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Poemas neste tema

Emoções e Sentimentos

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A rapariga inglesa, uma loura, tão jovem, tão boa

A rapariga inglesa, uma loura, tão jovem, tão boa
Que queria casar comigo...
Que pena eu não ter casado com ela...
Teria sido feliz
Mas como é que eu sei se teria sido feliz?
Como é que eu sei qualquer coisa a respeito do que teria sido
Do que teria sido, que é o que nunca foi?

Hoje arrependo-me de não ter casado com ela,
Mas antes que até a hipótese de me poder arrepender de ter casado com ela.
E assim é tudo arrependimento,
E o arrependimento é pura abstracção.
Dá um certo desconforto
Mas também dá um certo sonho...

Sim, aquela rapariga foi uma oportunidade da minha alma.
Hoje o arrependimento é que é afastado da minha alma.
Santo Deus! que complicação por não ter casado com uma inglesa que já me deve ter esquecido!...
Mas se não me esqueceu?
Se (porque há disso) me lembra ainda e é constante
(Escuso de me achar feio, porque os feios também são amados
E às vezes por mulheres!)
Se não me esqueceu, ainda me lembra.
Isto, realmente, é já outra espécie de arrependimento.
E fazer sofrer alguém não tem esquecimento.

Mas, afinal, isto são conjecturas da vaidade.
Bem se há-de ela lembrar de mim, com o quarto filho nos braços,
Debruçada sobre o Daily Mirror a ver a Pussy Maria.

Pelo menos é melhor pensar que é assim.
É um quadro de casa suburbana inglesa,
É uma boa paisagem íntima de cabelos louros,
E os remorsos são sombras...
Em todo o caso, se assim é, fica um bocado de ciúme.
O quarto filho do outro, o Daily Mirror na outra casa.
O que podia ter sido...
Sim, sempre o abstracto, o impossível, o irreal mas perverso —
O que podia ter sido.
Comem marmelade ao pequeno almoço em Inglaterra...
Vingo-me em toda a linguagem inglesa de ser um parvo português.

Ah, mas ainda vejo
O teu olhar realmente tão sincero como azul
A olhar como uma outra criança para mim...
E não é com piadas de sal do verso que te apago da imagem
Que tens no meu coração;
Não te disfarço, meu único amor, e não quero nada da vida.
1 265
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A rapariga inglesa, uma loura, tão jovem, tão boa

A rapariga inglesa, uma loura, tão jovem, tão boa
Que queria casar comigo...
Que pena eu não ter casado com ela...
Teria sido feliz
Mas como é que eu sei se teria sido feliz?
Como é que eu sei qualquer coisa a respeito do que teria sido
Do que teria sido, que é o que nunca foi?

Hoje arrependo-me de não ter casado com ela,
Mas antes que até a hipótese de me poder arrepender de ter casado com ela.
E assim é tudo arrependimento,
E o arrependimento é pura abstracção.
Dá um certo desconforto
Mas também dá um certo sonho...

Sim, aquela rapariga foi uma oportunidade da minha alma.
Hoje o arrependimento é que é afastado da minha alma.
Santo Deus! que complicação por não ter casado com uma inglesa que já me deve ter esquecido!...
Mas se não me esqueceu?
Se (porque há disso) me lembra ainda e é constante
(Escuso de me achar feio, porque os feios também são amados
E às vezes por mulheres!)
Se não me esqueceu, ainda me lembra.
Isto, realmente, é já outra espécie de arrependimento.
E fazer sofrer alguém não tem esquecimento.

Mas, afinal, isto são conjecturas da vaidade.
Bem se há-de ela lembrar de mim, com o quarto filho nos braços,
Debruçada sobre o Daily Mirror a ver a Pussy Maria.

Pelo menos é melhor pensar que é assim.
É um quadro de casa suburbana inglesa,
É uma boa paisagem íntima de cabelos louros,
E os remorsos são sombras...
Em todo o caso, se assim é, fica um bocado de ciúme.
O quarto filho do outro, o Daily Mirror na outra casa.
O que podia ter sido...
Sim, sempre o abstracto, o impossível, o irreal mas perverso —
O que podia ter sido.
Comem marmelade ao pequeno almoço em Inglaterra...
Vingo-me em toda a linguagem inglesa de ser um parvo português.

Ah, mas ainda vejo
O teu olhar realmente tão sincero como azul
A olhar como uma outra criança para mim...
E não é com piadas de sal do verso que te apago da imagem
Que tens no meu coração;
Não te disfarço, meu único amor, e não quero nada da vida.
1 265
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

São poucos os momentos de prazer na vida...

São poucos os momentos de prazer na vida...
É gozá-la... Sim, já o ouvi dizer muitas vezes
Eu mesmo já o disse. (Repetir é viver.)
É gozá-la não é verdade?

Gozêmo-la, loura falsa, gozêmo-la, casuais e incógnitos,
Tu, com teus gestos de distinção cinematográfica
Com teus olhares para o lado a nada,
Cumprindo a tua função de animal emaranhado;
Eu no plano inclinado da consciência para a indiferença,
Amemo-nos aqui. Tempo é só um dia.
Tenhamos o [romantismo?] dele!
Por trás de mim vigio, involuntariamente.
Sou qualquer nas palavras que te digo, e são suaves — e as que esperas.
Do lado de cá dos meus Alpes, e que Alpes! somos do corpo.
Nada quebra a passagem prometida de uma ligação futura,
E vai tudo elegantemente, como em Paris, Londres, Berlim.
"Percebe-se", dizes, «que o senhor viveu muito no estrangeiro."
E eu que sinto vaidade em ouvi-lo!
Só tenho medo que me vás falar da tua vida...
Cabaret de Lisboa? Visto que o é, seja.
Lembro-me subitamente, visualmente, do anúncio no jornal...
"Rendez-vous da sociedade elegante",
Isto.
Mas nada destas reflexões temerárias e futuras
Interrompe aquela conversa involuntária em que te sou qualquer.
Falo medias e imitações
E cada vez, vejo e sinto, gostas mais de mim a valer que (...) hoje;
É nesta altura que, debruçando-me de repente sobre a mesa
Te segredo em segredo o que exactamente convinha.
Ris, toda olhar e em parte boca, efusiva e próxima,
E eu gosto verdadeiramente de ti.
Soa em nós o gesto sexual de nos irmos embora.
Rodo a cabeça para o pagamento...
Alegre, alacre, sentindo-te, falas...
Sorrio.
Por trás do sorriso, não sou eu.
1 052
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Horror! Não sei ser inconsciente

Horror! Não sei ser inconsciente
E tenho para tudo, do que é bom
À inconsciência, o pensamento aberto,
Tornando-o impossível.

O amor causa-me horror é abandono,
Intimidade, mostrar       (...)       do ser

E eu tenho do alto orgulho a timidez
E sinto horror a abrir o ser a alguém,
A confiar n'alguém. Horror eu sinto
A que prescrute alguém, ou levemente
Ou não, quaisquer recantos do meu ser.
Abandonar-me em braços nus e belos
(Inda que deles o amor viesse)
No conceber de tudo me horroriza;
Seria violar meu ser profundo,
Aproximar-me muito doutros homens;
Uma nudez qualquer — espírito ou corpo (
Confrange-me: acostumei-me cedo
Aos despimentos do meu ser,
A fixar olhos púdicos, conscientes
Demais. Pensar em dizer «amo-te»
E «amo-te» só — só isto me angustia...
Pensar que ao rir (e mesmo que o não seja)
Exponho uma íntima parte de mim,
Para poder amar eu precisava
Esquecer que sou Fausto o pensador.
Eu queria era dormir, dormi, dormir,
Longo dormir, meio sentindo em sono,
E dormir sempre, sem consciência ter
Do tempo, só do sono sonolento
E da vacuidade do meu ser;
Dormir sem vir a morte, nem sonhar
Mas dormir só dormir, sempre dormir.
Que hoje já de dormir desaprendi.
Cansado de pensar, a pensar fico,
E as noites longas, longas, longas, longas,
E o pálido raiar de inda doutro dia...
Inda outro dia que trará ainda
Uma outra noite e essa mais dias, mais...
Insone sentir isto, e o deslizar
Suave e horroroso do tempo.
Cai então sobre mim todo o horror claro
E nítido e visível do mistério,
E eu tal fico em abalo e em comoção
Que durmo — sim que durmo de pesar-me
Tudo de mais p'ra mais poder sentir.
Então durmo... e antes eu não dormisse
Porque desordenadas incoerências
Mas não visões, só abstracções terríveis
(...)
1 425
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Horror! Não sei ser inconsciente

Horror! Não sei ser inconsciente
E tenho para tudo, do que é bom
À inconsciência, o pensamento aberto,
Tornando-o impossível.

O amor causa-me horror é abandono,
Intimidade, mostrar       (...)       do ser

E eu tenho do alto orgulho a timidez
E sinto horror a abrir o ser a alguém,
A confiar n'alguém. Horror eu sinto
A que prescrute alguém, ou levemente
Ou não, quaisquer recantos do meu ser.
Abandonar-me em braços nus e belos
(Inda que deles o amor viesse)
No conceber de tudo me horroriza;
Seria violar meu ser profundo,
Aproximar-me muito doutros homens;
Uma nudez qualquer — espírito ou corpo (
Confrange-me: acostumei-me cedo
Aos despimentos do meu ser,
A fixar olhos púdicos, conscientes
Demais. Pensar em dizer «amo-te»
E «amo-te» só — só isto me angustia...
Pensar que ao rir (e mesmo que o não seja)
Exponho uma íntima parte de mim,
Para poder amar eu precisava
Esquecer que sou Fausto o pensador.
Eu queria era dormir, dormi, dormir,
Longo dormir, meio sentindo em sono,
E dormir sempre, sem consciência ter
Do tempo, só do sono sonolento
E da vacuidade do meu ser;
Dormir sem vir a morte, nem sonhar
Mas dormir só dormir, sempre dormir.
Que hoje já de dormir desaprendi.
Cansado de pensar, a pensar fico,
E as noites longas, longas, longas, longas,
E o pálido raiar de inda doutro dia...
Inda outro dia que trará ainda
Uma outra noite e essa mais dias, mais...
Insone sentir isto, e o deslizar
Suave e horroroso do tempo.
Cai então sobre mim todo o horror claro
E nítido e visível do mistério,
E eu tal fico em abalo e em comoção
Que durmo — sim que durmo de pesar-me
Tudo de mais p'ra mais poder sentir.
Então durmo... e antes eu não dormisse
Porque desordenadas incoerências
Mas não visões, só abstracções terríveis
(...)
1 425
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Horror! Não sei ser inconsciente

Horror! Não sei ser inconsciente
E tenho para tudo, do que é bom
À inconsciência, o pensamento aberto,
Tornando-o impossível.

O amor causa-me horror é abandono,
Intimidade, mostrar       (...)       do ser

E eu tenho do alto orgulho a timidez
E sinto horror a abrir o ser a alguém,
A confiar n'alguém. Horror eu sinto
A que prescrute alguém, ou levemente
Ou não, quaisquer recantos do meu ser.
Abandonar-me em braços nus e belos
(Inda que deles o amor viesse)
No conceber de tudo me horroriza;
Seria violar meu ser profundo,
Aproximar-me muito doutros homens;
Uma nudez qualquer — espírito ou corpo (
Confrange-me: acostumei-me cedo
Aos despimentos do meu ser,
A fixar olhos púdicos, conscientes
Demais. Pensar em dizer «amo-te»
E «amo-te» só — só isto me angustia...
Pensar que ao rir (e mesmo que o não seja)
Exponho uma íntima parte de mim,
Para poder amar eu precisava
Esquecer que sou Fausto o pensador.
Eu queria era dormir, dormi, dormir,
Longo dormir, meio sentindo em sono,
E dormir sempre, sem consciência ter
Do tempo, só do sono sonolento
E da vacuidade do meu ser;
Dormir sem vir a morte, nem sonhar
Mas dormir só dormir, sempre dormir.
Que hoje já de dormir desaprendi.
Cansado de pensar, a pensar fico,
E as noites longas, longas, longas, longas,
E o pálido raiar de inda doutro dia...
Inda outro dia que trará ainda
Uma outra noite e essa mais dias, mais...
Insone sentir isto, e o deslizar
Suave e horroroso do tempo.
Cai então sobre mim todo o horror claro
E nítido e visível do mistério,
E eu tal fico em abalo e em comoção
Que durmo — sim que durmo de pesar-me
Tudo de mais p'ra mais poder sentir.
Então durmo... e antes eu não dormisse
Porque desordenadas incoerências
Mas não visões, só abstracções terríveis
(...)
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