave
Linha silenciosa
para o intangível
centro
de horizontal brancura
Tu és o centro móvel
na noite da nudez
folha verde
de luz
O traço que desenhas
é o sussurro branco
da semelhança liberta
Semelhança uma folha move-se
para um centro
de coexistência pura
A semelhança de um rosto é a diferença de um arco
A semelhança é uma surpresa culminando
na imagem
Aliança translúcida de alianças
semelhança de semelhanças
A semelhança da nostalgia e da presença
A semelhança do desejo e da inocência
A semelhança é uma viagem na ausência
o centro na distância
Nada é tão novo como a semelhança na sua ínfima diferença
A semelhança é o gérmen de si mesma e da presença da origem
No silêncio da imagem o teu rosto é a semelhança da Presença
um desenho frágil
o espaço branco
cintilações de água sobre o muro
intensidade nua
a semelhança livre
do rosto e do lugar
Sinuosa e nua
sobre o vazio terra latente
Marca breve à superfície para não escrever
imagem do contacto
entre o branco e o negro
a semelhança
de nascer
de não nascer
Um seio verde
no fundo
do quarto
e tudo o que circula
os desenhos vermelhos
os insectos as nuvens
Entras no dia branco
na distância viva
Dedos incandescentes
sobre a laranja
e a lâmpada
Silenciosa intensidade
de um obscuro sabor
Rumor de uma corola
aberta pelo silêncio
Deslumbramento Espaço
Onde deixaste a noite
a noite
com a sua noite
e as suas dunas brancas
Sol dos lagos no rosto
sol cimo suave
Linha silenciosa
para o intangível
centro
de horizontal brancura
Tu és o centro móvel
na noite da nudez
folha verde
de luz
O traço que desenhas
é o sussurro branco
da semelhança liberta
Semelhança uma folha move-se
para um centro
de coexistência pura
A semelhança de um rosto é a diferença de um arco
A semelhança é uma surpresa culminando
na imagem
Aliança translúcida de alianças
semelhança de semelhanças
A semelhança da nostalgia e da presença
A semelhança do desejo e da inocência
A semelhança é uma viagem na ausência
o centro na distância
Nada é tão novo como a semelhança na sua ínfima diferença
A semelhança é o gérmen de si mesma e da presença da origem
No silêncio da imagem o teu rosto é a semelhança da Presença
1 051
António Ramos Rosa
A Minha Pedra Para José Gomes Ferreira
Prólogo
Se houvesse uma pedra
a que eu pudesse chamar pedra
Se não houvesse o cansaço
das pedras
que não são pedras
que são apenas cansaço sem nenhuma pedra
Se tivesse ao menos uma pedra
que faria da pedra?
Que farei desta mão
definitivamente sem a pedra?
Farei o que puder
com a palavra pedra
quer tenha a pedra ou não
E se eu tivesse a pedra
sem o saber
se a pedra pedra ou não
de qualquer modo
fosse essa pedra já
que há tanto tempo habita
a pedra que é desejo
da transparência viva?
A pedra que eu habito
A pedra que eu habito
é um arco
um arco de pedra
Podes chamar-lhe buraco
No buraco
está o arco
do buraco
Queria mais que uma pedra
queria outra pedra
Invento uma pedra
para esta pedra
Invento outro arco
e outro
e outro ainda
Não saio do buraco
Atiro uma pedra
para ser flecha
Mas será flecha?
E será de fogo?
Saio do buraco
vou ao teu encontro
com a minha pedra
É uma pedra mesmo?
Inventada ou não
inventada e não
é a minha pedra
e por isso dou-ta
com o calor da mão
O prodígio é simples
uma pedra apenas
um buraco
um insecto
de súbito foge
Agora é que é teu
Se te dou a pedra
logo a pedra existe
Logo a pedra é pedra
A pedra que encontrei
quando ta quis dar
quando te encontrei
Se uma pedra existe
todo o mundo existe
Se esta pedra é pedra
logo tu existes
Todo o mundo habita
no gesto da mão
que te dá a pedra
Toma então a pedra
meu irmão
Se houvesse uma pedra
a que eu pudesse chamar pedra
Se não houvesse o cansaço
das pedras
que não são pedras
que são apenas cansaço sem nenhuma pedra
Se tivesse ao menos uma pedra
que faria da pedra?
Que farei desta mão
definitivamente sem a pedra?
Farei o que puder
com a palavra pedra
quer tenha a pedra ou não
E se eu tivesse a pedra
sem o saber
se a pedra pedra ou não
de qualquer modo
fosse essa pedra já
que há tanto tempo habita
a pedra que é desejo
da transparência viva?
A pedra que eu habito
A pedra que eu habito
é um arco
um arco de pedra
Podes chamar-lhe buraco
No buraco
está o arco
do buraco
Queria mais que uma pedra
queria outra pedra
Invento uma pedra
para esta pedra
Invento outro arco
e outro
e outro ainda
Não saio do buraco
Atiro uma pedra
para ser flecha
Mas será flecha?
E será de fogo?
Saio do buraco
vou ao teu encontro
com a minha pedra
É uma pedra mesmo?
Inventada ou não
inventada e não
é a minha pedra
e por isso dou-ta
com o calor da mão
O prodígio é simples
uma pedra apenas
um buraco
um insecto
de súbito foge
Agora é que é teu
Se te dou a pedra
logo a pedra existe
Logo a pedra é pedra
A pedra que encontrei
quando ta quis dar
quando te encontrei
Se uma pedra existe
todo o mundo existe
Se esta pedra é pedra
logo tu existes
Todo o mundo habita
no gesto da mão
que te dá a pedra
Toma então a pedra
meu irmão
1 062
António Ramos Rosa
67. Veria Aqui o Rosto, o Punho Frágil
67
Veria aqui o rosto, o punho frágil
que não seguro, não segurei, retenho
o pouco dos teus pés, a figura da fímbria,
forma do ser ausente.
Perco a medida da medida, seguro a folha
do sangue sobre as pernas,
na negação do corpo encontro o corpo e o sangue
o sangue da negação do sangue ainda o sangue.
Quando a penetração pura, a branca
violência de água do alento
quando a mão recebe a pulsação da folha.
Veria aqui o rosto, o punho frágil
que não seguro, não segurei, retenho
o pouco dos teus pés, a figura da fímbria,
forma do ser ausente.
Perco a medida da medida, seguro a folha
do sangue sobre as pernas,
na negação do corpo encontro o corpo e o sangue
o sangue da negação do sangue ainda o sangue.
Quando a penetração pura, a branca
violência de água do alento
quando a mão recebe a pulsação da folha.
1 081
António Ramos Rosa
67. Veria Aqui o Rosto, o Punho Frágil
67
Veria aqui o rosto, o punho frágil
que não seguro, não segurei, retenho
o pouco dos teus pés, a figura da fímbria,
forma do ser ausente.
Perco a medida da medida, seguro a folha
do sangue sobre as pernas,
na negação do corpo encontro o corpo e o sangue
o sangue da negação do sangue ainda o sangue.
Quando a penetração pura, a branca
violência de água do alento
quando a mão recebe a pulsação da folha.
Veria aqui o rosto, o punho frágil
que não seguro, não segurei, retenho
o pouco dos teus pés, a figura da fímbria,
forma do ser ausente.
Perco a medida da medida, seguro a folha
do sangue sobre as pernas,
na negação do corpo encontro o corpo e o sangue
o sangue da negação do sangue ainda o sangue.
Quando a penetração pura, a branca
violência de água do alento
quando a mão recebe a pulsação da folha.
1 081
António Ramos Rosa
74. Porque Não o Encontro E Não o Encontro
74
Porque não o encontro e não o encontro
aquém da força de que vive o pulso
aquém da face e da figura o esplendor.
Porquê a árvore oculta sob a árvore
a pedra não soando e sem a cor e sem
a força do sinal de pedra e o fogo
sem a mão do afago e tudo em vão
no vão de tudo ser o encontro aquém do encontro
a presença perdida na presença.
Porque não o encontro e não o encontro
aquém da força de que vive o pulso
aquém da face e da figura o esplendor.
Porquê a árvore oculta sob a árvore
a pedra não soando e sem a cor e sem
a força do sinal de pedra e o fogo
sem a mão do afago e tudo em vão
no vão de tudo ser o encontro aquém do encontro
a presença perdida na presença.
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