Poemas neste tema
Vida e Existência
Manuel Bandeira
Poema do Mais Triste Maio
Meus amigos, meus inimigos,
Saibam todos que o velho bardo
Está agora, entre mil perigos,
Comendo, em vez de rosas, cardo.
Acabou-se a idade das rosas!
Das rosas, dos lírios, dos nardos
E outras espécies olorosas:
É chegado o tempo dos cardos.
E passada a sazão das rosas,
Tudo é vil, tudo é sáfio, árduo.
Nas longas horas dolorosas
Pungem fundo as puas do cardo.
As saudades não me consolam.
Antes ferem-me como dardos.
As companhias me desolam,
E os versos que me vêm, vêm tardos.
Meus amigos, meus inimigos,
Saibam todos que o velho bardo
Está agora, entre mil perigos,
Comendo, em vez de rosas, cardo.
Saibam todos que o velho bardo
Está agora, entre mil perigos,
Comendo, em vez de rosas, cardo.
Acabou-se a idade das rosas!
Das rosas, dos lírios, dos nardos
E outras espécies olorosas:
É chegado o tempo dos cardos.
E passada a sazão das rosas,
Tudo é vil, tudo é sáfio, árduo.
Nas longas horas dolorosas
Pungem fundo as puas do cardo.
As saudades não me consolam.
Antes ferem-me como dardos.
As companhias me desolam,
E os versos que me vêm, vêm tardos.
Meus amigos, meus inimigos,
Saibam todos que o velho bardo
Está agora, entre mil perigos,
Comendo, em vez de rosas, cardo.
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Manuel Bandeira
Poema do Mais Triste Maio
Meus amigos, meus inimigos,
Saibam todos que o velho bardo
Está agora, entre mil perigos,
Comendo, em vez de rosas, cardo.
Acabou-se a idade das rosas!
Das rosas, dos lírios, dos nardos
E outras espécies olorosas:
É chegado o tempo dos cardos.
E passada a sazão das rosas,
Tudo é vil, tudo é sáfio, árduo.
Nas longas horas dolorosas
Pungem fundo as puas do cardo.
As saudades não me consolam.
Antes ferem-me como dardos.
As companhias me desolam,
E os versos que me vêm, vêm tardos.
Meus amigos, meus inimigos,
Saibam todos que o velho bardo
Está agora, entre mil perigos,
Comendo, em vez de rosas, cardo.
Saibam todos que o velho bardo
Está agora, entre mil perigos,
Comendo, em vez de rosas, cardo.
Acabou-se a idade das rosas!
Das rosas, dos lírios, dos nardos
E outras espécies olorosas:
É chegado o tempo dos cardos.
E passada a sazão das rosas,
Tudo é vil, tudo é sáfio, árduo.
Nas longas horas dolorosas
Pungem fundo as puas do cardo.
As saudades não me consolam.
Antes ferem-me como dardos.
As companhias me desolam,
E os versos que me vêm, vêm tardos.
Meus amigos, meus inimigos,
Saibam todos que o velho bardo
Está agora, entre mil perigos,
Comendo, em vez de rosas, cardo.
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1
Manuel Bandeira
Passado, Presente e Futuro
Só o passado verdadeiramente nos pertence.
O presente... O presente não existe:
Le moment ou je parle est déjà loin de moi.
O futuro diz o povo que a Deus pertence.
A Deus... Ora, adeus!
O presente... O presente não existe:
Le moment ou je parle est déjà loin de moi.
O futuro diz o povo que a Deus pertence.
A Deus... Ora, adeus!
1 719
1
Manuel Bandeira
Passado, Presente e Futuro
Só o passado verdadeiramente nos pertence.
O presente... O presente não existe:
Le moment ou je parle est déjà loin de moi.
O futuro diz o povo que a Deus pertence.
A Deus... Ora, adeus!
O presente... O presente não existe:
Le moment ou je parle est déjà loin de moi.
O futuro diz o povo que a Deus pertence.
A Deus... Ora, adeus!
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Manuel Bandeira
Passado, Presente e Futuro
Só o passado verdadeiramente nos pertence.
O presente... O presente não existe:
Le moment ou je parle est déjà loin de moi.
O futuro diz o povo que a Deus pertence.
A Deus... Ora, adeus!
O presente... O presente não existe:
Le moment ou je parle est déjà loin de moi.
O futuro diz o povo que a Deus pertence.
A Deus... Ora, adeus!
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1
Marina Colasanti
EM QUE ESPELHO
Que rosto teria hoje minha mãe
se ainda estivesse viva?
Morreu cedo
aos quarenta
e não lhe vi velhice
como já vejo em mim.
Ver minha mãe mudar,
que idéia tão alheia à imutabilidade desse rosto
dessa mãe
tão mais moça que eu
que ainda assim não me é filha.
Que rosto teria eu eu
se minha mãe não tivesse morrido?
Em que espelho olharia,
que tão pouco a tive como espelho?
Ou seria eu o espelho
em que ela buscaria sua mocidade?
Mas não há prata
ou chumbo
atrás do vidro
o espelho se desfez
faz muito tempo
e quando penso mãe
há um rosto antigo
ou rosto algum,
o sentimento
apenas.
se ainda estivesse viva?
Morreu cedo
aos quarenta
e não lhe vi velhice
como já vejo em mim.
Ver minha mãe mudar,
que idéia tão alheia à imutabilidade desse rosto
dessa mãe
tão mais moça que eu
que ainda assim não me é filha.
Que rosto teria eu eu
se minha mãe não tivesse morrido?
Em que espelho olharia,
que tão pouco a tive como espelho?
Ou seria eu o espelho
em que ela buscaria sua mocidade?
Mas não há prata
ou chumbo
atrás do vidro
o espelho se desfez
faz muito tempo
e quando penso mãe
há um rosto antigo
ou rosto algum,
o sentimento
apenas.
1 550
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Marina Colasanti
EM QUE ESPELHO
Que rosto teria hoje minha mãe
se ainda estivesse viva?
Morreu cedo
aos quarenta
e não lhe vi velhice
como já vejo em mim.
Ver minha mãe mudar,
que idéia tão alheia à imutabilidade desse rosto
dessa mãe
tão mais moça que eu
que ainda assim não me é filha.
Que rosto teria eu eu
se minha mãe não tivesse morrido?
Em que espelho olharia,
que tão pouco a tive como espelho?
Ou seria eu o espelho
em que ela buscaria sua mocidade?
Mas não há prata
ou chumbo
atrás do vidro
o espelho se desfez
faz muito tempo
e quando penso mãe
há um rosto antigo
ou rosto algum,
o sentimento
apenas.
se ainda estivesse viva?
Morreu cedo
aos quarenta
e não lhe vi velhice
como já vejo em mim.
Ver minha mãe mudar,
que idéia tão alheia à imutabilidade desse rosto
dessa mãe
tão mais moça que eu
que ainda assim não me é filha.
Que rosto teria eu eu
se minha mãe não tivesse morrido?
Em que espelho olharia,
que tão pouco a tive como espelho?
Ou seria eu o espelho
em que ela buscaria sua mocidade?
Mas não há prata
ou chumbo
atrás do vidro
o espelho se desfez
faz muito tempo
e quando penso mãe
há um rosto antigo
ou rosto algum,
o sentimento
apenas.
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Marina Colasanti
EM QUE ESPELHO
Que rosto teria hoje minha mãe
se ainda estivesse viva?
Morreu cedo
aos quarenta
e não lhe vi velhice
como já vejo em mim.
Ver minha mãe mudar,
que idéia tão alheia à imutabilidade desse rosto
dessa mãe
tão mais moça que eu
que ainda assim não me é filha.
Que rosto teria eu eu
se minha mãe não tivesse morrido?
Em que espelho olharia,
que tão pouco a tive como espelho?
Ou seria eu o espelho
em que ela buscaria sua mocidade?
Mas não há prata
ou chumbo
atrás do vidro
o espelho se desfez
faz muito tempo
e quando penso mãe
há um rosto antigo
ou rosto algum,
o sentimento
apenas.
se ainda estivesse viva?
Morreu cedo
aos quarenta
e não lhe vi velhice
como já vejo em mim.
Ver minha mãe mudar,
que idéia tão alheia à imutabilidade desse rosto
dessa mãe
tão mais moça que eu
que ainda assim não me é filha.
Que rosto teria eu eu
se minha mãe não tivesse morrido?
Em que espelho olharia,
que tão pouco a tive como espelho?
Ou seria eu o espelho
em que ela buscaria sua mocidade?
Mas não há prata
ou chumbo
atrás do vidro
o espelho se desfez
faz muito tempo
e quando penso mãe
há um rosto antigo
ou rosto algum,
o sentimento
apenas.
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Manuel Bandeira
Balada do Rei das Sereias
O rei atirou
Seu anel ao mar
E disse às sereias:
— Ide-o lá buscar,
Que se o não trouxerdes,
Virareis espuma
Das ondas do mar!
Foram as sereias,
Não tardou, voltaram
Com o perdido anel.
Maldito o capricho
De rei tão cruel!
O rei atirou
Grãos de arroz ao mar
E disse às sereias:
— Ide-os lá buscar,
Que se os não trouxerdes,
Virareis espuma
Das ondas do mar!
Foram as sereias,
Não tardou, voltaram,
Não faltava um grão.
Maldito o capricho
Do mau coração!
O rei atirou
Sua filha ao mar
E disse às sereias:
— Ide-a lá buscar,
Que se a não trouxerdes,
Virareis espuma
Das ondas do mar!
Foram as sereias...
Quem as viu voltar?...
Não voltaram nunca!
Viraram espuma
Das ondas do mar.
Petrópolis, 25.3.1943
Seu anel ao mar
E disse às sereias:
— Ide-o lá buscar,
Que se o não trouxerdes,
Virareis espuma
Das ondas do mar!
Foram as sereias,
Não tardou, voltaram
Com o perdido anel.
Maldito o capricho
De rei tão cruel!
O rei atirou
Grãos de arroz ao mar
E disse às sereias:
— Ide-os lá buscar,
Que se os não trouxerdes,
Virareis espuma
Das ondas do mar!
Foram as sereias,
Não tardou, voltaram,
Não faltava um grão.
Maldito o capricho
Do mau coração!
O rei atirou
Sua filha ao mar
E disse às sereias:
— Ide-a lá buscar,
Que se a não trouxerdes,
Virareis espuma
Das ondas do mar!
Foram as sereias...
Quem as viu voltar?...
Não voltaram nunca!
Viraram espuma
Das ondas do mar.
Petrópolis, 25.3.1943
2 075
1
Manuel Bandeira
Canção do Vento e da Minha Vida
O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De frutos, de flores, de folhas.
O vento varria as luzes,
O vento varria as músicas,
O vento varria os aromas...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De aromas, de estrelas, de cânticos.
O vento varria os sonhos
E varria as amizades...
O vento varria as mulheres...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De afetos e de mulheres.
O vento varria os-meses
E varria os teus sorrisos...
O vento varria tudo!
E a minha vida ficava
Cada vaz mais cheia
De tudo.
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De frutos, de flores, de folhas.
O vento varria as luzes,
O vento varria as músicas,
O vento varria os aromas...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De aromas, de estrelas, de cânticos.
O vento varria os sonhos
E varria as amizades...
O vento varria as mulheres...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De afetos e de mulheres.
O vento varria os-meses
E varria os teus sorrisos...
O vento varria tudo!
E a minha vida ficava
Cada vaz mais cheia
De tudo.
2 272
1
Manuel Bandeira
Soneto Inglês Nº 2
Aceitar O castigo imerecido,
Não por fraqueza, mas por altivez.
No tormento mais fundo o teu gemido
Trocar num grito de ódio a quem o fez.
As delícias da carne e pensamento
Com que o instinto da espécie nos engana
Sobpor ao generoso sentimento
De uma afeição mais simplesmente humana.
Não tremer de esperança nem de espanto.
Nada pedir nem desejar senão
A coragem de ser um novo santo
Sem fé num mundo além do mundo. E então
Morrer sem uma lágrima, que a vida
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
Não por fraqueza, mas por altivez.
No tormento mais fundo o teu gemido
Trocar num grito de ódio a quem o fez.
As delícias da carne e pensamento
Com que o instinto da espécie nos engana
Sobpor ao generoso sentimento
De uma afeição mais simplesmente humana.
Não tremer de esperança nem de espanto.
Nada pedir nem desejar senão
A coragem de ser um novo santo
Sem fé num mundo além do mundo. E então
Morrer sem uma lágrima, que a vida
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
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Manuel Bandeira
Soneto Inglês Nº 2
Aceitar O castigo imerecido,
Não por fraqueza, mas por altivez.
No tormento mais fundo o teu gemido
Trocar num grito de ódio a quem o fez.
As delícias da carne e pensamento
Com que o instinto da espécie nos engana
Sobpor ao generoso sentimento
De uma afeição mais simplesmente humana.
Não tremer de esperança nem de espanto.
Nada pedir nem desejar senão
A coragem de ser um novo santo
Sem fé num mundo além do mundo. E então
Morrer sem uma lágrima, que a vida
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
Não por fraqueza, mas por altivez.
No tormento mais fundo o teu gemido
Trocar num grito de ódio a quem o fez.
As delícias da carne e pensamento
Com que o instinto da espécie nos engana
Sobpor ao generoso sentimento
De uma afeição mais simplesmente humana.
Não tremer de esperança nem de espanto.
Nada pedir nem desejar senão
A coragem de ser um novo santo
Sem fé num mundo além do mundo. E então
Morrer sem uma lágrima, que a vida
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
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1
Manuel Bandeira
O Major
O major morreu.
Reformado.
Veterano da Guerra do Paraguai.
Herói da ponte do Itororó.
Não quis honras militares.
Não quis discursos.
Apenas
À hora do enterro
O corneteiro de um batalhão de linha
Deu à boca do túmulo
O toque de silêncio.
Reformado.
Veterano da Guerra do Paraguai.
Herói da ponte do Itororó.
Não quis honras militares.
Não quis discursos.
Apenas
À hora do enterro
O corneteiro de um batalhão de linha
Deu à boca do túmulo
O toque de silêncio.
1 699
1
Manuel Bandeira
O Major
O major morreu.
Reformado.
Veterano da Guerra do Paraguai.
Herói da ponte do Itororó.
Não quis honras militares.
Não quis discursos.
Apenas
À hora do enterro
O corneteiro de um batalhão de linha
Deu à boca do túmulo
O toque de silêncio.
Reformado.
Veterano da Guerra do Paraguai.
Herói da ponte do Itororó.
Não quis honras militares.
Não quis discursos.
Apenas
À hora do enterro
O corneteiro de um batalhão de linha
Deu à boca do túmulo
O toque de silêncio.
1 699
1
Manuel Bandeira
Márcia
Se tomares como Norma
Reto caminho na vida,
Viverás da melhor forma:
Terás bom nome, conforto
E ventura garantida,
Pois chegarás a bom porto
Como ela (ou sem moela!),
Márcia bela.
Reto caminho na vida,
Viverás da melhor forma:
Terás bom nome, conforto
E ventura garantida,
Pois chegarás a bom porto
Como ela (ou sem moela!),
Márcia bela.
1 125
1
Manuel Bandeira
Piscina
Que silêncio enorme!
Na piscina verde
Gorgoleja trépida
A água da carranca.
Só a lua se banha
— Lua gorda e branca —
Na piscina verde.
Como a lua é branca!
Corre um arrepio
Silenciosamente
Na piscina verde:
Lua ela não quer.
Ah o que ela quer
A piscina verde
É o corpo queimado
De certa mulher
Que jamais se banha
Na espadana branca
Da água da carranca.
Petrópolis, 25.3.1943
Na piscina verde
Gorgoleja trépida
A água da carranca.
Só a lua se banha
— Lua gorda e branca —
Na piscina verde.
Como a lua é branca!
Corre um arrepio
Silenciosamente
Na piscina verde:
Lua ela não quer.
Ah o que ela quer
A piscina verde
É o corpo queimado
De certa mulher
Que jamais se banha
Na espadana branca
Da água da carranca.
Petrópolis, 25.3.1943
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1
Manuel Bandeira
Seio
O teu seio que em minha mão
Tive uma vez, que vez aquela!
Sinto-o ainda, e ele é dentro dela
O seio-idéia de Platão.
Tive uma vez, que vez aquela!
Sinto-o ainda, e ele é dentro dela
O seio-idéia de Platão.
1 467
1
José Saramago
De Paz E de Guerra
Na mão serena que num gesto de onda
Em estátua musical o ar modela.
Na mão torcida que num frio de gelo
A parede do tempo em fundos gritos risca.
Na mão de febre que num suor de chama
Em cinzas vai tornando quanto toca.
Na mão de seda que num afago de asa
Faz abrir os sonhos como fontes de água.
Na tua mão de paz, na tua mão de guerra,
Se já nasceu amor, faz ninho a mágoa.
Em estátua musical o ar modela.
Na mão torcida que num frio de gelo
A parede do tempo em fundos gritos risca.
Na mão de febre que num suor de chama
Em cinzas vai tornando quanto toca.
Na mão de seda que num afago de asa
Faz abrir os sonhos como fontes de água.
Na tua mão de paz, na tua mão de guerra,
Se já nasceu amor, faz ninho a mágoa.
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Ana Martins Marques
Um café com a Medusa
Ou será então que você acredita, teria ela, escreve Beyle, ainda acrescentado, que Petrarca foi infeliz só porque nunca pôde tomar um café?
W. G. Sebald, Vertigem
Tudo o que com os olhos toco
ela diz
transformo em pedra
mas tudo é já
desde sempre pedra
pó futuro
seus pais eram filhos do mar e da terra
cetáceos de um mundo arcaico
informe ainda
mas ela é mortal
destinada, como nós, ao pó
Ovídio diz ter sido justo e merecido
o castigo que lhe impingiu Atenas
transformando seus cabelos em serpentes
porque ela se deitara com Poseidon
são desde sempre as mulheres, ela diz,
condenadas pelo que fazem no leito
desde sempre amputadas
de suas terríveis cabeças
mas hoje estamos velhas
ela e eu
cansadas de refletir o tempo
como um escudo
só queremos tomar nosso café
cada serpente que lhe adorna a cabeça
fala em uma língua
e a traduz
mas na realidade
falamos pouco
enquanto olhamos o porto
e ela ajeita as asas
na cadeira
cúmplices
ela e eu
(embora eu evite
confesso
olhá-la nos olhos)
tomamos nosso café quase
em silêncio
ela diz que agora sonha apenas com o mar
que seus cabelos são algas e não serpentes
e que dançam lentamente no fundo de um oceano
cheio de monstros, como são os oceanos,
lagostas enormes e águas-vivas
e outras incongruências marinhas
corais e conchas que são
como estojos
e baleias que vivem até duzentos anos
o que para ela é nada, alguns segundos
como de fato é
e rimos as duas
que duas velhas sonhem ainda
e sempre o sexo
é talvez o que há no desejo de mais cruel
quando nele há tanto de cruel:
que ele dure, continue
e às vezes seja só desejo
do desejo
e seja móvel e mesmo
como o mar
aos que não têm mais pátria
seja porque se exilaram
seja porque o país se exilou de nós
e toma a forma dos nossos pesadelos
seja porque na realidade não há países
mas extensões variáveis de terra
que as nuvens sem passaporte
atravessam
resta só a memória do mar
ela diz
batendo inutilmente
o mar e o café
ela diz
e, a cada qual,
suas serpentes
W. G. Sebald, Vertigem
Tudo o que com os olhos toco
ela diz
transformo em pedra
mas tudo é já
desde sempre pedra
pó futuro
seus pais eram filhos do mar e da terra
cetáceos de um mundo arcaico
informe ainda
mas ela é mortal
destinada, como nós, ao pó
Ovídio diz ter sido justo e merecido
o castigo que lhe impingiu Atenas
transformando seus cabelos em serpentes
porque ela se deitara com Poseidon
são desde sempre as mulheres, ela diz,
condenadas pelo que fazem no leito
desde sempre amputadas
de suas terríveis cabeças
mas hoje estamos velhas
ela e eu
cansadas de refletir o tempo
como um escudo
só queremos tomar nosso café
cada serpente que lhe adorna a cabeça
fala em uma língua
e a traduz
mas na realidade
falamos pouco
enquanto olhamos o porto
e ela ajeita as asas
na cadeira
cúmplices
ela e eu
(embora eu evite
confesso
olhá-la nos olhos)
tomamos nosso café quase
em silêncio
ela diz que agora sonha apenas com o mar
que seus cabelos são algas e não serpentes
e que dançam lentamente no fundo de um oceano
cheio de monstros, como são os oceanos,
lagostas enormes e águas-vivas
e outras incongruências marinhas
corais e conchas que são
como estojos
e baleias que vivem até duzentos anos
o que para ela é nada, alguns segundos
como de fato é
e rimos as duas
que duas velhas sonhem ainda
e sempre o sexo
é talvez o que há no desejo de mais cruel
quando nele há tanto de cruel:
que ele dure, continue
e às vezes seja só desejo
do desejo
e seja móvel e mesmo
como o mar
aos que não têm mais pátria
seja porque se exilaram
seja porque o país se exilou de nós
e toma a forma dos nossos pesadelos
seja porque na realidade não há países
mas extensões variáveis de terra
que as nuvens sem passaporte
atravessam
resta só a memória do mar
ela diz
batendo inutilmente
o mar e o café
ela diz
e, a cada qual,
suas serpentes
1 883
1
Marina Colasanti
DUAS ALÇAS DE COURO
Íamos a Bruges e a morte nos deteve
cravada
no gleis número onze da estação de Frankfurt.
Ponteiros da banhof
mostradores nos pulsos
quartzo e perfeição germânica
todos pararam
todos
cederam passo a esse outro comboio.
Lacrada em plástico fosco
descida do vagão
a morte é saco
sem nome ou rosto
transporte apenas
sem choro.
Até que alguém traz a bolsa
- duas alças, o ventre de couro preto
a trava do fecho éclair -
e faz da morte
mulher.
Frankfurt 1994
cravada
no gleis número onze da estação de Frankfurt.
Ponteiros da banhof
mostradores nos pulsos
quartzo e perfeição germânica
todos pararam
todos
cederam passo a esse outro comboio.
Lacrada em plástico fosco
descida do vagão
a morte é saco
sem nome ou rosto
transporte apenas
sem choro.
Até que alguém traz a bolsa
- duas alças, o ventre de couro preto
a trava do fecho éclair -
e faz da morte
mulher.
Frankfurt 1994
512
1
Marina Colasanti
DUAS ALÇAS DE COURO
Íamos a Bruges e a morte nos deteve
cravada
no gleis número onze da estação de Frankfurt.
Ponteiros da banhof
mostradores nos pulsos
quartzo e perfeição germânica
todos pararam
todos
cederam passo a esse outro comboio.
Lacrada em plástico fosco
descida do vagão
a morte é saco
sem nome ou rosto
transporte apenas
sem choro.
Até que alguém traz a bolsa
- duas alças, o ventre de couro preto
a trava do fecho éclair -
e faz da morte
mulher.
Frankfurt 1994
cravada
no gleis número onze da estação de Frankfurt.
Ponteiros da banhof
mostradores nos pulsos
quartzo e perfeição germânica
todos pararam
todos
cederam passo a esse outro comboio.
Lacrada em plástico fosco
descida do vagão
a morte é saco
sem nome ou rosto
transporte apenas
sem choro.
Até que alguém traz a bolsa
- duas alças, o ventre de couro preto
a trava do fecho éclair -
e faz da morte
mulher.
Frankfurt 1994
512
1
Marina Colasanti
DUAS ALÇAS DE COURO
Íamos a Bruges e a morte nos deteve
cravada
no gleis número onze da estação de Frankfurt.
Ponteiros da banhof
mostradores nos pulsos
quartzo e perfeição germânica
todos pararam
todos
cederam passo a esse outro comboio.
Lacrada em plástico fosco
descida do vagão
a morte é saco
sem nome ou rosto
transporte apenas
sem choro.
Até que alguém traz a bolsa
- duas alças, o ventre de couro preto
a trava do fecho éclair -
e faz da morte
mulher.
Frankfurt 1994
cravada
no gleis número onze da estação de Frankfurt.
Ponteiros da banhof
mostradores nos pulsos
quartzo e perfeição germânica
todos pararam
todos
cederam passo a esse outro comboio.
Lacrada em plástico fosco
descida do vagão
a morte é saco
sem nome ou rosto
transporte apenas
sem choro.
Até que alguém traz a bolsa
- duas alças, o ventre de couro preto
a trava do fecho éclair -
e faz da morte
mulher.
Frankfurt 1994
512
1
Pablo Neruda
Manhã - XX
Minha feia, és uma castanha despenteada,
minha bela, és formosa como o vento,
minha feia, de tua boca se podem fazer duas,
minha bela, são teus beijos como frescas melancias.
Minha feia, onde estão escondidos teus seios?
São mínimos como dois vasos de trigo.
Me agradaria ver-te duas luas no peito:
as gigantescas torres de tua soberania.
Minha feia, o mar não tem tuas unhas em sua tenda,
minha bela, flor a flor, estrela por estrela,
onda por onda, mensurei teu corpo:
minha feia, te amo por tua cintura de ouro,
minha bela, te amo por uma ruga em tua fronte
amor, te amo por clara e por escura.
minha bela, és formosa como o vento,
minha feia, de tua boca se podem fazer duas,
minha bela, são teus beijos como frescas melancias.
Minha feia, onde estão escondidos teus seios?
São mínimos como dois vasos de trigo.
Me agradaria ver-te duas luas no peito:
as gigantescas torres de tua soberania.
Minha feia, o mar não tem tuas unhas em sua tenda,
minha bela, flor a flor, estrela por estrela,
onda por onda, mensurei teu corpo:
minha feia, te amo por tua cintura de ouro,
minha bela, te amo por uma ruga em tua fronte
amor, te amo por clara e por escura.
1 433
1
Ana Martins Marques
Uma alegria haver línguas
Uma alegria haver línguas
que não entendo
delas foram varridas
as lembranças todas
nelas o sentido passa entre as palavras
como a luz entre as plantas
nelas é sempre a infância
balbucio, manhã, cachorros
nelas as núpcias de tudo
com tudo
se celebram
nelas tudo é ruído
doce, antigos barulhos
nelas não há
como na nossa
mortos por baixo
(ou antes há muitos
só não
os nossos)
nelas as palavras de amor
ainda crepitam
como madeiras novas
ando nas ruas entre as pessoas
que cantam (parece-me que cantam)
nessa língua que não entendo
parece-me que expressam claramente
a vida e a morte própria
e dos outros
ou que apenas gorjeiam
sibilam, silvam
ando nas ruas e é como uma conferência
de pássaros, pianos roucos
ando nas ruas e é como se lesse
às pressas
cartas em chamas
ando nas ruas pensando como é possível
tantas pessoas falando nada
em voz alta
quando me dirigem por equívoco
a palavra sorrio como se pedisse desculpas
depois fico tentada a correr atrás daquela pessoa
e devolver-lhe a palavra que ela deixou
cair por descuido
que não entendo
delas foram varridas
as lembranças todas
nelas o sentido passa entre as palavras
como a luz entre as plantas
nelas é sempre a infância
balbucio, manhã, cachorros
nelas as núpcias de tudo
com tudo
se celebram
nelas tudo é ruído
doce, antigos barulhos
nelas não há
como na nossa
mortos por baixo
(ou antes há muitos
só não
os nossos)
nelas as palavras de amor
ainda crepitam
como madeiras novas
ando nas ruas entre as pessoas
que cantam (parece-me que cantam)
nessa língua que não entendo
parece-me que expressam claramente
a vida e a morte própria
e dos outros
ou que apenas gorjeiam
sibilam, silvam
ando nas ruas e é como uma conferência
de pássaros, pianos roucos
ando nas ruas e é como se lesse
às pressas
cartas em chamas
ando nas ruas pensando como é possível
tantas pessoas falando nada
em voz alta
quando me dirigem por equívoco
a palavra sorrio como se pedisse desculpas
depois fico tentada a correr atrás daquela pessoa
e devolver-lhe a palavra que ela deixou
cair por descuido
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