Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
António Ramos Rosa
No Elemento Único Global
Sem o ofegar da tensão cativa
sóbria soberana
em assomos planos de dorso
o elemento único global
a alegria nova e luminosa
Entre ver e respirar
praia ao cessar das sílabas
recente clareira
despojada lâmina de brancura
de plana tranquilidade imediata
Sem perfil entrevista entre ramos acesos
ligeira imóvel dança de sinais
coroada em todo o lado pelo seu suporte branco
Alta e rasa sem figura interposta
a mesa real de todo o ver possível
na aérea luz de um sim que se respira
Renovada madeira do corpo comunicada
Lâmina liberta ao nível do ar
sóbria soberana
em assomos planos de dorso
o elemento único global
a alegria nova e luminosa
Entre ver e respirar
praia ao cessar das sílabas
recente clareira
despojada lâmina de brancura
de plana tranquilidade imediata
Sem perfil entrevista entre ramos acesos
ligeira imóvel dança de sinais
coroada em todo o lado pelo seu suporte branco
Alta e rasa sem figura interposta
a mesa real de todo o ver possível
na aérea luz de um sim que se respira
Renovada madeira do corpo comunicada
Lâmina liberta ao nível do ar
556
António Ramos Rosa
No Elemento Único Global
Sem o ofegar da tensão cativa
sóbria soberana
em assomos planos de dorso
o elemento único global
a alegria nova e luminosa
Entre ver e respirar
praia ao cessar das sílabas
recente clareira
despojada lâmina de brancura
de plana tranquilidade imediata
Sem perfil entrevista entre ramos acesos
ligeira imóvel dança de sinais
coroada em todo o lado pelo seu suporte branco
Alta e rasa sem figura interposta
a mesa real de todo o ver possível
na aérea luz de um sim que se respira
Renovada madeira do corpo comunicada
Lâmina liberta ao nível do ar
sóbria soberana
em assomos planos de dorso
o elemento único global
a alegria nova e luminosa
Entre ver e respirar
praia ao cessar das sílabas
recente clareira
despojada lâmina de brancura
de plana tranquilidade imediata
Sem perfil entrevista entre ramos acesos
ligeira imóvel dança de sinais
coroada em todo o lado pelo seu suporte branco
Alta e rasa sem figura interposta
a mesa real de todo o ver possível
na aérea luz de um sim que se respira
Renovada madeira do corpo comunicada
Lâmina liberta ao nível do ar
556
António Ramos Rosa
À Sombra do Cavalo, o Ócio Retempera-Se.
À sombra do cavalo, o ócio retempera-se.
O prazer de olhar a liberdade do campo
onde cada árvore e cada sombra dizem
o sossego de estar à sombra do cavalo.
O sossego do sol, a terra igual à terra,
e toda a luz firmando os volumes e as cores.
Tudo ressalta em força,
em pureza de estar em paz sob o cavalo.
À sombra do cavalo, o ócio aprende a ser
aquilo mesmo que é, um estar feito de luz,
uma razão de ser sem se saber mais nada
do que a razão das pedras, do que a visão das árvores.
A sombra do cavalo engloba tudo o mais.
O prazer de olhar a liberdade do campo
onde cada árvore e cada sombra dizem
o sossego de estar à sombra do cavalo.
O sossego do sol, a terra igual à terra,
e toda a luz firmando os volumes e as cores.
Tudo ressalta em força,
em pureza de estar em paz sob o cavalo.
À sombra do cavalo, o ócio aprende a ser
aquilo mesmo que é, um estar feito de luz,
uma razão de ser sem se saber mais nada
do que a razão das pedras, do que a visão das árvores.
A sombra do cavalo engloba tudo o mais.
1 254
António Ramos Rosa
Por Uma Serena Viagem Em Busca de Uma Pedra
Por uma serena viagem em busca de uma pedra
de fogo e desse olhar cuja cor é de outono,
parti com meu cavalo e um olho amigo e triste.
Atrás ficou a cinza, a terra calcinada.
Por uma serena viagem em busca de outro espaço
onde o cavalo beba a luz do horizonte
onde eu próprio me perca no lugar que é o meu,
de ninguém e de todos, na paz do espaço interno.
Por uma serena viagem em que eu leia o que escrevo
à luz de olhos amigos e ardentes de desejo
amando este cavalo que do amor nasceu
ou da fúria de ser num combate infindável.
de fogo e desse olhar cuja cor é de outono,
parti com meu cavalo e um olho amigo e triste.
Atrás ficou a cinza, a terra calcinada.
Por uma serena viagem em busca de outro espaço
onde o cavalo beba a luz do horizonte
onde eu próprio me perca no lugar que é o meu,
de ninguém e de todos, na paz do espaço interno.
Por uma serena viagem em que eu leia o que escrevo
à luz de olhos amigos e ardentes de desejo
amando este cavalo que do amor nasceu
ou da fúria de ser num combate infindável.
1 115
António Ramos Rosa
Por Uma Serena Viagem Em Busca de Uma Pedra
Por uma serena viagem em busca de uma pedra
de fogo e desse olhar cuja cor é de outono,
parti com meu cavalo e um olho amigo e triste.
Atrás ficou a cinza, a terra calcinada.
Por uma serena viagem em busca de outro espaço
onde o cavalo beba a luz do horizonte
onde eu próprio me perca no lugar que é o meu,
de ninguém e de todos, na paz do espaço interno.
Por uma serena viagem em que eu leia o que escrevo
à luz de olhos amigos e ardentes de desejo
amando este cavalo que do amor nasceu
ou da fúria de ser num combate infindável.
de fogo e desse olhar cuja cor é de outono,
parti com meu cavalo e um olho amigo e triste.
Atrás ficou a cinza, a terra calcinada.
Por uma serena viagem em busca de outro espaço
onde o cavalo beba a luz do horizonte
onde eu próprio me perca no lugar que é o meu,
de ninguém e de todos, na paz do espaço interno.
Por uma serena viagem em que eu leia o que escrevo
à luz de olhos amigos e ardentes de desejo
amando este cavalo que do amor nasceu
ou da fúria de ser num combate infindável.
1 115
António Ramos Rosa
Diz o Objecto E a Imagem Que Não Existe,
Diz o objecto e a imagem que não existe,
diz o elogio do orvalho, a palavra tecida,
órgãos necessários, uma abertura ao lado,
tudo se sobrepõe, se liga na rede destes nomes.
Asfixia quase e sem razão alguma. Algum clamor
ao rés do campo, o ruído da água persistente,
no corpo a náusea e o desejo, o atroz ardor,
o perímetro que permite a dimensão da terra.
Diz a água mais lenta na página da terra,
acorda um clamor de paz, uma ordem escura
de insectos, a frescura das ervas e dos nomes.
Acorda, que é o tempo de acordar a razão,
do clamor do vento, do objecto inerte,
e a imagem que existe é a que permanece.
diz o elogio do orvalho, a palavra tecida,
órgãos necessários, uma abertura ao lado,
tudo se sobrepõe, se liga na rede destes nomes.
Asfixia quase e sem razão alguma. Algum clamor
ao rés do campo, o ruído da água persistente,
no corpo a náusea e o desejo, o atroz ardor,
o perímetro que permite a dimensão da terra.
Diz a água mais lenta na página da terra,
acorda um clamor de paz, uma ordem escura
de insectos, a frescura das ervas e dos nomes.
Acorda, que é o tempo de acordar a razão,
do clamor do vento, do objecto inerte,
e a imagem que existe é a que permanece.
1 160
António Ramos Rosa
A Teoria do Cavalo — o Friso Das Mulheres.
A teoria do cavalo — o friso das mulheres.
Os animais que auscultam o silêncio da noite,
a mulher enleada numa teia de aranha,
um grito que morreu no silêncio mais frio.
A explosão dos ombros, o punho desse olhar,
a torsão desse corpo na fúria do amor,
a explosão das palavras como o sémen na vulva,
a suavidade sedosa no seio de uma lâmpada.
A noite amorosa até ao fim da noite.
Não existe espectáculo para a visão mais íntima.
Os corpos mais suaves arrancam-se da fúria
e banham-se no óleo feliz do absoluto.
Os animais que auscultam o silêncio da noite,
a mulher enleada numa teia de aranha,
um grito que morreu no silêncio mais frio.
A explosão dos ombros, o punho desse olhar,
a torsão desse corpo na fúria do amor,
a explosão das palavras como o sémen na vulva,
a suavidade sedosa no seio de uma lâmpada.
A noite amorosa até ao fim da noite.
Não existe espectáculo para a visão mais íntima.
Os corpos mais suaves arrancam-se da fúria
e banham-se no óleo feliz do absoluto.
1 092
António Ramos Rosa
A Teoria do Cavalo — o Friso Das Mulheres.
A teoria do cavalo — o friso das mulheres.
Os animais que auscultam o silêncio da noite,
a mulher enleada numa teia de aranha,
um grito que morreu no silêncio mais frio.
A explosão dos ombros, o punho desse olhar,
a torsão desse corpo na fúria do amor,
a explosão das palavras como o sémen na vulva,
a suavidade sedosa no seio de uma lâmpada.
A noite amorosa até ao fim da noite.
Não existe espectáculo para a visão mais íntima.
Os corpos mais suaves arrancam-se da fúria
e banham-se no óleo feliz do absoluto.
Os animais que auscultam o silêncio da noite,
a mulher enleada numa teia de aranha,
um grito que morreu no silêncio mais frio.
A explosão dos ombros, o punho desse olhar,
a torsão desse corpo na fúria do amor,
a explosão das palavras como o sémen na vulva,
a suavidade sedosa no seio de uma lâmpada.
A noite amorosa até ao fim da noite.
Não existe espectáculo para a visão mais íntima.
Os corpos mais suaves arrancam-se da fúria
e banham-se no óleo feliz do absoluto.
1 092
António Ramos Rosa
Na Biblioteca Entre Pedras, Livros, Sombras
Na biblioteca entre pedras, livros, sombras
e a estrela a que está presa a mulher e o cavalo.
A paciência dilacera um último reduto.
Abertas as janelas, dilata-se o desejo
de igualar a altura e a firmeza à sombra.
Preso o cavalo à estrela, dimensão bem clara,
renova-se o ar e a luz penetra a sombra.
Biblioteca de pedras e o mar roendo as rochas.
Pode o cavalo soltar-se sem a mulher e a sombra,
pode o céu afirmar-se na tranquilidade da cena.
Uma luta suave e negra entrega aos ombros
a liberdade oculta e fortalece os ossos.
Um caminho de pedras na biblioteca acesa
e o cavalo pastando entre flores e livros.
e a estrela a que está presa a mulher e o cavalo.
A paciência dilacera um último reduto.
Abertas as janelas, dilata-se o desejo
de igualar a altura e a firmeza à sombra.
Preso o cavalo à estrela, dimensão bem clara,
renova-se o ar e a luz penetra a sombra.
Biblioteca de pedras e o mar roendo as rochas.
Pode o cavalo soltar-se sem a mulher e a sombra,
pode o céu afirmar-se na tranquilidade da cena.
Uma luta suave e negra entrega aos ombros
a liberdade oculta e fortalece os ossos.
Um caminho de pedras na biblioteca acesa
e o cavalo pastando entre flores e livros.
966
António Ramos Rosa
Sinto a Perfeição de Um Corpo
Sinto a perfeição de um corpo
e nos seus olhos perpassa um pouco o medo.
Serei eu quem tu vês?
Quem me abraçou outro dia não é já quem me abraça?
Sinto o não e o sim — e a inflexão da noite.
Vivo à superfície de um corpo negro e fundo.
O amplexo é real
e o que escrevo é o frémito.
Porque é tudo tão breve e tão longo, não sei.
Tenho os olhos fechados de abertos de ternura.
Tenho um pouco a paz de uma noite vivida.
e nos seus olhos perpassa um pouco o medo.
Serei eu quem tu vês?
Quem me abraçou outro dia não é já quem me abraça?
Sinto o não e o sim — e a inflexão da noite.
Vivo à superfície de um corpo negro e fundo.
O amplexo é real
e o que escrevo é o frémito.
Porque é tudo tão breve e tão longo, não sei.
Tenho os olhos fechados de abertos de ternura.
Tenho um pouco a paz de uma noite vivida.
993
António Ramos Rosa
Escrevo Pela Paixão de Te Inventar de Um Nada,
Escrevo pela paixão de te inventar de um nada,
um filamento apenas e logo outro sinal,
um tecido febril e temos um cavalo
inteiro com o som e a exactidão do nome.
Não sei a tua cor, mas tens em ti o campo,
a liberdade e a força que eu experimento em ti.
Para onde vais, cavalo, tão veloz, violento
ou na paz do teu trote, sem sela e livre, livre!
Percorro esta terra como um seio amoroso,
corres já no meu corpo com a vida do fogo,
tua paixão me cega e me ilumina a terra.
És tu que me crias com as palavras justas
que da tua elegância e ritmo se libertam
e me erguem a uma vida pura e vertical.
um filamento apenas e logo outro sinal,
um tecido febril e temos um cavalo
inteiro com o som e a exactidão do nome.
Não sei a tua cor, mas tens em ti o campo,
a liberdade e a força que eu experimento em ti.
Para onde vais, cavalo, tão veloz, violento
ou na paz do teu trote, sem sela e livre, livre!
Percorro esta terra como um seio amoroso,
corres já no meu corpo com a vida do fogo,
tua paixão me cega e me ilumina a terra.
És tu que me crias com as palavras justas
que da tua elegância e ritmo se libertam
e me erguem a uma vida pura e vertical.
1 620
António Ramos Rosa
Entrar. Com o Vagar do Campo. Sem Ferir.
Entrar. Com o vagar do campo. Sem ferir.
As mesas estão dispostas pela mulher ausente.
Onde os convidados? Há flores em toda a casa.
Só uma chama brilha no fogão. A luz é baça.
Num quarto, uma cama e o entrevisto corpo
de uma mulher alta.
Que se passou? A luz era demais.
A mulher não esperava a festa que eu sonhava
e era ela própria que a criava no espelho
com o mar extenso e o ar fresco da praia.
As mãos dela busquei-as, reconheci-as magras
sangrando. Os animais gritaram.
As mesas estão dispostas pela mulher ausente.
Onde os convidados? Há flores em toda a casa.
Só uma chama brilha no fogão. A luz é baça.
Num quarto, uma cama e o entrevisto corpo
de uma mulher alta.
Que se passou? A luz era demais.
A mulher não esperava a festa que eu sonhava
e era ela própria que a criava no espelho
com o mar extenso e o ar fresco da praia.
As mãos dela busquei-as, reconheci-as magras
sangrando. Os animais gritaram.
1 031
António Ramos Rosa
Entrar. Com o Vagar do Campo. Sem Ferir.
Entrar. Com o vagar do campo. Sem ferir.
As mesas estão dispostas pela mulher ausente.
Onde os convidados? Há flores em toda a casa.
Só uma chama brilha no fogão. A luz é baça.
Num quarto, uma cama e o entrevisto corpo
de uma mulher alta.
Que se passou? A luz era demais.
A mulher não esperava a festa que eu sonhava
e era ela própria que a criava no espelho
com o mar extenso e o ar fresco da praia.
As mãos dela busquei-as, reconheci-as magras
sangrando. Os animais gritaram.
As mesas estão dispostas pela mulher ausente.
Onde os convidados? Há flores em toda a casa.
Só uma chama brilha no fogão. A luz é baça.
Num quarto, uma cama e o entrevisto corpo
de uma mulher alta.
Que se passou? A luz era demais.
A mulher não esperava a festa que eu sonhava
e era ela própria que a criava no espelho
com o mar extenso e o ar fresco da praia.
As mãos dela busquei-as, reconheci-as magras
sangrando. Os animais gritaram.
1 031
António Ramos Rosa
Não Acaba o Cavalo de Ser Cavalo
Não acaba o cavalo de ser cavalo
pelo nome e pelo corpo,
pela argila vermelha e o verde bosque,
o princípio da forma do seu ser.
Tão rasteiro me faço para o ver
na glória do seu campo raso
a respirar o ar do seu ar
e o barro que é bafo parado.
O dia pardo como um pão de terra
e a sede dessas virilhas fortalece
o martelo com que bato a paz do campo.
pelo nome e pelo corpo,
pela argila vermelha e o verde bosque,
o princípio da forma do seu ser.
Tão rasteiro me faço para o ver
na glória do seu campo raso
a respirar o ar do seu ar
e o barro que é bafo parado.
O dia pardo como um pão de terra
e a sede dessas virilhas fortalece
o martelo com que bato a paz do campo.
1 070
António Ramos Rosa
Ó Boca Ferida, Inconsolável Boca
Ó boca ferida, inconsolável boca
que entre o silêncio e o grito só conhece o gemido.
Daqui não se levanta o cavalo prostrado.
É aqui que se dorme o sono de uma pedra.
Eis o flagelo do silêncio, a negrura do sono.
Como desperta a pedra, como rebenta o ovo,
em que o sol e a lua renascerão vermelhos?
Uma centelha de súbito desperta
o cavalo que me iguala ao teu corpo solar.
que entre o silêncio e o grito só conhece o gemido.
Daqui não se levanta o cavalo prostrado.
É aqui que se dorme o sono de uma pedra.
Eis o flagelo do silêncio, a negrura do sono.
Como desperta a pedra, como rebenta o ovo,
em que o sol e a lua renascerão vermelhos?
Uma centelha de súbito desperta
o cavalo que me iguala ao teu corpo solar.
1 050
António Ramos Rosa
O Desejado Chegado
He llegado a una tierra de llegada.
JUAN RAMÓN JIMÉNEZ
Porque és sem tensão o resultado,
o chegado. A praia e o centro do olhar
no extremo e simples.
A água toda externa, água solar,
por toda a parte visível nua em ti.
Vejo-te desejado pupila toda mar
à varanda de ti próprio.
À varanda do mar.
O desejado desejo
nudez de consciência
livre ao ar de tudo
em palavras nuas de água
eu o recebo, teu princípio e fim.
No espaço interno mar
onde chegaste
o desejo coincide eterno em si
no mar.
JUAN RAMÓN JIMÉNEZ
Porque és sem tensão o resultado,
o chegado. A praia e o centro do olhar
no extremo e simples.
A água toda externa, água solar,
por toda a parte visível nua em ti.
Vejo-te desejado pupila toda mar
à varanda de ti próprio.
À varanda do mar.
O desejado desejo
nudez de consciência
livre ao ar de tudo
em palavras nuas de água
eu o recebo, teu princípio e fim.
No espaço interno mar
onde chegaste
o desejo coincide eterno em si
no mar.
1 003
António Ramos Rosa
O Calor Dos Campos E da Cor Em Ti, Cavalo,
O calor dos campos e da cor em ti, cavalo,
e em mim o muro quente e a força do teu nome.
Não espero mas aceito a tua marcha
como quem navega no campo dessas cores.
Tua abrasada língua, teus olhos sem antolhos,
correm a liberdade dos campos sem a névoa,
relinchas do prazer de ser cavalo
(e não o sabes)
e aqui me tens numa linguagem árida
e tensa. Para que me arrebates ainda mais que nunca
sempre com a paz do teu campo de cores
e a grande paz da força, tua boca descoberta,
sempre a alertar-me em palavras que são brasas
ou cinza ainda cálida do papel, destas formas
do meu amor da liberdade e do vigor
da vontade inteira em mim, cavalo.
e em mim o muro quente e a força do teu nome.
Não espero mas aceito a tua marcha
como quem navega no campo dessas cores.
Tua abrasada língua, teus olhos sem antolhos,
correm a liberdade dos campos sem a névoa,
relinchas do prazer de ser cavalo
(e não o sabes)
e aqui me tens numa linguagem árida
e tensa. Para que me arrebates ainda mais que nunca
sempre com a paz do teu campo de cores
e a grande paz da força, tua boca descoberta,
sempre a alertar-me em palavras que são brasas
ou cinza ainda cálida do papel, destas formas
do meu amor da liberdade e do vigor
da vontade inteira em mim, cavalo.
1 041
António Ramos Rosa
Batalha de Formigas — Puros Exercícios
Batalha de formigas — puros exercícios
do prazer de olhar a face viva da terra
e cada grão de terra é uma razão de vida.
Há um incêndio na água, há um olhar que ilumina
a suspensão da pedra e o enlace incompleto
e a árvore da noite cobre a árvore do dia.
Quem verá outros olhos, quem ouvirá a noite?
A solidão mortal do mesmo e não igual.
Porque só um morre em cada um de nós.
do prazer de olhar a face viva da terra
e cada grão de terra é uma razão de vida.
Há um incêndio na água, há um olhar que ilumina
a suspensão da pedra e o enlace incompleto
e a árvore da noite cobre a árvore do dia.
Quem verá outros olhos, quem ouvirá a noite?
A solidão mortal do mesmo e não igual.
Porque só um morre em cada um de nós.
601
António Ramos Rosa
Não Dura Aqui a Imagem, Não Dura Aqui o Som.
Não dura aqui a imagem, não dura aqui o som.
Aqui onde se insere a palavra mais forte.
O cavalo na lentidão caminha sobriamente.
Nada se inscreve na árvore nem o perdão subsiste?
Não dura aqui o som da mão ou a inscrição
da palavra mais forte no tronco dessa árvore
mas o cavalo caminha na tarde sobriamente
como inscrito perfeito num universo próprio.
Há outros animais, outras vozes, o mundo,
mas há este sossego neste lado do muro,
a visão de um instante, a inscrição metálica.
E tudo se prolonga na gestação da tarde.
O cavalo é o sossego próprio da sua força,
amadurecida imagem que dura e onde estou.
Aqui onde se insere a palavra mais forte.
O cavalo na lentidão caminha sobriamente.
Nada se inscreve na árvore nem o perdão subsiste?
Não dura aqui o som da mão ou a inscrição
da palavra mais forte no tronco dessa árvore
mas o cavalo caminha na tarde sobriamente
como inscrito perfeito num universo próprio.
Há outros animais, outras vozes, o mundo,
mas há este sossego neste lado do muro,
a visão de um instante, a inscrição metálica.
E tudo se prolonga na gestação da tarde.
O cavalo é o sossego próprio da sua força,
amadurecida imagem que dura e onde estou.
998
António Ramos Rosa
O Direito de Viver Pela Escrita Incorrupta,
O direito de viver pela escrita incorrupta,
a seta disparada acerta ou não o alvo,
o poeta ganha o seu cavalo por dia,
virilmente o arranca do seu escuro magma.
O direito de viver pela vida mais forte
na intensidade pura do cavalo que
reúne em si tensões e rasga a folha escrita,
é o direito ao mar, ao espaço inteiro.
O direito da vida pela palavra viva,
por ela o meu cavalo:
as suas patas ferem o sol e rasgam nuvens.
a seta disparada acerta ou não o alvo,
o poeta ganha o seu cavalo por dia,
virilmente o arranca do seu escuro magma.
O direito de viver pela vida mais forte
na intensidade pura do cavalo que
reúne em si tensões e rasga a folha escrita,
é o direito ao mar, ao espaço inteiro.
O direito da vida pela palavra viva,
por ela o meu cavalo:
as suas patas ferem o sol e rasgam nuvens.
1 030
António Ramos Rosa
Os Anjos Que Conheço São de Erva E de Silêncio
Os anjos que conheço são de erva e de silêncio
nalgum jardim de tarde. Mas quais os mais ardentes?
Feitos de mar e sol, elevam-se nas ondas,
entre as mulheres de coxas tão fortes como touros.
O meu luto é de mesas e de bandeiras sem paz.
É estar sem corpo à espera, inconsolada boca,
o fogo ateia o peito, a cabeça perde a fronte,
o vazio rodopia, é o celeste inferno.
Desço ainda um degrau com o anjo infernal,
um turbilhão de ervas, um redemoinho de sangue.
Quem me vale agora se perdi o meu cavalo?
nalgum jardim de tarde. Mas quais os mais ardentes?
Feitos de mar e sol, elevam-se nas ondas,
entre as mulheres de coxas tão fortes como touros.
O meu luto é de mesas e de bandeiras sem paz.
É estar sem corpo à espera, inconsolada boca,
o fogo ateia o peito, a cabeça perde a fronte,
o vazio rodopia, é o celeste inferno.
Desço ainda um degrau com o anjo infernal,
um turbilhão de ervas, um redemoinho de sangue.
Quem me vale agora se perdi o meu cavalo?
1 088
António Ramos Rosa
Os Anjos Que Conheço São de Erva E de Silêncio
Os anjos que conheço são de erva e de silêncio
nalgum jardim de tarde. Mas quais os mais ardentes?
Feitos de mar e sol, elevam-se nas ondas,
entre as mulheres de coxas tão fortes como touros.
O meu luto é de mesas e de bandeiras sem paz.
É estar sem corpo à espera, inconsolada boca,
o fogo ateia o peito, a cabeça perde a fronte,
o vazio rodopia, é o celeste inferno.
Desço ainda um degrau com o anjo infernal,
um turbilhão de ervas, um redemoinho de sangue.
Quem me vale agora se perdi o meu cavalo?
nalgum jardim de tarde. Mas quais os mais ardentes?
Feitos de mar e sol, elevam-se nas ondas,
entre as mulheres de coxas tão fortes como touros.
O meu luto é de mesas e de bandeiras sem paz.
É estar sem corpo à espera, inconsolada boca,
o fogo ateia o peito, a cabeça perde a fronte,
o vazio rodopia, é o celeste inferno.
Desço ainda um degrau com o anjo infernal,
um turbilhão de ervas, um redemoinho de sangue.
Quem me vale agora se perdi o meu cavalo?
1 088
António Ramos Rosa
Uma Figura Errante, Ainda Incerta — E Sempre?
Uma figura errante, ainda incerta — e sempre?
Alguma folha nova caída de algum ramo?
Cai a sóbria noite em teus cabelos negros.
Pela janela vejo os campos divididos.
O cavalo entre nós é a força da paz
que dos teus ombros desce até aos teus joelhos.
Ganhei também meu rosto na sombra dolorosa.
O meu beijo, na música, é um gesto perfeito.
Suavidade intensa, uma estrela entre nós
num chão de suor negro, uma harmonia forte,
neste abraço ganhamos a força e o horizonte.
Alguma folha nova caída de algum ramo?
Cai a sóbria noite em teus cabelos negros.
Pela janela vejo os campos divididos.
O cavalo entre nós é a força da paz
que dos teus ombros desce até aos teus joelhos.
Ganhei também meu rosto na sombra dolorosa.
O meu beijo, na música, é um gesto perfeito.
Suavidade intensa, uma estrela entre nós
num chão de suor negro, uma harmonia forte,
neste abraço ganhamos a força e o horizonte.
988
António Ramos Rosa
Desmancha-Se o Cavalo? Jamais.
Desmancha-se o cavalo? Jamais.
A resposta vem da força dele.
Corre por cima dos desastres.
É fogo e pedra alta bem talhada.
Impossível quebrar-lhe a linha aérea
que tem a terra toda nos seus cascos.
Pesa por si e pelo campo em torno.
E o tácito apelo do risco em frente.
Vive, portanto, mais alto do que o tempo.
Ele próprio é bandeira sem bandeira,
o cavalo que nunca o é para si mesmo.
A resposta vem da força dele.
Corre por cima dos desastres.
É fogo e pedra alta bem talhada.
Impossível quebrar-lhe a linha aérea
que tem a terra toda nos seus cascos.
Pesa por si e pelo campo em torno.
E o tácito apelo do risco em frente.
Vive, portanto, mais alto do que o tempo.
Ele próprio é bandeira sem bandeira,
o cavalo que nunca o é para si mesmo.
1 100