Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
António Ramos Rosa
4. É Frágil Esta Sombra
É frágil esta sombra, frágil. E
esta escrita sem lâmpada, sem
cavalos na montanha.
É frágil este pulso, e este início.
Uma porta que não se abre, uma manhã tão triste.
Esta casa cheia de dias e de dias
e eu só desejo
abrir não sei que espaço, romper, abrir.
Sinais
sinais da terra outra.
Estacas.
Palavras.
Estacas.
Lâminas.
E não o jardim, não a folhagem nem o fogo.
Porque estes dedos são dedos de sombra
e o fruto perde-se, o fruto e a pedra
do fruto.
Os dentes desertaram da boca. E onde a boca?
Onde a água da boca aqui na folha?
Onde se levanta o vento, a linguagem do fogo?
Invento um arco? E sem o mar
sem o teu corpo.
Mas escrevo estes sinais contra o deserto.
Tantas marcas atrozes, tanto silêncio.
Inscrevo (eu sei) apenas inúteis setas
no círculo, entre tenazes.
Eu sei (aqui o digo) busco o seio límpido
e esta é a dor da terra mais triste
e eu não sei se desisti se ainda insisto.
Animal é o fogo e o espaço livre.
E se as bocas se encontram, se o fruto vive
sobre a pedra branca, se o círculo se abre
se nós quisermos que a terra seja a terra.
Quem clama no escuro, que outras sombras
se revoltam — que outras palavras
poderiam inscrever a terra nesta folha?
Eu desejo outro espaço o espaço do desejo
na folha mesma
onde inscrever
as palavras dos arcos do silêncio
ou as pedras da liberdade livre.
A flexão feliz dos membros nus
e esse canto que ascende para as árvores
e o rosto os rostos sinais transfigurados
essa luz vermelha sobre os cílios negros.
esta escrita sem lâmpada, sem
cavalos na montanha.
É frágil este pulso, e este início.
Uma porta que não se abre, uma manhã tão triste.
Esta casa cheia de dias e de dias
e eu só desejo
abrir não sei que espaço, romper, abrir.
Sinais
sinais da terra outra.
Estacas.
Palavras.
Estacas.
Lâminas.
E não o jardim, não a folhagem nem o fogo.
Porque estes dedos são dedos de sombra
e o fruto perde-se, o fruto e a pedra
do fruto.
Os dentes desertaram da boca. E onde a boca?
Onde a água da boca aqui na folha?
Onde se levanta o vento, a linguagem do fogo?
Invento um arco? E sem o mar
sem o teu corpo.
Mas escrevo estes sinais contra o deserto.
Tantas marcas atrozes, tanto silêncio.
Inscrevo (eu sei) apenas inúteis setas
no círculo, entre tenazes.
Eu sei (aqui o digo) busco o seio límpido
e esta é a dor da terra mais triste
e eu não sei se desisti se ainda insisto.
Animal é o fogo e o espaço livre.
E se as bocas se encontram, se o fruto vive
sobre a pedra branca, se o círculo se abre
se nós quisermos que a terra seja a terra.
Quem clama no escuro, que outras sombras
se revoltam — que outras palavras
poderiam inscrever a terra nesta folha?
Eu desejo outro espaço o espaço do desejo
na folha mesma
onde inscrever
as palavras dos arcos do silêncio
ou as pedras da liberdade livre.
A flexão feliz dos membros nus
e esse canto que ascende para as árvores
e o rosto os rostos sinais transfigurados
essa luz vermelha sobre os cílios negros.
1 163
António Ramos Rosa
4. É Frágil Esta Sombra
É frágil esta sombra, frágil. E
esta escrita sem lâmpada, sem
cavalos na montanha.
É frágil este pulso, e este início.
Uma porta que não se abre, uma manhã tão triste.
Esta casa cheia de dias e de dias
e eu só desejo
abrir não sei que espaço, romper, abrir.
Sinais
sinais da terra outra.
Estacas.
Palavras.
Estacas.
Lâminas.
E não o jardim, não a folhagem nem o fogo.
Porque estes dedos são dedos de sombra
e o fruto perde-se, o fruto e a pedra
do fruto.
Os dentes desertaram da boca. E onde a boca?
Onde a água da boca aqui na folha?
Onde se levanta o vento, a linguagem do fogo?
Invento um arco? E sem o mar
sem o teu corpo.
Mas escrevo estes sinais contra o deserto.
Tantas marcas atrozes, tanto silêncio.
Inscrevo (eu sei) apenas inúteis setas
no círculo, entre tenazes.
Eu sei (aqui o digo) busco o seio límpido
e esta é a dor da terra mais triste
e eu não sei se desisti se ainda insisto.
Animal é o fogo e o espaço livre.
E se as bocas se encontram, se o fruto vive
sobre a pedra branca, se o círculo se abre
se nós quisermos que a terra seja a terra.
Quem clama no escuro, que outras sombras
se revoltam — que outras palavras
poderiam inscrever a terra nesta folha?
Eu desejo outro espaço o espaço do desejo
na folha mesma
onde inscrever
as palavras dos arcos do silêncio
ou as pedras da liberdade livre.
A flexão feliz dos membros nus
e esse canto que ascende para as árvores
e o rosto os rostos sinais transfigurados
essa luz vermelha sobre os cílios negros.
esta escrita sem lâmpada, sem
cavalos na montanha.
É frágil este pulso, e este início.
Uma porta que não se abre, uma manhã tão triste.
Esta casa cheia de dias e de dias
e eu só desejo
abrir não sei que espaço, romper, abrir.
Sinais
sinais da terra outra.
Estacas.
Palavras.
Estacas.
Lâminas.
E não o jardim, não a folhagem nem o fogo.
Porque estes dedos são dedos de sombra
e o fruto perde-se, o fruto e a pedra
do fruto.
Os dentes desertaram da boca. E onde a boca?
Onde a água da boca aqui na folha?
Onde se levanta o vento, a linguagem do fogo?
Invento um arco? E sem o mar
sem o teu corpo.
Mas escrevo estes sinais contra o deserto.
Tantas marcas atrozes, tanto silêncio.
Inscrevo (eu sei) apenas inúteis setas
no círculo, entre tenazes.
Eu sei (aqui o digo) busco o seio límpido
e esta é a dor da terra mais triste
e eu não sei se desisti se ainda insisto.
Animal é o fogo e o espaço livre.
E se as bocas se encontram, se o fruto vive
sobre a pedra branca, se o círculo se abre
se nós quisermos que a terra seja a terra.
Quem clama no escuro, que outras sombras
se revoltam — que outras palavras
poderiam inscrever a terra nesta folha?
Eu desejo outro espaço o espaço do desejo
na folha mesma
onde inscrever
as palavras dos arcos do silêncio
ou as pedras da liberdade livre.
A flexão feliz dos membros nus
e esse canto que ascende para as árvores
e o rosto os rostos sinais transfigurados
essa luz vermelha sobre os cílios negros.
1 163
António Ramos Rosa
A Palavra No Deserto
à Lia
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal?
Era uma paisagem a pique. Respirava.
Uma obscura claridade e o vigor da terra
conjugavam-se numa boca. Era a frescura
de uma vigília, um sopro de vida ardente.
A clareira de ervas de aromas tensos.
O poema escrevia-se de poros abertos.
Uma camisa branca e leve flutuava
no corpo flexível.
Todos os frémitos eram sílabas de um Verão feliz.
Entre o sabor das coisas e as palavras
uma transparência quase.
A invenção do ar e do espaço
com uma varanda onde a ânsia refrescava
a sua febre na visão do mar.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Que procuro ainda?
A inesperada ardência, a vida
de um gesto novo?
Restituir-me-á a palavra
a maravilha nua do encontro,
a surpresa que lava o olhar, o pulso vivo?
Que miragem é esta? Viver só
o instante de um desejo
ou apenas o desejo de um desejo?
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Uma palavra de vida. O nascimento
de uma erva alta onde o céu dance.
Antes direi o nada que me cerca
e marcarei a pedra escura.
A sombra passará. A sede límpida
encontrará a fonte?
Se um caule verde nasce,
se eu ouvir um insecto crepitar no calor da terra?
Ou serão na noite os estalidos das estrelas?
Será este o sinal? As palavras nascem?
Tudo já passou. Ou nem chegou a ser.
E de novo preso à fixidez da página.
Que secreta origem, que presença branca
eu quero sentir pulsar. À minha frente
este desejo de nascer ainda em vida.
A esperança desesperada. A desesperada esperança.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Porque o sinal seria… Como o saberei?
Uma esperança paciente. A invenção
de tudo a cada instante. Uma linguagem
viva.
E não a aridez e a solidão sem vida.
O frio avança nos ossos e no sangue.
De novo a agonia e a dor sem horizonte.
Um escuro frenesim me invade contra
a sabedoria e a prometida paz.
O sinal que espero virá do mais obscuro.
Tudo se apagará. O nascimento é agora.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal?
Era uma paisagem a pique. Respirava.
Uma obscura claridade e o vigor da terra
conjugavam-se numa boca. Era a frescura
de uma vigília, um sopro de vida ardente.
A clareira de ervas de aromas tensos.
O poema escrevia-se de poros abertos.
Uma camisa branca e leve flutuava
no corpo flexível.
Todos os frémitos eram sílabas de um Verão feliz.
Entre o sabor das coisas e as palavras
uma transparência quase.
A invenção do ar e do espaço
com uma varanda onde a ânsia refrescava
a sua febre na visão do mar.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Que procuro ainda?
A inesperada ardência, a vida
de um gesto novo?
Restituir-me-á a palavra
a maravilha nua do encontro,
a surpresa que lava o olhar, o pulso vivo?
Que miragem é esta? Viver só
o instante de um desejo
ou apenas o desejo de um desejo?
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Uma palavra de vida. O nascimento
de uma erva alta onde o céu dance.
Antes direi o nada que me cerca
e marcarei a pedra escura.
A sombra passará. A sede límpida
encontrará a fonte?
Se um caule verde nasce,
se eu ouvir um insecto crepitar no calor da terra?
Ou serão na noite os estalidos das estrelas?
Será este o sinal? As palavras nascem?
Tudo já passou. Ou nem chegou a ser.
E de novo preso à fixidez da página.
Que secreta origem, que presença branca
eu quero sentir pulsar. À minha frente
este desejo de nascer ainda em vida.
A esperança desesperada. A desesperada esperança.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Porque o sinal seria… Como o saberei?
Uma esperança paciente. A invenção
de tudo a cada instante. Uma linguagem
viva.
E não a aridez e a solidão sem vida.
O frio avança nos ossos e no sangue.
De novo a agonia e a dor sem horizonte.
Um escuro frenesim me invade contra
a sabedoria e a prometida paz.
O sinal que espero virá do mais obscuro.
Tudo se apagará. O nascimento é agora.
644
António Ramos Rosa
A Palavra No Deserto
à Lia
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal?
Era uma paisagem a pique. Respirava.
Uma obscura claridade e o vigor da terra
conjugavam-se numa boca. Era a frescura
de uma vigília, um sopro de vida ardente.
A clareira de ervas de aromas tensos.
O poema escrevia-se de poros abertos.
Uma camisa branca e leve flutuava
no corpo flexível.
Todos os frémitos eram sílabas de um Verão feliz.
Entre o sabor das coisas e as palavras
uma transparência quase.
A invenção do ar e do espaço
com uma varanda onde a ânsia refrescava
a sua febre na visão do mar.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Que procuro ainda?
A inesperada ardência, a vida
de um gesto novo?
Restituir-me-á a palavra
a maravilha nua do encontro,
a surpresa que lava o olhar, o pulso vivo?
Que miragem é esta? Viver só
o instante de um desejo
ou apenas o desejo de um desejo?
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Uma palavra de vida. O nascimento
de uma erva alta onde o céu dance.
Antes direi o nada que me cerca
e marcarei a pedra escura.
A sombra passará. A sede límpida
encontrará a fonte?
Se um caule verde nasce,
se eu ouvir um insecto crepitar no calor da terra?
Ou serão na noite os estalidos das estrelas?
Será este o sinal? As palavras nascem?
Tudo já passou. Ou nem chegou a ser.
E de novo preso à fixidez da página.
Que secreta origem, que presença branca
eu quero sentir pulsar. À minha frente
este desejo de nascer ainda em vida.
A esperança desesperada. A desesperada esperança.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Porque o sinal seria… Como o saberei?
Uma esperança paciente. A invenção
de tudo a cada instante. Uma linguagem
viva.
E não a aridez e a solidão sem vida.
O frio avança nos ossos e no sangue.
De novo a agonia e a dor sem horizonte.
Um escuro frenesim me invade contra
a sabedoria e a prometida paz.
O sinal que espero virá do mais obscuro.
Tudo se apagará. O nascimento é agora.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal?
Era uma paisagem a pique. Respirava.
Uma obscura claridade e o vigor da terra
conjugavam-se numa boca. Era a frescura
de uma vigília, um sopro de vida ardente.
A clareira de ervas de aromas tensos.
O poema escrevia-se de poros abertos.
Uma camisa branca e leve flutuava
no corpo flexível.
Todos os frémitos eram sílabas de um Verão feliz.
Entre o sabor das coisas e as palavras
uma transparência quase.
A invenção do ar e do espaço
com uma varanda onde a ânsia refrescava
a sua febre na visão do mar.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Que procuro ainda?
A inesperada ardência, a vida
de um gesto novo?
Restituir-me-á a palavra
a maravilha nua do encontro,
a surpresa que lava o olhar, o pulso vivo?
Que miragem é esta? Viver só
o instante de um desejo
ou apenas o desejo de um desejo?
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Uma palavra de vida. O nascimento
de uma erva alta onde o céu dance.
Antes direi o nada que me cerca
e marcarei a pedra escura.
A sombra passará. A sede límpida
encontrará a fonte?
Se um caule verde nasce,
se eu ouvir um insecto crepitar no calor da terra?
Ou serão na noite os estalidos das estrelas?
Será este o sinal? As palavras nascem?
Tudo já passou. Ou nem chegou a ser.
E de novo preso à fixidez da página.
Que secreta origem, que presença branca
eu quero sentir pulsar. À minha frente
este desejo de nascer ainda em vida.
A esperança desesperada. A desesperada esperança.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Porque o sinal seria… Como o saberei?
Uma esperança paciente. A invenção
de tudo a cada instante. Uma linguagem
viva.
E não a aridez e a solidão sem vida.
O frio avança nos ossos e no sangue.
De novo a agonia e a dor sem horizonte.
Um escuro frenesim me invade contra
a sabedoria e a prometida paz.
O sinal que espero virá do mais obscuro.
Tudo se apagará. O nascimento é agora.
644
António Ramos Rosa
A Palavra No Deserto
à Lia
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal?
Era uma paisagem a pique. Respirava.
Uma obscura claridade e o vigor da terra
conjugavam-se numa boca. Era a frescura
de uma vigília, um sopro de vida ardente.
A clareira de ervas de aromas tensos.
O poema escrevia-se de poros abertos.
Uma camisa branca e leve flutuava
no corpo flexível.
Todos os frémitos eram sílabas de um Verão feliz.
Entre o sabor das coisas e as palavras
uma transparência quase.
A invenção do ar e do espaço
com uma varanda onde a ânsia refrescava
a sua febre na visão do mar.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Que procuro ainda?
A inesperada ardência, a vida
de um gesto novo?
Restituir-me-á a palavra
a maravilha nua do encontro,
a surpresa que lava o olhar, o pulso vivo?
Que miragem é esta? Viver só
o instante de um desejo
ou apenas o desejo de um desejo?
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Uma palavra de vida. O nascimento
de uma erva alta onde o céu dance.
Antes direi o nada que me cerca
e marcarei a pedra escura.
A sombra passará. A sede límpida
encontrará a fonte?
Se um caule verde nasce,
se eu ouvir um insecto crepitar no calor da terra?
Ou serão na noite os estalidos das estrelas?
Será este o sinal? As palavras nascem?
Tudo já passou. Ou nem chegou a ser.
E de novo preso à fixidez da página.
Que secreta origem, que presença branca
eu quero sentir pulsar. À minha frente
este desejo de nascer ainda em vida.
A esperança desesperada. A desesperada esperança.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Porque o sinal seria… Como o saberei?
Uma esperança paciente. A invenção
de tudo a cada instante. Uma linguagem
viva.
E não a aridez e a solidão sem vida.
O frio avança nos ossos e no sangue.
De novo a agonia e a dor sem horizonte.
Um escuro frenesim me invade contra
a sabedoria e a prometida paz.
O sinal que espero virá do mais obscuro.
Tudo se apagará. O nascimento é agora.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal?
Era uma paisagem a pique. Respirava.
Uma obscura claridade e o vigor da terra
conjugavam-se numa boca. Era a frescura
de uma vigília, um sopro de vida ardente.
A clareira de ervas de aromas tensos.
O poema escrevia-se de poros abertos.
Uma camisa branca e leve flutuava
no corpo flexível.
Todos os frémitos eram sílabas de um Verão feliz.
Entre o sabor das coisas e as palavras
uma transparência quase.
A invenção do ar e do espaço
com uma varanda onde a ânsia refrescava
a sua febre na visão do mar.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Que procuro ainda?
A inesperada ardência, a vida
de um gesto novo?
Restituir-me-á a palavra
a maravilha nua do encontro,
a surpresa que lava o olhar, o pulso vivo?
Que miragem é esta? Viver só
o instante de um desejo
ou apenas o desejo de um desejo?
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Uma palavra de vida. O nascimento
de uma erva alta onde o céu dance.
Antes direi o nada que me cerca
e marcarei a pedra escura.
A sombra passará. A sede límpida
encontrará a fonte?
Se um caule verde nasce,
se eu ouvir um insecto crepitar no calor da terra?
Ou serão na noite os estalidos das estrelas?
Será este o sinal? As palavras nascem?
Tudo já passou. Ou nem chegou a ser.
E de novo preso à fixidez da página.
Que secreta origem, que presença branca
eu quero sentir pulsar. À minha frente
este desejo de nascer ainda em vida.
A esperança desesperada. A desesperada esperança.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Porque o sinal seria… Como o saberei?
Uma esperança paciente. A invenção
de tudo a cada instante. Uma linguagem
viva.
E não a aridez e a solidão sem vida.
O frio avança nos ossos e no sangue.
De novo a agonia e a dor sem horizonte.
Um escuro frenesim me invade contra
a sabedoria e a prometida paz.
O sinal que espero virá do mais obscuro.
Tudo se apagará. O nascimento é agora.
644
António Ramos Rosa
A Palavra No Deserto
à Lia
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal?
Era uma paisagem a pique. Respirava.
Uma obscura claridade e o vigor da terra
conjugavam-se numa boca. Era a frescura
de uma vigília, um sopro de vida ardente.
A clareira de ervas de aromas tensos.
O poema escrevia-se de poros abertos.
Uma camisa branca e leve flutuava
no corpo flexível.
Todos os frémitos eram sílabas de um Verão feliz.
Entre o sabor das coisas e as palavras
uma transparência quase.
A invenção do ar e do espaço
com uma varanda onde a ânsia refrescava
a sua febre na visão do mar.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Que procuro ainda?
A inesperada ardência, a vida
de um gesto novo?
Restituir-me-á a palavra
a maravilha nua do encontro,
a surpresa que lava o olhar, o pulso vivo?
Que miragem é esta? Viver só
o instante de um desejo
ou apenas o desejo de um desejo?
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Uma palavra de vida. O nascimento
de uma erva alta onde o céu dance.
Antes direi o nada que me cerca
e marcarei a pedra escura.
A sombra passará. A sede límpida
encontrará a fonte?
Se um caule verde nasce,
se eu ouvir um insecto crepitar no calor da terra?
Ou serão na noite os estalidos das estrelas?
Será este o sinal? As palavras nascem?
Tudo já passou. Ou nem chegou a ser.
E de novo preso à fixidez da página.
Que secreta origem, que presença branca
eu quero sentir pulsar. À minha frente
este desejo de nascer ainda em vida.
A esperança desesperada. A desesperada esperança.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Porque o sinal seria… Como o saberei?
Uma esperança paciente. A invenção
de tudo a cada instante. Uma linguagem
viva.
E não a aridez e a solidão sem vida.
O frio avança nos ossos e no sangue.
De novo a agonia e a dor sem horizonte.
Um escuro frenesim me invade contra
a sabedoria e a prometida paz.
O sinal que espero virá do mais obscuro.
Tudo se apagará. O nascimento é agora.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal?
Era uma paisagem a pique. Respirava.
Uma obscura claridade e o vigor da terra
conjugavam-se numa boca. Era a frescura
de uma vigília, um sopro de vida ardente.
A clareira de ervas de aromas tensos.
O poema escrevia-se de poros abertos.
Uma camisa branca e leve flutuava
no corpo flexível.
Todos os frémitos eram sílabas de um Verão feliz.
Entre o sabor das coisas e as palavras
uma transparência quase.
A invenção do ar e do espaço
com uma varanda onde a ânsia refrescava
a sua febre na visão do mar.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Que procuro ainda?
A inesperada ardência, a vida
de um gesto novo?
Restituir-me-á a palavra
a maravilha nua do encontro,
a surpresa que lava o olhar, o pulso vivo?
Que miragem é esta? Viver só
o instante de um desejo
ou apenas o desejo de um desejo?
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Uma palavra de vida. O nascimento
de uma erva alta onde o céu dance.
Antes direi o nada que me cerca
e marcarei a pedra escura.
A sombra passará. A sede límpida
encontrará a fonte?
Se um caule verde nasce,
se eu ouvir um insecto crepitar no calor da terra?
Ou serão na noite os estalidos das estrelas?
Será este o sinal? As palavras nascem?
Tudo já passou. Ou nem chegou a ser.
E de novo preso à fixidez da página.
Que secreta origem, que presença branca
eu quero sentir pulsar. À minha frente
este desejo de nascer ainda em vida.
A esperança desesperada. A desesperada esperança.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Porque o sinal seria… Como o saberei?
Uma esperança paciente. A invenção
de tudo a cada instante. Uma linguagem
viva.
E não a aridez e a solidão sem vida.
O frio avança nos ossos e no sangue.
De novo a agonia e a dor sem horizonte.
Um escuro frenesim me invade contra
a sabedoria e a prometida paz.
O sinal que espero virá do mais obscuro.
Tudo se apagará. O nascimento é agora.
644
António Ramos Rosa
Na Dispersão Unida
Na dispersão unida
rua e corpo
no quarto
ferida a ferida
dada
A boca toca
a página
toca
o braço
do próprio ser na boca doutro
que
lhe dá a língua suprema sem saber
se arde se não
tão boa a nudez nua
arde laranja arde ardente
até ao terceiro grito branco
e
se abre a boca até ao centro negro
num felino incêndio de rasgadas partes
tudo redondo e suave em superfície
rua e corpo
no quarto
ferida a ferida
dada
A boca toca
a página
toca
o braço
do próprio ser na boca doutro
que
lhe dá a língua suprema sem saber
se arde se não
tão boa a nudez nua
arde laranja arde ardente
até ao terceiro grito branco
e
se abre a boca até ao centro negro
num felino incêndio de rasgadas partes
tudo redondo e suave em superfície
1 113
António Ramos Rosa
Na Dispersão Unida
Na dispersão unida
rua e corpo
no quarto
ferida a ferida
dada
A boca toca
a página
toca
o braço
do próprio ser na boca doutro
que
lhe dá a língua suprema sem saber
se arde se não
tão boa a nudez nua
arde laranja arde ardente
até ao terceiro grito branco
e
se abre a boca até ao centro negro
num felino incêndio de rasgadas partes
tudo redondo e suave em superfície
rua e corpo
no quarto
ferida a ferida
dada
A boca toca
a página
toca
o braço
do próprio ser na boca doutro
que
lhe dá a língua suprema sem saber
se arde se não
tão boa a nudez nua
arde laranja arde ardente
até ao terceiro grito branco
e
se abre a boca até ao centro negro
num felino incêndio de rasgadas partes
tudo redondo e suave em superfície
1 113
António Ramos Rosa
A Mão Seria de Fugitiva Espécie
A mão seria de fugitiva espécie
no ar
de algum arbusto
e que desejo extremo
o pulso
sobre a boca suspensa
O corpo no interior da chama verde
da folhagem
o corpo no interior do corpo ardente
braço dentro
do fogo
sobre
o rosto da figura ilesa
roxo sobre a erva
O espírito das pernas tão redondas lentas
o penetrante gesto no puro ardor
das folhas
no ar
de algum arbusto
e que desejo extremo
o pulso
sobre a boca suspensa
O corpo no interior da chama verde
da folhagem
o corpo no interior do corpo ardente
braço dentro
do fogo
sobre
o rosto da figura ilesa
roxo sobre a erva
O espírito das pernas tão redondas lentas
o penetrante gesto no puro ardor
das folhas
996
António Ramos Rosa
Quase Se Disse Quase
Quase se disse quase
sobre os joelhos sob os muros
quase os dedos no murmúrio lento
quase na ferida a ferida lábio e língua
e foram dois na muralha sem cavalos
folha a folha deitados sobre a sombra
e o verde crespo do sexo na boca
o esplendor obscuro entre as pernas claras
e foram um só na pedra branca
pela língua interior da terra e da folhagem
sobre os joelhos sob os muros
quase os dedos no murmúrio lento
quase na ferida a ferida lábio e língua
e foram dois na muralha sem cavalos
folha a folha deitados sobre a sombra
e o verde crespo do sexo na boca
o esplendor obscuro entre as pernas claras
e foram um só na pedra branca
pela língua interior da terra e da folhagem
1 084
António Ramos Rosa
Entre o Frio E o Sol
A casa, a luz, o espaço.
Em vão escritas, sem a luz.
O espaço sem o espaço.
O corpo sem a casa.
Um sopro sobre o espaço
desta folha.
Sem a chama.
E sem a mão que ascende sobre
a superfície iluminada.
*
Um débil sopro. Demasiado
débil.
Porquê chamar-lhe pulso
ou lâmpada?
Nenhum ardor possível.
Nenhuma violência viva
na mão nua.
*
Onde dissesse verde, a água,
intenso, azul, as ervas, livres,
ar, selvagem,
o pulso incandescente,
a língua sobre a língua.
*
Quem desenha o dia?
Muro a muro?
E quem respira?
*
Um furor branco
contra a folha branca.
Oh, se o desejo deflagrasse
num incêndio verde.
*
De casa a casa, de rosto
a rosto.
Um espaço.
E a água no braço.
Como um fogo
para ver
a chama da folha.
*
Nomeio a chama verde, a veemência
tranquila,
uma lâmpada nova.
O que toca a mão é a água viva.
*
Apenas uma lâmina. De terra?
E um sopro.
A sombra acesa? A luz?
A parede na água.
A lâmpada flutuando.
A mão na terra.
*
Entre o frio e o sol
a mão ensaia
um só desejo
entre a pedra e a água.
Os dedos hirtos. Luz gelada.
Lâmpada abolida.
Mão aniquilada.
Só vivas as margens brancas.
*
Que reste apenas esta parede branca.
O incompleto ser,
brusco animal,
tem aqui a sua boca de água.
Em vão escritas, sem a luz.
O espaço sem o espaço.
O corpo sem a casa.
Um sopro sobre o espaço
desta folha.
Sem a chama.
E sem a mão que ascende sobre
a superfície iluminada.
*
Um débil sopro. Demasiado
débil.
Porquê chamar-lhe pulso
ou lâmpada?
Nenhum ardor possível.
Nenhuma violência viva
na mão nua.
*
Onde dissesse verde, a água,
intenso, azul, as ervas, livres,
ar, selvagem,
o pulso incandescente,
a língua sobre a língua.
*
Quem desenha o dia?
Muro a muro?
E quem respira?
*
Um furor branco
contra a folha branca.
Oh, se o desejo deflagrasse
num incêndio verde.
*
De casa a casa, de rosto
a rosto.
Um espaço.
E a água no braço.
Como um fogo
para ver
a chama da folha.
*
Nomeio a chama verde, a veemência
tranquila,
uma lâmpada nova.
O que toca a mão é a água viva.
*
Apenas uma lâmina. De terra?
E um sopro.
A sombra acesa? A luz?
A parede na água.
A lâmpada flutuando.
A mão na terra.
*
Entre o frio e o sol
a mão ensaia
um só desejo
entre a pedra e a água.
Os dedos hirtos. Luz gelada.
Lâmpada abolida.
Mão aniquilada.
Só vivas as margens brancas.
*
Que reste apenas esta parede branca.
O incompleto ser,
brusco animal,
tem aqui a sua boca de água.
1 053
António Ramos Rosa
Estas Palavras
Como quem grava a cabeça silenciosa
como se reúne a água à água
estas palavras
não dizem todavia o júbilo
ou o rio
que sob elas flui
Oh quem diria
o que de súbito nos une um eco um brilho
não os sinais
mas a duna e o espaço
a configuração viva do instante
a nuvem vermelha sobre o monte
o completo sentimento do intacto
como se reúne a água à água
estas palavras
não dizem todavia o júbilo
ou o rio
que sob elas flui
Oh quem diria
o que de súbito nos une um eco um brilho
não os sinais
mas a duna e o espaço
a configuração viva do instante
a nuvem vermelha sobre o monte
o completo sentimento do intacto
1 069
António Ramos Rosa
Estas Palavras
Como quem grava a cabeça silenciosa
como se reúne a água à água
estas palavras
não dizem todavia o júbilo
ou o rio
que sob elas flui
Oh quem diria
o que de súbito nos une um eco um brilho
não os sinais
mas a duna e o espaço
a configuração viva do instante
a nuvem vermelha sobre o monte
o completo sentimento do intacto
como se reúne a água à água
estas palavras
não dizem todavia o júbilo
ou o rio
que sob elas flui
Oh quem diria
o que de súbito nos une um eco um brilho
não os sinais
mas a duna e o espaço
a configuração viva do instante
a nuvem vermelha sobre o monte
o completo sentimento do intacto
1 069
António Ramos Rosa
A Partir da Ausência
Imaginar a forma
doutro ser. Na língua
proferir o seu desejo
O toque inteiro
Não existir
Se o digo acendo os filamentos
desta nocturna lâmpada
A pedra toco do silêncio densa
Os veios de um sangue escuro
Um muro vivo preso a mil raízes
Mas não o vinho límpido
de um corpo
A lucidez da terra
E se respiro a boca não atinge
a nudez una
onde começo
Era com o sol. E era
um corpo
Onde agora a mão se perde
E era o espaço
Onde não é
O que resta do corpo?
Uma matéria negra e fria?
Um hausto de desejo
retém ainda o calor de uma sílaba?
As palavras soçobram rente ao muro
A terra sopra outros vocábulos nus
Entre os ossos e as ervas
uma outra mão ténue
refaz o rosto escuro
doutro poema
doutro ser. Na língua
proferir o seu desejo
O toque inteiro
Não existir
Se o digo acendo os filamentos
desta nocturna lâmpada
A pedra toco do silêncio densa
Os veios de um sangue escuro
Um muro vivo preso a mil raízes
Mas não o vinho límpido
de um corpo
A lucidez da terra
E se respiro a boca não atinge
a nudez una
onde começo
Era com o sol. E era
um corpo
Onde agora a mão se perde
E era o espaço
Onde não é
O que resta do corpo?
Uma matéria negra e fria?
Um hausto de desejo
retém ainda o calor de uma sílaba?
As palavras soçobram rente ao muro
A terra sopra outros vocábulos nus
Entre os ossos e as ervas
uma outra mão ténue
refaz o rosto escuro
doutro poema
1 136
António Ramos Rosa
A Partir da Ausência
Imaginar a forma
doutro ser. Na língua
proferir o seu desejo
O toque inteiro
Não existir
Se o digo acendo os filamentos
desta nocturna lâmpada
A pedra toco do silêncio densa
Os veios de um sangue escuro
Um muro vivo preso a mil raízes
Mas não o vinho límpido
de um corpo
A lucidez da terra
E se respiro a boca não atinge
a nudez una
onde começo
Era com o sol. E era
um corpo
Onde agora a mão se perde
E era o espaço
Onde não é
O que resta do corpo?
Uma matéria negra e fria?
Um hausto de desejo
retém ainda o calor de uma sílaba?
As palavras soçobram rente ao muro
A terra sopra outros vocábulos nus
Entre os ossos e as ervas
uma outra mão ténue
refaz o rosto escuro
doutro poema
doutro ser. Na língua
proferir o seu desejo
O toque inteiro
Não existir
Se o digo acendo os filamentos
desta nocturna lâmpada
A pedra toco do silêncio densa
Os veios de um sangue escuro
Um muro vivo preso a mil raízes
Mas não o vinho límpido
de um corpo
A lucidez da terra
E se respiro a boca não atinge
a nudez una
onde começo
Era com o sol. E era
um corpo
Onde agora a mão se perde
E era o espaço
Onde não é
O que resta do corpo?
Uma matéria negra e fria?
Um hausto de desejo
retém ainda o calor de uma sílaba?
As palavras soçobram rente ao muro
A terra sopra outros vocábulos nus
Entre os ossos e as ervas
uma outra mão ténue
refaz o rosto escuro
doutro poema
1 136
António Ramos Rosa
O Corpo Não Ardente
O corpo não ardente
mas obscuro
um sulco e os sombrios flancos
da imagem sob a lâmpada
No contacto não perfeito
inacabado braço inalcançável pulso
querer é dilacerar escrever rasgar
A imagem não se fixa nenhum contorno
exacto
Por um corpo inabalável pelo braço
pela dor branca pelo suplício exacto
mas obscuro
um sulco e os sombrios flancos
da imagem sob a lâmpada
No contacto não perfeito
inacabado braço inalcançável pulso
querer é dilacerar escrever rasgar
A imagem não se fixa nenhum contorno
exacto
Por um corpo inabalável pelo braço
pela dor branca pelo suplício exacto
1 162
António Ramos Rosa
O Corpo Não Ardente
O corpo não ardente
mas obscuro
um sulco e os sombrios flancos
da imagem sob a lâmpada
No contacto não perfeito
inacabado braço inalcançável pulso
querer é dilacerar escrever rasgar
A imagem não se fixa nenhum contorno
exacto
Por um corpo inabalável pelo braço
pela dor branca pelo suplício exacto
mas obscuro
um sulco e os sombrios flancos
da imagem sob a lâmpada
No contacto não perfeito
inacabado braço inalcançável pulso
querer é dilacerar escrever rasgar
A imagem não se fixa nenhum contorno
exacto
Por um corpo inabalável pelo braço
pela dor branca pelo suplício exacto
1 162
António Ramos Rosa
O Corpo Não Ardente
O corpo não ardente
mas obscuro
um sulco e os sombrios flancos
da imagem sob a lâmpada
No contacto não perfeito
inacabado braço inalcançável pulso
querer é dilacerar escrever rasgar
A imagem não se fixa nenhum contorno
exacto
Por um corpo inabalável pelo braço
pela dor branca pelo suplício exacto
mas obscuro
um sulco e os sombrios flancos
da imagem sob a lâmpada
No contacto não perfeito
inacabado braço inalcançável pulso
querer é dilacerar escrever rasgar
A imagem não se fixa nenhum contorno
exacto
Por um corpo inabalável pelo braço
pela dor branca pelo suplício exacto
1 162
António Ramos Rosa
3. Para o Incêndio da Festa
Eis a língua em fogo
o corpo e a terra o horizonte interno
a pulsação das sílabas sobre a ferida ardente
o centro no centro:
as mandíbulas libertas
para a livre manducação
e alguém diz
estamos na terra
isto é um círculo
o centro no centro
este é o espaço da festa e a ferida canta
a voracidade limpa os últimos detritos
eu comerei o teu corpo: este é o meu corpo, é o meu sangue
este é o teu corpo é o teu sangue
O vento varre as vértebras a língua canta
contra o mar
Quem tem uma laranja na boca é uma laranja límpida
quem liberta o seu desejo sobre o centro
este é o polvo das trevas e do sangue
Assim se abrem as tenazes do tempo
Assim se estende o círculo da festa
Assim se grita na nudez completa
Correr vertigem da brancura escrever
a rapidez do corpo a rapidez da escrita
a boca escreve com os dentes e a saliva
Claridade contra claridade boca contra boca
a simplicidade existe na festa da folha sobre a praia
Os corpos ardem a praia arde o papel arde
arde esta boca estas palavras ardem
no centro
do círculo da festa
Ardem os tentáculos do polvo e arde a rosa
E se eu dissesse
a minúcia da boca ou do minúsculo sexo
se atravessasse o papel com a nitidez milimétrica
e a matéria branca
dos mil membros que se enlaçam
se eu dissesse finalmente a origem de tudo
a criação completa
Mas como romper este silêncio esta mudez do silêncio
como descobrir essa outra língua sobre a pedra
como sulcar esta outra terra interior
como descobrir esse outro rosto do outro lado
como erigir o campo nestes campos sombrios
obscuridade obscuridade mudez do silêncio cinza e cinza
Sopro sobre a cinza
Se o cavalo surgisse da incompleta boca
se o vulcão se abrisse eu escreveria o fogo
Quem separou este silêncio da outra festa
Quem desuniu os membros e as línguas enlaçadas
Haverá outro país onde o silêncio reine?
Também aqui eu chamarei o corpo
do silêncio
aqui onde as formas se formam
aqui também procurarei o corpo do não-corpo
não se incendeia a folha o mar é triste
Eu queria encontrar aqui ainda a terra
e a chama
e a limpidez da simplicidade única
e reunir-me no silêncio a uma boca silenciosa
Eu desejava o centro e a festa na folhagem
mas estou submerso ou não afundo-me ou levanto-me
Caminho através da não-verdade
Esta palavra ou aquela uma palavra a mais
Eu não soube escutar-te eu oiço-te eu pergunto
quem unirá o silêncio da terra submersa
ao incêndio da festa à boca completa?
o corpo e a terra o horizonte interno
a pulsação das sílabas sobre a ferida ardente
o centro no centro:
as mandíbulas libertas
para a livre manducação
e alguém diz
estamos na terra
isto é um círculo
o centro no centro
este é o espaço da festa e a ferida canta
a voracidade limpa os últimos detritos
eu comerei o teu corpo: este é o meu corpo, é o meu sangue
este é o teu corpo é o teu sangue
O vento varre as vértebras a língua canta
contra o mar
Quem tem uma laranja na boca é uma laranja límpida
quem liberta o seu desejo sobre o centro
este é o polvo das trevas e do sangue
Assim se abrem as tenazes do tempo
Assim se estende o círculo da festa
Assim se grita na nudez completa
Correr vertigem da brancura escrever
a rapidez do corpo a rapidez da escrita
a boca escreve com os dentes e a saliva
Claridade contra claridade boca contra boca
a simplicidade existe na festa da folha sobre a praia
Os corpos ardem a praia arde o papel arde
arde esta boca estas palavras ardem
no centro
do círculo da festa
Ardem os tentáculos do polvo e arde a rosa
E se eu dissesse
a minúcia da boca ou do minúsculo sexo
se atravessasse o papel com a nitidez milimétrica
e a matéria branca
dos mil membros que se enlaçam
se eu dissesse finalmente a origem de tudo
a criação completa
Mas como romper este silêncio esta mudez do silêncio
como descobrir essa outra língua sobre a pedra
como sulcar esta outra terra interior
como descobrir esse outro rosto do outro lado
como erigir o campo nestes campos sombrios
obscuridade obscuridade mudez do silêncio cinza e cinza
Sopro sobre a cinza
Se o cavalo surgisse da incompleta boca
se o vulcão se abrisse eu escreveria o fogo
Quem separou este silêncio da outra festa
Quem desuniu os membros e as línguas enlaçadas
Haverá outro país onde o silêncio reine?
Também aqui eu chamarei o corpo
do silêncio
aqui onde as formas se formam
aqui também procurarei o corpo do não-corpo
não se incendeia a folha o mar é triste
Eu queria encontrar aqui ainda a terra
e a chama
e a limpidez da simplicidade única
e reunir-me no silêncio a uma boca silenciosa
Eu desejava o centro e a festa na folhagem
mas estou submerso ou não afundo-me ou levanto-me
Caminho através da não-verdade
Esta palavra ou aquela uma palavra a mais
Eu não soube escutar-te eu oiço-te eu pergunto
quem unirá o silêncio da terra submersa
ao incêndio da festa à boca completa?
1 243
António Ramos Rosa
Na Morte de Celestino Alves
O lugar abandonado
Estes serão os membros de um silêncio
ou de uma súplica
na folha desesperada.
Por alguém, por cujas pálpebras
cerradas
nada eu saberei dizer.
Mas se … tu o dizes,
mesmo esta erva rasa
sem tremor
despertará um ruído abandonado.
Por alguém, por ninguém,
por cujas pálpebras
cerradas,
o olhar aqui liberto
diria a claridade de um lugar
aqui abandonado.
O cavalo vivo
Estes os membros mudos
e no entanto do branco sem paisagem
consistentes já de que desejo
de pedra e de tremor de linhas puras.
Ervas rasas, cavalo caído, sem a sombra
os acordes serão
de cores sóbrias. A mão ligada à linha
da terra, e o cavalo
no seu dorso verde
de terra reunida.
Estes os membros já perdidos
de insectos sobre
o crânio branco.
Mas eis os troncos negros
das raízes
vermelhas,
o vigor vivo do cavalo.
O sulco do rosto
Que sulco traça o teu rosto
na cinza branca
se o vejo vivo ardendo em vida?
Se as palavras corressem como as nuvens
respirando
dir-te-ia as palavras que desejo.
Oiço o silêncio inteiro sobre o teu rosto.
Estes serão os membros de um silêncio
ou de uma súplica
na folha desesperada.
Por alguém, por cujas pálpebras
cerradas
nada eu saberei dizer.
Mas se … tu o dizes,
mesmo esta erva rasa
sem tremor
despertará um ruído abandonado.
Por alguém, por ninguém,
por cujas pálpebras
cerradas,
o olhar aqui liberto
diria a claridade de um lugar
aqui abandonado.
O cavalo vivo
Estes os membros mudos
e no entanto do branco sem paisagem
consistentes já de que desejo
de pedra e de tremor de linhas puras.
Ervas rasas, cavalo caído, sem a sombra
os acordes serão
de cores sóbrias. A mão ligada à linha
da terra, e o cavalo
no seu dorso verde
de terra reunida.
Estes os membros já perdidos
de insectos sobre
o crânio branco.
Mas eis os troncos negros
das raízes
vermelhas,
o vigor vivo do cavalo.
O sulco do rosto
Que sulco traça o teu rosto
na cinza branca
se o vejo vivo ardendo em vida?
Se as palavras corressem como as nuvens
respirando
dir-te-ia as palavras que desejo.
Oiço o silêncio inteiro sobre o teu rosto.
1 136
António Ramos Rosa
Instante
Som velado. Beijo
calmo. E a chama
de uma árvore. O verde
imóvel. Lâmina
irradiante. Sol, o som,
obscura luz de sílaba
interiormente.
Tréguas com o espaço. Interrupção
contínua.
Não sei porquê a luz
se lê
na folha verde calma.
calmo. E a chama
de uma árvore. O verde
imóvel. Lâmina
irradiante. Sol, o som,
obscura luz de sílaba
interiormente.
Tréguas com o espaço. Interrupção
contínua.
Não sei porquê a luz
se lê
na folha verde calma.
1 054
António Ramos Rosa
1. a (In)Coerência do Fogo
O desenho a fogo: os dedos e o sopro.
As pedras soltas suscitam algo,
uma textura sem segredo, aberta.
Como se não procurasse olho: sempre o deserto?
O corpo e essa onda, essa pedra — é uma linha
e o tumulto dos músculos no mar
eis o desejo da perda e do encontro
contra a parede, contra esta página
este deserto — o mar.
O sopro do incêndio da folhagem
esta rasura
no raso da inércia
ó apagada força amor do mar deserto força
reúno ou disperso pedras sobre o mar
ou pedras
Onde o corpo onde o desejo
perante o vento
a frágil força do corpo (aranha inerme)?
Se eu soprar as vértebras do fogo aqui
se subverter a folha e nu gritar
Eu continuo com estas pedras no deserto — no mar?
Nem são pedras estas pedras mas a garganta
enfrenta o vento — e o deserto,
que corpo que corpo se perde ao rés da página
ou terra?
Mas se não fosse o deserto — se fosse a praia
a música do corpo
e o vento no mar
e o teu corpo no meu corpo?
Mas tu esperas três palavras
três pedras
— e sem o fogo sem a folhagem sem o mar
Se um signo fosse a coluna do sangue
perante a maré perante o fogo
e não a morte este céu deserto
esta outra morte cega ao vento
este silêncio contra o peito?
Escrever assim mesmo com os ossos
com a proa do externo
com a morte no deserto
com as sílabas no deserto
Mas se o silêncio da praia — onde o mar? —
o silêncio da página
suscitassem essa música do corpo
aqueles membros brancos
vermelhos
em torno ao centro — e a respiração do mar?
Um braço, uma torção do braço pela violência do vento
um cântico na praia
o corpo contra o corpo amante amado?
Uma sílaba apenas verde ou branca
e não o torso musical
e não a pedra do mar o esplendor da praia?
Ninguém ouve o grito sobre o vento
sobre o ventre de ninguém
nada se ouve entre estas pedras
nada é aqui neste deserto
Mas isto é, isto é, como se
um signo
fosse o sangue da lâmpada?
Desenho as formas vivas na areia
desenho este sulco no meu corpo
soçobro sobre o sulco — em frente o mar?
Que corpo se levanta? É um corpo, um outro corpo?
Um corpo que se ergue sobre a espuma
ou um sinal apenas sem o sangue?
A boca morde os dentes
a página está deserta
a praia está deserta.
A minha mão ergue-se num sinal vão
como se não desistisse.
As pedras nem são pedras
mas palavras
mas o desejo de um contacto incandescente
mas o ardor de um persistente insecto.
Praia, mar, sulcos na areia, vento
ou só deserto
eu vos invoco e vos insuflo a chama
da garganta,
eu apelo para o cântico. Caminho?
Mais do que a sílaba do mar
mais do que a flor imprevista
mais do que a sombra sobre o ombro
mais do que o ouro da areia
eu subscrevo o branco um novo corpo.
Ainda que nada veja senão as pedras
que delimitam o vazio
eu estou à beira de eu sou o intervalo
entre a folhagem e o fogo
e o silêncio é um sinal
do corpo.
As pedras soltas suscitam algo,
uma textura sem segredo, aberta.
Como se não procurasse olho: sempre o deserto?
O corpo e essa onda, essa pedra — é uma linha
e o tumulto dos músculos no mar
eis o desejo da perda e do encontro
contra a parede, contra esta página
este deserto — o mar.
O sopro do incêndio da folhagem
esta rasura
no raso da inércia
ó apagada força amor do mar deserto força
reúno ou disperso pedras sobre o mar
ou pedras
Onde o corpo onde o desejo
perante o vento
a frágil força do corpo (aranha inerme)?
Se eu soprar as vértebras do fogo aqui
se subverter a folha e nu gritar
Eu continuo com estas pedras no deserto — no mar?
Nem são pedras estas pedras mas a garganta
enfrenta o vento — e o deserto,
que corpo que corpo se perde ao rés da página
ou terra?
Mas se não fosse o deserto — se fosse a praia
a música do corpo
e o vento no mar
e o teu corpo no meu corpo?
Mas tu esperas três palavras
três pedras
— e sem o fogo sem a folhagem sem o mar
Se um signo fosse a coluna do sangue
perante a maré perante o fogo
e não a morte este céu deserto
esta outra morte cega ao vento
este silêncio contra o peito?
Escrever assim mesmo com os ossos
com a proa do externo
com a morte no deserto
com as sílabas no deserto
Mas se o silêncio da praia — onde o mar? —
o silêncio da página
suscitassem essa música do corpo
aqueles membros brancos
vermelhos
em torno ao centro — e a respiração do mar?
Um braço, uma torção do braço pela violência do vento
um cântico na praia
o corpo contra o corpo amante amado?
Uma sílaba apenas verde ou branca
e não o torso musical
e não a pedra do mar o esplendor da praia?
Ninguém ouve o grito sobre o vento
sobre o ventre de ninguém
nada se ouve entre estas pedras
nada é aqui neste deserto
Mas isto é, isto é, como se
um signo
fosse o sangue da lâmpada?
Desenho as formas vivas na areia
desenho este sulco no meu corpo
soçobro sobre o sulco — em frente o mar?
Que corpo se levanta? É um corpo, um outro corpo?
Um corpo que se ergue sobre a espuma
ou um sinal apenas sem o sangue?
A boca morde os dentes
a página está deserta
a praia está deserta.
A minha mão ergue-se num sinal vão
como se não desistisse.
As pedras nem são pedras
mas palavras
mas o desejo de um contacto incandescente
mas o ardor de um persistente insecto.
Praia, mar, sulcos na areia, vento
ou só deserto
eu vos invoco e vos insuflo a chama
da garganta,
eu apelo para o cântico. Caminho?
Mais do que a sílaba do mar
mais do que a flor imprevista
mais do que a sombra sobre o ombro
mais do que o ouro da areia
eu subscrevo o branco um novo corpo.
Ainda que nada veja senão as pedras
que delimitam o vazio
eu estou à beira de eu sou o intervalo
entre a folhagem e o fogo
e o silêncio é um sinal
do corpo.
1 132
António Ramos Rosa
Eis a Primeira Proposição Clara
Eis a primeira proposição clara
a que trouxe o vinho e o cristal da terra
Derramaste o óleo no limiar da face
e sobre as pernas deslizou a chama verde
e sobre as pálpebras os cordões da terra
a boca soçobrou no limiar da treva
Eis a última proposição da terra
a tua língua abriu a ferida viva
a palavra soltou-se do sexo da terra
a que trouxe o vinho e o cristal da terra
Derramaste o óleo no limiar da face
e sobre as pernas deslizou a chama verde
e sobre as pálpebras os cordões da terra
a boca soçobrou no limiar da treva
Eis a última proposição da terra
a tua língua abriu a ferida viva
a palavra soltou-se do sexo da terra
996
António Ramos Rosa
Eis a Primeira Proposição Clara
Eis a primeira proposição clara
a que trouxe o vinho e o cristal da terra
Derramaste o óleo no limiar da face
e sobre as pernas deslizou a chama verde
e sobre as pálpebras os cordões da terra
a boca soçobrou no limiar da treva
Eis a última proposição da terra
a tua língua abriu a ferida viva
a palavra soltou-se do sexo da terra
a que trouxe o vinho e o cristal da terra
Derramaste o óleo no limiar da face
e sobre as pernas deslizou a chama verde
e sobre as pálpebras os cordões da terra
a boca soçobrou no limiar da treva
Eis a última proposição da terra
a tua língua abriu a ferida viva
a palavra soltou-se do sexo da terra
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