Poemas neste tema
Vida e Existência
Bruno Kampel
Nova Era
Saberão os herdeiros do novo tempo
suar de angústia
chorar de ternura
tocar olhando
dizer calando?
Poderão os inquilinos do futuro
morrer de amor e renascer
pedir perdão por não saber
tender a mão sem exigir
gritar verdades sem temor?
Descobrirá o amanhã entrante
que herda carícias impotentes
promessas incumpridas
mentiras verdadeiras
e instantes decisivos?
Quererão os dias vindouros
escancarar a porta à esperança
ler o testamento do passado
e entender, e entender, e entender?...
Já veremos quanto saberá o futuro
já ouviremos o que dirão seus anos
e o que farão seus filhos
e suas máquinas
e seus líderes
e suas bombas
e seus hinos.
Já teremos tempo de saber
se o que sabe tem gosto a esperança
se o que diz ensina o caminho
se o que oferece vale o seu preço.
As respostas virão cravadas
no horizonte cibernético
no firmamento internáutico
na ignorância terapéutica
ocultando o essencial
do vital
do letal
do fatal.
Veremos o que queiram?...
Faremos o que digam?...
Seremos migalhas errantes
sobre a toalha do tempo?...
suar de angústia
chorar de ternura
tocar olhando
dizer calando?
Poderão os inquilinos do futuro
morrer de amor e renascer
pedir perdão por não saber
tender a mão sem exigir
gritar verdades sem temor?
Descobrirá o amanhã entrante
que herda carícias impotentes
promessas incumpridas
mentiras verdadeiras
e instantes decisivos?
Quererão os dias vindouros
escancarar a porta à esperança
ler o testamento do passado
e entender, e entender, e entender?...
Já veremos quanto saberá o futuro
já ouviremos o que dirão seus anos
e o que farão seus filhos
e suas máquinas
e seus líderes
e suas bombas
e seus hinos.
Já teremos tempo de saber
se o que sabe tem gosto a esperança
se o que diz ensina o caminho
se o que oferece vale o seu preço.
As respostas virão cravadas
no horizonte cibernético
no firmamento internáutico
na ignorância terapéutica
ocultando o essencial
do vital
do letal
do fatal.
Veremos o que queiram?...
Faremos o que digam?...
Seremos migalhas errantes
sobre a toalha do tempo?...
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1
Bruno Kampel
Nova Era
Saberão os herdeiros do novo tempo
suar de angústia
chorar de ternura
tocar olhando
dizer calando?
Poderão os inquilinos do futuro
morrer de amor e renascer
pedir perdão por não saber
tender a mão sem exigir
gritar verdades sem temor?
Descobrirá o amanhã entrante
que herda carícias impotentes
promessas incumpridas
mentiras verdadeiras
e instantes decisivos?
Quererão os dias vindouros
escancarar a porta à esperança
ler o testamento do passado
e entender, e entender, e entender?...
Já veremos quanto saberá o futuro
já ouviremos o que dirão seus anos
e o que farão seus filhos
e suas máquinas
e seus líderes
e suas bombas
e seus hinos.
Já teremos tempo de saber
se o que sabe tem gosto a esperança
se o que diz ensina o caminho
se o que oferece vale o seu preço.
As respostas virão cravadas
no horizonte cibernético
no firmamento internáutico
na ignorância terapéutica
ocultando o essencial
do vital
do letal
do fatal.
Veremos o que queiram?...
Faremos o que digam?...
Seremos migalhas errantes
sobre a toalha do tempo?...
suar de angústia
chorar de ternura
tocar olhando
dizer calando?
Poderão os inquilinos do futuro
morrer de amor e renascer
pedir perdão por não saber
tender a mão sem exigir
gritar verdades sem temor?
Descobrirá o amanhã entrante
que herda carícias impotentes
promessas incumpridas
mentiras verdadeiras
e instantes decisivos?
Quererão os dias vindouros
escancarar a porta à esperança
ler o testamento do passado
e entender, e entender, e entender?...
Já veremos quanto saberá o futuro
já ouviremos o que dirão seus anos
e o que farão seus filhos
e suas máquinas
e seus líderes
e suas bombas
e seus hinos.
Já teremos tempo de saber
se o que sabe tem gosto a esperança
se o que diz ensina o caminho
se o que oferece vale o seu preço.
As respostas virão cravadas
no horizonte cibernético
no firmamento internáutico
na ignorância terapéutica
ocultando o essencial
do vital
do letal
do fatal.
Veremos o que queiram?...
Faremos o que digam?...
Seremos migalhas errantes
sobre a toalha do tempo?...
1 341
1
Manuel António Pina
O medo
Ninguém me roubará algumas coisas,
nem acerca de elas saberei transigir;
um pequeno morto morre eternamente
em qualquer sítio de tudo isto.
É a sua morte que eu vivo eternamente
quem quer que eu seja e ele seja.
As minhas palavras voltam eternamente a essa morte
como, imóvel, ao coração de um fruto.
Serei capaz
de não ter medo de nada,
nem de algumas palavras juntas?
nem acerca de elas saberei transigir;
um pequeno morto morre eternamente
em qualquer sítio de tudo isto.
É a sua morte que eu vivo eternamente
quem quer que eu seja e ele seja.
As minhas palavras voltam eternamente a essa morte
como, imóvel, ao coração de um fruto.
Serei capaz
de não ter medo de nada,
nem de algumas palavras juntas?
1 565
1
Nuno Júdice
Retrato
Amo-te; e o teu corpo dobra-se,
no espelho da memória, à luz
frouxa da lâmpada que nos
esconde. Puxo-te para fora
da moldura: e o teu rosto branco
abre um sorriso de água, e
cais sobre mim, como o
tronco suave da noite, para
que te abrace até de madrugada,
quando o sono te fecha os olhos
e o espelho, vazio, me obriga
a olhar-te no reflexo do poema.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 43 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
no espelho da memória, à luz
frouxa da lâmpada que nos
esconde. Puxo-te para fora
da moldura: e o teu rosto branco
abre um sorriso de água, e
cais sobre mim, como o
tronco suave da noite, para
que te abrace até de madrugada,
quando o sono te fecha os olhos
e o espelho, vazio, me obriga
a olhar-te no reflexo do poema.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 43 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
2 294
1
Nuno Júdice
Retrato
Amo-te; e o teu corpo dobra-se,
no espelho da memória, à luz
frouxa da lâmpada que nos
esconde. Puxo-te para fora
da moldura: e o teu rosto branco
abre um sorriso de água, e
cais sobre mim, como o
tronco suave da noite, para
que te abrace até de madrugada,
quando o sono te fecha os olhos
e o espelho, vazio, me obriga
a olhar-te no reflexo do poema.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 43 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
no espelho da memória, à luz
frouxa da lâmpada que nos
esconde. Puxo-te para fora
da moldura: e o teu rosto branco
abre um sorriso de água, e
cais sobre mim, como o
tronco suave da noite, para
que te abrace até de madrugada,
quando o sono te fecha os olhos
e o espelho, vazio, me obriga
a olhar-te no reflexo do poema.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 43 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
2 294
1
Fernando Pessoa
A morte! / Quanto mais eu pondero nela, mais
A morte!
Quanto mais eu pondero nela, mais
Me desocupa todo o sentimento
Normal e nítido que me criava
Uma como inconsciência que fazia
Com que o mistério não vivesse sempre
Comigo. Agora cada vez mais longe
Me encontro do (...) e natural
Quanto mais eu pondero nela, mais
Me desocupa todo o sentimento
Normal e nítido que me criava
Uma como inconsciência que fazia
Com que o mistério não vivesse sempre
Comigo. Agora cada vez mais longe
Me encontro do (...) e natural
1 588
1
Fernando Pessoa
A morte! / Quanto mais eu pondero nela, mais
A morte!
Quanto mais eu pondero nela, mais
Me desocupa todo o sentimento
Normal e nítido que me criava
Uma como inconsciência que fazia
Com que o mistério não vivesse sempre
Comigo. Agora cada vez mais longe
Me encontro do (...) e natural
Quanto mais eu pondero nela, mais
Me desocupa todo o sentimento
Normal e nítido que me criava
Uma como inconsciência que fazia
Com que o mistério não vivesse sempre
Comigo. Agora cada vez mais longe
Me encontro do (...) e natural
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1
Nuno Júdice
Poema de amor com imagens naturais
De súbito, todas as ondas correram para ti:
para os teus cabelos, os teus seios, a linha
exacta dos teus olhos, onde o destino se fixa
como o centro das águas que nascem em todos os pontos da terra.
De súbito, todos os rios deixaram de correr:
para os teus lábios, quando te ris, e esse riso
desce como a mais alta das cascatas para o vale
obscuro onde procuro, sem ver mais do que as sombras do céu.
De súbito, as montanhas parecem pálidas,
as árvores sem um abraço de ramagens, os
lagos sem uma profundidade de abismo, o mar
sem o brilho azul de cada dia: quando te olho,
e os teus lábios sugam toda a luz do mundo.
Nuno Júdice, in "Teoria Geral do Sentimento", pág. 23 | Quetzal Editores, 1999
para os teus cabelos, os teus seios, a linha
exacta dos teus olhos, onde o destino se fixa
como o centro das águas que nascem em todos os pontos da terra.
De súbito, todos os rios deixaram de correr:
para os teus lábios, quando te ris, e esse riso
desce como a mais alta das cascatas para o vale
obscuro onde procuro, sem ver mais do que as sombras do céu.
De súbito, as montanhas parecem pálidas,
as árvores sem um abraço de ramagens, os
lagos sem uma profundidade de abismo, o mar
sem o brilho azul de cada dia: quando te olho,
e os teus lábios sugam toda a luz do mundo.
Nuno Júdice, in "Teoria Geral do Sentimento", pág. 23 | Quetzal Editores, 1999
2 149
1
Nuno Júdice
Tempo livre
Numa tarde de domingo, em Central Park, ou
numa tarde de domingo, em Hyde Park, ou
numa tarde de domingo, no jardim do Luxemburgo, ou
num parque qualquer de uma tarde de domingo
que até pode ser o parque Eduardo VII,
deitas-te na relva com o corpo enrolado
como se fosses uma colher metida no guarda-
napo. A tarde limpa os beiços com esse
guardanapo de flores, que é o teu vestido
de domingo, e deixa-te nua sob o sol frio
do inverno de uma cidade que pode ser
Nova Iorque, Londres, Paris, ou outra qualquer,
como Lisboa. As árvores olham para outro sítio,
com os pássaros distraídos com o sol
que está naquela tarde por engano. E tu,
com os dedos presos na relva húmida, vês
o teu vestido voar, como um guardanapo,
por entre as nuvens brancas de uma tarde
de inverno.
numa tarde de domingo, em Hyde Park, ou
numa tarde de domingo, no jardim do Luxemburgo, ou
num parque qualquer de uma tarde de domingo
que até pode ser o parque Eduardo VII,
deitas-te na relva com o corpo enrolado
como se fosses uma colher metida no guarda-
napo. A tarde limpa os beiços com esse
guardanapo de flores, que é o teu vestido
de domingo, e deixa-te nua sob o sol frio
do inverno de uma cidade que pode ser
Nova Iorque, Londres, Paris, ou outra qualquer,
como Lisboa. As árvores olham para outro sítio,
com os pássaros distraídos com o sol
que está naquela tarde por engano. E tu,
com os dedos presos na relva húmida, vês
o teu vestido voar, como um guardanapo,
por entre as nuvens brancas de uma tarde
de inverno.
1 939
1
Nuno Júdice
Paradoxo natural
Na luz indecisa que deixa adivinhar
a manhã, a névoa que impregna o ar
desfaz-se quando os dedos de fogo do sol
a limpam, restituindo ao dia
a sua transparência. Mas a mulher que
ocupa o centro da paisagem não
se apercebe da mudança. O seu corpo
pertence à terra, e entrega-se
ao ritmo subterrâneo das raízes, ouvindo
o canto que regula a passagem
das estações. Um desejo de sombra apodera-se
da sua alma; e conta o tempo que falta
para a noite, para se entregar ao silêncio
do mundo, no lento eclipse
dos sentimentos.
a manhã, a névoa que impregna o ar
desfaz-se quando os dedos de fogo do sol
a limpam, restituindo ao dia
a sua transparência. Mas a mulher que
ocupa o centro da paisagem não
se apercebe da mudança. O seu corpo
pertence à terra, e entrega-se
ao ritmo subterrâneo das raízes, ouvindo
o canto que regula a passagem
das estações. Um desejo de sombra apodera-se
da sua alma; e conta o tempo que falta
para a noite, para se entregar ao silêncio
do mundo, no lento eclipse
dos sentimentos.
1 370
1
Nuno Júdice
O amor, um dever de passagem
Fui envenenado pela dor obscura do Futuro.
Eu sabia já que algo se preparava contra o meu corpo.
Agora torço-me de agonia
nos versos deste poema.
Esta é a terra outrora fértil que os meus dedos dilaceram.
Os meus lábios são feitos desta terra,
são lama quente.
Vou partir pelo teu rosto para mais longe.
A minha fome é ter-te olhado
e estar cego. Agora eu sei que te abres para o fogo
do relâmpago.
Tenho a convicção dos temporais.
já não sei nem o que digo nem o que isso importa. Guia
dos meus cabelos rasos, da melancolia,
da vida efémera dos gestos.
Nesse dia fui melhor actor do que a minha sinceridade.
A cesura enerva-me no estômago
Cortei de manhã as pontas dos dedos mas sei já que
elas crescerão de novo a proteger as unhas.
Talvez a vida seja estranha,
talvez a vida seja simples,
talvez a vida seja outra vida.
A linha branca da Beleza é a minha atitude que se transforma.
A violência do sono sobe
sobre o meu conhecimento.
Fui algures um horizonte na secessão das pálpebras.
Eu sabia já que algo se preparava contra o meu corpo.
Agora torço-me de agonia
nos versos deste poema.
Esta é a terra outrora fértil que os meus dedos dilaceram.
Os meus lábios são feitos desta terra,
são lama quente.
Vou partir pelo teu rosto para mais longe.
A minha fome é ter-te olhado
e estar cego. Agora eu sei que te abres para o fogo
do relâmpago.
Tenho a convicção dos temporais.
já não sei nem o que digo nem o que isso importa. Guia
dos meus cabelos rasos, da melancolia,
da vida efémera dos gestos.
Nesse dia fui melhor actor do que a minha sinceridade.
A cesura enerva-me no estômago
Cortei de manhã as pontas dos dedos mas sei já que
elas crescerão de novo a proteger as unhas.
Talvez a vida seja estranha,
talvez a vida seja simples,
talvez a vida seja outra vida.
A linha branca da Beleza é a minha atitude que se transforma.
A violência do sono sobe
sobre o meu conhecimento.
Fui algures um horizonte na secessão das pálpebras.
2 082
1
Nuno Júdice
O amor, um dever de passagem
Fui envenenado pela dor obscura do Futuro.
Eu sabia já que algo se preparava contra o meu corpo.
Agora torço-me de agonia
nos versos deste poema.
Esta é a terra outrora fértil que os meus dedos dilaceram.
Os meus lábios são feitos desta terra,
são lama quente.
Vou partir pelo teu rosto para mais longe.
A minha fome é ter-te olhado
e estar cego. Agora eu sei que te abres para o fogo
do relâmpago.
Tenho a convicção dos temporais.
já não sei nem o que digo nem o que isso importa. Guia
dos meus cabelos rasos, da melancolia,
da vida efémera dos gestos.
Nesse dia fui melhor actor do que a minha sinceridade.
A cesura enerva-me no estômago
Cortei de manhã as pontas dos dedos mas sei já que
elas crescerão de novo a proteger as unhas.
Talvez a vida seja estranha,
talvez a vida seja simples,
talvez a vida seja outra vida.
A linha branca da Beleza é a minha atitude que se transforma.
A violência do sono sobe
sobre o meu conhecimento.
Fui algures um horizonte na secessão das pálpebras.
Eu sabia já que algo se preparava contra o meu corpo.
Agora torço-me de agonia
nos versos deste poema.
Esta é a terra outrora fértil que os meus dedos dilaceram.
Os meus lábios são feitos desta terra,
são lama quente.
Vou partir pelo teu rosto para mais longe.
A minha fome é ter-te olhado
e estar cego. Agora eu sei que te abres para o fogo
do relâmpago.
Tenho a convicção dos temporais.
já não sei nem o que digo nem o que isso importa. Guia
dos meus cabelos rasos, da melancolia,
da vida efémera dos gestos.
Nesse dia fui melhor actor do que a minha sinceridade.
A cesura enerva-me no estômago
Cortei de manhã as pontas dos dedos mas sei já que
elas crescerão de novo a proteger as unhas.
Talvez a vida seja estranha,
talvez a vida seja simples,
talvez a vida seja outra vida.
A linha branca da Beleza é a minha atitude que se transforma.
A violência do sono sobe
sobre o meu conhecimento.
Fui algures um horizonte na secessão das pálpebras.
2 082
1
Fernando Pessoa
SALUTE TO THE SUN’S ENTRY INTO ARIES
Now at the doorway of the coming year,
Ye nymphs do gather and the garlands twine
That heroes' sons will bear
Fifty years hence in their remembering hands
And of their fathers speak with shining eyes
And of the war that stained the lands.
Weave ye the garlands, for the fame will pass,
And their grandchildren of grandchildren will
No more remember, neither care
Who their ancestor was
Who did that old crown, now scarce a crown, bear
For all must pass, that Time may have his fill.
Weave ye the garlands therefore, for this hour
Will not survive beyond the memory
Of those yet near to it who have the power
The hour somewhat like what it was to see.
Weave ye the garlands, weave
That their memory may live
Awhile, and if that mean that fame is nought,
Weave still the garlands with a gentle thought,
For weaving them, know ye
What to Time's elder shades you yet may give.
The days are heavy with the blood of men,
The year reels like a shattered wall
When the wind comes out of the caves of night.
Our minds are equal with the shaking...
We know not on what power to call
Or which side of the Truth lies right.
Alas! alas! all sides are right in war,
And that impartial vision born of peace,
And that the Gods alone can have,
Lives only in our wish that dim wars mar,
Breathes only in the halls of our release
From all the human things for which we crave.
But these are thoughts, and life is grief and fear.
Weave ye the garlands, lest the coming year
Forget, like ye, the fallen to remember
And the victors to greet.
Weave ye the garlands made
Of some strange flower that lasts unto December
And lay them at Fate's unseen feet.
Ay, for not for the heroes nor the slain
Weave ye the garlands woven with your pain.
Not for the fallen do your cheeks awhile
Flush then grow pale and your proud pain smile.
Not for a man nor for a nation do
Your garlands outreach Time
Perhaps and in eternal regions chime
With the sense of their fame who were e'er true.
For Fate alone all garlands woven are.
Unto Fate's feet the rivers of our tears
Perennial run, nor is there aught more far
Alas! than mere Fate that outwits the sun,
And that in circles round its empty name
Carries the vain course of our sterile fame
And great men as great nations equal lead
Vainly around the frame
Of nothing, like a wind along a mead.
Yet, whether for some man or for no man,
Whether for personal hopes or Fate no one,
Your garlands weave, lest the year come und span
With days fame‑empty the task e'er begun.
Weave garlands, green glad garlands, garlands sad,
Garlands of all sorts, if they glory mean,
Carry your woven garlands to their grave...
The rest is something that cannot be had -
The void as of a ship sunk nor more seen
Beneath the wave.
Ye nymphs do gather and the garlands twine
That heroes' sons will bear
Fifty years hence in their remembering hands
And of their fathers speak with shining eyes
And of the war that stained the lands.
Weave ye the garlands, for the fame will pass,
And their grandchildren of grandchildren will
No more remember, neither care
Who their ancestor was
Who did that old crown, now scarce a crown, bear
For all must pass, that Time may have his fill.
Weave ye the garlands therefore, for this hour
Will not survive beyond the memory
Of those yet near to it who have the power
The hour somewhat like what it was to see.
Weave ye the garlands, weave
That their memory may live
Awhile, and if that mean that fame is nought,
Weave still the garlands with a gentle thought,
For weaving them, know ye
What to Time's elder shades you yet may give.
The days are heavy with the blood of men,
The year reels like a shattered wall
When the wind comes out of the caves of night.
Our minds are equal with the shaking...
We know not on what power to call
Or which side of the Truth lies right.
Alas! alas! all sides are right in war,
And that impartial vision born of peace,
And that the Gods alone can have,
Lives only in our wish that dim wars mar,
Breathes only in the halls of our release
From all the human things for which we crave.
But these are thoughts, and life is grief and fear.
Weave ye the garlands, lest the coming year
Forget, like ye, the fallen to remember
And the victors to greet.
Weave ye the garlands made
Of some strange flower that lasts unto December
And lay them at Fate's unseen feet.
Ay, for not for the heroes nor the slain
Weave ye the garlands woven with your pain.
Not for the fallen do your cheeks awhile
Flush then grow pale and your proud pain smile.
Not for a man nor for a nation do
Your garlands outreach Time
Perhaps and in eternal regions chime
With the sense of their fame who were e'er true.
For Fate alone all garlands woven are.
Unto Fate's feet the rivers of our tears
Perennial run, nor is there aught more far
Alas! than mere Fate that outwits the sun,
And that in circles round its empty name
Carries the vain course of our sterile fame
And great men as great nations equal lead
Vainly around the frame
Of nothing, like a wind along a mead.
Yet, whether for some man or for no man,
Whether for personal hopes or Fate no one,
Your garlands weave, lest the year come und span
With days fame‑empty the task e'er begun.
Weave garlands, green glad garlands, garlands sad,
Garlands of all sorts, if they glory mean,
Carry your woven garlands to their grave...
The rest is something that cannot be had -
The void as of a ship sunk nor more seen
Beneath the wave.
1 588
1
Fernando Pessoa
SALUTE TO THE SUN’S ENTRY INTO ARIES
Now at the doorway of the coming year,
Ye nymphs do gather and the garlands twine
That heroes' sons will bear
Fifty years hence in their remembering hands
And of their fathers speak with shining eyes
And of the war that stained the lands.
Weave ye the garlands, for the fame will pass,
And their grandchildren of grandchildren will
No more remember, neither care
Who their ancestor was
Who did that old crown, now scarce a crown, bear
For all must pass, that Time may have his fill.
Weave ye the garlands therefore, for this hour
Will not survive beyond the memory
Of those yet near to it who have the power
The hour somewhat like what it was to see.
Weave ye the garlands, weave
That their memory may live
Awhile, and if that mean that fame is nought,
Weave still the garlands with a gentle thought,
For weaving them, know ye
What to Time's elder shades you yet may give.
The days are heavy with the blood of men,
The year reels like a shattered wall
When the wind comes out of the caves of night.
Our minds are equal with the shaking...
We know not on what power to call
Or which side of the Truth lies right.
Alas! alas! all sides are right in war,
And that impartial vision born of peace,
And that the Gods alone can have,
Lives only in our wish that dim wars mar,
Breathes only in the halls of our release
From all the human things for which we crave.
But these are thoughts, and life is grief and fear.
Weave ye the garlands, lest the coming year
Forget, like ye, the fallen to remember
And the victors to greet.
Weave ye the garlands made
Of some strange flower that lasts unto December
And lay them at Fate's unseen feet.
Ay, for not for the heroes nor the slain
Weave ye the garlands woven with your pain.
Not for the fallen do your cheeks awhile
Flush then grow pale and your proud pain smile.
Not for a man nor for a nation do
Your garlands outreach Time
Perhaps and in eternal regions chime
With the sense of their fame who were e'er true.
For Fate alone all garlands woven are.
Unto Fate's feet the rivers of our tears
Perennial run, nor is there aught more far
Alas! than mere Fate that outwits the sun,
And that in circles round its empty name
Carries the vain course of our sterile fame
And great men as great nations equal lead
Vainly around the frame
Of nothing, like a wind along a mead.
Yet, whether for some man or for no man,
Whether for personal hopes or Fate no one,
Your garlands weave, lest the year come und span
With days fame‑empty the task e'er begun.
Weave garlands, green glad garlands, garlands sad,
Garlands of all sorts, if they glory mean,
Carry your woven garlands to their grave...
The rest is something that cannot be had -
The void as of a ship sunk nor more seen
Beneath the wave.
Ye nymphs do gather and the garlands twine
That heroes' sons will bear
Fifty years hence in their remembering hands
And of their fathers speak with shining eyes
And of the war that stained the lands.
Weave ye the garlands, for the fame will pass,
And their grandchildren of grandchildren will
No more remember, neither care
Who their ancestor was
Who did that old crown, now scarce a crown, bear
For all must pass, that Time may have his fill.
Weave ye the garlands therefore, for this hour
Will not survive beyond the memory
Of those yet near to it who have the power
The hour somewhat like what it was to see.
Weave ye the garlands, weave
That their memory may live
Awhile, and if that mean that fame is nought,
Weave still the garlands with a gentle thought,
For weaving them, know ye
What to Time's elder shades you yet may give.
The days are heavy with the blood of men,
The year reels like a shattered wall
When the wind comes out of the caves of night.
Our minds are equal with the shaking...
We know not on what power to call
Or which side of the Truth lies right.
Alas! alas! all sides are right in war,
And that impartial vision born of peace,
And that the Gods alone can have,
Lives only in our wish that dim wars mar,
Breathes only in the halls of our release
From all the human things for which we crave.
But these are thoughts, and life is grief and fear.
Weave ye the garlands, lest the coming year
Forget, like ye, the fallen to remember
And the victors to greet.
Weave ye the garlands made
Of some strange flower that lasts unto December
And lay them at Fate's unseen feet.
Ay, for not for the heroes nor the slain
Weave ye the garlands woven with your pain.
Not for the fallen do your cheeks awhile
Flush then grow pale and your proud pain smile.
Not for a man nor for a nation do
Your garlands outreach Time
Perhaps and in eternal regions chime
With the sense of their fame who were e'er true.
For Fate alone all garlands woven are.
Unto Fate's feet the rivers of our tears
Perennial run, nor is there aught more far
Alas! than mere Fate that outwits the sun,
And that in circles round its empty name
Carries the vain course of our sterile fame
And great men as great nations equal lead
Vainly around the frame
Of nothing, like a wind along a mead.
Yet, whether for some man or for no man,
Whether for personal hopes or Fate no one,
Your garlands weave, lest the year come und span
With days fame‑empty the task e'er begun.
Weave garlands, green glad garlands, garlands sad,
Garlands of all sorts, if they glory mean,
Carry your woven garlands to their grave...
The rest is something that cannot be had -
The void as of a ship sunk nor more seen
Beneath the wave.
1 588
1
Fernando Pessoa
SALUTE TO THE SUN’S ENTRY INTO ARIES
Now at the doorway of the coming year,
Ye nymphs do gather and the garlands twine
That heroes' sons will bear
Fifty years hence in their remembering hands
And of their fathers speak with shining eyes
And of the war that stained the lands.
Weave ye the garlands, for the fame will pass,
And their grandchildren of grandchildren will
No more remember, neither care
Who their ancestor was
Who did that old crown, now scarce a crown, bear
For all must pass, that Time may have his fill.
Weave ye the garlands therefore, for this hour
Will not survive beyond the memory
Of those yet near to it who have the power
The hour somewhat like what it was to see.
Weave ye the garlands, weave
That their memory may live
Awhile, and if that mean that fame is nought,
Weave still the garlands with a gentle thought,
For weaving them, know ye
What to Time's elder shades you yet may give.
The days are heavy with the blood of men,
The year reels like a shattered wall
When the wind comes out of the caves of night.
Our minds are equal with the shaking...
We know not on what power to call
Or which side of the Truth lies right.
Alas! alas! all sides are right in war,
And that impartial vision born of peace,
And that the Gods alone can have,
Lives only in our wish that dim wars mar,
Breathes only in the halls of our release
From all the human things for which we crave.
But these are thoughts, and life is grief and fear.
Weave ye the garlands, lest the coming year
Forget, like ye, the fallen to remember
And the victors to greet.
Weave ye the garlands made
Of some strange flower that lasts unto December
And lay them at Fate's unseen feet.
Ay, for not for the heroes nor the slain
Weave ye the garlands woven with your pain.
Not for the fallen do your cheeks awhile
Flush then grow pale and your proud pain smile.
Not for a man nor for a nation do
Your garlands outreach Time
Perhaps and in eternal regions chime
With the sense of their fame who were e'er true.
For Fate alone all garlands woven are.
Unto Fate's feet the rivers of our tears
Perennial run, nor is there aught more far
Alas! than mere Fate that outwits the sun,
And that in circles round its empty name
Carries the vain course of our sterile fame
And great men as great nations equal lead
Vainly around the frame
Of nothing, like a wind along a mead.
Yet, whether for some man or for no man,
Whether for personal hopes or Fate no one,
Your garlands weave, lest the year come und span
With days fame‑empty the task e'er begun.
Weave garlands, green glad garlands, garlands sad,
Garlands of all sorts, if they glory mean,
Carry your woven garlands to their grave...
The rest is something that cannot be had -
The void as of a ship sunk nor more seen
Beneath the wave.
Ye nymphs do gather and the garlands twine
That heroes' sons will bear
Fifty years hence in their remembering hands
And of their fathers speak with shining eyes
And of the war that stained the lands.
Weave ye the garlands, for the fame will pass,
And their grandchildren of grandchildren will
No more remember, neither care
Who their ancestor was
Who did that old crown, now scarce a crown, bear
For all must pass, that Time may have his fill.
Weave ye the garlands therefore, for this hour
Will not survive beyond the memory
Of those yet near to it who have the power
The hour somewhat like what it was to see.
Weave ye the garlands, weave
That their memory may live
Awhile, and if that mean that fame is nought,
Weave still the garlands with a gentle thought,
For weaving them, know ye
What to Time's elder shades you yet may give.
The days are heavy with the blood of men,
The year reels like a shattered wall
When the wind comes out of the caves of night.
Our minds are equal with the shaking...
We know not on what power to call
Or which side of the Truth lies right.
Alas! alas! all sides are right in war,
And that impartial vision born of peace,
And that the Gods alone can have,
Lives only in our wish that dim wars mar,
Breathes only in the halls of our release
From all the human things for which we crave.
But these are thoughts, and life is grief and fear.
Weave ye the garlands, lest the coming year
Forget, like ye, the fallen to remember
And the victors to greet.
Weave ye the garlands made
Of some strange flower that lasts unto December
And lay them at Fate's unseen feet.
Ay, for not for the heroes nor the slain
Weave ye the garlands woven with your pain.
Not for the fallen do your cheeks awhile
Flush then grow pale and your proud pain smile.
Not for a man nor for a nation do
Your garlands outreach Time
Perhaps and in eternal regions chime
With the sense of their fame who were e'er true.
For Fate alone all garlands woven are.
Unto Fate's feet the rivers of our tears
Perennial run, nor is there aught more far
Alas! than mere Fate that outwits the sun,
And that in circles round its empty name
Carries the vain course of our sterile fame
And great men as great nations equal lead
Vainly around the frame
Of nothing, like a wind along a mead.
Yet, whether for some man or for no man,
Whether for personal hopes or Fate no one,
Your garlands weave, lest the year come und span
With days fame‑empty the task e'er begun.
Weave garlands, green glad garlands, garlands sad,
Garlands of all sorts, if they glory mean,
Carry your woven garlands to their grave...
The rest is something that cannot be had -
The void as of a ship sunk nor more seen
Beneath the wave.
1 588
1
Fernando Pessoa
SALUTE TO THE SUN’S ENTRY INTO ARIES
Now at the doorway of the coming year,
Ye nymphs do gather and the garlands twine
That heroes' sons will bear
Fifty years hence in their remembering hands
And of their fathers speak with shining eyes
And of the war that stained the lands.
Weave ye the garlands, for the fame will pass,
And their grandchildren of grandchildren will
No more remember, neither care
Who their ancestor was
Who did that old crown, now scarce a crown, bear
For all must pass, that Time may have his fill.
Weave ye the garlands therefore, for this hour
Will not survive beyond the memory
Of those yet near to it who have the power
The hour somewhat like what it was to see.
Weave ye the garlands, weave
That their memory may live
Awhile, and if that mean that fame is nought,
Weave still the garlands with a gentle thought,
For weaving them, know ye
What to Time's elder shades you yet may give.
The days are heavy with the blood of men,
The year reels like a shattered wall
When the wind comes out of the caves of night.
Our minds are equal with the shaking...
We know not on what power to call
Or which side of the Truth lies right.
Alas! alas! all sides are right in war,
And that impartial vision born of peace,
And that the Gods alone can have,
Lives only in our wish that dim wars mar,
Breathes only in the halls of our release
From all the human things for which we crave.
But these are thoughts, and life is grief and fear.
Weave ye the garlands, lest the coming year
Forget, like ye, the fallen to remember
And the victors to greet.
Weave ye the garlands made
Of some strange flower that lasts unto December
And lay them at Fate's unseen feet.
Ay, for not for the heroes nor the slain
Weave ye the garlands woven with your pain.
Not for the fallen do your cheeks awhile
Flush then grow pale and your proud pain smile.
Not for a man nor for a nation do
Your garlands outreach Time
Perhaps and in eternal regions chime
With the sense of their fame who were e'er true.
For Fate alone all garlands woven are.
Unto Fate's feet the rivers of our tears
Perennial run, nor is there aught more far
Alas! than mere Fate that outwits the sun,
And that in circles round its empty name
Carries the vain course of our sterile fame
And great men as great nations equal lead
Vainly around the frame
Of nothing, like a wind along a mead.
Yet, whether for some man or for no man,
Whether for personal hopes or Fate no one,
Your garlands weave, lest the year come und span
With days fame‑empty the task e'er begun.
Weave garlands, green glad garlands, garlands sad,
Garlands of all sorts, if they glory mean,
Carry your woven garlands to their grave...
The rest is something that cannot be had -
The void as of a ship sunk nor more seen
Beneath the wave.
Ye nymphs do gather and the garlands twine
That heroes' sons will bear
Fifty years hence in their remembering hands
And of their fathers speak with shining eyes
And of the war that stained the lands.
Weave ye the garlands, for the fame will pass,
And their grandchildren of grandchildren will
No more remember, neither care
Who their ancestor was
Who did that old crown, now scarce a crown, bear
For all must pass, that Time may have his fill.
Weave ye the garlands therefore, for this hour
Will not survive beyond the memory
Of those yet near to it who have the power
The hour somewhat like what it was to see.
Weave ye the garlands, weave
That their memory may live
Awhile, and if that mean that fame is nought,
Weave still the garlands with a gentle thought,
For weaving them, know ye
What to Time's elder shades you yet may give.
The days are heavy with the blood of men,
The year reels like a shattered wall
When the wind comes out of the caves of night.
Our minds are equal with the shaking...
We know not on what power to call
Or which side of the Truth lies right.
Alas! alas! all sides are right in war,
And that impartial vision born of peace,
And that the Gods alone can have,
Lives only in our wish that dim wars mar,
Breathes only in the halls of our release
From all the human things for which we crave.
But these are thoughts, and life is grief and fear.
Weave ye the garlands, lest the coming year
Forget, like ye, the fallen to remember
And the victors to greet.
Weave ye the garlands made
Of some strange flower that lasts unto December
And lay them at Fate's unseen feet.
Ay, for not for the heroes nor the slain
Weave ye the garlands woven with your pain.
Not for the fallen do your cheeks awhile
Flush then grow pale and your proud pain smile.
Not for a man nor for a nation do
Your garlands outreach Time
Perhaps and in eternal regions chime
With the sense of their fame who were e'er true.
For Fate alone all garlands woven are.
Unto Fate's feet the rivers of our tears
Perennial run, nor is there aught more far
Alas! than mere Fate that outwits the sun,
And that in circles round its empty name
Carries the vain course of our sterile fame
And great men as great nations equal lead
Vainly around the frame
Of nothing, like a wind along a mead.
Yet, whether for some man or for no man,
Whether for personal hopes or Fate no one,
Your garlands weave, lest the year come und span
With days fame‑empty the task e'er begun.
Weave garlands, green glad garlands, garlands sad,
Garlands of all sorts, if they glory mean,
Carry your woven garlands to their grave...
The rest is something that cannot be had -
The void as of a ship sunk nor more seen
Beneath the wave.
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1
Nuno Júdice
O que temos
Deixei contigo o meu amor,
música de açúcar a meio da tarde,
um botão de vestido por apertar
e o da vida por desapertar,
a flor que secou nas páginas de um livro,
tantas palavras por dizer
e a pressa de chegar
com o azul do céu à saída,
por entre cafés fechados e um por abrir.
Mas trouxe comigo o teu amor,
os murmúrios que o dizem quando os lembro,
a supresa de um brilho no olhar,
brinco perdido em secreto campo,
o remorso de partir ao chegar
e tudo descobrir de cada vez,
mesmo que seja igual ao que vês
neste caminho por encontrar
em que só tu me consegues guiar.
Por isso tenho tudo o que preciso,
mesmo que nada nos seja dado;
e basta-me lembrar o teu sorriso
para te sentir ao meu lado.
música de açúcar a meio da tarde,
um botão de vestido por apertar
e o da vida por desapertar,
a flor que secou nas páginas de um livro,
tantas palavras por dizer
e a pressa de chegar
com o azul do céu à saída,
por entre cafés fechados e um por abrir.
Mas trouxe comigo o teu amor,
os murmúrios que o dizem quando os lembro,
a supresa de um brilho no olhar,
brinco perdido em secreto campo,
o remorso de partir ao chegar
e tudo descobrir de cada vez,
mesmo que seja igual ao que vês
neste caminho por encontrar
em que só tu me consegues guiar.
Por isso tenho tudo o que preciso,
mesmo que nada nos seja dado;
e basta-me lembrar o teu sorriso
para te sentir ao meu lado.
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1
Bruno Kampel
Poema de amor
Sempre soube terminar os poemas
que falam de saudade, de amores
finitos, mas nunca começá-los,
pois o início tem gosto de ausência,
tem cheiro de perda, tem peso de outrora.
Amores passados, perdidos, partidos,
apenas convidam ao silêncio,
e a confissão, e a solidão, florescem
implacáveis na ponta da língua,
como brados, como adagas,
e então, ao pretender o afago,
apenas desenho um lamento profundo,
e ao tentar esquecer o inesquecível
implanto as lembranças na retina da memória,
que dói como se fosse o dia da partida
e não a hora das reminiscências.
Mas, sim: aprendi a dizer
que não te esqueço; que o eco dos teus pés
- que já foram o meu chão - retumba
a cada passo que caminho
nesta doce amargura escandinava,
escondido entre loiríssimos cabelos
e branquíssimas mentiras.
Revejo os instantes
e vejo que o tempo, a destempo,
ensina a dizer que te amo,
que te lembro quando é tarde,
quando a noite do tempo deitou-se
para sempre entre nós, como água
sem barco, como margens sem rio
como um dia sem horas.
Difícil começar a dizer
da saudade que sofro,
da angústia que vivo,
da dor que me ataca,
da culpa que sinto,
que não é vã, mas justa:
mea culpa, mea máxima culpa.
E os minutos, esses que teimam
em ficar horas a lembrar-te;
e as horas, que ficam dias teimando
em reviver os instantes que não voltam,
apenas desamarram as palavras
que impunes e sem medo
se escrevem letra a letra
lapidando um pedido de socorro,
rabiscando um retorno ao passado,
esculpindo um desejo de futuro,
conquistando uma chance de ventura.
Sim, não nego:
quis construir uma ponte de amor,
um dizer de saudade,
um grito de esperança,
um pedido de clemência.
Nem mais, nem menos,
nem muito ou pouco,
nem tarde ou nunca:
um tudo ou nada.
Sim,
um poema de amor
manchado de saudade,
pintado em cor remorso,
é o que tento iniciar
e não consigo,
pois dizendo que sim,
que te amo
e não te esqueço,
não começo, mas termino.
E isso faço, começo terminando
com um resto de esperança,
que é o fim de todos os princípios,
e repito, como um disco,
que te amo, que te amo,
e que deixar-te foi tão duro
como te saber distante.
E termino começando,
pronunciando o teu nome,
o que até agora apenas me atrevia:
vivendo de amor, e não morrendo,
suando de ternura e não de angústia
gritando de esperança e não de raiva,
é como digo que te amo,
meu Brasil nunca esquecido.
que falam de saudade, de amores
finitos, mas nunca começá-los,
pois o início tem gosto de ausência,
tem cheiro de perda, tem peso de outrora.
Amores passados, perdidos, partidos,
apenas convidam ao silêncio,
e a confissão, e a solidão, florescem
implacáveis na ponta da língua,
como brados, como adagas,
e então, ao pretender o afago,
apenas desenho um lamento profundo,
e ao tentar esquecer o inesquecível
implanto as lembranças na retina da memória,
que dói como se fosse o dia da partida
e não a hora das reminiscências.
Mas, sim: aprendi a dizer
que não te esqueço; que o eco dos teus pés
- que já foram o meu chão - retumba
a cada passo que caminho
nesta doce amargura escandinava,
escondido entre loiríssimos cabelos
e branquíssimas mentiras.
Revejo os instantes
e vejo que o tempo, a destempo,
ensina a dizer que te amo,
que te lembro quando é tarde,
quando a noite do tempo deitou-se
para sempre entre nós, como água
sem barco, como margens sem rio
como um dia sem horas.
Difícil começar a dizer
da saudade que sofro,
da angústia que vivo,
da dor que me ataca,
da culpa que sinto,
que não é vã, mas justa:
mea culpa, mea máxima culpa.
E os minutos, esses que teimam
em ficar horas a lembrar-te;
e as horas, que ficam dias teimando
em reviver os instantes que não voltam,
apenas desamarram as palavras
que impunes e sem medo
se escrevem letra a letra
lapidando um pedido de socorro,
rabiscando um retorno ao passado,
esculpindo um desejo de futuro,
conquistando uma chance de ventura.
Sim, não nego:
quis construir uma ponte de amor,
um dizer de saudade,
um grito de esperança,
um pedido de clemência.
Nem mais, nem menos,
nem muito ou pouco,
nem tarde ou nunca:
um tudo ou nada.
Sim,
um poema de amor
manchado de saudade,
pintado em cor remorso,
é o que tento iniciar
e não consigo,
pois dizendo que sim,
que te amo
e não te esqueço,
não começo, mas termino.
E isso faço, começo terminando
com um resto de esperança,
que é o fim de todos os princípios,
e repito, como um disco,
que te amo, que te amo,
e que deixar-te foi tão duro
como te saber distante.
E termino começando,
pronunciando o teu nome,
o que até agora apenas me atrevia:
vivendo de amor, e não morrendo,
suando de ternura e não de angústia
gritando de esperança e não de raiva,
é como digo que te amo,
meu Brasil nunca esquecido.
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1
Fernando Pessoa
O conto antigo da Gata Borralheira,
O conto antigo da Gata Borralheira,
O João Ratão e o Barba Azul e os 40 Ladrões,
E depois o Catecismo e a história de Cristo
E depois todos os poetas e todos os filósofos;
E a lenha ardia na lareira quando se contavam contos,
O sol havia lá fora em dias de destino,
E por cima da leitura dos poetas as árvores e as terras...
Só hoje vejo o que é que aconteceu na verdade.
Que a lenha ardida, cantante porque ardia,
Que o sol dos dias de destino, porque já não há,
Que as árvores e as terras (para além das páginas dos poetas) —
Que disto tudo só fica o que nunca foi:
Porque a recompensa de não existir é estar sempre presente.
O João Ratão e o Barba Azul e os 40 Ladrões,
E depois o Catecismo e a história de Cristo
E depois todos os poetas e todos os filósofos;
E a lenha ardia na lareira quando se contavam contos,
O sol havia lá fora em dias de destino,
E por cima da leitura dos poetas as árvores e as terras...
Só hoje vejo o que é que aconteceu na verdade.
Que a lenha ardida, cantante porque ardia,
Que o sol dos dias de destino, porque já não há,
Que as árvores e as terras (para além das páginas dos poetas) —
Que disto tudo só fica o que nunca foi:
Porque a recompensa de não existir é estar sempre presente.
1 191
1
Fernando Pessoa
O conto antigo da Gata Borralheira,
O conto antigo da Gata Borralheira,
O João Ratão e o Barba Azul e os 40 Ladrões,
E depois o Catecismo e a história de Cristo
E depois todos os poetas e todos os filósofos;
E a lenha ardia na lareira quando se contavam contos,
O sol havia lá fora em dias de destino,
E por cima da leitura dos poetas as árvores e as terras...
Só hoje vejo o que é que aconteceu na verdade.
Que a lenha ardida, cantante porque ardia,
Que o sol dos dias de destino, porque já não há,
Que as árvores e as terras (para além das páginas dos poetas) —
Que disto tudo só fica o que nunca foi:
Porque a recompensa de não existir é estar sempre presente.
O João Ratão e o Barba Azul e os 40 Ladrões,
E depois o Catecismo e a história de Cristo
E depois todos os poetas e todos os filósofos;
E a lenha ardia na lareira quando se contavam contos,
O sol havia lá fora em dias de destino,
E por cima da leitura dos poetas as árvores e as terras...
Só hoje vejo o que é que aconteceu na verdade.
Que a lenha ardida, cantante porque ardia,
Que o sol dos dias de destino, porque já não há,
Que as árvores e as terras (para além das páginas dos poetas) —
Que disto tudo só fica o que nunca foi:
Porque a recompensa de não existir é estar sempre presente.
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1
Nuno Júdice
Confissão
De um e outro lado do que sou,
da luz e da obscuridade,
do ouro e do pó,
ouço pedirem-me que escolha;
e deixe para trás a inquietação,
a dor,
um peso de não sei que ansiedade.
Mas levo comigo tudo
o que recuso. Sinto
colar-se-me às costas
um resto de noite;
e não sei voltar-me
para a frente, onde
amanhece.
da luz e da obscuridade,
do ouro e do pó,
ouço pedirem-me que escolha;
e deixe para trás a inquietação,
a dor,
um peso de não sei que ansiedade.
Mas levo comigo tudo
o que recuso. Sinto
colar-se-me às costas
um resto de noite;
e não sei voltar-me
para a frente, onde
amanhece.
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Nuno Júdice
Confissão
De um e outro lado do que sou,
da luz e da obscuridade,
do ouro e do pó,
ouço pedirem-me que escolha;
e deixe para trás a inquietação,
a dor,
um peso de não sei que ansiedade.
Mas levo comigo tudo
o que recuso. Sinto
colar-se-me às costas
um resto de noite;
e não sei voltar-me
para a frente, onde
amanhece.
da luz e da obscuridade,
do ouro e do pó,
ouço pedirem-me que escolha;
e deixe para trás a inquietação,
a dor,
um peso de não sei que ansiedade.
Mas levo comigo tudo
o que recuso. Sinto
colar-se-me às costas
um resto de noite;
e não sei voltar-me
para a frente, onde
amanhece.
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1
Manuel António Pina
O lado de fora
Eu não procuro nada em ti,
nem a mim próprio, é algo em ti
que procura algo em ti
no labirinto dos meus pensamentos.
Eu estou entre ti e ti,
a minha vida, os meus sentidos
(principalmente os meus sentidos)
toldam de sombras o teu rosto.
O meu rosto não reflecte a tua imagem
o meu silêncio não te deixa falar,
o meu corpo não deixa que se juntem
as partes dispersas de ti em mim.
Eu sou talvez
aquele que procuras,
e as minhas dúvidas a tua voz
chamando do fundo do meu coração.
nem a mim próprio, é algo em ti
que procura algo em ti
no labirinto dos meus pensamentos.
Eu estou entre ti e ti,
a minha vida, os meus sentidos
(principalmente os meus sentidos)
toldam de sombras o teu rosto.
O meu rosto não reflecte a tua imagem
o meu silêncio não te deixa falar,
o meu corpo não deixa que se juntem
as partes dispersas de ti em mim.
Eu sou talvez
aquele que procuras,
e as minhas dúvidas a tua voz
chamando do fundo do meu coração.
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Manuel António Pina
O lado de fora
Eu não procuro nada em ti,
nem a mim próprio, é algo em ti
que procura algo em ti
no labirinto dos meus pensamentos.
Eu estou entre ti e ti,
a minha vida, os meus sentidos
(principalmente os meus sentidos)
toldam de sombras o teu rosto.
O meu rosto não reflecte a tua imagem
o meu silêncio não te deixa falar,
o meu corpo não deixa que se juntem
as partes dispersas de ti em mim.
Eu sou talvez
aquele que procuras,
e as minhas dúvidas a tua voz
chamando do fundo do meu coração.
nem a mim próprio, é algo em ti
que procura algo em ti
no labirinto dos meus pensamentos.
Eu estou entre ti e ti,
a minha vida, os meus sentidos
(principalmente os meus sentidos)
toldam de sombras o teu rosto.
O meu rosto não reflecte a tua imagem
o meu silêncio não te deixa falar,
o meu corpo não deixa que se juntem
as partes dispersas de ti em mim.
Eu sou talvez
aquele que procuras,
e as minhas dúvidas a tua voz
chamando do fundo do meu coração.
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