Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Fernando Pessoa
Boca com olhos por cima
Boca com olhos por cima
Ambos a estar a sorrir...
Já sei onde está a rima
Do que não ouso pedir.
Ambos a estar a sorrir...
Já sei onde está a rima
Do que não ouso pedir.
1 403
Fernando Pessoa
Porque o olhar de quem não merece
Porque o olhar de quem não merece
O meu amor para outro olhou,
Uma dor fria me enfurece,
Decido odiar quem me insultou.
Vil dor, vil causa e vil remédio!
Quanto melhor não fora achar-se
No antigo sem-amor, com tédio,
Mas sem dor de que envergonhar-se!
O meu amor para outro olhou,
Uma dor fria me enfurece,
Decido odiar quem me insultou.
Vil dor, vil causa e vil remédio!
Quanto melhor não fora achar-se
No antigo sem-amor, com tédio,
Mas sem dor de que envergonhar-se!
1 533
Fernando Pessoa
No baile em que dançam todos
No baile em que dançam todos
Alguém fica sem dançar.
Melhor é não ir ao baile
Do que estar lá sem lá estar.
Alguém fica sem dançar.
Melhor é não ir ao baile
Do que estar lá sem lá estar.
1 742
Fernando Pessoa
Todos os dias eu penso
Todos os dias eu penso
Naquele gesto engraçado
Com que pegaste no lenço
Que estava esquecido ao lado.
Naquele gesto engraçado
Com que pegaste no lenço
Que estava esquecido ao lado.
1 420
Florbela Espanca
Com a doçura
Com a doçura de urna linda ave
Bateu as asas brancas e voou.
Era meiga, era pura, era suave
Não viveu! Foi um anjo que passou.
Bateu as asas brancas e voou.
Era meiga, era pura, era suave
Não viveu! Foi um anjo que passou.
1 587
Florbela Espanca
Anda o luar
Anda o luar adormecido e triste
Cantando urna canção ás doces águas...
Assim eu ando á tua imagem doce
Cantando a oração das minhas mágoas...
Cantando urna canção ás doces águas...
Assim eu ando á tua imagem doce
Cantando a oração das minhas mágoas...
1 569
Florbela Espanca
Anda o luar
Anda o luar adormecido e triste
Cantando urna canção ás doces águas...
Assim eu ando á tua imagem doce
Cantando a oração das minhas mágoas...
Cantando urna canção ás doces águas...
Assim eu ando á tua imagem doce
Cantando a oração das minhas mágoas...
1 569
Florbela Espanca
Num Postal
Luar! Lírio branco que se esfolha...
Neve, que do céu, anda perdida,
Asas leves d’anjo, que pairando,
Reza pela terra adormecida...
Neve, que do céu, anda perdida,
Asas leves d’anjo, que pairando,
Reza pela terra adormecida...
1 961
Florbela Espanca
Amor eterno farol
Amor — eterno farol!
Que faz, pois, o ser viúva?
As vezes também há sol
Nos tristes dias de chuva!...
Que faz, pois, o ser viúva?
As vezes também há sol
Nos tristes dias de chuva!...
1 620
Florbela Espanca
Que o pequenino Deus
Que o pequenino Deus que na Judeia outrora
Nasceu, trazendo ao mundo a era mais ditosa
Por cada flor roxa que me enviaste agora
Te dê um sonho bom, suave e cor-de-rosa.
Nasceu, trazendo ao mundo a era mais ditosa
Por cada flor roxa que me enviaste agora
Te dê um sonho bom, suave e cor-de-rosa.
1 467
Florbela Espanca
Estudantes
Colegas do passado! Em vossas capas belas
Agoniza o luar das minhas ilusões,
Cantando brandamente ao brilho das estrelas
Um canto todo meu! Altivos corações,
Brilhantes olhos lindos, almas só de luz,
Ó doce riso em flor, bendita mocidade!
Eu lanço sobre vos, da minha humilde cruz,
A benção sacrossanta ungida de Saudade!
Andorinhas do céu que o vento da desgraça
Levou para bem longe! A amargosa taça
Do fel, da desdita ficou pra mim somente!
Aonde estareis vós amigos do outrora?
Rindo, talvez cantando enquanto est’alma chora
Rezando enternecida esta oração dolente!...
Agoniza o luar das minhas ilusões,
Cantando brandamente ao brilho das estrelas
Um canto todo meu! Altivos corações,
Brilhantes olhos lindos, almas só de luz,
Ó doce riso em flor, bendita mocidade!
Eu lanço sobre vos, da minha humilde cruz,
A benção sacrossanta ungida de Saudade!
Andorinhas do céu que o vento da desgraça
Levou para bem longe! A amargosa taça
Do fel, da desdita ficou pra mim somente!
Aonde estareis vós amigos do outrora?
Rindo, talvez cantando enquanto est’alma chora
Rezando enternecida esta oração dolente!...
1 852
Florbela Espanca
Estudantes
Colegas do passado! Em vossas capas belas
Agoniza o luar das minhas ilusões,
Cantando brandamente ao brilho das estrelas
Um canto todo meu! Altivos corações,
Brilhantes olhos lindos, almas só de luz,
Ó doce riso em flor, bendita mocidade!
Eu lanço sobre vos, da minha humilde cruz,
A benção sacrossanta ungida de Saudade!
Andorinhas do céu que o vento da desgraça
Levou para bem longe! A amargosa taça
Do fel, da desdita ficou pra mim somente!
Aonde estareis vós amigos do outrora?
Rindo, talvez cantando enquanto est’alma chora
Rezando enternecida esta oração dolente!...
Agoniza o luar das minhas ilusões,
Cantando brandamente ao brilho das estrelas
Um canto todo meu! Altivos corações,
Brilhantes olhos lindos, almas só de luz,
Ó doce riso em flor, bendita mocidade!
Eu lanço sobre vos, da minha humilde cruz,
A benção sacrossanta ungida de Saudade!
Andorinhas do céu que o vento da desgraça
Levou para bem longe! A amargosa taça
Do fel, da desdita ficou pra mim somente!
Aonde estareis vós amigos do outrora?
Rindo, talvez cantando enquanto est’alma chora
Rezando enternecida esta oração dolente!...
1 852
Florbela Espanca
Estudantes
Colegas do passado! Em vossas capas belas
Agoniza o luar das minhas ilusões,
Cantando brandamente ao brilho das estrelas
Um canto todo meu! Altivos corações,
Brilhantes olhos lindos, almas só de luz,
Ó doce riso em flor, bendita mocidade!
Eu lanço sobre vos, da minha humilde cruz,
A benção sacrossanta ungida de Saudade!
Andorinhas do céu que o vento da desgraça
Levou para bem longe! A amargosa taça
Do fel, da desdita ficou pra mim somente!
Aonde estareis vós amigos do outrora?
Rindo, talvez cantando enquanto est’alma chora
Rezando enternecida esta oração dolente!...
Agoniza o luar das minhas ilusões,
Cantando brandamente ao brilho das estrelas
Um canto todo meu! Altivos corações,
Brilhantes olhos lindos, almas só de luz,
Ó doce riso em flor, bendita mocidade!
Eu lanço sobre vos, da minha humilde cruz,
A benção sacrossanta ungida de Saudade!
Andorinhas do céu que o vento da desgraça
Levou para bem longe! A amargosa taça
Do fel, da desdita ficou pra mim somente!
Aonde estareis vós amigos do outrora?
Rindo, talvez cantando enquanto est’alma chora
Rezando enternecida esta oração dolente!...
1 852
Florbela Espanca
Cegueira Bendita
Ando perdida nestes Sonhos verdes
De ter nascido e não saber quem sou,
Ando ceguinha a tactear paredes
E nem ao menos sei quem me cegou!
Não vejo nada, tudo é morto e vago...
E a minha alma cega, ao abandono
Faz-me lembrar o nenúfar dum lago
’Stendendo as asas brancas cor do sono...
Ter dentro d’alma a luz de todo o mundo
E não ver nada neste mar sem fundo,
Poetas meus Irmãos, que triste sorte!...
E chamam-nos a nós Iluminados!
Pobres cegos sem culpas, sem pecados
A sofrer pelos outros ’té à morte!
De ter nascido e não saber quem sou,
Ando ceguinha a tactear paredes
E nem ao menos sei quem me cegou!
Não vejo nada, tudo é morto e vago...
E a minha alma cega, ao abandono
Faz-me lembrar o nenúfar dum lago
’Stendendo as asas brancas cor do sono...
Ter dentro d’alma a luz de todo o mundo
E não ver nada neste mar sem fundo,
Poetas meus Irmãos, que triste sorte!...
E chamam-nos a nós Iluminados!
Pobres cegos sem culpas, sem pecados
A sofrer pelos outros ’té à morte!
2 114
Florbela Espanca
Cegueira Bendita
Ando perdida nestes Sonhos verdes
De ter nascido e não saber quem sou,
Ando ceguinha a tactear paredes
E nem ao menos sei quem me cegou!
Não vejo nada, tudo é morto e vago...
E a minha alma cega, ao abandono
Faz-me lembrar o nenúfar dum lago
’Stendendo as asas brancas cor do sono...
Ter dentro d’alma a luz de todo o mundo
E não ver nada neste mar sem fundo,
Poetas meus Irmãos, que triste sorte!...
E chamam-nos a nós Iluminados!
Pobres cegos sem culpas, sem pecados
A sofrer pelos outros ’té à morte!
De ter nascido e não saber quem sou,
Ando ceguinha a tactear paredes
E nem ao menos sei quem me cegou!
Não vejo nada, tudo é morto e vago...
E a minha alma cega, ao abandono
Faz-me lembrar o nenúfar dum lago
’Stendendo as asas brancas cor do sono...
Ter dentro d’alma a luz de todo o mundo
E não ver nada neste mar sem fundo,
Poetas meus Irmãos, que triste sorte!...
E chamam-nos a nós Iluminados!
Pobres cegos sem culpas, sem pecados
A sofrer pelos outros ’té à morte!
2 114
Florbela Espanca
Cegueira Bendita
Ando perdida nestes Sonhos verdes
De ter nascido e não saber quem sou,
Ando ceguinha a tactear paredes
E nem ao menos sei quem me cegou!
Não vejo nada, tudo é morto e vago...
E a minha alma cega, ao abandono
Faz-me lembrar o nenúfar dum lago
’Stendendo as asas brancas cor do sono...
Ter dentro d’alma a luz de todo o mundo
E não ver nada neste mar sem fundo,
Poetas meus Irmãos, que triste sorte!...
E chamam-nos a nós Iluminados!
Pobres cegos sem culpas, sem pecados
A sofrer pelos outros ’té à morte!
De ter nascido e não saber quem sou,
Ando ceguinha a tactear paredes
E nem ao menos sei quem me cegou!
Não vejo nada, tudo é morto e vago...
E a minha alma cega, ao abandono
Faz-me lembrar o nenúfar dum lago
’Stendendo as asas brancas cor do sono...
Ter dentro d’alma a luz de todo o mundo
E não ver nada neste mar sem fundo,
Poetas meus Irmãos, que triste sorte!...
E chamam-nos a nós Iluminados!
Pobres cegos sem culpas, sem pecados
A sofrer pelos outros ’té à morte!
2 114
Florbela Espanca
Noite Trágica
O Pavor e a Angústia andam dançando...
Um sino grita endeixas de poentes...
Na meia-noite d’hoje, soluçando,
Que presságios sinistros e dolentes!...
Que estais no céu... O que a minh’alma teme!
Tenho medo da noite!... Que alvoroço
Anda nesta alma enquanto o sino geme!
<Jesus! Jesus, que noite imensa e triste!...
A quanta dor a nossa dor resiste
Em noite assim que a própria Dor parece...
<Ó noite imensa, ó noite do Calvário
Leva contigo envolto no sudário
Da tua dor a dor que me não ’squece!
Um sino grita endeixas de poentes...
Na meia-noite d’hoje, soluçando,
Que presságios sinistros e dolentes!...
Que estais no céu... O que a minh’alma teme!
Tenho medo da noite!... Que alvoroço
Anda nesta alma enquanto o sino geme!
<Jesus! Jesus, que noite imensa e triste!...
A quanta dor a nossa dor resiste
Em noite assim que a própria Dor parece...
<Ó noite imensa, ó noite do Calvário
Leva contigo envolto no sudário
Da tua dor a dor que me não ’squece!
1 701
Florbela Espanca
Noite Trágica
O Pavor e a Angústia andam dançando...
Um sino grita endeixas de poentes...
Na meia-noite d’hoje, soluçando,
Que presságios sinistros e dolentes!...
Que estais no céu... O que a minh’alma teme!
Tenho medo da noite!... Que alvoroço
Anda nesta alma enquanto o sino geme!
<Jesus! Jesus, que noite imensa e triste!...
A quanta dor a nossa dor resiste
Em noite assim que a própria Dor parece...
<Ó noite imensa, ó noite do Calvário
Leva contigo envolto no sudário
Da tua dor a dor que me não ’squece!
Um sino grita endeixas de poentes...
Na meia-noite d’hoje, soluçando,
Que presságios sinistros e dolentes!...
Que estais no céu... O que a minh’alma teme!
Tenho medo da noite!... Que alvoroço
Anda nesta alma enquanto o sino geme!
<Jesus! Jesus, que noite imensa e triste!...
A quanta dor a nossa dor resiste
Em noite assim que a própria Dor parece...
<Ó noite imensa, ó noite do Calvário
Leva contigo envolto no sudário
Da tua dor a dor que me não ’squece!
1 701
Florbela Espanca
Noite Trágica
O Pavor e a Angústia andam dançando...
Um sino grita endeixas de poentes...
Na meia-noite d’hoje, soluçando,
Que presságios sinistros e dolentes!...
Que estais no céu... O que a minh’alma teme!
Tenho medo da noite!... Que alvoroço
Anda nesta alma enquanto o sino geme!
<Jesus! Jesus, que noite imensa e triste!...
A quanta dor a nossa dor resiste
Em noite assim que a própria Dor parece...
<Ó noite imensa, ó noite do Calvário
Leva contigo envolto no sudário
Da tua dor a dor que me não ’squece!
Um sino grita endeixas de poentes...
Na meia-noite d’hoje, soluçando,
Que presságios sinistros e dolentes!...
Que estais no céu... O que a minh’alma teme!
Tenho medo da noite!... Que alvoroço
Anda nesta alma enquanto o sino geme!
<Jesus! Jesus, que noite imensa e triste!...
A quanta dor a nossa dor resiste
Em noite assim que a própria Dor parece...
<Ó noite imensa, ó noite do Calvário
Leva contigo envolto no sudário
Da tua dor a dor que me não ’squece!
1 701
Ibn Ammar
Do amor
olhai quão grande é o amor apaixonado
que é vício e delícia e fogo ardente.
não busqueis pelo amor um dominado
sede antes escravos pela sua lei
e assim sereis livres finalmente.
disseram: «fez-te o amor sofrer intensamente!»
«me agradam suas penas!» foi o que afirmei.
o coração quis doença p"rò corpo nos vestir
a liberdade da escolha eu lhe outorguei.
censurais-me de emagrecido andar.
mas a excelência d"adaga, a que se resume
senão à finura do seu gume?
troçastes por a amada me deixar
mas a noite derradeira de cada lunação
rouba dos olhares a face do crescente.
pensastes que a brisa da consolação,
como um sono profundo, está presente?
secou-se o amor com o fogo do amor
com ela ficará meu pranto defensor.
como o meu coração se lacerava
quando se inclinava graciosa
e a redenção das madeixas despontava!
a quem foi dado contemplar seu véu
escondendo uma manhã tão luminosa
que abraçava um nocturno céu?
dona da alma do jardim, é terno ramo,
coração de zimbro, corça que eu amo*
o brilho do seu rosto amarfanhava
a própria lua em todo o seu esplendor
e o grasnar dos gansos em redor
era o ornamento que a cercava.
da noite da união nasce o dia enfim
e o odor da volúpia vem a mim.
minhas lágrimas caíram copiosas
sobre o belo jardim daquela face
assim humedecendo suas rosas
até que o destino o desenlace
me fez beber da taça da separação
e me tornei ébrio desde então
que é vício e delícia e fogo ardente.
não busqueis pelo amor um dominado
sede antes escravos pela sua lei
e assim sereis livres finalmente.
disseram: «fez-te o amor sofrer intensamente!»
«me agradam suas penas!» foi o que afirmei.
o coração quis doença p"rò corpo nos vestir
a liberdade da escolha eu lhe outorguei.
censurais-me de emagrecido andar.
mas a excelência d"adaga, a que se resume
senão à finura do seu gume?
troçastes por a amada me deixar
mas a noite derradeira de cada lunação
rouba dos olhares a face do crescente.
pensastes que a brisa da consolação,
como um sono profundo, está presente?
secou-se o amor com o fogo do amor
com ela ficará meu pranto defensor.
como o meu coração se lacerava
quando se inclinava graciosa
e a redenção das madeixas despontava!
a quem foi dado contemplar seu véu
escondendo uma manhã tão luminosa
que abraçava um nocturno céu?
dona da alma do jardim, é terno ramo,
coração de zimbro, corça que eu amo*
o brilho do seu rosto amarfanhava
a própria lua em todo o seu esplendor
e o grasnar dos gansos em redor
era o ornamento que a cercava.
da noite da união nasce o dia enfim
e o odor da volúpia vem a mim.
minhas lágrimas caíram copiosas
sobre o belo jardim daquela face
assim humedecendo suas rosas
até que o destino o desenlace
me fez beber da taça da separação
e me tornei ébrio desde então
1 293
Ibn Ammar
Do amor
olhai quão grande é o amor apaixonado
que é vício e delícia e fogo ardente.
não busqueis pelo amor um dominado
sede antes escravos pela sua lei
e assim sereis livres finalmente.
disseram: «fez-te o amor sofrer intensamente!»
«me agradam suas penas!» foi o que afirmei.
o coração quis doença p"rò corpo nos vestir
a liberdade da escolha eu lhe outorguei.
censurais-me de emagrecido andar.
mas a excelência d"adaga, a que se resume
senão à finura do seu gume?
troçastes por a amada me deixar
mas a noite derradeira de cada lunação
rouba dos olhares a face do crescente.
pensastes que a brisa da consolação,
como um sono profundo, está presente?
secou-se o amor com o fogo do amor
com ela ficará meu pranto defensor.
como o meu coração se lacerava
quando se inclinava graciosa
e a redenção das madeixas despontava!
a quem foi dado contemplar seu véu
escondendo uma manhã tão luminosa
que abraçava um nocturno céu?
dona da alma do jardim, é terno ramo,
coração de zimbro, corça que eu amo*
o brilho do seu rosto amarfanhava
a própria lua em todo o seu esplendor
e o grasnar dos gansos em redor
era o ornamento que a cercava.
da noite da união nasce o dia enfim
e o odor da volúpia vem a mim.
minhas lágrimas caíram copiosas
sobre o belo jardim daquela face
assim humedecendo suas rosas
até que o destino o desenlace
me fez beber da taça da separação
e me tornei ébrio desde então
que é vício e delícia e fogo ardente.
não busqueis pelo amor um dominado
sede antes escravos pela sua lei
e assim sereis livres finalmente.
disseram: «fez-te o amor sofrer intensamente!»
«me agradam suas penas!» foi o que afirmei.
o coração quis doença p"rò corpo nos vestir
a liberdade da escolha eu lhe outorguei.
censurais-me de emagrecido andar.
mas a excelência d"adaga, a que se resume
senão à finura do seu gume?
troçastes por a amada me deixar
mas a noite derradeira de cada lunação
rouba dos olhares a face do crescente.
pensastes que a brisa da consolação,
como um sono profundo, está presente?
secou-se o amor com o fogo do amor
com ela ficará meu pranto defensor.
como o meu coração se lacerava
quando se inclinava graciosa
e a redenção das madeixas despontava!
a quem foi dado contemplar seu véu
escondendo uma manhã tão luminosa
que abraçava um nocturno céu?
dona da alma do jardim, é terno ramo,
coração de zimbro, corça que eu amo*
o brilho do seu rosto amarfanhava
a própria lua em todo o seu esplendor
e o grasnar dos gansos em redor
era o ornamento que a cercava.
da noite da união nasce o dia enfim
e o odor da volúpia vem a mim.
minhas lágrimas caíram copiosas
sobre o belo jardim daquela face
assim humedecendo suas rosas
até que o destino o desenlace
me fez beber da taça da separação
e me tornei ébrio desde então
1 293
Ibn Ammar
Do amor
olhai quão grande é o amor apaixonado
que é vício e delícia e fogo ardente.
não busqueis pelo amor um dominado
sede antes escravos pela sua lei
e assim sereis livres finalmente.
disseram: «fez-te o amor sofrer intensamente!»
«me agradam suas penas!» foi o que afirmei.
o coração quis doença p"rò corpo nos vestir
a liberdade da escolha eu lhe outorguei.
censurais-me de emagrecido andar.
mas a excelência d"adaga, a que se resume
senão à finura do seu gume?
troçastes por a amada me deixar
mas a noite derradeira de cada lunação
rouba dos olhares a face do crescente.
pensastes que a brisa da consolação,
como um sono profundo, está presente?
secou-se o amor com o fogo do amor
com ela ficará meu pranto defensor.
como o meu coração se lacerava
quando se inclinava graciosa
e a redenção das madeixas despontava!
a quem foi dado contemplar seu véu
escondendo uma manhã tão luminosa
que abraçava um nocturno céu?
dona da alma do jardim, é terno ramo,
coração de zimbro, corça que eu amo*
o brilho do seu rosto amarfanhava
a própria lua em todo o seu esplendor
e o grasnar dos gansos em redor
era o ornamento que a cercava.
da noite da união nasce o dia enfim
e o odor da volúpia vem a mim.
minhas lágrimas caíram copiosas
sobre o belo jardim daquela face
assim humedecendo suas rosas
até que o destino o desenlace
me fez beber da taça da separação
e me tornei ébrio desde então
que é vício e delícia e fogo ardente.
não busqueis pelo amor um dominado
sede antes escravos pela sua lei
e assim sereis livres finalmente.
disseram: «fez-te o amor sofrer intensamente!»
«me agradam suas penas!» foi o que afirmei.
o coração quis doença p"rò corpo nos vestir
a liberdade da escolha eu lhe outorguei.
censurais-me de emagrecido andar.
mas a excelência d"adaga, a que se resume
senão à finura do seu gume?
troçastes por a amada me deixar
mas a noite derradeira de cada lunação
rouba dos olhares a face do crescente.
pensastes que a brisa da consolação,
como um sono profundo, está presente?
secou-se o amor com o fogo do amor
com ela ficará meu pranto defensor.
como o meu coração se lacerava
quando se inclinava graciosa
e a redenção das madeixas despontava!
a quem foi dado contemplar seu véu
escondendo uma manhã tão luminosa
que abraçava um nocturno céu?
dona da alma do jardim, é terno ramo,
coração de zimbro, corça que eu amo*
o brilho do seu rosto amarfanhava
a própria lua em todo o seu esplendor
e o grasnar dos gansos em redor
era o ornamento que a cercava.
da noite da união nasce o dia enfim
e o odor da volúpia vem a mim.
minhas lágrimas caíram copiosas
sobre o belo jardim daquela face
assim humedecendo suas rosas
até que o destino o desenlace
me fez beber da taça da separação
e me tornei ébrio desde então
1 293
Florbela Espanca
Amei um dia
Amei um dia... uni dia... eu já nem sei
Há quanto tempo foi que assim amei...
E esse amor foi rir!...
Tinha talvez quinze anos, quinze apenas...
Alvorada de lírios e açucenas...
E esse amor foi rir!...
Tive então outro amor ainda aos vinte anos,
Amor de sonhos bons, amor d’enganos,
E já sorri apenas!...
Foi como quem rezasse a um altar,
Numa prece cantante a murmurar...
E já sorri apenas!...
Amo-te agora a ti, e com que amor —!
Soluço triste em turbilhões de dor!
É só chorar, chorar...
Mas afinal também os corações
não vivem só de risos e canções!
Eu antes quer’ chorar!
Há quanto tempo foi que assim amei...
E esse amor foi rir!...
Tinha talvez quinze anos, quinze apenas...
Alvorada de lírios e açucenas...
E esse amor foi rir!...
Tive então outro amor ainda aos vinte anos,
Amor de sonhos bons, amor d’enganos,
E já sorri apenas!...
Foi como quem rezasse a um altar,
Numa prece cantante a murmurar...
E já sorri apenas!...
Amo-te agora a ti, e com que amor —!
Soluço triste em turbilhões de dor!
É só chorar, chorar...
Mas afinal também os corações
não vivem só de risos e canções!
Eu antes quer’ chorar!
1 760
Florbela Espanca
Amei um dia
Amei um dia... uni dia... eu já nem sei
Há quanto tempo foi que assim amei...
E esse amor foi rir!...
Tinha talvez quinze anos, quinze apenas...
Alvorada de lírios e açucenas...
E esse amor foi rir!...
Tive então outro amor ainda aos vinte anos,
Amor de sonhos bons, amor d’enganos,
E já sorri apenas!...
Foi como quem rezasse a um altar,
Numa prece cantante a murmurar...
E já sorri apenas!...
Amo-te agora a ti, e com que amor —!
Soluço triste em turbilhões de dor!
É só chorar, chorar...
Mas afinal também os corações
não vivem só de risos e canções!
Eu antes quer’ chorar!
Há quanto tempo foi que assim amei...
E esse amor foi rir!...
Tinha talvez quinze anos, quinze apenas...
Alvorada de lírios e açucenas...
E esse amor foi rir!...
Tive então outro amor ainda aos vinte anos,
Amor de sonhos bons, amor d’enganos,
E já sorri apenas!...
Foi como quem rezasse a um altar,
Numa prece cantante a murmurar...
E já sorri apenas!...
Amo-te agora a ti, e com que amor —!
Soluço triste em turbilhões de dor!
É só chorar, chorar...
Mas afinal também os corações
não vivem só de risos e canções!
Eu antes quer’ chorar!
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