Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Fernando Pessoa
Nem destino sem esperança
Nem destino sem esperança
Somos cegos, que vêem só quem tocam.
Somos cegos, que vêem só quem tocam.
1 475
Fernando Pessoa
THE PICTURE
In a saloon that is a sleep
Mine eyes did a picture meet,
And wondrously wise and woefully deep
And horribly complete.
A profound meaning more than tears
Are seen to give, and human fears,
And human madness and woe,
Come as a scent from that picture weird.
The name of the painter is ignored
And his purpose none do know.
Mine eyes did a picture meet,
And wondrously wise and woefully deep
And horribly complete.
A profound meaning more than tears
Are seen to give, and human fears,
And human madness and woe,
Come as a scent from that picture weird.
The name of the painter is ignored
And his purpose none do know.
1 383
Fernando Pessoa
THE PICTURE
In a saloon that is a sleep
Mine eyes did a picture meet,
And wondrously wise and woefully deep
And horribly complete.
A profound meaning more than tears
Are seen to give, and human fears,
And human madness and woe,
Come as a scent from that picture weird.
The name of the painter is ignored
And his purpose none do know.
Mine eyes did a picture meet,
And wondrously wise and woefully deep
And horribly complete.
A profound meaning more than tears
Are seen to give, and human fears,
And human madness and woe,
Come as a scent from that picture weird.
The name of the painter is ignored
And his purpose none do know.
1 383
Fernando Pessoa
Tu, ao canto da janela,
Tu, ao canto da janela,
Sorrias a alguém da rua.
Porquê ao canto, se aquela
Posição não é a tua?
Sorrias a alguém da rua.
Porquê ao canto, se aquela
Posição não é a tua?
1 491
Fernando Pessoa
Tu, ao canto da janela,
Tu, ao canto da janela,
Sorrias a alguém da rua.
Porquê ao canto, se aquela
Posição não é a tua?
Sorrias a alguém da rua.
Porquê ao canto, se aquela
Posição não é a tua?
1 491
Fernando Pessoa
VISÃO
Há um país imenso mais real
Do que a vida que o mundo mostra ter
Mais do que a Natureza natural
À verdade tremendo de viver.
Sob um céu uno e plácido e normal
Onde nada se mostra haver ou ser
Onde nem vento geme, nem fatal
A ideia de uma nuvem se faz crer,
Jaz — uma terra não — não um solo
Mas estranha, gelando em desconsolo
A alma que vê esse pais sem véu,
Hirtamente silente nos espaços
Uma floresta de escarnados braços
Inutilmente erguidos para o céu.
Do que a vida que o mundo mostra ter
Mais do que a Natureza natural
À verdade tremendo de viver.
Sob um céu uno e plácido e normal
Onde nada se mostra haver ou ser
Onde nem vento geme, nem fatal
A ideia de uma nuvem se faz crer,
Jaz — uma terra não — não um solo
Mas estranha, gelando em desconsolo
A alma que vê esse pais sem véu,
Hirtamente silente nos espaços
Uma floresta de escarnados braços
Inutilmente erguidos para o céu.
3 029
Fernando Pessoa
VISÃO
Há um país imenso mais real
Do que a vida que o mundo mostra ter
Mais do que a Natureza natural
À verdade tremendo de viver.
Sob um céu uno e plácido e normal
Onde nada se mostra haver ou ser
Onde nem vento geme, nem fatal
A ideia de uma nuvem se faz crer,
Jaz — uma terra não — não um solo
Mas estranha, gelando em desconsolo
A alma que vê esse pais sem véu,
Hirtamente silente nos espaços
Uma floresta de escarnados braços
Inutilmente erguidos para o céu.
Do que a vida que o mundo mostra ter
Mais do que a Natureza natural
À verdade tremendo de viver.
Sob um céu uno e plácido e normal
Onde nada se mostra haver ou ser
Onde nem vento geme, nem fatal
A ideia de uma nuvem se faz crer,
Jaz — uma terra não — não um solo
Mas estranha, gelando em desconsolo
A alma que vê esse pais sem véu,
Hirtamente silente nos espaços
Uma floresta de escarnados braços
Inutilmente erguidos para o céu.
3 029
Fernando Pessoa
RONDEAU - Faz noite em meu coração.
Faz noite em meu coração.
Tenho sono de dormir.
Já me esqueci do porvir.
Não demorem muito, então!
Que o Bi fez chichi no chão.
Não precisam consentir.
Basta-lhe só comichão.
Na cara esfregou o pão
E a manteiga no sorrir,
E fez um chichi no chão.
Vendo bem, e com razão,
Onde o faria? (Advertir
Que o penico é para rir)
No tecto? Claro que não.
O Bi fez chichi no chão.
Envoy
Princesa, este mundo a ir
Para o nada é um sonho vão.
Mande uma (com um esfregão)
Dama de honor aqui vir
Que o Bi fez chichi no chão.
Tenho sono de dormir.
Já me esqueci do porvir.
Não demorem muito, então!
Que o Bi fez chichi no chão.
Não precisam consentir.
Basta-lhe só comichão.
Na cara esfregou o pão
E a manteiga no sorrir,
E fez um chichi no chão.
Vendo bem, e com razão,
Onde o faria? (Advertir
Que o penico é para rir)
No tecto? Claro que não.
O Bi fez chichi no chão.
Envoy
Princesa, este mundo a ir
Para o nada é um sonho vão.
Mande uma (com um esfregão)
Dama de honor aqui vir
Que o Bi fez chichi no chão.
1 356
Fernando Pessoa
RONDEAU - Faz noite em meu coração.
Faz noite em meu coração.
Tenho sono de dormir.
Já me esqueci do porvir.
Não demorem muito, então!
Que o Bi fez chichi no chão.
Não precisam consentir.
Basta-lhe só comichão.
Na cara esfregou o pão
E a manteiga no sorrir,
E fez um chichi no chão.
Vendo bem, e com razão,
Onde o faria? (Advertir
Que o penico é para rir)
No tecto? Claro que não.
O Bi fez chichi no chão.
Envoy
Princesa, este mundo a ir
Para o nada é um sonho vão.
Mande uma (com um esfregão)
Dama de honor aqui vir
Que o Bi fez chichi no chão.
Tenho sono de dormir.
Já me esqueci do porvir.
Não demorem muito, então!
Que o Bi fez chichi no chão.
Não precisam consentir.
Basta-lhe só comichão.
Na cara esfregou o pão
E a manteiga no sorrir,
E fez um chichi no chão.
Vendo bem, e com razão,
Onde o faria? (Advertir
Que o penico é para rir)
No tecto? Claro que não.
O Bi fez chichi no chão.
Envoy
Princesa, este mundo a ir
Para o nada é um sonho vão.
Mande uma (com um esfregão)
Dama de honor aqui vir
Que o Bi fez chichi no chão.
1 356
Fernando Pessoa
CARNAVAL [b]
CARNAVAL
3
(...) não tenho compartimentos estanques
Para os meus sentimentos e emoções...
Vidas, realmente se misturam
O que era cérebro acaba sentimento
Minha unidade morre ao relento
(...)
Quando quero pensar, sinto, não sei
Se me sinto quem sou e queria.
Psique de fora da psicologia,
Vivo fora da (...) e da lei
Amorfo anexo ao mundo exterior
Reproduzindo tudo o que nele há
Sem que em meu ser qualquer ser meu me vá
Compensar pessoalmente a minha dor.
Não: sempre as dores doutra gente que é eu
(Sempre alegrias de várias pessoas)
[...]
Sempre de um centro diferente e meu
Carnaval de (...)
Bebendo p'ra se sentir alegres e outros
Outros bebendo como eles (...) se sentem
Tendo de ser alegres (...)
Dêem-me um sentir que cansa e é bom e cessa
Prendam-me para que eu não faça mais versos
Façam [ad finem?] com que o sentir cesse
Proíbam-me pensar com a cabeça.
Dói-me a vida em todos os meus poros
Estala-me na cabeça o coração,
(...)
Para que escrevo? É uma pura perda.
(...)
Depois. [...]
Se escrevo o que sinto [...]. Bom. Merda.
Pronto. Acabou-se. Quebro a pena e a tinta
Entorno-a aqui só para a entornar...
Não haver vida que se possa DAR!
Não haver alma com que não se sinta!
Não haver como essa alma consertar-me
Com cordéis ou arames que se aguentem
Com ferros e madeiras que não mentem
E me dêem unidade no aguentar-me!
Não haver (...)
Não haver, não [...]
Não haver. Não Haver!
3
(...) não tenho compartimentos estanques
Para os meus sentimentos e emoções...
Vidas, realmente se misturam
O que era cérebro acaba sentimento
Minha unidade morre ao relento
(...)
Quando quero pensar, sinto, não sei
Se me sinto quem sou e queria.
Psique de fora da psicologia,
Vivo fora da (...) e da lei
Amorfo anexo ao mundo exterior
Reproduzindo tudo o que nele há
Sem que em meu ser qualquer ser meu me vá
Compensar pessoalmente a minha dor.
Não: sempre as dores doutra gente que é eu
(Sempre alegrias de várias pessoas)
[...]
Sempre de um centro diferente e meu
Carnaval de (...)
Bebendo p'ra se sentir alegres e outros
Outros bebendo como eles (...) se sentem
Tendo de ser alegres (...)
Dêem-me um sentir que cansa e é bom e cessa
Prendam-me para que eu não faça mais versos
Façam [ad finem?] com que o sentir cesse
Proíbam-me pensar com a cabeça.
Dói-me a vida em todos os meus poros
Estala-me na cabeça o coração,
(...)
Para que escrevo? É uma pura perda.
(...)
Depois. [...]
Se escrevo o que sinto [...]. Bom. Merda.
Pronto. Acabou-se. Quebro a pena e a tinta
Entorno-a aqui só para a entornar...
Não haver vida que se possa DAR!
Não haver alma com que não se sinta!
Não haver como essa alma consertar-me
Com cordéis ou arames que se aguentem
Com ferros e madeiras que não mentem
E me dêem unidade no aguentar-me!
Não haver (...)
Não haver, não [...]
Não haver. Não Haver!
2 249
Fernando Pessoa
CARNAVAL [b]
CARNAVAL
3
(...) não tenho compartimentos estanques
Para os meus sentimentos e emoções...
Vidas, realmente se misturam
O que era cérebro acaba sentimento
Minha unidade morre ao relento
(...)
Quando quero pensar, sinto, não sei
Se me sinto quem sou e queria.
Psique de fora da psicologia,
Vivo fora da (...) e da lei
Amorfo anexo ao mundo exterior
Reproduzindo tudo o que nele há
Sem que em meu ser qualquer ser meu me vá
Compensar pessoalmente a minha dor.
Não: sempre as dores doutra gente que é eu
(Sempre alegrias de várias pessoas)
[...]
Sempre de um centro diferente e meu
Carnaval de (...)
Bebendo p'ra se sentir alegres e outros
Outros bebendo como eles (...) se sentem
Tendo de ser alegres (...)
Dêem-me um sentir que cansa e é bom e cessa
Prendam-me para que eu não faça mais versos
Façam [ad finem?] com que o sentir cesse
Proíbam-me pensar com a cabeça.
Dói-me a vida em todos os meus poros
Estala-me na cabeça o coração,
(...)
Para que escrevo? É uma pura perda.
(...)
Depois. [...]
Se escrevo o que sinto [...]. Bom. Merda.
Pronto. Acabou-se. Quebro a pena e a tinta
Entorno-a aqui só para a entornar...
Não haver vida que se possa DAR!
Não haver alma com que não se sinta!
Não haver como essa alma consertar-me
Com cordéis ou arames que se aguentem
Com ferros e madeiras que não mentem
E me dêem unidade no aguentar-me!
Não haver (...)
Não haver, não [...]
Não haver. Não Haver!
3
(...) não tenho compartimentos estanques
Para os meus sentimentos e emoções...
Vidas, realmente se misturam
O que era cérebro acaba sentimento
Minha unidade morre ao relento
(...)
Quando quero pensar, sinto, não sei
Se me sinto quem sou e queria.
Psique de fora da psicologia,
Vivo fora da (...) e da lei
Amorfo anexo ao mundo exterior
Reproduzindo tudo o que nele há
Sem que em meu ser qualquer ser meu me vá
Compensar pessoalmente a minha dor.
Não: sempre as dores doutra gente que é eu
(Sempre alegrias de várias pessoas)
[...]
Sempre de um centro diferente e meu
Carnaval de (...)
Bebendo p'ra se sentir alegres e outros
Outros bebendo como eles (...) se sentem
Tendo de ser alegres (...)
Dêem-me um sentir que cansa e é bom e cessa
Prendam-me para que eu não faça mais versos
Façam [ad finem?] com que o sentir cesse
Proíbam-me pensar com a cabeça.
Dói-me a vida em todos os meus poros
Estala-me na cabeça o coração,
(...)
Para que escrevo? É uma pura perda.
(...)
Depois. [...]
Se escrevo o que sinto [...]. Bom. Merda.
Pronto. Acabou-se. Quebro a pena e a tinta
Entorno-a aqui só para a entornar...
Não haver vida que se possa DAR!
Não haver alma com que não se sinta!
Não haver como essa alma consertar-me
Com cordéis ou arames que se aguentem
Com ferros e madeiras que não mentem
E me dêem unidade no aguentar-me!
Não haver (...)
Não haver, não [...]
Não haver. Não Haver!
2 249
Fernando Pessoa
Lentidão dos vapores pelo mar...
Lentidão dos vapores pelo mar...
Tanto que ver, tanto que abarcar.
No eterno presente da pupila
Ilhas ao longe, costas a despontar
Na imensidão oceânica e tranquila.
Mais depressa... Sigamos... Hoje é o real...
O momento embriaga... A alma esquece
Que existe no mover-se... Cais, carnal...
Para os botes no cais quem é que desce?
Que importa? Vamos! Tudo é tão real!
Quantas vidas que ignoro que me ignoram!
Passo por casas, fumo em chaminés
Interiores que adivinho! Choram
Em mim desejos lívidos resvés
Do tédio de ser isto aqui, e ali
Outro não-eu... Sigamos... Outras terras!
Quantas paisagens vivi!
Planícies! mares! serras
Ao longe! Pareceis com tanta curva,
Pinheirais! Igualdade das culturas!
Dias monótonos de chuva...
Noites de lua nova — canto de ruelas escuras
Antros... Dias de sol — de agasalho
De que o olhar abrasa e amodorrado
Mal tem espaço para desejar...
Campos cheios de vultos em trabalho
À sombra de um carvalho ali isolado
— Ah e eu passo! — um mendigo a descansar.
O longe! O além! O outro! A rota! Ir!
Ir absolutamente! ir entregadamente
Ir sem mais consciência de sentir
Que tem um suicida na corrente
Que passa a dor da morte na água a rir.
Sonho-desolação!
Ó meu desejo e tédio das viagens,
Cansado anseio do meu coração —
Cidades, brumas, margens
De rios desejadas para olhar...
Costa triste, ermo mar
Barulhando segredos,
Negrume cortiçado dos rochedos
D'onde pulsa chiando a espuma na água —
— Frio pela consciência dos meus nervos —
De não estar eu a ver-vos, ódio-mágoa!
Ó Tédio! só pensar estar a ver-vos...
Gozo gloriosamente estéril e oco
De encher de memórias de cidades,
De campos fugitivos, feitos pouco
Na fuga do comboio — sociedades
Só pensadas de velha bancarrota
Surpresas no olhar sobre colinas,
Rios sob pontes, águas instantâneas
Grandes cidades através neblinas
Fábricas — fumo e fragor — sonhos insónias...
Mares súbitos, através carruagens
Vistos por meu olhar sempre cansado
Tudo isto cansa, só de imaginado
Tenho em minha alma o tédio das viagens
Que quero eu ser? Eu que desejo querer?
Feche eu os olhos, e o comboio seja
Apenas um estremecimento a [encher?]
Meu corpo inerte, meu cérebro que nada deseja
E já não quer saber o que é viver...
Minuto exterior pulsando em mim
Minuciosamente, entreondulando
Numa oscilada indecisão sem fim
Meu corpo inerte... Sigo, recostando
Minha cabeça no vidro que me treme
De encontro à consciência o meu ser todo;
Para quê viajar? O tédio vai ao leme
De cada meu angustiado modo.
Por entre árvores — fumo...
Ó domésticos (...) escondidos!
Ó tédio... Ó dor... O vago é o meu rumo.
Viajo só pelos meus sentidos
Dói-me a monotonia dessa viagem...
Peso-me... Entreolho sem me levantar
Estações (...) ... [Campolides?]... Reagem
Inutilmente em mim desejos de gozar...
Tanto que ver, tanto que abarcar.
No eterno presente da pupila
Ilhas ao longe, costas a despontar
Na imensidão oceânica e tranquila.
Mais depressa... Sigamos... Hoje é o real...
O momento embriaga... A alma esquece
Que existe no mover-se... Cais, carnal...
Para os botes no cais quem é que desce?
Que importa? Vamos! Tudo é tão real!
Quantas vidas que ignoro que me ignoram!
Passo por casas, fumo em chaminés
Interiores que adivinho! Choram
Em mim desejos lívidos resvés
Do tédio de ser isto aqui, e ali
Outro não-eu... Sigamos... Outras terras!
Quantas paisagens vivi!
Planícies! mares! serras
Ao longe! Pareceis com tanta curva,
Pinheirais! Igualdade das culturas!
Dias monótonos de chuva...
Noites de lua nova — canto de ruelas escuras
Antros... Dias de sol — de agasalho
De que o olhar abrasa e amodorrado
Mal tem espaço para desejar...
Campos cheios de vultos em trabalho
À sombra de um carvalho ali isolado
— Ah e eu passo! — um mendigo a descansar.
O longe! O além! O outro! A rota! Ir!
Ir absolutamente! ir entregadamente
Ir sem mais consciência de sentir
Que tem um suicida na corrente
Que passa a dor da morte na água a rir.
Sonho-desolação!
Ó meu desejo e tédio das viagens,
Cansado anseio do meu coração —
Cidades, brumas, margens
De rios desejadas para olhar...
Costa triste, ermo mar
Barulhando segredos,
Negrume cortiçado dos rochedos
D'onde pulsa chiando a espuma na água —
— Frio pela consciência dos meus nervos —
De não estar eu a ver-vos, ódio-mágoa!
Ó Tédio! só pensar estar a ver-vos...
Gozo gloriosamente estéril e oco
De encher de memórias de cidades,
De campos fugitivos, feitos pouco
Na fuga do comboio — sociedades
Só pensadas de velha bancarrota
Surpresas no olhar sobre colinas,
Rios sob pontes, águas instantâneas
Grandes cidades através neblinas
Fábricas — fumo e fragor — sonhos insónias...
Mares súbitos, através carruagens
Vistos por meu olhar sempre cansado
Tudo isto cansa, só de imaginado
Tenho em minha alma o tédio das viagens
Que quero eu ser? Eu que desejo querer?
Feche eu os olhos, e o comboio seja
Apenas um estremecimento a [encher?]
Meu corpo inerte, meu cérebro que nada deseja
E já não quer saber o que é viver...
Minuto exterior pulsando em mim
Minuciosamente, entreondulando
Numa oscilada indecisão sem fim
Meu corpo inerte... Sigo, recostando
Minha cabeça no vidro que me treme
De encontro à consciência o meu ser todo;
Para quê viajar? O tédio vai ao leme
De cada meu angustiado modo.
Por entre árvores — fumo...
Ó domésticos (...) escondidos!
Ó tédio... Ó dor... O vago é o meu rumo.
Viajo só pelos meus sentidos
Dói-me a monotonia dessa viagem...
Peso-me... Entreolho sem me levantar
Estações (...) ... [Campolides?]... Reagem
Inutilmente em mim desejos de gozar...
1 407
Fernando Pessoa
Lentidão dos vapores pelo mar...
Lentidão dos vapores pelo mar...
Tanto que ver, tanto que abarcar.
No eterno presente da pupila
Ilhas ao longe, costas a despontar
Na imensidão oceânica e tranquila.
Mais depressa... Sigamos... Hoje é o real...
O momento embriaga... A alma esquece
Que existe no mover-se... Cais, carnal...
Para os botes no cais quem é que desce?
Que importa? Vamos! Tudo é tão real!
Quantas vidas que ignoro que me ignoram!
Passo por casas, fumo em chaminés
Interiores que adivinho! Choram
Em mim desejos lívidos resvés
Do tédio de ser isto aqui, e ali
Outro não-eu... Sigamos... Outras terras!
Quantas paisagens vivi!
Planícies! mares! serras
Ao longe! Pareceis com tanta curva,
Pinheirais! Igualdade das culturas!
Dias monótonos de chuva...
Noites de lua nova — canto de ruelas escuras
Antros... Dias de sol — de agasalho
De que o olhar abrasa e amodorrado
Mal tem espaço para desejar...
Campos cheios de vultos em trabalho
À sombra de um carvalho ali isolado
— Ah e eu passo! — um mendigo a descansar.
O longe! O além! O outro! A rota! Ir!
Ir absolutamente! ir entregadamente
Ir sem mais consciência de sentir
Que tem um suicida na corrente
Que passa a dor da morte na água a rir.
Sonho-desolação!
Ó meu desejo e tédio das viagens,
Cansado anseio do meu coração —
Cidades, brumas, margens
De rios desejadas para olhar...
Costa triste, ermo mar
Barulhando segredos,
Negrume cortiçado dos rochedos
D'onde pulsa chiando a espuma na água —
— Frio pela consciência dos meus nervos —
De não estar eu a ver-vos, ódio-mágoa!
Ó Tédio! só pensar estar a ver-vos...
Gozo gloriosamente estéril e oco
De encher de memórias de cidades,
De campos fugitivos, feitos pouco
Na fuga do comboio — sociedades
Só pensadas de velha bancarrota
Surpresas no olhar sobre colinas,
Rios sob pontes, águas instantâneas
Grandes cidades através neblinas
Fábricas — fumo e fragor — sonhos insónias...
Mares súbitos, através carruagens
Vistos por meu olhar sempre cansado
Tudo isto cansa, só de imaginado
Tenho em minha alma o tédio das viagens
Que quero eu ser? Eu que desejo querer?
Feche eu os olhos, e o comboio seja
Apenas um estremecimento a [encher?]
Meu corpo inerte, meu cérebro que nada deseja
E já não quer saber o que é viver...
Minuto exterior pulsando em mim
Minuciosamente, entreondulando
Numa oscilada indecisão sem fim
Meu corpo inerte... Sigo, recostando
Minha cabeça no vidro que me treme
De encontro à consciência o meu ser todo;
Para quê viajar? O tédio vai ao leme
De cada meu angustiado modo.
Por entre árvores — fumo...
Ó domésticos (...) escondidos!
Ó tédio... Ó dor... O vago é o meu rumo.
Viajo só pelos meus sentidos
Dói-me a monotonia dessa viagem...
Peso-me... Entreolho sem me levantar
Estações (...) ... [Campolides?]... Reagem
Inutilmente em mim desejos de gozar...
Tanto que ver, tanto que abarcar.
No eterno presente da pupila
Ilhas ao longe, costas a despontar
Na imensidão oceânica e tranquila.
Mais depressa... Sigamos... Hoje é o real...
O momento embriaga... A alma esquece
Que existe no mover-se... Cais, carnal...
Para os botes no cais quem é que desce?
Que importa? Vamos! Tudo é tão real!
Quantas vidas que ignoro que me ignoram!
Passo por casas, fumo em chaminés
Interiores que adivinho! Choram
Em mim desejos lívidos resvés
Do tédio de ser isto aqui, e ali
Outro não-eu... Sigamos... Outras terras!
Quantas paisagens vivi!
Planícies! mares! serras
Ao longe! Pareceis com tanta curva,
Pinheirais! Igualdade das culturas!
Dias monótonos de chuva...
Noites de lua nova — canto de ruelas escuras
Antros... Dias de sol — de agasalho
De que o olhar abrasa e amodorrado
Mal tem espaço para desejar...
Campos cheios de vultos em trabalho
À sombra de um carvalho ali isolado
— Ah e eu passo! — um mendigo a descansar.
O longe! O além! O outro! A rota! Ir!
Ir absolutamente! ir entregadamente
Ir sem mais consciência de sentir
Que tem um suicida na corrente
Que passa a dor da morte na água a rir.
Sonho-desolação!
Ó meu desejo e tédio das viagens,
Cansado anseio do meu coração —
Cidades, brumas, margens
De rios desejadas para olhar...
Costa triste, ermo mar
Barulhando segredos,
Negrume cortiçado dos rochedos
D'onde pulsa chiando a espuma na água —
— Frio pela consciência dos meus nervos —
De não estar eu a ver-vos, ódio-mágoa!
Ó Tédio! só pensar estar a ver-vos...
Gozo gloriosamente estéril e oco
De encher de memórias de cidades,
De campos fugitivos, feitos pouco
Na fuga do comboio — sociedades
Só pensadas de velha bancarrota
Surpresas no olhar sobre colinas,
Rios sob pontes, águas instantâneas
Grandes cidades através neblinas
Fábricas — fumo e fragor — sonhos insónias...
Mares súbitos, através carruagens
Vistos por meu olhar sempre cansado
Tudo isto cansa, só de imaginado
Tenho em minha alma o tédio das viagens
Que quero eu ser? Eu que desejo querer?
Feche eu os olhos, e o comboio seja
Apenas um estremecimento a [encher?]
Meu corpo inerte, meu cérebro que nada deseja
E já não quer saber o que é viver...
Minuto exterior pulsando em mim
Minuciosamente, entreondulando
Numa oscilada indecisão sem fim
Meu corpo inerte... Sigo, recostando
Minha cabeça no vidro que me treme
De encontro à consciência o meu ser todo;
Para quê viajar? O tédio vai ao leme
De cada meu angustiado modo.
Por entre árvores — fumo...
Ó domésticos (...) escondidos!
Ó tédio... Ó dor... O vago é o meu rumo.
Viajo só pelos meus sentidos
Dói-me a monotonia dessa viagem...
Peso-me... Entreolho sem me levantar
Estações (...) ... [Campolides?]... Reagem
Inutilmente em mim desejos de gozar...
1 407
Fernando Pessoa
ON BABY'S DEATH
With the doleful dead man's bell
Ring, oh, ring not Baby's knell!
Let her calmly, calmly sleep,
But with the flow’rs fresh from the dell
Make thou a music wild and deep,
Such as men can but know well
When their souls have learnt to weep.
As if Love's self had gone from earth
Oh, sing a music that has birth
In the suspension of commotion
For thus hath death made our emotion.
Sing thou a song more deep and true
Than the vague, soft song of ocean
The quiet darkness moaning through.
Sing into sad tears our distress!
Oh, let soft sorrow be thy strain!
She's gone beyond our love's caress,
Giving to life more loneliness
And to mystery more pain.
Ring, oh, ring not Baby's knell!
Let her calmly, calmly sleep,
But with the flow’rs fresh from the dell
Make thou a music wild and deep,
Such as men can but know well
When their souls have learnt to weep.
As if Love's self had gone from earth
Oh, sing a music that has birth
In the suspension of commotion
For thus hath death made our emotion.
Sing thou a song more deep and true
Than the vague, soft song of ocean
The quiet darkness moaning through.
Sing into sad tears our distress!
Oh, let soft sorrow be thy strain!
She's gone beyond our love's caress,
Giving to life more loneliness
And to mystery more pain.
1 548
Fernando Pessoa
ON BABY'S DEATH
With the doleful dead man's bell
Ring, oh, ring not Baby's knell!
Let her calmly, calmly sleep,
But with the flow’rs fresh from the dell
Make thou a music wild and deep,
Such as men can but know well
When their souls have learnt to weep.
As if Love's self had gone from earth
Oh, sing a music that has birth
In the suspension of commotion
For thus hath death made our emotion.
Sing thou a song more deep and true
Than the vague, soft song of ocean
The quiet darkness moaning through.
Sing into sad tears our distress!
Oh, let soft sorrow be thy strain!
She's gone beyond our love's caress,
Giving to life more loneliness
And to mystery more pain.
Ring, oh, ring not Baby's knell!
Let her calmly, calmly sleep,
But with the flow’rs fresh from the dell
Make thou a music wild and deep,
Such as men can but know well
When their souls have learnt to weep.
As if Love's self had gone from earth
Oh, sing a music that has birth
In the suspension of commotion
For thus hath death made our emotion.
Sing thou a song more deep and true
Than the vague, soft song of ocean
The quiet darkness moaning through.
Sing into sad tears our distress!
Oh, let soft sorrow be thy strain!
She's gone beyond our love's caress,
Giving to life more loneliness
And to mystery more pain.
1 548
Fernando Pessoa
A TEMPLE
I have built my temple — wall and face —
Outside the idea of space,
Complex — built as a full-rigged ship;
I made its walls of my fears,
Its turrets many of weird thoughts and tears —
And that strange temple thus unfurled
Like a death's-head flag, that like a whip
Stinging around my soul is curled,
Is far more real than the world.
Outside the idea of space,
Complex — built as a full-rigged ship;
I made its walls of my fears,
Its turrets many of weird thoughts and tears —
And that strange temple thus unfurled
Like a death's-head flag, that like a whip
Stinging around my soul is curled,
Is far more real than the world.
1 442
Fernando Pessoa
A TEMPLE
I have built my temple — wall and face —
Outside the idea of space,
Complex — built as a full-rigged ship;
I made its walls of my fears,
Its turrets many of weird thoughts and tears —
And that strange temple thus unfurled
Like a death's-head flag, that like a whip
Stinging around my soul is curled,
Is far more real than the world.
Outside the idea of space,
Complex — built as a full-rigged ship;
I made its walls of my fears,
Its turrets many of weird thoughts and tears —
And that strange temple thus unfurled
Like a death's-head flag, that like a whip
Stinging around my soul is curled,
Is far more real than the world.
1 442
Fernando Pessoa
Se há uma nuvem que pass
Se há uma nuvem que passa
Passa uma sombra também.
Ninguém diz que é desgraça
Não ter o que se não tem.
Passa uma sombra também.
Ninguém diz que é desgraça
Não ter o que se não tem.
1 395
Fernando Pessoa
Pequena vida consciente
Pequena vida consciente
A quem outra persegue
A imagem repetida
Do abismo onde perdê-la.
A quem outra persegue
A imagem repetida
Do abismo onde perdê-la.
1 428
Fernando Pessoa
Pequena vida consciente
Pequena vida consciente
A quem outra persegue
A imagem repetida
Do abismo onde perdê-la.
A quem outra persegue
A imagem repetida
Do abismo onde perdê-la.
1 428
Fernando Pessoa
SONG OF THE DREAM‑SPIRITS TO FANNY
From the beach and from the billow
Rapturously loud,
From the zephyr that doth pillow
All his softness on a cloud;
From the murmur of the river,
From the leaves that rustle ever,
Joyously we come.
We are bright and we are many
As the early drops of dew,
And we come to little Fanny
As the day to you;
From the keenness of the mountain,
From the sparkle of the fountain,
Joyously we come.
From the hill and from the valley,
From the mountain and the vale;
From the evening melancholy
Where all hath a tale;
From the sweetness of the meadow,
From the coolness of the shadow,
Joyously we come.
ln the sadness of the willow,
In the homely nest
We have dwelt and had a pillow
In the poet's breast;
And from all things dimly moving
Human souls to bliss and loving
Joyously we come.
Rapturously loud,
From the zephyr that doth pillow
All his softness on a cloud;
From the murmur of the river,
From the leaves that rustle ever,
Joyously we come.
We are bright and we are many
As the early drops of dew,
And we come to little Fanny
As the day to you;
From the keenness of the mountain,
From the sparkle of the fountain,
Joyously we come.
From the hill and from the valley,
From the mountain and the vale;
From the evening melancholy
Where all hath a tale;
From the sweetness of the meadow,
From the coolness of the shadow,
Joyously we come.
ln the sadness of the willow,
In the homely nest
We have dwelt and had a pillow
In the poet's breast;
And from all things dimly moving
Human souls to bliss and loving
Joyously we come.
1 489
Fernando Pessoa
Tão pouco heráldica a vida!
Tão pouco heráldica a vida!
Tão sem tronos e ouropéis quotidianos!
Tão de si própria oca, tão do sentir-se despida
Afogai-me, ó ruído da acção, no som dos vossos oceanos!
Sede abençoados, (...) carros, comboios e trens
Respirar regular de fábricas, motores trementes a atroar
Com vossa crónica (...)
Sede abençoados, vós ocultais-me a mim...
Vós ocultais o silêncio real e inteiro da Hora
Vós despis de seu murmúrio o mistério
Aquele que dentro de mim quase grita, quase, quase chora
Dorme em vosso embalar férreo,
Levai-me para longe de eu saber que vida é que sinto
Enchei de banal e de material o meu ouvido vosso
A vida que eu vivo — ó (...) - é a vida que me minto
Só tenho aquilo que (...); só quero o que ter não posso.
Tão sem tronos e ouropéis quotidianos!
Tão de si própria oca, tão do sentir-se despida
Afogai-me, ó ruído da acção, no som dos vossos oceanos!
Sede abençoados, (...) carros, comboios e trens
Respirar regular de fábricas, motores trementes a atroar
Com vossa crónica (...)
Sede abençoados, vós ocultais-me a mim...
Vós ocultais o silêncio real e inteiro da Hora
Vós despis de seu murmúrio o mistério
Aquele que dentro de mim quase grita, quase, quase chora
Dorme em vosso embalar férreo,
Levai-me para longe de eu saber que vida é que sinto
Enchei de banal e de material o meu ouvido vosso
A vida que eu vivo — ó (...) - é a vida que me minto
Só tenho aquilo que (...); só quero o que ter não posso.
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