Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Fernando Pessoa
Nos dias de grandes acontecimentos
... Como, nos dias de grandes acontecimentos no centro da cidade,
Nos bairros quase-excêntricos as conversas em silêncio às portas
A expectativa em grupos...
Ninguém sabe nada.
Leve rastro de brisa
Coisa nenhuma que é real
E que, com um afago ou um sopro
Toca o que há até que seja...
Magnificência da naturalidade.
Coração.
Que Áricas inéditas em cada desejo!
Que melhores coisas que tudo lá longe!
Meu cotovelo toca no da vizinha do eléctrico
Com uma involuntariedade fruste
Curto-circuito da proximidade...
Ideias ao acaso
Como um balde que se entornou —
Fito-o é um balde entornado...
Jaz: jazo...
Nos bairros quase-excêntricos as conversas em silêncio às portas
A expectativa em grupos...
Ninguém sabe nada.
Leve rastro de brisa
Coisa nenhuma que é real
E que, com um afago ou um sopro
Toca o que há até que seja...
Magnificência da naturalidade.
Coração.
Que Áricas inéditas em cada desejo!
Que melhores coisas que tudo lá longe!
Meu cotovelo toca no da vizinha do eléctrico
Com uma involuntariedade fruste
Curto-circuito da proximidade...
Ideias ao acaso
Como um balde que se entornou —
Fito-o é um balde entornado...
Jaz: jazo...
1 255
Fernando Pessoa
Não sei se a alma no Além vive...
Não sei se a alma no Além vive...
Morreste! E eu quero morrer!
Se vive, ver-te-ei; se não,
Só assim te posso esquecer.
Morreste! E eu quero morrer!
Se vive, ver-te-ei; se não,
Só assim te posso esquecer.
1 432
Fernando Pessoa
A caixa que não tem tampa
A caixa que não tem tampa
Fica sempre destapada.
Dá-me um sorriso dos teus
Porque não quero mais nada.
Fica sempre destapada.
Dá-me um sorriso dos teus
Porque não quero mais nada.
1 783
Fernando Pessoa
Ah, o horror de morrer!
Ah, o horror de morrer!
E encontrar o mistério frente a frente
Sem poder evitá-lo, sem poder...
E encontrar o mistério frente a frente
Sem poder evitá-lo, sem poder...
1 469
Fernando Pessoa
Ah, o horror de morrer!
Ah, o horror de morrer!
E encontrar o mistério frente a frente
Sem poder evitá-lo, sem poder...
E encontrar o mistério frente a frente
Sem poder evitá-lo, sem poder...
1 469
Fernando Pessoa
Eu tenho um colar de pérolas
Eu tenho um colar de pérolas
Enfiado para te dar:
As pérolas são os meus beijos,
O fio é o meu penar.
Enfiado para te dar:
As pérolas são os meus beijos,
O fio é o meu penar.
3 018
Fernando Pessoa
No meio das grandezas e das glórias
No meio das grandezas e das glórias
Das alegrias, luzes (...)
Do inconsciente universo natural,
Abre-se ao pensamento de repente
Negro abismo profundo e (...)
E uma vacuidade transcendente
Absorve negramente o mundo inteiro,
Numa sufocação arrepiada
De terror íntimo, de terror vago
Tudo se esvai da mente e só lhe fica
Um vazio tão negro, tão profundo
Um poço de compreensão tão cercado
Que a alma de horror quer não viver não só
Pelo horror, mas também por esse horror
Transcender o universo e aparecer
Em lugar dele ao fundo pensamento
Subitamente.
Não é a dor de já não poder crer
Que m'oprime, nem a dor de não saber
Mas apenas completamente o horror
De ter visto o mistério frente a frente
De tê-lo visto e compreendido em toda
A sua infinidade de mistério.
É isto que me alheia, que me traz
Sempre mostrado em mim como um terror...
E maior terror há-o?
Das alegrias, luzes (...)
Do inconsciente universo natural,
Abre-se ao pensamento de repente
Negro abismo profundo e (...)
E uma vacuidade transcendente
Absorve negramente o mundo inteiro,
Numa sufocação arrepiada
De terror íntimo, de terror vago
Tudo se esvai da mente e só lhe fica
Um vazio tão negro, tão profundo
Um poço de compreensão tão cercado
Que a alma de horror quer não viver não só
Pelo horror, mas também por esse horror
Transcender o universo e aparecer
Em lugar dele ao fundo pensamento
Subitamente.
Não é a dor de já não poder crer
Que m'oprime, nem a dor de não saber
Mas apenas completamente o horror
De ter visto o mistério frente a frente
De tê-lo visto e compreendido em toda
A sua infinidade de mistério.
É isto que me alheia, que me traz
Sempre mostrado em mim como um terror...
E maior terror há-o?
1 336
Fernando Pessoa
No meio das grandezas e das glórias
No meio das grandezas e das glórias
Das alegrias, luzes (...)
Do inconsciente universo natural,
Abre-se ao pensamento de repente
Negro abismo profundo e (...)
E uma vacuidade transcendente
Absorve negramente o mundo inteiro,
Numa sufocação arrepiada
De terror íntimo, de terror vago
Tudo se esvai da mente e só lhe fica
Um vazio tão negro, tão profundo
Um poço de compreensão tão cercado
Que a alma de horror quer não viver não só
Pelo horror, mas também por esse horror
Transcender o universo e aparecer
Em lugar dele ao fundo pensamento
Subitamente.
Não é a dor de já não poder crer
Que m'oprime, nem a dor de não saber
Mas apenas completamente o horror
De ter visto o mistério frente a frente
De tê-lo visto e compreendido em toda
A sua infinidade de mistério.
É isto que me alheia, que me traz
Sempre mostrado em mim como um terror...
E maior terror há-o?
Das alegrias, luzes (...)
Do inconsciente universo natural,
Abre-se ao pensamento de repente
Negro abismo profundo e (...)
E uma vacuidade transcendente
Absorve negramente o mundo inteiro,
Numa sufocação arrepiada
De terror íntimo, de terror vago
Tudo se esvai da mente e só lhe fica
Um vazio tão negro, tão profundo
Um poço de compreensão tão cercado
Que a alma de horror quer não viver não só
Pelo horror, mas também por esse horror
Transcender o universo e aparecer
Em lugar dele ao fundo pensamento
Subitamente.
Não é a dor de já não poder crer
Que m'oprime, nem a dor de não saber
Mas apenas completamente o horror
De ter visto o mistério frente a frente
De tê-lo visto e compreendido em toda
A sua infinidade de mistério.
É isto que me alheia, que me traz
Sempre mostrado em mim como um terror...
E maior terror há-o?
1 336
Fernando Pessoa
No meio das grandezas e das glórias
No meio das grandezas e das glórias
Das alegrias, luzes (...)
Do inconsciente universo natural,
Abre-se ao pensamento de repente
Negro abismo profundo e (...)
E uma vacuidade transcendente
Absorve negramente o mundo inteiro,
Numa sufocação arrepiada
De terror íntimo, de terror vago
Tudo se esvai da mente e só lhe fica
Um vazio tão negro, tão profundo
Um poço de compreensão tão cercado
Que a alma de horror quer não viver não só
Pelo horror, mas também por esse horror
Transcender o universo e aparecer
Em lugar dele ao fundo pensamento
Subitamente.
Não é a dor de já não poder crer
Que m'oprime, nem a dor de não saber
Mas apenas completamente o horror
De ter visto o mistério frente a frente
De tê-lo visto e compreendido em toda
A sua infinidade de mistério.
É isto que me alheia, que me traz
Sempre mostrado em mim como um terror...
E maior terror há-o?
Das alegrias, luzes (...)
Do inconsciente universo natural,
Abre-se ao pensamento de repente
Negro abismo profundo e (...)
E uma vacuidade transcendente
Absorve negramente o mundo inteiro,
Numa sufocação arrepiada
De terror íntimo, de terror vago
Tudo se esvai da mente e só lhe fica
Um vazio tão negro, tão profundo
Um poço de compreensão tão cercado
Que a alma de horror quer não viver não só
Pelo horror, mas também por esse horror
Transcender o universo e aparecer
Em lugar dele ao fundo pensamento
Subitamente.
Não é a dor de já não poder crer
Que m'oprime, nem a dor de não saber
Mas apenas completamente o horror
De ter visto o mistério frente a frente
De tê-lo visto e compreendido em toda
A sua infinidade de mistério.
É isto que me alheia, que me traz
Sempre mostrado em mim como um terror...
E maior terror há-o?
1 336
Fernando Pessoa
No meio das grandezas e das glórias
No meio das grandezas e das glórias
Das alegrias, luzes (...)
Do inconsciente universo natural,
Abre-se ao pensamento de repente
Negro abismo profundo e (...)
E uma vacuidade transcendente
Absorve negramente o mundo inteiro,
Numa sufocação arrepiada
De terror íntimo, de terror vago
Tudo se esvai da mente e só lhe fica
Um vazio tão negro, tão profundo
Um poço de compreensão tão cercado
Que a alma de horror quer não viver não só
Pelo horror, mas também por esse horror
Transcender o universo e aparecer
Em lugar dele ao fundo pensamento
Subitamente.
Não é a dor de já não poder crer
Que m'oprime, nem a dor de não saber
Mas apenas completamente o horror
De ter visto o mistério frente a frente
De tê-lo visto e compreendido em toda
A sua infinidade de mistério.
É isto que me alheia, que me traz
Sempre mostrado em mim como um terror...
E maior terror há-o?
Das alegrias, luzes (...)
Do inconsciente universo natural,
Abre-se ao pensamento de repente
Negro abismo profundo e (...)
E uma vacuidade transcendente
Absorve negramente o mundo inteiro,
Numa sufocação arrepiada
De terror íntimo, de terror vago
Tudo se esvai da mente e só lhe fica
Um vazio tão negro, tão profundo
Um poço de compreensão tão cercado
Que a alma de horror quer não viver não só
Pelo horror, mas também por esse horror
Transcender o universo e aparecer
Em lugar dele ao fundo pensamento
Subitamente.
Não é a dor de já não poder crer
Que m'oprime, nem a dor de não saber
Mas apenas completamente o horror
De ter visto o mistério frente a frente
De tê-lo visto e compreendido em toda
A sua infinidade de mistério.
É isto que me alheia, que me traz
Sempre mostrado em mim como um terror...
E maior terror há-o?
1 336
Fernando Pessoa
A Inocência Perdida
Tinha um campo alegre,
Mas no ardor da febre
Devastei-o, e então
Semeei-lhe amores
E nasceram flores
De desilusão,
Tinha um barco lindo que pela água ia,
Como nuvem branda pelo brando céu
Carreguei-o d'oiro que o labor trazia
E soçobrou logo que vogar queria
E eu fiquei nas ondas sem o barco meu.
A jarra preciosa está partida
E nada valem os fragmentos seus;
A imagem do templo está caída;
Partiu-se. Era de barro. Os seus crentes,
perdeu-os.
Junta os fragmentos da jarra divina
E a jarra não fazem;
Mas no ardor da febre
Devastei-o, e então
Semeei-lhe amores
E nasceram flores
De desilusão,
Tinha um barco lindo que pela água ia,
Como nuvem branda pelo brando céu
Carreguei-o d'oiro que o labor trazia
E soçobrou logo que vogar queria
E eu fiquei nas ondas sem o barco meu.
A jarra preciosa está partida
E nada valem os fragmentos seus;
A imagem do templo está caída;
Partiu-se. Era de barro. Os seus crentes,
perdeu-os.
Junta os fragmentos da jarra divina
E a jarra não fazem;
1 602
Fernando Pessoa
A PARTIDA [a]
A PARTIDA
Agora que os dedos da Morte à roda da minha garganta
Sensivelmente começam a pressão definitiva...
E que tomo consciência exorbitando os meus olhos,
Olho p'ra trás de mim, reparo pelo passado fora
Vejo quem fui, e sobretudo quem não fui
Considero lucidamente o meu passado misto
E acho que houve um erro
Ou em eu viver ou em eu viver assim.
Será sempre que quando a Morte me entra no quarto
E fecha a porta a chave por dentro,
E a coisa é definitiva, inabalável,
Sem Cour de cassation para o meu destino findo,
Será sempre que, quando a meia-noite soa na vida
Uma exasperação de calma, uma lucidez indesejada
Acorda como uma coisa anterior à infância no meu partir?
Último arranco, extenuante clarão, de chama que a seguir se apaga
Frio esplendor do fogo de artifício antes da cinza completa,
Trovão máximo sobre as nossas cabeças, por onde
Se sabe que a trovoada, por estar [...], decresceu.
Viro-me para o passado.
Sinto-me ferir na carne.
Olho com essa espécie de alegria da lucidez completa
Para a falência instintiva que houve na minha vida
Vão apagar o último candeeiro
Na rua amanhecente de minha Alma!
Sinal de [..]
O último candeeiro que apagam!
Mas antes que eu veja a verdade, pressinto-a
Antes que a conheça, amo-a.
Viro-me para trás, para o passado, não [visiono? ];
Olho e o passado é uma espécie de futuro para mim.
Mestre, Alberto Caeiro, que eu conheci no princípio
E a quem depois abandonei como um espantalho reles,
Hoje reconheço o erro, e choro dentro de mim,
Choro com a alegria de ver a lucidez com que choro
E embandeiro em arco à minha morte e à minha falência sem fim,
Embandeiro em arco a descobri-la, só a saber quem ela é.
Ergo-me em fim das almofadas quase cómodas
E volto ao meu remorso sadio.
Agora que os dedos da Morte à roda da minha garganta
Sensivelmente começam a pressão definitiva...
E que tomo consciência exorbitando os meus olhos,
Olho p'ra trás de mim, reparo pelo passado fora
Vejo quem fui, e sobretudo quem não fui
Considero lucidamente o meu passado misto
E acho que houve um erro
Ou em eu viver ou em eu viver assim.
Será sempre que quando a Morte me entra no quarto
E fecha a porta a chave por dentro,
E a coisa é definitiva, inabalável,
Sem Cour de cassation para o meu destino findo,
Será sempre que, quando a meia-noite soa na vida
Uma exasperação de calma, uma lucidez indesejada
Acorda como uma coisa anterior à infância no meu partir?
Último arranco, extenuante clarão, de chama que a seguir se apaga
Frio esplendor do fogo de artifício antes da cinza completa,
Trovão máximo sobre as nossas cabeças, por onde
Se sabe que a trovoada, por estar [...], decresceu.
Viro-me para o passado.
Sinto-me ferir na carne.
Olho com essa espécie de alegria da lucidez completa
Para a falência instintiva que houve na minha vida
Vão apagar o último candeeiro
Na rua amanhecente de minha Alma!
Sinal de [..]
O último candeeiro que apagam!
Mas antes que eu veja a verdade, pressinto-a
Antes que a conheça, amo-a.
Viro-me para trás, para o passado, não [visiono? ];
Olho e o passado é uma espécie de futuro para mim.
Mestre, Alberto Caeiro, que eu conheci no princípio
E a quem depois abandonei como um espantalho reles,
Hoje reconheço o erro, e choro dentro de mim,
Choro com a alegria de ver a lucidez com que choro
E embandeiro em arco à minha morte e à minha falência sem fim,
Embandeiro em arco a descobri-la, só a saber quem ela é.
Ergo-me em fim das almofadas quase cómodas
E volto ao meu remorso sadio.
1 725
Fernando Pessoa
Um dia / Pensei na fama e em mim o sonho veio
Um dia
Pensei na fama e em mim o sonho veio
Da glória: ver-me (...) e conhecido,
Ouvir em lábios belos o meu nome
E (...) querendo conhecer-me...
Mas isto, mal sonhado era, já trazia
Consigo um amargor estranho e (...)
Que explicar não podia e que não posso.
Antes de fama ter, tinha-lhe horror!
E eu desejava a fama a que temia.
É que sentia já talvez a vaga
Necessidade de fechar em mim
Toda a força do vivo pensamento
Que a palavra trai sempre. Mas era mais
Aquele horror à fama que eu amava
E que, querendo não podia qu'rer.
Era talvez um vago conhecer
Do vazio de tudo. Pois se a terra
Acabará, seus (...) e (...)
Com ela não acabarão? Não sei.
Talvez além do acabar exista
O haver o mistério (...) no Ser.
Não sei; sei só que um dia, num repente,
A abster-me decidi de fama e glória
Para... Mas para quê? Para pensar
Amarga e mudamente e, dia a dia,
Sentir verter em mim o fel
Da desolada desesperação.
Escrever, mas o que é que escreveria?
Se eu sei esta verdade; além do ser
Há o mistério; se sei esta e nenhuma outra,
Que verdade daria eu ao mundo?
E não dar-lhe verdade grão mal era.
Pensei na fama e em mim o sonho veio
Da glória: ver-me (...) e conhecido,
Ouvir em lábios belos o meu nome
E (...) querendo conhecer-me...
Mas isto, mal sonhado era, já trazia
Consigo um amargor estranho e (...)
Que explicar não podia e que não posso.
Antes de fama ter, tinha-lhe horror!
E eu desejava a fama a que temia.
É que sentia já talvez a vaga
Necessidade de fechar em mim
Toda a força do vivo pensamento
Que a palavra trai sempre. Mas era mais
Aquele horror à fama que eu amava
E que, querendo não podia qu'rer.
Era talvez um vago conhecer
Do vazio de tudo. Pois se a terra
Acabará, seus (...) e (...)
Com ela não acabarão? Não sei.
Talvez além do acabar exista
O haver o mistério (...) no Ser.
Não sei; sei só que um dia, num repente,
A abster-me decidi de fama e glória
Para... Mas para quê? Para pensar
Amarga e mudamente e, dia a dia,
Sentir verter em mim o fel
Da desolada desesperação.
Escrever, mas o que é que escreveria?
Se eu sei esta verdade; além do ser
Há o mistério; se sei esta e nenhuma outra,
Que verdade daria eu ao mundo?
E não dar-lhe verdade grão mal era.
1 359
Fernando Pessoa
Um dia / Pensei na fama e em mim o sonho veio
Um dia
Pensei na fama e em mim o sonho veio
Da glória: ver-me (...) e conhecido,
Ouvir em lábios belos o meu nome
E (...) querendo conhecer-me...
Mas isto, mal sonhado era, já trazia
Consigo um amargor estranho e (...)
Que explicar não podia e que não posso.
Antes de fama ter, tinha-lhe horror!
E eu desejava a fama a que temia.
É que sentia já talvez a vaga
Necessidade de fechar em mim
Toda a força do vivo pensamento
Que a palavra trai sempre. Mas era mais
Aquele horror à fama que eu amava
E que, querendo não podia qu'rer.
Era talvez um vago conhecer
Do vazio de tudo. Pois se a terra
Acabará, seus (...) e (...)
Com ela não acabarão? Não sei.
Talvez além do acabar exista
O haver o mistério (...) no Ser.
Não sei; sei só que um dia, num repente,
A abster-me decidi de fama e glória
Para... Mas para quê? Para pensar
Amarga e mudamente e, dia a dia,
Sentir verter em mim o fel
Da desolada desesperação.
Escrever, mas o que é que escreveria?
Se eu sei esta verdade; além do ser
Há o mistério; se sei esta e nenhuma outra,
Que verdade daria eu ao mundo?
E não dar-lhe verdade grão mal era.
Pensei na fama e em mim o sonho veio
Da glória: ver-me (...) e conhecido,
Ouvir em lábios belos o meu nome
E (...) querendo conhecer-me...
Mas isto, mal sonhado era, já trazia
Consigo um amargor estranho e (...)
Que explicar não podia e que não posso.
Antes de fama ter, tinha-lhe horror!
E eu desejava a fama a que temia.
É que sentia já talvez a vaga
Necessidade de fechar em mim
Toda a força do vivo pensamento
Que a palavra trai sempre. Mas era mais
Aquele horror à fama que eu amava
E que, querendo não podia qu'rer.
Era talvez um vago conhecer
Do vazio de tudo. Pois se a terra
Acabará, seus (...) e (...)
Com ela não acabarão? Não sei.
Talvez além do acabar exista
O haver o mistério (...) no Ser.
Não sei; sei só que um dia, num repente,
A abster-me decidi de fama e glória
Para... Mas para quê? Para pensar
Amarga e mudamente e, dia a dia,
Sentir verter em mim o fel
Da desolada desesperação.
Escrever, mas o que é que escreveria?
Se eu sei esta verdade; além do ser
Há o mistério; se sei esta e nenhuma outra,
Que verdade daria eu ao mundo?
E não dar-lhe verdade grão mal era.
1 359
Fernando Pessoa
Não é medo que faça estremecer
Não é medo que faça estremecer
Nem olhar trás de si, nem recear
Inda que vagamente incoerentemente...
Não tão humano horror: Este é o horror
Do mistério, do incompreendido.
Ah mas o estremecer do pensamento
É horroroso além de todo o horror.
Nem olhar trás de si, nem recear
Inda que vagamente incoerentemente...
Não tão humano horror: Este é o horror
Do mistério, do incompreendido.
Ah mas o estremecer do pensamento
É horroroso além de todo o horror.
1 336
Fernando Pessoa
Não é medo que faça estremecer
Não é medo que faça estremecer
Nem olhar trás de si, nem recear
Inda que vagamente incoerentemente...
Não tão humano horror: Este é o horror
Do mistério, do incompreendido.
Ah mas o estremecer do pensamento
É horroroso além de todo o horror.
Nem olhar trás de si, nem recear
Inda que vagamente incoerentemente...
Não tão humano horror: Este é o horror
Do mistério, do incompreendido.
Ah mas o estremecer do pensamento
É horroroso além de todo o horror.
1 336
Fernando Pessoa
Já estão em mim exaustas,
Já estão em mim exaustas,
Deixando-me transido de horror,
Todas as formas de pensar (...)
O enigma do universo. Já cheguei
A conceber como requinte extremo
Da exausta inteligência que esse Deus,
Que ensinam as igrejas com aqueles
Seus atributos [...]
[...] — existir realmente
Realmente existir e que houvesse
Mas fosse sonho, e não sonho nosso...
Sim cheguei a aceitar como verdade
O que nos dão por ela, e a admitir
Uma realidade não real
Mas sim sonhada como esse Deus cristão.
Mas isto, cuja ideia formidável
Cheia de horríveis possibilidades
Negra e profunda me (...)
A mente, abandonei, não sem tremer,
No caos do meu ser, onde jazem
Juntamente com ela espectros negros
De soluções passageiras, apavoradoras,
Momentâneas, momentâneos
Sistemas horrorosos, pavorosos,
Repletos de infinito. Formidáveis
Não só por isto mas também por serem
Falhados pensamentos e sistemas
Que por falharem só mais negro fazem
O poder horroroso que os transcende
A todos, infinitamente a todos.
Oh horror! Oh mistério! Oh existência!
Para que lado não me virarei
Onde abrirei os olhos — olhos d'alma —
Que o mistério não me atormente, e eu
Não avance tremendo para ele?
E... Para que falar? O que dizer?
Tudo é horror e o horror é tudo!
Deixando-me transido de horror,
Todas as formas de pensar (...)
O enigma do universo. Já cheguei
A conceber como requinte extremo
Da exausta inteligência que esse Deus,
Que ensinam as igrejas com aqueles
Seus atributos [...]
[...] — existir realmente
Realmente existir e que houvesse
Mas fosse sonho, e não sonho nosso...
Sim cheguei a aceitar como verdade
O que nos dão por ela, e a admitir
Uma realidade não real
Mas sim sonhada como esse Deus cristão.
Mas isto, cuja ideia formidável
Cheia de horríveis possibilidades
Negra e profunda me (...)
A mente, abandonei, não sem tremer,
No caos do meu ser, onde jazem
Juntamente com ela espectros negros
De soluções passageiras, apavoradoras,
Momentâneas, momentâneos
Sistemas horrorosos, pavorosos,
Repletos de infinito. Formidáveis
Não só por isto mas também por serem
Falhados pensamentos e sistemas
Que por falharem só mais negro fazem
O poder horroroso que os transcende
A todos, infinitamente a todos.
Oh horror! Oh mistério! Oh existência!
Para que lado não me virarei
Onde abrirei os olhos — olhos d'alma —
Que o mistério não me atormente, e eu
Não avance tremendo para ele?
E... Para que falar? O que dizer?
Tudo é horror e o horror é tudo!
888
Fernando Pessoa
Já estão em mim exaustas,
Já estão em mim exaustas,
Deixando-me transido de horror,
Todas as formas de pensar (...)
O enigma do universo. Já cheguei
A conceber como requinte extremo
Da exausta inteligência que esse Deus,
Que ensinam as igrejas com aqueles
Seus atributos [...]
[...] — existir realmente
Realmente existir e que houvesse
Mas fosse sonho, e não sonho nosso...
Sim cheguei a aceitar como verdade
O que nos dão por ela, e a admitir
Uma realidade não real
Mas sim sonhada como esse Deus cristão.
Mas isto, cuja ideia formidável
Cheia de horríveis possibilidades
Negra e profunda me (...)
A mente, abandonei, não sem tremer,
No caos do meu ser, onde jazem
Juntamente com ela espectros negros
De soluções passageiras, apavoradoras,
Momentâneas, momentâneos
Sistemas horrorosos, pavorosos,
Repletos de infinito. Formidáveis
Não só por isto mas também por serem
Falhados pensamentos e sistemas
Que por falharem só mais negro fazem
O poder horroroso que os transcende
A todos, infinitamente a todos.
Oh horror! Oh mistério! Oh existência!
Para que lado não me virarei
Onde abrirei os olhos — olhos d'alma —
Que o mistério não me atormente, e eu
Não avance tremendo para ele?
E... Para que falar? O que dizer?
Tudo é horror e o horror é tudo!
Deixando-me transido de horror,
Todas as formas de pensar (...)
O enigma do universo. Já cheguei
A conceber como requinte extremo
Da exausta inteligência que esse Deus,
Que ensinam as igrejas com aqueles
Seus atributos [...]
[...] — existir realmente
Realmente existir e que houvesse
Mas fosse sonho, e não sonho nosso...
Sim cheguei a aceitar como verdade
O que nos dão por ela, e a admitir
Uma realidade não real
Mas sim sonhada como esse Deus cristão.
Mas isto, cuja ideia formidável
Cheia de horríveis possibilidades
Negra e profunda me (...)
A mente, abandonei, não sem tremer,
No caos do meu ser, onde jazem
Juntamente com ela espectros negros
De soluções passageiras, apavoradoras,
Momentâneas, momentâneos
Sistemas horrorosos, pavorosos,
Repletos de infinito. Formidáveis
Não só por isto mas também por serem
Falhados pensamentos e sistemas
Que por falharem só mais negro fazem
O poder horroroso que os transcende
A todos, infinitamente a todos.
Oh horror! Oh mistério! Oh existência!
Para que lado não me virarei
Onde abrirei os olhos — olhos d'alma —
Que o mistério não me atormente, e eu
Não avance tremendo para ele?
E... Para que falar? O que dizer?
Tudo é horror e o horror é tudo!
888
Fernando Pessoa
Quanto mais claro
Quanto mais claro
Vejo em mim, mais escuro é o que vejo.
Quanto mais compreendo mais,
Menos me sinto compreendido. Ó horror
Da vida paradoxal deste pensar...
Vejo em mim, mais escuro é o que vejo.
Quanto mais compreendo mais,
Menos me sinto compreendido. Ó horror
Da vida paradoxal deste pensar...
1 308
Fernando Pessoa
Caminhamos sobre abismos
Caminhamos sobre abismos
Ai de quem o sente. A noite, uma noite funda
Cerca-nos, ai de quem conhece
Como ela é funda, como é inescrutável.
Pulsam-me as veias
Alucinadamente e um terror novo
Obtém-me, o terror de mim mesmo.
Ai de quem o sente. A noite, uma noite funda
Cerca-nos, ai de quem conhece
Como ela é funda, como é inescrutável.
Pulsam-me as veias
Alucinadamente e um terror novo
Obtém-me, o terror de mim mesmo.
1 432
Fernando Pessoa
Caminhamos sobre abismos
Caminhamos sobre abismos
Ai de quem o sente. A noite, uma noite funda
Cerca-nos, ai de quem conhece
Como ela é funda, como é inescrutável.
Pulsam-me as veias
Alucinadamente e um terror novo
Obtém-me, o terror de mim mesmo.
Ai de quem o sente. A noite, uma noite funda
Cerca-nos, ai de quem conhece
Como ela é funda, como é inescrutável.
Pulsam-me as veias
Alucinadamente e um terror novo
Obtém-me, o terror de mim mesmo.
1 432
Fernando Pessoa
METEMPSICOSE
Quando a vi o outro dia longe passeando,
Formosa como nunca, a sua formosura
Traduziu-se em minh'alma em mística ternura,
Tirou da minha mente o que era vil, nefando.
Eu senti que m'estava logo dominando
Aquel' celeste olhar de suprema candura
E que d'esta minh'alma a noite sempre escura
Se tomou como o dia com o sol brilhando!
Aquele olhar tirou as ideias fatais
Da pobre minha mente que agora fremita
Sob impulsos mais puros, ardentes, leais;
E se só pelo bem meu coração palpita,
Se sonha minha mente sonhos ideais,
É a sua alma pura que em minha alma habita!!
Formosa como nunca, a sua formosura
Traduziu-se em minh'alma em mística ternura,
Tirou da minha mente o que era vil, nefando.
Eu senti que m'estava logo dominando
Aquel' celeste olhar de suprema candura
E que d'esta minh'alma a noite sempre escura
Se tomou como o dia com o sol brilhando!
Aquele olhar tirou as ideias fatais
Da pobre minha mente que agora fremita
Sob impulsos mais puros, ardentes, leais;
E se só pelo bem meu coração palpita,
Se sonha minha mente sonhos ideais,
É a sua alma pura que em minha alma habita!!
971
Fernando Pessoa
THE WORLD OFFENDED
I said unto the world one day:
«I suspect thee of existence!»
And the world showed a smiled resistance
To what I did say.
«Let us go to court», he replied; «go we
Before a Court both wise and rare.
Let Reason one judge of our cause be;
Imagination be also there
And Feeling the judges our cause to hear.»
We went before the Court, and Reason
Said to me: «Thy crime is half‑treason!
The World's acquitted of what thou say'st:
Of existence 'tis guilty not.
This by the written code of Thought
In the pages of Unrest.»
(I was but in the costs condemned
Of the suit I lost as play;
But those, they leave me poor and yet
Are more than I can pay.)
«I suspect thee of existence!»
And the world showed a smiled resistance
To what I did say.
«Let us go to court», he replied; «go we
Before a Court both wise and rare.
Let Reason one judge of our cause be;
Imagination be also there
And Feeling the judges our cause to hear.»
We went before the Court, and Reason
Said to me: «Thy crime is half‑treason!
The World's acquitted of what thou say'st:
Of existence 'tis guilty not.
This by the written code of Thought
In the pages of Unrest.»
(I was but in the costs condemned
Of the suit I lost as play;
But those, they leave me poor and yet
Are more than I can pay.)
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