Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Fernando Pessoa
FAUSTO: Febre! Febre! Estou trémulo de febre
FAUSTO:
Febre! Febre! Estou trémulo de febre
E de delírio, e ainda assim é grato
Tudo isto a não sei que se passa
Sem propósito de passar e... não, não, não...
Fiquei fingindo que fujo... Fugirei...
Onde estou? O que foi? que faço aqui?
Arde-me a alma toda, arde-me arde
Como uma cousa que arde.
(foge de casa)
Ancião, não podes tu
Arranjar-me um remédio para a vida?
Quero vivê-la sem saber que a vivo,
Como tu vives... Corta-me o sorriso
Ou te apunhalo! De que te ris? Não rias!
Dá-me já, dá-me, dá-me filtros ou (...)
Com que eu me esqueça.
(estende a mão)
Dá cá, não importa
Falar Tudo é inútil.
(arranca-lhe o frasco da mão)
Atordoar-me-á isto a alma toda
Toda até dentro, muito dentro, velho?
VELHO:
Não te compreendo, mas se é esqueceres
Que queres, bebe.
FAUSTO:
Quero, quero, vamos,
Esqueçamo-nos. Tens algo de mais forte
Para mais do que esquecer; depressa, diz.
VELHO:
Mal te compreendo, mas não tenho.
FAUSTO:
Este
Quer (...) fins.
(bebe sofregamente)
E dormirei, ó velho,
Acabará em mim parte de mim
E viverei morto para viver
(cai no chão)
VELHO:
Estranha e horrível criatura!
O que de temor me faz. Todas espécies
De homens conheço, por ciência
Sei ler os vícios íntimos e os crimes
Nos olhares. Mas este... Não é vício
Nem crime, nem tristeza, nem parece
Propriamente pavor, o que obscurece
Como uma escuridão de dentro d'alma,
Toda a vida e expressão de sua face.
E essas palavras de que usa «esquecer
A vida», «mais do que esquecer» «em
Acabará então parte de mim»
Que significam? Não sei, mas sinto
Que condizem secreta e intimamente
Com esse íntimo ser que eu não conheço.
Qualquer que seja essa desgraça, estranho,
Dorme e ou esqueça ou aconteça em ti
Isso que semelhante ao esquecer
Desordenadamente me disseste
No teu intimo (...) desejar.
Dorme, e que o filtro opere no silêncio
Da tua alma, obra interior de paz
E que ao descerrares para mim os olhos
Eu lhes veja a expressão já transmutada
Para compreensível e humana
Expressão de um humano sentimento.
(Vai para o levantar mas retrai-se)
Não; dorme onde caíste e que o filtro
Sem sonho ou (...) de alteração
Te adormeça a existência intimamente
E ao escuro desejo que tu tens
(exit)
FAUSTO:
Eu sou outro que os homens, ó ancião,
O teu filtro de paz e esquecimento
Não me faz esquecer e só a sombra
De uma possível paz me entrou n'alma.
Para a paz que eu queria esta que tenho
É como archote para a luz do sol.
Intimamente nada se parece.
Paralisaste em mim a engrenagem
Do pensamento e sentimento antigos
Mas quebrados ficaram-me visíveis
E inesquecidos n'alma. Sou demais
Em consciência para os filtros frágeis
De que o teu tosco engenho te fez sábio.
Não tornarei, eu sinto-o, a sentir
O que sentia antigamente. Foi-se
Não sei como, o interior do meu ser
Com suas intuições, mas não se foi
A memória terrível do horror
Da minha vida antiga, perto e longe
Já do que eu sou, nem o que o uso fez
Ao sentimento e ao pensamento antigos;
Ainda os tenho comigo. Fica com eles
A memória presente do terror. Sou o que era, velho.
Nas cinzas do meu ser ainda há calor
Para que o fogo lembre.
VELHO:
Esfriarão.
FAUSTO:
Não o sinto possível. Há ainda
Memória e consciência de existir
Por demais em minha alma. O teu filtro
Não foi feito para entes como eu.
Entes? Não que como eu, só eu.
VELHO:
Virá
VELHO:
Dentro em breve o sossego.
FAUSTO:
Por que o dizes?
VELHO:
A outros veio!
FAUSTO:
A outros, mas que outros
Se assemelham a mim, ó velho estulto?
Alma vazia cheia de licores!
Mas de que serve injuriar-te? Tu
Não serás por injúrias acordado
Para a compreensão.
(Soergue-se)
Estranho sentimento. Como que a alma
Corporeamente me é pesada! A vida
Como que está atordoada e lenta...
Mas tenho, ó velho, consciência disso!
Teu filtro, miserável, é humano!
É para entes humanos que foi feito.
Inda me lembro bem que eu não o sou.
(pausa)
Olha pr'a mim! Que tenho no olhar
Como pareço ser?
VELHO:
Doente, triste
E como que quem sente vago pavor...
FAUSTO:
Maldita a ideia que te faz tocar
No que eu não posso mais sentir, mas posso
Apavorar-me de já ter sentido
E lembrar-me. Não fales mais. Eu vou...
(Pondo-se de pé)
Eu vou não sei onde...Como me treme
Com que debilidade e sentimento
De estar mudado o corpo todo. Velho,
Adeus, quisera ter achado em ti
O que em ti não podia ter achado.
Os teus remédios nada valem. Eu
Deveria ao pedir tê-lo sabido;
Mas... Não tens outro, diz-me... Tu que filtros
Possuis, não tens venenos mais subtis
Para a existência?
VELHO:
Tu bebeste aquele
Que eu de mais forte tinha, e que eu quisera
Não te dar. Arrancaste-mo da mão.
Talvez não vejas quanto estás melhor...
FAUSTO:
Velho, eu não erro com o pensamento.
Sei como estou. Não estou como quisera
Que me fizeras estar.
VELHO:
Há um filtro
Diferente daquele que tomaste;
Diverso na intenção com que obra n'alma,
Mas parecido no fazer esquecer.
FAUSTO:
Como diverso na intenção?
VELHO:
Em vez
De apagar, (...), adormecer,
Faz, com terrível excitar da vida,
Nascer n'alma um conflito de desejos
Um desejo de tudo possuir,
De tudo ser, de tudo ver, amar,
Gozar, odiar, querer e não querer,
Reunir vícios e virtudes — tudo
Como que na ânsia férvida dum trago
Da taça de existir.
FAUSTO:
E tu...
VELHO:
Não fui eu
Quem concebeu ou fabrica o filtro
Nem há mais (...) do que para um homem.
FAUSTO:
Tu vendes-mo... Ah, não, que eu nada tenho
Nem sei se tive ou poderia ter.
Tu dás-mo, velho. Não te servirá
De nada. Talvez esse filtro dê
O esquecimento (...) à minha alma.
Inda que a decepção me cause um vago
Desejo inquieto e como que inquerente
Entre um querer e um não querer, sendo ambos
E nenhum. Torna a ele. Quem o fez?
Porque o fez? Onde o tens? Repete mesmo
O que de seus efeitos me disseste.
E esses efeitos tê-los-á; repete,
Quero que ainda me decida mais
A pedir-to e a usá-lo. Por enquanto
Sou para ele a própria indecisão.
VELHO:
(...)
FAUSTO:
Que me decida ou não a beber dele
Esse filtro a ti de nada serve.
Dá-mo pois.
VELHO:
Não to dou.
FAUSTO:
O filtro, velho.
Não me (...); o filtro.
VELHO:
Não to dou.
FAUSTO:
O filtro.
VELHO:
Não to posso dar.
FAUSTO:
O filtro.
VELHO:
Para que avanças? Eu que mal te fiz?
FAUSTO:
O filtro; dá-me o filtro.
VELHO:
Mas não posso.
FAUSTO:
Velho, repara em mim. Há na minha alma
Uma ira calma e fria! Foge que ela
Na acção te mostre o que é.
VELHO:
Não posso dar-te,
Em verdade to digo, o filtro. Eu
Fiz-te o bem que pude; porque então
Avançando assim calmo para mim
No horror de qualquer (...) intenção
Te vejo o mesmo sempre? Poupa-me isso
Terrível que há em ti e que não trais
Em movimento ou vaga intimidade
Do olhar.. Piedade, piedade...
Piedade, senhor! Eu dou-te o filtro
Eu dou-te o filtro. Piedade eu dou.
(Fausto levanta do punhal e fells him)
(após matar)
FAUSTO:
Nem sinto horror, nem medo, ou dor, ou ânsia
Nem qualquer forma de estranheza sinto
Pelo que fiz por mais que tente querer
Sentir, e pelo próprio pensamento
De o dever sentir à força ter
Uma dor, um remorso, um sentimento.
Nada... Vejo, sinto, e vejo apenas
Como qualquer cousa natural
Visse, sem que devesse invocar
Sentimento (...) algum. Por mais
Que queira pensar-me a conceber
Quanto é estranho, e horroroso,
O que fiz, não me posso humanizar
Ao ponto de (...)
Por mais que a mera vista me convença
De que matei, por mais que tente
Fitar com a alma o corpo e o derramado
Sangue que vejo, nega-se-me o ser
A mais do que a olhar e só olhar.
É uma alma morta ante um corpo morto.
Compreendo bem o que sentir eu devo
Mas não consigo mesmo a imaginar-me
Sentindo-o. Estranho! Nem sequer evoco
Por sentimentos de quanto é de horror
A morte, um ente morto, e o mistério
Nisto tudo. Sim, sinto-lhe o mistério
Mas este sentimento de mistério
Não se me liga a um sentimento
Que liga esse corpo a mim que fiz
O que de mistério está ali.
Tremo ao sentir quanto é mistério a morte;
Mas na alma desligado está
Com completa separação e nítida
De sentimento algum que me deixasse
O ser na ânsia de inquirir.
(pausa)
Visto porém, que nada sinto, nada,
Acabe este mesmo reflectir
Mais que infrutífero de sentimento,
Porque mais frio cada vez me sinto
Ao perceber que nada sei sentir
Nem estranheza sinto
Nem estranheza de não ter estranheza
Nem estranheza mesmo
De não sentir por mais que eu queira
Fazer crer que devia sentir estranheza.
Procuremos o filtro.
Febre! Febre! Estou trémulo de febre
E de delírio, e ainda assim é grato
Tudo isto a não sei que se passa
Sem propósito de passar e... não, não, não...
Fiquei fingindo que fujo... Fugirei...
Onde estou? O que foi? que faço aqui?
Arde-me a alma toda, arde-me arde
Como uma cousa que arde.
(foge de casa)
Ancião, não podes tu
Arranjar-me um remédio para a vida?
Quero vivê-la sem saber que a vivo,
Como tu vives... Corta-me o sorriso
Ou te apunhalo! De que te ris? Não rias!
Dá-me já, dá-me, dá-me filtros ou (...)
Com que eu me esqueça.
(estende a mão)
Dá cá, não importa
Falar Tudo é inútil.
(arranca-lhe o frasco da mão)
Atordoar-me-á isto a alma toda
Toda até dentro, muito dentro, velho?
VELHO:
Não te compreendo, mas se é esqueceres
Que queres, bebe.
FAUSTO:
Quero, quero, vamos,
Esqueçamo-nos. Tens algo de mais forte
Para mais do que esquecer; depressa, diz.
VELHO:
Mal te compreendo, mas não tenho.
FAUSTO:
Este
Quer (...) fins.
(bebe sofregamente)
E dormirei, ó velho,
Acabará em mim parte de mim
E viverei morto para viver
(cai no chão)
VELHO:
Estranha e horrível criatura!
O que de temor me faz. Todas espécies
De homens conheço, por ciência
Sei ler os vícios íntimos e os crimes
Nos olhares. Mas este... Não é vício
Nem crime, nem tristeza, nem parece
Propriamente pavor, o que obscurece
Como uma escuridão de dentro d'alma,
Toda a vida e expressão de sua face.
E essas palavras de que usa «esquecer
A vida», «mais do que esquecer» «em
Acabará então parte de mim»
Que significam? Não sei, mas sinto
Que condizem secreta e intimamente
Com esse íntimo ser que eu não conheço.
Qualquer que seja essa desgraça, estranho,
Dorme e ou esqueça ou aconteça em ti
Isso que semelhante ao esquecer
Desordenadamente me disseste
No teu intimo (...) desejar.
Dorme, e que o filtro opere no silêncio
Da tua alma, obra interior de paz
E que ao descerrares para mim os olhos
Eu lhes veja a expressão já transmutada
Para compreensível e humana
Expressão de um humano sentimento.
(Vai para o levantar mas retrai-se)
Não; dorme onde caíste e que o filtro
Sem sonho ou (...) de alteração
Te adormeça a existência intimamente
E ao escuro desejo que tu tens
(exit)
FAUSTO:
Eu sou outro que os homens, ó ancião,
O teu filtro de paz e esquecimento
Não me faz esquecer e só a sombra
De uma possível paz me entrou n'alma.
Para a paz que eu queria esta que tenho
É como archote para a luz do sol.
Intimamente nada se parece.
Paralisaste em mim a engrenagem
Do pensamento e sentimento antigos
Mas quebrados ficaram-me visíveis
E inesquecidos n'alma. Sou demais
Em consciência para os filtros frágeis
De que o teu tosco engenho te fez sábio.
Não tornarei, eu sinto-o, a sentir
O que sentia antigamente. Foi-se
Não sei como, o interior do meu ser
Com suas intuições, mas não se foi
A memória terrível do horror
Da minha vida antiga, perto e longe
Já do que eu sou, nem o que o uso fez
Ao sentimento e ao pensamento antigos;
Ainda os tenho comigo. Fica com eles
A memória presente do terror. Sou o que era, velho.
Nas cinzas do meu ser ainda há calor
Para que o fogo lembre.
VELHO:
Esfriarão.
FAUSTO:
Não o sinto possível. Há ainda
Memória e consciência de existir
Por demais em minha alma. O teu filtro
Não foi feito para entes como eu.
Entes? Não que como eu, só eu.
VELHO:
Virá
VELHO:
Dentro em breve o sossego.
FAUSTO:
Por que o dizes?
VELHO:
A outros veio!
FAUSTO:
A outros, mas que outros
Se assemelham a mim, ó velho estulto?
Alma vazia cheia de licores!
Mas de que serve injuriar-te? Tu
Não serás por injúrias acordado
Para a compreensão.
(Soergue-se)
Estranho sentimento. Como que a alma
Corporeamente me é pesada! A vida
Como que está atordoada e lenta...
Mas tenho, ó velho, consciência disso!
Teu filtro, miserável, é humano!
É para entes humanos que foi feito.
Inda me lembro bem que eu não o sou.
(pausa)
Olha pr'a mim! Que tenho no olhar
Como pareço ser?
VELHO:
Doente, triste
E como que quem sente vago pavor...
FAUSTO:
Maldita a ideia que te faz tocar
No que eu não posso mais sentir, mas posso
Apavorar-me de já ter sentido
E lembrar-me. Não fales mais. Eu vou...
(Pondo-se de pé)
Eu vou não sei onde...Como me treme
Com que debilidade e sentimento
De estar mudado o corpo todo. Velho,
Adeus, quisera ter achado em ti
O que em ti não podia ter achado.
Os teus remédios nada valem. Eu
Deveria ao pedir tê-lo sabido;
Mas... Não tens outro, diz-me... Tu que filtros
Possuis, não tens venenos mais subtis
Para a existência?
VELHO:
Tu bebeste aquele
Que eu de mais forte tinha, e que eu quisera
Não te dar. Arrancaste-mo da mão.
Talvez não vejas quanto estás melhor...
FAUSTO:
Velho, eu não erro com o pensamento.
Sei como estou. Não estou como quisera
Que me fizeras estar.
VELHO:
Há um filtro
Diferente daquele que tomaste;
Diverso na intenção com que obra n'alma,
Mas parecido no fazer esquecer.
FAUSTO:
Como diverso na intenção?
VELHO:
Em vez
De apagar, (...), adormecer,
Faz, com terrível excitar da vida,
Nascer n'alma um conflito de desejos
Um desejo de tudo possuir,
De tudo ser, de tudo ver, amar,
Gozar, odiar, querer e não querer,
Reunir vícios e virtudes — tudo
Como que na ânsia férvida dum trago
Da taça de existir.
FAUSTO:
E tu...
VELHO:
Não fui eu
Quem concebeu ou fabrica o filtro
Nem há mais (...) do que para um homem.
FAUSTO:
Tu vendes-mo... Ah, não, que eu nada tenho
Nem sei se tive ou poderia ter.
Tu dás-mo, velho. Não te servirá
De nada. Talvez esse filtro dê
O esquecimento (...) à minha alma.
Inda que a decepção me cause um vago
Desejo inquieto e como que inquerente
Entre um querer e um não querer, sendo ambos
E nenhum. Torna a ele. Quem o fez?
Porque o fez? Onde o tens? Repete mesmo
O que de seus efeitos me disseste.
E esses efeitos tê-los-á; repete,
Quero que ainda me decida mais
A pedir-to e a usá-lo. Por enquanto
Sou para ele a própria indecisão.
VELHO:
(...)
FAUSTO:
Que me decida ou não a beber dele
Esse filtro a ti de nada serve.
Dá-mo pois.
VELHO:
Não to dou.
FAUSTO:
O filtro, velho.
Não me (...); o filtro.
VELHO:
Não to dou.
FAUSTO:
O filtro.
VELHO:
Não to posso dar.
FAUSTO:
O filtro.
VELHO:
Para que avanças? Eu que mal te fiz?
FAUSTO:
O filtro; dá-me o filtro.
VELHO:
Mas não posso.
FAUSTO:
Velho, repara em mim. Há na minha alma
Uma ira calma e fria! Foge que ela
Na acção te mostre o que é.
VELHO:
Não posso dar-te,
Em verdade to digo, o filtro. Eu
Fiz-te o bem que pude; porque então
Avançando assim calmo para mim
No horror de qualquer (...) intenção
Te vejo o mesmo sempre? Poupa-me isso
Terrível que há em ti e que não trais
Em movimento ou vaga intimidade
Do olhar.. Piedade, piedade...
Piedade, senhor! Eu dou-te o filtro
Eu dou-te o filtro. Piedade eu dou.
(Fausto levanta do punhal e fells him)
(após matar)
FAUSTO:
Nem sinto horror, nem medo, ou dor, ou ânsia
Nem qualquer forma de estranheza sinto
Pelo que fiz por mais que tente querer
Sentir, e pelo próprio pensamento
De o dever sentir à força ter
Uma dor, um remorso, um sentimento.
Nada... Vejo, sinto, e vejo apenas
Como qualquer cousa natural
Visse, sem que devesse invocar
Sentimento (...) algum. Por mais
Que queira pensar-me a conceber
Quanto é estranho, e horroroso,
O que fiz, não me posso humanizar
Ao ponto de (...)
Por mais que a mera vista me convença
De que matei, por mais que tente
Fitar com a alma o corpo e o derramado
Sangue que vejo, nega-se-me o ser
A mais do que a olhar e só olhar.
É uma alma morta ante um corpo morto.
Compreendo bem o que sentir eu devo
Mas não consigo mesmo a imaginar-me
Sentindo-o. Estranho! Nem sequer evoco
Por sentimentos de quanto é de horror
A morte, um ente morto, e o mistério
Nisto tudo. Sim, sinto-lhe o mistério
Mas este sentimento de mistério
Não se me liga a um sentimento
Que liga esse corpo a mim que fiz
O que de mistério está ali.
Tremo ao sentir quanto é mistério a morte;
Mas na alma desligado está
Com completa separação e nítida
De sentimento algum que me deixasse
O ser na ânsia de inquirir.
(pausa)
Visto porém, que nada sinto, nada,
Acabe este mesmo reflectir
Mais que infrutífero de sentimento,
Porque mais frio cada vez me sinto
Ao perceber que nada sei sentir
Nem estranheza sinto
Nem estranheza de não ter estranheza
Nem estranheza mesmo
De não sentir por mais que eu queira
Fazer crer que devia sentir estranheza.
Procuremos o filtro.
1 137
Fernando Pessoa
THE MAIDEN
A form of Beauty came once to me,
A sweeter thing than earth or sea
Or anything that is Time's contains
Or shows to our heart that has pains.
It went and I rose to seek it afar,
I walked wide and long in my lofty care,
And I asked the passers‑by on the way:
«Have ye seen this maiden? oh, say! oh, say!»
And they cried all: «No, we have felt the wind
Breathe in the blossom things undefined,
We have seen the soft leaves tremble and kiss
As memories thrilled of a vanished bliss.»
I asked a wanderer by the road:
«Hast thou seen the maiden I seek abroad'?»
«No; I have seen the moonlight», he said,
«Rest like a thought on the graves of the dead.»
And I asked of others: «Know ye the maid
Whose beauty but ignored can fade?»
«No», said they; «than skies and flowers
We know naught fairer that is ours.»
And far I went and I asked of all:
None knew her on whom I did call;
They had felt the breathing of lone winds low
Tremble like lips in loves first glow.
They had seen the grass and the trees and flowers
Bloom as things whose life is but hours;
And they had looked back on their little way
And trees and flowers were in decay.
Then I asked a madman who had no home,
And he said: «Alas for thee who dost roam!
Thou must become as I am now
For her thou seekest none can know.
She lives in a region beyond all love
All human sighing far above;
In a palace there on a dream‑wrought throne
She reigns eternally alone.
She maketh the poet's mind to pine,
She seeketh him once with a kiss divine,
And longing eternal follows that kiss
And pain is the blessing of her caress.»
A sweeter thing than earth or sea
Or anything that is Time's contains
Or shows to our heart that has pains.
It went and I rose to seek it afar,
I walked wide and long in my lofty care,
And I asked the passers‑by on the way:
«Have ye seen this maiden? oh, say! oh, say!»
And they cried all: «No, we have felt the wind
Breathe in the blossom things undefined,
We have seen the soft leaves tremble and kiss
As memories thrilled of a vanished bliss.»
I asked a wanderer by the road:
«Hast thou seen the maiden I seek abroad'?»
«No; I have seen the moonlight», he said,
«Rest like a thought on the graves of the dead.»
And I asked of others: «Know ye the maid
Whose beauty but ignored can fade?»
«No», said they; «than skies and flowers
We know naught fairer that is ours.»
And far I went and I asked of all:
None knew her on whom I did call;
They had felt the breathing of lone winds low
Tremble like lips in loves first glow.
They had seen the grass and the trees and flowers
Bloom as things whose life is but hours;
And they had looked back on their little way
And trees and flowers were in decay.
Then I asked a madman who had no home,
And he said: «Alas for thee who dost roam!
Thou must become as I am now
For her thou seekest none can know.
She lives in a region beyond all love
All human sighing far above;
In a palace there on a dream‑wrought throne
She reigns eternally alone.
She maketh the poet's mind to pine,
She seeketh him once with a kiss divine,
And longing eternal follows that kiss
And pain is the blessing of her caress.»
1 585
Fernando Pessoa
Triste horror d'alma, não evoco já
Triste horror d'alma, não evoco já
Com grata saudade tristemente
Estas recordações da juventude!
Já não sinto saudades como há pouco
Inda as sentia. Vai-se-me desmaiando,
Co'a força de pensar, contínuo e árido,
Toda a verdura e flor do pensamento.
Ao recordar agora apenas sinto
Como um cansaço só de ter vivido,
Desconsolado e mudo sentimento
De ter deixado atrás parte de mim,
E saudade de não ter saudade,
Saudade de tempos em que a tinha.
Se a minha infância agora evoco, vejo (
Estranho! — como uma outra criatura
Que me era amiga, numa vaga
Objectivada subjectividade.
Ora a infância me lembra como um sonho,
Ora a uma distância sem medida
No tempo, desfazendo-me em espanto;
E a sensação que sinto ao perceber
Que vou passando, já tem mais de horror
Que tristeza, apavora-me e confrange
E nada evoca nada a não ser o mistério
Que o Tempo tem fechado em sua mão.
Mas a dor é maior!
Com grata saudade tristemente
Estas recordações da juventude!
Já não sinto saudades como há pouco
Inda as sentia. Vai-se-me desmaiando,
Co'a força de pensar, contínuo e árido,
Toda a verdura e flor do pensamento.
Ao recordar agora apenas sinto
Como um cansaço só de ter vivido,
Desconsolado e mudo sentimento
De ter deixado atrás parte de mim,
E saudade de não ter saudade,
Saudade de tempos em que a tinha.
Se a minha infância agora evoco, vejo (
Estranho! — como uma outra criatura
Que me era amiga, numa vaga
Objectivada subjectividade.
Ora a infância me lembra como um sonho,
Ora a uma distância sem medida
No tempo, desfazendo-me em espanto;
E a sensação que sinto ao perceber
Que vou passando, já tem mais de horror
Que tristeza, apavora-me e confrange
E nada evoca nada a não ser o mistério
Que o Tempo tem fechado em sua mão.
Mas a dor é maior!
1 148
Fernando Pessoa
Triste horror d'alma, não evoco já
Triste horror d'alma, não evoco já
Com grata saudade tristemente
Estas recordações da juventude!
Já não sinto saudades como há pouco
Inda as sentia. Vai-se-me desmaiando,
Co'a força de pensar, contínuo e árido,
Toda a verdura e flor do pensamento.
Ao recordar agora apenas sinto
Como um cansaço só de ter vivido,
Desconsolado e mudo sentimento
De ter deixado atrás parte de mim,
E saudade de não ter saudade,
Saudade de tempos em que a tinha.
Se a minha infância agora evoco, vejo (
Estranho! — como uma outra criatura
Que me era amiga, numa vaga
Objectivada subjectividade.
Ora a infância me lembra como um sonho,
Ora a uma distância sem medida
No tempo, desfazendo-me em espanto;
E a sensação que sinto ao perceber
Que vou passando, já tem mais de horror
Que tristeza, apavora-me e confrange
E nada evoca nada a não ser o mistério
Que o Tempo tem fechado em sua mão.
Mas a dor é maior!
Com grata saudade tristemente
Estas recordações da juventude!
Já não sinto saudades como há pouco
Inda as sentia. Vai-se-me desmaiando,
Co'a força de pensar, contínuo e árido,
Toda a verdura e flor do pensamento.
Ao recordar agora apenas sinto
Como um cansaço só de ter vivido,
Desconsolado e mudo sentimento
De ter deixado atrás parte de mim,
E saudade de não ter saudade,
Saudade de tempos em que a tinha.
Se a minha infância agora evoco, vejo (
Estranho! — como uma outra criatura
Que me era amiga, numa vaga
Objectivada subjectividade.
Ora a infância me lembra como um sonho,
Ora a uma distância sem medida
No tempo, desfazendo-me em espanto;
E a sensação que sinto ao perceber
Que vou passando, já tem mais de horror
Que tristeza, apavora-me e confrange
E nada evoca nada a não ser o mistério
Que o Tempo tem fechado em sua mão.
Mas a dor é maior!
1 148
Fernando Pessoa
Chove fogo — ouro de barulho estruge...
Chove fogo — ouro de barulho estruge...
"Hela-hohô-ô (ô)...
Z — zz Sher Rr to go. Shabababulá...
[...]
ESPAÇO...
Tudo se apaga como uma grande lâmpada eléctrica que se funde...
Vem do fundo do mundo
Vem do horizonte mudo, confuso do mundo,
Sussurro surdo, escuro, murmúrio
De uma cavalgada que dura, que dura furiosa no ouvido,
Inúmera cavalgada vem...
Vêm do fundo do mundo confuso
Vêm do abismo do espaço nocturno...
À pressa, negros, rápidos, de repente surdem...
Súbito outra vez tremem...
Oscilam no ruído que tem rasto no escuro...
Inúmera cavalgada... Quem?
Vem apertada nos passos confusos
Vem apertada nos ruídos dispersos,
Vem aclamada nos ruídos mudos
Vem apertada nos ruídos confusos,
Vem apertada, vem apertada, vem apertada
Todo o horizonte está cheio por dentro de um grito absurdo
Helahôhô...
Helahôhô...
"Hela-hohô-ô (ô)...
Z — zz Sher Rr to go. Shabababulá...
[...]
ESPAÇO...
Tudo se apaga como uma grande lâmpada eléctrica que se funde...
Vem do fundo do mundo
Vem do horizonte mudo, confuso do mundo,
Sussurro surdo, escuro, murmúrio
De uma cavalgada que dura, que dura furiosa no ouvido,
Inúmera cavalgada vem...
Vêm do fundo do mundo confuso
Vêm do abismo do espaço nocturno...
À pressa, negros, rápidos, de repente surdem...
Súbito outra vez tremem...
Oscilam no ruído que tem rasto no escuro...
Inúmera cavalgada... Quem?
Vem apertada nos passos confusos
Vem apertada nos ruídos dispersos,
Vem aclamada nos ruídos mudos
Vem apertada nos ruídos confusos,
Vem apertada, vem apertada, vem apertada
Todo o horizonte está cheio por dentro de um grito absurdo
Helahôhô...
Helahôhô...
862
Fernando Pessoa
Fantasma sem lugar, que a minha mente
Fantasmas sem lugar, que a minha mente
Figura no visível, sombras minhas
Do diálogo comigo.
Figura no visível, sombras minhas
Do diálogo comigo.
1 626
Fernando Pessoa
FRATERNITY?
I have no reason to love mankind,
Nor, alas! mankind one to love me;
To all its vileness I am not blind,
And all vileness it well can see.
If my hatred in words ne'er wreak
I know, as none do, ununderstood
It is of all men; were I to speak,
As unknown of them remain it would.
So, all in instinct, a mutual hate,
Hid under smiling, we bear each other.
All mankind's kindness well I can rate;
And I hate each man, and call him brother'.
Nor, alas! mankind one to love me;
To all its vileness I am not blind,
And all vileness it well can see.
If my hatred in words ne'er wreak
I know, as none do, ununderstood
It is of all men; were I to speak,
As unknown of them remain it would.
So, all in instinct, a mutual hate,
Hid under smiling, we bear each other.
All mankind's kindness well I can rate;
And I hate each man, and call him brother'.
1 523
Fernando Pessoa
FRATERNITY?
I have no reason to love mankind,
Nor, alas! mankind one to love me;
To all its vileness I am not blind,
And all vileness it well can see.
If my hatred in words ne'er wreak
I know, as none do, ununderstood
It is of all men; were I to speak,
As unknown of them remain it would.
So, all in instinct, a mutual hate,
Hid under smiling, we bear each other.
All mankind's kindness well I can rate;
And I hate each man, and call him brother'.
Nor, alas! mankind one to love me;
To all its vileness I am not blind,
And all vileness it well can see.
If my hatred in words ne'er wreak
I know, as none do, ununderstood
It is of all men; were I to speak,
As unknown of them remain it would.
So, all in instinct, a mutual hate,
Hid under smiling, we bear each other.
All mankind's kindness well I can rate;
And I hate each man, and call him brother'.
1 523
Fernando Pessoa
FRATERNITY?
I have no reason to love mankind,
Nor, alas! mankind one to love me;
To all its vileness I am not blind,
And all vileness it well can see.
If my hatred in words ne'er wreak
I know, as none do, ununderstood
It is of all men; were I to speak,
As unknown of them remain it would.
So, all in instinct, a mutual hate,
Hid under smiling, we bear each other.
All mankind's kindness well I can rate;
And I hate each man, and call him brother'.
Nor, alas! mankind one to love me;
To all its vileness I am not blind,
And all vileness it well can see.
If my hatred in words ne'er wreak
I know, as none do, ununderstood
It is of all men; were I to speak,
As unknown of them remain it would.
So, all in instinct, a mutual hate,
Hid under smiling, we bear each other.
All mankind's kindness well I can rate;
And I hate each man, and call him brother'.
1 523
Fernando Pessoa
EPIGRAMS - I
And so they whisper about us -
About me and about you?
And so they whisper about us?
Let us give them reason to!
About me and about you?
And so they whisper about us?
Let us give them reason to!
1 315
Fernando Pessoa
EPIGRAMS - I
And so they whisper about us -
About me and about you?
And so they whisper about us?
Let us give them reason to!
About me and about you?
And so they whisper about us?
Let us give them reason to!
1 315
Fernando Pessoa
O inexplicável horror
O inexplicável horror
De saber que esta vida é verdadeira,
Que é uma cousa real, que é [como um] ser
Em todo o seu mistério [...]
Realmente real.
De saber que esta vida é verdadeira,
Que é uma cousa real, que é [como um] ser
Em todo o seu mistério [...]
Realmente real.
2 223
Fernando Pessoa
THE GAME
Come, let us play a game, little boy,
To while the world away.
What shall be - tell me - our harmless toy?
At what shall we play?
Shall we play - shall we? - at being great?
No, nor at being grand
Shall we believe that we are Fate
And make up lives out of sand?
No, little boy, we will play that we are
Happy, and that we are gay;
Let us pretend we are dreams, very far
From the world in which we play.
To while the world away.
What shall be - tell me - our harmless toy?
At what shall we play?
Shall we play - shall we? - at being great?
No, nor at being grand
Shall we believe that we are Fate
And make up lives out of sand?
No, little boy, we will play that we are
Happy, and that we are gay;
Let us pretend we are dreams, very far
From the world in which we play.
1 554
Fernando Pessoa
THE GAME
Come, let us play a game, little boy,
To while the world away.
What shall be - tell me - our harmless toy?
At what shall we play?
Shall we play - shall we? - at being great?
No, nor at being grand
Shall we believe that we are Fate
And make up lives out of sand?
No, little boy, we will play that we are
Happy, and that we are gay;
Let us pretend we are dreams, very far
From the world in which we play.
To while the world away.
What shall be - tell me - our harmless toy?
At what shall we play?
Shall we play - shall we? - at being great?
No, nor at being grand
Shall we believe that we are Fate
And make up lives out of sand?
No, little boy, we will play that we are
Happy, and that we are gay;
Let us pretend we are dreams, very far
From the world in which we play.
1 554
Fernando Pessoa
VI - O maestro sacode a batuta,
VI
O maestro sacode a batuta,
E lânguida e triste a música rompe...
Lembra-me a minha infância, aquele dia
Em que eu brincava ao pé dum muro de quintal
Atirando-lhe com uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum cão verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo,
Prossegue a música, e eis na minha infância
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo...
Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância
Está em todos os lugares, e a bola vem a tocar música,
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão verde tornando-se jockey amarelo...
(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos...)
Atiro-a de encontro à minha infância e ela
Atravessa o teatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarelo e um cão verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal... E a música atira com bolas
À minha infância... E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos..,
Todo o teatro é um muro branco de música
Por onde um cão verde corre atrás da minha saudade
Da minha infância, cavalo azul com um jockey amarelo...
E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,
Donde há árvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orquestras a tocar música,
Para onde há filas de bolas na loja onde a comprei
E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância...
E a música cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,
Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo...
O maestro sacode a batuta,
E lânguida e triste a música rompe...
Lembra-me a minha infância, aquele dia
Em que eu brincava ao pé dum muro de quintal
Atirando-lhe com uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum cão verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo,
Prossegue a música, e eis na minha infância
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo...
Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância
Está em todos os lugares, e a bola vem a tocar música,
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão verde tornando-se jockey amarelo...
(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos...)
Atiro-a de encontro à minha infância e ela
Atravessa o teatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarelo e um cão verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal... E a música atira com bolas
À minha infância... E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos..,
Todo o teatro é um muro branco de música
Por onde um cão verde corre atrás da minha saudade
Da minha infância, cavalo azul com um jockey amarelo...
E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,
Donde há árvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orquestras a tocar música,
Para onde há filas de bolas na loja onde a comprei
E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância...
E a música cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,
Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo...
1 468
Fernando Pessoa
Eu quisera poder abrir a mão
Eu quisera poder abrir a mão
E deixar-te cair. Atrais-me estranho
E vago horror, tu líquido que podes
Adormecer-me na loucura e (...)
E deixar-te cair. Atrais-me estranho
E vago horror, tu líquido que podes
Adormecer-me na loucura e (...)
1 483
Fernando Pessoa
Eu quisera poder abrir a mão
Eu quisera poder abrir a mão
E deixar-te cair. Atrais-me estranho
E vago horror, tu líquido que podes
Adormecer-me na loucura e (...)
E deixar-te cair. Atrais-me estranho
E vago horror, tu líquido que podes
Adormecer-me na loucura e (...)
1 483
Fernando Pessoa
ENDINGS
Farewells, departures, goings - these are most sad:
They are endings, dissolutions; they drive sentiment mad.
Even the fall of priests, of tyrants, of slaves and of kings
Has the bitterness and the sadness of the finishing of things.
They are endings, dissolutions; they drive sentiment mad.
Even the fall of priests, of tyrants, of slaves and of kings
Has the bitterness and the sadness of the finishing of things.
1 590
Fernando Pessoa
Tudo é mistério para mim que o é...
Tudo é mistério para mim que o é...
A luz do sol: o mistério feito brilho,
Canto d'ave: o mistério feito voz
Entristecem-me pois. Só uma cousa
Uma vez descoberta não se evita
Nem evitar se pode: é o mistério
E o seu íntimo e (...) horror
O horror nitidamente negro e abismado.
A luz do sol: o mistério feito brilho,
Canto d'ave: o mistério feito voz
Entristecem-me pois. Só uma cousa
Uma vez descoberta não se evita
Nem evitar se pode: é o mistério
E o seu íntimo e (...) horror
O horror nitidamente negro e abismado.
1 318
Fernando Pessoa
Tudo é mistério para mim que o é...
Tudo é mistério para mim que o é...
A luz do sol: o mistério feito brilho,
Canto d'ave: o mistério feito voz
Entristecem-me pois. Só uma cousa
Uma vez descoberta não se evita
Nem evitar se pode: é o mistério
E o seu íntimo e (...) horror
O horror nitidamente negro e abismado.
A luz do sol: o mistério feito brilho,
Canto d'ave: o mistério feito voz
Entristecem-me pois. Só uma cousa
Uma vez descoberta não se evita
Nem evitar se pode: é o mistério
E o seu íntimo e (...) horror
O horror nitidamente negro e abismado.
1 318
Fernando Pessoa
E o sentimento de que a vida passa
E o sentimento de que a vida passa
E o senti-la a passar
Toma em mim tal intensidade
De desolado e confrangido horror
Que a esse próprio horror, horror eu tenho,
Por ele e por senti-lo, e por senti-lo
Como tal.
Feliz a humanidade que, a não ser
Em momentos febris e desolados,
Não sente o esvair da existência
(E há quem a sinta com tristeza imensa)
Mas eu... eu não a sinto fugir-me,
Penso-a a fugir-me e em lugar de tristeza
Só esse horror é meu, silente e fundo.
E o senti-la a passar
Toma em mim tal intensidade
De desolado e confrangido horror
Que a esse próprio horror, horror eu tenho,
Por ele e por senti-lo, e por senti-lo
Como tal.
Feliz a humanidade que, a não ser
Em momentos febris e desolados,
Não sente o esvair da existência
(E há quem a sinta com tristeza imensa)
Mas eu... eu não a sinto fugir-me,
Penso-a a fugir-me e em lugar de tristeza
Só esse horror é meu, silente e fundo.
1 433
Fernando Pessoa
E o sentimento de que a vida passa
E o sentimento de que a vida passa
E o senti-la a passar
Toma em mim tal intensidade
De desolado e confrangido horror
Que a esse próprio horror, horror eu tenho,
Por ele e por senti-lo, e por senti-lo
Como tal.
Feliz a humanidade que, a não ser
Em momentos febris e desolados,
Não sente o esvair da existência
(E há quem a sinta com tristeza imensa)
Mas eu... eu não a sinto fugir-me,
Penso-a a fugir-me e em lugar de tristeza
Só esse horror é meu, silente e fundo.
E o senti-la a passar
Toma em mim tal intensidade
De desolado e confrangido horror
Que a esse próprio horror, horror eu tenho,
Por ele e por senti-lo, e por senti-lo
Como tal.
Feliz a humanidade que, a não ser
Em momentos febris e desolados,
Não sente o esvair da existência
(E há quem a sinta com tristeza imensa)
Mas eu... eu não a sinto fugir-me,
Penso-a a fugir-me e em lugar de tristeza
Só esse horror é meu, silente e fundo.
1 433
Fernando Pessoa
PRIMEIRA VOZ: Que forma velada
Que forma velada
Que oculto esplendor
De longe me agrada?
Nem forma, nem cor...
Só o vago palor
De chama azulada
Quem diz que não seja
A forma o que tem,
O que só se deseja
E nunca se obtém...
A sombra do bem
Que em sonhos se almeja?
Oh, paira distante,
Sê sempre ilusão
Teu vulto levante
Minha dor do chão
E o meu coração
Não mais desencante!
Oh paira distante
E incerto, flutuante,
Ondeia fragrante
Teu vulto, visão,
O meu coração
Não mais desencante!
SEGUNDA [voz]:
Quem fez pairar por sobre a vida
A aura alada, névoa incerta
Que dá a dor esperança e à vida
A brisa, a (...) e a aberta?
Nunca eu te conheça,
Incerteza, afago...
Silêncio, começa
Onde eu me embriago.
Nunca eu te adivinhe
Anseio, visão,
Sonho que acarinhe
O meu coração.
Mar alto, não deixes
O barco voltar...
Meus olhos não feches
Deixa-me sonhar
Que oculto esplendor
De longe me agrada?
Nem forma, nem cor...
Só o vago palor
De chama azulada
Quem diz que não seja
A forma o que tem,
O que só se deseja
E nunca se obtém...
A sombra do bem
Que em sonhos se almeja?
Oh, paira distante,
Sê sempre ilusão
Teu vulto levante
Minha dor do chão
E o meu coração
Não mais desencante!
Oh paira distante
E incerto, flutuante,
Ondeia fragrante
Teu vulto, visão,
O meu coração
Não mais desencante!
SEGUNDA [voz]:
Quem fez pairar por sobre a vida
A aura alada, névoa incerta
Que dá a dor esperança e à vida
A brisa, a (...) e a aberta?
Nunca eu te conheça,
Incerteza, afago...
Silêncio, começa
Onde eu me embriago.
Nunca eu te adivinhe
Anseio, visão,
Sonho que acarinhe
O meu coração.
Mar alto, não deixes
O barco voltar...
Meus olhos não feches
Deixa-me sonhar
1 546
Fernando Pessoa
PRIMEIRA VOZ: Que forma velada
Que forma velada
Que oculto esplendor
De longe me agrada?
Nem forma, nem cor...
Só o vago palor
De chama azulada
Quem diz que não seja
A forma o que tem,
O que só se deseja
E nunca se obtém...
A sombra do bem
Que em sonhos se almeja?
Oh, paira distante,
Sê sempre ilusão
Teu vulto levante
Minha dor do chão
E o meu coração
Não mais desencante!
Oh paira distante
E incerto, flutuante,
Ondeia fragrante
Teu vulto, visão,
O meu coração
Não mais desencante!
SEGUNDA [voz]:
Quem fez pairar por sobre a vida
A aura alada, névoa incerta
Que dá a dor esperança e à vida
A brisa, a (...) e a aberta?
Nunca eu te conheça,
Incerteza, afago...
Silêncio, começa
Onde eu me embriago.
Nunca eu te adivinhe
Anseio, visão,
Sonho que acarinhe
O meu coração.
Mar alto, não deixes
O barco voltar...
Meus olhos não feches
Deixa-me sonhar
Que oculto esplendor
De longe me agrada?
Nem forma, nem cor...
Só o vago palor
De chama azulada
Quem diz que não seja
A forma o que tem,
O que só se deseja
E nunca se obtém...
A sombra do bem
Que em sonhos se almeja?
Oh, paira distante,
Sê sempre ilusão
Teu vulto levante
Minha dor do chão
E o meu coração
Não mais desencante!
Oh paira distante
E incerto, flutuante,
Ondeia fragrante
Teu vulto, visão,
O meu coração
Não mais desencante!
SEGUNDA [voz]:
Quem fez pairar por sobre a vida
A aura alada, névoa incerta
Que dá a dor esperança e à vida
A brisa, a (...) e a aberta?
Nunca eu te conheça,
Incerteza, afago...
Silêncio, começa
Onde eu me embriago.
Nunca eu te adivinhe
Anseio, visão,
Sonho que acarinhe
O meu coração.
Mar alto, não deixes
O barco voltar...
Meus olhos não feches
Deixa-me sonhar
1 546