Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Eudoro Augusto
Ana C
Outra vez nos braços do amor perdido.
Sempre o declive. Sempre a vertigem.
Às vezes o abismo.
Posso inflar
as velas de outra imagem
e assim navegar teus canais azulados,
minha lúcida amiga.
No céu-da-boca desta manhã
fica apenas um risco:
relâmpago longo como o olhar.
Luz. Outra luz. Louca luz.
O mesmo anjo que beija tua orelha fina
invade o cinema como um vento fictício
e rabisca cicatrizes bem legíveis
no coração deserto do meio-dia.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Ventura
Sempre o declive. Sempre a vertigem.
Às vezes o abismo.
Posso inflar
as velas de outra imagem
e assim navegar teus canais azulados,
minha lúcida amiga.
No céu-da-boca desta manhã
fica apenas um risco:
relâmpago longo como o olhar.
Luz. Outra luz. Louca luz.
O mesmo anjo que beija tua orelha fina
invade o cinema como um vento fictício
e rabisca cicatrizes bem legíveis
no coração deserto do meio-dia.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Ventura
1 140
Eudoro Augusto
Ana C
Outra vez nos braços do amor perdido.
Sempre o declive. Sempre a vertigem.
Às vezes o abismo.
Posso inflar
as velas de outra imagem
e assim navegar teus canais azulados,
minha lúcida amiga.
No céu-da-boca desta manhã
fica apenas um risco:
relâmpago longo como o olhar.
Luz. Outra luz. Louca luz.
O mesmo anjo que beija tua orelha fina
invade o cinema como um vento fictício
e rabisca cicatrizes bem legíveis
no coração deserto do meio-dia.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Ventura
Sempre o declive. Sempre a vertigem.
Às vezes o abismo.
Posso inflar
as velas de outra imagem
e assim navegar teus canais azulados,
minha lúcida amiga.
No céu-da-boca desta manhã
fica apenas um risco:
relâmpago longo como o olhar.
Luz. Outra luz. Louca luz.
O mesmo anjo que beija tua orelha fina
invade o cinema como um vento fictício
e rabisca cicatrizes bem legíveis
no coração deserto do meio-dia.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Ventura
1 140
Eudoro Augusto
Final de Século
A coisa anda meio difícil
pra quem não dispensa uma alegria.
Até uma boa e sincera tristeza
anda cada vez mais rara
com essa moda de alto astral a qualquer preço.
Se alguém acha que este mundo
anda meio cafajeste, ou ainda mais,
não sou eu que vou contradizer.
Mas na verdade, tudo mudou
muito pouco.
Um ou outro mito,
aqui e ali um grito,
mais ou menos aflito.
O que varia mesmo é o som do apito
de acordo com o bairro, conforme o gueto.
Em alguns a polícia acode e sacode;
em outros se salva quem pode.
A carne continua fraca.
Mormente a da mucosa,
mais frágil, mais perigosa.
A lua tem seus caprichos.
Os poderosos mentem,
as filas aumentam,
a cerveja anda nojenta
e o rapaz da TV diz que vai ser mais eficaz
o combate ao tráfico de drogas.
Por mim, espero apenas
a passagem vertiginosa dos riscos voadores.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera
pra quem não dispensa uma alegria.
Até uma boa e sincera tristeza
anda cada vez mais rara
com essa moda de alto astral a qualquer preço.
Se alguém acha que este mundo
anda meio cafajeste, ou ainda mais,
não sou eu que vou contradizer.
Mas na verdade, tudo mudou
muito pouco.
Um ou outro mito,
aqui e ali um grito,
mais ou menos aflito.
O que varia mesmo é o som do apito
de acordo com o bairro, conforme o gueto.
Em alguns a polícia acode e sacode;
em outros se salva quem pode.
A carne continua fraca.
Mormente a da mucosa,
mais frágil, mais perigosa.
A lua tem seus caprichos.
Os poderosos mentem,
as filas aumentam,
a cerveja anda nojenta
e o rapaz da TV diz que vai ser mais eficaz
o combate ao tráfico de drogas.
Por mim, espero apenas
a passagem vertiginosa dos riscos voadores.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera
1 097
Antônio Barreto
Para Conhecer Sua Sereia
Não há limites para o meu amor:
o que dela conheço está no fundo do mar,
fechado com as chaves do meu desejo.
Diziam os gregos antigos
que cada homem tem uma sereia no
fundo do mar. Para conhecer a sua,
coloque dentro de uma garrafa uma
folha de papel com seu nome escrito,
fechando-a em seguida com uma rolha.
Amarre a garrafa numa pedra pesada
e, quando o sol nascer, atire-a ao
mar dizendo as seguintes palavras:
— SEREIA, SEREIA MINHA!
A HORA É CHEGADA, EU JÁ
SEI.
QUERO TE CONHECER,
Ó RAINHA,
COM A PERMISSÃO DE TEU
REI!
Não é necessário entrar
num escafandro ou vestir-se de
homem-rã para esperar por ela no fundo
das águas. Os hipocampos cuidarão
de avisá-la: eles são os carteiros do
mar.
À tardinha, procure na praia um
caracol e deite-se na areia para ouvi-lo.
Quando acordar-se para dentro,
num sonho súbito, você a verá linda
como nunca tivera imaginado,
pronunciando seu nome docemente.
Mas não tente pegá-la. Dizem
que Netuno, o Rei dos Mares,
tem ciúmes horríveis dos homens que
delas tentam se aproximar. As sereias
existem apenas para serem ouvidas e
admiradas.
Logo você descobrirá, todavia,
que o que existe de mais belo em sua
sereia é que ela não tem recordações.
E, como os anjos-da-guarda, só nos
aparecem nos sonhos.
Sua sereia simplesmente sabe
que é sua, eternamente, e mais nada.
In: BARRETO, Antônio. Livro das simpatias. Il. Márcia Franco. Belo Horizonte: Ed. RHJ, 1990. p.36-39. (Premiados, 3
o que dela conheço está no fundo do mar,
fechado com as chaves do meu desejo.
Diziam os gregos antigos
que cada homem tem uma sereia no
fundo do mar. Para conhecer a sua,
coloque dentro de uma garrafa uma
folha de papel com seu nome escrito,
fechando-a em seguida com uma rolha.
Amarre a garrafa numa pedra pesada
e, quando o sol nascer, atire-a ao
mar dizendo as seguintes palavras:
— SEREIA, SEREIA MINHA!
A HORA É CHEGADA, EU JÁ
SEI.
QUERO TE CONHECER,
Ó RAINHA,
COM A PERMISSÃO DE TEU
REI!
Não é necessário entrar
num escafandro ou vestir-se de
homem-rã para esperar por ela no fundo
das águas. Os hipocampos cuidarão
de avisá-la: eles são os carteiros do
mar.
À tardinha, procure na praia um
caracol e deite-se na areia para ouvi-lo.
Quando acordar-se para dentro,
num sonho súbito, você a verá linda
como nunca tivera imaginado,
pronunciando seu nome docemente.
Mas não tente pegá-la. Dizem
que Netuno, o Rei dos Mares,
tem ciúmes horríveis dos homens que
delas tentam se aproximar. As sereias
existem apenas para serem ouvidas e
admiradas.
Logo você descobrirá, todavia,
que o que existe de mais belo em sua
sereia é que ela não tem recordações.
E, como os anjos-da-guarda, só nos
aparecem nos sonhos.
Sua sereia simplesmente sabe
que é sua, eternamente, e mais nada.
In: BARRETO, Antônio. Livro das simpatias. Il. Márcia Franco. Belo Horizonte: Ed. RHJ, 1990. p.36-39. (Premiados, 3
1 523
Antônio Barreto
Para Conhecer Sua Sereia
Não há limites para o meu amor:
o que dela conheço está no fundo do mar,
fechado com as chaves do meu desejo.
Diziam os gregos antigos
que cada homem tem uma sereia no
fundo do mar. Para conhecer a sua,
coloque dentro de uma garrafa uma
folha de papel com seu nome escrito,
fechando-a em seguida com uma rolha.
Amarre a garrafa numa pedra pesada
e, quando o sol nascer, atire-a ao
mar dizendo as seguintes palavras:
— SEREIA, SEREIA MINHA!
A HORA É CHEGADA, EU JÁ
SEI.
QUERO TE CONHECER,
Ó RAINHA,
COM A PERMISSÃO DE TEU
REI!
Não é necessário entrar
num escafandro ou vestir-se de
homem-rã para esperar por ela no fundo
das águas. Os hipocampos cuidarão
de avisá-la: eles são os carteiros do
mar.
À tardinha, procure na praia um
caracol e deite-se na areia para ouvi-lo.
Quando acordar-se para dentro,
num sonho súbito, você a verá linda
como nunca tivera imaginado,
pronunciando seu nome docemente.
Mas não tente pegá-la. Dizem
que Netuno, o Rei dos Mares,
tem ciúmes horríveis dos homens que
delas tentam se aproximar. As sereias
existem apenas para serem ouvidas e
admiradas.
Logo você descobrirá, todavia,
que o que existe de mais belo em sua
sereia é que ela não tem recordações.
E, como os anjos-da-guarda, só nos
aparecem nos sonhos.
Sua sereia simplesmente sabe
que é sua, eternamente, e mais nada.
In: BARRETO, Antônio. Livro das simpatias. Il. Márcia Franco. Belo Horizonte: Ed. RHJ, 1990. p.36-39. (Premiados, 3
o que dela conheço está no fundo do mar,
fechado com as chaves do meu desejo.
Diziam os gregos antigos
que cada homem tem uma sereia no
fundo do mar. Para conhecer a sua,
coloque dentro de uma garrafa uma
folha de papel com seu nome escrito,
fechando-a em seguida com uma rolha.
Amarre a garrafa numa pedra pesada
e, quando o sol nascer, atire-a ao
mar dizendo as seguintes palavras:
— SEREIA, SEREIA MINHA!
A HORA É CHEGADA, EU JÁ
SEI.
QUERO TE CONHECER,
Ó RAINHA,
COM A PERMISSÃO DE TEU
REI!
Não é necessário entrar
num escafandro ou vestir-se de
homem-rã para esperar por ela no fundo
das águas. Os hipocampos cuidarão
de avisá-la: eles são os carteiros do
mar.
À tardinha, procure na praia um
caracol e deite-se na areia para ouvi-lo.
Quando acordar-se para dentro,
num sonho súbito, você a verá linda
como nunca tivera imaginado,
pronunciando seu nome docemente.
Mas não tente pegá-la. Dizem
que Netuno, o Rei dos Mares,
tem ciúmes horríveis dos homens que
delas tentam se aproximar. As sereias
existem apenas para serem ouvidas e
admiradas.
Logo você descobrirá, todavia,
que o que existe de mais belo em sua
sereia é que ela não tem recordações.
E, como os anjos-da-guarda, só nos
aparecem nos sonhos.
Sua sereia simplesmente sabe
que é sua, eternamente, e mais nada.
In: BARRETO, Antônio. Livro das simpatias. Il. Márcia Franco. Belo Horizonte: Ed. RHJ, 1990. p.36-39. (Premiados, 3
1 523
Lila Ripoll
Canção da Chuva
Cai uma chuva tão fina
que quase nem molha a gente.
É uma música em surdina
que apenas a alma sente.
Junto meu rosto à vidraça
e olho a rua sem pensar.
Fico em estado de graça,
como quem vai comungar.
Senhora dos mundos vivos,
Nossa Senhora da Vida,
quantos dias negativos
na minha estrada perdida!
Senhora tu não devias
permitir tantos enganos.
Há excesso de alegrias,
e excesso de desenganos.
Por onde andaram meus passos
vi sinais de desalentos.
Vaguei por muitos espaços
e senti todos os ventos.
Ventos do sul, vento norte,
ventos do leste e do oeste,
tão diversos como a sorte
que tu, na vida, nos deste.
Senhora dos mundos vivos,
Nossa Senhora da Vida —
quantos dias negativos
na minha estrada perdida!
Publicado no livro Céu Vazio: poesia (1941).
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.4
que quase nem molha a gente.
É uma música em surdina
que apenas a alma sente.
Junto meu rosto à vidraça
e olho a rua sem pensar.
Fico em estado de graça,
como quem vai comungar.
Senhora dos mundos vivos,
Nossa Senhora da Vida,
quantos dias negativos
na minha estrada perdida!
Senhora tu não devias
permitir tantos enganos.
Há excesso de alegrias,
e excesso de desenganos.
Por onde andaram meus passos
vi sinais de desalentos.
Vaguei por muitos espaços
e senti todos os ventos.
Ventos do sul, vento norte,
ventos do leste e do oeste,
tão diversos como a sorte
que tu, na vida, nos deste.
Senhora dos mundos vivos,
Nossa Senhora da Vida —
quantos dias negativos
na minha estrada perdida!
Publicado no livro Céu Vazio: poesia (1941).
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.4
2 039
Eudoro Augusto
Suma Biológica de Cacá de Aquino
Deus tudo vê.
O Diabo também.
Mas prefere as cenas mais fortes.
Deus tudo sabe. Noite e dia.
O Diabo também. E tripudia.
Deus tudo escuta.
O Diabo não faz por menos:
um rock pesado aos berros
num quarto de puta.
Deus é a consciência do Universo.
O Diabo não. Inconsciência total.
Bebe pra caralho
cai de boca no brilho
e só pensa em sacanagem.
Deus vota sempre com a democracia cristã.
O Diabo é mais alienado. Não sai da praia.
Não sai do Baixo. E faz o gênero intelectual de esquerda
só pra comer aquela militante de bunda empinada
e peitinhos de adolescente. É um doente.
Deus faz análise há séculos
por causa do problema da Virgem Maria.
Já o Diabo não tem pai nem mãe
não tem culpa nem mecanismos repressivos
e além do mais não leva muita fé
em terapias neofreudianas argentinas.
O hálito de Deus é a brisa da esperança.
O bafo do Diabo se tu cheira tu dança.
Deus é uma chama no coração.
O Diabo é um fogo no rabo.
Enquanto o Bem vai sarrando o Mal
um raio laser acende
tua xota no meu pau.
Religião não se discute. Ponto final.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera
O Diabo também.
Mas prefere as cenas mais fortes.
Deus tudo sabe. Noite e dia.
O Diabo também. E tripudia.
Deus tudo escuta.
O Diabo não faz por menos:
um rock pesado aos berros
num quarto de puta.
Deus é a consciência do Universo.
O Diabo não. Inconsciência total.
Bebe pra caralho
cai de boca no brilho
e só pensa em sacanagem.
Deus vota sempre com a democracia cristã.
O Diabo é mais alienado. Não sai da praia.
Não sai do Baixo. E faz o gênero intelectual de esquerda
só pra comer aquela militante de bunda empinada
e peitinhos de adolescente. É um doente.
Deus faz análise há séculos
por causa do problema da Virgem Maria.
Já o Diabo não tem pai nem mãe
não tem culpa nem mecanismos repressivos
e além do mais não leva muita fé
em terapias neofreudianas argentinas.
O hálito de Deus é a brisa da esperança.
O bafo do Diabo se tu cheira tu dança.
Deus é uma chama no coração.
O Diabo é um fogo no rabo.
Enquanto o Bem vai sarrando o Mal
um raio laser acende
tua xota no meu pau.
Religião não se discute. Ponto final.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera
1 184
Eudoro Augusto
Suma Biológica de Cacá de Aquino
Deus tudo vê.
O Diabo também.
Mas prefere as cenas mais fortes.
Deus tudo sabe. Noite e dia.
O Diabo também. E tripudia.
Deus tudo escuta.
O Diabo não faz por menos:
um rock pesado aos berros
num quarto de puta.
Deus é a consciência do Universo.
O Diabo não. Inconsciência total.
Bebe pra caralho
cai de boca no brilho
e só pensa em sacanagem.
Deus vota sempre com a democracia cristã.
O Diabo é mais alienado. Não sai da praia.
Não sai do Baixo. E faz o gênero intelectual de esquerda
só pra comer aquela militante de bunda empinada
e peitinhos de adolescente. É um doente.
Deus faz análise há séculos
por causa do problema da Virgem Maria.
Já o Diabo não tem pai nem mãe
não tem culpa nem mecanismos repressivos
e além do mais não leva muita fé
em terapias neofreudianas argentinas.
O hálito de Deus é a brisa da esperança.
O bafo do Diabo se tu cheira tu dança.
Deus é uma chama no coração.
O Diabo é um fogo no rabo.
Enquanto o Bem vai sarrando o Mal
um raio laser acende
tua xota no meu pau.
Religião não se discute. Ponto final.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera
O Diabo também.
Mas prefere as cenas mais fortes.
Deus tudo sabe. Noite e dia.
O Diabo também. E tripudia.
Deus tudo escuta.
O Diabo não faz por menos:
um rock pesado aos berros
num quarto de puta.
Deus é a consciência do Universo.
O Diabo não. Inconsciência total.
Bebe pra caralho
cai de boca no brilho
e só pensa em sacanagem.
Deus vota sempre com a democracia cristã.
O Diabo é mais alienado. Não sai da praia.
Não sai do Baixo. E faz o gênero intelectual de esquerda
só pra comer aquela militante de bunda empinada
e peitinhos de adolescente. É um doente.
Deus faz análise há séculos
por causa do problema da Virgem Maria.
Já o Diabo não tem pai nem mãe
não tem culpa nem mecanismos repressivos
e além do mais não leva muita fé
em terapias neofreudianas argentinas.
O hálito de Deus é a brisa da esperança.
O bafo do Diabo se tu cheira tu dança.
Deus é uma chama no coração.
O Diabo é um fogo no rabo.
Enquanto o Bem vai sarrando o Mal
um raio laser acende
tua xota no meu pau.
Religião não se discute. Ponto final.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera
1 184
Eudoro Augusto
Suma Biológica de Cacá de Aquino
Deus tudo vê.
O Diabo também.
Mas prefere as cenas mais fortes.
Deus tudo sabe. Noite e dia.
O Diabo também. E tripudia.
Deus tudo escuta.
O Diabo não faz por menos:
um rock pesado aos berros
num quarto de puta.
Deus é a consciência do Universo.
O Diabo não. Inconsciência total.
Bebe pra caralho
cai de boca no brilho
e só pensa em sacanagem.
Deus vota sempre com a democracia cristã.
O Diabo é mais alienado. Não sai da praia.
Não sai do Baixo. E faz o gênero intelectual de esquerda
só pra comer aquela militante de bunda empinada
e peitinhos de adolescente. É um doente.
Deus faz análise há séculos
por causa do problema da Virgem Maria.
Já o Diabo não tem pai nem mãe
não tem culpa nem mecanismos repressivos
e além do mais não leva muita fé
em terapias neofreudianas argentinas.
O hálito de Deus é a brisa da esperança.
O bafo do Diabo se tu cheira tu dança.
Deus é uma chama no coração.
O Diabo é um fogo no rabo.
Enquanto o Bem vai sarrando o Mal
um raio laser acende
tua xota no meu pau.
Religião não se discute. Ponto final.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera
O Diabo também.
Mas prefere as cenas mais fortes.
Deus tudo sabe. Noite e dia.
O Diabo também. E tripudia.
Deus tudo escuta.
O Diabo não faz por menos:
um rock pesado aos berros
num quarto de puta.
Deus é a consciência do Universo.
O Diabo não. Inconsciência total.
Bebe pra caralho
cai de boca no brilho
e só pensa em sacanagem.
Deus vota sempre com a democracia cristã.
O Diabo é mais alienado. Não sai da praia.
Não sai do Baixo. E faz o gênero intelectual de esquerda
só pra comer aquela militante de bunda empinada
e peitinhos de adolescente. É um doente.
Deus faz análise há séculos
por causa do problema da Virgem Maria.
Já o Diabo não tem pai nem mãe
não tem culpa nem mecanismos repressivos
e além do mais não leva muita fé
em terapias neofreudianas argentinas.
O hálito de Deus é a brisa da esperança.
O bafo do Diabo se tu cheira tu dança.
Deus é uma chama no coração.
O Diabo é um fogo no rabo.
Enquanto o Bem vai sarrando o Mal
um raio laser acende
tua xota no meu pau.
Religião não se discute. Ponto final.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera
1 184
Eudoro Augusto
Pelo Telefone
Você me liga querendo saber
o que estou fazendo neste exato minuto.
Ando meio agitado.
Neste exato minuto estou consertando a janela
que ficou torta desde a morte de Amélia.
Estou no terceiro Cutty Sark
e devendo um monte de grana.
Pior que a janela continua torta
e Amélia continua morta.
Meu amigo foi demitido anteontem
por um babaca que era oposição
mas hoje não é mais não.
Agora mesmo aquela mesma idéia
volta a sacudir minha cabeça
e não consegue transformar-se em nada.
Uma idéia não quer dizer nada.
Sou um projeto muito arriscado.
Acho que vou desligar.
A respeito do velho mestre
a melhor coisa ainda é o livro do Truffaut.
Eu tinha, mas emprestei pra Martinha.
Vou desligar.
A melhor coisa é o intervalo preciso
entre as emoções mais fortes.
Só duas ou três, como nos bons filmes.
Neste momento
procuro encontrar no escuro
o outro par do meu olhar perdido.
Neste exato minuto
estou comendo o fio do telefone.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Ventura
o que estou fazendo neste exato minuto.
Ando meio agitado.
Neste exato minuto estou consertando a janela
que ficou torta desde a morte de Amélia.
Estou no terceiro Cutty Sark
e devendo um monte de grana.
Pior que a janela continua torta
e Amélia continua morta.
Meu amigo foi demitido anteontem
por um babaca que era oposição
mas hoje não é mais não.
Agora mesmo aquela mesma idéia
volta a sacudir minha cabeça
e não consegue transformar-se em nada.
Uma idéia não quer dizer nada.
Sou um projeto muito arriscado.
Acho que vou desligar.
A respeito do velho mestre
a melhor coisa ainda é o livro do Truffaut.
Eu tinha, mas emprestei pra Martinha.
Vou desligar.
A melhor coisa é o intervalo preciso
entre as emoções mais fortes.
Só duas ou três, como nos bons filmes.
Neste momento
procuro encontrar no escuro
o outro par do meu olhar perdido.
Neste exato minuto
estou comendo o fio do telefone.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Ventura
973
Eudoro Augusto
Pelo Telefone
Você me liga querendo saber
o que estou fazendo neste exato minuto.
Ando meio agitado.
Neste exato minuto estou consertando a janela
que ficou torta desde a morte de Amélia.
Estou no terceiro Cutty Sark
e devendo um monte de grana.
Pior que a janela continua torta
e Amélia continua morta.
Meu amigo foi demitido anteontem
por um babaca que era oposição
mas hoje não é mais não.
Agora mesmo aquela mesma idéia
volta a sacudir minha cabeça
e não consegue transformar-se em nada.
Uma idéia não quer dizer nada.
Sou um projeto muito arriscado.
Acho que vou desligar.
A respeito do velho mestre
a melhor coisa ainda é o livro do Truffaut.
Eu tinha, mas emprestei pra Martinha.
Vou desligar.
A melhor coisa é o intervalo preciso
entre as emoções mais fortes.
Só duas ou três, como nos bons filmes.
Neste momento
procuro encontrar no escuro
o outro par do meu olhar perdido.
Neste exato minuto
estou comendo o fio do telefone.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Ventura
o que estou fazendo neste exato minuto.
Ando meio agitado.
Neste exato minuto estou consertando a janela
que ficou torta desde a morte de Amélia.
Estou no terceiro Cutty Sark
e devendo um monte de grana.
Pior que a janela continua torta
e Amélia continua morta.
Meu amigo foi demitido anteontem
por um babaca que era oposição
mas hoje não é mais não.
Agora mesmo aquela mesma idéia
volta a sacudir minha cabeça
e não consegue transformar-se em nada.
Uma idéia não quer dizer nada.
Sou um projeto muito arriscado.
Acho que vou desligar.
A respeito do velho mestre
a melhor coisa ainda é o livro do Truffaut.
Eu tinha, mas emprestei pra Martinha.
Vou desligar.
A melhor coisa é o intervalo preciso
entre as emoções mais fortes.
Só duas ou três, como nos bons filmes.
Neste momento
procuro encontrar no escuro
o outro par do meu olhar perdido.
Neste exato minuto
estou comendo o fio do telefone.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Ventura
973
da Costa e Silva
O Carrossel Fantasma
Ganhei o dia a meditar na minha vida,
porque a saudade me levou à longínqua Amarante
que cisma, talvez por mim, debruçada sobre as águas
lentas e sonolentas do Parnaíba
a rolar para o mar como eu para o mistério...
Então, num sonho de criança convalescente,
vem-me à memória o carrossel que fascinava,
no seu giro constante, os meninos de minha idade:
Cesário, Luís, Holanda... meus irmãos Nica e Joca,
na vertigem do carrossel arrebatados tão cedo!
Tal qual o largo da matriz em noites de novena,
meu pensamento se ilumina de uma luz ardente e doce
como a dos balõezinhos pendentes dos arcos verdes,
festonados de folhagens e frementes de bandeirolas...
E vejo, com os olhos de hoje, ao fundo do largo em festa,
o mesmo carrossel ruidoso da minha ruidosa infância,
rodando... rodando... rodando continuadamente...
Eu fui o mais feliz dos meninos do meu tempo:
gastava todas as moedas das imagens que fazia
(já tinha o dom divino de um criador de imagens)
a dar voltas e voltas nos cavalos de madeira,
que galopavam automaticamente, feito cavalos
[árabes...
Era arrogante e destemido que nem os vaqueiros da
[minha terra,
quando galgava o lombo de um desses pégasos sem asas,
mas nem por sombra imaginava o meu destino de
[poeta...
O carrossel parou no largo... mas não pagou na vida...
Continua em meu sonho, rodando... rodando sempre...
E andando e desandando, num ritmo contraditório,
ainda me dá a alegria inevitável de dar voltas...
de girar, de rolar como os astros no espaço,
de elevar-me a um destino superior ao do planeta,
que em torno da sua órbita, como um símbolo, roda...
— Upa! upa! meu pensamento!
In: SILVA, Da Costa e. Poesias completas. Org. Alberto Costa e Silva. 3.ed. rev. e anot. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1985. p.318-319. Poema integrante da série Alhambra
porque a saudade me levou à longínqua Amarante
que cisma, talvez por mim, debruçada sobre as águas
lentas e sonolentas do Parnaíba
a rolar para o mar como eu para o mistério...
Então, num sonho de criança convalescente,
vem-me à memória o carrossel que fascinava,
no seu giro constante, os meninos de minha idade:
Cesário, Luís, Holanda... meus irmãos Nica e Joca,
na vertigem do carrossel arrebatados tão cedo!
Tal qual o largo da matriz em noites de novena,
meu pensamento se ilumina de uma luz ardente e doce
como a dos balõezinhos pendentes dos arcos verdes,
festonados de folhagens e frementes de bandeirolas...
E vejo, com os olhos de hoje, ao fundo do largo em festa,
o mesmo carrossel ruidoso da minha ruidosa infância,
rodando... rodando... rodando continuadamente...
Eu fui o mais feliz dos meninos do meu tempo:
gastava todas as moedas das imagens que fazia
(já tinha o dom divino de um criador de imagens)
a dar voltas e voltas nos cavalos de madeira,
que galopavam automaticamente, feito cavalos
[árabes...
Era arrogante e destemido que nem os vaqueiros da
[minha terra,
quando galgava o lombo de um desses pégasos sem asas,
mas nem por sombra imaginava o meu destino de
[poeta...
O carrossel parou no largo... mas não pagou na vida...
Continua em meu sonho, rodando... rodando sempre...
E andando e desandando, num ritmo contraditório,
ainda me dá a alegria inevitável de dar voltas...
de girar, de rolar como os astros no espaço,
de elevar-me a um destino superior ao do planeta,
que em torno da sua órbita, como um símbolo, roda...
— Upa! upa! meu pensamento!
In: SILVA, Da Costa e. Poesias completas. Org. Alberto Costa e Silva. 3.ed. rev. e anot. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1985. p.318-319. Poema integrante da série Alhambra
2 908
da Costa e Silva
O Carrossel Fantasma
Ganhei o dia a meditar na minha vida,
porque a saudade me levou à longínqua Amarante
que cisma, talvez por mim, debruçada sobre as águas
lentas e sonolentas do Parnaíba
a rolar para o mar como eu para o mistério...
Então, num sonho de criança convalescente,
vem-me à memória o carrossel que fascinava,
no seu giro constante, os meninos de minha idade:
Cesário, Luís, Holanda... meus irmãos Nica e Joca,
na vertigem do carrossel arrebatados tão cedo!
Tal qual o largo da matriz em noites de novena,
meu pensamento se ilumina de uma luz ardente e doce
como a dos balõezinhos pendentes dos arcos verdes,
festonados de folhagens e frementes de bandeirolas...
E vejo, com os olhos de hoje, ao fundo do largo em festa,
o mesmo carrossel ruidoso da minha ruidosa infância,
rodando... rodando... rodando continuadamente...
Eu fui o mais feliz dos meninos do meu tempo:
gastava todas as moedas das imagens que fazia
(já tinha o dom divino de um criador de imagens)
a dar voltas e voltas nos cavalos de madeira,
que galopavam automaticamente, feito cavalos
[árabes...
Era arrogante e destemido que nem os vaqueiros da
[minha terra,
quando galgava o lombo de um desses pégasos sem asas,
mas nem por sombra imaginava o meu destino de
[poeta...
O carrossel parou no largo... mas não pagou na vida...
Continua em meu sonho, rodando... rodando sempre...
E andando e desandando, num ritmo contraditório,
ainda me dá a alegria inevitável de dar voltas...
de girar, de rolar como os astros no espaço,
de elevar-me a um destino superior ao do planeta,
que em torno da sua órbita, como um símbolo, roda...
— Upa! upa! meu pensamento!
In: SILVA, Da Costa e. Poesias completas. Org. Alberto Costa e Silva. 3.ed. rev. e anot. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1985. p.318-319. Poema integrante da série Alhambra
porque a saudade me levou à longínqua Amarante
que cisma, talvez por mim, debruçada sobre as águas
lentas e sonolentas do Parnaíba
a rolar para o mar como eu para o mistério...
Então, num sonho de criança convalescente,
vem-me à memória o carrossel que fascinava,
no seu giro constante, os meninos de minha idade:
Cesário, Luís, Holanda... meus irmãos Nica e Joca,
na vertigem do carrossel arrebatados tão cedo!
Tal qual o largo da matriz em noites de novena,
meu pensamento se ilumina de uma luz ardente e doce
como a dos balõezinhos pendentes dos arcos verdes,
festonados de folhagens e frementes de bandeirolas...
E vejo, com os olhos de hoje, ao fundo do largo em festa,
o mesmo carrossel ruidoso da minha ruidosa infância,
rodando... rodando... rodando continuadamente...
Eu fui o mais feliz dos meninos do meu tempo:
gastava todas as moedas das imagens que fazia
(já tinha o dom divino de um criador de imagens)
a dar voltas e voltas nos cavalos de madeira,
que galopavam automaticamente, feito cavalos
[árabes...
Era arrogante e destemido que nem os vaqueiros da
[minha terra,
quando galgava o lombo de um desses pégasos sem asas,
mas nem por sombra imaginava o meu destino de
[poeta...
O carrossel parou no largo... mas não pagou na vida...
Continua em meu sonho, rodando... rodando sempre...
E andando e desandando, num ritmo contraditório,
ainda me dá a alegria inevitável de dar voltas...
de girar, de rolar como os astros no espaço,
de elevar-me a um destino superior ao do planeta,
que em torno da sua órbita, como um símbolo, roda...
— Upa! upa! meu pensamento!
In: SILVA, Da Costa e. Poesias completas. Org. Alberto Costa e Silva. 3.ed. rev. e anot. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1985. p.318-319. Poema integrante da série Alhambra
2 908
Lila Ripoll
No Casarão
Nasci num casarão velho, de esquina,
Escondido entre salsos pensativos.
E foi lá que a minha alma, ainda menina,
Olhando dia e noite os poentes vivos,
Aprendeu a viajar no pensamento.
Eu fui uma criança sem infância.
Senti, desde pequena, esse tormento
Que o sonho traz depois de cada ânsia,
E que é o maior dos males que conheço!
Às vezes, noite alta, eu levantava,
Vestia minha roupa pelo avesso
E saía sozinha (a lua espiava!)
Para olhar as estrelas e os céus altos...
O quintal era um mundo diferente,
Que eu percorria sem temer assaltos.
Meu corpo, que já era um pobre doente,
Tiritava de frio e de emoção
Quando o vento arrepiava os velhos salsos
Que arrastavam os braços pelo chão...
Meia-noite... Fantasmas... Bruxas brancas...
Eu sozinha vagando pelo escuro...
Minha casa fechada com mil trancas,
E as pedras a cair do velho muro...
Quando a lua fugia, já cansada,
Meus passos, silenciosos, apagados,
Voltavam pelas pedras da calçada
Que a nossa casa tinha de um dos lados.
De manhã: os olhares, as perguntas...
(Eu estava tão branca. Tão sem cor.
As olheiras iguais às de defuntas...)
— "Era o vento!" "Era o frio!" "Era o calor!":
A mentira que achava na ocasião...
E de noite, outra vez, às escondidas,
Abandonava o velho casarão...
Publicado no livro De Mãos Postas (1938).
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.1
Escondido entre salsos pensativos.
E foi lá que a minha alma, ainda menina,
Olhando dia e noite os poentes vivos,
Aprendeu a viajar no pensamento.
Eu fui uma criança sem infância.
Senti, desde pequena, esse tormento
Que o sonho traz depois de cada ânsia,
E que é o maior dos males que conheço!
Às vezes, noite alta, eu levantava,
Vestia minha roupa pelo avesso
E saía sozinha (a lua espiava!)
Para olhar as estrelas e os céus altos...
O quintal era um mundo diferente,
Que eu percorria sem temer assaltos.
Meu corpo, que já era um pobre doente,
Tiritava de frio e de emoção
Quando o vento arrepiava os velhos salsos
Que arrastavam os braços pelo chão...
Meia-noite... Fantasmas... Bruxas brancas...
Eu sozinha vagando pelo escuro...
Minha casa fechada com mil trancas,
E as pedras a cair do velho muro...
Quando a lua fugia, já cansada,
Meus passos, silenciosos, apagados,
Voltavam pelas pedras da calçada
Que a nossa casa tinha de um dos lados.
De manhã: os olhares, as perguntas...
(Eu estava tão branca. Tão sem cor.
As olheiras iguais às de defuntas...)
— "Era o vento!" "Era o frio!" "Era o calor!":
A mentira que achava na ocasião...
E de noite, outra vez, às escondidas,
Abandonava o velho casarão...
Publicado no livro De Mãos Postas (1938).
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.1
2 085
Lila Ripoll
No Casarão
Nasci num casarão velho, de esquina,
Escondido entre salsos pensativos.
E foi lá que a minha alma, ainda menina,
Olhando dia e noite os poentes vivos,
Aprendeu a viajar no pensamento.
Eu fui uma criança sem infância.
Senti, desde pequena, esse tormento
Que o sonho traz depois de cada ânsia,
E que é o maior dos males que conheço!
Às vezes, noite alta, eu levantava,
Vestia minha roupa pelo avesso
E saía sozinha (a lua espiava!)
Para olhar as estrelas e os céus altos...
O quintal era um mundo diferente,
Que eu percorria sem temer assaltos.
Meu corpo, que já era um pobre doente,
Tiritava de frio e de emoção
Quando o vento arrepiava os velhos salsos
Que arrastavam os braços pelo chão...
Meia-noite... Fantasmas... Bruxas brancas...
Eu sozinha vagando pelo escuro...
Minha casa fechada com mil trancas,
E as pedras a cair do velho muro...
Quando a lua fugia, já cansada,
Meus passos, silenciosos, apagados,
Voltavam pelas pedras da calçada
Que a nossa casa tinha de um dos lados.
De manhã: os olhares, as perguntas...
(Eu estava tão branca. Tão sem cor.
As olheiras iguais às de defuntas...)
— "Era o vento!" "Era o frio!" "Era o calor!":
A mentira que achava na ocasião...
E de noite, outra vez, às escondidas,
Abandonava o velho casarão...
Publicado no livro De Mãos Postas (1938).
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.1
Escondido entre salsos pensativos.
E foi lá que a minha alma, ainda menina,
Olhando dia e noite os poentes vivos,
Aprendeu a viajar no pensamento.
Eu fui uma criança sem infância.
Senti, desde pequena, esse tormento
Que o sonho traz depois de cada ânsia,
E que é o maior dos males que conheço!
Às vezes, noite alta, eu levantava,
Vestia minha roupa pelo avesso
E saía sozinha (a lua espiava!)
Para olhar as estrelas e os céus altos...
O quintal era um mundo diferente,
Que eu percorria sem temer assaltos.
Meu corpo, que já era um pobre doente,
Tiritava de frio e de emoção
Quando o vento arrepiava os velhos salsos
Que arrastavam os braços pelo chão...
Meia-noite... Fantasmas... Bruxas brancas...
Eu sozinha vagando pelo escuro...
Minha casa fechada com mil trancas,
E as pedras a cair do velho muro...
Quando a lua fugia, já cansada,
Meus passos, silenciosos, apagados,
Voltavam pelas pedras da calçada
Que a nossa casa tinha de um dos lados.
De manhã: os olhares, as perguntas...
(Eu estava tão branca. Tão sem cor.
As olheiras iguais às de defuntas...)
— "Era o vento!" "Era o frio!" "Era o calor!":
A mentira que achava na ocasião...
E de noite, outra vez, às escondidas,
Abandonava o velho casarão...
Publicado no livro De Mãos Postas (1938).
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.1
2 085
Alberto da Costa e Silva
Aparição de Fortaleza, setembro de 1950
Ruas e sombras de Fortaleza, meninas doces,
árvores velhas onde esqueci a infância que foi
tão triste e tão pouca, cidade onde o amor
está tombado a teus pés,
frágil e puro
como uma flor.
Onde caminho cercado pelos meus fantasmas,
entregue aos meninos que são o que fui,
embalado pela pureza de minhas próprias palavras,
cansado, tão cansado, Fortaleza,
quase perdido por vos haver perdido.
Roteiros de bicicletas pela Praça do Carmo,
ganhando as distâncias das longas alamedas,
revendo as frágeis moças que passam
na doçura morna das tardes,
recompondo a imagem dos vendeiros encarapitados nos burricos
[mansos,
a suavidade dos contornos, a brisa envolvente, os oscilantes jardins,
os longos e inesperados encontros com o desconhecido,
os pressentimentos de inúteis e infindáveis viagens
do menino triste, sentado no muro, a mãozinha no queixo.
Cidade de meu pai enfermo. Minha cidade.
Cidade onde se pode chorar sobre os muros de saudade.
Cidade feita para as lágrimas e para adeuses,
para as súbitas e inexplicáveis alegrias.
Cidade onde o mar quebra
com o impulso de velhos marinheiros náufragos
que subitamente retornassem à pureza das praias.
Publicado no livro O parque e outros poemas (1953).
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.2
árvores velhas onde esqueci a infância que foi
tão triste e tão pouca, cidade onde o amor
está tombado a teus pés,
frágil e puro
como uma flor.
Onde caminho cercado pelos meus fantasmas,
entregue aos meninos que são o que fui,
embalado pela pureza de minhas próprias palavras,
cansado, tão cansado, Fortaleza,
quase perdido por vos haver perdido.
Roteiros de bicicletas pela Praça do Carmo,
ganhando as distâncias das longas alamedas,
revendo as frágeis moças que passam
na doçura morna das tardes,
recompondo a imagem dos vendeiros encarapitados nos burricos
[mansos,
a suavidade dos contornos, a brisa envolvente, os oscilantes jardins,
os longos e inesperados encontros com o desconhecido,
os pressentimentos de inúteis e infindáveis viagens
do menino triste, sentado no muro, a mãozinha no queixo.
Cidade de meu pai enfermo. Minha cidade.
Cidade onde se pode chorar sobre os muros de saudade.
Cidade feita para as lágrimas e para adeuses,
para as súbitas e inexplicáveis alegrias.
Cidade onde o mar quebra
com o impulso de velhos marinheiros náufragos
que subitamente retornassem à pureza das praias.
Publicado no livro O parque e outros poemas (1953).
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.2
1 516
Eunice Arruda
Não Mudamos
pena
não mudamos
o tempo
escorreu
água entre
os dedos
pena
pássaros coloridos alcançam as nuvens
todos os dias
ficamos
Raízes.
In: ARRUDA, Eunice. Os momentos. Pref. Álvaro Alves de Faria. São Paulo: Nobel: Secretaria de Estado da Cultura, 1981
não mudamos
o tempo
escorreu
água entre
os dedos
pena
pássaros coloridos alcançam as nuvens
todos os dias
ficamos
Raízes.
In: ARRUDA, Eunice. Os momentos. Pref. Álvaro Alves de Faria. São Paulo: Nobel: Secretaria de Estado da Cultura, 1981
919
Eunice Arruda
Não Mudamos
pena
não mudamos
o tempo
escorreu
água entre
os dedos
pena
pássaros coloridos alcançam as nuvens
todos os dias
ficamos
Raízes.
In: ARRUDA, Eunice. Os momentos. Pref. Álvaro Alves de Faria. São Paulo: Nobel: Secretaria de Estado da Cultura, 1981
não mudamos
o tempo
escorreu
água entre
os dedos
pena
pássaros coloridos alcançam as nuvens
todos os dias
ficamos
Raízes.
In: ARRUDA, Eunice. Os momentos. Pref. Álvaro Alves de Faria. São Paulo: Nobel: Secretaria de Estado da Cultura, 1981
919
Eudoro Augusto
Bandeira Pós-Moderno (Take 1)
Vou-me embora pra Manhattan,
lá sou amigo do Ray.
Tenho a trombonista ruiva
e uma terapeuta gay.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera.
NOTA: Referência ao poema "Vou-me Embora pra Pasárgada", de Manuel Bandeir
lá sou amigo do Ray.
Tenho a trombonista ruiva
e uma terapeuta gay.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera.
NOTA: Referência ao poema "Vou-me Embora pra Pasárgada", de Manuel Bandeir
1 084
Gilberto Mendonça Teles
Manifesto da Cozinha Goiana
A Waldomiro Bariani Ortêncio
4. O Trivial
Ah! o arroz com guariroba, o arroz maria-isabel!
o arroz-de-moça-pobre, o delícia, o casadinhos,
o arroz feito com suã, o fulvo arroz com pequi!
E o feijão frito e o pagão, feijão-caipira ou tropeiro,
tutu de arroz e feijão?
E a almôndega batida,
o angu-de-milho-e-quiabo? e o refogado-de-milho,
a cambuquira, o quibebe, o molho-pardo, a paçoca,
o escaldado-de-farinha-de-milho, a galinhada,
a frigideira-de-umbigo-de-bananeira, o cará,
a tigelada-de-queijo, de mamão verde e chuchu,
e o maxixe, o mangarito, as empadas-de-domingo,
carne-de-porco-na-lata, pamonha de todo jeito?
Tudo isso e mais a fome
da cidade e do sertão,
tudo isso e mais o gosto
da pimenta e do limão,
tudo isso, minha gente,
vai perdendo a tradição,
vai ficando na saudade,
na forma de algum refrão,
de algum discurso eficaz
que possa matar a fome
comendo apenas o nome
das comidas de Goiás.
In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 97. Poema integrante da série Sombras da Terra.
NOTA: Poema composto de 5 partes: 0. Prólogo; 1. Bichos; 2. Pássaros; 3. Peixes; 4. O Trivia
4. O Trivial
Ah! o arroz com guariroba, o arroz maria-isabel!
o arroz-de-moça-pobre, o delícia, o casadinhos,
o arroz feito com suã, o fulvo arroz com pequi!
E o feijão frito e o pagão, feijão-caipira ou tropeiro,
tutu de arroz e feijão?
E a almôndega batida,
o angu-de-milho-e-quiabo? e o refogado-de-milho,
a cambuquira, o quibebe, o molho-pardo, a paçoca,
o escaldado-de-farinha-de-milho, a galinhada,
a frigideira-de-umbigo-de-bananeira, o cará,
a tigelada-de-queijo, de mamão verde e chuchu,
e o maxixe, o mangarito, as empadas-de-domingo,
carne-de-porco-na-lata, pamonha de todo jeito?
Tudo isso e mais a fome
da cidade e do sertão,
tudo isso e mais o gosto
da pimenta e do limão,
tudo isso, minha gente,
vai perdendo a tradição,
vai ficando na saudade,
na forma de algum refrão,
de algum discurso eficaz
que possa matar a fome
comendo apenas o nome
das comidas de Goiás.
In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 97. Poema integrante da série Sombras da Terra.
NOTA: Poema composto de 5 partes: 0. Prólogo; 1. Bichos; 2. Pássaros; 3. Peixes; 4. O Trivia
2 652
Stella Leonardos
Serenata em Vila Rica
"Pisar com carinho as ruas/ que o Aleijadinho
pisou/ marcando-as com sua força/ como se
essas ruas fossem/ lotes de pedra-sabão."
Henriqueta Lisboa
Pisar com carinho as ruas
que o Aleijadinho pisou
e onde serestas flutuam.
Pisar com carinho as ruas
que o Aleijadinho pisou
marcando-as com sua força
à força de frustração.
Como se as ruas não fossem
de pedra e as pedras não fossem
pedaços de coração.
In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro do Aleijadinho. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984. (Poetas de sempre, 4)
pisou/ marcando-as com sua força/ como se
essas ruas fossem/ lotes de pedra-sabão."
Henriqueta Lisboa
Pisar com carinho as ruas
que o Aleijadinho pisou
e onde serestas flutuam.
Pisar com carinho as ruas
que o Aleijadinho pisou
marcando-as com sua força
à força de frustração.
Como se as ruas não fossem
de pedra e as pedras não fossem
pedaços de coração.
In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro do Aleijadinho. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984. (Poetas de sempre, 4)
1 104
Manuel de Santa Maria Itaparica
Canto Quinto
XIII
Em um vasto me achei, e novo Mundo,
De nós desconhecido e ignorado,
Em cujas praias bate um mar profundo,
Nunca ategora de algum lenho arado:
O clima alegre, fértil e jucundo,
E o chão de árvores muitas povoado,
E no verdor das folhas julguei que era
Ali sempre contínua a Primavera.
XIV
Delas estavam pomos pendurados
Diversos na fragrância e na pintura,
Nem dos homens carecem ser plantados,
Mas agrestes se dão, e sem cultura;
E entre os troncos muitos levantados,
Que ainda a fantasia me figura,
Havia um pau de tinta mui fecunda,
Transparente na cor, e rubicunda.
XV
Pássaros muitos de diversas cores
Se viam várias ondas transformando,
E dos troncos suavíssimos licores
Em cópia grande estavam dimanando:
Peixes vi na grandeza superiores,
E animais quadrúpedes saltando,
A Terra tem do metal louro as veias,
Que de alguns rios se acha nas areias.
XVI
E quando a vista estava apascentando
Destas cousas na alegre formosura,
Um velho vi, que andava passeando,
De desmarcada e incógnita estatura:
Com sobressalto os olhos fui firmando
Naquela sempre móvel criatura,
E pareceu-me, se bem reparava,
Que vários rostos sempre me mostrava.
(...)
XVIII
Fiquei desta visão maravilhado,
Como quem de tais Monstros não sabia,
E logo perguntei sobressaltado
Quem era, que buscava, e que queria?
Ele virando o rosto remendado,
De cor da escura noute e claro dia,
Que eu era, respondeu, quem procurava,
E que Póstero, disse, se chamava.
(...)
XXII
Este pois lá num século futuro,
Posto que dela ausente e apartado,
Porque cos filhos sempre foi perjuro
O pátrio chão, e os trata sem agrado,
Por devoção intrínseca, e amor puro,
Talvez do Deus, que adoras, inspirado,
De ti e desses dous dessa pousada
Há de cantar com lira temperada.
XXIII
Aqui fez termo o velho, sufocando
A voz dentro do escuro e oculto peito,
Nunca do seu passeio descansando,
Nem quando me explicava o alto conceito:
Eu do letargo atônito despertando
Me alegrei de ver cousas deste jeito,
E vede que julgais, ó companheiros,
Que os sonhos são às vezes verdadeiros.
(...)
Publicado no livro Eustáquidos: poema sacro e tragicômico (1769*).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da fase colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.138-141. (Textos, 2
Em um vasto me achei, e novo Mundo,
De nós desconhecido e ignorado,
Em cujas praias bate um mar profundo,
Nunca ategora de algum lenho arado:
O clima alegre, fértil e jucundo,
E o chão de árvores muitas povoado,
E no verdor das folhas julguei que era
Ali sempre contínua a Primavera.
XIV
Delas estavam pomos pendurados
Diversos na fragrância e na pintura,
Nem dos homens carecem ser plantados,
Mas agrestes se dão, e sem cultura;
E entre os troncos muitos levantados,
Que ainda a fantasia me figura,
Havia um pau de tinta mui fecunda,
Transparente na cor, e rubicunda.
XV
Pássaros muitos de diversas cores
Se viam várias ondas transformando,
E dos troncos suavíssimos licores
Em cópia grande estavam dimanando:
Peixes vi na grandeza superiores,
E animais quadrúpedes saltando,
A Terra tem do metal louro as veias,
Que de alguns rios se acha nas areias.
XVI
E quando a vista estava apascentando
Destas cousas na alegre formosura,
Um velho vi, que andava passeando,
De desmarcada e incógnita estatura:
Com sobressalto os olhos fui firmando
Naquela sempre móvel criatura,
E pareceu-me, se bem reparava,
Que vários rostos sempre me mostrava.
(...)
XVIII
Fiquei desta visão maravilhado,
Como quem de tais Monstros não sabia,
E logo perguntei sobressaltado
Quem era, que buscava, e que queria?
Ele virando o rosto remendado,
De cor da escura noute e claro dia,
Que eu era, respondeu, quem procurava,
E que Póstero, disse, se chamava.
(...)
XXII
Este pois lá num século futuro,
Posto que dela ausente e apartado,
Porque cos filhos sempre foi perjuro
O pátrio chão, e os trata sem agrado,
Por devoção intrínseca, e amor puro,
Talvez do Deus, que adoras, inspirado,
De ti e desses dous dessa pousada
Há de cantar com lira temperada.
XXIII
Aqui fez termo o velho, sufocando
A voz dentro do escuro e oculto peito,
Nunca do seu passeio descansando,
Nem quando me explicava o alto conceito:
Eu do letargo atônito despertando
Me alegrei de ver cousas deste jeito,
E vede que julgais, ó companheiros,
Que os sonhos são às vezes verdadeiros.
(...)
Publicado no livro Eustáquidos: poema sacro e tragicômico (1769*).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da fase colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.138-141. (Textos, 2
2 375
Alberto de Oliveira
Terceiro Canto
I
Embala-me, balanço da mangueira,
Embala-me, que enquanto vou contigo,
Contigo venho, o meu pesar esqueço.
Rompe a luz da manhã rosada e linda,
Tudo desperta. E essa por quem padeço,
Lânguida e preguiçosa,
Entre brancos lençóis repousa ainda.
Embala-me, pendente da mangueira,
Na tensa corda, meu balanço amigo!
Em claro a noite inteira
Passei, pensando nela. Ah! que formosa
Estava ontem à tarde no mirante,
Um livro ao colo, às tranças uma rosa,
E o olhar perdido na amplidão distante!
Pensava... Em quem pensava?
Se fosse em mim... Como formosa estava!
Oh! não pausado e manso,
Mas aos arrancos, estirado voa,
Leva-me, meu balanço!
II
Assim cismando, à toa,
Olhos voltados já para a querida
Visão de Laura, já para o céu claro,
Para o campo e arredores,
A manhã passo. Sobre a serra erguida
Em frente nasce e, coroando-a, brilha
O sol. Loureja o ipê com as áureas flores.
Late nos grotões fundos, indo ao faro
Da caça, ao buzinar dos caçadores,
Da fazenda a matilha.
E no ar que sopra dos capões escuros,
Sente-se, de mistura a essências finas
E ao cheiro das resinas,
Um sabor acre de cajás maduros.
III
Cajás! Não é que lembra à Laura um dia
(Que dia claro! esplende o mato e cheira!)
Chamar-me para em sua companhia
Saboreá-los sob a cajazeira!
— Vamos sós? perguntei-lhe. E a feiticeira:
— Então! tens medo de ir comigo? — E ria.
Compõe as tranças, salta-me ligeira
Ao braço, o braço no meu braço enfia.
— Uma carreira! — Uma carreira! — Aposto!
A um sinal breve dado de partida,
Corremos. Zune o vento em nosso rosto.
Mas eu me deixo atrás ficar, correndo,
Pois mais vale que a aposta da corrida
Ver-lhe as saias a voar, como vou vendo.
Imagem - 00020004
Publicado no livro Poesias: segunda série. Poema integrante da série Alma em Flor, 1900.
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.2. (Fluminense)
NOTA: Alma em Flor é composto de 3 cantos. O terceiro tem 17 parte
Embala-me, balanço da mangueira,
Embala-me, que enquanto vou contigo,
Contigo venho, o meu pesar esqueço.
Rompe a luz da manhã rosada e linda,
Tudo desperta. E essa por quem padeço,
Lânguida e preguiçosa,
Entre brancos lençóis repousa ainda.
Embala-me, pendente da mangueira,
Na tensa corda, meu balanço amigo!
Em claro a noite inteira
Passei, pensando nela. Ah! que formosa
Estava ontem à tarde no mirante,
Um livro ao colo, às tranças uma rosa,
E o olhar perdido na amplidão distante!
Pensava... Em quem pensava?
Se fosse em mim... Como formosa estava!
Oh! não pausado e manso,
Mas aos arrancos, estirado voa,
Leva-me, meu balanço!
II
Assim cismando, à toa,
Olhos voltados já para a querida
Visão de Laura, já para o céu claro,
Para o campo e arredores,
A manhã passo. Sobre a serra erguida
Em frente nasce e, coroando-a, brilha
O sol. Loureja o ipê com as áureas flores.
Late nos grotões fundos, indo ao faro
Da caça, ao buzinar dos caçadores,
Da fazenda a matilha.
E no ar que sopra dos capões escuros,
Sente-se, de mistura a essências finas
E ao cheiro das resinas,
Um sabor acre de cajás maduros.
III
Cajás! Não é que lembra à Laura um dia
(Que dia claro! esplende o mato e cheira!)
Chamar-me para em sua companhia
Saboreá-los sob a cajazeira!
— Vamos sós? perguntei-lhe. E a feiticeira:
— Então! tens medo de ir comigo? — E ria.
Compõe as tranças, salta-me ligeira
Ao braço, o braço no meu braço enfia.
— Uma carreira! — Uma carreira! — Aposto!
A um sinal breve dado de partida,
Corremos. Zune o vento em nosso rosto.
Mas eu me deixo atrás ficar, correndo,
Pois mais vale que a aposta da corrida
Ver-lhe as saias a voar, como vou vendo.
Imagem - 00020004
Publicado no livro Poesias: segunda série. Poema integrante da série Alma em Flor, 1900.
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.2. (Fluminense)
NOTA: Alma em Flor é composto de 3 cantos. O terceiro tem 17 parte
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Felipe d’Oliveira
Cenário de Louça e de Cristal
A onda e a algazarra espocam girândolas sonoras.
As serpentinas dos risos sem compasso
se arremessam de lado a lado,
estendem no azul redes aéreas de rumores eufóricos.
A onda bate a cadência no seu gongo líquido,
— fermata sem fim, pasta melódica em que
se fundem e se amaciam
todas as notas do alarido.
A manhã ressoa,
o mar redondo é todo um copo de cristal
vibrado pelo atrito de dedos luminosos.
A manhã põe brunidos de faiança
no mosaico desmanchado sobre a areia.
As tintas se interpenetram, móveis,
— puzzle vivo que a vaga empurra e espalha —
e as cores correm, chocam-se, repelem-se,
como uma grande bola de mercúrio
desagregada em gotas coloridas.
O arlequim da manhã, caindo do alto,
desarticulou os pedaços da roupa policrômica
e foi esmaltar os "tóraces" e os ventres
com o arco-íris decomposto dos losangos.
Os corpos úmidos deslocam-se,
brilham no fundo de porcelana que o azul
espesso enxuga.
Elásticos, libertos,
os corpos úmidos desenham ritmos instintivos
e mergulhados no sol,
que os alivia de um peso igual a seu
volume em luz compacta,
ainda guardam a leveza dos movimentos na água.
A manhã progride em tons,
transborda de roxos, verdes, escarlates.
Abrem-se umbelíferas gigantéias de novos guarda-sóis.
Outros ombros irrompem de novas capas
pintalgadas, — vitrais de pano,
corrediços, baixados sobre a areia.
E o homem dos balões de borracha cai da altura
pendurado a um pára-quedas de esferas multicores
que, agitadas às pontas dos barbantes,
sacolejam no ar a flor desmanchada de
um fogo de artifício em pleno dia.
Os corpos úmidos desenrolam
a ronda dos troncos harmoniosos,
dos seios em ponta,
das espáduas queimadas,
das coxas lisas,
buscam-se, penetram-se à distância,
atropelam-se nas fugas ágeis,
sem perceber o rapaz corcunda de maiô preto,
amargo e imóvel,
recurvo, arqueado em G maiúsculo,
que pensa, triste, a olhar de longe o atleta
de camisa verde:
— Se o mundo fosse de corcundas
eu de certo teria nascido como ele...
E a manhã continua,
sacudindo cores
como uma arara que se espluma.
Publicado no livro Lanterna Verde (1926). Poema integrante da série Cenários.
In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL; Santa Maria: UFSM, 1990. p.69-70
As serpentinas dos risos sem compasso
se arremessam de lado a lado,
estendem no azul redes aéreas de rumores eufóricos.
A onda bate a cadência no seu gongo líquido,
— fermata sem fim, pasta melódica em que
se fundem e se amaciam
todas as notas do alarido.
A manhã ressoa,
o mar redondo é todo um copo de cristal
vibrado pelo atrito de dedos luminosos.
A manhã põe brunidos de faiança
no mosaico desmanchado sobre a areia.
As tintas se interpenetram, móveis,
— puzzle vivo que a vaga empurra e espalha —
e as cores correm, chocam-se, repelem-se,
como uma grande bola de mercúrio
desagregada em gotas coloridas.
O arlequim da manhã, caindo do alto,
desarticulou os pedaços da roupa policrômica
e foi esmaltar os "tóraces" e os ventres
com o arco-íris decomposto dos losangos.
Os corpos úmidos deslocam-se,
brilham no fundo de porcelana que o azul
espesso enxuga.
Elásticos, libertos,
os corpos úmidos desenham ritmos instintivos
e mergulhados no sol,
que os alivia de um peso igual a seu
volume em luz compacta,
ainda guardam a leveza dos movimentos na água.
A manhã progride em tons,
transborda de roxos, verdes, escarlates.
Abrem-se umbelíferas gigantéias de novos guarda-sóis.
Outros ombros irrompem de novas capas
pintalgadas, — vitrais de pano,
corrediços, baixados sobre a areia.
E o homem dos balões de borracha cai da altura
pendurado a um pára-quedas de esferas multicores
que, agitadas às pontas dos barbantes,
sacolejam no ar a flor desmanchada de
um fogo de artifício em pleno dia.
Os corpos úmidos desenrolam
a ronda dos troncos harmoniosos,
dos seios em ponta,
das espáduas queimadas,
das coxas lisas,
buscam-se, penetram-se à distância,
atropelam-se nas fugas ágeis,
sem perceber o rapaz corcunda de maiô preto,
amargo e imóvel,
recurvo, arqueado em G maiúsculo,
que pensa, triste, a olhar de longe o atleta
de camisa verde:
— Se o mundo fosse de corcundas
eu de certo teria nascido como ele...
E a manhã continua,
sacudindo cores
como uma arara que se espluma.
Publicado no livro Lanterna Verde (1926). Poema integrante da série Cenários.
In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL; Santa Maria: UFSM, 1990. p.69-70
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