Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Fernando Pessoa
Sad lot of all on earth
Sad lot of all on earth,
Sad and lone!
We go to death from birth
Cheerless in laugh or groan;
And the greatest of us that here must sigh
Is but a meteor hurled on high
From the unknown to the unknown.
Sad and lone!
We go to death from birth
Cheerless in laugh or groan;
And the greatest of us that here must sigh
Is but a meteor hurled on high
From the unknown to the unknown.
1 317
Fernando Pessoa
Sad lot of all on earth
Sad lot of all on earth,
Sad and lone!
We go to death from birth
Cheerless in laugh or groan;
And the greatest of us that here must sigh
Is but a meteor hurled on high
From the unknown to the unknown.
Sad and lone!
We go to death from birth
Cheerless in laugh or groan;
And the greatest of us that here must sigh
Is but a meteor hurled on high
From the unknown to the unknown.
1 317
Fernando Pessoa
Cuidas tu, louco Flaco, que apertando [1]
Cuidas tu, louco Flaco, que apertando
Os teus estéreis, trabalhosos dias
Em feixes de hirta lenha,
Cumpres a tua vida?
A tua lenha é só peso que levas
Para onde não tens fogo que aquecer-te,
Nem levam peso ao colo
As sombras que seremos.
Aprende calma com o céu havido
E com o pranto a ter contínuo curso.
Não sigas a clepsidra
Que conta a hora dos outros.
Os teus estéreis, trabalhosos dias
Em feixes de hirta lenha,
Cumpres a tua vida?
A tua lenha é só peso que levas
Para onde não tens fogo que aquecer-te,
Nem levam peso ao colo
As sombras que seremos.
Aprende calma com o céu havido
E com o pranto a ter contínuo curso.
Não sigas a clepsidra
Que conta a hora dos outros.
1 387
Fernando Pessoa
Onde, em jardins exaustos
Onde, em jardins exaustos
Nada já tenha fim,
Forma teus fúteis faustos
De tédio e de cetim.
Meus sonhos são exaustos,
Dorme comigo e em mim.
Nada já tenha fim,
Forma teus fúteis faustos
De tédio e de cetim.
Meus sonhos são exaustos,
Dorme comigo e em mim.
1 046
Fernando Pessoa
Onde, em jardins exaustos
Onde, em jardins exaustos
Nada já tenha fim,
Forma teus fúteis faustos
De tédio e de cetim.
Meus sonhos são exaustos,
Dorme comigo e em mim.
Nada já tenha fim,
Forma teus fúteis faustos
De tédio e de cetim.
Meus sonhos são exaustos,
Dorme comigo e em mim.
1 046
Fernando Pessoa
Onde, em jardins exaustos
Onde, em jardins exaustos
Nada já tenha fim,
Forma teus fúteis faustos
De tédio e de cetim.
Meus sonhos são exaustos,
Dorme comigo e em mim.
Nada já tenha fim,
Forma teus fúteis faustos
De tédio e de cetim.
Meus sonhos são exaustos,
Dorme comigo e em mim.
1 046
Fernando Pessoa
É o maior horror da alma
É o maior horror da alma
Ver claro em pensamento que é profundo
Ver o Terror Supremo! a ambição
De morrer p'ra não pensar, já não
Por duvidar — mas — oh maior horror!
Por ver, por ver, por ver!
Ver claro em pensamento que é profundo
Ver o Terror Supremo! a ambição
De morrer p'ra não pensar, já não
Por duvidar — mas — oh maior horror!
Por ver, por ver, por ver!
1 510
Fernando Pessoa
É o maior horror da alma
É o maior horror da alma
Ver claro em pensamento que é profundo
Ver o Terror Supremo! a ambição
De morrer p'ra não pensar, já não
Por duvidar — mas — oh maior horror!
Por ver, por ver, por ver!
Ver claro em pensamento que é profundo
Ver o Terror Supremo! a ambição
De morrer p'ra não pensar, já não
Por duvidar — mas — oh maior horror!
Por ver, por ver, por ver!
1 510
Fernando Pessoa
É o maior horror da alma
É o maior horror da alma
Ver claro em pensamento que é profundo
Ver o Terror Supremo! a ambição
De morrer p'ra não pensar, já não
Por duvidar — mas — oh maior horror!
Por ver, por ver, por ver!
Ver claro em pensamento que é profundo
Ver o Terror Supremo! a ambição
De morrer p'ra não pensar, já não
Por duvidar — mas — oh maior horror!
Por ver, por ver, por ver!
1 510
Fernando Pessoa
A MORTE: Em mim acaba
Em mim acaba
Mudo, profundo
Como ruína que desaba
Tudo o que vive e sente o mundo.
A humanidade cujo rir
É um esquecimento fundo
Sabe, sem o analisar,
Que em mim naufraga o sentir
Nos rochedos do pensar.
Mudo, profundo
Como ruína que desaba
Tudo o que vive e sente o mundo.
A humanidade cujo rir
É um esquecimento fundo
Sabe, sem o analisar,
Que em mim naufraga o sentir
Nos rochedos do pensar.
1 553
Fernando Pessoa
A MORTE: Em mim acaba
Em mim acaba
Mudo, profundo
Como ruína que desaba
Tudo o que vive e sente o mundo.
A humanidade cujo rir
É um esquecimento fundo
Sabe, sem o analisar,
Que em mim naufraga o sentir
Nos rochedos do pensar.
Mudo, profundo
Como ruína que desaba
Tudo o que vive e sente o mundo.
A humanidade cujo rir
É um esquecimento fundo
Sabe, sem o analisar,
Que em mim naufraga o sentir
Nos rochedos do pensar.
1 553
Fernando Pessoa
Estou doente. Meus pensamentos começam a estar confusos,
Estou doente. Meus pensamentos começam a estar confusos,
Mas o meu corpo, tocando nas coisas, entra nelas.
Sinto-me parte das coisas com o tacto
E urna grande libertação começa a fazer-se em mim,
Uma grande alegria solene como a de um acto heróico
Pondo a vis no gesto sóbrio e escondido.
Mas o meu corpo, tocando nas coisas, entra nelas.
Sinto-me parte das coisas com o tacto
E urna grande libertação começa a fazer-se em mim,
Uma grande alegria solene como a de um acto heróico
Pondo a vis no gesto sóbrio e escondido.
1 660
Fernando Pessoa
EPIGRAM - Ah, foolish girl with a many fancy fraught,
Ah, foolish girl with many a fancy fraught,
Seek not the dreary path of solemn thought.
The man who thinks is he that suffers worst,
By Nature blest, by everything accurst.
Thought is but madness to one thing confined,
A pleasing illness, woeful, undefined;
Pleasing as is the fury of the storm
That swings above its dangerous force enorm;
Pleasing as genius to which one must know
Death will not spare the dreadful, sudden blow;
Of body, soul and happiness the waster,
Thought's a good servant but a tyrannous master.
Leave then to madmen thought and pass thy life
Away from doubt and ceaseless mental strife;
Seek but to please and cherish but to scorn,
Love not with faith or thou must learn to mourn;
Be thy delight in silks and baubles gay,
Treat tears as feints and think life but a play;
Think with thy heart, reserve thy mind to scheme;
Let thine eyes practise an (unreal) dream:
Thy form to attract, thy voice not to repel;
The art of slander see than learn full well;
Try to please women as thou pleasest men...
Thou may'st succeed... and may I live till then.
Seek not the dreary path of solemn thought.
The man who thinks is he that suffers worst,
By Nature blest, by everything accurst.
Thought is but madness to one thing confined,
A pleasing illness, woeful, undefined;
Pleasing as is the fury of the storm
That swings above its dangerous force enorm;
Pleasing as genius to which one must know
Death will not spare the dreadful, sudden blow;
Of body, soul and happiness the waster,
Thought's a good servant but a tyrannous master.
Leave then to madmen thought and pass thy life
Away from doubt and ceaseless mental strife;
Seek but to please and cherish but to scorn,
Love not with faith or thou must learn to mourn;
Be thy delight in silks and baubles gay,
Treat tears as feints and think life but a play;
Think with thy heart, reserve thy mind to scheme;
Let thine eyes practise an (unreal) dream:
Thy form to attract, thy voice not to repel;
The art of slander see than learn full well;
Try to please women as thou pleasest men...
Thou may'st succeed... and may I live till then.
1 418
Fernando Pessoa
EPIGRAM - Ah, foolish girl with a many fancy fraught,
Ah, foolish girl with many a fancy fraught,
Seek not the dreary path of solemn thought.
The man who thinks is he that suffers worst,
By Nature blest, by everything accurst.
Thought is but madness to one thing confined,
A pleasing illness, woeful, undefined;
Pleasing as is the fury of the storm
That swings above its dangerous force enorm;
Pleasing as genius to which one must know
Death will not spare the dreadful, sudden blow;
Of body, soul and happiness the waster,
Thought's a good servant but a tyrannous master.
Leave then to madmen thought and pass thy life
Away from doubt and ceaseless mental strife;
Seek but to please and cherish but to scorn,
Love not with faith or thou must learn to mourn;
Be thy delight in silks and baubles gay,
Treat tears as feints and think life but a play;
Think with thy heart, reserve thy mind to scheme;
Let thine eyes practise an (unreal) dream:
Thy form to attract, thy voice not to repel;
The art of slander see than learn full well;
Try to please women as thou pleasest men...
Thou may'st succeed... and may I live till then.
Seek not the dreary path of solemn thought.
The man who thinks is he that suffers worst,
By Nature blest, by everything accurst.
Thought is but madness to one thing confined,
A pleasing illness, woeful, undefined;
Pleasing as is the fury of the storm
That swings above its dangerous force enorm;
Pleasing as genius to which one must know
Death will not spare the dreadful, sudden blow;
Of body, soul and happiness the waster,
Thought's a good servant but a tyrannous master.
Leave then to madmen thought and pass thy life
Away from doubt and ceaseless mental strife;
Seek but to please and cherish but to scorn,
Love not with faith or thou must learn to mourn;
Be thy delight in silks and baubles gay,
Treat tears as feints and think life but a play;
Think with thy heart, reserve thy mind to scheme;
Let thine eyes practise an (unreal) dream:
Thy form to attract, thy voice not to repel;
The art of slander see than learn full well;
Try to please women as thou pleasest men...
Thou may'st succeed... and may I live till then.
1 418
Fernando Pessoa
Quando acorda p'ra vida o pensamento
Quando acorda p'ra vida o pensamento
E sente a luz e (...) do existir
Diz «Tudo é bom». Depois, exausto já
O que ao ser a novidade (...)
Exausta a variedade invariável
Da vida, diz (...) «tudo é mau».
Mas, acordando mais o raciocínio,
Pensa que mal é o nome universal
Do limitado que se sente
Limitado, e diz «tudo é limitado
E porque é limitado é tudo mau»
E então como (...) uma esperança
Nasce, de que outra vida possa vir
E fazer esquecer ou relembrar
Em loucas transcendências esta vida,
[...]
Mas se além vai o duro pensamento,
Se mais pensa e mais (...)
Vê que o mundo, o universo, enfim o Ser
Transcende na sua essência incognoscível
(Única essência, pois o ser é o ser)
Bem e mal, limitado e ilimitado.
E quanto o pensamento assoberbado
Aqui chega e enfim se reconhece
À verdade chegado, vê que a orla
Da terra do pensar é procurar
Ter um mar que (...) não navegue.
A verdade esta é e eu a achei.
Achei-a, não a achando; conheci-a,
Reconhecendo-a sempre incognoscível,
Não vulgarmente, com a isenção
Do filósofo cinto em (...)
Mas pensei-a sentindo-a, e assim estou,
De ter chegado aqui pávido e mudo,
Orgulhoso de ter chegado aqui,
E orgulhoso e irado de não poder
Manifestar (que palavras não o dizem)
Aos homens o que sinto e o que penso
E até onde penso e onde sinto.
Nesta desolação de pensamento
Minha alma rígida reside e sorve
O fel do incognoscíel compreendido
Pelos poros doridos do pensar.
O incognoscível compreendido enfim
E incognoscível sempre. Aqui ninguém
Chega nem chegará.
Orgulho vão.
A que vens? Não sei eu o que tu és?
E sente a luz e (...) do existir
Diz «Tudo é bom». Depois, exausto já
O que ao ser a novidade (...)
Exausta a variedade invariável
Da vida, diz (...) «tudo é mau».
Mas, acordando mais o raciocínio,
Pensa que mal é o nome universal
Do limitado que se sente
Limitado, e diz «tudo é limitado
E porque é limitado é tudo mau»
E então como (...) uma esperança
Nasce, de que outra vida possa vir
E fazer esquecer ou relembrar
Em loucas transcendências esta vida,
[...]
Mas se além vai o duro pensamento,
Se mais pensa e mais (...)
Vê que o mundo, o universo, enfim o Ser
Transcende na sua essência incognoscível
(Única essência, pois o ser é o ser)
Bem e mal, limitado e ilimitado.
E quanto o pensamento assoberbado
Aqui chega e enfim se reconhece
À verdade chegado, vê que a orla
Da terra do pensar é procurar
Ter um mar que (...) não navegue.
A verdade esta é e eu a achei.
Achei-a, não a achando; conheci-a,
Reconhecendo-a sempre incognoscível,
Não vulgarmente, com a isenção
Do filósofo cinto em (...)
Mas pensei-a sentindo-a, e assim estou,
De ter chegado aqui pávido e mudo,
Orgulhoso de ter chegado aqui,
E orgulhoso e irado de não poder
Manifestar (que palavras não o dizem)
Aos homens o que sinto e o que penso
E até onde penso e onde sinto.
Nesta desolação de pensamento
Minha alma rígida reside e sorve
O fel do incognoscíel compreendido
Pelos poros doridos do pensar.
O incognoscível compreendido enfim
E incognoscível sempre. Aqui ninguém
Chega nem chegará.
Orgulho vão.
A que vens? Não sei eu o que tu és?
1 182
Fernando Pessoa
SÁ CARNEIRO
Nesse número do Orpheu que há-de ser feito
Com rosas e estrelas em um mundo novo.
Nunca supus que isto que chamam morte
Tivesse qualquer espécie de sentido...
Cada um de nós, aqui aparecido,
Onde manda a lei e a falsa sorte,
Tem só uma demora de passagem
Entre um comboio e outro, entroncamento
Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento;
Mas, seja como for, segue a viagem.
Passei, embora num comboio expresso
Seguisses, e adiante do em que vou;
No términus de tudo, ao fim lá estou
Nessa ida que afinal é um regresso.
Porque na enorme gare onde Deus manda
Grandes acolhimentos se darão
Para cada prolixo coração
Que com seu próprio ser vive em demanda.
Hoje, falho de ti, sou dois a sós.
Há almas pares, as que conheceram
Onde os seres são almas.
Como éramos só um, falando! Nós
Éramos como um diálogo numa alma.
Não sei se dormes [...] calma,
Sei que, falho de ti, estou um a sós.
É como se esperasse eternamente
A tua vida certa e conhecida
Aí em baixo, no café Arcada —
Quase no extremo deste [...]
Aí onde escreveste aqueles versos
Do trapézio, doriu-nos [...]
Aquilo tudo que dizes no «Orpheu».
Ah, meu maior amigo, nunca mais
Na paisagem sepulta desta vida
Encontrarei uma alma tão querida
Às coisas que em meu ser são as reais.
[...]
Não mais, não mais, e desde que saíste
Desta prisão fechada que é o mundo,
Meu coração é inerte e infecundo
E o que sou é um sonho que está triste.
Porque há em nós, por mais que consigamos
Ser nós mesmos a sós sem nostalgia,
Um desejo de termos companhia —
O amigo como esse que a falar amamos.
Com rosas e estrelas em um mundo novo.
Nunca supus que isto que chamam morte
Tivesse qualquer espécie de sentido...
Cada um de nós, aqui aparecido,
Onde manda a lei e a falsa sorte,
Tem só uma demora de passagem
Entre um comboio e outro, entroncamento
Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento;
Mas, seja como for, segue a viagem.
Passei, embora num comboio expresso
Seguisses, e adiante do em que vou;
No términus de tudo, ao fim lá estou
Nessa ida que afinal é um regresso.
Porque na enorme gare onde Deus manda
Grandes acolhimentos se darão
Para cada prolixo coração
Que com seu próprio ser vive em demanda.
Hoje, falho de ti, sou dois a sós.
Há almas pares, as que conheceram
Onde os seres são almas.
Como éramos só um, falando! Nós
Éramos como um diálogo numa alma.
Não sei se dormes [...] calma,
Sei que, falho de ti, estou um a sós.
É como se esperasse eternamente
A tua vida certa e conhecida
Aí em baixo, no café Arcada —
Quase no extremo deste [...]
Aí onde escreveste aqueles versos
Do trapézio, doriu-nos [...]
Aquilo tudo que dizes no «Orpheu».
Ah, meu maior amigo, nunca mais
Na paisagem sepulta desta vida
Encontrarei uma alma tão querida
Às coisas que em meu ser são as reais.
[...]
Não mais, não mais, e desde que saíste
Desta prisão fechada que é o mundo,
Meu coração é inerte e infecundo
E o que sou é um sonho que está triste.
Porque há em nós, por mais que consigamos
Ser nós mesmos a sós sem nostalgia,
Um desejo de termos companhia —
O amigo como esse que a falar amamos.
1 596
Fernando Pessoa
SÁ CARNEIRO
Nesse número do Orpheu que há-de ser feito
Com rosas e estrelas em um mundo novo.
Nunca supus que isto que chamam morte
Tivesse qualquer espécie de sentido...
Cada um de nós, aqui aparecido,
Onde manda a lei e a falsa sorte,
Tem só uma demora de passagem
Entre um comboio e outro, entroncamento
Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento;
Mas, seja como for, segue a viagem.
Passei, embora num comboio expresso
Seguisses, e adiante do em que vou;
No términus de tudo, ao fim lá estou
Nessa ida que afinal é um regresso.
Porque na enorme gare onde Deus manda
Grandes acolhimentos se darão
Para cada prolixo coração
Que com seu próprio ser vive em demanda.
Hoje, falho de ti, sou dois a sós.
Há almas pares, as que conheceram
Onde os seres são almas.
Como éramos só um, falando! Nós
Éramos como um diálogo numa alma.
Não sei se dormes [...] calma,
Sei que, falho de ti, estou um a sós.
É como se esperasse eternamente
A tua vida certa e conhecida
Aí em baixo, no café Arcada —
Quase no extremo deste [...]
Aí onde escreveste aqueles versos
Do trapézio, doriu-nos [...]
Aquilo tudo que dizes no «Orpheu».
Ah, meu maior amigo, nunca mais
Na paisagem sepulta desta vida
Encontrarei uma alma tão querida
Às coisas que em meu ser são as reais.
[...]
Não mais, não mais, e desde que saíste
Desta prisão fechada que é o mundo,
Meu coração é inerte e infecundo
E o que sou é um sonho que está triste.
Porque há em nós, por mais que consigamos
Ser nós mesmos a sós sem nostalgia,
Um desejo de termos companhia —
O amigo como esse que a falar amamos.
Com rosas e estrelas em um mundo novo.
Nunca supus que isto que chamam morte
Tivesse qualquer espécie de sentido...
Cada um de nós, aqui aparecido,
Onde manda a lei e a falsa sorte,
Tem só uma demora de passagem
Entre um comboio e outro, entroncamento
Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento;
Mas, seja como for, segue a viagem.
Passei, embora num comboio expresso
Seguisses, e adiante do em que vou;
No términus de tudo, ao fim lá estou
Nessa ida que afinal é um regresso.
Porque na enorme gare onde Deus manda
Grandes acolhimentos se darão
Para cada prolixo coração
Que com seu próprio ser vive em demanda.
Hoje, falho de ti, sou dois a sós.
Há almas pares, as que conheceram
Onde os seres são almas.
Como éramos só um, falando! Nós
Éramos como um diálogo numa alma.
Não sei se dormes [...] calma,
Sei que, falho de ti, estou um a sós.
É como se esperasse eternamente
A tua vida certa e conhecida
Aí em baixo, no café Arcada —
Quase no extremo deste [...]
Aí onde escreveste aqueles versos
Do trapézio, doriu-nos [...]
Aquilo tudo que dizes no «Orpheu».
Ah, meu maior amigo, nunca mais
Na paisagem sepulta desta vida
Encontrarei uma alma tão querida
Às coisas que em meu ser são as reais.
[...]
Não mais, não mais, e desde que saíste
Desta prisão fechada que é o mundo,
Meu coração é inerte e infecundo
E o que sou é um sonho que está triste.
Porque há em nós, por mais que consigamos
Ser nós mesmos a sós sem nostalgia,
Um desejo de termos companhia —
O amigo como esse que a falar amamos.
1 596
Fernando Pessoa
SÁ CARNEIRO
Nesse número do Orpheu que há-de ser feito
Com rosas e estrelas em um mundo novo.
Nunca supus que isto que chamam morte
Tivesse qualquer espécie de sentido...
Cada um de nós, aqui aparecido,
Onde manda a lei e a falsa sorte,
Tem só uma demora de passagem
Entre um comboio e outro, entroncamento
Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento;
Mas, seja como for, segue a viagem.
Passei, embora num comboio expresso
Seguisses, e adiante do em que vou;
No términus de tudo, ao fim lá estou
Nessa ida que afinal é um regresso.
Porque na enorme gare onde Deus manda
Grandes acolhimentos se darão
Para cada prolixo coração
Que com seu próprio ser vive em demanda.
Hoje, falho de ti, sou dois a sós.
Há almas pares, as que conheceram
Onde os seres são almas.
Como éramos só um, falando! Nós
Éramos como um diálogo numa alma.
Não sei se dormes [...] calma,
Sei que, falho de ti, estou um a sós.
É como se esperasse eternamente
A tua vida certa e conhecida
Aí em baixo, no café Arcada —
Quase no extremo deste [...]
Aí onde escreveste aqueles versos
Do trapézio, doriu-nos [...]
Aquilo tudo que dizes no «Orpheu».
Ah, meu maior amigo, nunca mais
Na paisagem sepulta desta vida
Encontrarei uma alma tão querida
Às coisas que em meu ser são as reais.
[...]
Não mais, não mais, e desde que saíste
Desta prisão fechada que é o mundo,
Meu coração é inerte e infecundo
E o que sou é um sonho que está triste.
Porque há em nós, por mais que consigamos
Ser nós mesmos a sós sem nostalgia,
Um desejo de termos companhia —
O amigo como esse que a falar amamos.
Com rosas e estrelas em um mundo novo.
Nunca supus que isto que chamam morte
Tivesse qualquer espécie de sentido...
Cada um de nós, aqui aparecido,
Onde manda a lei e a falsa sorte,
Tem só uma demora de passagem
Entre um comboio e outro, entroncamento
Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento;
Mas, seja como for, segue a viagem.
Passei, embora num comboio expresso
Seguisses, e adiante do em que vou;
No términus de tudo, ao fim lá estou
Nessa ida que afinal é um regresso.
Porque na enorme gare onde Deus manda
Grandes acolhimentos se darão
Para cada prolixo coração
Que com seu próprio ser vive em demanda.
Hoje, falho de ti, sou dois a sós.
Há almas pares, as que conheceram
Onde os seres são almas.
Como éramos só um, falando! Nós
Éramos como um diálogo numa alma.
Não sei se dormes [...] calma,
Sei que, falho de ti, estou um a sós.
É como se esperasse eternamente
A tua vida certa e conhecida
Aí em baixo, no café Arcada —
Quase no extremo deste [...]
Aí onde escreveste aqueles versos
Do trapézio, doriu-nos [...]
Aquilo tudo que dizes no «Orpheu».
Ah, meu maior amigo, nunca mais
Na paisagem sepulta desta vida
Encontrarei uma alma tão querida
Às coisas que em meu ser são as reais.
[...]
Não mais, não mais, e desde que saíste
Desta prisão fechada que é o mundo,
Meu coração é inerte e infecundo
E o que sou é um sonho que está triste.
Porque há em nós, por mais que consigamos
Ser nós mesmos a sós sem nostalgia,
Um desejo de termos companhia —
O amigo como esse que a falar amamos.
1 596
Fernando Pessoa
SÁ CARNEIRO
Nesse número do Orpheu que há-de ser feito
Com rosas e estrelas em um mundo novo.
Nunca supus que isto que chamam morte
Tivesse qualquer espécie de sentido...
Cada um de nós, aqui aparecido,
Onde manda a lei e a falsa sorte,
Tem só uma demora de passagem
Entre um comboio e outro, entroncamento
Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento;
Mas, seja como for, segue a viagem.
Passei, embora num comboio expresso
Seguisses, e adiante do em que vou;
No términus de tudo, ao fim lá estou
Nessa ida que afinal é um regresso.
Porque na enorme gare onde Deus manda
Grandes acolhimentos se darão
Para cada prolixo coração
Que com seu próprio ser vive em demanda.
Hoje, falho de ti, sou dois a sós.
Há almas pares, as que conheceram
Onde os seres são almas.
Como éramos só um, falando! Nós
Éramos como um diálogo numa alma.
Não sei se dormes [...] calma,
Sei que, falho de ti, estou um a sós.
É como se esperasse eternamente
A tua vida certa e conhecida
Aí em baixo, no café Arcada —
Quase no extremo deste [...]
Aí onde escreveste aqueles versos
Do trapézio, doriu-nos [...]
Aquilo tudo que dizes no «Orpheu».
Ah, meu maior amigo, nunca mais
Na paisagem sepulta desta vida
Encontrarei uma alma tão querida
Às coisas que em meu ser são as reais.
[...]
Não mais, não mais, e desde que saíste
Desta prisão fechada que é o mundo,
Meu coração é inerte e infecundo
E o que sou é um sonho que está triste.
Porque há em nós, por mais que consigamos
Ser nós mesmos a sós sem nostalgia,
Um desejo de termos companhia —
O amigo como esse que a falar amamos.
Com rosas e estrelas em um mundo novo.
Nunca supus que isto que chamam morte
Tivesse qualquer espécie de sentido...
Cada um de nós, aqui aparecido,
Onde manda a lei e a falsa sorte,
Tem só uma demora de passagem
Entre um comboio e outro, entroncamento
Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento;
Mas, seja como for, segue a viagem.
Passei, embora num comboio expresso
Seguisses, e adiante do em que vou;
No términus de tudo, ao fim lá estou
Nessa ida que afinal é um regresso.
Porque na enorme gare onde Deus manda
Grandes acolhimentos se darão
Para cada prolixo coração
Que com seu próprio ser vive em demanda.
Hoje, falho de ti, sou dois a sós.
Há almas pares, as que conheceram
Onde os seres são almas.
Como éramos só um, falando! Nós
Éramos como um diálogo numa alma.
Não sei se dormes [...] calma,
Sei que, falho de ti, estou um a sós.
É como se esperasse eternamente
A tua vida certa e conhecida
Aí em baixo, no café Arcada —
Quase no extremo deste [...]
Aí onde escreveste aqueles versos
Do trapézio, doriu-nos [...]
Aquilo tudo que dizes no «Orpheu».
Ah, meu maior amigo, nunca mais
Na paisagem sepulta desta vida
Encontrarei uma alma tão querida
Às coisas que em meu ser são as reais.
[...]
Não mais, não mais, e desde que saíste
Desta prisão fechada que é o mundo,
Meu coração é inerte e infecundo
E o que sou é um sonho que está triste.
Porque há em nós, por mais que consigamos
Ser nós mesmos a sós sem nostalgia,
Um desejo de termos companhia —
O amigo como esse que a falar amamos.
1 596
Fernando Pessoa
EPITALÂMIO – II - T
Afastai nas janelas a cortina breve
Que menos que à luz a vista só proscreve!
Olhai o vasto campo, como jaz luminoso
Sob o azul poderoso
E limpo, e como aquece numa ardência leve
Que na vista se inscreve!
Já a noiva acordou. Ah como tremer sente
O coração dormente!
Os seios dela arrepanham-se por dentro numa frieza de medo
Mais sentido por crescido nela,
E que serão por outras mãos que não as suas tocados
E terão lábios chupando os bicos em botão.
Ah, ideia das mãos do noivo já
A tocar lá onde as mãos dela tímidas mal tocam,
E os pensamentos contraem-se-lhe até ser indistintos.
Do corpo está consciente mas continua deitada.
Vagamente deixa os olhos sentir que se abrem.
Numa névoa franjada cada coisa
Se ergue, e o dia actual é veramente claro
Menos ao seu sentir de medo.
Como mancha de cor a luz pousa na palpebrada vista
E ela quase detesta a inescapável luz.
Que menos que à luz a vista só proscreve!
Olhai o vasto campo, como jaz luminoso
Sob o azul poderoso
E limpo, e como aquece numa ardência leve
Que na vista se inscreve!
Já a noiva acordou. Ah como tremer sente
O coração dormente!
Os seios dela arrepanham-se por dentro numa frieza de medo
Mais sentido por crescido nela,
E que serão por outras mãos que não as suas tocados
E terão lábios chupando os bicos em botão.
Ah, ideia das mãos do noivo já
A tocar lá onde as mãos dela tímidas mal tocam,
E os pensamentos contraem-se-lhe até ser indistintos.
Do corpo está consciente mas continua deitada.
Vagamente deixa os olhos sentir que se abrem.
Numa névoa franjada cada coisa
Se ergue, e o dia actual é veramente claro
Menos ao seu sentir de medo.
Como mancha de cor a luz pousa na palpebrada vista
E ela quase detesta a inescapável luz.
1 036
Fernando Pessoa
SONNET OF A SCEPTIC
Long ere now Phoebus sunk in western skies
Behind his dreamy hills of tinted rose;
When I in pain my troubled eyelids close
And look upon the world that in me lies.
For in the night the silent river flows,
In darkness hid the bat unheeded flies:
In my soul's night, alas! no calmness lies,
With Nature's night too well my horror grows.
Darkness I hate, for I am like the night,
And yet in me no star, serenely bright,
The clouds of mind and soul so purely clears.
But as night with its pall of shades of old,
Unheard, unseen, l sit in heatless cold,
Enwrapped in my doubts and in my fears.
Behind his dreamy hills of tinted rose;
When I in pain my troubled eyelids close
And look upon the world that in me lies.
For in the night the silent river flows,
In darkness hid the bat unheeded flies:
In my soul's night, alas! no calmness lies,
With Nature's night too well my horror grows.
Darkness I hate, for I am like the night,
And yet in me no star, serenely bright,
The clouds of mind and soul so purely clears.
But as night with its pall of shades of old,
Unheard, unseen, l sit in heatless cold,
Enwrapped in my doubts and in my fears.
1 597
Fernando Pessoa
SONNET OF A SCEPTIC
Long ere now Phoebus sunk in western skies
Behind his dreamy hills of tinted rose;
When I in pain my troubled eyelids close
And look upon the world that in me lies.
For in the night the silent river flows,
In darkness hid the bat unheeded flies:
In my soul's night, alas! no calmness lies,
With Nature's night too well my horror grows.
Darkness I hate, for I am like the night,
And yet in me no star, serenely bright,
The clouds of mind and soul so purely clears.
But as night with its pall of shades of old,
Unheard, unseen, l sit in heatless cold,
Enwrapped in my doubts and in my fears.
Behind his dreamy hills of tinted rose;
When I in pain my troubled eyelids close
And look upon the world that in me lies.
For in the night the silent river flows,
In darkness hid the bat unheeded flies:
In my soul's night, alas! no calmness lies,
With Nature's night too well my horror grows.
Darkness I hate, for I am like the night,
And yet in me no star, serenely bright,
The clouds of mind and soul so purely clears.
But as night with its pall of shades of old,
Unheard, unseen, l sit in heatless cold,
Enwrapped in my doubts and in my fears.
1 597
Fernando Pessoa
SONNET OF A SCEPTIC
Long ere now Phoebus sunk in western skies
Behind his dreamy hills of tinted rose;
When I in pain my troubled eyelids close
And look upon the world that in me lies.
For in the night the silent river flows,
In darkness hid the bat unheeded flies:
In my soul's night, alas! no calmness lies,
With Nature's night too well my horror grows.
Darkness I hate, for I am like the night,
And yet in me no star, serenely bright,
The clouds of mind and soul so purely clears.
But as night with its pall of shades of old,
Unheard, unseen, l sit in heatless cold,
Enwrapped in my doubts and in my fears.
Behind his dreamy hills of tinted rose;
When I in pain my troubled eyelids close
And look upon the world that in me lies.
For in the night the silent river flows,
In darkness hid the bat unheeded flies:
In my soul's night, alas! no calmness lies,
With Nature's night too well my horror grows.
Darkness I hate, for I am like the night,
And yet in me no star, serenely bright,
The clouds of mind and soul so purely clears.
But as night with its pall of shades of old,
Unheard, unseen, l sit in heatless cold,
Enwrapped in my doubts and in my fears.
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Fernando Pessoa
FAUSTO: - Não descreio de Deus, passei p'ra além...
Não descreio de Deus, passei p'ra além...
Um dia, meditando
Uma ideia espontânea e horrorosa
Como um vulto supremo sem ter vulto,
Surgiu no fundo do meu pensamento...
Como a noite corporizada, e o medo
Vestindo-a, e (...)
Apareceu-me Deus em esqueleto...
Tudo despira do seu corpo ideal
Não de infinito só, de inatingível,
Mas mesmo de mais do que inatingível.
Até ao fundo do seu ser abstracto
O meu ser despi, e eu vi o (...)
Esqueleto (...) do Mistério...
O informe tomou forma dentro em mim...
Ah inda hoje, se relembro, sinto
Como um medo no longe, um pavor negro
Não em mim, mas em todo o Universo,
Um arrepio pelas estrelas fora
E um grande horror arrepanhando os céus
Como à humana pele que tem medo...
(treme)
— Isso é um pensamento...
FAUSTO:
Se eu pensei
Isto, se isto me foi possível
É crível que a verdade seja
Mais profunda que o meu pensamento.
Como pensei eu cousas mais profundas
Do que a verdade em si?
Apareceu-me o Universo íntimo
Do misterioso avesso... E eu vi, (...)
O outro lado das cousas, não das cousas
Aparentes apenas, mas o outro
Lado até do Essencial, do Inaparente,
Do além-divino e do Divino em Deus...
Tinha a forma, sensível aos meus olhos
Do espírito, dum imenso céu estrelado.
Mas eu, com nítida visão de dentro,
Via que era infinito, como se visse
Em corpo e forma (...) [...]
E sob o meu olhar apavorado
Vi o nosso sistema do universo
Mais perto... A ideia abstracta e nua,
A vida extrema e última de nós.
O Ser, o ser abstracto e (...)
Era um sol — sol de (...) e seguia
Como da circunferência para o centro
(Não como nós que vemos sempre — e em sonho
É o mesmo (do centro sempre p'ra o espaço,
Real ou suposto nessa circunferência) —
Eu vi, e cada sol e seu sistema
Ia em outros sóis e outros sistemas
Na órbita de sóis mais interiores
(O centro de cuja circunferência
Eu via em infinito para dentro,
Não para fora como infinito mesmo)
E o nosso mundo como um deus nele
Era um mero satélite
De um sol do só primeiro sistema
Raiando a ideia sobre o seu mundo.
Infinito interior ao interior!
Pavorosa agonia do Profundo!
Vacuidade e realidade negra
De tudo!
Um dia, meditando
Uma ideia espontânea e horrorosa
Como um vulto supremo sem ter vulto,
Surgiu no fundo do meu pensamento...
Como a noite corporizada, e o medo
Vestindo-a, e (...)
Apareceu-me Deus em esqueleto...
Tudo despira do seu corpo ideal
Não de infinito só, de inatingível,
Mas mesmo de mais do que inatingível.
Até ao fundo do seu ser abstracto
O meu ser despi, e eu vi o (...)
Esqueleto (...) do Mistério...
O informe tomou forma dentro em mim...
Ah inda hoje, se relembro, sinto
Como um medo no longe, um pavor negro
Não em mim, mas em todo o Universo,
Um arrepio pelas estrelas fora
E um grande horror arrepanhando os céus
Como à humana pele que tem medo...
(treme)
— Isso é um pensamento...
FAUSTO:
Se eu pensei
Isto, se isto me foi possível
É crível que a verdade seja
Mais profunda que o meu pensamento.
Como pensei eu cousas mais profundas
Do que a verdade em si?
Apareceu-me o Universo íntimo
Do misterioso avesso... E eu vi, (...)
O outro lado das cousas, não das cousas
Aparentes apenas, mas o outro
Lado até do Essencial, do Inaparente,
Do além-divino e do Divino em Deus...
Tinha a forma, sensível aos meus olhos
Do espírito, dum imenso céu estrelado.
Mas eu, com nítida visão de dentro,
Via que era infinito, como se visse
Em corpo e forma (...) [...]
E sob o meu olhar apavorado
Vi o nosso sistema do universo
Mais perto... A ideia abstracta e nua,
A vida extrema e última de nós.
O Ser, o ser abstracto e (...)
Era um sol — sol de (...) e seguia
Como da circunferência para o centro
(Não como nós que vemos sempre — e em sonho
É o mesmo (do centro sempre p'ra o espaço,
Real ou suposto nessa circunferência) —
Eu vi, e cada sol e seu sistema
Ia em outros sóis e outros sistemas
Na órbita de sóis mais interiores
(O centro de cuja circunferência
Eu via em infinito para dentro,
Não para fora como infinito mesmo)
E o nosso mundo como um deus nele
Era um mero satélite
De um sol do só primeiro sistema
Raiando a ideia sobre o seu mundo.
Infinito interior ao interior!
Pavorosa agonia do Profundo!
Vacuidade e realidade negra
De tudo!
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