Poemas neste tema
Vida e Existência
Herberto Helder
I F
Olha a minha sombra natural exactamente amarela, diz,
a areia em cima da água como se fosse luz
entra, calcina-a,
espáduas,
as ancas na fornalha,
a cicatriz que raia, estrela cozida, chama-se:
Espiga,
e o avesso e o direito, pulmões, estômago,
sangue que o corpo todo abotoa,
a massa da beleza com os membros e a cara,
e então ela começa a encontrar a sua morte,
a sombra natural exactamente amarela entra
no espaço
que a si próprio se queima,
ela.
a areia em cima da água como se fosse luz
entra, calcina-a,
espáduas,
as ancas na fornalha,
a cicatriz que raia, estrela cozida, chama-se:
Espiga,
e o avesso e o direito, pulmões, estômago,
sangue que o corpo todo abotoa,
a massa da beleza com os membros e a cara,
e então ela começa a encontrar a sua morte,
a sombra natural exactamente amarela entra
no espaço
que a si próprio se queima,
ela.
1 092
Herberto Helder
I F
Olha a minha sombra natural exactamente amarela, diz,
a areia em cima da água como se fosse luz
entra, calcina-a,
espáduas,
as ancas na fornalha,
a cicatriz que raia, estrela cozida, chama-se:
Espiga,
e o avesso e o direito, pulmões, estômago,
sangue que o corpo todo abotoa,
a massa da beleza com os membros e a cara,
e então ela começa a encontrar a sua morte,
a sombra natural exactamente amarela entra
no espaço
que a si próprio se queima,
ela.
a areia em cima da água como se fosse luz
entra, calcina-a,
espáduas,
as ancas na fornalha,
a cicatriz que raia, estrela cozida, chama-se:
Espiga,
e o avesso e o direito, pulmões, estômago,
sangue que o corpo todo abotoa,
a massa da beleza com os membros e a cara,
e então ela começa a encontrar a sua morte,
a sombra natural exactamente amarela entra
no espaço
que a si próprio se queima,
ela.
1 092
Herberto Helder
A Menstruação Quando Na Cidade Passava
A menstruação quando na cidade passava
o ar. As raparigas respirando,
comendo figos — e a menstruação quando na cidade
corria o tempo pelo ar.
Eram cravos na neve. As raparigas
riam, gritavam — e as figueiras soprando de dentro
os figos, com seus pulmões de esponja
branca. E as raparigas
comiam cravos pelo ar.
E elas riam na neve e gritavam: era
o tempo da menstruação.
As maçãs resvalavam na casa.
Alguém falava: neve. A noite vinha
partir a cabeça das estátuas, e as maçãs
resvalavam no telhado — alguém
falava: sangue.
Na casa, elas riam — e a menstruação
corria pelas cavernas brancas das esponjas,
e partiam-se as cabeças das estátuas.
Cravos — era alguém que falava assim.
E as raparigas respirando, comendo
figos na neve.
Alguém falava: maçãs. E era o tempo.
O sangue escorria dos pescoços de granito,
a criança abatia a boca negra
sobre a neve nos figos — e elas gritavam
na sombra da casa.
Alguém falava: sangue, tempo.
As figueiras sopravam no ar que
corria, as máquinas amavam. E um peixe
percorrendo, como uma antiga palavra
sensível, a página desse amor.
E alguém falava: é a neve.
As raparigas riam dentro da menstruação,
comendo neve. As cabeças das
estátuas estavam cheias de cravos,
e as crianças abatiam a boca negra sobre
os gritos. A noite vinha pelo ar,
na sombra resvalavam as maçãs.
E era o tempo.
E elas riam no ar, comendo
a noite,
alimentando-se de figos e de neve.
E alguém falava: crianças.
E a menstruação escorria em silêncio —
na noite, na neve —
espremida das esponjas brancas, lá na noite
das raparigas
que riam na sombra da casa, resvalando,
comendo cravos. E alguém falava:
é um peixe percorrendo a página de um amor
antigo. E as raparigas
gritavam.
As vacas então espreitando,
e nos focinhos consumia-se o lume em silêncio.
Pelas janelas os violinos
passavam pelo ar. E a menstruação nas raparigas
escorria pela sombra, e elas
gritavam e comiam areia. Alguém falava:
fogo. E as vacas passavam pelos violinos.
E as janelas em silêncio escorriam
o seu fogo. E as admiráveis
raparigas cantavam a sua canção, como
uma palavra antiga escorrendo
numa página pela neve,
coroada de figos. E no fogo as crianças
eram tocadas pelo tempo da menstruação.
Alimentavam-se apenas de figos e de areia.
E pelo tempo fora,
riam — e a neve cobria a sua página de tempo,
e as vacas resvalavam na sombra.
Em silêncio o seu lume escorria das esponjas.
Partiam-se as cabeças dos violinos.
As raparigas, cantando as suas crianças,
comiam figos.
A noite comia areia.
E eram cravos nas cavernas brancas.
Menstruação — falava alguém. O ar passava —
e pela noite, em silêncio,
a menstruação escorria pela neve.
o ar. As raparigas respirando,
comendo figos — e a menstruação quando na cidade
corria o tempo pelo ar.
Eram cravos na neve. As raparigas
riam, gritavam — e as figueiras soprando de dentro
os figos, com seus pulmões de esponja
branca. E as raparigas
comiam cravos pelo ar.
E elas riam na neve e gritavam: era
o tempo da menstruação.
As maçãs resvalavam na casa.
Alguém falava: neve. A noite vinha
partir a cabeça das estátuas, e as maçãs
resvalavam no telhado — alguém
falava: sangue.
Na casa, elas riam — e a menstruação
corria pelas cavernas brancas das esponjas,
e partiam-se as cabeças das estátuas.
Cravos — era alguém que falava assim.
E as raparigas respirando, comendo
figos na neve.
Alguém falava: maçãs. E era o tempo.
O sangue escorria dos pescoços de granito,
a criança abatia a boca negra
sobre a neve nos figos — e elas gritavam
na sombra da casa.
Alguém falava: sangue, tempo.
As figueiras sopravam no ar que
corria, as máquinas amavam. E um peixe
percorrendo, como uma antiga palavra
sensível, a página desse amor.
E alguém falava: é a neve.
As raparigas riam dentro da menstruação,
comendo neve. As cabeças das
estátuas estavam cheias de cravos,
e as crianças abatiam a boca negra sobre
os gritos. A noite vinha pelo ar,
na sombra resvalavam as maçãs.
E era o tempo.
E elas riam no ar, comendo
a noite,
alimentando-se de figos e de neve.
E alguém falava: crianças.
E a menstruação escorria em silêncio —
na noite, na neve —
espremida das esponjas brancas, lá na noite
das raparigas
que riam na sombra da casa, resvalando,
comendo cravos. E alguém falava:
é um peixe percorrendo a página de um amor
antigo. E as raparigas
gritavam.
As vacas então espreitando,
e nos focinhos consumia-se o lume em silêncio.
Pelas janelas os violinos
passavam pelo ar. E a menstruação nas raparigas
escorria pela sombra, e elas
gritavam e comiam areia. Alguém falava:
fogo. E as vacas passavam pelos violinos.
E as janelas em silêncio escorriam
o seu fogo. E as admiráveis
raparigas cantavam a sua canção, como
uma palavra antiga escorrendo
numa página pela neve,
coroada de figos. E no fogo as crianças
eram tocadas pelo tempo da menstruação.
Alimentavam-se apenas de figos e de areia.
E pelo tempo fora,
riam — e a neve cobria a sua página de tempo,
e as vacas resvalavam na sombra.
Em silêncio o seu lume escorria das esponjas.
Partiam-se as cabeças dos violinos.
As raparigas, cantando as suas crianças,
comiam figos.
A noite comia areia.
E eram cravos nas cavernas brancas.
Menstruação — falava alguém. O ar passava —
e pela noite, em silêncio,
a menstruação escorria pela neve.
1 300
Herberto Helder
A Menstruação Quando Na Cidade Passava
A menstruação quando na cidade passava
o ar. As raparigas respirando,
comendo figos — e a menstruação quando na cidade
corria o tempo pelo ar.
Eram cravos na neve. As raparigas
riam, gritavam — e as figueiras soprando de dentro
os figos, com seus pulmões de esponja
branca. E as raparigas
comiam cravos pelo ar.
E elas riam na neve e gritavam: era
o tempo da menstruação.
As maçãs resvalavam na casa.
Alguém falava: neve. A noite vinha
partir a cabeça das estátuas, e as maçãs
resvalavam no telhado — alguém
falava: sangue.
Na casa, elas riam — e a menstruação
corria pelas cavernas brancas das esponjas,
e partiam-se as cabeças das estátuas.
Cravos — era alguém que falava assim.
E as raparigas respirando, comendo
figos na neve.
Alguém falava: maçãs. E era o tempo.
O sangue escorria dos pescoços de granito,
a criança abatia a boca negra
sobre a neve nos figos — e elas gritavam
na sombra da casa.
Alguém falava: sangue, tempo.
As figueiras sopravam no ar que
corria, as máquinas amavam. E um peixe
percorrendo, como uma antiga palavra
sensível, a página desse amor.
E alguém falava: é a neve.
As raparigas riam dentro da menstruação,
comendo neve. As cabeças das
estátuas estavam cheias de cravos,
e as crianças abatiam a boca negra sobre
os gritos. A noite vinha pelo ar,
na sombra resvalavam as maçãs.
E era o tempo.
E elas riam no ar, comendo
a noite,
alimentando-se de figos e de neve.
E alguém falava: crianças.
E a menstruação escorria em silêncio —
na noite, na neve —
espremida das esponjas brancas, lá na noite
das raparigas
que riam na sombra da casa, resvalando,
comendo cravos. E alguém falava:
é um peixe percorrendo a página de um amor
antigo. E as raparigas
gritavam.
As vacas então espreitando,
e nos focinhos consumia-se o lume em silêncio.
Pelas janelas os violinos
passavam pelo ar. E a menstruação nas raparigas
escorria pela sombra, e elas
gritavam e comiam areia. Alguém falava:
fogo. E as vacas passavam pelos violinos.
E as janelas em silêncio escorriam
o seu fogo. E as admiráveis
raparigas cantavam a sua canção, como
uma palavra antiga escorrendo
numa página pela neve,
coroada de figos. E no fogo as crianças
eram tocadas pelo tempo da menstruação.
Alimentavam-se apenas de figos e de areia.
E pelo tempo fora,
riam — e a neve cobria a sua página de tempo,
e as vacas resvalavam na sombra.
Em silêncio o seu lume escorria das esponjas.
Partiam-se as cabeças dos violinos.
As raparigas, cantando as suas crianças,
comiam figos.
A noite comia areia.
E eram cravos nas cavernas brancas.
Menstruação — falava alguém. O ar passava —
e pela noite, em silêncio,
a menstruação escorria pela neve.
o ar. As raparigas respirando,
comendo figos — e a menstruação quando na cidade
corria o tempo pelo ar.
Eram cravos na neve. As raparigas
riam, gritavam — e as figueiras soprando de dentro
os figos, com seus pulmões de esponja
branca. E as raparigas
comiam cravos pelo ar.
E elas riam na neve e gritavam: era
o tempo da menstruação.
As maçãs resvalavam na casa.
Alguém falava: neve. A noite vinha
partir a cabeça das estátuas, e as maçãs
resvalavam no telhado — alguém
falava: sangue.
Na casa, elas riam — e a menstruação
corria pelas cavernas brancas das esponjas,
e partiam-se as cabeças das estátuas.
Cravos — era alguém que falava assim.
E as raparigas respirando, comendo
figos na neve.
Alguém falava: maçãs. E era o tempo.
O sangue escorria dos pescoços de granito,
a criança abatia a boca negra
sobre a neve nos figos — e elas gritavam
na sombra da casa.
Alguém falava: sangue, tempo.
As figueiras sopravam no ar que
corria, as máquinas amavam. E um peixe
percorrendo, como uma antiga palavra
sensível, a página desse amor.
E alguém falava: é a neve.
As raparigas riam dentro da menstruação,
comendo neve. As cabeças das
estátuas estavam cheias de cravos,
e as crianças abatiam a boca negra sobre
os gritos. A noite vinha pelo ar,
na sombra resvalavam as maçãs.
E era o tempo.
E elas riam no ar, comendo
a noite,
alimentando-se de figos e de neve.
E alguém falava: crianças.
E a menstruação escorria em silêncio —
na noite, na neve —
espremida das esponjas brancas, lá na noite
das raparigas
que riam na sombra da casa, resvalando,
comendo cravos. E alguém falava:
é um peixe percorrendo a página de um amor
antigo. E as raparigas
gritavam.
As vacas então espreitando,
e nos focinhos consumia-se o lume em silêncio.
Pelas janelas os violinos
passavam pelo ar. E a menstruação nas raparigas
escorria pela sombra, e elas
gritavam e comiam areia. Alguém falava:
fogo. E as vacas passavam pelos violinos.
E as janelas em silêncio escorriam
o seu fogo. E as admiráveis
raparigas cantavam a sua canção, como
uma palavra antiga escorrendo
numa página pela neve,
coroada de figos. E no fogo as crianças
eram tocadas pelo tempo da menstruação.
Alimentavam-se apenas de figos e de areia.
E pelo tempo fora,
riam — e a neve cobria a sua página de tempo,
e as vacas resvalavam na sombra.
Em silêncio o seu lume escorria das esponjas.
Partiam-se as cabeças dos violinos.
As raparigas, cantando as suas crianças,
comiam figos.
A noite comia areia.
E eram cravos nas cavernas brancas.
Menstruação — falava alguém. O ar passava —
e pela noite, em silêncio,
a menstruação escorria pela neve.
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Herberto Helder
A Menstruação Quando Na Cidade Passava
A menstruação quando na cidade passava
o ar. As raparigas respirando,
comendo figos — e a menstruação quando na cidade
corria o tempo pelo ar.
Eram cravos na neve. As raparigas
riam, gritavam — e as figueiras soprando de dentro
os figos, com seus pulmões de esponja
branca. E as raparigas
comiam cravos pelo ar.
E elas riam na neve e gritavam: era
o tempo da menstruação.
As maçãs resvalavam na casa.
Alguém falava: neve. A noite vinha
partir a cabeça das estátuas, e as maçãs
resvalavam no telhado — alguém
falava: sangue.
Na casa, elas riam — e a menstruação
corria pelas cavernas brancas das esponjas,
e partiam-se as cabeças das estátuas.
Cravos — era alguém que falava assim.
E as raparigas respirando, comendo
figos na neve.
Alguém falava: maçãs. E era o tempo.
O sangue escorria dos pescoços de granito,
a criança abatia a boca negra
sobre a neve nos figos — e elas gritavam
na sombra da casa.
Alguém falava: sangue, tempo.
As figueiras sopravam no ar que
corria, as máquinas amavam. E um peixe
percorrendo, como uma antiga palavra
sensível, a página desse amor.
E alguém falava: é a neve.
As raparigas riam dentro da menstruação,
comendo neve. As cabeças das
estátuas estavam cheias de cravos,
e as crianças abatiam a boca negra sobre
os gritos. A noite vinha pelo ar,
na sombra resvalavam as maçãs.
E era o tempo.
E elas riam no ar, comendo
a noite,
alimentando-se de figos e de neve.
E alguém falava: crianças.
E a menstruação escorria em silêncio —
na noite, na neve —
espremida das esponjas brancas, lá na noite
das raparigas
que riam na sombra da casa, resvalando,
comendo cravos. E alguém falava:
é um peixe percorrendo a página de um amor
antigo. E as raparigas
gritavam.
As vacas então espreitando,
e nos focinhos consumia-se o lume em silêncio.
Pelas janelas os violinos
passavam pelo ar. E a menstruação nas raparigas
escorria pela sombra, e elas
gritavam e comiam areia. Alguém falava:
fogo. E as vacas passavam pelos violinos.
E as janelas em silêncio escorriam
o seu fogo. E as admiráveis
raparigas cantavam a sua canção, como
uma palavra antiga escorrendo
numa página pela neve,
coroada de figos. E no fogo as crianças
eram tocadas pelo tempo da menstruação.
Alimentavam-se apenas de figos e de areia.
E pelo tempo fora,
riam — e a neve cobria a sua página de tempo,
e as vacas resvalavam na sombra.
Em silêncio o seu lume escorria das esponjas.
Partiam-se as cabeças dos violinos.
As raparigas, cantando as suas crianças,
comiam figos.
A noite comia areia.
E eram cravos nas cavernas brancas.
Menstruação — falava alguém. O ar passava —
e pela noite, em silêncio,
a menstruação escorria pela neve.
o ar. As raparigas respirando,
comendo figos — e a menstruação quando na cidade
corria o tempo pelo ar.
Eram cravos na neve. As raparigas
riam, gritavam — e as figueiras soprando de dentro
os figos, com seus pulmões de esponja
branca. E as raparigas
comiam cravos pelo ar.
E elas riam na neve e gritavam: era
o tempo da menstruação.
As maçãs resvalavam na casa.
Alguém falava: neve. A noite vinha
partir a cabeça das estátuas, e as maçãs
resvalavam no telhado — alguém
falava: sangue.
Na casa, elas riam — e a menstruação
corria pelas cavernas brancas das esponjas,
e partiam-se as cabeças das estátuas.
Cravos — era alguém que falava assim.
E as raparigas respirando, comendo
figos na neve.
Alguém falava: maçãs. E era o tempo.
O sangue escorria dos pescoços de granito,
a criança abatia a boca negra
sobre a neve nos figos — e elas gritavam
na sombra da casa.
Alguém falava: sangue, tempo.
As figueiras sopravam no ar que
corria, as máquinas amavam. E um peixe
percorrendo, como uma antiga palavra
sensível, a página desse amor.
E alguém falava: é a neve.
As raparigas riam dentro da menstruação,
comendo neve. As cabeças das
estátuas estavam cheias de cravos,
e as crianças abatiam a boca negra sobre
os gritos. A noite vinha pelo ar,
na sombra resvalavam as maçãs.
E era o tempo.
E elas riam no ar, comendo
a noite,
alimentando-se de figos e de neve.
E alguém falava: crianças.
E a menstruação escorria em silêncio —
na noite, na neve —
espremida das esponjas brancas, lá na noite
das raparigas
que riam na sombra da casa, resvalando,
comendo cravos. E alguém falava:
é um peixe percorrendo a página de um amor
antigo. E as raparigas
gritavam.
As vacas então espreitando,
e nos focinhos consumia-se o lume em silêncio.
Pelas janelas os violinos
passavam pelo ar. E a menstruação nas raparigas
escorria pela sombra, e elas
gritavam e comiam areia. Alguém falava:
fogo. E as vacas passavam pelos violinos.
E as janelas em silêncio escorriam
o seu fogo. E as admiráveis
raparigas cantavam a sua canção, como
uma palavra antiga escorrendo
numa página pela neve,
coroada de figos. E no fogo as crianças
eram tocadas pelo tempo da menstruação.
Alimentavam-se apenas de figos e de areia.
E pelo tempo fora,
riam — e a neve cobria a sua página de tempo,
e as vacas resvalavam na sombra.
Em silêncio o seu lume escorria das esponjas.
Partiam-se as cabeças dos violinos.
As raparigas, cantando as suas crianças,
comiam figos.
A noite comia areia.
E eram cravos nas cavernas brancas.
Menstruação — falava alguém. O ar passava —
e pela noite, em silêncio,
a menstruação escorria pela neve.
1 300
Herberto Helder
I I
Água sombria fechada num lugar luminoso, noite,
e depois tu,
criança orvalhada.
De que é feito o centro do nome diamante,
a pedra diamante com água rasando as bordas.
Nem a ressaca das searas poderosas.
Não sabes onde um cometa se despenha como
se um rio de quartzo por trás de tudo quebrado a meio do escuro,
deslumbrando por ali abaixo.
O teu espaço, clarão a página inteira.
De que é feito.
Criança devorada por toda a luz da terra.
E na suprema faixa cristalográfica onde é mais pesada a água
desabrocha a gárgula: caindo,
a água esmaga-te.
e depois tu,
criança orvalhada.
De que é feito o centro do nome diamante,
a pedra diamante com água rasando as bordas.
Nem a ressaca das searas poderosas.
Não sabes onde um cometa se despenha como
se um rio de quartzo por trás de tudo quebrado a meio do escuro,
deslumbrando por ali abaixo.
O teu espaço, clarão a página inteira.
De que é feito.
Criança devorada por toda a luz da terra.
E na suprema faixa cristalográfica onde é mais pesada a água
desabrocha a gárgula: caindo,
a água esmaga-te.
1 180
Herberto Helder
Iv B
Foi-me dada um dia apenas, num dos centros da idade,
a linha medida quando
o mármore se encurva, uma linha
de seda tirada ao remoinho
do casulo. Foi-me dada na origem
mesma, no caos
das linhas. E nunca mais, sob os dedos que tanta
aspereza tocaram, de tanta matéria
esfriaram ou aqueceram:
vísceras, madeiras profundas se alguém batesse com os nós dos dedos
e ressoassem, massas
na escuridão, massas
de prata arrancadas às matrizes,
quando a minha idade estava certa — nunca
mais saberei a distância de uma palavra a outra.
Linha do tórax, macia como
o fio ao meio do coração
do casulo, seda
em bruto,
no princípio.
Assoprado louvor, de tudo.
Apertar na mão sal grosso.
Sentir a queimadura das tripas no alguidar até aos cotovelos.
Desde as unhas até às faúlhas entre os cabelos. Se a prancha
vergasse e a curva, medida vagarosamente,
de seda, o arco de baixo mármore luminoso,
fosse o que unia um pólo
a outro pólo, pontos
de força terrestre
terrível. O espaço entre os dois nomes:
eu e o mundo, mundo e poema, poema e nascimento.
Ou a morte, substantivo que raia.
Alinha verbal luzindo sob os dedos,
poderosamente no molde do mármore cosendo os órgãos
da frase de carne.
Foi-me dado uma vez, o dom, e já não sei.
Sítio ecoado noutro sítio do papel, não sei.
Rouco se o bafo de Deus lhe batia,
assim escrito: o choro.
Morte, aqui, num poema, atrás, adiante,
morte com música.
Este que chegou ao seu poema pelo mais alto que os poemas têm
chegou ao sítio de acabar com o mundo: não o quero
para o enlevo, o erro, disse,
quero-o para a estrela plenária que há nalguns sítios de alguns poerm
abruptos, sem autoria.
Esteve ali a descobrir a ríspida maneira
daquilo:
plutónio, o abismo.
A luz trabalhava à rapidez do esplendor.
Os pregos vivos pela cabeça dentro, eu sei.
Vaso feito ao vivo, soprado quente, disse, eu sei.
O sistema do som no recôndito do poema para sempre,
poema incólume, de
música e
magnificação.
Onde se fica para o delírio, na parte
alta, devorada pelo ouro, a parte inóspita.
Frequentado também pelo mais simples:
quantidade e frescura, exemplo:
as frutas embebedam.
Alguém disse: a estrela absoluta entrou pela tua suavidade.
Travessa a travessa de osso — porque eras virgem — e transmudou-te.
Filho.
A boca a doer com o bafo e o hausto.
Queimado onde se fecha a carne, ou aberto pode
dizer-se
como buraco de matéria materna.
Áspera sacaria em cima:
sacos brilhando, sacos de sangue amarrado.
a linha medida quando
o mármore se encurva, uma linha
de seda tirada ao remoinho
do casulo. Foi-me dada na origem
mesma, no caos
das linhas. E nunca mais, sob os dedos que tanta
aspereza tocaram, de tanta matéria
esfriaram ou aqueceram:
vísceras, madeiras profundas se alguém batesse com os nós dos dedos
e ressoassem, massas
na escuridão, massas
de prata arrancadas às matrizes,
quando a minha idade estava certa — nunca
mais saberei a distância de uma palavra a outra.
Linha do tórax, macia como
o fio ao meio do coração
do casulo, seda
em bruto,
no princípio.
Assoprado louvor, de tudo.
Apertar na mão sal grosso.
Sentir a queimadura das tripas no alguidar até aos cotovelos.
Desde as unhas até às faúlhas entre os cabelos. Se a prancha
vergasse e a curva, medida vagarosamente,
de seda, o arco de baixo mármore luminoso,
fosse o que unia um pólo
a outro pólo, pontos
de força terrestre
terrível. O espaço entre os dois nomes:
eu e o mundo, mundo e poema, poema e nascimento.
Ou a morte, substantivo que raia.
Alinha verbal luzindo sob os dedos,
poderosamente no molde do mármore cosendo os órgãos
da frase de carne.
Foi-me dado uma vez, o dom, e já não sei.
Sítio ecoado noutro sítio do papel, não sei.
Rouco se o bafo de Deus lhe batia,
assim escrito: o choro.
Morte, aqui, num poema, atrás, adiante,
morte com música.
Este que chegou ao seu poema pelo mais alto que os poemas têm
chegou ao sítio de acabar com o mundo: não o quero
para o enlevo, o erro, disse,
quero-o para a estrela plenária que há nalguns sítios de alguns poerm
abruptos, sem autoria.
Esteve ali a descobrir a ríspida maneira
daquilo:
plutónio, o abismo.
A luz trabalhava à rapidez do esplendor.
Os pregos vivos pela cabeça dentro, eu sei.
Vaso feito ao vivo, soprado quente, disse, eu sei.
O sistema do som no recôndito do poema para sempre,
poema incólume, de
música e
magnificação.
Onde se fica para o delírio, na parte
alta, devorada pelo ouro, a parte inóspita.
Frequentado também pelo mais simples:
quantidade e frescura, exemplo:
as frutas embebedam.
Alguém disse: a estrela absoluta entrou pela tua suavidade.
Travessa a travessa de osso — porque eras virgem — e transmudou-te.
Filho.
A boca a doer com o bafo e o hausto.
Queimado onde se fecha a carne, ou aberto pode
dizer-se
como buraco de matéria materna.
Áspera sacaria em cima:
sacos brilhando, sacos de sangue amarrado.
1 095
Herberto Helder
Iv B
Foi-me dada um dia apenas, num dos centros da idade,
a linha medida quando
o mármore se encurva, uma linha
de seda tirada ao remoinho
do casulo. Foi-me dada na origem
mesma, no caos
das linhas. E nunca mais, sob os dedos que tanta
aspereza tocaram, de tanta matéria
esfriaram ou aqueceram:
vísceras, madeiras profundas se alguém batesse com os nós dos dedos
e ressoassem, massas
na escuridão, massas
de prata arrancadas às matrizes,
quando a minha idade estava certa — nunca
mais saberei a distância de uma palavra a outra.
Linha do tórax, macia como
o fio ao meio do coração
do casulo, seda
em bruto,
no princípio.
Assoprado louvor, de tudo.
Apertar na mão sal grosso.
Sentir a queimadura das tripas no alguidar até aos cotovelos.
Desde as unhas até às faúlhas entre os cabelos. Se a prancha
vergasse e a curva, medida vagarosamente,
de seda, o arco de baixo mármore luminoso,
fosse o que unia um pólo
a outro pólo, pontos
de força terrestre
terrível. O espaço entre os dois nomes:
eu e o mundo, mundo e poema, poema e nascimento.
Ou a morte, substantivo que raia.
Alinha verbal luzindo sob os dedos,
poderosamente no molde do mármore cosendo os órgãos
da frase de carne.
Foi-me dado uma vez, o dom, e já não sei.
Sítio ecoado noutro sítio do papel, não sei.
Rouco se o bafo de Deus lhe batia,
assim escrito: o choro.
Morte, aqui, num poema, atrás, adiante,
morte com música.
Este que chegou ao seu poema pelo mais alto que os poemas têm
chegou ao sítio de acabar com o mundo: não o quero
para o enlevo, o erro, disse,
quero-o para a estrela plenária que há nalguns sítios de alguns poerm
abruptos, sem autoria.
Esteve ali a descobrir a ríspida maneira
daquilo:
plutónio, o abismo.
A luz trabalhava à rapidez do esplendor.
Os pregos vivos pela cabeça dentro, eu sei.
Vaso feito ao vivo, soprado quente, disse, eu sei.
O sistema do som no recôndito do poema para sempre,
poema incólume, de
música e
magnificação.
Onde se fica para o delírio, na parte
alta, devorada pelo ouro, a parte inóspita.
Frequentado também pelo mais simples:
quantidade e frescura, exemplo:
as frutas embebedam.
Alguém disse: a estrela absoluta entrou pela tua suavidade.
Travessa a travessa de osso — porque eras virgem — e transmudou-te.
Filho.
A boca a doer com o bafo e o hausto.
Queimado onde se fecha a carne, ou aberto pode
dizer-se
como buraco de matéria materna.
Áspera sacaria em cima:
sacos brilhando, sacos de sangue amarrado.
a linha medida quando
o mármore se encurva, uma linha
de seda tirada ao remoinho
do casulo. Foi-me dada na origem
mesma, no caos
das linhas. E nunca mais, sob os dedos que tanta
aspereza tocaram, de tanta matéria
esfriaram ou aqueceram:
vísceras, madeiras profundas se alguém batesse com os nós dos dedos
e ressoassem, massas
na escuridão, massas
de prata arrancadas às matrizes,
quando a minha idade estava certa — nunca
mais saberei a distância de uma palavra a outra.
Linha do tórax, macia como
o fio ao meio do coração
do casulo, seda
em bruto,
no princípio.
Assoprado louvor, de tudo.
Apertar na mão sal grosso.
Sentir a queimadura das tripas no alguidar até aos cotovelos.
Desde as unhas até às faúlhas entre os cabelos. Se a prancha
vergasse e a curva, medida vagarosamente,
de seda, o arco de baixo mármore luminoso,
fosse o que unia um pólo
a outro pólo, pontos
de força terrestre
terrível. O espaço entre os dois nomes:
eu e o mundo, mundo e poema, poema e nascimento.
Ou a morte, substantivo que raia.
Alinha verbal luzindo sob os dedos,
poderosamente no molde do mármore cosendo os órgãos
da frase de carne.
Foi-me dado uma vez, o dom, e já não sei.
Sítio ecoado noutro sítio do papel, não sei.
Rouco se o bafo de Deus lhe batia,
assim escrito: o choro.
Morte, aqui, num poema, atrás, adiante,
morte com música.
Este que chegou ao seu poema pelo mais alto que os poemas têm
chegou ao sítio de acabar com o mundo: não o quero
para o enlevo, o erro, disse,
quero-o para a estrela plenária que há nalguns sítios de alguns poerm
abruptos, sem autoria.
Esteve ali a descobrir a ríspida maneira
daquilo:
plutónio, o abismo.
A luz trabalhava à rapidez do esplendor.
Os pregos vivos pela cabeça dentro, eu sei.
Vaso feito ao vivo, soprado quente, disse, eu sei.
O sistema do som no recôndito do poema para sempre,
poema incólume, de
música e
magnificação.
Onde se fica para o delírio, na parte
alta, devorada pelo ouro, a parte inóspita.
Frequentado também pelo mais simples:
quantidade e frescura, exemplo:
as frutas embebedam.
Alguém disse: a estrela absoluta entrou pela tua suavidade.
Travessa a travessa de osso — porque eras virgem — e transmudou-te.
Filho.
A boca a doer com o bafo e o hausto.
Queimado onde se fecha a carne, ou aberto pode
dizer-se
como buraco de matéria materna.
Áspera sacaria em cima:
sacos brilhando, sacos de sangue amarrado.
1 095
Herberto Helder
Iv B
Foi-me dada um dia apenas, num dos centros da idade,
a linha medida quando
o mármore se encurva, uma linha
de seda tirada ao remoinho
do casulo. Foi-me dada na origem
mesma, no caos
das linhas. E nunca mais, sob os dedos que tanta
aspereza tocaram, de tanta matéria
esfriaram ou aqueceram:
vísceras, madeiras profundas se alguém batesse com os nós dos dedos
e ressoassem, massas
na escuridão, massas
de prata arrancadas às matrizes,
quando a minha idade estava certa — nunca
mais saberei a distância de uma palavra a outra.
Linha do tórax, macia como
o fio ao meio do coração
do casulo, seda
em bruto,
no princípio.
Assoprado louvor, de tudo.
Apertar na mão sal grosso.
Sentir a queimadura das tripas no alguidar até aos cotovelos.
Desde as unhas até às faúlhas entre os cabelos. Se a prancha
vergasse e a curva, medida vagarosamente,
de seda, o arco de baixo mármore luminoso,
fosse o que unia um pólo
a outro pólo, pontos
de força terrestre
terrível. O espaço entre os dois nomes:
eu e o mundo, mundo e poema, poema e nascimento.
Ou a morte, substantivo que raia.
Alinha verbal luzindo sob os dedos,
poderosamente no molde do mármore cosendo os órgãos
da frase de carne.
Foi-me dado uma vez, o dom, e já não sei.
Sítio ecoado noutro sítio do papel, não sei.
Rouco se o bafo de Deus lhe batia,
assim escrito: o choro.
Morte, aqui, num poema, atrás, adiante,
morte com música.
Este que chegou ao seu poema pelo mais alto que os poemas têm
chegou ao sítio de acabar com o mundo: não o quero
para o enlevo, o erro, disse,
quero-o para a estrela plenária que há nalguns sítios de alguns poerm
abruptos, sem autoria.
Esteve ali a descobrir a ríspida maneira
daquilo:
plutónio, o abismo.
A luz trabalhava à rapidez do esplendor.
Os pregos vivos pela cabeça dentro, eu sei.
Vaso feito ao vivo, soprado quente, disse, eu sei.
O sistema do som no recôndito do poema para sempre,
poema incólume, de
música e
magnificação.
Onde se fica para o delírio, na parte
alta, devorada pelo ouro, a parte inóspita.
Frequentado também pelo mais simples:
quantidade e frescura, exemplo:
as frutas embebedam.
Alguém disse: a estrela absoluta entrou pela tua suavidade.
Travessa a travessa de osso — porque eras virgem — e transmudou-te.
Filho.
A boca a doer com o bafo e o hausto.
Queimado onde se fecha a carne, ou aberto pode
dizer-se
como buraco de matéria materna.
Áspera sacaria em cima:
sacos brilhando, sacos de sangue amarrado.
a linha medida quando
o mármore se encurva, uma linha
de seda tirada ao remoinho
do casulo. Foi-me dada na origem
mesma, no caos
das linhas. E nunca mais, sob os dedos que tanta
aspereza tocaram, de tanta matéria
esfriaram ou aqueceram:
vísceras, madeiras profundas se alguém batesse com os nós dos dedos
e ressoassem, massas
na escuridão, massas
de prata arrancadas às matrizes,
quando a minha idade estava certa — nunca
mais saberei a distância de uma palavra a outra.
Linha do tórax, macia como
o fio ao meio do coração
do casulo, seda
em bruto,
no princípio.
Assoprado louvor, de tudo.
Apertar na mão sal grosso.
Sentir a queimadura das tripas no alguidar até aos cotovelos.
Desde as unhas até às faúlhas entre os cabelos. Se a prancha
vergasse e a curva, medida vagarosamente,
de seda, o arco de baixo mármore luminoso,
fosse o que unia um pólo
a outro pólo, pontos
de força terrestre
terrível. O espaço entre os dois nomes:
eu e o mundo, mundo e poema, poema e nascimento.
Ou a morte, substantivo que raia.
Alinha verbal luzindo sob os dedos,
poderosamente no molde do mármore cosendo os órgãos
da frase de carne.
Foi-me dado uma vez, o dom, e já não sei.
Sítio ecoado noutro sítio do papel, não sei.
Rouco se o bafo de Deus lhe batia,
assim escrito: o choro.
Morte, aqui, num poema, atrás, adiante,
morte com música.
Este que chegou ao seu poema pelo mais alto que os poemas têm
chegou ao sítio de acabar com o mundo: não o quero
para o enlevo, o erro, disse,
quero-o para a estrela plenária que há nalguns sítios de alguns poerm
abruptos, sem autoria.
Esteve ali a descobrir a ríspida maneira
daquilo:
plutónio, o abismo.
A luz trabalhava à rapidez do esplendor.
Os pregos vivos pela cabeça dentro, eu sei.
Vaso feito ao vivo, soprado quente, disse, eu sei.
O sistema do som no recôndito do poema para sempre,
poema incólume, de
música e
magnificação.
Onde se fica para o delírio, na parte
alta, devorada pelo ouro, a parte inóspita.
Frequentado também pelo mais simples:
quantidade e frescura, exemplo:
as frutas embebedam.
Alguém disse: a estrela absoluta entrou pela tua suavidade.
Travessa a travessa de osso — porque eras virgem — e transmudou-te.
Filho.
A boca a doer com o bafo e o hausto.
Queimado onde se fecha a carne, ou aberto pode
dizer-se
como buraco de matéria materna.
Áspera sacaria em cima:
sacos brilhando, sacos de sangue amarrado.
1 095
Herberto Helder
I E
Porque eu sou uma abertura,
porque as noites cruzam os cometas,
porque a minha pedra com os lados frios contra as faúlhas,
porque abre as válvulas e se queima.
Alguém com os dedos na cabeça dando a volta à criança,
metendo-lhe mais força pelo fogo,
criança com um rastilho:
ou muita resistência na armadura, ou
peso, ou muita leveza, ou
dulcíssima:
ou fósforo, enxofre, pólvora, sopro, a farpa de ouro
— e o orifício que traz para o visível
o segredo: gota
com a trama de pedra calcinada em torno,
a pedra só abertura pela potência
de um pouco de pólen
oculto.
Porque riscam com áscua,
porque até à linha pulmonar as labaredas a iluminam,
porque um hausto de sangue a ilumina em toda a linha cardíaca,
porque as pontas irrompem do núcleo
do ouro pequeno.
porque as noites cruzam os cometas,
porque a minha pedra com os lados frios contra as faúlhas,
porque abre as válvulas e se queima.
Alguém com os dedos na cabeça dando a volta à criança,
metendo-lhe mais força pelo fogo,
criança com um rastilho:
ou muita resistência na armadura, ou
peso, ou muita leveza, ou
dulcíssima:
ou fósforo, enxofre, pólvora, sopro, a farpa de ouro
— e o orifício que traz para o visível
o segredo: gota
com a trama de pedra calcinada em torno,
a pedra só abertura pela potência
de um pouco de pólen
oculto.
Porque riscam com áscua,
porque até à linha pulmonar as labaredas a iluminam,
porque um hausto de sangue a ilumina em toda a linha cardíaca,
porque as pontas irrompem do núcleo
do ouro pequeno.
1 136
Herberto Helder
I E
Porque eu sou uma abertura,
porque as noites cruzam os cometas,
porque a minha pedra com os lados frios contra as faúlhas,
porque abre as válvulas e se queima.
Alguém com os dedos na cabeça dando a volta à criança,
metendo-lhe mais força pelo fogo,
criança com um rastilho:
ou muita resistência na armadura, ou
peso, ou muita leveza, ou
dulcíssima:
ou fósforo, enxofre, pólvora, sopro, a farpa de ouro
— e o orifício que traz para o visível
o segredo: gota
com a trama de pedra calcinada em torno,
a pedra só abertura pela potência
de um pouco de pólen
oculto.
Porque riscam com áscua,
porque até à linha pulmonar as labaredas a iluminam,
porque um hausto de sangue a ilumina em toda a linha cardíaca,
porque as pontas irrompem do núcleo
do ouro pequeno.
porque as noites cruzam os cometas,
porque a minha pedra com os lados frios contra as faúlhas,
porque abre as válvulas e se queima.
Alguém com os dedos na cabeça dando a volta à criança,
metendo-lhe mais força pelo fogo,
criança com um rastilho:
ou muita resistência na armadura, ou
peso, ou muita leveza, ou
dulcíssima:
ou fósforo, enxofre, pólvora, sopro, a farpa de ouro
— e o orifício que traz para o visível
o segredo: gota
com a trama de pedra calcinada em torno,
a pedra só abertura pela potência
de um pouco de pólen
oculto.
Porque riscam com áscua,
porque até à linha pulmonar as labaredas a iluminam,
porque um hausto de sangue a ilumina em toda a linha cardíaca,
porque as pontas irrompem do núcleo
do ouro pequeno.
1 136
Herberto Helder
Ii J
Dias pensando-se uns aos outros na sua seda estendida,
inteligentes para dentro do que há nos dias:
faíscas do ar, o ar braço a braço,
e no meio dos braços, no mais compacto
da claridade e da carne: o sangue que entra e sai por um lento
canal negro.
inteligentes para dentro do que há nos dias:
faíscas do ar, o ar braço a braço,
e no meio dos braços, no mais compacto
da claridade e da carne: o sangue que entra e sai por um lento
canal negro.
1 243
Herberto Helder
Ii J
Dias pensando-se uns aos outros na sua seda estendida,
inteligentes para dentro do que há nos dias:
faíscas do ar, o ar braço a braço,
e no meio dos braços, no mais compacto
da claridade e da carne: o sangue que entra e sai por um lento
canal negro.
inteligentes para dentro do que há nos dias:
faíscas do ar, o ar braço a braço,
e no meio dos braços, no mais compacto
da claridade e da carne: o sangue que entra e sai por um lento
canal negro.
1 243
Herberto Helder
Ii J
Dias pensando-se uns aos outros na sua seda estendida,
inteligentes para dentro do que há nos dias:
faíscas do ar, o ar braço a braço,
e no meio dos braços, no mais compacto
da claridade e da carne: o sangue que entra e sai por um lento
canal negro.
inteligentes para dentro do que há nos dias:
faíscas do ar, o ar braço a braço,
e no meio dos braços, no mais compacto
da claridade e da carne: o sangue que entra e sai por um lento
canal negro.
1 243
Herberto Helder
I H
Beleza ou ciência: uma nova maneira súbita
— os frutos unidos à sua árvore,
precipícios,
as mãos embriagadas.
E os animais aprofundam-se, encurvam-se os dias,
as pêras brilham,
o teu vestido é grande se te olho devagar.
O teu corpo transmite-se ao vestido.
Penso na glória do teu corpo.
E inclina-se a luz até os dias caírem dentro dos dias invisíveis.
Aterra move-se sobre os lados, ensinas-me
o que não saberei nunca:
a água ronda.
Dentro de uma zona aberta com muita força:
música,
o exercício de uma palavra maior que as outras todas,
e a minha idade — ciência tão mortal onde és
absoluta.
— os frutos unidos à sua árvore,
precipícios,
as mãos embriagadas.
E os animais aprofundam-se, encurvam-se os dias,
as pêras brilham,
o teu vestido é grande se te olho devagar.
O teu corpo transmite-se ao vestido.
Penso na glória do teu corpo.
E inclina-se a luz até os dias caírem dentro dos dias invisíveis.
Aterra move-se sobre os lados, ensinas-me
o que não saberei nunca:
a água ronda.
Dentro de uma zona aberta com muita força:
música,
o exercício de uma palavra maior que as outras todas,
e a minha idade — ciência tão mortal onde és
absoluta.
1 096
Herberto Helder
I H
Beleza ou ciência: uma nova maneira súbita
— os frutos unidos à sua árvore,
precipícios,
as mãos embriagadas.
E os animais aprofundam-se, encurvam-se os dias,
as pêras brilham,
o teu vestido é grande se te olho devagar.
O teu corpo transmite-se ao vestido.
Penso na glória do teu corpo.
E inclina-se a luz até os dias caírem dentro dos dias invisíveis.
Aterra move-se sobre os lados, ensinas-me
o que não saberei nunca:
a água ronda.
Dentro de uma zona aberta com muita força:
música,
o exercício de uma palavra maior que as outras todas,
e a minha idade — ciência tão mortal onde és
absoluta.
— os frutos unidos à sua árvore,
precipícios,
as mãos embriagadas.
E os animais aprofundam-se, encurvam-se os dias,
as pêras brilham,
o teu vestido é grande se te olho devagar.
O teu corpo transmite-se ao vestido.
Penso na glória do teu corpo.
E inclina-se a luz até os dias caírem dentro dos dias invisíveis.
Aterra move-se sobre os lados, ensinas-me
o que não saberei nunca:
a água ronda.
Dentro de uma zona aberta com muita força:
música,
o exercício de uma palavra maior que as outras todas,
e a minha idade — ciência tão mortal onde és
absoluta.
1 096
Herberto Helder
Ii E
Ainda não é a coluna madura de uma árvore, não fabrica
fruta amarela gota a gota,
ninguém debaixo fica tão fresco,
lento,
essencial, que aprenda uma língua
respirada em cada furo que tem uma língua da natureza
das coisas —
a boca na ponta de um animal e na outra
o ânus, e o sangue ponta a ponta, ou uma haste para correr
o líquido do ouro — ainda
não se despiu nem mostrou o umbigo,
ninguém lhe entalhou no flanco
uma estrela que batesse de dentro para fora como um nome de baptismo,
o meu nome se me olho,
chaga atrás do paredão de um astro,
na obscuridade se a estaca rebenta
— e já se nomeia onde é mais suave,
cordão em torno do cérebro
doce quando sangra na soldadura dos cornos,
porque já se nomeia,
escuro na pedra e frio na água, quando
molha os dedos,
quando murmura por cima,
quando o sopro se levanta à altura dos ouvidos,
que nome tem, próximo
do seu estilo
duro, unha na falangeta, e o dedo que soletra cegamente
botão a botão,
estaca,
ah se a estaca fremisse tão pontuada como um corpo entregue ao sono,
poros à vista e tripas no avesso,
e não se diz em que idioma
dorme ou acorda, diz-se que a sua palavra se entrança
com a nossa, vasos com vasos cingindo o sangue
poderoso.
fruta amarela gota a gota,
ninguém debaixo fica tão fresco,
lento,
essencial, que aprenda uma língua
respirada em cada furo que tem uma língua da natureza
das coisas —
a boca na ponta de um animal e na outra
o ânus, e o sangue ponta a ponta, ou uma haste para correr
o líquido do ouro — ainda
não se despiu nem mostrou o umbigo,
ninguém lhe entalhou no flanco
uma estrela que batesse de dentro para fora como um nome de baptismo,
o meu nome se me olho,
chaga atrás do paredão de um astro,
na obscuridade se a estaca rebenta
— e já se nomeia onde é mais suave,
cordão em torno do cérebro
doce quando sangra na soldadura dos cornos,
porque já se nomeia,
escuro na pedra e frio na água, quando
molha os dedos,
quando murmura por cima,
quando o sopro se levanta à altura dos ouvidos,
que nome tem, próximo
do seu estilo
duro, unha na falangeta, e o dedo que soletra cegamente
botão a botão,
estaca,
ah se a estaca fremisse tão pontuada como um corpo entregue ao sono,
poros à vista e tripas no avesso,
e não se diz em que idioma
dorme ou acorda, diz-se que a sua palavra se entrança
com a nossa, vasos com vasos cingindo o sangue
poderoso.
1 038
Herberto Helder
Iii B
A água nas torneiras, nos diamantes, nos copos.
E entre inocência e inteligência estudava-se a arte.
Exemplo: a arte do ar queimado que passa pela boca
se a mão de alguém entra por mim dentro
e revolve
canos grossos, artérias, intestinos,
o sangue.
Deus, mão entrada.
A voz encurva-me todo.
Nos fulcros, à mesa, pelo fogo, onde as linhas se encontram nos
grandes
objectos do mundo, sento-me,
e alimento-me, e a fruta adoça-se até ao oculto,
e eu sei tudo, e esqueço.
Quis Deus que eu entenebrecesse.
Que se fizesse em mim a abertura por onde saem
madeiras frias, ferros
para os talheres,
carne,
e jarras que trepidam com a força das corolas,
diamantes por onde se bebe.
Deus disse: um idioma que brilhe.
E eu trabalho para este espaço em que ponho a mão a peso
de sangue, o dom
de exercer os instrumentos terrestres.
Se vibram os arcos da respiração,
se a baforada encrespa o ar quente nas linhas.
E entre inocência e inteligência estudava-se a arte.
Exemplo: a arte do ar queimado que passa pela boca
se a mão de alguém entra por mim dentro
e revolve
canos grossos, artérias, intestinos,
o sangue.
Deus, mão entrada.
A voz encurva-me todo.
Nos fulcros, à mesa, pelo fogo, onde as linhas se encontram nos
grandes
objectos do mundo, sento-me,
e alimento-me, e a fruta adoça-se até ao oculto,
e eu sei tudo, e esqueço.
Quis Deus que eu entenebrecesse.
Que se fizesse em mim a abertura por onde saem
madeiras frias, ferros
para os talheres,
carne,
e jarras que trepidam com a força das corolas,
diamantes por onde se bebe.
Deus disse: um idioma que brilhe.
E eu trabalho para este espaço em que ponho a mão a peso
de sangue, o dom
de exercer os instrumentos terrestres.
Se vibram os arcos da respiração,
se a baforada encrespa o ar quente nas linhas.
1 062
Herberto Helder
Iii B
A água nas torneiras, nos diamantes, nos copos.
E entre inocência e inteligência estudava-se a arte.
Exemplo: a arte do ar queimado que passa pela boca
se a mão de alguém entra por mim dentro
e revolve
canos grossos, artérias, intestinos,
o sangue.
Deus, mão entrada.
A voz encurva-me todo.
Nos fulcros, à mesa, pelo fogo, onde as linhas se encontram nos
grandes
objectos do mundo, sento-me,
e alimento-me, e a fruta adoça-se até ao oculto,
e eu sei tudo, e esqueço.
Quis Deus que eu entenebrecesse.
Que se fizesse em mim a abertura por onde saem
madeiras frias, ferros
para os talheres,
carne,
e jarras que trepidam com a força das corolas,
diamantes por onde se bebe.
Deus disse: um idioma que brilhe.
E eu trabalho para este espaço em que ponho a mão a peso
de sangue, o dom
de exercer os instrumentos terrestres.
Se vibram os arcos da respiração,
se a baforada encrespa o ar quente nas linhas.
E entre inocência e inteligência estudava-se a arte.
Exemplo: a arte do ar queimado que passa pela boca
se a mão de alguém entra por mim dentro
e revolve
canos grossos, artérias, intestinos,
o sangue.
Deus, mão entrada.
A voz encurva-me todo.
Nos fulcros, à mesa, pelo fogo, onde as linhas se encontram nos
grandes
objectos do mundo, sento-me,
e alimento-me, e a fruta adoça-se até ao oculto,
e eu sei tudo, e esqueço.
Quis Deus que eu entenebrecesse.
Que se fizesse em mim a abertura por onde saem
madeiras frias, ferros
para os talheres,
carne,
e jarras que trepidam com a força das corolas,
diamantes por onde se bebe.
Deus disse: um idioma que brilhe.
E eu trabalho para este espaço em que ponho a mão a peso
de sangue, o dom
de exercer os instrumentos terrestres.
Se vibram os arcos da respiração,
se a baforada encrespa o ar quente nas linhas.
1 062
Herberto Helder
Iii K
Num espaço unido a luz sacode
o peso, o curvo, o muito:
laranjas a chamejar contra paredões de água.
Ou então coze-se o oco, faz-se um púcaro,
o fôlego encurva as massas de vidro,
a água pára no barro côncavo.
Imagem unânime do mundo.
A imagem estremece pela potência da água,
o papel estremece pela potência da frase
que o atravessa,
aqueduto.
Mas se a mão se amaciasse para que a frase
fosse delgada como a seda, se de súbito
a seda se rasgasse pela força
de um nome último?
A ascensão do aloés: vê-se,
fica-se bêbado. E tão leve o esperma.
De noite os cabelos crescem tanto que neles se amarra a cabeça,
crescem a cada pancada do sangue,
cada sopro.
Num tronco escreve-se o nome do mundo,
aferida do mundo,
a seiva freme nos dedos.
Que tocam, os dedos, no pénis e nos testículos:
e sente-se em baixo o furor
do ouro.
Com erros misteriosos escreve-se o poema primeiro do tempo:
música, sintaxe, massas
em equilíbrio, a ortografia, o número,
o mais respirado, espaçoso, primário, terrestre
poema
das vozes, das luzes.
A água jorra no caos, fecha-se a água nos tanques:
bebe-se. Mergulha dentro da água
um galho
de estrelas maduras. O esperma torna-se espesso.
Morre-se de alvoroço.
Ressuscita-se, hoje.
o peso, o curvo, o muito:
laranjas a chamejar contra paredões de água.
Ou então coze-se o oco, faz-se um púcaro,
o fôlego encurva as massas de vidro,
a água pára no barro côncavo.
Imagem unânime do mundo.
A imagem estremece pela potência da água,
o papel estremece pela potência da frase
que o atravessa,
aqueduto.
Mas se a mão se amaciasse para que a frase
fosse delgada como a seda, se de súbito
a seda se rasgasse pela força
de um nome último?
A ascensão do aloés: vê-se,
fica-se bêbado. E tão leve o esperma.
De noite os cabelos crescem tanto que neles se amarra a cabeça,
crescem a cada pancada do sangue,
cada sopro.
Num tronco escreve-se o nome do mundo,
aferida do mundo,
a seiva freme nos dedos.
Que tocam, os dedos, no pénis e nos testículos:
e sente-se em baixo o furor
do ouro.
Com erros misteriosos escreve-se o poema primeiro do tempo:
música, sintaxe, massas
em equilíbrio, a ortografia, o número,
o mais respirado, espaçoso, primário, terrestre
poema
das vozes, das luzes.
A água jorra no caos, fecha-se a água nos tanques:
bebe-se. Mergulha dentro da água
um galho
de estrelas maduras. O esperma torna-se espesso.
Morre-se de alvoroço.
Ressuscita-se, hoje.
1 102
Herberto Helder
Iii K
Num espaço unido a luz sacode
o peso, o curvo, o muito:
laranjas a chamejar contra paredões de água.
Ou então coze-se o oco, faz-se um púcaro,
o fôlego encurva as massas de vidro,
a água pára no barro côncavo.
Imagem unânime do mundo.
A imagem estremece pela potência da água,
o papel estremece pela potência da frase
que o atravessa,
aqueduto.
Mas se a mão se amaciasse para que a frase
fosse delgada como a seda, se de súbito
a seda se rasgasse pela força
de um nome último?
A ascensão do aloés: vê-se,
fica-se bêbado. E tão leve o esperma.
De noite os cabelos crescem tanto que neles se amarra a cabeça,
crescem a cada pancada do sangue,
cada sopro.
Num tronco escreve-se o nome do mundo,
aferida do mundo,
a seiva freme nos dedos.
Que tocam, os dedos, no pénis e nos testículos:
e sente-se em baixo o furor
do ouro.
Com erros misteriosos escreve-se o poema primeiro do tempo:
música, sintaxe, massas
em equilíbrio, a ortografia, o número,
o mais respirado, espaçoso, primário, terrestre
poema
das vozes, das luzes.
A água jorra no caos, fecha-se a água nos tanques:
bebe-se. Mergulha dentro da água
um galho
de estrelas maduras. O esperma torna-se espesso.
Morre-se de alvoroço.
Ressuscita-se, hoje.
o peso, o curvo, o muito:
laranjas a chamejar contra paredões de água.
Ou então coze-se o oco, faz-se um púcaro,
o fôlego encurva as massas de vidro,
a água pára no barro côncavo.
Imagem unânime do mundo.
A imagem estremece pela potência da água,
o papel estremece pela potência da frase
que o atravessa,
aqueduto.
Mas se a mão se amaciasse para que a frase
fosse delgada como a seda, se de súbito
a seda se rasgasse pela força
de um nome último?
A ascensão do aloés: vê-se,
fica-se bêbado. E tão leve o esperma.
De noite os cabelos crescem tanto que neles se amarra a cabeça,
crescem a cada pancada do sangue,
cada sopro.
Num tronco escreve-se o nome do mundo,
aferida do mundo,
a seiva freme nos dedos.
Que tocam, os dedos, no pénis e nos testículos:
e sente-se em baixo o furor
do ouro.
Com erros misteriosos escreve-se o poema primeiro do tempo:
música, sintaxe, massas
em equilíbrio, a ortografia, o número,
o mais respirado, espaçoso, primário, terrestre
poema
das vozes, das luzes.
A água jorra no caos, fecha-se a água nos tanques:
bebe-se. Mergulha dentro da água
um galho
de estrelas maduras. O esperma torna-se espesso.
Morre-se de alvoroço.
Ressuscita-se, hoje.
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Herberto Helder
Iii K
Num espaço unido a luz sacode
o peso, o curvo, o muito:
laranjas a chamejar contra paredões de água.
Ou então coze-se o oco, faz-se um púcaro,
o fôlego encurva as massas de vidro,
a água pára no barro côncavo.
Imagem unânime do mundo.
A imagem estremece pela potência da água,
o papel estremece pela potência da frase
que o atravessa,
aqueduto.
Mas se a mão se amaciasse para que a frase
fosse delgada como a seda, se de súbito
a seda se rasgasse pela força
de um nome último?
A ascensão do aloés: vê-se,
fica-se bêbado. E tão leve o esperma.
De noite os cabelos crescem tanto que neles se amarra a cabeça,
crescem a cada pancada do sangue,
cada sopro.
Num tronco escreve-se o nome do mundo,
aferida do mundo,
a seiva freme nos dedos.
Que tocam, os dedos, no pénis e nos testículos:
e sente-se em baixo o furor
do ouro.
Com erros misteriosos escreve-se o poema primeiro do tempo:
música, sintaxe, massas
em equilíbrio, a ortografia, o número,
o mais respirado, espaçoso, primário, terrestre
poema
das vozes, das luzes.
A água jorra no caos, fecha-se a água nos tanques:
bebe-se. Mergulha dentro da água
um galho
de estrelas maduras. O esperma torna-se espesso.
Morre-se de alvoroço.
Ressuscita-se, hoje.
o peso, o curvo, o muito:
laranjas a chamejar contra paredões de água.
Ou então coze-se o oco, faz-se um púcaro,
o fôlego encurva as massas de vidro,
a água pára no barro côncavo.
Imagem unânime do mundo.
A imagem estremece pela potência da água,
o papel estremece pela potência da frase
que o atravessa,
aqueduto.
Mas se a mão se amaciasse para que a frase
fosse delgada como a seda, se de súbito
a seda se rasgasse pela força
de um nome último?
A ascensão do aloés: vê-se,
fica-se bêbado. E tão leve o esperma.
De noite os cabelos crescem tanto que neles se amarra a cabeça,
crescem a cada pancada do sangue,
cada sopro.
Num tronco escreve-se o nome do mundo,
aferida do mundo,
a seiva freme nos dedos.
Que tocam, os dedos, no pénis e nos testículos:
e sente-se em baixo o furor
do ouro.
Com erros misteriosos escreve-se o poema primeiro do tempo:
música, sintaxe, massas
em equilíbrio, a ortografia, o número,
o mais respirado, espaçoso, primário, terrestre
poema
das vozes, das luzes.
A água jorra no caos, fecha-se a água nos tanques:
bebe-se. Mergulha dentro da água
um galho
de estrelas maduras. O esperma torna-se espesso.
Morre-se de alvoroço.
Ressuscita-se, hoje.
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