Poemas neste tema
Vida e Existência
Isabel Mendes Ferreira
e volto
e volto. com outro silêncio mais loba mais árabe menos faca antes farpa outro vestido a mesma capa. fui ao deserto. nasceu-me um filho. da terra vermelha. da terra sanguínea. da pele vestal sou agora outra muralha desabituei-me da planície. fiz-me à montanha. galopei-me. voltei. mais secreta. menos incerta. menos asa. mais de areia. menos perguntas. menos respostas. de esporas. quero menos. quero agora. só agora voltei. muitas mortes muitas viagens depois. para lembrar o que não esqueço. tudo o que trago nos traços da pele. lama. perfume. finitude que me cega claridades de cal. e me afoga todos os afagos e cala as palavras e descola os gritos. como placenta como raiz. voltei para acordar do automatismo. do esboço. do risco. do retrato. do adjectivo.
voltei. estou aqui. igual. diferente. menos macia. mais árida. menos ávida. como se ao contrário. redonda. aguda. crua. menos gata mais gasta bruta dupla contra o vento. metade dionisíaca. metade socrática. e volto.
voltei. estou aqui. igual. diferente. menos macia. mais árida. menos ávida. como se ao contrário. redonda. aguda. crua. menos gata mais gasta bruta dupla contra o vento. metade dionisíaca. metade socrática. e volto.
745
Isabel Mendes Ferreira
e volto
e volto. com outro silêncio mais loba mais árabe menos faca antes farpa outro vestido a mesma capa. fui ao deserto. nasceu-me um filho. da terra vermelha. da terra sanguínea. da pele vestal sou agora outra muralha desabituei-me da planície. fiz-me à montanha. galopei-me. voltei. mais secreta. menos incerta. menos asa. mais de areia. menos perguntas. menos respostas. de esporas. quero menos. quero agora. só agora voltei. muitas mortes muitas viagens depois. para lembrar o que não esqueço. tudo o que trago nos traços da pele. lama. perfume. finitude que me cega claridades de cal. e me afoga todos os afagos e cala as palavras e descola os gritos. como placenta como raiz. voltei para acordar do automatismo. do esboço. do risco. do retrato. do adjectivo.
voltei. estou aqui. igual. diferente. menos macia. mais árida. menos ávida. como se ao contrário. redonda. aguda. crua. menos gata mais gasta bruta dupla contra o vento. metade dionisíaca. metade socrática. e volto.
voltei. estou aqui. igual. diferente. menos macia. mais árida. menos ávida. como se ao contrário. redonda. aguda. crua. menos gata mais gasta bruta dupla contra o vento. metade dionisíaca. metade socrática. e volto.
745
Daniel Francoy
Para pichar nos muros da cidade sitiada
Agora não há mais nada entre nós e o fim do mundo.
Toda quarentena é falha.
Eu tenho medo do ar que você respira.
A contagem dos mortos é sempre imprecisa.
Agora vivemos a vida adiada.
Há algo mais do que pássaros e ratos aqui.
Não confie no lucro anunciado.
Há homens com rifles nas esquinas.
Tudo o que conheci está sepultado.
Você ainda acredita que há dias sem mortos?
Toda quarentena é falha.
Eu tenho medo do ar que você respira.
A contagem dos mortos é sempre imprecisa.
Agora vivemos a vida adiada.
Há algo mais do que pássaros e ratos aqui.
Não confie no lucro anunciado.
Há homens com rifles nas esquinas.
Tudo o que conheci está sepultado.
Você ainda acredita que há dias sem mortos?
685
Herberto Helder
4K
O mármore maduro desabrocha, move-o pelo meio
a estrela de água.
E a cobra enrola-se ao torso, mergulha
na bolsa tenra. O sopro da víbora incha a pedra
de ombro a ombro.
E a pedra formada, a víbora fria, a estrela
que funciona,
transmudam-se umas nas outras.
— Todas as canções são canções múltiplas
e únicas
de demência.
a estrela de água.
E a cobra enrola-se ao torso, mergulha
na bolsa tenra. O sopro da víbora incha a pedra
de ombro a ombro.
E a pedra formada, a víbora fria, a estrela
que funciona,
transmudam-se umas nas outras.
— Todas as canções são canções múltiplas
e únicas
de demência.
1 158
Herberto Helder
5C
Pratiquei a minha arte de roseira: a fria
inclinação das rosas contra os dedos
iluminava em baixo
as palavras.
Abri-as até dentro onde era negro o coração
nas cápsulas. Das rosas fundas, da fundura nas palavras.
Transfigurei-as.
Na oficina fechada talhei a chaga meridiana
do que ficou aberto.
Escrevi a imagem que era a cicatriz de outra imagem.
A mão experimental transtornava-se ao serviço
escrito
das vozes. O sangue rodeava o segredo. E na sessão das rosas
dedo a dedo, isto: a fresta da carne,
a morte pela boca.
— Uma frase, uma ferida, uma vida selada.
1985, revisto em 1987.
inclinação das rosas contra os dedos
iluminava em baixo
as palavras.
Abri-as até dentro onde era negro o coração
nas cápsulas. Das rosas fundas, da fundura nas palavras.
Transfigurei-as.
Na oficina fechada talhei a chaga meridiana
do que ficou aberto.
Escrevi a imagem que era a cicatriz de outra imagem.
A mão experimental transtornava-se ao serviço
escrito
das vozes. O sangue rodeava o segredo. E na sessão das rosas
dedo a dedo, isto: a fresta da carne,
a morte pela boca.
— Uma frase, uma ferida, uma vida selada.
1985, revisto em 1987.
1 153
Fernando Guerreiro
[poema sem título]
O corpo sobe e desce
embalado de encontro
à gelatina (gordura)
do líquido até se dissolver
na onda de partículas
– a cintilação sem brilho
(glauca) de fuxos invisíveis –
de onde reemerge
com um novo tronco –
as guelras no lugar
das pernas – para
repetir um outro ciclo.
Quem o segura?
Tudo se arrasta
no aquário alagado
em que o olhar se adensa,
inclinado para dentro,
deixando-se cobrir
pelo lençol de pregas –
silvos embutidos –
do vidro movediço
Tudo mexe em câmara
lenta vídeo distorcido
no viveiro de formas
(carnívoro adormecido)
de onde as imagens
se desprendem
(da agonia do fundo)
ainda irresolvidas.
Mal sai da cápsula
a placa de vidro –
com os seus parafusos
de metal fundido –
agride-o na cabeça
no ponto em que
o pensamento bate
no fundo e se
extingue o sentido.
Atravessado pela janela
que o lamina pelo cinto
cai para baixo e cima
sem que os dois cotos,
girando sobre si,
cheguem a ocupar
o espaço de ravinas
deixado livre
pelo pesadelo
entre o sólido e o líquido.
Só então a imagem,
quando volta à superfície,
reconhece como sua
a promessa de novos sons –
seres de língua bífida –
que já nada prende
aos limites do conhecido.
embalado de encontro
à gelatina (gordura)
do líquido até se dissolver
na onda de partículas
– a cintilação sem brilho
(glauca) de fuxos invisíveis –
de onde reemerge
com um novo tronco –
as guelras no lugar
das pernas – para
repetir um outro ciclo.
Quem o segura?
Tudo se arrasta
no aquário alagado
em que o olhar se adensa,
inclinado para dentro,
deixando-se cobrir
pelo lençol de pregas –
silvos embutidos –
do vidro movediço
Tudo mexe em câmara
lenta vídeo distorcido
no viveiro de formas
(carnívoro adormecido)
de onde as imagens
se desprendem
(da agonia do fundo)
ainda irresolvidas.
Mal sai da cápsula
a placa de vidro –
com os seus parafusos
de metal fundido –
agride-o na cabeça
no ponto em que
o pensamento bate
no fundo e se
extingue o sentido.
Atravessado pela janela
que o lamina pelo cinto
cai para baixo e cima
sem que os dois cotos,
girando sobre si,
cheguem a ocupar
o espaço de ravinas
deixado livre
pelo pesadelo
entre o sólido e o líquido.
Só então a imagem,
quando volta à superfície,
reconhece como sua
a promessa de novos sons –
seres de língua bífida –
que já nada prende
aos limites do conhecido.
839
Fernando Guerreiro
[poema sem título]
O corpo sobe e desce
embalado de encontro
à gelatina (gordura)
do líquido até se dissolver
na onda de partículas
– a cintilação sem brilho
(glauca) de fuxos invisíveis –
de onde reemerge
com um novo tronco –
as guelras no lugar
das pernas – para
repetir um outro ciclo.
Quem o segura?
Tudo se arrasta
no aquário alagado
em que o olhar se adensa,
inclinado para dentro,
deixando-se cobrir
pelo lençol de pregas –
silvos embutidos –
do vidro movediço
Tudo mexe em câmara
lenta vídeo distorcido
no viveiro de formas
(carnívoro adormecido)
de onde as imagens
se desprendem
(da agonia do fundo)
ainda irresolvidas.
Mal sai da cápsula
a placa de vidro –
com os seus parafusos
de metal fundido –
agride-o na cabeça
no ponto em que
o pensamento bate
no fundo e se
extingue o sentido.
Atravessado pela janela
que o lamina pelo cinto
cai para baixo e cima
sem que os dois cotos,
girando sobre si,
cheguem a ocupar
o espaço de ravinas
deixado livre
pelo pesadelo
entre o sólido e o líquido.
Só então a imagem,
quando volta à superfície,
reconhece como sua
a promessa de novos sons –
seres de língua bífida –
que já nada prende
aos limites do conhecido.
embalado de encontro
à gelatina (gordura)
do líquido até se dissolver
na onda de partículas
– a cintilação sem brilho
(glauca) de fuxos invisíveis –
de onde reemerge
com um novo tronco –
as guelras no lugar
das pernas – para
repetir um outro ciclo.
Quem o segura?
Tudo se arrasta
no aquário alagado
em que o olhar se adensa,
inclinado para dentro,
deixando-se cobrir
pelo lençol de pregas –
silvos embutidos –
do vidro movediço
Tudo mexe em câmara
lenta vídeo distorcido
no viveiro de formas
(carnívoro adormecido)
de onde as imagens
se desprendem
(da agonia do fundo)
ainda irresolvidas.
Mal sai da cápsula
a placa de vidro –
com os seus parafusos
de metal fundido –
agride-o na cabeça
no ponto em que
o pensamento bate
no fundo e se
extingue o sentido.
Atravessado pela janela
que o lamina pelo cinto
cai para baixo e cima
sem que os dois cotos,
girando sobre si,
cheguem a ocupar
o espaço de ravinas
deixado livre
pelo pesadelo
entre o sólido e o líquido.
Só então a imagem,
quando volta à superfície,
reconhece como sua
a promessa de novos sons –
seres de língua bífida –
que já nada prende
aos limites do conhecido.
839
Herberto Helder
4N
A lua leveda o mênstruo, vira o peixe no frio, ilumina
o objecto brusco. É um trabalho recôndito
do nome, que o nome escrito
na lenha,
o tronco reverdeceu. E da madeira a mão levanta abismadamente
a corola.
A profissão de marceneiro, inspira-a
a embriaguez. Deus vê a talha cândida
da sua obra. Matriz, umbigo, meio da tábua,
a estrela principal, transfundem-se
em palavra. O marceneiro arranca das entranhas
a sua rosa. A pulso e bebedeira.
Arranca o olho que a olhava
espelhada. Enquanto se ligam lua e sol
debaixo
da plaina.
o objecto brusco. É um trabalho recôndito
do nome, que o nome escrito
na lenha,
o tronco reverdeceu. E da madeira a mão levanta abismadamente
a corola.
A profissão de marceneiro, inspira-a
a embriaguez. Deus vê a talha cândida
da sua obra. Matriz, umbigo, meio da tábua,
a estrela principal, transfundem-se
em palavra. O marceneiro arranca das entranhas
a sua rosa. A pulso e bebedeira.
Arranca o olho que a olhava
espelhada. Enquanto se ligam lua e sol
debaixo
da plaina.
1 044
Daniel Francoy
UMA ALDEIA VIZINHA
Imagino uma aldeia vizinha de Pompeia
e o assombro da erupção: um crepúsculo
forte, rútilo, escarlate, e depois a nuvem
avançando – cinza, lenta, maciça –
sem ninguém desconfiar do que ocorria
no outro lado da cordilheira
e de que a sombra que soprava
era a poeira de uma cidade desfeita.
Eis que os homens dizimados
no ar revolto, tornados fuligem,
logo revestiram a epiderme dos sobreviventes;
fantasma que se tornou nítido na manhã
seguinte, ao despertar:
em cada lençol jazia um vulto de carvão.
Depois, imagino que foi horrível se banhar.
Perceber a sujeira que se desprendia do corpo
descendo em redemoinhos, água
escura, oleosa – enfim, refratária
ao instinto da branca espuma.
e o assombro da erupção: um crepúsculo
forte, rútilo, escarlate, e depois a nuvem
avançando – cinza, lenta, maciça –
sem ninguém desconfiar do que ocorria
no outro lado da cordilheira
e de que a sombra que soprava
era a poeira de uma cidade desfeita.
Eis que os homens dizimados
no ar revolto, tornados fuligem,
logo revestiram a epiderme dos sobreviventes;
fantasma que se tornou nítido na manhã
seguinte, ao despertar:
em cada lençol jazia um vulto de carvão.
Depois, imagino que foi horrível se banhar.
Perceber a sujeira que se desprendia do corpo
descendo em redemoinhos, água
escura, oleosa – enfim, refratária
ao instinto da branca espuma.
791
Daniel Francoy
UMA ALDEIA VIZINHA
Imagino uma aldeia vizinha de Pompeia
e o assombro da erupção: um crepúsculo
forte, rútilo, escarlate, e depois a nuvem
avançando – cinza, lenta, maciça –
sem ninguém desconfiar do que ocorria
no outro lado da cordilheira
e de que a sombra que soprava
era a poeira de uma cidade desfeita.
Eis que os homens dizimados
no ar revolto, tornados fuligem,
logo revestiram a epiderme dos sobreviventes;
fantasma que se tornou nítido na manhã
seguinte, ao despertar:
em cada lençol jazia um vulto de carvão.
Depois, imagino que foi horrível se banhar.
Perceber a sujeira que se desprendia do corpo
descendo em redemoinhos, água
escura, oleosa – enfim, refratária
ao instinto da branca espuma.
e o assombro da erupção: um crepúsculo
forte, rútilo, escarlate, e depois a nuvem
avançando – cinza, lenta, maciça –
sem ninguém desconfiar do que ocorria
no outro lado da cordilheira
e de que a sombra que soprava
era a poeira de uma cidade desfeita.
Eis que os homens dizimados
no ar revolto, tornados fuligem,
logo revestiram a epiderme dos sobreviventes;
fantasma que se tornou nítido na manhã
seguinte, ao despertar:
em cada lençol jazia um vulto de carvão.
Depois, imagino que foi horrível se banhar.
Perceber a sujeira que se desprendia do corpo
descendo em redemoinhos, água
escura, oleosa – enfim, refratária
ao instinto da branca espuma.
791
Daniel Francoy
Este jardim foi construído
Este jardim foi construído para que a morte pareça benevolente
e não seja mais do que alguns botões secos de rosas
ainda presos aos ramos ou um punhado de pétalas secas
ao redor das raízes – um idílico cenário para que nele
vivêssemos jovens e não tivéssemos terror maior
do que os animais que desconhecem a palavra morte
e foi construído tendo como alicerce um princípio fundamental
para a tranquilidade de nossa agonia: o princípio da distração,
mas agora há um espelho diante do jardim
e ninguém consegue ser distraído de um espelho.
No começo, a atenção sobre cada detalhe do jardim refletido
causa certo encantamento: a beleza da louça do chá da tarde,
a placidez no semblante das estátuas, a ascensão tortuosa
e dolorosa das flores que buscam o céu com um sentimento
de profunda irmandade, a clareira de grama gasta e batida
no local em que dançamos, certos efeitos de claridade
nas horas em que sol parece evocar a pureza da água,
nós mesmos sentados – deuses que riem.
É preciso algum tempo – mas não tempo maior
do que o percurso de uma tarde – para que a imagem refletida
comece a causar certo incômodo. Então são moscas
que pousam sobre o resto de comida nos pratos
e voam em torno de nossas cabeças? E este bolor
no coração das estátuas não é incompatível
com o clima de sol perpétuo? Há também galhos
quebrados, com trapos sujos de sangue presos
aos espinhos, como que a delimitar o local
onde ocorreu uma cena de violência pouco comentada
durante o sarau. E sob o chão da clareira
não há sinais da presença de um formigueiro
e isso não explica por que nunca dançamos descalços
e por que enterramos os mortos em caixões?
e não seja mais do que alguns botões secos de rosas
ainda presos aos ramos ou um punhado de pétalas secas
ao redor das raízes – um idílico cenário para que nele
vivêssemos jovens e não tivéssemos terror maior
do que os animais que desconhecem a palavra morte
e foi construído tendo como alicerce um princípio fundamental
para a tranquilidade de nossa agonia: o princípio da distração,
mas agora há um espelho diante do jardim
e ninguém consegue ser distraído de um espelho.
No começo, a atenção sobre cada detalhe do jardim refletido
causa certo encantamento: a beleza da louça do chá da tarde,
a placidez no semblante das estátuas, a ascensão tortuosa
e dolorosa das flores que buscam o céu com um sentimento
de profunda irmandade, a clareira de grama gasta e batida
no local em que dançamos, certos efeitos de claridade
nas horas em que sol parece evocar a pureza da água,
nós mesmos sentados – deuses que riem.
É preciso algum tempo – mas não tempo maior
do que o percurso de uma tarde – para que a imagem refletida
comece a causar certo incômodo. Então são moscas
que pousam sobre o resto de comida nos pratos
e voam em torno de nossas cabeças? E este bolor
no coração das estátuas não é incompatível
com o clima de sol perpétuo? Há também galhos
quebrados, com trapos sujos de sangue presos
aos espinhos, como que a delimitar o local
onde ocorreu uma cena de violência pouco comentada
durante o sarau. E sob o chão da clareira
não há sinais da presença de um formigueiro
e isso não explica por que nunca dançamos descalços
e por que enterramos os mortos em caixões?
771
Isabel Mendes Ferreira
emagrecer o movimento
emagrecer o movimento que enche de surpresa as mãos cheias. de fascínios e desígnios. desenhar um caos ao mesmo tempo dócil e desamparado. encostar a porta ao espelho das águas. silenciar a tua mão no meu peito e depois lançar um pássaro de ópio à terra. não querer voltar a ser outro porto. perder todas as chaves. e deixar o riso ladrar como animal. fome de folhas. feroz fulgor dos contrários.
_________________._______________________
(em desfeito pano de sons e poeiras. pontos redondos na anca do sono. onde a natureza é cometa e declive.) e o contrário continua a ser
uma frase de entendimento. aberta à essência dos conflitos.
_________________._______________________
(em desfeito pano de sons e poeiras. pontos redondos na anca do sono. onde a natureza é cometa e declive.) e o contrário continua a ser
uma frase de entendimento. aberta à essência dos conflitos.
549
Herberto Helder
4O
É amargo o coração do poema.
A mão esquerda em cima desencadeia uma estrela,
em baixo a outra mão
mexe num charco branco. Feridas que abrem,
reabrem, cose-as a noite, recose-as
com linha incandescente. Amargo. O sangue nunca pára
de mão a mão salgada, entre os olhos,
nos alvéolos da boca.
O sangue que se move nas vozes magnificando
o escuro atrás das coisas,
os halos nas imagens de limalha, os espaços ásperos
que escreves
entre os meteoros. Cose-te: brilhas
nas cicatrizes. Só essa mão que mexes
ao alto e a outra mão que brancamente
trabalha
nas superfícies centrífugas. Amargo, amargo. Em sangue e exercício
de elegância bárbara. Até que sentado ao meio
negro da obra morras
de luz compacta.
Numa radiação de hélio rebentes pela sombria
violência
dos núcleos loucos da alma.
A mão esquerda em cima desencadeia uma estrela,
em baixo a outra mão
mexe num charco branco. Feridas que abrem,
reabrem, cose-as a noite, recose-as
com linha incandescente. Amargo. O sangue nunca pára
de mão a mão salgada, entre os olhos,
nos alvéolos da boca.
O sangue que se move nas vozes magnificando
o escuro atrás das coisas,
os halos nas imagens de limalha, os espaços ásperos
que escreves
entre os meteoros. Cose-te: brilhas
nas cicatrizes. Só essa mão que mexes
ao alto e a outra mão que brancamente
trabalha
nas superfícies centrífugas. Amargo, amargo. Em sangue e exercício
de elegância bárbara. Até que sentado ao meio
negro da obra morras
de luz compacta.
Numa radiação de hélio rebentes pela sombria
violência
dos núcleos loucos da alma.
1 113
Herberto Helder
4J
O dia ordena os cântaros um a um em filas vivas.
A noite cerra-lhes os corações que sorviam
o caos
pelas aortas
de argila. Flancos contra flancos.
O tempo só existe por estes corpos selados.
E o azeite repousa. O vinho ensombra-se.
O mel amadurece com a voltagem de uma jóia
onde mergulha a lua.
Se alguém se fecha com a noite por cima.
Estou cheio desta noite, deste sono, desta riqueza
côncava,
arrefecida.
Ordena a luz o que o escuro tranca, o sonho
atado ao sono numa imagem concêntrica
radiando
dentro. A imagem diurna ordena
em filas que respiram as palavras
profundas, as crateras,
os cântaros
— profundamente.
As palavras encostadas ao papel. E o barro
suspira. O peso dessa
vida insondável: vinho,
azeite, mel — o caos que se transforma em número.
A imagem multiplica a consciência.
A jóia sazonada contra a morte.
Uma a uma, as coisas do mundo, as noites desarrumadas,
as mãos que as arrumam
entre chama e sono, as bilhas uma a uma do tesouro,
uma a uma
as palavras contra o papel profundo que suspira
— bilhas profundas na casa mais profunda
ainda.
A noite cerra-lhes os corações que sorviam
o caos
pelas aortas
de argila. Flancos contra flancos.
O tempo só existe por estes corpos selados.
E o azeite repousa. O vinho ensombra-se.
O mel amadurece com a voltagem de uma jóia
onde mergulha a lua.
Se alguém se fecha com a noite por cima.
Estou cheio desta noite, deste sono, desta riqueza
côncava,
arrefecida.
Ordena a luz o que o escuro tranca, o sonho
atado ao sono numa imagem concêntrica
radiando
dentro. A imagem diurna ordena
em filas que respiram as palavras
profundas, as crateras,
os cântaros
— profundamente.
As palavras encostadas ao papel. E o barro
suspira. O peso dessa
vida insondável: vinho,
azeite, mel — o caos que se transforma em número.
A imagem multiplica a consciência.
A jóia sazonada contra a morte.
Uma a uma, as coisas do mundo, as noites desarrumadas,
as mãos que as arrumam
entre chama e sono, as bilhas uma a uma do tesouro,
uma a uma
as palavras contra o papel profundo que suspira
— bilhas profundas na casa mais profunda
ainda.
1 065
Herberto Helder
4S
Ninguém tem mais peso que o seu canto.
Alua agarra-o pela raiz,
arranca-o.
Deixa um grito que embriaga,
deixa sangue na boca.
Que seja a demonia: — a arte mais forte de morrer
pela música, pela
memória.
Alua agarra-o pela raiz,
arranca-o.
Deixa um grito que embriaga,
deixa sangue na boca.
Que seja a demonia: — a arte mais forte de morrer
pela música, pela
memória.
1 106
Isabel Mendes Ferreira
daqui não partem
daqui não partem. antes chegam navios como braços.
amarrados a um destino de névoas e de lâminas. como fado
ou luminoso adeus adentro da música..
aqui só o silêncio indígeno que prende a alma ao corpo e este à sombra.
____________________embate de universos dentro de pequenos barcos. como estrelas ou antúrios.
__________________trânsito cego no mar amoroso que sangrante e febril é alegria e cartilagem de ave.
daqui não partem. aterram ossos.
ascendem anjos. mudos. falsos navios no olhar. narrativas de escarpas .
muros que não desvendo.
amarrados a um destino de névoas e de lâminas. como fado
ou luminoso adeus adentro da música..
aqui só o silêncio indígeno que prende a alma ao corpo e este à sombra.
____________________embate de universos dentro de pequenos barcos. como estrelas ou antúrios.
__________________trânsito cego no mar amoroso que sangrante e febril é alegria e cartilagem de ave.
daqui não partem. aterram ossos.
ascendem anjos. mudos. falsos navios no olhar. narrativas de escarpas .
muros que não desvendo.
689
Ana Marques Gastão
Assunção
Não há ciência para nós, nem o corpo é semente dispersa
de uma memória exacta. Somos tu e eu, elevados da terra
a um círculo de luz, espessa música. Descansa em minha
sombra para lá da superfície do tempo, escreve-se a noite
a toda a largura do mundo que prossegue sem nos ver.
Nada pode fixar-se ou ganhar forma, pois forma já não
temos quando tuas asas curvas desenham o movimento
do fogo. Aperto-te contra mim; nada do que se possa dizer
convém à dor de carne suada, morre-se de um beijo com
um grito dentro e a paisagem, límpida, pode quebrar-se
em nossas mãos. Sobrevive-nos a cor incendiada, porém,
porque só o irrepetível se eterniza e só o humano é divino.
Ergue-me, assim, de uma vida cheia de sangue.
Deixa-me ir, primeiro os pés, a luminescência, depois
o tronco, húmido, levitando nas entranhas de água, a cabeça
já sem rosto pregada a uma estrela cadente na cicatriz
de um chão sacro. Vê como a alucinação traz meu coração
de sal ao desastre da boca, áspero lugar, crepúsculo primeiro,
falha. Desejo-te quando caminhas por entre a seiva, fechado
à distância do lápis. Empurra-me agora, vagarosamente,
sem despedidas trágicas ou poemas flutuantes, sob a linha
recta da voz. O riso de Deus é trémulo e cintilante. E o anjo,
criança sábia, nada diz. As palavras morrem se forem ditas.
de uma memória exacta. Somos tu e eu, elevados da terra
a um círculo de luz, espessa música. Descansa em minha
sombra para lá da superfície do tempo, escreve-se a noite
a toda a largura do mundo que prossegue sem nos ver.
Nada pode fixar-se ou ganhar forma, pois forma já não
temos quando tuas asas curvas desenham o movimento
do fogo. Aperto-te contra mim; nada do que se possa dizer
convém à dor de carne suada, morre-se de um beijo com
um grito dentro e a paisagem, límpida, pode quebrar-se
em nossas mãos. Sobrevive-nos a cor incendiada, porém,
porque só o irrepetível se eterniza e só o humano é divino.
Ergue-me, assim, de uma vida cheia de sangue.
Deixa-me ir, primeiro os pés, a luminescência, depois
o tronco, húmido, levitando nas entranhas de água, a cabeça
já sem rosto pregada a uma estrela cadente na cicatriz
de um chão sacro. Vê como a alucinação traz meu coração
de sal ao desastre da boca, áspero lugar, crepúsculo primeiro,
falha. Desejo-te quando caminhas por entre a seiva, fechado
à distância do lápis. Empurra-me agora, vagarosamente,
sem despedidas trágicas ou poemas flutuantes, sob a linha
recta da voz. O riso de Deus é trémulo e cintilante. E o anjo,
criança sábia, nada diz. As palavras morrem se forem ditas.
725
Ana Marques Gastão
Assunção
Não há ciência para nós, nem o corpo é semente dispersa
de uma memória exacta. Somos tu e eu, elevados da terra
a um círculo de luz, espessa música. Descansa em minha
sombra para lá da superfície do tempo, escreve-se a noite
a toda a largura do mundo que prossegue sem nos ver.
Nada pode fixar-se ou ganhar forma, pois forma já não
temos quando tuas asas curvas desenham o movimento
do fogo. Aperto-te contra mim; nada do que se possa dizer
convém à dor de carne suada, morre-se de um beijo com
um grito dentro e a paisagem, límpida, pode quebrar-se
em nossas mãos. Sobrevive-nos a cor incendiada, porém,
porque só o irrepetível se eterniza e só o humano é divino.
Ergue-me, assim, de uma vida cheia de sangue.
Deixa-me ir, primeiro os pés, a luminescência, depois
o tronco, húmido, levitando nas entranhas de água, a cabeça
já sem rosto pregada a uma estrela cadente na cicatriz
de um chão sacro. Vê como a alucinação traz meu coração
de sal ao desastre da boca, áspero lugar, crepúsculo primeiro,
falha. Desejo-te quando caminhas por entre a seiva, fechado
à distância do lápis. Empurra-me agora, vagarosamente,
sem despedidas trágicas ou poemas flutuantes, sob a linha
recta da voz. O riso de Deus é trémulo e cintilante. E o anjo,
criança sábia, nada diz. As palavras morrem se forem ditas.
de uma memória exacta. Somos tu e eu, elevados da terra
a um círculo de luz, espessa música. Descansa em minha
sombra para lá da superfície do tempo, escreve-se a noite
a toda a largura do mundo que prossegue sem nos ver.
Nada pode fixar-se ou ganhar forma, pois forma já não
temos quando tuas asas curvas desenham o movimento
do fogo. Aperto-te contra mim; nada do que se possa dizer
convém à dor de carne suada, morre-se de um beijo com
um grito dentro e a paisagem, límpida, pode quebrar-se
em nossas mãos. Sobrevive-nos a cor incendiada, porém,
porque só o irrepetível se eterniza e só o humano é divino.
Ergue-me, assim, de uma vida cheia de sangue.
Deixa-me ir, primeiro os pés, a luminescência, depois
o tronco, húmido, levitando nas entranhas de água, a cabeça
já sem rosto pregada a uma estrela cadente na cicatriz
de um chão sacro. Vê como a alucinação traz meu coração
de sal ao desastre da boca, áspero lugar, crepúsculo primeiro,
falha. Desejo-te quando caminhas por entre a seiva, fechado
à distância do lápis. Empurra-me agora, vagarosamente,
sem despedidas trágicas ou poemas flutuantes, sob a linha
recta da voz. O riso de Deus é trémulo e cintilante. E o anjo,
criança sábia, nada diz. As palavras morrem se forem ditas.
725
Ana Marques Gastão
Chá vermelho-ferro
Fosse teu corpo um bule, exuberante
e esguio, de rosto oculto e mãos
como hastes a vermelho-ferro,
e de tua boca se soltasse um vento
sem tecto que de fumo desenhasse
um jardim de úberes silvos,
tornar-me-ia eu num Tu em meu
nada de alto colo e formato fruto,
asa em ansa, moldada em chama
por ti ateada, ferina e triangular.
Fosse teu corpo porcelana brava
como o sinto, leve, branco-vidrado,
aplanado de ausência e composto
em passos de bico amarelo pálido
ou beringela, nele beberia o chá
de tampa inventada num ápice de
botão, minúsculos ambos, um esfriado
de cerâmica e espanto, o outro quente
de púrpura de Cassius – recomeçando os
dois a moldar o pomo em forma de crista.
e esguio, de rosto oculto e mãos
como hastes a vermelho-ferro,
e de tua boca se soltasse um vento
sem tecto que de fumo desenhasse
um jardim de úberes silvos,
tornar-me-ia eu num Tu em meu
nada de alto colo e formato fruto,
asa em ansa, moldada em chama
por ti ateada, ferina e triangular.
Fosse teu corpo porcelana brava
como o sinto, leve, branco-vidrado,
aplanado de ausência e composto
em passos de bico amarelo pálido
ou beringela, nele beberia o chá
de tampa inventada num ápice de
botão, minúsculos ambos, um esfriado
de cerâmica e espanto, o outro quente
de púrpura de Cassius – recomeçando os
dois a moldar o pomo em forma de crista.
669
Daniel Francoy
ALEGRIA
Que improvável trazer
o dom da alegria.
Que clandestino trago
de vinho saboreio
na tarde que germina
– dulcíssimo perfume –
duras ervas daninhas
(pressinto na mandíbula
as raízes que quebram
as pedras, ascendendo).
E entre tanta alegria
e entre tanta doçura
que improvável trazer
a morte clandestina –
no homem a gravidez
dos terrenos baldios.
Que doído plantar.
Que doído deixar
de plantar: vivo ou morto
de mim nada precisa.
o dom da alegria.
Que clandestino trago
de vinho saboreio
na tarde que germina
– dulcíssimo perfume –
duras ervas daninhas
(pressinto na mandíbula
as raízes que quebram
as pedras, ascendendo).
E entre tanta alegria
e entre tanta doçura
que improvável trazer
a morte clandestina –
no homem a gravidez
dos terrenos baldios.
Que doído plantar.
Que doído deixar
de plantar: vivo ou morto
de mim nada precisa.
1 246
Daniel Francoy
ALEGRIA
Que improvável trazer
o dom da alegria.
Que clandestino trago
de vinho saboreio
na tarde que germina
– dulcíssimo perfume –
duras ervas daninhas
(pressinto na mandíbula
as raízes que quebram
as pedras, ascendendo).
E entre tanta alegria
e entre tanta doçura
que improvável trazer
a morte clandestina –
no homem a gravidez
dos terrenos baldios.
Que doído plantar.
Que doído deixar
de plantar: vivo ou morto
de mim nada precisa.
o dom da alegria.
Que clandestino trago
de vinho saboreio
na tarde que germina
– dulcíssimo perfume –
duras ervas daninhas
(pressinto na mandíbula
as raízes que quebram
as pedras, ascendendo).
E entre tanta alegria
e entre tanta doçura
que improvável trazer
a morte clandestina –
no homem a gravidez
dos terrenos baldios.
Que doído plantar.
Que doído deixar
de plantar: vivo ou morto
de mim nada precisa.
1 246
Daniel Francoy
ALEGRIA
Que improvável trazer
o dom da alegria.
Que clandestino trago
de vinho saboreio
na tarde que germina
– dulcíssimo perfume –
duras ervas daninhas
(pressinto na mandíbula
as raízes que quebram
as pedras, ascendendo).
E entre tanta alegria
e entre tanta doçura
que improvável trazer
a morte clandestina –
no homem a gravidez
dos terrenos baldios.
Que doído plantar.
Que doído deixar
de plantar: vivo ou morto
de mim nada precisa.
o dom da alegria.
Que clandestino trago
de vinho saboreio
na tarde que germina
– dulcíssimo perfume –
duras ervas daninhas
(pressinto na mandíbula
as raízes que quebram
as pedras, ascendendo).
E entre tanta alegria
e entre tanta doçura
que improvável trazer
a morte clandestina –
no homem a gravidez
dos terrenos baldios.
Que doído plantar.
Que doído deixar
de plantar: vivo ou morto
de mim nada precisa.
1 246
Herberto Helder
4P
Mergulhador na radiografia de brancura escarpada.
Arboreamente explosiva.
Busca na constelação salina a flor
que traga na boca
de bailarino. Uma bolha árdua, estelar, à tona
do corpo e da onda.
A morte confundida fora e dentro.
Quando não há palavra que se diga e apenas uma imagem
mostre em cima
os trabalhos e os dias submarinos.
Arboreamente explosiva.
Busca na constelação salina a flor
que traga na boca
de bailarino. Uma bolha árdua, estelar, à tona
do corpo e da onda.
A morte confundida fora e dentro.
Quando não há palavra que se diga e apenas uma imagem
mostre em cima
os trabalhos e os dias submarinos.
591
Herberto Helder
4P
Mergulhador na radiografia de brancura escarpada.
Arboreamente explosiva.
Busca na constelação salina a flor
que traga na boca
de bailarino. Uma bolha árdua, estelar, à tona
do corpo e da onda.
A morte confundida fora e dentro.
Quando não há palavra que se diga e apenas uma imagem
mostre em cima
os trabalhos e os dias submarinos.
Arboreamente explosiva.
Busca na constelação salina a flor
que traga na boca
de bailarino. Uma bolha árdua, estelar, à tona
do corpo e da onda.
A morte confundida fora e dentro.
Quando não há palavra que se diga e apenas uma imagem
mostre em cima
os trabalhos e os dias submarinos.
591