Poemas neste tema
Vida e Existência
Herberto Helder
3
que um nó de sangue na garganta,
um nó de ar no coração,
que a mão fechada sobre uma pouca de água,
e eu não possa dizer nada,
e o resto seja só perder de vista a vastidão da terra,
sem mais saber de sítio e hora,
e baixo passar a brisa
pelo cabelo e a camisa e a boca toda tapada ao mundo,
por cada vez mais frios
o dia, a noite, o inferno,
sem números para contar os dedos muito abertos
cortados das pontas dos braços,
sem sangue à vista:
só uma onda, só uma espuma entre pés e cabeça,
para sequer um jogo ou uma razão,
oh bela morte num dia seguro em qualquer parte
de gente em volta atenta à espera de nada,
um nó de sangue na garganta,
um nó apenas duro
um nó de ar no coração,
que a mão fechada sobre uma pouca de água,
e eu não possa dizer nada,
e o resto seja só perder de vista a vastidão da terra,
sem mais saber de sítio e hora,
e baixo passar a brisa
pelo cabelo e a camisa e a boca toda tapada ao mundo,
por cada vez mais frios
o dia, a noite, o inferno,
sem números para contar os dedos muito abertos
cortados das pontas dos braços,
sem sangue à vista:
só uma onda, só uma espuma entre pés e cabeça,
para sequer um jogo ou uma razão,
oh bela morte num dia seguro em qualquer parte
de gente em volta atenta à espera de nada,
um nó de sangue na garganta,
um nó apenas duro
1 105
Herberto Helder
17
como de facto dia a dia sinto que morro muito,
melhor é pôr-me de lado quando alguém puxa dos números,
agora parece que já ninguém nasce,
as pessoas agora querem é morrer,
e como não morrem bem porque no esplendor das obras as
compensações são baixas,
procuram a morte módica,
vão todos juntos para as praias onde não há socorristas,
praias do inferno sem nenhuma salvação,
às vezes marcam-se encontros nos apogeus dessas tardes
desmedidas,
e quando lá chegam já vomitam os bofes,
nestes lugares não há sombras que nos valham,
estes lugares, diz alguém, nem precisam ser simbólicos,
o poema agora por exemplo não tem simbolismo nenhum,
morro dentro dele sem força para respirar,
toda a gente a caminho das praias culminantes,
toda a gente calada com medo que a praia se tenha ido embora,
coisa única do paraíso, pensa ele,
é saber que nem o inferno nem o paraíso podem mudar de
condição e sítio,
estátuas gregas nuas sem ponta de excitação, apenas
solenes anúncios de churrascos,
a morte não salva nada: começamos pelo menos a entender
a cultura que nos sufoca,
eu pelo menos deito os pulmões boca fora,
mas de repente alguém diz: contudo,
diz: contudo já se inventou o ar condicionado
(o ar condicionado na praia?)
e a maravilha demoníaca desmorona-se,
e outra vez: pai pai porque me abandonas?
nenhum mito se cumpre,
ninguém ainda acredita nos poderes sequer de erudição menos
inexpugnável,
nem o capítulo do amor quando ela vem vindo diuturna com fruta
à escolha nas duas mãos.
anda como quem dança, o cabelo apartado ao meio,
vista de todos os ângulos como no cinema,
magnificamente manobrada por esta luz não assim tão lenta que
nos há-de a todos devorar,
não, não me abandonaste,
as tuas mãos abundantes congeminam milagres atrás de milagres
ah enfim alguma coisa muito límpida,
introduz aqui o capítulo infernal por todos os lados,
o meu fato de banho não tem bolsos,
pai, pai, porque me abandonas com a ironia em fato de banho,
e a areia, e a luz, e o iodo, e essa água toda,
como se o inferno fosse alegria apenas,
em setembro,
corpos mais nus do que se não tivessem fato de banho
melhor é pôr-me de lado quando alguém puxa dos números,
agora parece que já ninguém nasce,
as pessoas agora querem é morrer,
e como não morrem bem porque no esplendor das obras as
compensações são baixas,
procuram a morte módica,
vão todos juntos para as praias onde não há socorristas,
praias do inferno sem nenhuma salvação,
às vezes marcam-se encontros nos apogeus dessas tardes
desmedidas,
e quando lá chegam já vomitam os bofes,
nestes lugares não há sombras que nos valham,
estes lugares, diz alguém, nem precisam ser simbólicos,
o poema agora por exemplo não tem simbolismo nenhum,
morro dentro dele sem força para respirar,
toda a gente a caminho das praias culminantes,
toda a gente calada com medo que a praia se tenha ido embora,
coisa única do paraíso, pensa ele,
é saber que nem o inferno nem o paraíso podem mudar de
condição e sítio,
estátuas gregas nuas sem ponta de excitação, apenas
solenes anúncios de churrascos,
a morte não salva nada: começamos pelo menos a entender
a cultura que nos sufoca,
eu pelo menos deito os pulmões boca fora,
mas de repente alguém diz: contudo,
diz: contudo já se inventou o ar condicionado
(o ar condicionado na praia?)
e a maravilha demoníaca desmorona-se,
e outra vez: pai pai porque me abandonas?
nenhum mito se cumpre,
ninguém ainda acredita nos poderes sequer de erudição menos
inexpugnável,
nem o capítulo do amor quando ela vem vindo diuturna com fruta
à escolha nas duas mãos.
anda como quem dança, o cabelo apartado ao meio,
vista de todos os ângulos como no cinema,
magnificamente manobrada por esta luz não assim tão lenta que
nos há-de a todos devorar,
não, não me abandonaste,
as tuas mãos abundantes congeminam milagres atrás de milagres
ah enfim alguma coisa muito límpida,
introduz aqui o capítulo infernal por todos os lados,
o meu fato de banho não tem bolsos,
pai, pai, porque me abandonas com a ironia em fato de banho,
e a areia, e a luz, e o iodo, e essa água toda,
como se o inferno fosse alegria apenas,
em setembro,
corpos mais nus do que se não tivessem fato de banho
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Herberto Helder
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como de facto dia a dia sinto que morro muito,
melhor é pôr-me de lado quando alguém puxa dos números,
agora parece que já ninguém nasce,
as pessoas agora querem é morrer,
e como não morrem bem porque no esplendor das obras as
compensações são baixas,
procuram a morte módica,
vão todos juntos para as praias onde não há socorristas,
praias do inferno sem nenhuma salvação,
às vezes marcam-se encontros nos apogeus dessas tardes
desmedidas,
e quando lá chegam já vomitam os bofes,
nestes lugares não há sombras que nos valham,
estes lugares, diz alguém, nem precisam ser simbólicos,
o poema agora por exemplo não tem simbolismo nenhum,
morro dentro dele sem força para respirar,
toda a gente a caminho das praias culminantes,
toda a gente calada com medo que a praia se tenha ido embora,
coisa única do paraíso, pensa ele,
é saber que nem o inferno nem o paraíso podem mudar de
condição e sítio,
estátuas gregas nuas sem ponta de excitação, apenas
solenes anúncios de churrascos,
a morte não salva nada: começamos pelo menos a entender
a cultura que nos sufoca,
eu pelo menos deito os pulmões boca fora,
mas de repente alguém diz: contudo,
diz: contudo já se inventou o ar condicionado
(o ar condicionado na praia?)
e a maravilha demoníaca desmorona-se,
e outra vez: pai pai porque me abandonas?
nenhum mito se cumpre,
ninguém ainda acredita nos poderes sequer de erudição menos
inexpugnável,
nem o capítulo do amor quando ela vem vindo diuturna com fruta
à escolha nas duas mãos.
anda como quem dança, o cabelo apartado ao meio,
vista de todos os ângulos como no cinema,
magnificamente manobrada por esta luz não assim tão lenta que
nos há-de a todos devorar,
não, não me abandonaste,
as tuas mãos abundantes congeminam milagres atrás de milagres
ah enfim alguma coisa muito límpida,
introduz aqui o capítulo infernal por todos os lados,
o meu fato de banho não tem bolsos,
pai, pai, porque me abandonas com a ironia em fato de banho,
e a areia, e a luz, e o iodo, e essa água toda,
como se o inferno fosse alegria apenas,
em setembro,
corpos mais nus do que se não tivessem fato de banho
melhor é pôr-me de lado quando alguém puxa dos números,
agora parece que já ninguém nasce,
as pessoas agora querem é morrer,
e como não morrem bem porque no esplendor das obras as
compensações são baixas,
procuram a morte módica,
vão todos juntos para as praias onde não há socorristas,
praias do inferno sem nenhuma salvação,
às vezes marcam-se encontros nos apogeus dessas tardes
desmedidas,
e quando lá chegam já vomitam os bofes,
nestes lugares não há sombras que nos valham,
estes lugares, diz alguém, nem precisam ser simbólicos,
o poema agora por exemplo não tem simbolismo nenhum,
morro dentro dele sem força para respirar,
toda a gente a caminho das praias culminantes,
toda a gente calada com medo que a praia se tenha ido embora,
coisa única do paraíso, pensa ele,
é saber que nem o inferno nem o paraíso podem mudar de
condição e sítio,
estátuas gregas nuas sem ponta de excitação, apenas
solenes anúncios de churrascos,
a morte não salva nada: começamos pelo menos a entender
a cultura que nos sufoca,
eu pelo menos deito os pulmões boca fora,
mas de repente alguém diz: contudo,
diz: contudo já se inventou o ar condicionado
(o ar condicionado na praia?)
e a maravilha demoníaca desmorona-se,
e outra vez: pai pai porque me abandonas?
nenhum mito se cumpre,
ninguém ainda acredita nos poderes sequer de erudição menos
inexpugnável,
nem o capítulo do amor quando ela vem vindo diuturna com fruta
à escolha nas duas mãos.
anda como quem dança, o cabelo apartado ao meio,
vista de todos os ângulos como no cinema,
magnificamente manobrada por esta luz não assim tão lenta que
nos há-de a todos devorar,
não, não me abandonaste,
as tuas mãos abundantes congeminam milagres atrás de milagres
ah enfim alguma coisa muito límpida,
introduz aqui o capítulo infernal por todos os lados,
o meu fato de banho não tem bolsos,
pai, pai, porque me abandonas com a ironia em fato de banho,
e a areia, e a luz, e o iodo, e essa água toda,
como se o inferno fosse alegria apenas,
em setembro,
corpos mais nus do que se não tivessem fato de banho
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Herberto Helder
15
se um dia destes parar não sei se não morro logo,
disse Emília David, padeira,
não sei se fazer um poema não é fazer um pão
um pão que se tire do forno e se coma quente ainda por entre
as linhas,
um dia destes vejo que não vou parar nunca,
as mãos súbito cheias:
o mundo é só fogo e pão cozido,
e o fogo é que dá ao mundo os fundamentos da forma,
pão comprido nas terras de França,
pão curto agora nestes reinos salgados,
se parar não sei se não caio logo ali redonda no chão frio
como se caísse fundo em mim mesma,
a mão dentro do pão para comê-lo
— disse ela
disse Emília David, padeira,
não sei se fazer um poema não é fazer um pão
um pão que se tire do forno e se coma quente ainda por entre
as linhas,
um dia destes vejo que não vou parar nunca,
as mãos súbito cheias:
o mundo é só fogo e pão cozido,
e o fogo é que dá ao mundo os fundamentos da forma,
pão comprido nas terras de França,
pão curto agora nestes reinos salgados,
se parar não sei se não caio logo ali redonda no chão frio
como se caísse fundo em mim mesma,
a mão dentro do pão para comê-lo
— disse ela
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Herberto Helder
69
obscuridade, sangue, carne inundada, la beltà?
um toque apenas, com que delicadeza!
dor e canção:
e mergulhas na água branda, e sais molhado nos dedos e nas pálpebras
e esgotas o mundo,
tu, o confuso, o queimado,
o luminoso:
ninguém mede aos palmos uma queimadura:
a parte interna da luz fervilha se lhe metem as unhas:
que potência e inclinação de cabeça!
que te toquem,
que te tornem pleno: mas se
de tão lenta mal te mova a força rítmica,
não te movas, antes
te doas todo, e te atravesse um sopro:
e a jóia violenta suba do deserto:
e a imagem estrita te revele bruscamente:
mais concreta a cada letra a morte sentada escrita:
porque a radiação bruscamente te revela no escuro:
canhoto,
absoluto
um toque apenas, com que delicadeza!
dor e canção:
e mergulhas na água branda, e sais molhado nos dedos e nas pálpebras
e esgotas o mundo,
tu, o confuso, o queimado,
o luminoso:
ninguém mede aos palmos uma queimadura:
a parte interna da luz fervilha se lhe metem as unhas:
que potência e inclinação de cabeça!
que te toquem,
que te tornem pleno: mas se
de tão lenta mal te mova a força rítmica,
não te movas, antes
te doas todo, e te atravesse um sopro:
e a jóia violenta suba do deserto:
e a imagem estrita te revele bruscamente:
mais concreta a cada letra a morte sentada escrita:
porque a radiação bruscamente te revela no escuro:
canhoto,
absoluto
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Herberto Helder
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obscuridade, sangue, carne inundada, la beltà?
um toque apenas, com que delicadeza!
dor e canção:
e mergulhas na água branda, e sais molhado nos dedos e nas pálpebras
e esgotas o mundo,
tu, o confuso, o queimado,
o luminoso:
ninguém mede aos palmos uma queimadura:
a parte interna da luz fervilha se lhe metem as unhas:
que potência e inclinação de cabeça!
que te toquem,
que te tornem pleno: mas se
de tão lenta mal te mova a força rítmica,
não te movas, antes
te doas todo, e te atravesse um sopro:
e a jóia violenta suba do deserto:
e a imagem estrita te revele bruscamente:
mais concreta a cada letra a morte sentada escrita:
porque a radiação bruscamente te revela no escuro:
canhoto,
absoluto
um toque apenas, com que delicadeza!
dor e canção:
e mergulhas na água branda, e sais molhado nos dedos e nas pálpebras
e esgotas o mundo,
tu, o confuso, o queimado,
o luminoso:
ninguém mede aos palmos uma queimadura:
a parte interna da luz fervilha se lhe metem as unhas:
que potência e inclinação de cabeça!
que te toquem,
que te tornem pleno: mas se
de tão lenta mal te mova a força rítmica,
não te movas, antes
te doas todo, e te atravesse um sopro:
e a jóia violenta suba do deserto:
e a imagem estrita te revele bruscamente:
mais concreta a cada letra a morte sentada escrita:
porque a radiação bruscamente te revela no escuro:
canhoto,
absoluto
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Herberto Helder
66
quem é que sobe do deserto com a sua alumiação,
com abundância,
desequilíbrio,
e mete dentro de mim a água tirada às minas,
e me faz nascer numa língua que não é contemporânea,
que é arcaica, anacrónica,
epiphânica,
e com essa água crua me ilumina testa,
pálpebras,
espáduas,
o sulco entre as nádegas, as vergonhas tão altas,
tão sombrias,
e me sussurra, entre colmeias, no ar:
sou obscuro, adivinha-me,
e rasga com as duas mãos as madeiras que o cercam,
ou abre as labaredas para que a escuridão se veja,
quem me pergunta por si próprio,
se sei dele,
ou outro assunto excelso, rebarbativo,
peremptório,
ou me arrebata de entre os dentes o pão canino,
ou o nó de ar na boca que eu aprontava para o acto
arrevesado, arrítmico,
do meu texto,
quem faz tremer solos e soalhos e me procura,
e não toca em nada do meu corpo,
nem nas têmporas, nem na veia jugular, nem na ponta de um cabelo
e a mão apenas se move entre lápis e caderno,
e em chegando ao caderno compõe um abuso de luz,
oh que radiação no corpo e nas suas partes pobres,
que pobres são todas as partes
do corpo, do amor, do louvor, do idioma,
quem sobe ou desce ou irrompe,
quem sem magnificência nenhuma
aparece,
e indaga das práticas autárquicas de água e fogo,
rosto a rosto,
esse mesmo é quem me encontra e quem me sopra na boca
o vulgo, o pouco, o inesperado
com abundância,
desequilíbrio,
e mete dentro de mim a água tirada às minas,
e me faz nascer numa língua que não é contemporânea,
que é arcaica, anacrónica,
epiphânica,
e com essa água crua me ilumina testa,
pálpebras,
espáduas,
o sulco entre as nádegas, as vergonhas tão altas,
tão sombrias,
e me sussurra, entre colmeias, no ar:
sou obscuro, adivinha-me,
e rasga com as duas mãos as madeiras que o cercam,
ou abre as labaredas para que a escuridão se veja,
quem me pergunta por si próprio,
se sei dele,
ou outro assunto excelso, rebarbativo,
peremptório,
ou me arrebata de entre os dentes o pão canino,
ou o nó de ar na boca que eu aprontava para o acto
arrevesado, arrítmico,
do meu texto,
quem faz tremer solos e soalhos e me procura,
e não toca em nada do meu corpo,
nem nas têmporas, nem na veia jugular, nem na ponta de um cabelo
e a mão apenas se move entre lápis e caderno,
e em chegando ao caderno compõe um abuso de luz,
oh que radiação no corpo e nas suas partes pobres,
que pobres são todas as partes
do corpo, do amor, do louvor, do idioma,
quem sobe ou desce ou irrompe,
quem sem magnificência nenhuma
aparece,
e indaga das práticas autárquicas de água e fogo,
rosto a rosto,
esse mesmo é quem me encontra e quem me sopra na boca
o vulgo, o pouco, o inesperado
1 070
Herberto Helder
66
quem é que sobe do deserto com a sua alumiação,
com abundância,
desequilíbrio,
e mete dentro de mim a água tirada às minas,
e me faz nascer numa língua que não é contemporânea,
que é arcaica, anacrónica,
epiphânica,
e com essa água crua me ilumina testa,
pálpebras,
espáduas,
o sulco entre as nádegas, as vergonhas tão altas,
tão sombrias,
e me sussurra, entre colmeias, no ar:
sou obscuro, adivinha-me,
e rasga com as duas mãos as madeiras que o cercam,
ou abre as labaredas para que a escuridão se veja,
quem me pergunta por si próprio,
se sei dele,
ou outro assunto excelso, rebarbativo,
peremptório,
ou me arrebata de entre os dentes o pão canino,
ou o nó de ar na boca que eu aprontava para o acto
arrevesado, arrítmico,
do meu texto,
quem faz tremer solos e soalhos e me procura,
e não toca em nada do meu corpo,
nem nas têmporas, nem na veia jugular, nem na ponta de um cabelo
e a mão apenas se move entre lápis e caderno,
e em chegando ao caderno compõe um abuso de luz,
oh que radiação no corpo e nas suas partes pobres,
que pobres são todas as partes
do corpo, do amor, do louvor, do idioma,
quem sobe ou desce ou irrompe,
quem sem magnificência nenhuma
aparece,
e indaga das práticas autárquicas de água e fogo,
rosto a rosto,
esse mesmo é quem me encontra e quem me sopra na boca
o vulgo, o pouco, o inesperado
com abundância,
desequilíbrio,
e mete dentro de mim a água tirada às minas,
e me faz nascer numa língua que não é contemporânea,
que é arcaica, anacrónica,
epiphânica,
e com essa água crua me ilumina testa,
pálpebras,
espáduas,
o sulco entre as nádegas, as vergonhas tão altas,
tão sombrias,
e me sussurra, entre colmeias, no ar:
sou obscuro, adivinha-me,
e rasga com as duas mãos as madeiras que o cercam,
ou abre as labaredas para que a escuridão se veja,
quem me pergunta por si próprio,
se sei dele,
ou outro assunto excelso, rebarbativo,
peremptório,
ou me arrebata de entre os dentes o pão canino,
ou o nó de ar na boca que eu aprontava para o acto
arrevesado, arrítmico,
do meu texto,
quem faz tremer solos e soalhos e me procura,
e não toca em nada do meu corpo,
nem nas têmporas, nem na veia jugular, nem na ponta de um cabelo
e a mão apenas se move entre lápis e caderno,
e em chegando ao caderno compõe um abuso de luz,
oh que radiação no corpo e nas suas partes pobres,
que pobres são todas as partes
do corpo, do amor, do louvor, do idioma,
quem sobe ou desce ou irrompe,
quem sem magnificência nenhuma
aparece,
e indaga das práticas autárquicas de água e fogo,
rosto a rosto,
esse mesmo é quem me encontra e quem me sopra na boca
o vulgo, o pouco, o inesperado
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Herberto Helder
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há muito quem morra precipitadamente,
ainda o ar não faísca contra o prodígio das frutas,
ninguém ainda está maduro,
uns são varados por uma bala na bôca,
outros deitam os pulmões queimados pela bôca fora,
ou são cortados ao meio por uma serra eléctrica,
há quem avance pela água e vá pela água abaixo e morra coberto de água,
quem talhe a veia jugular frente ao espelho para ver o que faz a morte
com tanto sangue à volta dela,
são mortes académicas,
et parce que l’on ne peut pas ne pas écrire,
talvez se devesse morrer de ter escrito uma frase, ou respirada ou
irresistível ou arrancada, excedendo o mundo,
ou uma expressão de amor obscena e dôce,
então sim já se estaria pronto para as perguntas:
dói? doem? onde? como? quando?
sempre, o corpo todo, toda a memória, o que pára ou se move,
como junto a um monte de sete adjectivos de sêco e fero a informe,
onde tudo dor lhe era e causa que padeça,
eu, substantivo,
já pouco sôfrego,
já estrito, mínimo,
apanhado nos distúrbios de março a junho, e o ouro
sobe à pôlpa das nêsperas, e o sangue
sobe
para debaixo das pálpebras quando se dorme e o corpo é luminoso,
e a mão que então acorda é mais na luz ou mais na água leve,
oh dias esses saídos assim do sono com um golpe na mão sestra,
manhã, noite, o golpe sangrando sôbre
entre papel e fôgo linha a linha recosidos num caderno portátil até onde,
delicadeza e turvação nos dedos,
e então, algures, um nó tão físico mas que,
passado à mente,
doía em tudo,
que em língua era: a morte a trabalhar entre recto e uretra e,
mexendo por aí,
trabalhava na alma das palavras,
punha-as em teorema, demonstração inexplicável, lei
externa à dor, à espera de
como ela vem célula a célula, como devora
o idioma, a gaja scienza, o quotidiano, a escrita,
já sôbre linho e louça,
já frente à amada fêmea:
rins quebrados, quadris luxuosos, púbis alto,
o cego odor do mênstruo,
já triunfam nas mãos as frutas do tempo,
já lavra a escarlata no cabelo frio,
já como é mortífero,
já o espírito encontra a forma,
à mesa, em pé, suspenso, vendo de repente o ar inteiro metido pela
árvores dentre
pela água salgada dentro,
às portas acá da noite avonde,
e como abunda a noite!
o ar inteiro metido pela noite dentro, e que ébrio,
redivivo
ainda o ar não faísca contra o prodígio das frutas,
ninguém ainda está maduro,
uns são varados por uma bala na bôca,
outros deitam os pulmões queimados pela bôca fora,
ou são cortados ao meio por uma serra eléctrica,
há quem avance pela água e vá pela água abaixo e morra coberto de água,
quem talhe a veia jugular frente ao espelho para ver o que faz a morte
com tanto sangue à volta dela,
são mortes académicas,
et parce que l’on ne peut pas ne pas écrire,
talvez se devesse morrer de ter escrito uma frase, ou respirada ou
irresistível ou arrancada, excedendo o mundo,
ou uma expressão de amor obscena e dôce,
então sim já se estaria pronto para as perguntas:
dói? doem? onde? como? quando?
sempre, o corpo todo, toda a memória, o que pára ou se move,
como junto a um monte de sete adjectivos de sêco e fero a informe,
onde tudo dor lhe era e causa que padeça,
eu, substantivo,
já pouco sôfrego,
já estrito, mínimo,
apanhado nos distúrbios de março a junho, e o ouro
sobe à pôlpa das nêsperas, e o sangue
sobe
para debaixo das pálpebras quando se dorme e o corpo é luminoso,
e a mão que então acorda é mais na luz ou mais na água leve,
oh dias esses saídos assim do sono com um golpe na mão sestra,
manhã, noite, o golpe sangrando sôbre
entre papel e fôgo linha a linha recosidos num caderno portátil até onde,
delicadeza e turvação nos dedos,
e então, algures, um nó tão físico mas que,
passado à mente,
doía em tudo,
que em língua era: a morte a trabalhar entre recto e uretra e,
mexendo por aí,
trabalhava na alma das palavras,
punha-as em teorema, demonstração inexplicável, lei
externa à dor, à espera de
como ela vem célula a célula, como devora
o idioma, a gaja scienza, o quotidiano, a escrita,
já sôbre linho e louça,
já frente à amada fêmea:
rins quebrados, quadris luxuosos, púbis alto,
o cego odor do mênstruo,
já triunfam nas mãos as frutas do tempo,
já lavra a escarlata no cabelo frio,
já como é mortífero,
já o espírito encontra a forma,
à mesa, em pé, suspenso, vendo de repente o ar inteiro metido pela
árvores dentre
pela água salgada dentro,
às portas acá da noite avonde,
e como abunda a noite!
o ar inteiro metido pela noite dentro, e que ébrio,
redivivo
643
Herberto Helder
93
há muito quem morra precipitadamente,
ainda o ar não faísca contra o prodígio das frutas,
ninguém ainda está maduro,
uns são varados por uma bala na bôca,
outros deitam os pulmões queimados pela bôca fora,
ou são cortados ao meio por uma serra eléctrica,
há quem avance pela água e vá pela água abaixo e morra coberto de água,
quem talhe a veia jugular frente ao espelho para ver o que faz a morte
com tanto sangue à volta dela,
são mortes académicas,
et parce que l’on ne peut pas ne pas écrire,
talvez se devesse morrer de ter escrito uma frase, ou respirada ou
irresistível ou arrancada, excedendo o mundo,
ou uma expressão de amor obscena e dôce,
então sim já se estaria pronto para as perguntas:
dói? doem? onde? como? quando?
sempre, o corpo todo, toda a memória, o que pára ou se move,
como junto a um monte de sete adjectivos de sêco e fero a informe,
onde tudo dor lhe era e causa que padeça,
eu, substantivo,
já pouco sôfrego,
já estrito, mínimo,
apanhado nos distúrbios de março a junho, e o ouro
sobe à pôlpa das nêsperas, e o sangue
sobe
para debaixo das pálpebras quando se dorme e o corpo é luminoso,
e a mão que então acorda é mais na luz ou mais na água leve,
oh dias esses saídos assim do sono com um golpe na mão sestra,
manhã, noite, o golpe sangrando sôbre
entre papel e fôgo linha a linha recosidos num caderno portátil até onde,
delicadeza e turvação nos dedos,
e então, algures, um nó tão físico mas que,
passado à mente,
doía em tudo,
que em língua era: a morte a trabalhar entre recto e uretra e,
mexendo por aí,
trabalhava na alma das palavras,
punha-as em teorema, demonstração inexplicável, lei
externa à dor, à espera de
como ela vem célula a célula, como devora
o idioma, a gaja scienza, o quotidiano, a escrita,
já sôbre linho e louça,
já frente à amada fêmea:
rins quebrados, quadris luxuosos, púbis alto,
o cego odor do mênstruo,
já triunfam nas mãos as frutas do tempo,
já lavra a escarlata no cabelo frio,
já como é mortífero,
já o espírito encontra a forma,
à mesa, em pé, suspenso, vendo de repente o ar inteiro metido pela
árvores dentre
pela água salgada dentro,
às portas acá da noite avonde,
e como abunda a noite!
o ar inteiro metido pela noite dentro, e que ébrio,
redivivo
ainda o ar não faísca contra o prodígio das frutas,
ninguém ainda está maduro,
uns são varados por uma bala na bôca,
outros deitam os pulmões queimados pela bôca fora,
ou são cortados ao meio por uma serra eléctrica,
há quem avance pela água e vá pela água abaixo e morra coberto de água,
quem talhe a veia jugular frente ao espelho para ver o que faz a morte
com tanto sangue à volta dela,
são mortes académicas,
et parce que l’on ne peut pas ne pas écrire,
talvez se devesse morrer de ter escrito uma frase, ou respirada ou
irresistível ou arrancada, excedendo o mundo,
ou uma expressão de amor obscena e dôce,
então sim já se estaria pronto para as perguntas:
dói? doem? onde? como? quando?
sempre, o corpo todo, toda a memória, o que pára ou se move,
como junto a um monte de sete adjectivos de sêco e fero a informe,
onde tudo dor lhe era e causa que padeça,
eu, substantivo,
já pouco sôfrego,
já estrito, mínimo,
apanhado nos distúrbios de março a junho, e o ouro
sobe à pôlpa das nêsperas, e o sangue
sobe
para debaixo das pálpebras quando se dorme e o corpo é luminoso,
e a mão que então acorda é mais na luz ou mais na água leve,
oh dias esses saídos assim do sono com um golpe na mão sestra,
manhã, noite, o golpe sangrando sôbre
entre papel e fôgo linha a linha recosidos num caderno portátil até onde,
delicadeza e turvação nos dedos,
e então, algures, um nó tão físico mas que,
passado à mente,
doía em tudo,
que em língua era: a morte a trabalhar entre recto e uretra e,
mexendo por aí,
trabalhava na alma das palavras,
punha-as em teorema, demonstração inexplicável, lei
externa à dor, à espera de
como ela vem célula a célula, como devora
o idioma, a gaja scienza, o quotidiano, a escrita,
já sôbre linho e louça,
já frente à amada fêmea:
rins quebrados, quadris luxuosos, púbis alto,
o cego odor do mênstruo,
já triunfam nas mãos as frutas do tempo,
já lavra a escarlata no cabelo frio,
já como é mortífero,
já o espírito encontra a forma,
à mesa, em pé, suspenso, vendo de repente o ar inteiro metido pela
árvores dentre
pela água salgada dentro,
às portas acá da noite avonde,
e como abunda a noite!
o ar inteiro metido pela noite dentro, e que ébrio,
redivivo
643
Herberto Helder
93
há muito quem morra precipitadamente,
ainda o ar não faísca contra o prodígio das frutas,
ninguém ainda está maduro,
uns são varados por uma bala na bôca,
outros deitam os pulmões queimados pela bôca fora,
ou são cortados ao meio por uma serra eléctrica,
há quem avance pela água e vá pela água abaixo e morra coberto de água,
quem talhe a veia jugular frente ao espelho para ver o que faz a morte
com tanto sangue à volta dela,
são mortes académicas,
et parce que l’on ne peut pas ne pas écrire,
talvez se devesse morrer de ter escrito uma frase, ou respirada ou
irresistível ou arrancada, excedendo o mundo,
ou uma expressão de amor obscena e dôce,
então sim já se estaria pronto para as perguntas:
dói? doem? onde? como? quando?
sempre, o corpo todo, toda a memória, o que pára ou se move,
como junto a um monte de sete adjectivos de sêco e fero a informe,
onde tudo dor lhe era e causa que padeça,
eu, substantivo,
já pouco sôfrego,
já estrito, mínimo,
apanhado nos distúrbios de março a junho, e o ouro
sobe à pôlpa das nêsperas, e o sangue
sobe
para debaixo das pálpebras quando se dorme e o corpo é luminoso,
e a mão que então acorda é mais na luz ou mais na água leve,
oh dias esses saídos assim do sono com um golpe na mão sestra,
manhã, noite, o golpe sangrando sôbre
entre papel e fôgo linha a linha recosidos num caderno portátil até onde,
delicadeza e turvação nos dedos,
e então, algures, um nó tão físico mas que,
passado à mente,
doía em tudo,
que em língua era: a morte a trabalhar entre recto e uretra e,
mexendo por aí,
trabalhava na alma das palavras,
punha-as em teorema, demonstração inexplicável, lei
externa à dor, à espera de
como ela vem célula a célula, como devora
o idioma, a gaja scienza, o quotidiano, a escrita,
já sôbre linho e louça,
já frente à amada fêmea:
rins quebrados, quadris luxuosos, púbis alto,
o cego odor do mênstruo,
já triunfam nas mãos as frutas do tempo,
já lavra a escarlata no cabelo frio,
já como é mortífero,
já o espírito encontra a forma,
à mesa, em pé, suspenso, vendo de repente o ar inteiro metido pela
árvores dentre
pela água salgada dentro,
às portas acá da noite avonde,
e como abunda a noite!
o ar inteiro metido pela noite dentro, e que ébrio,
redivivo
ainda o ar não faísca contra o prodígio das frutas,
ninguém ainda está maduro,
uns são varados por uma bala na bôca,
outros deitam os pulmões queimados pela bôca fora,
ou são cortados ao meio por uma serra eléctrica,
há quem avance pela água e vá pela água abaixo e morra coberto de água,
quem talhe a veia jugular frente ao espelho para ver o que faz a morte
com tanto sangue à volta dela,
são mortes académicas,
et parce que l’on ne peut pas ne pas écrire,
talvez se devesse morrer de ter escrito uma frase, ou respirada ou
irresistível ou arrancada, excedendo o mundo,
ou uma expressão de amor obscena e dôce,
então sim já se estaria pronto para as perguntas:
dói? doem? onde? como? quando?
sempre, o corpo todo, toda a memória, o que pára ou se move,
como junto a um monte de sete adjectivos de sêco e fero a informe,
onde tudo dor lhe era e causa que padeça,
eu, substantivo,
já pouco sôfrego,
já estrito, mínimo,
apanhado nos distúrbios de março a junho, e o ouro
sobe à pôlpa das nêsperas, e o sangue
sobe
para debaixo das pálpebras quando se dorme e o corpo é luminoso,
e a mão que então acorda é mais na luz ou mais na água leve,
oh dias esses saídos assim do sono com um golpe na mão sestra,
manhã, noite, o golpe sangrando sôbre
entre papel e fôgo linha a linha recosidos num caderno portátil até onde,
delicadeza e turvação nos dedos,
e então, algures, um nó tão físico mas que,
passado à mente,
doía em tudo,
que em língua era: a morte a trabalhar entre recto e uretra e,
mexendo por aí,
trabalhava na alma das palavras,
punha-as em teorema, demonstração inexplicável, lei
externa à dor, à espera de
como ela vem célula a célula, como devora
o idioma, a gaja scienza, o quotidiano, a escrita,
já sôbre linho e louça,
já frente à amada fêmea:
rins quebrados, quadris luxuosos, púbis alto,
o cego odor do mênstruo,
já triunfam nas mãos as frutas do tempo,
já lavra a escarlata no cabelo frio,
já como é mortífero,
já o espírito encontra a forma,
à mesa, em pé, suspenso, vendo de repente o ar inteiro metido pela
árvores dentre
pela água salgada dentro,
às portas acá da noite avonde,
e como abunda a noite!
o ar inteiro metido pela noite dentro, e que ébrio,
redivivo
643
Herberto Helder
73
ata e desata os nós aos dias meteorológicos, dias orais, manuais,
irredimíveis,
mais que sangue agudo da mão à língua,
que fruta acerba desmanchada
entredentes,
oh trabalha-me, intuito
lírico,
por fora esses dias manuais,
por dentro troca tudo meu tão certo secretário assim como um sufôco
ou isso
irredimíveis,
mais que sangue agudo da mão à língua,
que fruta acerba desmanchada
entredentes,
oh trabalha-me, intuito
lírico,
por fora esses dias manuais,
por dentro troca tudo meu tão certo secretário assim como um sufôco
ou isso
1 066
Herberto Helder
1
nunca estive numa só linha a tão vertiginosa altura,
oh Anjo Príapo, oh Nossa Senhora Côna!
quando nos vimos nus um em frente do outro,
na nossa primeira noite nos começos do mundo,
numa pensão rasca de um bairro de quinta ordem,
o putedo sai que entra pelos quartos à volta
— peço por isso que um qualquer erro de ortografia ou sentido
seja um grão de sal aberto na boca do bom leitor impuro.
oh Anjo Príapo, oh Nossa Senhora Côna!
quando nos vimos nus um em frente do outro,
na nossa primeira noite nos começos do mundo,
numa pensão rasca de um bairro de quinta ordem,
o putedo sai que entra pelos quartos à volta
— peço por isso que um qualquer erro de ortografia ou sentido
seja um grão de sal aberto na boca do bom leitor impuro.
604
Herberto Helder
88
a morte está tão atenta à tua força contra ela,
enquanto ávido e acerbo cantas debaixo da água enviada,
,;acaso contes adormecê-la com a música turva?
quem se expõe à água ganha os poderes da nomeação mais simples,
apenas um duche, dizes,
há muito já alguém pediu o mesmo,
que ela recuasse,
ilhargas, ombros, dedos, o movimento dos cabelos,
o corpo solitário,
um canto último fundido ao início do canto,
mas a morte sabe que não há razão nunca,
e quem pede sabe que não pode,
teias de água fecham a tua grande nudez,
e dizes: um duche, apenas um inebriamento,
mas a morte não tem paciência para apurar um dialecto,
nada, só o arroubo táctil onde apoias dor, desequilíbrio e medo
enquanto falas do que nem ela entende,
agarrado à dura
dura
coluna de água
enquanto ávido e acerbo cantas debaixo da água enviada,
,;acaso contes adormecê-la com a música turva?
quem se expõe à água ganha os poderes da nomeação mais simples,
apenas um duche, dizes,
há muito já alguém pediu o mesmo,
que ela recuasse,
ilhargas, ombros, dedos, o movimento dos cabelos,
o corpo solitário,
um canto último fundido ao início do canto,
mas a morte sabe que não há razão nunca,
e quem pede sabe que não pode,
teias de água fecham a tua grande nudez,
e dizes: um duche, apenas um inebriamento,
mas a morte não tem paciência para apurar um dialecto,
nada, só o arroubo táctil onde apoias dor, desequilíbrio e medo
enquanto falas do que nem ela entende,
agarrado à dura
dura
coluna de água
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Herberto Helder
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a morte está tão atenta à tua força contra ela,
enquanto ávido e acerbo cantas debaixo da água enviada,
,;acaso contes adormecê-la com a música turva?
quem se expõe à água ganha os poderes da nomeação mais simples,
apenas um duche, dizes,
há muito já alguém pediu o mesmo,
que ela recuasse,
ilhargas, ombros, dedos, o movimento dos cabelos,
o corpo solitário,
um canto último fundido ao início do canto,
mas a morte sabe que não há razão nunca,
e quem pede sabe que não pode,
teias de água fecham a tua grande nudez,
e dizes: um duche, apenas um inebriamento,
mas a morte não tem paciência para apurar um dialecto,
nada, só o arroubo táctil onde apoias dor, desequilíbrio e medo
enquanto falas do que nem ela entende,
agarrado à dura
dura
coluna de água
enquanto ávido e acerbo cantas debaixo da água enviada,
,;acaso contes adormecê-la com a música turva?
quem se expõe à água ganha os poderes da nomeação mais simples,
apenas um duche, dizes,
há muito já alguém pediu o mesmo,
que ela recuasse,
ilhargas, ombros, dedos, o movimento dos cabelos,
o corpo solitário,
um canto último fundido ao início do canto,
mas a morte sabe que não há razão nunca,
e quem pede sabe que não pode,
teias de água fecham a tua grande nudez,
e dizes: um duche, apenas um inebriamento,
mas a morte não tem paciência para apurar um dialecto,
nada, só o arroubo táctil onde apoias dor, desequilíbrio e medo
enquanto falas do que nem ela entende,
agarrado à dura
dura
coluna de água
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Herberto Helder
83
que dos fragmentos arcaicos nos chegam apenas pedaços de ouro
maduro que pulsam no escuro,
e é esse o seu único sentido:
de que não há mais nada:
fogos catódicos, olhos
sem pálpebras,
permanentes,
que nos fixam como se morrêssemos
pela sua beleza
desunida, autónoma, inconclusiva,
e imortal,
mortífera
maduro que pulsam no escuro,
e é esse o seu único sentido:
de que não há mais nada:
fogos catódicos, olhos
sem pálpebras,
permanentes,
que nos fixam como se morrêssemos
pela sua beleza
desunida, autónoma, inconclusiva,
e imortal,
mortífera
736
Herberto Helder
79
basta que te dispas até te doeres todo,
retoma-te no tocado, no aceso,
e fica cego e,
por memória do tacto, desfaz os nós,
muitos, muito
atados uns nos outros,
e que inteiramente te alcance o ar e,
depois de te haver abraçado de alto a baixo, apareça já
inextricável, ar
falado, a fino ouvido: cacofónico,
mas de um modo exacto, acho,
música inquieta, inconjunta, impura,
isso: essa música
retoma-te no tocado, no aceso,
e fica cego e,
por memória do tacto, desfaz os nós,
muitos, muito
atados uns nos outros,
e que inteiramente te alcance o ar e,
depois de te haver abraçado de alto a baixo, apareça já
inextricável, ar
falado, a fino ouvido: cacofónico,
mas de um modo exacto, acho,
música inquieta, inconjunta, impura,
isso: essa música
983
Herberto Helder
79
basta que te dispas até te doeres todo,
retoma-te no tocado, no aceso,
e fica cego e,
por memória do tacto, desfaz os nós,
muitos, muito
atados uns nos outros,
e que inteiramente te alcance o ar e,
depois de te haver abraçado de alto a baixo, apareça já
inextricável, ar
falado, a fino ouvido: cacofónico,
mas de um modo exacto, acho,
música inquieta, inconjunta, impura,
isso: essa música
retoma-te no tocado, no aceso,
e fica cego e,
por memória do tacto, desfaz os nós,
muitos, muito
atados uns nos outros,
e que inteiramente te alcance o ar e,
depois de te haver abraçado de alto a baixo, apareça já
inextricável, ar
falado, a fino ouvido: cacofónico,
mas de um modo exacto, acho,
música inquieta, inconjunta, impura,
isso: essa música
983
Herberto Helder
6
e só agora penso:
porque é que nunca olho quando passo defronte de mim mesmo?
para não ver quão pouca luz tenho dentro?
ou o soluço atravessado no rosto velho e furioso,
agora que o penso e vejo mesmo sem espelho?
— cem anos ou quinhentos ou mil anos devorados pelo fundo e
amargo espelho velho:
e penso que só olhar agora ou não olhar é finalmente o mesmo
porque é que nunca olho quando passo defronte de mim mesmo?
para não ver quão pouca luz tenho dentro?
ou o soluço atravessado no rosto velho e furioso,
agora que o penso e vejo mesmo sem espelho?
— cem anos ou quinhentos ou mil anos devorados pelo fundo e
amargo espelho velho:
e penso que só olhar agora ou não olhar é finalmente o mesmo
1 181
Herberto Helder
6
e só agora penso:
porque é que nunca olho quando passo defronte de mim mesmo?
para não ver quão pouca luz tenho dentro?
ou o soluço atravessado no rosto velho e furioso,
agora que o penso e vejo mesmo sem espelho?
— cem anos ou quinhentos ou mil anos devorados pelo fundo e
amargo espelho velho:
e penso que só olhar agora ou não olhar é finalmente o mesmo
porque é que nunca olho quando passo defronte de mim mesmo?
para não ver quão pouca luz tenho dentro?
ou o soluço atravessado no rosto velho e furioso,
agora que o penso e vejo mesmo sem espelho?
— cem anos ou quinhentos ou mil anos devorados pelo fundo e
amargo espelho velho:
e penso que só olhar agora ou não olhar é finalmente o mesmo
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Herberto Helder
6
e só agora penso:
porque é que nunca olho quando passo defronte de mim mesmo?
para não ver quão pouca luz tenho dentro?
ou o soluço atravessado no rosto velho e furioso,
agora que o penso e vejo mesmo sem espelho?
— cem anos ou quinhentos ou mil anos devorados pelo fundo e
amargo espelho velho:
e penso que só olhar agora ou não olhar é finalmente o mesmo
porque é que nunca olho quando passo defronte de mim mesmo?
para não ver quão pouca luz tenho dentro?
ou o soluço atravessado no rosto velho e furioso,
agora que o penso e vejo mesmo sem espelho?
— cem anos ou quinhentos ou mil anos devorados pelo fundo e
amargo espelho velho:
e penso que só olhar agora ou não olhar é finalmente o mesmo
1 181
Herberto Helder
81
que não há nenhuma tecnologia paradisíaca,
mas com que estranheza se habita o mundo,
olhando de viés o outro lado das linhas,
onde se emaranha o nome profano que se inventa
como se fosse o inominável, movido,
oh inebriamento!
miraculosamente até
ao desastre da beleza
mas com que estranheza se habita o mundo,
olhando de viés o outro lado das linhas,
onde se emaranha o nome profano que se inventa
como se fosse o inominável, movido,
oh inebriamento!
miraculosamente até
ao desastre da beleza
559
Herberto Helder
82
que poder de ensino o destas coisas quando
em idioma: um copo de água agreste plenamente na mesa,
só em linguagem o copo me inebria
— placa de gelo em que lóbulos
do cérebro? — e exalta-me a transparência, porque
fora, sob
administração
geral: ciência, literatura, economia, gramática,
nada, nenhum copo, nenhuma água na mesa,
me fazem sangrar aferida essencial, ou mover-me
às cegas e às avessas
até ao último reduto; só antes,
por trás, depois,
à frente, eu sinto que a membrana de vidro, reservando uma pouca
de água miraculadamente do caos
dos dicionários, me despedaça
como primeira palavra,
não apenas os dedos, mas dedos e memória, devotação de vida;
a lição do nome
que não tem Deus, e de que o nosso nome
diminuto se aproxima; basta aquela água delgada enquanto algures
ceifam na terra,
edificam; água colhida no verbo
copo ou em Deus advérbio
de modo,
e há um nó interno requeimado, um nó semântico, e um calafrio
trespassa a bic preta, e em nativo escrevo
a música de ouvido,
e o ar que está por cima enche
todo o caderno,
e equilibram-se
o copo sobre a toalha, transparência, plano de água,
e dedos e papel e script e trémula superfície da memória,
tudo passado a multíplice e ardente
em idioma: um copo de água agreste plenamente na mesa,
só em linguagem o copo me inebria
— placa de gelo em que lóbulos
do cérebro? — e exalta-me a transparência, porque
fora, sob
administração
geral: ciência, literatura, economia, gramática,
nada, nenhum copo, nenhuma água na mesa,
me fazem sangrar aferida essencial, ou mover-me
às cegas e às avessas
até ao último reduto; só antes,
por trás, depois,
à frente, eu sinto que a membrana de vidro, reservando uma pouca
de água miraculadamente do caos
dos dicionários, me despedaça
como primeira palavra,
não apenas os dedos, mas dedos e memória, devotação de vida;
a lição do nome
que não tem Deus, e de que o nosso nome
diminuto se aproxima; basta aquela água delgada enquanto algures
ceifam na terra,
edificam; água colhida no verbo
copo ou em Deus advérbio
de modo,
e há um nó interno requeimado, um nó semântico, e um calafrio
trespassa a bic preta, e em nativo escrevo
a música de ouvido,
e o ar que está por cima enche
todo o caderno,
e equilibram-se
o copo sobre a toalha, transparência, plano de água,
e dedos e papel e script e trémula superfície da memória,
tudo passado a multíplice e ardente
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Herberto Helder
74
dúplice
lírica, dúbia mão sem Deus a trabalhar em música,
e tu respiras e pareces ligeiro,
mas abrem-se e fecham-se linhas, sangram unhas, e és
ávido, atento, áspero,
e o ritmo que tiras de ti regula a como que excessiva
dança à beira da vertigem: perigo
e poesia, que não são nada,
mas faz com que os dias mais se desarrumem,
e a tensão crie em ti profundidade, sêca
elegância, e delas dances, cabelo
batido a oxigénio,
a terra mudando de estações, e a mão
desenvolvida pela
luminotecnia
se ilumine a si mesma, e os fusíveis
nos circuitos eléctricos:
caia a noite ou não caia sobre o papel salgado,
escreves ambidextro entre caos e matemática,
porque és ardentemente indefeso,
porque tens de arrancar ao barulho, indecifrável e indemne, a linha
cantante
lírica, dúbia mão sem Deus a trabalhar em música,
e tu respiras e pareces ligeiro,
mas abrem-se e fecham-se linhas, sangram unhas, e és
ávido, atento, áspero,
e o ritmo que tiras de ti regula a como que excessiva
dança à beira da vertigem: perigo
e poesia, que não são nada,
mas faz com que os dias mais se desarrumem,
e a tensão crie em ti profundidade, sêca
elegância, e delas dances, cabelo
batido a oxigénio,
a terra mudando de estações, e a mão
desenvolvida pela
luminotecnia
se ilumine a si mesma, e os fusíveis
nos circuitos eléctricos:
caia a noite ou não caia sobre o papel salgado,
escreves ambidextro entre caos e matemática,
porque és ardentemente indefeso,
porque tens de arrancar ao barulho, indecifrável e indemne, a linha
cantante
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