Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Fernando Pessoa
45 - THE LOOPHOLE
I shall not come when thou wilt call,
For when thou call'st I am with thee.
When I think of thee, within me
Thyself art, and thy thought self’s all.
Thy presence is thy absence drest
In thy body that hides thy soul.
Tis in me that thou art possessed,
'Tis in my thoughts that thou art whole.
Outside thee, given to time and space,
Thy body, thy mere loss to me,
Partakes of change and age and place?
Belongs to other laws than thee.
In my dream of thee nothing changes
Thyself to other than thou art.
Thy corporal presence is that part
Of thee that thee from thee estranges.
Therefore call me, but await not.
Thy voice, summed to my dreaming thee,
Shall put new beauty on that thought
Of thy body that dwells in me.
Thy voice heard from afar shall bring
Nearer to me thy presence dreamed.
Brighter and clearer than it seemed
It grow'th in my imagining.
Then call no more. Thy voice twice heard
Along the real space would be
Too near now to reality.
Thy second voice were thy first blurred.
Call me but once. I close mine eyes
And let the second call be dreamed,
Thy body's vision lightly gleamed
On my seeing memory of thy cries.
The rest, eyes shut lest thou appear.
Shall be thy clear continuance
In my dream's constancy askance.
Keep far, keep silent, come not here,
For thou wouldst come too near for sight
And out of my thoughts step to thee,
Putting on thy dreamed body in me
(Thy body's form‑dream infinite)
Thy limit, visibility.
For when thou call'st I am with thee.
When I think of thee, within me
Thyself art, and thy thought self’s all.
Thy presence is thy absence drest
In thy body that hides thy soul.
Tis in me that thou art possessed,
'Tis in my thoughts that thou art whole.
Outside thee, given to time and space,
Thy body, thy mere loss to me,
Partakes of change and age and place?
Belongs to other laws than thee.
In my dream of thee nothing changes
Thyself to other than thou art.
Thy corporal presence is that part
Of thee that thee from thee estranges.
Therefore call me, but await not.
Thy voice, summed to my dreaming thee,
Shall put new beauty on that thought
Of thy body that dwells in me.
Thy voice heard from afar shall bring
Nearer to me thy presence dreamed.
Brighter and clearer than it seemed
It grow'th in my imagining.
Then call no more. Thy voice twice heard
Along the real space would be
Too near now to reality.
Thy second voice were thy first blurred.
Call me but once. I close mine eyes
And let the second call be dreamed,
Thy body's vision lightly gleamed
On my seeing memory of thy cries.
The rest, eyes shut lest thou appear.
Shall be thy clear continuance
In my dream's constancy askance.
Keep far, keep silent, come not here,
For thou wouldst come too near for sight
And out of my thoughts step to thee,
Putting on thy dreamed body in me
(Thy body's form‑dream infinite)
Thy limit, visibility.
1 268
Fernando Pessoa
45 - THE LOOPHOLE
I shall not come when thou wilt call,
For when thou call'st I am with thee.
When I think of thee, within me
Thyself art, and thy thought self’s all.
Thy presence is thy absence drest
In thy body that hides thy soul.
Tis in me that thou art possessed,
'Tis in my thoughts that thou art whole.
Outside thee, given to time and space,
Thy body, thy mere loss to me,
Partakes of change and age and place?
Belongs to other laws than thee.
In my dream of thee nothing changes
Thyself to other than thou art.
Thy corporal presence is that part
Of thee that thee from thee estranges.
Therefore call me, but await not.
Thy voice, summed to my dreaming thee,
Shall put new beauty on that thought
Of thy body that dwells in me.
Thy voice heard from afar shall bring
Nearer to me thy presence dreamed.
Brighter and clearer than it seemed
It grow'th in my imagining.
Then call no more. Thy voice twice heard
Along the real space would be
Too near now to reality.
Thy second voice were thy first blurred.
Call me but once. I close mine eyes
And let the second call be dreamed,
Thy body's vision lightly gleamed
On my seeing memory of thy cries.
The rest, eyes shut lest thou appear.
Shall be thy clear continuance
In my dream's constancy askance.
Keep far, keep silent, come not here,
For thou wouldst come too near for sight
And out of my thoughts step to thee,
Putting on thy dreamed body in me
(Thy body's form‑dream infinite)
Thy limit, visibility.
For when thou call'st I am with thee.
When I think of thee, within me
Thyself art, and thy thought self’s all.
Thy presence is thy absence drest
In thy body that hides thy soul.
Tis in me that thou art possessed,
'Tis in my thoughts that thou art whole.
Outside thee, given to time and space,
Thy body, thy mere loss to me,
Partakes of change and age and place?
Belongs to other laws than thee.
In my dream of thee nothing changes
Thyself to other than thou art.
Thy corporal presence is that part
Of thee that thee from thee estranges.
Therefore call me, but await not.
Thy voice, summed to my dreaming thee,
Shall put new beauty on that thought
Of thy body that dwells in me.
Thy voice heard from afar shall bring
Nearer to me thy presence dreamed.
Brighter and clearer than it seemed
It grow'th in my imagining.
Then call no more. Thy voice twice heard
Along the real space would be
Too near now to reality.
Thy second voice were thy first blurred.
Call me but once. I close mine eyes
And let the second call be dreamed,
Thy body's vision lightly gleamed
On my seeing memory of thy cries.
The rest, eyes shut lest thou appear.
Shall be thy clear continuance
In my dream's constancy askance.
Keep far, keep silent, come not here,
For thou wouldst come too near for sight
And out of my thoughts step to thee,
Putting on thy dreamed body in me
(Thy body's form‑dream infinite)
Thy limit, visibility.
1 268
Fernando Pessoa
Durmo, remoto; sonho, diferente,
Durmo, remoto; sonho, diferente,
Meu coração, ansioso e pressuroso,
Foi entalado num comboio entre
Os dois vagões do meu destino ocioso.
Meu coração, ansioso e pressuroso,
Foi entalado num comboio entre
Os dois vagões do meu destino ocioso.
1 107
Fernando Pessoa
Durmo, remoto; sonho, diferente,
Durmo, remoto; sonho, diferente,
Meu coração, ansioso e pressuroso,
Foi entalado num comboio entre
Os dois vagões do meu destino ocioso.
Meu coração, ansioso e pressuroso,
Foi entalado num comboio entre
Os dois vagões do meu destino ocioso.
1 107
Fernando Pessoa
Ah, quem me dera ser desempregado!
Ah, quem me dera ser desempregado!
Não ter que fazer a valer, mas de dentro!
Ter (...)
Não ter que fazer a valer, mas de dentro!
Ter (...)
1 636
Fernando Pessoa
Mas que grande disparate
Mas que grande disparate
É o que penso e o que sinto.
Meu coração bate, bate
E se sonho muito, minto.
É o que penso e o que sinto.
Meu coração bate, bate
E se sonho muito, minto.
1 841
Fernando Pessoa
O ar do campo vem brando,
O ar do campo vem brando,
Faz sono haver esse ar.
Já não sei se estou sonhando
Nem de que serve sonhar.
Faz sono haver esse ar.
Já não sei se estou sonhando
Nem de que serve sonhar.
1 553
Fernando Pessoa
O ar do campo vem brando,
O ar do campo vem brando,
Faz sono haver esse ar.
Já não sei se estou sonhando
Nem de que serve sonhar.
Faz sono haver esse ar.
Já não sei se estou sonhando
Nem de que serve sonhar.
1 553
Fernando Pessoa
TRAMWAY
TRAMWAY
Aqui vou eu num carro eléctrico, mais umas trinta ou quarenta pessoas,
Cheio (só) das minhas ideias imortais, (creio que boas).
Amanhã elas, postas em verso, serão
Por toda a Europa, por todo o mundo (quem sabe?!)
Triunfo meta, início, clarão
Que talvez não acabe.
E quem sobe? Que sente? O que vai a meu lado
Só sente em mim que sou o que, estrangeiro,
Tem o lugar da ponta, e do extremo, apanhado
Por quem entra primeiro.
Que o que vale são as ideias que tenho, enfim,
O resto, o que aqui está sentado, sou eu,
Vestido, visual, regular, sempre em mim,
Sob o azul do céu.
Ah, Destino dos deuses, dai-me ao menos o siso
Ao que em mim pensa a vida de ter um profundo
Senso essencial, mas certeiro e conciso
Da vida e do mundo!
Sei, sob o céu que é que toca as minhas ideias,
Sob o céu mais análogo ao que penso comigo
Que este carro vai com os bancos cheios
Para onde eu sigo.
E o ponto de absurdo de tudo isto qual é?
Onde é que está aqui o erro que sinto?
A minha razão enternecida aqui perde pé
E pensando minto,
Mas a que verdade minto, que ponte,
Há entre o que é falso aqui e o que é certo?
Se o que sinto e penso, não sei sequer como o conte,
Se o que está a descoberto
Agora no meu meditar é uma treva e um abismo
Que hei-de fazer da minha consciência dividida?
Oh, carro absurdo e irreal, onde está quanto cismo?
De que lado é que é a vida?
Aqui vou eu num carro eléctrico, mais umas trinta ou quarenta pessoas,
Cheio (só) das minhas ideias imortais, (creio que boas).
Amanhã elas, postas em verso, serão
Por toda a Europa, por todo o mundo (quem sabe?!)
Triunfo meta, início, clarão
Que talvez não acabe.
E quem sobe? Que sente? O que vai a meu lado
Só sente em mim que sou o que, estrangeiro,
Tem o lugar da ponta, e do extremo, apanhado
Por quem entra primeiro.
Que o que vale são as ideias que tenho, enfim,
O resto, o que aqui está sentado, sou eu,
Vestido, visual, regular, sempre em mim,
Sob o azul do céu.
Ah, Destino dos deuses, dai-me ao menos o siso
Ao que em mim pensa a vida de ter um profundo
Senso essencial, mas certeiro e conciso
Da vida e do mundo!
Sei, sob o céu que é que toca as minhas ideias,
Sob o céu mais análogo ao que penso comigo
Que este carro vai com os bancos cheios
Para onde eu sigo.
E o ponto de absurdo de tudo isto qual é?
Onde é que está aqui o erro que sinto?
A minha razão enternecida aqui perde pé
E pensando minto,
Mas a que verdade minto, que ponte,
Há entre o que é falso aqui e o que é certo?
Se o que sinto e penso, não sei sequer como o conte,
Se o que está a descoberto
Agora no meu meditar é uma treva e um abismo
Que hei-de fazer da minha consciência dividida?
Oh, carro absurdo e irreal, onde está quanto cismo?
De que lado é que é a vida?
949
Fernando Pessoa
Coroai-me de rosas. [2]
Coroai-me de rosas.
Coroai-me em verdade
De rosas.
Quero ter a hora
Nas mãos pagãmente
E leve,
Mal sentir a vida,
Mal sentir o sol
Sob ramos.
Coroai-me de rosas
E de folhas de hera
E basta.
Coroai-me em verdade
De rosas.
Quero ter a hora
Nas mãos pagãmente
E leve,
Mal sentir a vida,
Mal sentir o sol
Sob ramos.
Coroai-me de rosas
E de folhas de hera
E basta.
1 510
Fernando Pessoa
Tenho ainda na lembrança
Tenho ainda na lembrança
Como uma coisa que vejo,
O quando inda eras criança.
Nunca mais me dás um beijo!
Como uma coisa que vejo,
O quando inda eras criança.
Nunca mais me dás um beijo!
1 748
Fernando Pessoa
Tenho ainda na lembrança
Tenho ainda na lembrança
Como uma coisa que vejo,
O quando inda eras criança.
Nunca mais me dás um beijo!
Como uma coisa que vejo,
O quando inda eras criança.
Nunca mais me dás um beijo!
1 748
Fernando Pessoa
MARCHA FÚNEBRE
Com lixo, dinheiro dos outros, e sangue inocente,
Cercada por assassinos, traidores, ladrões (a salvo)
No seu caixão francês, liberalissimamente,
Em carro puxado por uma burra (a do estado) seu alvo,
(…)
Passa para além do mundo, em uma visão desconforme,
A República Democrática Portuguesa.
O Lenine de capote e lenço,
Afonso anti-Henriques Costa.
Mas o Diabo espantou-se: aqui entram bandidos
Até certo ponto e dentro de certo limite.
Assassinos, sim, mas com uma certa inteligência.
Ladrões, sim, mas capazes de uma certa bondade.
Agora vocês não trazem quem tivesse tido a decência
De ao menos ter uma vez dito a razão ou verdade.
Cercada por assassinos, traidores, ladrões (a salvo)
No seu caixão francês, liberalissimamente,
Em carro puxado por uma burra (a do estado) seu alvo,
(…)
Passa para além do mundo, em uma visão desconforme,
A República Democrática Portuguesa.
O Lenine de capote e lenço,
Afonso anti-Henriques Costa.
Mas o Diabo espantou-se: aqui entram bandidos
Até certo ponto e dentro de certo limite.
Assassinos, sim, mas com uma certa inteligência.
Ladrões, sim, mas capazes de uma certa bondade.
Agora vocês não trazem quem tivesse tido a decência
De ao menos ter uma vez dito a razão ou verdade.
1 789
Fernando Pessoa
NA ÚLTIMA PÁGINA DE UMA ANTOLOGIA NOVA
NA ÚLTIMA PÁGINA DE UMA ANTOLOGIA NOVA
Tantos bons poetas!
Tantos bons poemas!
São realmente bons e bons,
Com tanta concorrência não fica ninguém,
Ou ficam ao acaso, numa lotaria da posteridade,
Obtendo lugares por capricho do Empresário.
Tantos bons poetas!
Para que escrevo eu versos?
Quando os escrevo parecem-me
O que a minha emoção, com que os escrevi, me parece —
A única coisa grande no mundo...
Enche o universo de frio o pavor de mim.
Depois, escritos, visíveis, legíveis...
Ora... E nesta antologia de poetas menores?
Tantos bons poetas!
O que é o génio, afinal, ou como é que se distingue
O génio, e os bons poemas dos bons poetas?
Sei lá se realmente se distingue...
O melhor é dormir...
Fecho a antologia mais cansado do que do mundo —
Sou vulgar?...
Há tantos bons poetas!
Santo Deus!...
Tantos bons poetas!
Tantos bons poemas!
São realmente bons e bons,
Com tanta concorrência não fica ninguém,
Ou ficam ao acaso, numa lotaria da posteridade,
Obtendo lugares por capricho do Empresário.
Tantos bons poetas!
Para que escrevo eu versos?
Quando os escrevo parecem-me
O que a minha emoção, com que os escrevi, me parece —
A única coisa grande no mundo...
Enche o universo de frio o pavor de mim.
Depois, escritos, visíveis, legíveis...
Ora... E nesta antologia de poetas menores?
Tantos bons poetas!
O que é o génio, afinal, ou como é que se distingue
O génio, e os bons poemas dos bons poetas?
Sei lá se realmente se distingue...
O melhor é dormir...
Fecho a antologia mais cansado do que do mundo —
Sou vulgar?...
Há tantos bons poetas!
Santo Deus!...
1 336
Fernando Pessoa
Perdi a esperança como uma carteira vazia...
Perdi a esperança como uma carteira vazia...
Troçou de mim o Destino; fiz figas para o outro lado,
E a revolta bem podia ser bordada a missanga por minha avó
E ser relíquia da sala da casa velha que não tenho.
(Jantávamos cedo, num outrora que já me parece de outra incarnação,
E depois tomava-se chá nas noites sossegadas que não voltam.
Minha infância, meu passado sem adolescência, passaram ,
Fiquei triste, como se a verdade me tivesse sido dita,
Mas nunca mais pude sentir verdade nenhuma excepto sentir o passado)
Troçou de mim o Destino; fiz figas para o outro lado,
E a revolta bem podia ser bordada a missanga por minha avó
E ser relíquia da sala da casa velha que não tenho.
(Jantávamos cedo, num outrora que já me parece de outra incarnação,
E depois tomava-se chá nas noites sossegadas que não voltam.
Minha infância, meu passado sem adolescência, passaram ,
Fiquei triste, como se a verdade me tivesse sido dita,
Mas nunca mais pude sentir verdade nenhuma excepto sentir o passado)
1 179
Fernando Pessoa
Perdi a esperança como uma carteira vazia...
Perdi a esperança como uma carteira vazia...
Troçou de mim o Destino; fiz figas para o outro lado,
E a revolta bem podia ser bordada a missanga por minha avó
E ser relíquia da sala da casa velha que não tenho.
(Jantávamos cedo, num outrora que já me parece de outra incarnação,
E depois tomava-se chá nas noites sossegadas que não voltam.
Minha infância, meu passado sem adolescência, passaram ,
Fiquei triste, como se a verdade me tivesse sido dita,
Mas nunca mais pude sentir verdade nenhuma excepto sentir o passado)
Troçou de mim o Destino; fiz figas para o outro lado,
E a revolta bem podia ser bordada a missanga por minha avó
E ser relíquia da sala da casa velha que não tenho.
(Jantávamos cedo, num outrora que já me parece de outra incarnação,
E depois tomava-se chá nas noites sossegadas que não voltam.
Minha infância, meu passado sem adolescência, passaram ,
Fiquei triste, como se a verdade me tivesse sido dita,
Mas nunca mais pude sentir verdade nenhuma excepto sentir o passado)
1 179
Fernando Pessoa
Clarim! Os mortos!
Contra Miguel de Vasconcellos
Republicano!
Eis outra vez o estrangeiro
Em Portugal!
Grita, clarim! Ao Conde Andeiro!
Mas quando a hora do Limoeiro
E do punhal?
Clarim, contra quem deu à França
A pátria e a grei,
Grita com fogo de esperança,
Vozes que chamem
O Rei!
E ao abismo do futuro clama
Por quem enfim
Vier, régia lusitana chama!
Pelo Rei que a Esperança chama,
Grita, clarim!
O Rei, a Lei, dias melhores …
Não sejam mais, nem já mais vezes
Os marinheiros portugueses
Guarda Vermelha dos Traidores!
Hoje em que nada é português
Salvo a desgraça,
E em que um sopro maligno e soez
Por sobre as nossas almas passa;
Hoje em que manda quem serviu
Por condição,
E o próprio amor à Pátria é frio
Por Pátria ser um nome vão;
Hoje que, ruído o trono e a glória,
Só o Traidor
O louro e o ouro da vitória
Goza, vil como um vil actor;
Hoje uma voz que se levante
E diga, embora
Chore de ver, chorando cante,
Que vem nascendo além a Aurora,
Diga em palavras já tocadas
De outra Visão,
O Rei, e a Vinda das Espadas,
E o fim da Horda e da Traição.
Republicano!
Eis outra vez o estrangeiro
Em Portugal!
Grita, clarim! Ao Conde Andeiro!
Mas quando a hora do Limoeiro
E do punhal?
Clarim, contra quem deu à França
A pátria e a grei,
Grita com fogo de esperança,
Vozes que chamem
O Rei!
E ao abismo do futuro clama
Por quem enfim
Vier, régia lusitana chama!
Pelo Rei que a Esperança chama,
Grita, clarim!
O Rei, a Lei, dias melhores …
Não sejam mais, nem já mais vezes
Os marinheiros portugueses
Guarda Vermelha dos Traidores!
Hoje em que nada é português
Salvo a desgraça,
E em que um sopro maligno e soez
Por sobre as nossas almas passa;
Hoje em que manda quem serviu
Por condição,
E o próprio amor à Pátria é frio
Por Pátria ser um nome vão;
Hoje que, ruído o trono e a glória,
Só o Traidor
O louro e o ouro da vitória
Goza, vil como um vil actor;
Hoje uma voz que se levante
E diga, embora
Chore de ver, chorando cante,
Que vem nascendo além a Aurora,
Diga em palavras já tocadas
De outra Visão,
O Rei, e a Vinda das Espadas,
E o fim da Horda e da Traição.
1 404
Fernando Pessoa
Ai, Margarida,
Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
— Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.
Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.
E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.
Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.
Comunicado pelo Engenheiro Naval
Sr. Álvaro de Campos em estado
de inconsciência
alcoólica.
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
— Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.
Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.
E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.
Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.
Comunicado pelo Engenheiro Naval
Sr. Álvaro de Campos em estado
de inconsciência
alcoólica.
2 070
Fernando Pessoa
Tu és Maria das Dores,
Tu és Maria das Dores,
Tratam-te só por Maria.
Está bem, porque deste as dores
A quem quer que em ti se fia.
Tratam-te só por Maria.
Está bem, porque deste as dores
A quem quer que em ti se fia.
1 562
Fernando Pessoa
Já sei: alguém disse a verdade.
Já sei: alguém disse a verdade.
Até os cordéis parecem aflitos,
Entra neste lar o objectivo.
E cada um ficou de fora, como um pano na corda
Que a chuva apanha esquecido na noite de janelas fechadas.
Até os cordéis parecem aflitos,
Entra neste lar o objectivo.
E cada um ficou de fora, como um pano na corda
Que a chuva apanha esquecido na noite de janelas fechadas.
1 185
Fernando Pessoa
Não se preocupem comigo: também tenho a verdade.
Não se preocupem comigo: também tenho a verdade.
Tenho-a a sair da algibeira como um prestidigitador.
Também pertenço...
Ninguém conclui sem mim, é claro,
E estar triste é ter ideias destas.
Ó meu capricho entre terraços aristocráticos,
Comes açorda em mangas de camisa no meu coração.
Tenho-a a sair da algibeira como um prestidigitador.
Também pertenço...
Ninguém conclui sem mim, é claro,
E estar triste é ter ideias destas.
Ó meu capricho entre terraços aristocráticos,
Comes açorda em mangas de camisa no meu coração.
1 375
Fernando Pessoa
Tens um anel imitado
Tens um anel imitado
Mas vais contente de o ter.
Que importa o falsificado
Se é verdadeiro o prazer.
Mas vais contente de o ter.
Que importa o falsificado
Se é verdadeiro o prazer.
1 621