Poemas neste tema
Vida e Existência
Bocage
Levanta Alzira os olhos pudibunda
Levanta Alzira os olhos pudibunda
Para ver onde a mão lhe conduzia;
Vendo que nela a porra lhe metia
Fez-se mais do que o nácar rubicunda:
Toco o pentelho seu, toco a rotunda
Lisa bimba, onde Amor seu trono erguia;
Entretanto em desejos ardia,
Brando licor o pássaro lhe inunda:
Co dedo a greta sua lhe coçava;
Ela, maquinalmente a mão movendo,
Docemente o caralho embalava:
"mais depressa" – lhe digo então morrendo,
Enquanto ela sinais do mesmo dava;
Mística pívia assim fomos comendo.
Para ver onde a mão lhe conduzia;
Vendo que nela a porra lhe metia
Fez-se mais do que o nácar rubicunda:
Toco o pentelho seu, toco a rotunda
Lisa bimba, onde Amor seu trono erguia;
Entretanto em desejos ardia,
Brando licor o pássaro lhe inunda:
Co dedo a greta sua lhe coçava;
Ela, maquinalmente a mão movendo,
Docemente o caralho embalava:
"mais depressa" – lhe digo então morrendo,
Enquanto ela sinais do mesmo dava;
Mística pívia assim fomos comendo.
2 052
1
José Tolentino Mendonça
Calle Principe, 25
Perdemos repentinamente
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
a conservar
mas levamos anos
a esquecer alguém
que nos olhou apenas
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
a conservar
mas levamos anos
a esquecer alguém
que nos olhou apenas
3 205
1
José Tolentino Mendonça
Calle Principe, 25
Perdemos repentinamente
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
a conservar
mas levamos anos
a esquecer alguém
que nos olhou apenas
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
a conservar
mas levamos anos
a esquecer alguém
que nos olhou apenas
3 205
1
José Agostinho Baptista
Urgência
Levanta-te e deixa-me entrar,
diria se pudesse,
junto a esta cama onde a dor te contempla,
sob este tecto frio que não inventa qualquer
paisagem,
qualquer lembrança de barcos ancorados no
vazio da nossa alma,
diria que lá fora escuto a sirene que se
aproxima
e a chuva que bate com as suas gotas de
angústia na pedras da estrada,
diria que essas quatro rodas vão levar-te,ao
longo do pánico e da noite,
para outras paredes onde nenhum crucifixo
redime a desolação das casas,
diria que se afastaram para sempre os
dias antigos,
as suas laranjas,a sua água,
uma cerejeira breve onde os melros cantavam.
diria se pudesse,
junto a esta cama onde a dor te contempla,
sob este tecto frio que não inventa qualquer
paisagem,
qualquer lembrança de barcos ancorados no
vazio da nossa alma,
diria que lá fora escuto a sirene que se
aproxima
e a chuva que bate com as suas gotas de
angústia na pedras da estrada,
diria que essas quatro rodas vão levar-te,ao
longo do pánico e da noite,
para outras paredes onde nenhum crucifixo
redime a desolação das casas,
diria que se afastaram para sempre os
dias antigos,
as suas laranjas,a sua água,
uma cerejeira breve onde os melros cantavam.
1 957
1
Ernesto de Melo e Castro
Autobiografia fenómeno-F(re)udiana
fui chulo dancei a chula
fui lira dancei o vira
fui drogas comi doutoras
fui tinta mijei tinteiro
só não fui é paneleiro
fui minas chupei meninas
consumi os 3 de vez
entortei cornos que fiz
ganhei e perdi dinheiro
só não fui é paneleiro
fui língua cantei o tango
fui fraco fodi o frango
fui marido fui comido
no mastro do meu veleiro
só não fui é paneleiro
fui punho bati punheta
fui alho chupei alheira
fui corno toquei corneta
fui vivo virei viveiro
só não fui é paneleiro
trinquei as mamas às amas
toquei árias às canárias
virei as telhas às velhas
comi putas sem dinheiro
só não fui é paneleiro
e de tudo o que já fui
a pena me dá no cu
de prazer tão verdadeiro
só não sou é paneleiro.
fui lira dancei o vira
fui drogas comi doutoras
fui tinta mijei tinteiro
só não fui é paneleiro
fui minas chupei meninas
consumi os 3 de vez
entortei cornos que fiz
ganhei e perdi dinheiro
só não fui é paneleiro
fui língua cantei o tango
fui fraco fodi o frango
fui marido fui comido
no mastro do meu veleiro
só não fui é paneleiro
fui punho bati punheta
fui alho chupei alheira
fui corno toquei corneta
fui vivo virei viveiro
só não fui é paneleiro
trinquei as mamas às amas
toquei árias às canárias
virei as telhas às velhas
comi putas sem dinheiro
só não fui é paneleiro
e de tudo o que já fui
a pena me dá no cu
de prazer tão verdadeiro
só não sou é paneleiro.
1 320
1
Ernesto de Melo e Castro
Autobiografia fenómeno-F(re)udiana
fui chulo dancei a chula
fui lira dancei o vira
fui drogas comi doutoras
fui tinta mijei tinteiro
só não fui é paneleiro
fui minas chupei meninas
consumi os 3 de vez
entortei cornos que fiz
ganhei e perdi dinheiro
só não fui é paneleiro
fui língua cantei o tango
fui fraco fodi o frango
fui marido fui comido
no mastro do meu veleiro
só não fui é paneleiro
fui punho bati punheta
fui alho chupei alheira
fui corno toquei corneta
fui vivo virei viveiro
só não fui é paneleiro
trinquei as mamas às amas
toquei árias às canárias
virei as telhas às velhas
comi putas sem dinheiro
só não fui é paneleiro
e de tudo o que já fui
a pena me dá no cu
de prazer tão verdadeiro
só não sou é paneleiro.
fui lira dancei o vira
fui drogas comi doutoras
fui tinta mijei tinteiro
só não fui é paneleiro
fui minas chupei meninas
consumi os 3 de vez
entortei cornos que fiz
ganhei e perdi dinheiro
só não fui é paneleiro
fui língua cantei o tango
fui fraco fodi o frango
fui marido fui comido
no mastro do meu veleiro
só não fui é paneleiro
fui punho bati punheta
fui alho chupei alheira
fui corno toquei corneta
fui vivo virei viveiro
só não fui é paneleiro
trinquei as mamas às amas
toquei árias às canárias
virei as telhas às velhas
comi putas sem dinheiro
só não fui é paneleiro
e de tudo o que já fui
a pena me dá no cu
de prazer tão verdadeiro
só não sou é paneleiro.
1 320
1
Luiza Neto Jorge
SO-NETO JORGE,Luiza
A silabar que o poema é estulto
o amado abre os dentes e eu deslizo;
sismos,orgasmos tremem-lhe no olhar
enquanto eu,quase a rimar,exulto.
Conheço toda a terra só de amar:
sem nós e sem desvãos,um corpo liso.
Tenho o mênstruo escondido num reduto
onde teoricamente chega o mar.
Nos desertos-íntimos,insuspeitos-
já caem com a calma as avestruzes
-ou a distância,com os oásis,finda;
à medida que nos arcaicos leitos
se vão molhando vozes e alcatruzes
ao descerem ao fundo pego,e à vinda.
de O Amor e o Ócio
o amado abre os dentes e eu deslizo;
sismos,orgasmos tremem-lhe no olhar
enquanto eu,quase a rimar,exulto.
Conheço toda a terra só de amar:
sem nós e sem desvãos,um corpo liso.
Tenho o mênstruo escondido num reduto
onde teoricamente chega o mar.
Nos desertos-íntimos,insuspeitos-
já caem com a calma as avestruzes
-ou a distância,com os oásis,finda;
à medida que nos arcaicos leitos
se vão molhando vozes e alcatruzes
ao descerem ao fundo pego,e à vinda.
de O Amor e o Ócio
2 064
1
Bocage
Soneto do Pregador Pecador
Bojudo fradalhão de larga venta,
Abysmo immundo de tabaco esturro,
Doutor na asneira, na sciencia burro,
Com barba hirsuta, que no peito assenta:
No pulpito um domingo se apresenta;
Préga nas grades espantoso murro;
E acalmado do povo o gran sussurro
O dique das asneiras arrebenta.
Quatro putas mofavam de seus brados,
Não querendo que gritasse contra as modas
Um peccador dos mais desaforados:
«Não (diz uma) tu, padre, não me engodas:
Sempre me ha de lembrar por meus peccados
A noute, em que me deste nove fodas!»
Abysmo immundo de tabaco esturro,
Doutor na asneira, na sciencia burro,
Com barba hirsuta, que no peito assenta:
No pulpito um domingo se apresenta;
Préga nas grades espantoso murro;
E acalmado do povo o gran sussurro
O dique das asneiras arrebenta.
Quatro putas mofavam de seus brados,
Não querendo que gritasse contra as modas
Um peccador dos mais desaforados:
«Não (diz uma) tu, padre, não me engodas:
Sempre me ha de lembrar por meus peccados
A noute, em que me deste nove fodas!»
2 286
1
Natércia Freire
E levantam-se as pessoas
E levantam-se as pessoas
E levantam-se as
pessoascomo quem se adormecesse.Preparam-se para o
sonode uma vigília nas ruasnas casas e nos
empregos.E naufragam e sufocamnas avenidas do
Tempo.Conversam como quem fechacreches gaiolas
enterros-crianças aves e mortosNos sorrisos e nos
risosna lucidez dos reflexospensam os tristes dos
homensganhar os dias correndo.Mas são retidos nas
sombras.São amarrados aos ventosão sacudidos em
potrose forcas de entendimento.Eles que são
cabeleiras,nas chuvas de outros intentosnos rios e nas
goteiras.E levantam-se as pessoascomo quem fosse
viver.Dá o Sol por sobre o Diafaz o dia
apodrecer.(Maduro quer dizer Mortecom toda a
sabedoria)Deitam-se então as pessoaspara a morte de outro
dia.
E levantam-se as
pessoascomo quem se adormecesse.Preparam-se para o
sonode uma vigília nas ruasnas casas e nos
empregos.E naufragam e sufocamnas avenidas do
Tempo.Conversam como quem fechacreches gaiolas
enterros-crianças aves e mortosNos sorrisos e nos
risosna lucidez dos reflexospensam os tristes dos
homensganhar os dias correndo.Mas são retidos nas
sombras.São amarrados aos ventosão sacudidos em
potrose forcas de entendimento.Eles que são
cabeleiras,nas chuvas de outros intentosnos rios e nas
goteiras.E levantam-se as pessoascomo quem fosse
viver.Dá o Sol por sobre o Diafaz o dia
apodrecer.(Maduro quer dizer Mortecom toda a
sabedoria)Deitam-se então as pessoaspara a morte de outro
dia.
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1
Natércia Freire
E levantam-se as pessoas
E levantam-se as pessoas
E levantam-se as
pessoascomo quem se adormecesse.Preparam-se para o
sonode uma vigília nas ruasnas casas e nos
empregos.E naufragam e sufocamnas avenidas do
Tempo.Conversam como quem fechacreches gaiolas
enterros-crianças aves e mortosNos sorrisos e nos
risosna lucidez dos reflexospensam os tristes dos
homensganhar os dias correndo.Mas são retidos nas
sombras.São amarrados aos ventosão sacudidos em
potrose forcas de entendimento.Eles que são
cabeleiras,nas chuvas de outros intentosnos rios e nas
goteiras.E levantam-se as pessoascomo quem fosse
viver.Dá o Sol por sobre o Diafaz o dia
apodrecer.(Maduro quer dizer Mortecom toda a
sabedoria)Deitam-se então as pessoaspara a morte de outro
dia.
E levantam-se as
pessoascomo quem se adormecesse.Preparam-se para o
sonode uma vigília nas ruasnas casas e nos
empregos.E naufragam e sufocamnas avenidas do
Tempo.Conversam como quem fechacreches gaiolas
enterros-crianças aves e mortosNos sorrisos e nos
risosna lucidez dos reflexospensam os tristes dos
homensganhar os dias correndo.Mas são retidos nas
sombras.São amarrados aos ventosão sacudidos em
potrose forcas de entendimento.Eles que são
cabeleiras,nas chuvas de outros intentosnos rios e nas
goteiras.E levantam-se as pessoascomo quem fosse
viver.Dá o Sol por sobre o Diafaz o dia
apodrecer.(Maduro quer dizer Mortecom toda a
sabedoria)Deitam-se então as pessoaspara a morte de outro
dia.
1 385
1
Rafael Alberti
Si mi voz muriera en tierra
Si mi voz muriera en tierra
llevadla al nivel del mar
y dejadla en la ribera.
Llevadla al nivel del mar
y nombardla capitana
de un blanco bajel de guerra.
¡Oh mi voz condecorada
con la insignia marinera:
sobre el corazón un ancla
y sobre el ancla una estrella
y sobre la estrella el viento
y sobre el viento la vela!
llevadla al nivel del mar
y dejadla en la ribera.
Llevadla al nivel del mar
y nombardla capitana
de un blanco bajel de guerra.
¡Oh mi voz condecorada
con la insignia marinera:
sobre el corazón un ancla
y sobre el ancla una estrella
y sobre la estrella el viento
y sobre el viento la vela!
2 220
1
Daniel Faria
Se fores pela direita
Se fores pela direita
Olharei em redor
Se fores pela esquerda e descansares
Olharei em redor
O meu olhar há-de acompanhar-te
Como a poeira à volta dos teus pés
Se desceres à planície
E fizeres a tenda com o véu da mulher
Não desviarei o olhar
Não dividirei a túnica
Se fores pelo centro de ti mesmo
Tactearei
Abrirei a mão e estarás próximo
Basta respirares
E olharei em redor
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)
Olharei em redor
Se fores pela esquerda e descansares
Olharei em redor
O meu olhar há-de acompanhar-te
Como a poeira à volta dos teus pés
Se desceres à planície
E fizeres a tenda com o véu da mulher
Não desviarei o olhar
Não dividirei a túnica
Se fores pelo centro de ti mesmo
Tactearei
Abrirei a mão e estarás próximo
Basta respirares
E olharei em redor
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)
2 126
1
William Blake
The Tyger
The Tyger
Tyger Tyger, burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?
In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand, dare sieze the fire?
And what shoulder, & what art,
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand? & what dread feet?
What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? what dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?
When the stars threw down their spears
And waterd heaven with their tears,
Did he smile his work to see?
Did he who made the Lamb make thee?
Tyger Tyger, burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?
Tyger Tyger, burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?
In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand, dare sieze the fire?
And what shoulder, & what art,
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand? & what dread feet?
What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? what dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?
When the stars threw down their spears
And waterd heaven with their tears,
Did he smile his work to see?
Did he who made the Lamb make thee?
Tyger Tyger, burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?
1 910
1
João de Jesus Paes Loureiro
O Poeta
Debruçado no poço
salmodia
e a própria voz escuta.
Osso.
atirado a si mesmo
(espelho)
por um cão faminto.
salmodia
e a própria voz escuta.
Osso.
atirado a si mesmo
(espelho)
por um cão faminto.
1 134
1
Jorge Macedo
Nos pés do recomeço
1
na cidade
nos pés
o recomeço
vai-se
é-se
reconstrutivo
a parede
demolida
revém
no contorno
do
dia
2
as esquinas
de tudo
entornam
seus rostos
de tempo
emerso
no sol todos os dias outro
3
crescendo
cres
cen
do
crescentes
crescem
acrescendo
rosas
chaminés
crescendo
no elã
guindastes
creem
branco rosar
rosamão
fumo não
caracóis
sim rosas
4
a cidade
nome
doutro oceano
é mais
líquida
vertiginosa
enchente
5
no elã de guindastes
semeando
hastes
no tamanho
das ânsias
o despertar
o loiro
estua
os barcos
guindados
para a dimensão rósea das rotas
na cidade
nos pés
o recomeço
vai-se
é-se
reconstrutivo
a parede
demolida
revém
no contorno
do
dia
2
as esquinas
de tudo
entornam
seus rostos
de tempo
emerso
no sol todos os dias outro
3
crescendo
cres
cen
do
crescentes
crescem
acrescendo
rosas
chaminés
crescendo
no elã
guindastes
creem
branco rosar
rosamão
fumo não
caracóis
sim rosas
4
a cidade
nome
doutro oceano
é mais
líquida
vertiginosa
enchente
5
no elã de guindastes
semeando
hastes
no tamanho
das ânsias
o despertar
o loiro
estua
os barcos
guindados
para a dimensão rósea das rotas
1 071
1
Jorge Macedo
Nos pés do recomeço
1
na cidade
nos pés
o recomeço
vai-se
é-se
reconstrutivo
a parede
demolida
revém
no contorno
do
dia
2
as esquinas
de tudo
entornam
seus rostos
de tempo
emerso
no sol todos os dias outro
3
crescendo
cres
cen
do
crescentes
crescem
acrescendo
rosas
chaminés
crescendo
no elã
guindastes
creem
branco rosar
rosamão
fumo não
caracóis
sim rosas
4
a cidade
nome
doutro oceano
é mais
líquida
vertiginosa
enchente
5
no elã de guindastes
semeando
hastes
no tamanho
das ânsias
o despertar
o loiro
estua
os barcos
guindados
para a dimensão rósea das rotas
na cidade
nos pés
o recomeço
vai-se
é-se
reconstrutivo
a parede
demolida
revém
no contorno
do
dia
2
as esquinas
de tudo
entornam
seus rostos
de tempo
emerso
no sol todos os dias outro
3
crescendo
cres
cen
do
crescentes
crescem
acrescendo
rosas
chaminés
crescendo
no elã
guindastes
creem
branco rosar
rosamão
fumo não
caracóis
sim rosas
4
a cidade
nome
doutro oceano
é mais
líquida
vertiginosa
enchente
5
no elã de guindastes
semeando
hastes
no tamanho
das ânsias
o despertar
o loiro
estua
os barcos
guindados
para a dimensão rósea das rotas
1 071
1
Eugénio de Andrade
Desde a aurora
Como um sol de polpa escura
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão,
entre os veios do sono
e da memória procuram-te:
à vertigem do ar
abrem as portas:
vai entrar o vento ou o violento
aroma de uma candeia,
e subitamente a ferida
recomeça a sangrar:
é tempo de colher: a noite
iluminou-se bago a bago:vais surgir
para beber de um trago
como um grito contra o muro.
Sou eu, desde a aurora,
eu-a terra-que te procuro.
de Obscuro Domínio
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão,
entre os veios do sono
e da memória procuram-te:
à vertigem do ar
abrem as portas:
vai entrar o vento ou o violento
aroma de uma candeia,
e subitamente a ferida
recomeça a sangrar:
é tempo de colher: a noite
iluminou-se bago a bago:vais surgir
para beber de um trago
como um grito contra o muro.
Sou eu, desde a aurora,
eu-a terra-que te procuro.
de Obscuro Domínio
6 746
1
Eugénio de Andrade
Desde a aurora
Como um sol de polpa escura
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão,
entre os veios do sono
e da memória procuram-te:
à vertigem do ar
abrem as portas:
vai entrar o vento ou o violento
aroma de uma candeia,
e subitamente a ferida
recomeça a sangrar:
é tempo de colher: a noite
iluminou-se bago a bago:vais surgir
para beber de um trago
como um grito contra o muro.
Sou eu, desde a aurora,
eu-a terra-que te procuro.
de Obscuro Domínio
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão,
entre os veios do sono
e da memória procuram-te:
à vertigem do ar
abrem as portas:
vai entrar o vento ou o violento
aroma de uma candeia,
e subitamente a ferida
recomeça a sangrar:
é tempo de colher: a noite
iluminou-se bago a bago:vais surgir
para beber de um trago
como um grito contra o muro.
Sou eu, desde a aurora,
eu-a terra-que te procuro.
de Obscuro Domínio
6 746
1
Mario Benedetti
No te salves
No te quedes inmóvil
al borde del camino
no congeles el júbilo
no quieras con desgana
no te salves ahora
ni nunca
no te salves
no te llenes de calma
no reserves del mundo
sólo un rincón tranquilo
no dejes caer los párpados
pesados como juicios
no te quedes sin labios
no te duermas sin sueño
no te pienses sin sangre
no te juzgues sin tiempo
pero si
pese a todo
no puedes evitarlo
y congelas el júbilo
y quieres con desgana
y te salvas ahora
y te llenas de calma
y reservas del mundo
sólo un rincón tranquilo
y dejas caer los párpados
pesados como juicios
y te secas sin labios
y te duermes sin sueño
y te piensas sin sangre
y te juzgas sin tiempo
y te quedas inmóvil
al borde del camino
y te salvas
entonces
no te quedes conmigo
al borde del camino
no congeles el júbilo
no quieras con desgana
no te salves ahora
ni nunca
no te salves
no te llenes de calma
no reserves del mundo
sólo un rincón tranquilo
no dejes caer los párpados
pesados como juicios
no te quedes sin labios
no te duermas sin sueño
no te pienses sin sangre
no te juzgues sin tiempo
pero si
pese a todo
no puedes evitarlo
y congelas el júbilo
y quieres con desgana
y te salvas ahora
y te llenas de calma
y reservas del mundo
sólo un rincón tranquilo
y dejas caer los párpados
pesados como juicios
y te secas sin labios
y te duermes sin sueño
y te piensas sin sangre
y te juzgas sin tiempo
y te quedas inmóvil
al borde del camino
y te salvas
entonces
no te quedes conmigo
5 426
1
Ana Hatherly
Wer abend sind sie, sag
Wer abend sind sie, sag
mir, die Fahrenden
Os errantesos fugazes
viajantesque nós somosbuscando sempre a vibração
perdidadiariamente caemda árvore da memóriaonde brilha o
nomeo melancólico ansiado barcoOh que percurso
essencialdescrevem os errantesna sua busca em queda
abismadossobre si mesmos voltadospercorrendoa arriscada
síntese do exílio!E tuvontade
insatisfeitaonde encontrarásos frutos da árvore do
quereras alegrias do estar e do serque nos rompem o
peitode tanto as ansiar?A rosa do olharque na
procura reverdecea todo o instante esqueceo som
da quedae escuta sóo tilintar da sorteno
inventado bolso da esperançaque nos
empurraimpelelisonjeianum breve sorriso captadonum furtivo
afagoilusão de ternuraMas logo logoalgo nos
arranca o curativonos retira o tapete mágico do
repousonso remetepara a nossa condição de feridos
atingidosE na busca heróicado instante
transfiguradoo activo martírio de prosseguirfaz de
nóseternos estrangeiros
mal-amadosdesamparadosperegrinos recém-chegados
mir, die Fahrenden
Os errantesos fugazes
viajantesque nós somosbuscando sempre a vibração
perdidadiariamente caemda árvore da memóriaonde brilha o
nomeo melancólico ansiado barcoOh que percurso
essencialdescrevem os errantesna sua busca em queda
abismadossobre si mesmos voltadospercorrendoa arriscada
síntese do exílio!E tuvontade
insatisfeitaonde encontrarásos frutos da árvore do
quereras alegrias do estar e do serque nos rompem o
peitode tanto as ansiar?A rosa do olharque na
procura reverdecea todo o instante esqueceo som
da quedae escuta sóo tilintar da sorteno
inventado bolso da esperançaque nos
empurraimpelelisonjeianum breve sorriso captadonum furtivo
afagoilusão de ternuraMas logo logoalgo nos
arranca o curativonos retira o tapete mágico do
repousonso remetepara a nossa condição de feridos
atingidosE na busca heróicado instante
transfiguradoo activo martírio de prosseguirfaz de
nóseternos estrangeiros
mal-amadosdesamparadosperegrinos recém-chegados
1 554
1
Ingeborg Bachmann
Dizer Trevas
Como Orfeu, toco
a morte nas cordas da vida
e à beleza do mundo
e dos teus olhos que regem o céu
só sei dizer trevas.
Não te esqueças que também tu, subitamente,
naquela manhã, quando o teu leito
estava ainda húmido de orvalho e o cravo
dormia no teu coração,
viste o rio negro
passar por ti.
Com a corda do silêncio
tensa sobre a onda de sangue,
dedilhei o teu coração vibrante.
A tua madeixa transformou-se
na cabeleira de sombras da noite,
os flocos negros da escuridão
nevavam sobre o teu rosto.
E eu não te pertenço.
Ambos nos lamentamos agora.
Mas, como Orfeu, sei
a vida ao lado da morte,
e revejo-me no azul
dos teus olhos fechados para sempre.
a morte nas cordas da vida
e à beleza do mundo
e dos teus olhos que regem o céu
só sei dizer trevas.
Não te esqueças que também tu, subitamente,
naquela manhã, quando o teu leito
estava ainda húmido de orvalho e o cravo
dormia no teu coração,
viste o rio negro
passar por ti.
Com a corda do silêncio
tensa sobre a onda de sangue,
dedilhei o teu coração vibrante.
A tua madeixa transformou-se
na cabeleira de sombras da noite,
os flocos negros da escuridão
nevavam sobre o teu rosto.
E eu não te pertenço.
Ambos nos lamentamos agora.
Mas, como Orfeu, sei
a vida ao lado da morte,
e revejo-me no azul
dos teus olhos fechados para sempre.
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João José Cochofel
Sensibilidade
Que sensibilidade me sobe
da passada adolescência?
Que agudeza dos sentidos
me perturba a consciência?
Surge do desencanto
um mundo a que me abandono.
Tranqüilo e caricioso
como um sol de Outono.
A cor, a luz, as formas,
sinto-as de coração novo!
Em tudo desconheço
uma experiência que renovo.
Como quem sai
duma longa doença,
deslumbrado e comovido
pela convalescença.
da passada adolescência?
Que agudeza dos sentidos
me perturba a consciência?
Surge do desencanto
um mundo a que me abandono.
Tranqüilo e caricioso
como um sol de Outono.
A cor, a luz, as formas,
sinto-as de coração novo!
Em tudo desconheço
uma experiência que renovo.
Como quem sai
duma longa doença,
deslumbrado e comovido
pela convalescença.
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João José Cochofel
Sensibilidade
Que sensibilidade me sobe
da passada adolescência?
Que agudeza dos sentidos
me perturba a consciência?
Surge do desencanto
um mundo a que me abandono.
Tranqüilo e caricioso
como um sol de Outono.
A cor, a luz, as formas,
sinto-as de coração novo!
Em tudo desconheço
uma experiência que renovo.
Como quem sai
duma longa doença,
deslumbrado e comovido
pela convalescença.
da passada adolescência?
Que agudeza dos sentidos
me perturba a consciência?
Surge do desencanto
um mundo a que me abandono.
Tranqüilo e caricioso
como um sol de Outono.
A cor, a luz, as formas,
sinto-as de coração novo!
Em tudo desconheço
uma experiência que renovo.
Como quem sai
duma longa doença,
deslumbrado e comovido
pela convalescença.
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João José Cochofel
Sensibilidade
Que sensibilidade me sobe
da passada adolescência?
Que agudeza dos sentidos
me perturba a consciência?
Surge do desencanto
um mundo a que me abandono.
Tranqüilo e caricioso
como um sol de Outono.
A cor, a luz, as formas,
sinto-as de coração novo!
Em tudo desconheço
uma experiência que renovo.
Como quem sai
duma longa doença,
deslumbrado e comovido
pela convalescença.
da passada adolescência?
Que agudeza dos sentidos
me perturba a consciência?
Surge do desencanto
um mundo a que me abandono.
Tranqüilo e caricioso
como um sol de Outono.
A cor, a luz, as formas,
sinto-as de coração novo!
Em tudo desconheço
uma experiência que renovo.
Como quem sai
duma longa doença,
deslumbrado e comovido
pela convalescença.
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