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Poemas neste tema

Vida e Existência

Herberto Helder

Herberto Helder

Os Mortos Perigosos, Fim.

Os jardins contorcem-se entre o estio e as trevas.
Avança o ar a correr com as patas
sobre a camisa branca. Então o espaço
é surpreendido pelos mortos que transpiram
em seus blusões de ouro. Da noite
chegam paisagens de água
que batem
em suas grutas tremendamente claras.

Mugidores rebanhos de camélias monstruosas,
montanhas às varandas de palácios de seda
amarela. Que voam,
da raiz à flor, pelo escuro
interior da vocação. E os lugares
todos esperam doces assassinos que assomam
à pontuação da memória.

A noite levanta praias cruéis durante a combustão
das linhas
do sono. Pintados na atmosfera.
Com as costas respirando brutalmente — que melancolia
combatem, a reluzir,
sob as patas de constelações implacáveis.
Uma rede de mel
fervente, uma rede dolorosa de um mel
que se ilumina.
Arrancam-se os mortos dentre mel e madeira e dentre
ar e velocidade.

Uma avença incandescente na parte
mais forte da cabeça — a aterradora curva
suspirante
do seu sossego alto. Não os leves nos braços
por entre ramagens de ouro.
Estão pintados no fundo dos tempos
da primavera. Suas garras rutilantes latejam
com uma doçura horrível.

Um pouco à noite, quando os quartos
andam e a folhagem se retira para os confins
da cabeça, onde a loucura tem os mapas.
Não os toques, com dedos animais, em suas
semiluas de éter frio.
Porque há maneiras graves de os mortos
viajarem: sedas desenvoltas, força, mel,
glicínias,
planos de energia e de tristeza.

Não faças com que esse mês te procure.
Leva os mortos como se fossem um lenço verde
chegado
de uma cidade transparente. O sono está cheio
de álcool gelado, os campos
arqueiam-se pelo poder de vírgulas
selvagens. Nunca ouvi chamar os mortos
pelo nome dos seus retratos reclinados
brancos. Colinas
amedrontadas à chuva.
Penínsulas ligadas por cravinho e canela.

Toca-os com uma chama leve na crista negra.
Respira sobre laranjas que escaldam,
se as abres
com teus dedos — gota a gota aplicando
a soldadura. Saber que lenço
lhes pertence, que feixe
de linhas taciturnas urdiu sua cara
largada no ar. Ou quem vem desse
sensível bordado, ou
que força condensa sua cor de madeira enxuta.
Saber que alcançam tua voz
com sua pausa: uma flor
nos meios, sobre si mesma.
Não.

Oh, não leves os mortos como crianças passadas
a limpo, em tua morosa
vocação, até à carnívora gentileza
das visões. Como em redes
enxameadas, o mel fermenta em suas
cabeças um delírio
docemente animal. E se a paisagem quadrúpede
se encosta à janela,
este mês é olhado pelo espaço todo.

Não os conduzas aos símbolos nocturnos, dentre
mel e velocidade e dentre
madeira e ar. Não te sentes atrás
de um lenço parado. Enquanto os mortos
culminam como jacintos
a pulsar direitos—o teu coração pende
crivado de pinhões respirando. E a tua idade suspira
como um animal louco.
Quando.


1965-68.
1 058
Herberto Helder

Herberto Helder

Os Mortos Perigosos, Fim.

Os jardins contorcem-se entre o estio e as trevas.
Avança o ar a correr com as patas
sobre a camisa branca. Então o espaço
é surpreendido pelos mortos que transpiram
em seus blusões de ouro. Da noite
chegam paisagens de água
que batem
em suas grutas tremendamente claras.

Mugidores rebanhos de camélias monstruosas,
montanhas às varandas de palácios de seda
amarela. Que voam,
da raiz à flor, pelo escuro
interior da vocação. E os lugares
todos esperam doces assassinos que assomam
à pontuação da memória.

A noite levanta praias cruéis durante a combustão
das linhas
do sono. Pintados na atmosfera.
Com as costas respirando brutalmente — que melancolia
combatem, a reluzir,
sob as patas de constelações implacáveis.
Uma rede de mel
fervente, uma rede dolorosa de um mel
que se ilumina.
Arrancam-se os mortos dentre mel e madeira e dentre
ar e velocidade.

Uma avença incandescente na parte
mais forte da cabeça — a aterradora curva
suspirante
do seu sossego alto. Não os leves nos braços
por entre ramagens de ouro.
Estão pintados no fundo dos tempos
da primavera. Suas garras rutilantes latejam
com uma doçura horrível.

Um pouco à noite, quando os quartos
andam e a folhagem se retira para os confins
da cabeça, onde a loucura tem os mapas.
Não os toques, com dedos animais, em suas
semiluas de éter frio.
Porque há maneiras graves de os mortos
viajarem: sedas desenvoltas, força, mel,
glicínias,
planos de energia e de tristeza.

Não faças com que esse mês te procure.
Leva os mortos como se fossem um lenço verde
chegado
de uma cidade transparente. O sono está cheio
de álcool gelado, os campos
arqueiam-se pelo poder de vírgulas
selvagens. Nunca ouvi chamar os mortos
pelo nome dos seus retratos reclinados
brancos. Colinas
amedrontadas à chuva.
Penínsulas ligadas por cravinho e canela.

Toca-os com uma chama leve na crista negra.
Respira sobre laranjas que escaldam,
se as abres
com teus dedos — gota a gota aplicando
a soldadura. Saber que lenço
lhes pertence, que feixe
de linhas taciturnas urdiu sua cara
largada no ar. Ou quem vem desse
sensível bordado, ou
que força condensa sua cor de madeira enxuta.
Saber que alcançam tua voz
com sua pausa: uma flor
nos meios, sobre si mesma.
Não.

Oh, não leves os mortos como crianças passadas
a limpo, em tua morosa
vocação, até à carnívora gentileza
das visões. Como em redes
enxameadas, o mel fermenta em suas
cabeças um delírio
docemente animal. E se a paisagem quadrúpede
se encosta à janela,
este mês é olhado pelo espaço todo.

Não os conduzas aos símbolos nocturnos, dentre
mel e velocidade e dentre
madeira e ar. Não te sentes atrás
de um lenço parado. Enquanto os mortos
culminam como jacintos
a pulsar direitos—o teu coração pende
crivado de pinhões respirando. E a tua idade suspira
como um animal louco.
Quando.


1965-68.
1 058
Herberto Helder

Herberto Helder

22

a burro velho dê - se -lhe uma pouca de palha velha
e uma pouca de água turva,
e como fica jovem de repente durante cinco minutos!
dê-se-lhe isso por amor do Cristo, que ele faz logo o trilho todo e
agradece muito,
Deus zela de facto pelos servidores,
e o Cristo, patrono deles, é o filho de seu pai,
tudo concorde com as genealogias celestes e suas sombras na terra,
ó pai nosso que estás nos céus, alô, daqui fala da terra ingrata,
só tu é que exerces a piedade magnânima sobre nós,
vozes de burro não chegam ao céu, dizem eles,
eles,
os mestres inflexíveis e eficazes,
Cristo foi uma espécie de marxista-leninista mas com alguns
escrúpulos extra-partidários,
esteve preso por incitamento à rebelião popular contra o regime,
por fomentação de grupúsculos revoltosos,
por palavras e obras fora da lei,
cometeu prodígios marginais tais como:
a) prática ilegal da medicina com alegadas curas fraudulentas:
um morto levantou-se e pôs-se a caminhar e a falar
como se estivesse comerciável
b) anunciou que o pai dele estava acima dos códigos do mundo
c) que ele próprio ia pagar com a vida por essas outras razões, mas
que logo ressuscitaria e depois é que todos veriam como
tudo ia fiar mais fino
d) e então sussurrou: um de vós me trairá, e então olharam
todos uns para os os outros a ver onde haveria algum
sinal nefando, mas nenhum deles sentiu em si mesmo
qualquer anúncio de crime e culpa,
depois foram dali dar uma volta fora de muros e, cansados
de palavras e passeios, deitaram-se debaixo de umas
oliveiras, e adormeceram, límpidos e vazios como os
desertos derredor,
e toda esta história acabou bastante mal, como aliás acabam
todas as histórias de grupo:
e um deles disse que não, não senhores, ele cá não sabia nada
dessa cabala de mestre e discípulos, nem participara em
reuniões clandestinas, nem queria derrubar o regime,
etc. e tal, o costume,
e todos os outros, de uma ou outra maneira, lhe seguiram o
exemplo,
enfim, baldaram-se como puderam,
e sinceramente pensavam: somos todos uns pobres pescadores
a vida é dura, este gajo até parece porreiro, mas também
parece um bocado fala-
-barato, e esta história de grupinhos marginais, e de
acreditar que depois o poder vai-nos cair nas mãos,
e os fracos e subjugados serão os fortes escolhidos do
futuro, essa história já a gente ouviu na União Soviética,
etc., e depois soube-se como afinal tudo aquilo era:
desaparecimentos inexplicáveis, goulagues, anos depois
alguns raros sobreviventes a escrever como acontecera, i
o que acontecera fora incrivelmente péssimo,
e depois veio o 35 de abril, cravos vermelhos, Grândola
vila morena, e o povo é quem mais ordena, e então
aparecem em toda a parte uns gajos que, faz favor, era a
eito, desde o Cristo Cunhal até ao Jotinha: o meu reino é
para já;
foda-se
vou-me embora pra Pasárgada, disse então o Manuel Bandeira;
quanto a mim, não me interessa ter a filha do rei; com a minha
idade já se não arrisca nada por uma aventura sexual
minada por tantas dúvidas ideológicas
(e tantas turvas aventuras da prática poética)
e, enfim, vinha isto a propósito de um pobre burro velho que
viu, mirabilia!, de repente melhorada a ração de palha
seca e água ambígua; e
Pai, Pai, porque me abandonaste?
e já não sei em que edição vai este romance que nem tem a
apoiá-lo o prémio Nobel, coisa que principiou logo
assim: ganhou-o (1901), contra Tolstoi, umtalSully
Prudhomme,
e mais uma vez: Eli, Eli, lamna sabachthani —
ou: Vou-me embora pra Pasárgada —
e aqui jaz, acomodado, oitenta e três, parece que pelo menos
sem grandes achaques físicos, o todo vosso burro com
palha pouca e fora de uso, quer dizer: uma reforma de
pilha-galinhas e poeticamente enterrado vivo, e sem
poder visível e sem contacto com o invisível, o burro sim
com O nome a fogo na testa: eu sou apenas deste mundo,
isto é: estou praticamente morto, mas todo vosso:
nenhures é o meu pouso.
Esta é a minha elegia.
A Elegia de um Burro.
764
Herberto Helder

Herberto Helder

22

a burro velho dê - se -lhe uma pouca de palha velha
e uma pouca de água turva,
e como fica jovem de repente durante cinco minutos!
dê-se-lhe isso por amor do Cristo, que ele faz logo o trilho todo e
agradece muito,
Deus zela de facto pelos servidores,
e o Cristo, patrono deles, é o filho de seu pai,
tudo concorde com as genealogias celestes e suas sombras na terra,
ó pai nosso que estás nos céus, alô, daqui fala da terra ingrata,
só tu é que exerces a piedade magnânima sobre nós,
vozes de burro não chegam ao céu, dizem eles,
eles,
os mestres inflexíveis e eficazes,
Cristo foi uma espécie de marxista-leninista mas com alguns
escrúpulos extra-partidários,
esteve preso por incitamento à rebelião popular contra o regime,
por fomentação de grupúsculos revoltosos,
por palavras e obras fora da lei,
cometeu prodígios marginais tais como:
a) prática ilegal da medicina com alegadas curas fraudulentas:
um morto levantou-se e pôs-se a caminhar e a falar
como se estivesse comerciável
b) anunciou que o pai dele estava acima dos códigos do mundo
c) que ele próprio ia pagar com a vida por essas outras razões, mas
que logo ressuscitaria e depois é que todos veriam como
tudo ia fiar mais fino
d) e então sussurrou: um de vós me trairá, e então olharam
todos uns para os os outros a ver onde haveria algum
sinal nefando, mas nenhum deles sentiu em si mesmo
qualquer anúncio de crime e culpa,
depois foram dali dar uma volta fora de muros e, cansados
de palavras e passeios, deitaram-se debaixo de umas
oliveiras, e adormeceram, límpidos e vazios como os
desertos derredor,
e toda esta história acabou bastante mal, como aliás acabam
todas as histórias de grupo:
e um deles disse que não, não senhores, ele cá não sabia nada
dessa cabala de mestre e discípulos, nem participara em
reuniões clandestinas, nem queria derrubar o regime,
etc. e tal, o costume,
e todos os outros, de uma ou outra maneira, lhe seguiram o
exemplo,
enfim, baldaram-se como puderam,
e sinceramente pensavam: somos todos uns pobres pescadores
a vida é dura, este gajo até parece porreiro, mas também
parece um bocado fala-
-barato, e esta história de grupinhos marginais, e de
acreditar que depois o poder vai-nos cair nas mãos,
e os fracos e subjugados serão os fortes escolhidos do
futuro, essa história já a gente ouviu na União Soviética,
etc., e depois soube-se como afinal tudo aquilo era:
desaparecimentos inexplicáveis, goulagues, anos depois
alguns raros sobreviventes a escrever como acontecera, i
o que acontecera fora incrivelmente péssimo,
e depois veio o 35 de abril, cravos vermelhos, Grândola
vila morena, e o povo é quem mais ordena, e então
aparecem em toda a parte uns gajos que, faz favor, era a
eito, desde o Cristo Cunhal até ao Jotinha: o meu reino é
para já;
foda-se
vou-me embora pra Pasárgada, disse então o Manuel Bandeira;
quanto a mim, não me interessa ter a filha do rei; com a minha
idade já se não arrisca nada por uma aventura sexual
minada por tantas dúvidas ideológicas
(e tantas turvas aventuras da prática poética)
e, enfim, vinha isto a propósito de um pobre burro velho que
viu, mirabilia!, de repente melhorada a ração de palha
seca e água ambígua; e
Pai, Pai, porque me abandonaste?
e já não sei em que edição vai este romance que nem tem a
apoiá-lo o prémio Nobel, coisa que principiou logo
assim: ganhou-o (1901), contra Tolstoi, umtalSully
Prudhomme,
e mais uma vez: Eli, Eli, lamna sabachthani —
ou: Vou-me embora pra Pasárgada —
e aqui jaz, acomodado, oitenta e três, parece que pelo menos
sem grandes achaques físicos, o todo vosso burro com
palha pouca e fora de uso, quer dizer: uma reforma de
pilha-galinhas e poeticamente enterrado vivo, e sem
poder visível e sem contacto com o invisível, o burro sim
com O nome a fogo na testa: eu sou apenas deste mundo,
isto é: estou praticamente morto, mas todo vosso:
nenhures é o meu pouso.
Esta é a minha elegia.
A Elegia de um Burro.
764
Herberto Helder

Herberto Helder

Texto 1

Todo o discurso é apenas o símbolo de uma inflexão
da voz
a insinuação de um gesto uma temperatura
ã sua extraordinária desordem preside um pensamento
melhor diria “um esforço” não coordenador (de modo algum)
mas de “moldagem” perguntavam “estão a criar moldes?”
não senhores para isso teria de preexistir um “modelo”
u ma ideia organizada um cânone
queremos sugerir coisas como “imagem de respiração”
“imagem de digestão”
“imagem de dilatação”
"imagem de movimentação”
"com as palavras?” perguntavam eles e devo dizer que era
uma pergunta perigosa um alarme colocando para sempre
algo como o confessado amor das palavras
no centro
não tentamos criar abóboras com a palavra “abóboras”
não é um sentido propiciatório da linguagem
introduzimos furtivamente planos que ocasionais
ocupações (“des-sintonizar” aberto o caminho
para antigas explicações “discursos de discursos de discursos” etc.)
fixemos essa ideia de “planos”
podemos admiti-los como “uma espécie de casas”
ou “uma espécie de campos”
e então evidente para serem habitados percorridos gastos
Será que se pretende ainda identificar “linguagem” e “vida”?
uma vez se designou mão para que a mão fosse
uma vez o discurso sugeriu a mão para que a mão fosse
uma vez o discurso foi a mão
partia-se sempre de um entusiasmo arbitrário
era esse o “espírito” o “destino” da linguagem
agora estamos a veras palavras como possibilidades
de respiração digestão dilatação movimentação
experimentamos a pequena possibilidade de uma inflexão quente
“elas estão andando por si próprias!” exclama alguém
estão a falar a andar umas com as outras
a falar umas com as outras
estão lançadas por aí fora a piscar o olho a ter inteligência
para todos os lados
sugerindo obliquamente que se reportam
a um novo universo ao qual é possível assistir
ver
como se vê o que comporta uma certa inflexão
de voz
é uma espécie de cinema das palavras
ou uma forma de vida assustadoramente juvenil
se calhar vão destruir-nos sob o título
“os autómatos invadem” mas invadem o quê?
1 101
Herberto Helder

Herberto Helder

Texto 7

Tenho uma pequena coisa africana para dizer aos senhores
“um velho negro num mercado indígena
a entrançar tabaco” o odor húmido e palpitante sobe dos dedos
a subtileza “rítmica” dos dedos chega a ser uma dor
fere na cabeça o pensamento da sua devotação
extrema quase “intáctil” sobre algo
“algo tabaco”
o que começa a tornar-se como uma “loucura comovida”
por cima dessa massa viva de tabaco
“como ele aflora Deus digitalmente debruçado!”
de repente “vê-se” a inocente diligência
o “sim” sem nada mais
o medo como se fosse mel a escorrer do crânio
por tudo ser de novo tão concentrado e leve
a dor em nós de uma tão forte “ignorância activa”
“a fazer-se” uma prova
de elegância na “razão” do tempo
nenhuma dúvida apenas a lisura branda de um “estilo”
transcorrendo
apetece não ter mais do que a interminável “escrita”
prestes a sufocar e dedo a dedo salva
nas suas pautas gravada a direito como uma implacável
“pormenorização oracular”
como se pode tornar tão veemente uma doçura humana
tão pertinaz a graça e terrífica
a digitalidade do “silêncio”
e a candura quase a corromper-se à força de candura
e então o puro toque no tabaco cria
uma “fria ocorrência de pavor” pois tudo é “ambíguo”
nesta “rima obsessiva” a pertinácia ganha “formas” insuportáveis
dedos na nuca ligamentos invisíveis de tendões
centros nervosos irradiando impulsos cruéis
imóveis animalidades fremindo ocultamente debaixo da “luz”
e percebe-se então o “sangue” a ir e vir
sempre “entrançando” o movimento dos dias e das noites
sobre a tranquila “germinação”
e a terra como um monstro “maternal” que parece dormir
planetas a gravitar em redor dos dedos
uma dolorosa absorção do tabaco pelo ritmo
e assim “é isto o estilo?” até que a cabeça
é como “a vista” e a ideia desta coisa se transforma
“nesta coisa”
e quando enfim alguém “realmente” adormece
nada pára e o tabaco continua a ser entrançado
por dedos “negros” em todos os “sentidos”
e nunca mais será possível esquecer
tudo se repercute um toque passa um toque
a matéria passa de matéria em matéria
o ritmo ligeiro como uma alucinação
falanges falanginhas e falangetas no “tabaco terreno”
a pulsar
“linguagem” extenuante pela sua própria “verdade”
1 139
Herberto Helder

Herberto Helder

12

mal com as — soberbas! — pequenas putas que me ensinaram tudo
por amor d’el-rei, mal com el-rei por amor das putas?
bom é acabar —
mal com as academias por amor da língua portuguesa,
mal com tudo por amor do inferno,
mal com o fulgor dos dias perdidos,
uma a uma com as pessoas gerais que não conheço,
mal com tudo por amor de um pequeno e ínvio poema,
e mal ainda com o orvalho que aprisiona a borboleta
raríssima como um poema sumério,
bom é acabar mal com este petit monde à volta,
por amor do mundo que também me cerca incertamente,
o modo como te aproximas deste poema e se vê
que o teu nome é constelação,
tu tão fixa,
mal com tudo o mais por amor de ti, quente de tão impura,
tão móvel onde se aproxima o mundo que tanto tarda —
nos dicionários que abro ao acaso das línguas:
stella, queima-me tu as palmas das mãos,
depressa manto real depressa lençol de cima para baixo,
embrulha-me desembrulha porque ressuscito agora mesmo,
que afinal me envolves porque sim,
desata-me, nó de luz,
e ata-me depressa enquanto eles não sabem,
abraça-me,
abarca-me,
abrasa-me,
mal com a terra por amor dos caminhos marítimos,
a estas horas do sal espalhado fundo na noite,
quando se olhava da pedra preta a pique
e se dizia:
mergulha lá de cima a mão esquerda dá-que-dá
completamente bêbeda;
depois mão de basalto dormindo por baixo de algumas linhas
de espuma,
sim sim afinal escrevera um poema durante um reinado
de muitas guerras,
uma pouca de areia afogada quase imperceptível,
quando vinha o estio os banhistas batiam com os pés no fundo,
ou alguém mergulhava para apanhar moedas
redondas, triangulares, quadradas, esféricas,
de ouro, de prata, de bronze,
moedas cunhadas ao mesmo tempo que se passava o sal
grosso de mão em mão,
não nunca jamais ninguém deu por nada
— a essa pouca mão, a esse pouco de escrita
insensata, sensível, canhota,
se calhar, que sei eu?, devo a vida,
e se a vida, a minha, me vale de alguma coisa,
não para fortuna do mundo,
mas para mim mesmo que respiro enquanto escrevo,
embora possa haver quem o não creia ou não queira,
então, para acabar, agradeço como acabo:
estupor velho e relho,
um bom sacana
689
Herberto Helder

Herberto Helder

Texto 8

Nenhuma atenção se esqueceu de me cravar os dedos
na massa malévola e fervente e levemente doce
de um grande “vocabulário”
até que apenas quis ter as mãos expostas ao ar
e à minha frente o deserto pétreo das cacofonias
uma pobre selvática e eriçada “linguagem”
uma crua “exposição de designações”
brutais sem vícios de beleza ou graça
ou ambiguidade
chegar à “leitura explícita” de mim mesmo “texto”
sem marés “colocado” definitivamente
sempre em mim se avizinhou o “excesso vocal”
da “vocação silenciosa”
sempre a “movimentação errática” se aproximou
de um “sono extenso” e logo entendi
mal se fez para os meus olhos a “dança imóvel”
o acesso à “paragem fremente” foi-me dado
como ciência infusa
o palco apenas sem cenários a personagem sem gestos
a fala “não aposta nem suposta”
isto só bastaria como “acto”
de cima e de baixo uma luz “indiscutível”
bloco visão fulminante do “sentido” de tudo
a impossibilidade de “rotações e translações”
precipitação mortal e ainda voluta faiscante
para o corpo chegar-se o arco de si próprio
tangível apertado completo
contudo estão sempre a virar-me para a “paisagem”
dizem “vê as colinas a andarem em todos os espaços
ao mesmo tempo”
levam-me assim à audácia dos “espectáculos”
desviam de mim “o centro” essa paixão da unidade
“o compacto discurso” das trevas ou da luz
“gradações” sibilam eles contentes da subtileza
mas eu estou para além disso unido às vísceras
pelo seu próprio fogo
não me enxameiem a cabeça com as aspas coruscantes
uma nostalgia dourada do “dicionário” que eu podia
trava-se um pouco “a marcha”
mas vou para um “silêncio que treme”
“o violino sobre a mesa” a poeira que vem
“produzir a eternidade”
depois a alegria total de uma tentação dos dedos
parados
franquear a violência luminosa
suspensa
qualquer maneira de intervir na “música”
subindo por dentro a “temperatura” até os termómetros
caírem por eles abaixo
e a “explosão” preparada sorver-se implosivamente
e para sempre se restabelecer a “linha viva”
que une ao ar a labareda
um discurso sem palavras atravessado pela febre
fria
de um saber extremo “irredutível”
603
Herberto Helder

Herberto Helder

Texto 8

Nenhuma atenção se esqueceu de me cravar os dedos
na massa malévola e fervente e levemente doce
de um grande “vocabulário”
até que apenas quis ter as mãos expostas ao ar
e à minha frente o deserto pétreo das cacofonias
uma pobre selvática e eriçada “linguagem”
uma crua “exposição de designações”
brutais sem vícios de beleza ou graça
ou ambiguidade
chegar à “leitura explícita” de mim mesmo “texto”
sem marés “colocado” definitivamente
sempre em mim se avizinhou o “excesso vocal”
da “vocação silenciosa”
sempre a “movimentação errática” se aproximou
de um “sono extenso” e logo entendi
mal se fez para os meus olhos a “dança imóvel”
o acesso à “paragem fremente” foi-me dado
como ciência infusa
o palco apenas sem cenários a personagem sem gestos
a fala “não aposta nem suposta”
isto só bastaria como “acto”
de cima e de baixo uma luz “indiscutível”
bloco visão fulminante do “sentido” de tudo
a impossibilidade de “rotações e translações”
precipitação mortal e ainda voluta faiscante
para o corpo chegar-se o arco de si próprio
tangível apertado completo
contudo estão sempre a virar-me para a “paisagem”
dizem “vê as colinas a andarem em todos os espaços
ao mesmo tempo”
levam-me assim à audácia dos “espectáculos”
desviam de mim “o centro” essa paixão da unidade
“o compacto discurso” das trevas ou da luz
“gradações” sibilam eles contentes da subtileza
mas eu estou para além disso unido às vísceras
pelo seu próprio fogo
não me enxameiem a cabeça com as aspas coruscantes
uma nostalgia dourada do “dicionário” que eu podia
trava-se um pouco “a marcha”
mas vou para um “silêncio que treme”
“o violino sobre a mesa” a poeira que vem
“produzir a eternidade”
depois a alegria total de uma tentação dos dedos
parados
franquear a violência luminosa
suspensa
qualquer maneira de intervir na “música”
subindo por dentro a “temperatura” até os termómetros
caírem por eles abaixo
e a “explosão” preparada sorver-se implosivamente
e para sempre se restabelecer a “linha viva”
que une ao ar a labareda
um discurso sem palavras atravessado pela febre
fria
de um saber extremo “irredutível”
603