Poemas neste tema
Vida e Existência
Herberto Helder
50
mas eu, que tenho o dom das línguas, senti
a linha sísmica atravessando a montagem das músicas,
e ouvi chamarem-me em lírica,
numa língua nenhuma que não sabia,
e os acertos e erros do meu nome não eram traduzíveis
nas línguas do meu dom,
e soube então que ar e fogo se mantinham um ao outro mas,
em vez de se abrirem,
se fechavam, e estremeci das músicas oh
o que eram elas,
que coisa grande traziam para ser posta em mínimo,
e que somenos ministério lavrava assim que voz,
no vivo,
no arrepio do ritmo,
por brônquios, garganta e dentes,
para fora,
para o escuro,
para o número ímpar?
a linha sísmica atravessando a montagem das músicas,
e ouvi chamarem-me em lírica,
numa língua nenhuma que não sabia,
e os acertos e erros do meu nome não eram traduzíveis
nas línguas do meu dom,
e soube então que ar e fogo se mantinham um ao outro mas,
em vez de se abrirem,
se fechavam, e estremeci das músicas oh
o que eram elas,
que coisa grande traziam para ser posta em mínimo,
e que somenos ministério lavrava assim que voz,
no vivo,
no arrepio do ritmo,
por brônquios, garganta e dentes,
para fora,
para o escuro,
para o número ímpar?
1 088
Herberto Helder
60
travesti, brasileiro, dote escandaloso, leio, venha ser minha fêmea,
deslumbrou a terra ávida com suas mamas luminosas
e um coiso grego,
como de mármore, compacto, digo, maciço, intacto, empolgante,
grosso, grande, grego,
e a língua desconversável com a língua então falada,
bruteza,
frescura,
clarão físico,
vivaz nos modos de fazer não uma coisa ou duas
mas todas,
num volteio de mão avêssa e acesa,
poema
da língua concêntrica que me criou até ao júbilo e eu criei contra o
poder do mundo com
presteza mercurial,
instinto,
intuito,
crítica da razão pura,
curtas metragens mais que ofuscantes: luciferinas,
até às iluminações transformadoras,
já tive sim todas as iluminações, todas, consumptivas,
que se lixe a vida,
que se lixe a mente,
vida e mente por uma palavra única,
vem das montagens visuais da infância da língua, coisas
com luz própria a que se não chegava, e a mão queimada, e penso:
vou meter a mão inteira pelo fogo dentro,
e não vou tirá-la nunca,
e nunca mais regressarei dessa palavra,
e pergunto porque estou vivo:
por amor de vinte e três palavras mais ou menos loucas,
glória às uniões inalcançáveis,
eu fodo, se me dão licença,
numa língua que vem com avidez mamífera
dos fundos da
língua portuguesa, só fodo nela,
por paixão,
matricialidade,
monogamia,
por conhecer linha a linha o corpo que se move,
a luz que levanta,
o ar que consome,
o que faz às pessoas quando dele se aproximam,
só isso me interessa naqueles com quem fodo,
ígneo donaire,
dom,
alerta,
décimo sexto sentido,
poucos poderes de salvação e obra mas
estrela muitíssima, tremenda, às labaredas,
a dança dionisíaca já dentro do abismo,
que se foda em alta língua,
é um mistério,
venha ser inadmissível, luminoso, fêmea, empolgante, grego,
quero eu dizer:
fodam comigo no mistério das línguas,
obrigado
deslumbrou a terra ávida com suas mamas luminosas
e um coiso grego,
como de mármore, compacto, digo, maciço, intacto, empolgante,
grosso, grande, grego,
e a língua desconversável com a língua então falada,
bruteza,
frescura,
clarão físico,
vivaz nos modos de fazer não uma coisa ou duas
mas todas,
num volteio de mão avêssa e acesa,
poema
da língua concêntrica que me criou até ao júbilo e eu criei contra o
poder do mundo com
presteza mercurial,
instinto,
intuito,
crítica da razão pura,
curtas metragens mais que ofuscantes: luciferinas,
até às iluminações transformadoras,
já tive sim todas as iluminações, todas, consumptivas,
que se lixe a vida,
que se lixe a mente,
vida e mente por uma palavra única,
vem das montagens visuais da infância da língua, coisas
com luz própria a que se não chegava, e a mão queimada, e penso:
vou meter a mão inteira pelo fogo dentro,
e não vou tirá-la nunca,
e nunca mais regressarei dessa palavra,
e pergunto porque estou vivo:
por amor de vinte e três palavras mais ou menos loucas,
glória às uniões inalcançáveis,
eu fodo, se me dão licença,
numa língua que vem com avidez mamífera
dos fundos da
língua portuguesa, só fodo nela,
por paixão,
matricialidade,
monogamia,
por conhecer linha a linha o corpo que se move,
a luz que levanta,
o ar que consome,
o que faz às pessoas quando dele se aproximam,
só isso me interessa naqueles com quem fodo,
ígneo donaire,
dom,
alerta,
décimo sexto sentido,
poucos poderes de salvação e obra mas
estrela muitíssima, tremenda, às labaredas,
a dança dionisíaca já dentro do abismo,
que se foda em alta língua,
é um mistério,
venha ser inadmissível, luminoso, fêmea, empolgante, grego,
quero eu dizer:
fodam comigo no mistério das línguas,
obrigado
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Herberto Helder
22
e regresso ao resplendor,
água inocente na bilha, sem nós, bilha contra a rapariga,
exposto tudo à potência fotovoltaica da estrela,
primeiro contra o quadril a curva
cozida trabalhada
na marga; e
no cruzamento dos braços num só clarão
atrás do escuro; e ao alto da cabeça, não como peso
ou equilíbrio ou diadema, mas
como
espaço que se alarga:
o estio:
e ela estremece, tocada, a rapariga debaixo da fábrica da estrela;
a água pelos respiradouros nos dias termodinâmicos, trazem-na
elas, estreitas,
rítmicas,
direitas raparigas, e eu regresso para beber, através da fábula
não já equilibrista, mas
nas linhas de luz ao de cima da água vertida,
colhida à mina, oculta, baixa, centígrada,
o cru que há em tudo quanto por dom é atado
e desatado no profundo: o mais agraz, oh
matriz! o rude, o redivivo,
o resplendor
água inocente na bilha, sem nós, bilha contra a rapariga,
exposto tudo à potência fotovoltaica da estrela,
primeiro contra o quadril a curva
cozida trabalhada
na marga; e
no cruzamento dos braços num só clarão
atrás do escuro; e ao alto da cabeça, não como peso
ou equilíbrio ou diadema, mas
como
espaço que se alarga:
o estio:
e ela estremece, tocada, a rapariga debaixo da fábrica da estrela;
a água pelos respiradouros nos dias termodinâmicos, trazem-na
elas, estreitas,
rítmicas,
direitas raparigas, e eu regresso para beber, através da fábula
não já equilibrista, mas
nas linhas de luz ao de cima da água vertida,
colhida à mina, oculta, baixa, centígrada,
o cru que há em tudo quanto por dom é atado
e desatado no profundo: o mais agraz, oh
matriz! o rude, o redivivo,
o resplendor
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Herberto Helder
27
retira-se alguém um pouco atrás na noite
para fazer uma escola da leveza,
sentar-se sobre si mesmo devorando uma laranja,
pronta,
colhida ao caos, que ela sim ilumina quem a usa,
e é isto: a laranja faz rodar os dedos, torna
leve, pelos dedos,
aquele que a levanta, e tão exacto gosto na língua,
tão transbordante,
dói no fino do frio açúcar,
e a laranja levanta tudo: luz e dedos, e a pessoa
com a ferida na boca, o gosto
magoado até à pronúncia das expressões mais simples do idioma,
golpe a golpe,
como em estrangeiro brutal,
ou inexpugnável,
que faz ele? talha trémula, oh Deus! lavrada a pau virgem e folha de
ouro,
mete-lhe os polegares pelos umbigos, devora-a, celebra, embebeda-se,
que escola de laranja terrestre não se pode mais que esta leveza
para fazer uma escola da leveza,
sentar-se sobre si mesmo devorando uma laranja,
pronta,
colhida ao caos, que ela sim ilumina quem a usa,
e é isto: a laranja faz rodar os dedos, torna
leve, pelos dedos,
aquele que a levanta, e tão exacto gosto na língua,
tão transbordante,
dói no fino do frio açúcar,
e a laranja levanta tudo: luz e dedos, e a pessoa
com a ferida na boca, o gosto
magoado até à pronúncia das expressões mais simples do idioma,
golpe a golpe,
como em estrangeiro brutal,
ou inexpugnável,
que faz ele? talha trémula, oh Deus! lavrada a pau virgem e folha de
ouro,
mete-lhe os polegares pelos umbigos, devora-a, celebra, embebeda-se,
que escola de laranja terrestre não se pode mais que esta leveza
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Herberto Helder
38
roupas pesadas de sangue, cabeças
como de mármore e ouro moído,
a luz arranca-as,
nem as víboras poderiam coroá-las,
nem os elementos ar e fogo,
e assim em silêncio amadurecem
madeixas, pálpebras,
gargantas,
fremindo ainda do sangue que ficou nas roupas,
fremindo no ar que chega aos poucos,
a pouca estrela,
e abaixo do nó de luz, abaixo
da avassaladora floração do amarelo no escuro,
o sangue,
porque ainda se respira um pouco,
rápido,
destroncadas,
o ar grande aberto para que a luz as encharque
<;e os dedos?
o sombrio, trabalham-no
os dedos bêbedos
como de mármore e ouro moído,
a luz arranca-as,
nem as víboras poderiam coroá-las,
nem os elementos ar e fogo,
e assim em silêncio amadurecem
madeixas, pálpebras,
gargantas,
fremindo ainda do sangue que ficou nas roupas,
fremindo no ar que chega aos poucos,
a pouca estrela,
e abaixo do nó de luz, abaixo
da avassaladora floração do amarelo no escuro,
o sangue,
porque ainda se respira um pouco,
rápido,
destroncadas,
o ar grande aberto para que a luz as encharque
<;e os dedos?
o sombrio, trabalham-no
os dedos bêbedos
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Herberto Helder
38
roupas pesadas de sangue, cabeças
como de mármore e ouro moído,
a luz arranca-as,
nem as víboras poderiam coroá-las,
nem os elementos ar e fogo,
e assim em silêncio amadurecem
madeixas, pálpebras,
gargantas,
fremindo ainda do sangue que ficou nas roupas,
fremindo no ar que chega aos poucos,
a pouca estrela,
e abaixo do nó de luz, abaixo
da avassaladora floração do amarelo no escuro,
o sangue,
porque ainda se respira um pouco,
rápido,
destroncadas,
o ar grande aberto para que a luz as encharque
<;e os dedos?
o sombrio, trabalham-no
os dedos bêbedos
como de mármore e ouro moído,
a luz arranca-as,
nem as víboras poderiam coroá-las,
nem os elementos ar e fogo,
e assim em silêncio amadurecem
madeixas, pálpebras,
gargantas,
fremindo ainda do sangue que ficou nas roupas,
fremindo no ar que chega aos poucos,
a pouca estrela,
e abaixo do nó de luz, abaixo
da avassaladora floração do amarelo no escuro,
o sangue,
porque ainda se respira um pouco,
rápido,
destroncadas,
o ar grande aberto para que a luz as encharque
<;e os dedos?
o sombrio, trabalham-no
os dedos bêbedos
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Herberto Helder
23
cabelo cortado vivo,
marga contra os dedos,
umbigo,
a plenos pulmões das formas, o mundo, como respira o mundo!
áruns por onde respira e brilha
— marga infusa: a matéria que,
arrancada, respira e
respirando no ar ininterrupto dolorosamente brilha,
no seu estado avulso
brilha, absoluta
— e o sangue urgente inundando a boca:
tão curta canção para tamanha vida:
aloés por onde o chão respira,
e a mão que brilha quando os toca,
tão pouca mão em tão nascida obra
— e anéis de um corpo cortado vivo
no cabelo,
na marga contra os dedos,
no umbigo:
na folha escura onde cada frase brilha
um relâmpago apenas antes de ser escrita
marga contra os dedos,
umbigo,
a plenos pulmões das formas, o mundo, como respira o mundo!
áruns por onde respira e brilha
— marga infusa: a matéria que,
arrancada, respira e
respirando no ar ininterrupto dolorosamente brilha,
no seu estado avulso
brilha, absoluta
— e o sangue urgente inundando a boca:
tão curta canção para tamanha vida:
aloés por onde o chão respira,
e a mão que brilha quando os toca,
tão pouca mão em tão nascida obra
— e anéis de um corpo cortado vivo
no cabelo,
na marga contra os dedos,
no umbigo:
na folha escura onde cada frase brilha
um relâmpago apenas antes de ser escrita
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Herberto Helder
23
cabelo cortado vivo,
marga contra os dedos,
umbigo,
a plenos pulmões das formas, o mundo, como respira o mundo!
áruns por onde respira e brilha
— marga infusa: a matéria que,
arrancada, respira e
respirando no ar ininterrupto dolorosamente brilha,
no seu estado avulso
brilha, absoluta
— e o sangue urgente inundando a boca:
tão curta canção para tamanha vida:
aloés por onde o chão respira,
e a mão que brilha quando os toca,
tão pouca mão em tão nascida obra
— e anéis de um corpo cortado vivo
no cabelo,
na marga contra os dedos,
no umbigo:
na folha escura onde cada frase brilha
um relâmpago apenas antes de ser escrita
marga contra os dedos,
umbigo,
a plenos pulmões das formas, o mundo, como respira o mundo!
áruns por onde respira e brilha
— marga infusa: a matéria que,
arrancada, respira e
respirando no ar ininterrupto dolorosamente brilha,
no seu estado avulso
brilha, absoluta
— e o sangue urgente inundando a boca:
tão curta canção para tamanha vida:
aloés por onde o chão respira,
e a mão que brilha quando os toca,
tão pouca mão em tão nascida obra
— e anéis de um corpo cortado vivo
no cabelo,
na marga contra os dedos,
no umbigo:
na folha escura onde cada frase brilha
um relâmpago apenas antes de ser escrita
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Herberto Helder
53
mesmo sem gente nenhuma que te ouça,
poema intrínseco dito a português e dentes,
a sangue desmanchado,
com a estria lírica a fervilhar de riscas
rudes, frescas, roucas,
tu que como que iluminas pela boca fora
poema intrínseco dito a português e dentes,
a sangue desmanchado,
com a estria lírica a fervilhar de riscas
rudes, frescas, roucas,
tu que como que iluminas pela boca fora
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Herberto Helder
18
porque estremeço à maravilha da volta com que tiras o vestido por
cima da cabeça,
coluna de fogo,
pela minha morte acima
cima da cabeça,
coluna de fogo,
pela minha morte acima
1 128
Herberto Helder
20
põem-te a água defronte e a mão aberta dentro da água não se apaga,
aufere-a,
relumbra dela,
defronte como uma dádiva,
e apoias-te no teu próprio sangue,
e a idade apoia-se na sua memória,
o teu nome obscurece-te,
fundo, quente, animal, acerbo,
minado a gás e sangue, os genitais em baixo, o peso,
e a mão aberta dentro da água aberta,
e como estremece tudo
e ele disse: não deixes fechar-se a ferida
— ,;beleza? nada
que num dia abrupto seja mamífero, magnífico,
deixa apenas correr o sangue, à frente ou
atrás da camisa
ou na zona animal da cabeça ou na uretra em vez de esperma
ou
na boca com o frescor do idioma,
enquanto a parte mais escura do mundo aumenta
em cada reduto,
e corra pelos rasgões mostrando o mais oculto,
disse
ele, o sangue — se o imo da carne agreste
que comemos, se a corrida de uma constelação em cima
da água que pára — não deixes,
disse,
fechar-se a ferida e refluir, através de tantos
trabalhos de tubos:
o sangue apanha-te das unhas ao frio do cabelo,
é onde é
a agonia, não há camélias, ameixas,
a maravilha, só
o corpo que é a sua própria ferida,
sangra, disse ele: que sangra muito
aufere-a,
relumbra dela,
defronte como uma dádiva,
e apoias-te no teu próprio sangue,
e a idade apoia-se na sua memória,
o teu nome obscurece-te,
fundo, quente, animal, acerbo,
minado a gás e sangue, os genitais em baixo, o peso,
e a mão aberta dentro da água aberta,
e como estremece tudo
e ele disse: não deixes fechar-se a ferida
— ,;beleza? nada
que num dia abrupto seja mamífero, magnífico,
deixa apenas correr o sangue, à frente ou
atrás da camisa
ou na zona animal da cabeça ou na uretra em vez de esperma
ou
na boca com o frescor do idioma,
enquanto a parte mais escura do mundo aumenta
em cada reduto,
e corra pelos rasgões mostrando o mais oculto,
disse
ele, o sangue — se o imo da carne agreste
que comemos, se a corrida de uma constelação em cima
da água que pára — não deixes,
disse,
fechar-se a ferida e refluir, através de tantos
trabalhos de tubos:
o sangue apanha-te das unhas ao frio do cabelo,
é onde é
a agonia, não há camélias, ameixas,
a maravilha, só
o corpo que é a sua própria ferida,
sangra, disse ele: que sangra muito
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Herberto Helder
20
põem-te a água defronte e a mão aberta dentro da água não se apaga,
aufere-a,
relumbra dela,
defronte como uma dádiva,
e apoias-te no teu próprio sangue,
e a idade apoia-se na sua memória,
o teu nome obscurece-te,
fundo, quente, animal, acerbo,
minado a gás e sangue, os genitais em baixo, o peso,
e a mão aberta dentro da água aberta,
e como estremece tudo
e ele disse: não deixes fechar-se a ferida
— ,;beleza? nada
que num dia abrupto seja mamífero, magnífico,
deixa apenas correr o sangue, à frente ou
atrás da camisa
ou na zona animal da cabeça ou na uretra em vez de esperma
ou
na boca com o frescor do idioma,
enquanto a parte mais escura do mundo aumenta
em cada reduto,
e corra pelos rasgões mostrando o mais oculto,
disse
ele, o sangue — se o imo da carne agreste
que comemos, se a corrida de uma constelação em cima
da água que pára — não deixes,
disse,
fechar-se a ferida e refluir, através de tantos
trabalhos de tubos:
o sangue apanha-te das unhas ao frio do cabelo,
é onde é
a agonia, não há camélias, ameixas,
a maravilha, só
o corpo que é a sua própria ferida,
sangra, disse ele: que sangra muito
aufere-a,
relumbra dela,
defronte como uma dádiva,
e apoias-te no teu próprio sangue,
e a idade apoia-se na sua memória,
o teu nome obscurece-te,
fundo, quente, animal, acerbo,
minado a gás e sangue, os genitais em baixo, o peso,
e a mão aberta dentro da água aberta,
e como estremece tudo
e ele disse: não deixes fechar-se a ferida
— ,;beleza? nada
que num dia abrupto seja mamífero, magnífico,
deixa apenas correr o sangue, à frente ou
atrás da camisa
ou na zona animal da cabeça ou na uretra em vez de esperma
ou
na boca com o frescor do idioma,
enquanto a parte mais escura do mundo aumenta
em cada reduto,
e corra pelos rasgões mostrando o mais oculto,
disse
ele, o sangue — se o imo da carne agreste
que comemos, se a corrida de uma constelação em cima
da água que pára — não deixes,
disse,
fechar-se a ferida e refluir, através de tantos
trabalhos de tubos:
o sangue apanha-te das unhas ao frio do cabelo,
é onde é
a agonia, não há camélias, ameixas,
a maravilha, só
o corpo que é a sua própria ferida,
sangra, disse ele: que sangra muito
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Herberto Helder
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põem-te a água defronte e a mão aberta dentro da água não se apaga,
aufere-a,
relumbra dela,
defronte como uma dádiva,
e apoias-te no teu próprio sangue,
e a idade apoia-se na sua memória,
o teu nome obscurece-te,
fundo, quente, animal, acerbo,
minado a gás e sangue, os genitais em baixo, o peso,
e a mão aberta dentro da água aberta,
e como estremece tudo
e ele disse: não deixes fechar-se a ferida
— ,;beleza? nada
que num dia abrupto seja mamífero, magnífico,
deixa apenas correr o sangue, à frente ou
atrás da camisa
ou na zona animal da cabeça ou na uretra em vez de esperma
ou
na boca com o frescor do idioma,
enquanto a parte mais escura do mundo aumenta
em cada reduto,
e corra pelos rasgões mostrando o mais oculto,
disse
ele, o sangue — se o imo da carne agreste
que comemos, se a corrida de uma constelação em cima
da água que pára — não deixes,
disse,
fechar-se a ferida e refluir, através de tantos
trabalhos de tubos:
o sangue apanha-te das unhas ao frio do cabelo,
é onde é
a agonia, não há camélias, ameixas,
a maravilha, só
o corpo que é a sua própria ferida,
sangra, disse ele: que sangra muito
aufere-a,
relumbra dela,
defronte como uma dádiva,
e apoias-te no teu próprio sangue,
e a idade apoia-se na sua memória,
o teu nome obscurece-te,
fundo, quente, animal, acerbo,
minado a gás e sangue, os genitais em baixo, o peso,
e a mão aberta dentro da água aberta,
e como estremece tudo
e ele disse: não deixes fechar-se a ferida
— ,;beleza? nada
que num dia abrupto seja mamífero, magnífico,
deixa apenas correr o sangue, à frente ou
atrás da camisa
ou na zona animal da cabeça ou na uretra em vez de esperma
ou
na boca com o frescor do idioma,
enquanto a parte mais escura do mundo aumenta
em cada reduto,
e corra pelos rasgões mostrando o mais oculto,
disse
ele, o sangue — se o imo da carne agreste
que comemos, se a corrida de uma constelação em cima
da água que pára — não deixes,
disse,
fechar-se a ferida e refluir, através de tantos
trabalhos de tubos:
o sangue apanha-te das unhas ao frio do cabelo,
é onde é
a agonia, não há camélias, ameixas,
a maravilha, só
o corpo que é a sua própria ferida,
sangra, disse ele: que sangra muito
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Herberto Helder
35
pêras plenas na luz subida para colhê-las
com hábil ebriedade, tardas
frutas no talento de amadurecerem, e tão afundadas em si mesmas e
prontas
quando se colhem: e era eu no orvalho:
que júbilo contabilista me levava a somá-las:
a quantidade de amor, o cuidado virado ao brilho,
às colinas,
e o medo então de que o sabor me fira muito
lábios e língua,
e a acuidade me destroce a fala: tanto
quero lucidez e
estudo para me arrebatarem, e não sei
de operação que me devolva
ali, no ápice
terrestre,
a unidade numérica, unhas
e cascas luzindo:
pêra tão única no mais apurado desde a raiz,
que me tremesse a boca
como se fosse de um idioma estrito mas desmedido no sentido,
e a arte apenas das contas bastasse para o alvoroço
de erguer-me num pomar,
o tacto atento nas pêras densas,
oh destros dedos repetidos no extremo dos dias, eu:
formal, aritmético,
quem sabe se escolhendo a morte pelos dedos
com hábil ebriedade, tardas
frutas no talento de amadurecerem, e tão afundadas em si mesmas e
prontas
quando se colhem: e era eu no orvalho:
que júbilo contabilista me levava a somá-las:
a quantidade de amor, o cuidado virado ao brilho,
às colinas,
e o medo então de que o sabor me fira muito
lábios e língua,
e a acuidade me destroce a fala: tanto
quero lucidez e
estudo para me arrebatarem, e não sei
de operação que me devolva
ali, no ápice
terrestre,
a unidade numérica, unhas
e cascas luzindo:
pêra tão única no mais apurado desde a raiz,
que me tremesse a boca
como se fosse de um idioma estrito mas desmedido no sentido,
e a arte apenas das contas bastasse para o alvoroço
de erguer-me num pomar,
o tacto atento nas pêras densas,
oh destros dedos repetidos no extremo dos dias, eu:
formal, aritmético,
quem sabe se escolhendo a morte pelos dedos
522
Herberto Helder
14
glória dos objectos!
cada nome é cada vez mais novo,
e diz o povo: encarnado é escuridão,
e eu digo: tu daí do meio das coisas, faz isto:
uma coralina molhada, uma nêspera, um maço de bocas-de-lobo,
flores ávidas,
mas não as faças nunca com risca administrativa,
faz à mão canhota, depressa, esperta,
risca espumante, o ar entre
o cabelo e a cabeça, e o vidro que anda no ar como a água anda nas
tábuas,
até que o ar seja luz em redor do teu cabelo,
antes isso do que se entenda: e o frio se infunda nas frutas para se
comerem frescas,
a luz que anda no cabelo primeiro desfaz a cara,
depois a alma,
depois abre todas as coisas fechadas,
mas não abras mão de nada, fecha a chave na mão esquerda e abre
o mundo com ela,
risca as formas ditas ou outras,
a laranja obsessiva,
ou a medida às escuras: faz-te a ti mesma:
por trás das coxas,
por entre as ancas,
onde o sangue se desmancha e de onde te alcança toda,
de que estremeces da vulva à língua,
debaixo das unhas,
nas gengivas,
de que sofres como de uma louca alegria,
rastro de coralina húmida
ou malha de luz na malha de água até que galáxia,
o rastro — dizia eu — da lesma,
risca disjuntiva,
é o mesmo,
de um lado ao outro das mesas metidas dentro das casas,
de um lado ao outro das casas que circundam as pessoas,
de um lado ao outro o sangue toma posse de um corpo,
se a madeira onde se assenta alguém se torna fria,
encarnada, quente, clara,
e vida e morte sabem como é que as coisas se fazem,
quando alguém se assenta nelas, as cadeiras iluminam-se
pelo sangue posto nelas, e as mesas em que se escreve
talvez um dia se exaltem
do escrito ou do riscado,
alimentos, mãos, roupas, bocas, bebidas, pêlos como auréolas
de ambos os sexos,
todos os dias de todos os anos de todas as duas vidas,
macho e fêmea
cada nome é cada vez mais novo,
e diz o povo: encarnado é escuridão,
e eu digo: tu daí do meio das coisas, faz isto:
uma coralina molhada, uma nêspera, um maço de bocas-de-lobo,
flores ávidas,
mas não as faças nunca com risca administrativa,
faz à mão canhota, depressa, esperta,
risca espumante, o ar entre
o cabelo e a cabeça, e o vidro que anda no ar como a água anda nas
tábuas,
até que o ar seja luz em redor do teu cabelo,
antes isso do que se entenda: e o frio se infunda nas frutas para se
comerem frescas,
a luz que anda no cabelo primeiro desfaz a cara,
depois a alma,
depois abre todas as coisas fechadas,
mas não abras mão de nada, fecha a chave na mão esquerda e abre
o mundo com ela,
risca as formas ditas ou outras,
a laranja obsessiva,
ou a medida às escuras: faz-te a ti mesma:
por trás das coxas,
por entre as ancas,
onde o sangue se desmancha e de onde te alcança toda,
de que estremeces da vulva à língua,
debaixo das unhas,
nas gengivas,
de que sofres como de uma louca alegria,
rastro de coralina húmida
ou malha de luz na malha de água até que galáxia,
o rastro — dizia eu — da lesma,
risca disjuntiva,
é o mesmo,
de um lado ao outro das mesas metidas dentro das casas,
de um lado ao outro das casas que circundam as pessoas,
de um lado ao outro o sangue toma posse de um corpo,
se a madeira onde se assenta alguém se torna fria,
encarnada, quente, clara,
e vida e morte sabem como é que as coisas se fazem,
quando alguém se assenta nelas, as cadeiras iluminam-se
pelo sangue posto nelas, e as mesas em que se escreve
talvez um dia se exaltem
do escrito ou do riscado,
alimentos, mãos, roupas, bocas, bebidas, pêlos como auréolas
de ambos os sexos,
todos os dias de todos os anos de todas as duas vidas,
macho e fêmea
1 017
Herberto Helder
14
glória dos objectos!
cada nome é cada vez mais novo,
e diz o povo: encarnado é escuridão,
e eu digo: tu daí do meio das coisas, faz isto:
uma coralina molhada, uma nêspera, um maço de bocas-de-lobo,
flores ávidas,
mas não as faças nunca com risca administrativa,
faz à mão canhota, depressa, esperta,
risca espumante, o ar entre
o cabelo e a cabeça, e o vidro que anda no ar como a água anda nas
tábuas,
até que o ar seja luz em redor do teu cabelo,
antes isso do que se entenda: e o frio se infunda nas frutas para se
comerem frescas,
a luz que anda no cabelo primeiro desfaz a cara,
depois a alma,
depois abre todas as coisas fechadas,
mas não abras mão de nada, fecha a chave na mão esquerda e abre
o mundo com ela,
risca as formas ditas ou outras,
a laranja obsessiva,
ou a medida às escuras: faz-te a ti mesma:
por trás das coxas,
por entre as ancas,
onde o sangue se desmancha e de onde te alcança toda,
de que estremeces da vulva à língua,
debaixo das unhas,
nas gengivas,
de que sofres como de uma louca alegria,
rastro de coralina húmida
ou malha de luz na malha de água até que galáxia,
o rastro — dizia eu — da lesma,
risca disjuntiva,
é o mesmo,
de um lado ao outro das mesas metidas dentro das casas,
de um lado ao outro das casas que circundam as pessoas,
de um lado ao outro o sangue toma posse de um corpo,
se a madeira onde se assenta alguém se torna fria,
encarnada, quente, clara,
e vida e morte sabem como é que as coisas se fazem,
quando alguém se assenta nelas, as cadeiras iluminam-se
pelo sangue posto nelas, e as mesas em que se escreve
talvez um dia se exaltem
do escrito ou do riscado,
alimentos, mãos, roupas, bocas, bebidas, pêlos como auréolas
de ambos os sexos,
todos os dias de todos os anos de todas as duas vidas,
macho e fêmea
cada nome é cada vez mais novo,
e diz o povo: encarnado é escuridão,
e eu digo: tu daí do meio das coisas, faz isto:
uma coralina molhada, uma nêspera, um maço de bocas-de-lobo,
flores ávidas,
mas não as faças nunca com risca administrativa,
faz à mão canhota, depressa, esperta,
risca espumante, o ar entre
o cabelo e a cabeça, e o vidro que anda no ar como a água anda nas
tábuas,
até que o ar seja luz em redor do teu cabelo,
antes isso do que se entenda: e o frio se infunda nas frutas para se
comerem frescas,
a luz que anda no cabelo primeiro desfaz a cara,
depois a alma,
depois abre todas as coisas fechadas,
mas não abras mão de nada, fecha a chave na mão esquerda e abre
o mundo com ela,
risca as formas ditas ou outras,
a laranja obsessiva,
ou a medida às escuras: faz-te a ti mesma:
por trás das coxas,
por entre as ancas,
onde o sangue se desmancha e de onde te alcança toda,
de que estremeces da vulva à língua,
debaixo das unhas,
nas gengivas,
de que sofres como de uma louca alegria,
rastro de coralina húmida
ou malha de luz na malha de água até que galáxia,
o rastro — dizia eu — da lesma,
risca disjuntiva,
é o mesmo,
de um lado ao outro das mesas metidas dentro das casas,
de um lado ao outro das casas que circundam as pessoas,
de um lado ao outro o sangue toma posse de um corpo,
se a madeira onde se assenta alguém se torna fria,
encarnada, quente, clara,
e vida e morte sabem como é que as coisas se fazem,
quando alguém se assenta nelas, as cadeiras iluminam-se
pelo sangue posto nelas, e as mesas em que se escreve
talvez um dia se exaltem
do escrito ou do riscado,
alimentos, mãos, roupas, bocas, bebidas, pêlos como auréolas
de ambos os sexos,
todos os dias de todos os anos de todas as duas vidas,
macho e fêmea
1 017
Herberto Helder
15
roupa agitada pela força da luz que irrompe dela,
veste-a, despe-a,
torna-te unânime com o ar e o fogo,
seda e carne, trabalha-as que luminotécnica,
roupa orgânica,
porque já no clarão de um strip-tease se fundira a terra toda
o fundo do cabelo quando o agarras todo para quebrá-la,
tu que perdeste o fôlego,
e sim respiras agora do sôfrego que foste nela,
perdes a fala quotidiana,
ganhas em tudo mas não sabes quanto ganhas
veste-a, despe-a,
torna-te unânime com o ar e o fogo,
seda e carne, trabalha-as que luminotécnica,
roupa orgânica,
porque já no clarão de um strip-tease se fundira a terra toda
o fundo do cabelo quando o agarras todo para quebrá-la,
tu que perdeste o fôlego,
e sim respiras agora do sôfrego que foste nela,
perdes a fala quotidiana,
ganhas em tudo mas não sabes quanto ganhas
1 132
Herberto Helder
41
vem aí o sagrado, e tornam-se radiosas as coisas mínimas,
e amadureces,
e no meio de azulejos, torneiras, gás, temperaturas,
tocas,
por favor da ferida primeira,
no teu centro, tocas
para causar profundidade,
quer dizer: vem o Deus que há-de vir, sente-se
contra a água e a cabeça,
tão perto, contra
kapput,
a cabeça
purificada
— e o Deus que há-de vir há-de vir andando sobre as águas? —
nada no mundo pede de ti o poder da dança,
nenhum poder debaixo da água lustral que te abraça,
por teor dos movimentos do duche,
te despe e abraça,
entre membros e ilhargas, o nó que rematou a obra
desde o remoto, essa
sim jubilação arcaica,
pois por trás da cortina plástica já se exacerba
a matéria dos dons, tão
leve
linguagem, uma
espécie de técnica do temor e tremor no quotidiano entre objectos
de uso
como:
champô e gel, e em cheio, baptismal, no cabelo,
o chuveiro de Deus,
e ei-la, a tua mão vibrante, ou pela força do sangue
que suporta pensamento e corpo
e a palavra,
ou pela força dos ramais desde as rudes reservas
até como estremeces sob águas assim
sopradas, e sobretudo o que não sabes que te abala
nos fundamentos
a cada instante inseparável
(na banheira)
e amadureces,
e no meio de azulejos, torneiras, gás, temperaturas,
tocas,
por favor da ferida primeira,
no teu centro, tocas
para causar profundidade,
quer dizer: vem o Deus que há-de vir, sente-se
contra a água e a cabeça,
tão perto, contra
kapput,
a cabeça
purificada
— e o Deus que há-de vir há-de vir andando sobre as águas? —
nada no mundo pede de ti o poder da dança,
nenhum poder debaixo da água lustral que te abraça,
por teor dos movimentos do duche,
te despe e abraça,
entre membros e ilhargas, o nó que rematou a obra
desde o remoto, essa
sim jubilação arcaica,
pois por trás da cortina plástica já se exacerba
a matéria dos dons, tão
leve
linguagem, uma
espécie de técnica do temor e tremor no quotidiano entre objectos
de uso
como:
champô e gel, e em cheio, baptismal, no cabelo,
o chuveiro de Deus,
e ei-la, a tua mão vibrante, ou pela força do sangue
que suporta pensamento e corpo
e a palavra,
ou pela força dos ramais desde as rudes reservas
até como estremeces sob águas assim
sopradas, e sobretudo o que não sabes que te abala
nos fundamentos
a cada instante inseparável
(na banheira)
1 080
Herberto Helder
41
vem aí o sagrado, e tornam-se radiosas as coisas mínimas,
e amadureces,
e no meio de azulejos, torneiras, gás, temperaturas,
tocas,
por favor da ferida primeira,
no teu centro, tocas
para causar profundidade,
quer dizer: vem o Deus que há-de vir, sente-se
contra a água e a cabeça,
tão perto, contra
kapput,
a cabeça
purificada
— e o Deus que há-de vir há-de vir andando sobre as águas? —
nada no mundo pede de ti o poder da dança,
nenhum poder debaixo da água lustral que te abraça,
por teor dos movimentos do duche,
te despe e abraça,
entre membros e ilhargas, o nó que rematou a obra
desde o remoto, essa
sim jubilação arcaica,
pois por trás da cortina plástica já se exacerba
a matéria dos dons, tão
leve
linguagem, uma
espécie de técnica do temor e tremor no quotidiano entre objectos
de uso
como:
champô e gel, e em cheio, baptismal, no cabelo,
o chuveiro de Deus,
e ei-la, a tua mão vibrante, ou pela força do sangue
que suporta pensamento e corpo
e a palavra,
ou pela força dos ramais desde as rudes reservas
até como estremeces sob águas assim
sopradas, e sobretudo o que não sabes que te abala
nos fundamentos
a cada instante inseparável
(na banheira)
e amadureces,
e no meio de azulejos, torneiras, gás, temperaturas,
tocas,
por favor da ferida primeira,
no teu centro, tocas
para causar profundidade,
quer dizer: vem o Deus que há-de vir, sente-se
contra a água e a cabeça,
tão perto, contra
kapput,
a cabeça
purificada
— e o Deus que há-de vir há-de vir andando sobre as águas? —
nada no mundo pede de ti o poder da dança,
nenhum poder debaixo da água lustral que te abraça,
por teor dos movimentos do duche,
te despe e abraça,
entre membros e ilhargas, o nó que rematou a obra
desde o remoto, essa
sim jubilação arcaica,
pois por trás da cortina plástica já se exacerba
a matéria dos dons, tão
leve
linguagem, uma
espécie de técnica do temor e tremor no quotidiano entre objectos
de uso
como:
champô e gel, e em cheio, baptismal, no cabelo,
o chuveiro de Deus,
e ei-la, a tua mão vibrante, ou pela força do sangue
que suporta pensamento e corpo
e a palavra,
ou pela força dos ramais desde as rudes reservas
até como estremeces sob águas assim
sopradas, e sobretudo o que não sabes que te abala
nos fundamentos
a cada instante inseparável
(na banheira)
1 080
Herberto Helder
39
aparas gregas de mármore em redor da cabeça,
torso, ilhargas, membros e nos membros,
rótulas, unhas,
irrompem da água escarpada,
o vídeo funciona,
água para trás, crua, das minas,
tu próprio crias pêso e leveza,
luz própria,
levanta-os com o corpo,
cria com o corpo a tua própria gramática,
o mundo nasce do vídeo, o caos do mundo, beltà, jubilaçâo, abalo,
que Deus funciona na sua glória electrónica
torso, ilhargas, membros e nos membros,
rótulas, unhas,
irrompem da água escarpada,
o vídeo funciona,
água para trás, crua, das minas,
tu próprio crias pêso e leveza,
luz própria,
levanta-os com o corpo,
cria com o corpo a tua própria gramática,
o mundo nasce do vídeo, o caos do mundo, beltà, jubilaçâo, abalo,
que Deus funciona na sua glória electrónica
1 018
Herberto Helder
39
aparas gregas de mármore em redor da cabeça,
torso, ilhargas, membros e nos membros,
rótulas, unhas,
irrompem da água escarpada,
o vídeo funciona,
água para trás, crua, das minas,
tu próprio crias pêso e leveza,
luz própria,
levanta-os com o corpo,
cria com o corpo a tua própria gramática,
o mundo nasce do vídeo, o caos do mundo, beltà, jubilaçâo, abalo,
que Deus funciona na sua glória electrónica
torso, ilhargas, membros e nos membros,
rótulas, unhas,
irrompem da água escarpada,
o vídeo funciona,
água para trás, crua, das minas,
tu próprio crias pêso e leveza,
luz própria,
levanta-os com o corpo,
cria com o corpo a tua própria gramática,
o mundo nasce do vídeo, o caos do mundo, beltà, jubilaçâo, abalo,
que Deus funciona na sua glória electrónica
1 018
Herberto Helder
48
no mundo há poucos fenómenos do fogo,
ar há pouco,
mas quem não queria criar uma língua dentro da própria língua?
eu sim queria,
o tempo doendo, a mente doendo, a mão doendo,
o modo esplendor do verbo,
dentro, fundo, lento, essa língua,
errada, soprada, atenta,
mas agora já nada me embebeda,
já não sinto nos dedos a pulsação da caneta,
a idade tornou-me louco,
sou múltiplo,
os grandes lençóis de ar sacudidos pelo fogo,
noutro tempo eu cobria-me com todo o ar desdobrado,
havia tanto fogo movido pelo ar dentro,
agora não tenho nada defronte,
não sinto o ritmo,
estou separado, inexpugnável, incógnito, pouco,
ninguém me toca,
não toco
ar há pouco,
mas quem não queria criar uma língua dentro da própria língua?
eu sim queria,
o tempo doendo, a mente doendo, a mão doendo,
o modo esplendor do verbo,
dentro, fundo, lento, essa língua,
errada, soprada, atenta,
mas agora já nada me embebeda,
já não sinto nos dedos a pulsação da caneta,
a idade tornou-me louco,
sou múltiplo,
os grandes lençóis de ar sacudidos pelo fogo,
noutro tempo eu cobria-me com todo o ar desdobrado,
havia tanto fogo movido pelo ar dentro,
agora não tenho nada defronte,
não sinto o ritmo,
estou separado, inexpugnável, incógnito, pouco,
ninguém me toca,
não toco
561
Herberto Helder
48
no mundo há poucos fenómenos do fogo,
ar há pouco,
mas quem não queria criar uma língua dentro da própria língua?
eu sim queria,
o tempo doendo, a mente doendo, a mão doendo,
o modo esplendor do verbo,
dentro, fundo, lento, essa língua,
errada, soprada, atenta,
mas agora já nada me embebeda,
já não sinto nos dedos a pulsação da caneta,
a idade tornou-me louco,
sou múltiplo,
os grandes lençóis de ar sacudidos pelo fogo,
noutro tempo eu cobria-me com todo o ar desdobrado,
havia tanto fogo movido pelo ar dentro,
agora não tenho nada defronte,
não sinto o ritmo,
estou separado, inexpugnável, incógnito, pouco,
ninguém me toca,
não toco
ar há pouco,
mas quem não queria criar uma língua dentro da própria língua?
eu sim queria,
o tempo doendo, a mente doendo, a mão doendo,
o modo esplendor do verbo,
dentro, fundo, lento, essa língua,
errada, soprada, atenta,
mas agora já nada me embebeda,
já não sinto nos dedos a pulsação da caneta,
a idade tornou-me louco,
sou múltiplo,
os grandes lençóis de ar sacudidos pelo fogo,
noutro tempo eu cobria-me com todo o ar desdobrado,
havia tanto fogo movido pelo ar dentro,
agora não tenho nada defronte,
não sinto o ritmo,
estou separado, inexpugnável, incógnito, pouco,
ninguém me toca,
não toco
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