Poemas neste tema
Vida e Existência
Herberto Helder
Narração de Um Homem Em Maio
Estou deitado no nome: maio, e sou uma pessoa
que saiu
violenta e violentamente para o campo.
Um homem deitado entre os malmequeres
rotativos do mês atravessado pelo movimento.
E a noite aproximada com o livro
dentro. Deitado sobre bocados
de estrelas no pensamento.
Era a casa absorvida na manhã
embatente.
Livro da poesia arrebatada. Poesia
da mulher emparedada no amor
e o homem emparedado na destruição
do amor.
É agora o leitor com a atenção corrupta
sobre o livro.
O livro que arde nos ossos
do leitor afogado no poema arrebatado.
Estou estendido como autor na ligeira
palavra que a noite molha
e os ventos sopram como se sopra
uma brasa.
Um homem que saiu de casa, com toda
a magnífica violência do amor.
É o tempo revelador.
Agora inteligente deste lado,
contra o lado exemplar de maio aglomerado.
Espécie de primavera comburente.
A dor total. O livro.
O pensamento do amor. A
experiência.
E a vida ardente do autor.
Deitei-me também no campo
de outras coisas. Com discurso. Com
rigoroso segredo.
Vi o caçador levantar o arco-íris
e atirar, fechada, a morte
ao cabrito primaveril.
E tudo calei como experiência
de um sono inspirado.
Vi a ressurreição, maio
infestado. Ouvi
passar o ciclista da primavera
sobre o ruído da ressurreição.
Conheci a existência do roubador, o ciclista
que penetra no exemplo da fábula.
Estou deitado em meio campo
de uma espécie de despedida.
Meio campo de maio, e outro meio
de pessoalíssima vida.
São coisas que já não estão mais
do que na maturidade da idade.
Fiz comércio. Indústria. Dor.
A garganta lavrada pelo canto.
Ia a bicicleta com o seu poeta que punha a mão
no poema da bicicleta.
E iam todos — poema, bicicleta, poeta e mão —
por sobre o coração da terra e a ressurreição
da primavera. Ganhei
a minha idade concluída.
Cacei. Ou plantei. Ou cortei.
A vida vida.
Havia o movimento com a sua bicicleta
e a canção com o seu poeta.
A vida merecida.
Vejo ervas movimentadas e estrelas paradas.
E a consumação das coisas universais.
Geram-se de novo as coisas
universais. A pureza.
A natureza da pureza.
Apropria natureza das coisas universais.
Da dor sei o amor.
O amor do ardor. Sei mais
do que posso saber da matéria do amor.
Fico deitado no campo revolucionário:
a paciente brutalidade da primavera
é como a brutalidade
delicada da paixão.
O violentamente demorado amor,
e a sua ressurreição.
Já estivera deitado ao lado das mulheres.
Elas paravam completamente
como caçadores oubichos fascinados.
Não tinham pensamento nem idade.
Era a força do corpo. O movimento.
Estou neste lado desse lado
do corpo. Sei o poema
do conhecimento informulado.
Respira monotonamente uma estrela
entre os ossos.
Estrela levemente destruída.
Roída pelo louco rato lírico
da idade. Estou no pensamento.
Parado no movimento de uma vida.
Mexo aboca, mexo os dedos, mexo
a ideia da experiência.
Não mexo no arrependimento.
Pois o corpo é interno e eterno
do seu corpo.
Não tenho inocência, mas o dom
de toda uma inocência.
E lentidão ou harmonia.
Poesia sem perdão ou esquecimento.
Idade de poesia.
1953-60
que saiu
violenta e violentamente para o campo.
Um homem deitado entre os malmequeres
rotativos do mês atravessado pelo movimento.
E a noite aproximada com o livro
dentro. Deitado sobre bocados
de estrelas no pensamento.
Era a casa absorvida na manhã
embatente.
Livro da poesia arrebatada. Poesia
da mulher emparedada no amor
e o homem emparedado na destruição
do amor.
É agora o leitor com a atenção corrupta
sobre o livro.
O livro que arde nos ossos
do leitor afogado no poema arrebatado.
Estou estendido como autor na ligeira
palavra que a noite molha
e os ventos sopram como se sopra
uma brasa.
Um homem que saiu de casa, com toda
a magnífica violência do amor.
É o tempo revelador.
Agora inteligente deste lado,
contra o lado exemplar de maio aglomerado.
Espécie de primavera comburente.
A dor total. O livro.
O pensamento do amor. A
experiência.
E a vida ardente do autor.
Deitei-me também no campo
de outras coisas. Com discurso. Com
rigoroso segredo.
Vi o caçador levantar o arco-íris
e atirar, fechada, a morte
ao cabrito primaveril.
E tudo calei como experiência
de um sono inspirado.
Vi a ressurreição, maio
infestado. Ouvi
passar o ciclista da primavera
sobre o ruído da ressurreição.
Conheci a existência do roubador, o ciclista
que penetra no exemplo da fábula.
Estou deitado em meio campo
de uma espécie de despedida.
Meio campo de maio, e outro meio
de pessoalíssima vida.
São coisas que já não estão mais
do que na maturidade da idade.
Fiz comércio. Indústria. Dor.
A garganta lavrada pelo canto.
Ia a bicicleta com o seu poeta que punha a mão
no poema da bicicleta.
E iam todos — poema, bicicleta, poeta e mão —
por sobre o coração da terra e a ressurreição
da primavera. Ganhei
a minha idade concluída.
Cacei. Ou plantei. Ou cortei.
A vida vida.
Havia o movimento com a sua bicicleta
e a canção com o seu poeta.
A vida merecida.
Vejo ervas movimentadas e estrelas paradas.
E a consumação das coisas universais.
Geram-se de novo as coisas
universais. A pureza.
A natureza da pureza.
Apropria natureza das coisas universais.
Da dor sei o amor.
O amor do ardor. Sei mais
do que posso saber da matéria do amor.
Fico deitado no campo revolucionário:
a paciente brutalidade da primavera
é como a brutalidade
delicada da paixão.
O violentamente demorado amor,
e a sua ressurreição.
Já estivera deitado ao lado das mulheres.
Elas paravam completamente
como caçadores oubichos fascinados.
Não tinham pensamento nem idade.
Era a força do corpo. O movimento.
Estou neste lado desse lado
do corpo. Sei o poema
do conhecimento informulado.
Respira monotonamente uma estrela
entre os ossos.
Estrela levemente destruída.
Roída pelo louco rato lírico
da idade. Estou no pensamento.
Parado no movimento de uma vida.
Mexo aboca, mexo os dedos, mexo
a ideia da experiência.
Não mexo no arrependimento.
Pois o corpo é interno e eterno
do seu corpo.
Não tenho inocência, mas o dom
de toda uma inocência.
E lentidão ou harmonia.
Poesia sem perdão ou esquecimento.
Idade de poesia.
1953-60
1 176
Herberto Helder
Narração de Um Homem Em Maio
Estou deitado no nome: maio, e sou uma pessoa
que saiu
violenta e violentamente para o campo.
Um homem deitado entre os malmequeres
rotativos do mês atravessado pelo movimento.
E a noite aproximada com o livro
dentro. Deitado sobre bocados
de estrelas no pensamento.
Era a casa absorvida na manhã
embatente.
Livro da poesia arrebatada. Poesia
da mulher emparedada no amor
e o homem emparedado na destruição
do amor.
É agora o leitor com a atenção corrupta
sobre o livro.
O livro que arde nos ossos
do leitor afogado no poema arrebatado.
Estou estendido como autor na ligeira
palavra que a noite molha
e os ventos sopram como se sopra
uma brasa.
Um homem que saiu de casa, com toda
a magnífica violência do amor.
É o tempo revelador.
Agora inteligente deste lado,
contra o lado exemplar de maio aglomerado.
Espécie de primavera comburente.
A dor total. O livro.
O pensamento do amor. A
experiência.
E a vida ardente do autor.
Deitei-me também no campo
de outras coisas. Com discurso. Com
rigoroso segredo.
Vi o caçador levantar o arco-íris
e atirar, fechada, a morte
ao cabrito primaveril.
E tudo calei como experiência
de um sono inspirado.
Vi a ressurreição, maio
infestado. Ouvi
passar o ciclista da primavera
sobre o ruído da ressurreição.
Conheci a existência do roubador, o ciclista
que penetra no exemplo da fábula.
Estou deitado em meio campo
de uma espécie de despedida.
Meio campo de maio, e outro meio
de pessoalíssima vida.
São coisas que já não estão mais
do que na maturidade da idade.
Fiz comércio. Indústria. Dor.
A garganta lavrada pelo canto.
Ia a bicicleta com o seu poeta que punha a mão
no poema da bicicleta.
E iam todos — poema, bicicleta, poeta e mão —
por sobre o coração da terra e a ressurreição
da primavera. Ganhei
a minha idade concluída.
Cacei. Ou plantei. Ou cortei.
A vida vida.
Havia o movimento com a sua bicicleta
e a canção com o seu poeta.
A vida merecida.
Vejo ervas movimentadas e estrelas paradas.
E a consumação das coisas universais.
Geram-se de novo as coisas
universais. A pureza.
A natureza da pureza.
Apropria natureza das coisas universais.
Da dor sei o amor.
O amor do ardor. Sei mais
do que posso saber da matéria do amor.
Fico deitado no campo revolucionário:
a paciente brutalidade da primavera
é como a brutalidade
delicada da paixão.
O violentamente demorado amor,
e a sua ressurreição.
Já estivera deitado ao lado das mulheres.
Elas paravam completamente
como caçadores oubichos fascinados.
Não tinham pensamento nem idade.
Era a força do corpo. O movimento.
Estou neste lado desse lado
do corpo. Sei o poema
do conhecimento informulado.
Respira monotonamente uma estrela
entre os ossos.
Estrela levemente destruída.
Roída pelo louco rato lírico
da idade. Estou no pensamento.
Parado no movimento de uma vida.
Mexo aboca, mexo os dedos, mexo
a ideia da experiência.
Não mexo no arrependimento.
Pois o corpo é interno e eterno
do seu corpo.
Não tenho inocência, mas o dom
de toda uma inocência.
E lentidão ou harmonia.
Poesia sem perdão ou esquecimento.
Idade de poesia.
1953-60
que saiu
violenta e violentamente para o campo.
Um homem deitado entre os malmequeres
rotativos do mês atravessado pelo movimento.
E a noite aproximada com o livro
dentro. Deitado sobre bocados
de estrelas no pensamento.
Era a casa absorvida na manhã
embatente.
Livro da poesia arrebatada. Poesia
da mulher emparedada no amor
e o homem emparedado na destruição
do amor.
É agora o leitor com a atenção corrupta
sobre o livro.
O livro que arde nos ossos
do leitor afogado no poema arrebatado.
Estou estendido como autor na ligeira
palavra que a noite molha
e os ventos sopram como se sopra
uma brasa.
Um homem que saiu de casa, com toda
a magnífica violência do amor.
É o tempo revelador.
Agora inteligente deste lado,
contra o lado exemplar de maio aglomerado.
Espécie de primavera comburente.
A dor total. O livro.
O pensamento do amor. A
experiência.
E a vida ardente do autor.
Deitei-me também no campo
de outras coisas. Com discurso. Com
rigoroso segredo.
Vi o caçador levantar o arco-íris
e atirar, fechada, a morte
ao cabrito primaveril.
E tudo calei como experiência
de um sono inspirado.
Vi a ressurreição, maio
infestado. Ouvi
passar o ciclista da primavera
sobre o ruído da ressurreição.
Conheci a existência do roubador, o ciclista
que penetra no exemplo da fábula.
Estou deitado em meio campo
de uma espécie de despedida.
Meio campo de maio, e outro meio
de pessoalíssima vida.
São coisas que já não estão mais
do que na maturidade da idade.
Fiz comércio. Indústria. Dor.
A garganta lavrada pelo canto.
Ia a bicicleta com o seu poeta que punha a mão
no poema da bicicleta.
E iam todos — poema, bicicleta, poeta e mão —
por sobre o coração da terra e a ressurreição
da primavera. Ganhei
a minha idade concluída.
Cacei. Ou plantei. Ou cortei.
A vida vida.
Havia o movimento com a sua bicicleta
e a canção com o seu poeta.
A vida merecida.
Vejo ervas movimentadas e estrelas paradas.
E a consumação das coisas universais.
Geram-se de novo as coisas
universais. A pureza.
A natureza da pureza.
Apropria natureza das coisas universais.
Da dor sei o amor.
O amor do ardor. Sei mais
do que posso saber da matéria do amor.
Fico deitado no campo revolucionário:
a paciente brutalidade da primavera
é como a brutalidade
delicada da paixão.
O violentamente demorado amor,
e a sua ressurreição.
Já estivera deitado ao lado das mulheres.
Elas paravam completamente
como caçadores oubichos fascinados.
Não tinham pensamento nem idade.
Era a força do corpo. O movimento.
Estou neste lado desse lado
do corpo. Sei o poema
do conhecimento informulado.
Respira monotonamente uma estrela
entre os ossos.
Estrela levemente destruída.
Roída pelo louco rato lírico
da idade. Estou no pensamento.
Parado no movimento de uma vida.
Mexo aboca, mexo os dedos, mexo
a ideia da experiência.
Não mexo no arrependimento.
Pois o corpo é interno e eterno
do seu corpo.
Não tenho inocência, mas o dom
de toda uma inocência.
E lentidão ou harmonia.
Poesia sem perdão ou esquecimento.
Idade de poesia.
1953-60
1 176
Herberto Helder
15
roupa agitada pela força da luz que irrompe dela,
veste-a, despe-a,
torna-te unânime com o ar e o fogo,
seda e carne, trabalha-as que luminotécnica,
roupa orgânica,
porque já no clarão de um strip-tease se fundira a terra toda
o fundo do cabelo quando o agarras todo para quebrá-la,
tu que perdeste o fôlego,
e sim respiras agora do sôfrego que foste nela,
perdes a fala quotidiana,
ganhas em tudo mas não sabes quanto ganhas
veste-a, despe-a,
torna-te unânime com o ar e o fogo,
seda e carne, trabalha-as que luminotécnica,
roupa orgânica,
porque já no clarão de um strip-tease se fundira a terra toda
o fundo do cabelo quando o agarras todo para quebrá-la,
tu que perdeste o fôlego,
e sim respiras agora do sôfrego que foste nela,
perdes a fala quotidiana,
ganhas em tudo mas não sabes quanto ganhas
1 142
Herberto Helder
20
põem-te a água defronte e a mão aberta dentro da água não se apaga,
aufere-a,
relumbra dela,
defronte como uma dádiva,
e apoias-te no teu próprio sangue,
e a idade apoia-se na sua memória,
o teu nome obscurece-te,
fundo, quente, animal, acerbo,
minado a gás e sangue, os genitais em baixo, o peso,
e a mão aberta dentro da água aberta,
e como estremece tudo
e ele disse: não deixes fechar-se a ferida
— ,;beleza? nada
que num dia abrupto seja mamífero, magnífico,
deixa apenas correr o sangue, à frente ou
atrás da camisa
ou na zona animal da cabeça ou na uretra em vez de esperma
ou
na boca com o frescor do idioma,
enquanto a parte mais escura do mundo aumenta
em cada reduto,
e corra pelos rasgões mostrando o mais oculto,
disse
ele, o sangue — se o imo da carne agreste
que comemos, se a corrida de uma constelação em cima
da água que pára — não deixes,
disse,
fechar-se a ferida e refluir, através de tantos
trabalhos de tubos:
o sangue apanha-te das unhas ao frio do cabelo,
é onde é
a agonia, não há camélias, ameixas,
a maravilha, só
o corpo que é a sua própria ferida,
sangra, disse ele: que sangra muito
aufere-a,
relumbra dela,
defronte como uma dádiva,
e apoias-te no teu próprio sangue,
e a idade apoia-se na sua memória,
o teu nome obscurece-te,
fundo, quente, animal, acerbo,
minado a gás e sangue, os genitais em baixo, o peso,
e a mão aberta dentro da água aberta,
e como estremece tudo
e ele disse: não deixes fechar-se a ferida
— ,;beleza? nada
que num dia abrupto seja mamífero, magnífico,
deixa apenas correr o sangue, à frente ou
atrás da camisa
ou na zona animal da cabeça ou na uretra em vez de esperma
ou
na boca com o frescor do idioma,
enquanto a parte mais escura do mundo aumenta
em cada reduto,
e corra pelos rasgões mostrando o mais oculto,
disse
ele, o sangue — se o imo da carne agreste
que comemos, se a corrida de uma constelação em cima
da água que pára — não deixes,
disse,
fechar-se a ferida e refluir, através de tantos
trabalhos de tubos:
o sangue apanha-te das unhas ao frio do cabelo,
é onde é
a agonia, não há camélias, ameixas,
a maravilha, só
o corpo que é a sua própria ferida,
sangra, disse ele: que sangra muito
1 149
Herberto Helder
20
põem-te a água defronte e a mão aberta dentro da água não se apaga,
aufere-a,
relumbra dela,
defronte como uma dádiva,
e apoias-te no teu próprio sangue,
e a idade apoia-se na sua memória,
o teu nome obscurece-te,
fundo, quente, animal, acerbo,
minado a gás e sangue, os genitais em baixo, o peso,
e a mão aberta dentro da água aberta,
e como estremece tudo
e ele disse: não deixes fechar-se a ferida
— ,;beleza? nada
que num dia abrupto seja mamífero, magnífico,
deixa apenas correr o sangue, à frente ou
atrás da camisa
ou na zona animal da cabeça ou na uretra em vez de esperma
ou
na boca com o frescor do idioma,
enquanto a parte mais escura do mundo aumenta
em cada reduto,
e corra pelos rasgões mostrando o mais oculto,
disse
ele, o sangue — se o imo da carne agreste
que comemos, se a corrida de uma constelação em cima
da água que pára — não deixes,
disse,
fechar-se a ferida e refluir, através de tantos
trabalhos de tubos:
o sangue apanha-te das unhas ao frio do cabelo,
é onde é
a agonia, não há camélias, ameixas,
a maravilha, só
o corpo que é a sua própria ferida,
sangra, disse ele: que sangra muito
aufere-a,
relumbra dela,
defronte como uma dádiva,
e apoias-te no teu próprio sangue,
e a idade apoia-se na sua memória,
o teu nome obscurece-te,
fundo, quente, animal, acerbo,
minado a gás e sangue, os genitais em baixo, o peso,
e a mão aberta dentro da água aberta,
e como estremece tudo
e ele disse: não deixes fechar-se a ferida
— ,;beleza? nada
que num dia abrupto seja mamífero, magnífico,
deixa apenas correr o sangue, à frente ou
atrás da camisa
ou na zona animal da cabeça ou na uretra em vez de esperma
ou
na boca com o frescor do idioma,
enquanto a parte mais escura do mundo aumenta
em cada reduto,
e corra pelos rasgões mostrando o mais oculto,
disse
ele, o sangue — se o imo da carne agreste
que comemos, se a corrida de uma constelação em cima
da água que pára — não deixes,
disse,
fechar-se a ferida e refluir, através de tantos
trabalhos de tubos:
o sangue apanha-te das unhas ao frio do cabelo,
é onde é
a agonia, não há camélias, ameixas,
a maravilha, só
o corpo que é a sua própria ferida,
sangra, disse ele: que sangra muito
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Herberto Helder
20
põem-te a água defronte e a mão aberta dentro da água não se apaga,
aufere-a,
relumbra dela,
defronte como uma dádiva,
e apoias-te no teu próprio sangue,
e a idade apoia-se na sua memória,
o teu nome obscurece-te,
fundo, quente, animal, acerbo,
minado a gás e sangue, os genitais em baixo, o peso,
e a mão aberta dentro da água aberta,
e como estremece tudo
e ele disse: não deixes fechar-se a ferida
— ,;beleza? nada
que num dia abrupto seja mamífero, magnífico,
deixa apenas correr o sangue, à frente ou
atrás da camisa
ou na zona animal da cabeça ou na uretra em vez de esperma
ou
na boca com o frescor do idioma,
enquanto a parte mais escura do mundo aumenta
em cada reduto,
e corra pelos rasgões mostrando o mais oculto,
disse
ele, o sangue — se o imo da carne agreste
que comemos, se a corrida de uma constelação em cima
da água que pára — não deixes,
disse,
fechar-se a ferida e refluir, através de tantos
trabalhos de tubos:
o sangue apanha-te das unhas ao frio do cabelo,
é onde é
a agonia, não há camélias, ameixas,
a maravilha, só
o corpo que é a sua própria ferida,
sangra, disse ele: que sangra muito
aufere-a,
relumbra dela,
defronte como uma dádiva,
e apoias-te no teu próprio sangue,
e a idade apoia-se na sua memória,
o teu nome obscurece-te,
fundo, quente, animal, acerbo,
minado a gás e sangue, os genitais em baixo, o peso,
e a mão aberta dentro da água aberta,
e como estremece tudo
e ele disse: não deixes fechar-se a ferida
— ,;beleza? nada
que num dia abrupto seja mamífero, magnífico,
deixa apenas correr o sangue, à frente ou
atrás da camisa
ou na zona animal da cabeça ou na uretra em vez de esperma
ou
na boca com o frescor do idioma,
enquanto a parte mais escura do mundo aumenta
em cada reduto,
e corra pelos rasgões mostrando o mais oculto,
disse
ele, o sangue — se o imo da carne agreste
que comemos, se a corrida de uma constelação em cima
da água que pára — não deixes,
disse,
fechar-se a ferida e refluir, através de tantos
trabalhos de tubos:
o sangue apanha-te das unhas ao frio do cabelo,
é onde é
a agonia, não há camélias, ameixas,
a maravilha, só
o corpo que é a sua própria ferida,
sangra, disse ele: que sangra muito
1 149
Herberto Helder
2
sobressalto,
ressalto de luz no bolso,
entre orvalho e fogo colhido de fresco na sua árvore,
escondido rápido enquanto se foge,
sem a mancha ainda da moda e do modo,
queimava o bolso contra a carne,
queimava pela carne algo menos fácil que ela,
que do seu pouco diamantífero cada qual faz o que pode
ressalto de luz no bolso,
entre orvalho e fogo colhido de fresco na sua árvore,
escondido rápido enquanto se foge,
sem a mancha ainda da moda e do modo,
queimava o bolso contra a carne,
queimava pela carne algo menos fácil que ela,
que do seu pouco diamantífero cada qual faz o que pode
1 121
Herberto Helder
5
o aroma do mundo é o de salsugem no escuro
mas de quanto da morte das mães vivem os filhos loucos,
do quanto se alimentam de sua matéria e tempo,
e que esplendor tem nos filhos a morte delas?
filhos, e elas giram por entre os substantivos,
impuros utensílios,
e dão-lhes radiação,
as mães rapaces entram e apossam-se do aroma do mundo,
e contudo ela move-se nos filhos que acordam,
o cheiro a suor pelo corpo fora,
livres enfim para morrer da sua morte própria
mas de quanto da morte das mães vivem os filhos loucos,
do quanto se alimentam de sua matéria e tempo,
e que esplendor tem nos filhos a morte delas?
filhos, e elas giram por entre os substantivos,
impuros utensílios,
e dão-lhes radiação,
as mães rapaces entram e apossam-se do aroma do mundo,
e contudo ela move-se nos filhos que acordam,
o cheiro a suor pelo corpo fora,
livres enfim para morrer da sua morte própria
1 035
Herberto Helder
24
noite funcionada a furos de ouro fundido,
combustível, comburente,
inexcedível,
e eu não sei se é de onde me vejo dentro dela,
força da imagem ou fogo ou
desabitação do mundo,
nesta língua onde me encontro e que me funda com mão fluida,
caos,
e como se move tudo, os dedos
pelo sistema decimal contando para trás pessoa
a pessoa, unha
a unha de rapina, diz a canção: a flor inversa,
ar resplan la flors enversa,
desde o hábil desgoverno da matéria à pronúncia tumultuosa,
floral glória colinas ar afora,
com que choque tecnológico a terra pós-moderna,
faúlhas, lâmpadas, quem as maneie e atice,
iluminam-se a si próprias,
houvesse em mim potência e elegância,
e jorrasse a flor inversa,
e para a frente as vezes dos dedos que ainda faltam,
ar movido no cabelo, lápis
maduro sobre o escrito,
idade,
styx,
renascimento,
o júbilo,
trabalhos, etc., desordens, arranquem-mos todos para nunca
terem existido,
nem um só nome é indestrutível,
avança, retrocede, apaga,
ar resplan, e então resplende a flor inversa
combustível, comburente,
inexcedível,
e eu não sei se é de onde me vejo dentro dela,
força da imagem ou fogo ou
desabitação do mundo,
nesta língua onde me encontro e que me funda com mão fluida,
caos,
e como se move tudo, os dedos
pelo sistema decimal contando para trás pessoa
a pessoa, unha
a unha de rapina, diz a canção: a flor inversa,
ar resplan la flors enversa,
desde o hábil desgoverno da matéria à pronúncia tumultuosa,
floral glória colinas ar afora,
com que choque tecnológico a terra pós-moderna,
faúlhas, lâmpadas, quem as maneie e atice,
iluminam-se a si próprias,
houvesse em mim potência e elegância,
e jorrasse a flor inversa,
e para a frente as vezes dos dedos que ainda faltam,
ar movido no cabelo, lápis
maduro sobre o escrito,
idade,
styx,
renascimento,
o júbilo,
trabalhos, etc., desordens, arranquem-mos todos para nunca
terem existido,
nem um só nome é indestrutível,
avança, retrocede, apaga,
ar resplan, e então resplende a flor inversa
1 065
Herberto Helder
21
mas se basta uma braçada de luz com água,
e ao sono basta o rasgão por onde se escoa,
e ao teu corpo, o que basta a esse ofício do brilho:
o organismo diamante, o sistema da rosa,
o banho plenário,
e à exasperada alegria basta cada dia roaz,
se basta a água anárquica?
frutas, púcaros, ondas, folhas, dedos, tudo
o que a luz encurva,
se era para trás do rosto ou das espáduas,
dos membros,
dos riscos
escarpados do corpo,
porque eu tremo com o punhado de ouro grosso que te queimava
como quem faz um nó com a sua estrela
ou morre noutra pessoa —
tudo o que me devora se apaga, e eu brilho
daquilo que me devora,
quando se amarra e desamarra
da força entre as mãos batidas altas,
do ar que salta:
o segredo é a coisa mais brilhada
e ao sono basta o rasgão por onde se escoa,
e ao teu corpo, o que basta a esse ofício do brilho:
o organismo diamante, o sistema da rosa,
o banho plenário,
e à exasperada alegria basta cada dia roaz,
se basta a água anárquica?
frutas, púcaros, ondas, folhas, dedos, tudo
o que a luz encurva,
se era para trás do rosto ou das espáduas,
dos membros,
dos riscos
escarpados do corpo,
porque eu tremo com o punhado de ouro grosso que te queimava
como quem faz um nó com a sua estrela
ou morre noutra pessoa —
tudo o que me devora se apaga, e eu brilho
daquilo que me devora,
quando se amarra e desamarra
da força entre as mãos batidas altas,
do ar que salta:
o segredo é a coisa mais brilhada
1 014
Herberto Helder
19
a luz de um só tecido a mover-se sob o vestido
rapaza raparigo
trav superdot sôfrego belíssimo
mamas sem leite e sangue mas
terrestres soberanas
pénis intenso
ânus sombrio
rapaza raparigo
trav superdot sôfrego belíssimo
mamas sem leite e sangue mas
terrestres soberanas
pénis intenso
ânus sombrio
1 026
Herberto Helder
13
que eu aprenda tudo desde a morte,
mas não me chamem por um nome nem pelo uso das coisas,
colher, roupa, caneta,
roupa intensa com a respiração dentro dela,
e a tua mão sangra na minha,
brilha inteira se um pouco da minha mão sangra e brilha,
no toque entre os olhos,
na boca,
na rescrita de cada coisa já escrita nas entrelinhas das coisas,
fiat cantus! e faça-se o canto esdrúxulo que regula a terra,
o canto comum-de-dois,
o inexaurível,
o quanto se trabalha para que a noite apareça,
e à noite se vê a luz que desaparece na mesa,
chama-me pelo teu nome, troca-me,
toca-me
na boca sem idioma,
já te não chamaste nunca,
já estás pronta,
já és toda
mas não me chamem por um nome nem pelo uso das coisas,
colher, roupa, caneta,
roupa intensa com a respiração dentro dela,
e a tua mão sangra na minha,
brilha inteira se um pouco da minha mão sangra e brilha,
no toque entre os olhos,
na boca,
na rescrita de cada coisa já escrita nas entrelinhas das coisas,
fiat cantus! e faça-se o canto esdrúxulo que regula a terra,
o canto comum-de-dois,
o inexaurível,
o quanto se trabalha para que a noite apareça,
e à noite se vê a luz que desaparece na mesa,
chama-me pelo teu nome, troca-me,
toca-me
na boca sem idioma,
já te não chamaste nunca,
já estás pronta,
já és toda
1 119
Herberto Helder
13
que eu aprenda tudo desde a morte,
mas não me chamem por um nome nem pelo uso das coisas,
colher, roupa, caneta,
roupa intensa com a respiração dentro dela,
e a tua mão sangra na minha,
brilha inteira se um pouco da minha mão sangra e brilha,
no toque entre os olhos,
na boca,
na rescrita de cada coisa já escrita nas entrelinhas das coisas,
fiat cantus! e faça-se o canto esdrúxulo que regula a terra,
o canto comum-de-dois,
o inexaurível,
o quanto se trabalha para que a noite apareça,
e à noite se vê a luz que desaparece na mesa,
chama-me pelo teu nome, troca-me,
toca-me
na boca sem idioma,
já te não chamaste nunca,
já estás pronta,
já és toda
mas não me chamem por um nome nem pelo uso das coisas,
colher, roupa, caneta,
roupa intensa com a respiração dentro dela,
e a tua mão sangra na minha,
brilha inteira se um pouco da minha mão sangra e brilha,
no toque entre os olhos,
na boca,
na rescrita de cada coisa já escrita nas entrelinhas das coisas,
fiat cantus! e faça-se o canto esdrúxulo que regula a terra,
o canto comum-de-dois,
o inexaurível,
o quanto se trabalha para que a noite apareça,
e à noite se vê a luz que desaparece na mesa,
chama-me pelo teu nome, troca-me,
toca-me
na boca sem idioma,
já te não chamaste nunca,
já estás pronta,
já és toda
1 119
Herberto Helder
8
estende a tua mão contra a minha boca e respira,
e sente como respiro contra ela,
e sem que eu nada diga,
sente a trémula, tocada coluna de ar
a sorvo e sopro,
ó
táctil, ininterrupta,
e a tua mão sinta contra mim
quanto aumenta o mundo
e sente como respiro contra ela,
e sem que eu nada diga,
sente a trémula, tocada coluna de ar
a sorvo e sopro,
ó
táctil, ininterrupta,
e a tua mão sinta contra mim
quanto aumenta o mundo
812
Herberto Helder
27
retira-se alguém um pouco atrás na noite
para fazer uma escola da leveza,
sentar-se sobre si mesmo devorando uma laranja,
pronta,
colhida ao caos, que ela sim ilumina quem a usa,
e é isto: a laranja faz rodar os dedos, torna
leve, pelos dedos,
aquele que a levanta, e tão exacto gosto na língua,
tão transbordante,
dói no fino do frio açúcar,
e a laranja levanta tudo: luz e dedos, e a pessoa
com a ferida na boca, o gosto
magoado até à pronúncia das expressões mais simples do idioma,
golpe a golpe,
como em estrangeiro brutal,
ou inexpugnável,
que faz ele? talha trémula, oh Deus! lavrada a pau virgem e folha de
ouro,
mete-lhe os polegares pelos umbigos, devora-a, celebra, embebeda-se,
que escola de laranja terrestre não se pode mais que esta leveza
para fazer uma escola da leveza,
sentar-se sobre si mesmo devorando uma laranja,
pronta,
colhida ao caos, que ela sim ilumina quem a usa,
e é isto: a laranja faz rodar os dedos, torna
leve, pelos dedos,
aquele que a levanta, e tão exacto gosto na língua,
tão transbordante,
dói no fino do frio açúcar,
e a laranja levanta tudo: luz e dedos, e a pessoa
com a ferida na boca, o gosto
magoado até à pronúncia das expressões mais simples do idioma,
golpe a golpe,
como em estrangeiro brutal,
ou inexpugnável,
que faz ele? talha trémula, oh Deus! lavrada a pau virgem e folha de
ouro,
mete-lhe os polegares pelos umbigos, devora-a, celebra, embebeda-se,
que escola de laranja terrestre não se pode mais que esta leveza
1 051
Herberto Helder
23
cabelo cortado vivo,
marga contra os dedos,
umbigo,
a plenos pulmões das formas, o mundo, como respira o mundo!
áruns por onde respira e brilha
— marga infusa: a matéria que,
arrancada, respira e
respirando no ar ininterrupto dolorosamente brilha,
no seu estado avulso
brilha, absoluta
— e o sangue urgente inundando a boca:
tão curta canção para tamanha vida:
aloés por onde o chão respira,
e a mão que brilha quando os toca,
tão pouca mão em tão nascida obra
— e anéis de um corpo cortado vivo
no cabelo,
na marga contra os dedos,
no umbigo:
na folha escura onde cada frase brilha
um relâmpago apenas antes de ser escrita
marga contra os dedos,
umbigo,
a plenos pulmões das formas, o mundo, como respira o mundo!
áruns por onde respira e brilha
— marga infusa: a matéria que,
arrancada, respira e
respirando no ar ininterrupto dolorosamente brilha,
no seu estado avulso
brilha, absoluta
— e o sangue urgente inundando a boca:
tão curta canção para tamanha vida:
aloés por onde o chão respira,
e a mão que brilha quando os toca,
tão pouca mão em tão nascida obra
— e anéis de um corpo cortado vivo
no cabelo,
na marga contra os dedos,
no umbigo:
na folha escura onde cada frase brilha
um relâmpago apenas antes de ser escrita
1 139
Herberto Helder
23
cabelo cortado vivo,
marga contra os dedos,
umbigo,
a plenos pulmões das formas, o mundo, como respira o mundo!
áruns por onde respira e brilha
— marga infusa: a matéria que,
arrancada, respira e
respirando no ar ininterrupto dolorosamente brilha,
no seu estado avulso
brilha, absoluta
— e o sangue urgente inundando a boca:
tão curta canção para tamanha vida:
aloés por onde o chão respira,
e a mão que brilha quando os toca,
tão pouca mão em tão nascida obra
— e anéis de um corpo cortado vivo
no cabelo,
na marga contra os dedos,
no umbigo:
na folha escura onde cada frase brilha
um relâmpago apenas antes de ser escrita
marga contra os dedos,
umbigo,
a plenos pulmões das formas, o mundo, como respira o mundo!
áruns por onde respira e brilha
— marga infusa: a matéria que,
arrancada, respira e
respirando no ar ininterrupto dolorosamente brilha,
no seu estado avulso
brilha, absoluta
— e o sangue urgente inundando a boca:
tão curta canção para tamanha vida:
aloés por onde o chão respira,
e a mão que brilha quando os toca,
tão pouca mão em tão nascida obra
— e anéis de um corpo cortado vivo
no cabelo,
na marga contra os dedos,
no umbigo:
na folha escura onde cada frase brilha
um relâmpago apenas antes de ser escrita
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Herberto Helder
31
os animais fazem tremer o chão se passam debaixo dela
— e a laranja cai do seu fogo,
e tu apanha-la:
deixa salitre de ouro na ponta dos dedos,
troca a ordem dos dedos com o peso
da luz trazida ao escuro
dos teus números: fruta,
uma, abrupta; dedos, cinco, poucos para contar qualidades e coisas,
e os fundamentos:
e a idade que tens quando aparece
o mundo arrancado aos limbos,
assim: água irrompendo do fundo da luz; e a beleza mamífera,
a carne e a sua graça complexa; ocupações: todas —
e tu andas em torno com a laranja entre os dedos
— nada existe para lá do poder desse campo:
curvas cruzadas dos olhos e das formas: esta
simetria dos ofícios:
faca, laranja, boca,
e o hausto e o bafo circundam numa volta
as obras, as pequenas
obras gerais: só
tuas: nada de nada, e tudo, eximiamente com
muita força
— e a laranja cai do seu fogo,
e tu apanha-la:
deixa salitre de ouro na ponta dos dedos,
troca a ordem dos dedos com o peso
da luz trazida ao escuro
dos teus números: fruta,
uma, abrupta; dedos, cinco, poucos para contar qualidades e coisas,
e os fundamentos:
e a idade que tens quando aparece
o mundo arrancado aos limbos,
assim: água irrompendo do fundo da luz; e a beleza mamífera,
a carne e a sua graça complexa; ocupações: todas —
e tu andas em torno com a laranja entre os dedos
— nada existe para lá do poder desse campo:
curvas cruzadas dos olhos e das formas: esta
simetria dos ofícios:
faca, laranja, boca,
e o hausto e o bafo circundam numa volta
as obras, as pequenas
obras gerais: só
tuas: nada de nada, e tudo, eximiamente com
muita força
1 072
Herberto Helder
31
os animais fazem tremer o chão se passam debaixo dela
— e a laranja cai do seu fogo,
e tu apanha-la:
deixa salitre de ouro na ponta dos dedos,
troca a ordem dos dedos com o peso
da luz trazida ao escuro
dos teus números: fruta,
uma, abrupta; dedos, cinco, poucos para contar qualidades e coisas,
e os fundamentos:
e a idade que tens quando aparece
o mundo arrancado aos limbos,
assim: água irrompendo do fundo da luz; e a beleza mamífera,
a carne e a sua graça complexa; ocupações: todas —
e tu andas em torno com a laranja entre os dedos
— nada existe para lá do poder desse campo:
curvas cruzadas dos olhos e das formas: esta
simetria dos ofícios:
faca, laranja, boca,
e o hausto e o bafo circundam numa volta
as obras, as pequenas
obras gerais: só
tuas: nada de nada, e tudo, eximiamente com
muita força
— e a laranja cai do seu fogo,
e tu apanha-la:
deixa salitre de ouro na ponta dos dedos,
troca a ordem dos dedos com o peso
da luz trazida ao escuro
dos teus números: fruta,
uma, abrupta; dedos, cinco, poucos para contar qualidades e coisas,
e os fundamentos:
e a idade que tens quando aparece
o mundo arrancado aos limbos,
assim: água irrompendo do fundo da luz; e a beleza mamífera,
a carne e a sua graça complexa; ocupações: todas —
e tu andas em torno com a laranja entre os dedos
— nada existe para lá do poder desse campo:
curvas cruzadas dos olhos e das formas: esta
simetria dos ofícios:
faca, laranja, boca,
e o hausto e o bafo circundam numa volta
as obras, as pequenas
obras gerais: só
tuas: nada de nada, e tudo, eximiamente com
muita força
1 072
Herberto Helder
44
à memória de meu bisavô Francisco Ferreira,
santeiro
álcool, tabaco, anfetaminas, que alumiação, mijo cor de ouro e esperma
grosso,
tudo quente, e eu risco
e desenvolvo,
mantenho aberta a ferida, infundo
a miúda, aos poucos, minha, humílima,
respiração
na madeira madura rasgada e na fundura da argila,
e no sítio à espera cai o pacote,
brilha, porque na torção da luz o pacote de tripas
sou eu que o faço, e risco
e lixo e pinto e nimbo e ponho sob a mão atenta
esquerda
e as frias forças da vista a crua
artesania, e ouço agora na rádio Bach, meu Deus, e Haendel, e peço:
leiam-me dos livros
o curso de sôbolos rios que vão, ou Lucrécio:
que
o mundo é um caos sumptuoso — este
é o segredo:
música, e eu estou bêbado, e é tão amargo o tempo,
tão irrevocável,
quero eu dizer: doce é ouvir o que se ouve muito junto ao ouvido,
enquanto se responde ao movimento dos dedos,
embora as asas do arcanjo, rémiges e retrizes, cada uma do tamanho
parede de uma ca:
não passem pelas portas:
segredo é o gosto de ser ainda agraz e agudo,
gosto primeiro, de quem se fez nele, o gosto novo,
inacessível,
a leite e fruta —
e tu que me ouves, leva tudo mas não me leves
a mão, e as maneiras que lhe dou, de assinatura, e nela me refaço
com um soluço, autor, nó de corpo,
a contas com a autoria,
eu que me sinto nos dedos pelo canhoto e o curto,
falta de academia, erros metidos nisso,
e bêbado durante uma estação inteira, um estio, um outono,
bêbado das massas em que embaraço as obras ou
de que as desembaraço, as obras às dedadas,
e o espaço rodeia-me e depois já não rodeia,
o espaço que ocupo já me não presta,
não me presta a luz nas olarias e nos vibrantes paus de cedro
suando até que se me afigure,
e a terra que se mistura com o sangue sob as unhas,
da minha boca para fora já nada é assombroso,
nada para fora dos dedos sem estudo,
sou de matéria volúvel pouco a pouco,
ou muito rápido neste estio ou neste outono muito lento,
eu que me perco de mim sempre bêbado do tempo,
eu que morro
santeiro
álcool, tabaco, anfetaminas, que alumiação, mijo cor de ouro e esperma
grosso,
tudo quente, e eu risco
e desenvolvo,
mantenho aberta a ferida, infundo
a miúda, aos poucos, minha, humílima,
respiração
na madeira madura rasgada e na fundura da argila,
e no sítio à espera cai o pacote,
brilha, porque na torção da luz o pacote de tripas
sou eu que o faço, e risco
e lixo e pinto e nimbo e ponho sob a mão atenta
esquerda
e as frias forças da vista a crua
artesania, e ouço agora na rádio Bach, meu Deus, e Haendel, e peço:
leiam-me dos livros
o curso de sôbolos rios que vão, ou Lucrécio:
que
o mundo é um caos sumptuoso — este
é o segredo:
música, e eu estou bêbado, e é tão amargo o tempo,
tão irrevocável,
quero eu dizer: doce é ouvir o que se ouve muito junto ao ouvido,
enquanto se responde ao movimento dos dedos,
embora as asas do arcanjo, rémiges e retrizes, cada uma do tamanho
parede de uma ca:
não passem pelas portas:
segredo é o gosto de ser ainda agraz e agudo,
gosto primeiro, de quem se fez nele, o gosto novo,
inacessível,
a leite e fruta —
e tu que me ouves, leva tudo mas não me leves
a mão, e as maneiras que lhe dou, de assinatura, e nela me refaço
com um soluço, autor, nó de corpo,
a contas com a autoria,
eu que me sinto nos dedos pelo canhoto e o curto,
falta de academia, erros metidos nisso,
e bêbado durante uma estação inteira, um estio, um outono,
bêbado das massas em que embaraço as obras ou
de que as desembaraço, as obras às dedadas,
e o espaço rodeia-me e depois já não rodeia,
o espaço que ocupo já me não presta,
não me presta a luz nas olarias e nos vibrantes paus de cedro
suando até que se me afigure,
e a terra que se mistura com o sangue sob as unhas,
da minha boca para fora já nada é assombroso,
nada para fora dos dedos sem estudo,
sou de matéria volúvel pouco a pouco,
ou muito rápido neste estio ou neste outono muito lento,
eu que me perco de mim sempre bêbado do tempo,
eu que morro
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Herberto Helder
44
à memória de meu bisavô Francisco Ferreira,
santeiro
álcool, tabaco, anfetaminas, que alumiação, mijo cor de ouro e esperma
grosso,
tudo quente, e eu risco
e desenvolvo,
mantenho aberta a ferida, infundo
a miúda, aos poucos, minha, humílima,
respiração
na madeira madura rasgada e na fundura da argila,
e no sítio à espera cai o pacote,
brilha, porque na torção da luz o pacote de tripas
sou eu que o faço, e risco
e lixo e pinto e nimbo e ponho sob a mão atenta
esquerda
e as frias forças da vista a crua
artesania, e ouço agora na rádio Bach, meu Deus, e Haendel, e peço:
leiam-me dos livros
o curso de sôbolos rios que vão, ou Lucrécio:
que
o mundo é um caos sumptuoso — este
é o segredo:
música, e eu estou bêbado, e é tão amargo o tempo,
tão irrevocável,
quero eu dizer: doce é ouvir o que se ouve muito junto ao ouvido,
enquanto se responde ao movimento dos dedos,
embora as asas do arcanjo, rémiges e retrizes, cada uma do tamanho
parede de uma ca:
não passem pelas portas:
segredo é o gosto de ser ainda agraz e agudo,
gosto primeiro, de quem se fez nele, o gosto novo,
inacessível,
a leite e fruta —
e tu que me ouves, leva tudo mas não me leves
a mão, e as maneiras que lhe dou, de assinatura, e nela me refaço
com um soluço, autor, nó de corpo,
a contas com a autoria,
eu que me sinto nos dedos pelo canhoto e o curto,
falta de academia, erros metidos nisso,
e bêbado durante uma estação inteira, um estio, um outono,
bêbado das massas em que embaraço as obras ou
de que as desembaraço, as obras às dedadas,
e o espaço rodeia-me e depois já não rodeia,
o espaço que ocupo já me não presta,
não me presta a luz nas olarias e nos vibrantes paus de cedro
suando até que se me afigure,
e a terra que se mistura com o sangue sob as unhas,
da minha boca para fora já nada é assombroso,
nada para fora dos dedos sem estudo,
sou de matéria volúvel pouco a pouco,
ou muito rápido neste estio ou neste outono muito lento,
eu que me perco de mim sempre bêbado do tempo,
eu que morro
santeiro
álcool, tabaco, anfetaminas, que alumiação, mijo cor de ouro e esperma
grosso,
tudo quente, e eu risco
e desenvolvo,
mantenho aberta a ferida, infundo
a miúda, aos poucos, minha, humílima,
respiração
na madeira madura rasgada e na fundura da argila,
e no sítio à espera cai o pacote,
brilha, porque na torção da luz o pacote de tripas
sou eu que o faço, e risco
e lixo e pinto e nimbo e ponho sob a mão atenta
esquerda
e as frias forças da vista a crua
artesania, e ouço agora na rádio Bach, meu Deus, e Haendel, e peço:
leiam-me dos livros
o curso de sôbolos rios que vão, ou Lucrécio:
que
o mundo é um caos sumptuoso — este
é o segredo:
música, e eu estou bêbado, e é tão amargo o tempo,
tão irrevocável,
quero eu dizer: doce é ouvir o que se ouve muito junto ao ouvido,
enquanto se responde ao movimento dos dedos,
embora as asas do arcanjo, rémiges e retrizes, cada uma do tamanho
parede de uma ca:
não passem pelas portas:
segredo é o gosto de ser ainda agraz e agudo,
gosto primeiro, de quem se fez nele, o gosto novo,
inacessível,
a leite e fruta —
e tu que me ouves, leva tudo mas não me leves
a mão, e as maneiras que lhe dou, de assinatura, e nela me refaço
com um soluço, autor, nó de corpo,
a contas com a autoria,
eu que me sinto nos dedos pelo canhoto e o curto,
falta de academia, erros metidos nisso,
e bêbado durante uma estação inteira, um estio, um outono,
bêbado das massas em que embaraço as obras ou
de que as desembaraço, as obras às dedadas,
e o espaço rodeia-me e depois já não rodeia,
o espaço que ocupo já me não presta,
não me presta a luz nas olarias e nos vibrantes paus de cedro
suando até que se me afigure,
e a terra que se mistura com o sangue sob as unhas,
da minha boca para fora já nada é assombroso,
nada para fora dos dedos sem estudo,
sou de matéria volúvel pouco a pouco,
ou muito rápido neste estio ou neste outono muito lento,
eu que me perco de mim sempre bêbado do tempo,
eu que morro
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Herberto Helder
12
sou eu que te abro pela boca,
boca com boca,
metido em ti o sôpro até raiar-te a cara,
até que o meu soluço obscuro te cruze toda,
amo-te como se aprendesse desde não sei que morte,
ainda que doa o mundo,
a alegria
boca com boca,
metido em ti o sôpro até raiar-te a cara,
até que o meu soluço obscuro te cruze toda,
amo-te como se aprendesse desde não sei que morte,
ainda que doa o mundo,
a alegria
1 099
Herberto Helder
38
roupas pesadas de sangue, cabeças
como de mármore e ouro moído,
a luz arranca-as,
nem as víboras poderiam coroá-las,
nem os elementos ar e fogo,
e assim em silêncio amadurecem
madeixas, pálpebras,
gargantas,
fremindo ainda do sangue que ficou nas roupas,
fremindo no ar que chega aos poucos,
a pouca estrela,
e abaixo do nó de luz, abaixo
da avassaladora floração do amarelo no escuro,
o sangue,
porque ainda se respira um pouco,
rápido,
destroncadas,
o ar grande aberto para que a luz as encharque
<;e os dedos?
o sombrio, trabalham-no
os dedos bêbedos
como de mármore e ouro moído,
a luz arranca-as,
nem as víboras poderiam coroá-las,
nem os elementos ar e fogo,
e assim em silêncio amadurecem
madeixas, pálpebras,
gargantas,
fremindo ainda do sangue que ficou nas roupas,
fremindo no ar que chega aos poucos,
a pouca estrela,
e abaixo do nó de luz, abaixo
da avassaladora floração do amarelo no escuro,
o sangue,
porque ainda se respira um pouco,
rápido,
destroncadas,
o ar grande aberto para que a luz as encharque
<;e os dedos?
o sombrio, trabalham-no
os dedos bêbedos
1 088
Herberto Helder
38
roupas pesadas de sangue, cabeças
como de mármore e ouro moído,
a luz arranca-as,
nem as víboras poderiam coroá-las,
nem os elementos ar e fogo,
e assim em silêncio amadurecem
madeixas, pálpebras,
gargantas,
fremindo ainda do sangue que ficou nas roupas,
fremindo no ar que chega aos poucos,
a pouca estrela,
e abaixo do nó de luz, abaixo
da avassaladora floração do amarelo no escuro,
o sangue,
porque ainda se respira um pouco,
rápido,
destroncadas,
o ar grande aberto para que a luz as encharque
<;e os dedos?
o sombrio, trabalham-no
os dedos bêbedos
como de mármore e ouro moído,
a luz arranca-as,
nem as víboras poderiam coroá-las,
nem os elementos ar e fogo,
e assim em silêncio amadurecem
madeixas, pálpebras,
gargantas,
fremindo ainda do sangue que ficou nas roupas,
fremindo no ar que chega aos poucos,
a pouca estrela,
e abaixo do nó de luz, abaixo
da avassaladora floração do amarelo no escuro,
o sangue,
porque ainda se respira um pouco,
rápido,
destroncadas,
o ar grande aberto para que a luz as encharque
<;e os dedos?
o sombrio, trabalham-no
os dedos bêbedos
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