Poemas neste tema
Vida e Existência
Herberto Helder
91
não chamem logo as funerárias,
cortem-me as veias dos pulsos pra que me saibam bem morto,
medo? só que o sangue vibre ainda na garganta
e qualquer mão e meia me encha de terra a boca,
sei de quem se tenha erguido, de pura respiração apenas, do fundo da
madeira,
do saibro, roupa, gôtas de orvalho ou cêra,
ornatos, espadanas, lágrimas,
últimas músicas,
não é como no escuro o trigo que ressuscita,
sei sim de quem despedaçou as tábuas e ficou entre caos e nada com o
sangue alvoroçado nos braços e nas têmporas,
que se não pare nunca entre as matérias intransponíveis,
cortem-me cerce o sangue fresco,
que a terra me não côma vivo,
diz-se às vezes: posso colher os elementos que se movem,
colhê-los, e recolhê-los, e ser movido por eles, e caminhar pés nus
em cima de água,
luz salgada contra o rosto,
quem morre morre só, morre de amor e desamor, ou muito dentro ou
muito fora,
todos os palmos da mão em prática na morte própria
durante quanto tempo a um homem depois de morto lhe crescem unhas e cabelo?
que a terra me não côma vivo,
o sangue, cortem-no cerce e fresco
cortem-me as veias dos pulsos pra que me saibam bem morto,
medo? só que o sangue vibre ainda na garganta
e qualquer mão e meia me encha de terra a boca,
sei de quem se tenha erguido, de pura respiração apenas, do fundo da
madeira,
do saibro, roupa, gôtas de orvalho ou cêra,
ornatos, espadanas, lágrimas,
últimas músicas,
não é como no escuro o trigo que ressuscita,
sei sim de quem despedaçou as tábuas e ficou entre caos e nada com o
sangue alvoroçado nos braços e nas têmporas,
que se não pare nunca entre as matérias intransponíveis,
cortem-me cerce o sangue fresco,
que a terra me não côma vivo,
diz-se às vezes: posso colher os elementos que se movem,
colhê-los, e recolhê-los, e ser movido por eles, e caminhar pés nus
em cima de água,
luz salgada contra o rosto,
quem morre morre só, morre de amor e desamor, ou muito dentro ou
muito fora,
todos os palmos da mão em prática na morte própria
durante quanto tempo a um homem depois de morto lhe crescem unhas e cabelo?
que a terra me não côma vivo,
o sangue, cortem-no cerce e fresco
939
Herberto Helder
91
não chamem logo as funerárias,
cortem-me as veias dos pulsos pra que me saibam bem morto,
medo? só que o sangue vibre ainda na garganta
e qualquer mão e meia me encha de terra a boca,
sei de quem se tenha erguido, de pura respiração apenas, do fundo da
madeira,
do saibro, roupa, gôtas de orvalho ou cêra,
ornatos, espadanas, lágrimas,
últimas músicas,
não é como no escuro o trigo que ressuscita,
sei sim de quem despedaçou as tábuas e ficou entre caos e nada com o
sangue alvoroçado nos braços e nas têmporas,
que se não pare nunca entre as matérias intransponíveis,
cortem-me cerce o sangue fresco,
que a terra me não côma vivo,
diz-se às vezes: posso colher os elementos que se movem,
colhê-los, e recolhê-los, e ser movido por eles, e caminhar pés nus
em cima de água,
luz salgada contra o rosto,
quem morre morre só, morre de amor e desamor, ou muito dentro ou
muito fora,
todos os palmos da mão em prática na morte própria
durante quanto tempo a um homem depois de morto lhe crescem unhas e cabelo?
que a terra me não côma vivo,
o sangue, cortem-no cerce e fresco
cortem-me as veias dos pulsos pra que me saibam bem morto,
medo? só que o sangue vibre ainda na garganta
e qualquer mão e meia me encha de terra a boca,
sei de quem se tenha erguido, de pura respiração apenas, do fundo da
madeira,
do saibro, roupa, gôtas de orvalho ou cêra,
ornatos, espadanas, lágrimas,
últimas músicas,
não é como no escuro o trigo que ressuscita,
sei sim de quem despedaçou as tábuas e ficou entre caos e nada com o
sangue alvoroçado nos braços e nas têmporas,
que se não pare nunca entre as matérias intransponíveis,
cortem-me cerce o sangue fresco,
que a terra me não côma vivo,
diz-se às vezes: posso colher os elementos que se movem,
colhê-los, e recolhê-los, e ser movido por eles, e caminhar pés nus
em cima de água,
luz salgada contra o rosto,
quem morre morre só, morre de amor e desamor, ou muito dentro ou
muito fora,
todos os palmos da mão em prática na morte própria
durante quanto tempo a um homem depois de morto lhe crescem unhas e cabelo?
que a terra me não côma vivo,
o sangue, cortem-no cerce e fresco
939
Herberto Helder
23
botou-se à água do rio,
dava-lhe a água pelo umbigo
— ai, que morro de frio!
mas nadava como um peixe:
subiu a üa alta torre,
ai que o pé me foge para o abismo,
quem para aqui me trouxe,
não foi o demo?
já dentro de mim não caibo,
já sou maior que mim mesmo,
vejo a terra em derredor,
mas sinto aqui uma dor
que não sei se é na alma ou no umbigo,
se é por causa da torre,
se é por causa do grande frio
do mundo,
se é por ter estado no alto
e agora estar no fundo,
se por ter estado atado
e agora estar desatado
se por motivos do alto,
se por motivos do baixo,
não tenho nome que me salve,
não sou peixe nem ave,
não subi a üa alta torre,
também não desci ao fundo
das cavernas do mundo —
o que sou eu afinal?
botei-me à água do rio:
não morri de frio nem de sufoco,
botei a avoar,
não cai dos céus como uma pedra,
em mim tudo se enreda
mas não sou louco,
et coetera et coetera,
podia nunca mais acabar
para ir-me dando tempo
a não sei que elemento
que me traria morte e paz:
aqui jaz — quem aqui jaz?
subiu a üa alta torre,
desceu abaixo do pó:
nem vive nem morre,
a terra inteira o enreda:
ora sabe que está só,
ora sente até à merda
a multidão dos irmãos:
ora o alto da torre, ora o baixo da terra,
que tudo acaba, e mal acaba
recomeça
a servidão
dava-lhe a água pelo umbigo
— ai, que morro de frio!
mas nadava como um peixe:
subiu a üa alta torre,
ai que o pé me foge para o abismo,
quem para aqui me trouxe,
não foi o demo?
já dentro de mim não caibo,
já sou maior que mim mesmo,
vejo a terra em derredor,
mas sinto aqui uma dor
que não sei se é na alma ou no umbigo,
se é por causa da torre,
se é por causa do grande frio
do mundo,
se é por ter estado no alto
e agora estar no fundo,
se por ter estado atado
e agora estar desatado
se por motivos do alto,
se por motivos do baixo,
não tenho nome que me salve,
não sou peixe nem ave,
não subi a üa alta torre,
também não desci ao fundo
das cavernas do mundo —
o que sou eu afinal?
botei-me à água do rio:
não morri de frio nem de sufoco,
botei a avoar,
não cai dos céus como uma pedra,
em mim tudo se enreda
mas não sou louco,
et coetera et coetera,
podia nunca mais acabar
para ir-me dando tempo
a não sei que elemento
que me traria morte e paz:
aqui jaz — quem aqui jaz?
subiu a üa alta torre,
desceu abaixo do pó:
nem vive nem morre,
a terra inteira o enreda:
ora sabe que está só,
ora sente até à merda
a multidão dos irmãos:
ora o alto da torre, ora o baixo da terra,
que tudo acaba, e mal acaba
recomeça
a servidão
1 047
Herberto Helder
23
botou-se à água do rio,
dava-lhe a água pelo umbigo
— ai, que morro de frio!
mas nadava como um peixe:
subiu a üa alta torre,
ai que o pé me foge para o abismo,
quem para aqui me trouxe,
não foi o demo?
já dentro de mim não caibo,
já sou maior que mim mesmo,
vejo a terra em derredor,
mas sinto aqui uma dor
que não sei se é na alma ou no umbigo,
se é por causa da torre,
se é por causa do grande frio
do mundo,
se é por ter estado no alto
e agora estar no fundo,
se por ter estado atado
e agora estar desatado
se por motivos do alto,
se por motivos do baixo,
não tenho nome que me salve,
não sou peixe nem ave,
não subi a üa alta torre,
também não desci ao fundo
das cavernas do mundo —
o que sou eu afinal?
botei-me à água do rio:
não morri de frio nem de sufoco,
botei a avoar,
não cai dos céus como uma pedra,
em mim tudo se enreda
mas não sou louco,
et coetera et coetera,
podia nunca mais acabar
para ir-me dando tempo
a não sei que elemento
que me traria morte e paz:
aqui jaz — quem aqui jaz?
subiu a üa alta torre,
desceu abaixo do pó:
nem vive nem morre,
a terra inteira o enreda:
ora sabe que está só,
ora sente até à merda
a multidão dos irmãos:
ora o alto da torre, ora o baixo da terra,
que tudo acaba, e mal acaba
recomeça
a servidão
dava-lhe a água pelo umbigo
— ai, que morro de frio!
mas nadava como um peixe:
subiu a üa alta torre,
ai que o pé me foge para o abismo,
quem para aqui me trouxe,
não foi o demo?
já dentro de mim não caibo,
já sou maior que mim mesmo,
vejo a terra em derredor,
mas sinto aqui uma dor
que não sei se é na alma ou no umbigo,
se é por causa da torre,
se é por causa do grande frio
do mundo,
se é por ter estado no alto
e agora estar no fundo,
se por ter estado atado
e agora estar desatado
se por motivos do alto,
se por motivos do baixo,
não tenho nome que me salve,
não sou peixe nem ave,
não subi a üa alta torre,
também não desci ao fundo
das cavernas do mundo —
o que sou eu afinal?
botei-me à água do rio:
não morri de frio nem de sufoco,
botei a avoar,
não cai dos céus como uma pedra,
em mim tudo se enreda
mas não sou louco,
et coetera et coetera,
podia nunca mais acabar
para ir-me dando tempo
a não sei que elemento
que me traria morte e paz:
aqui jaz — quem aqui jaz?
subiu a üa alta torre,
desceu abaixo do pó:
nem vive nem morre,
a terra inteira o enreda:
ora sabe que está só,
ora sente até à merda
a multidão dos irmãos:
ora o alto da torre, ora o baixo da terra,
que tudo acaba, e mal acaba
recomeça
a servidão
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Herberto Helder
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botou-se à água do rio,
dava-lhe a água pelo umbigo
— ai, que morro de frio!
mas nadava como um peixe:
subiu a üa alta torre,
ai que o pé me foge para o abismo,
quem para aqui me trouxe,
não foi o demo?
já dentro de mim não caibo,
já sou maior que mim mesmo,
vejo a terra em derredor,
mas sinto aqui uma dor
que não sei se é na alma ou no umbigo,
se é por causa da torre,
se é por causa do grande frio
do mundo,
se é por ter estado no alto
e agora estar no fundo,
se por ter estado atado
e agora estar desatado
se por motivos do alto,
se por motivos do baixo,
não tenho nome que me salve,
não sou peixe nem ave,
não subi a üa alta torre,
também não desci ao fundo
das cavernas do mundo —
o que sou eu afinal?
botei-me à água do rio:
não morri de frio nem de sufoco,
botei a avoar,
não cai dos céus como uma pedra,
em mim tudo se enreda
mas não sou louco,
et coetera et coetera,
podia nunca mais acabar
para ir-me dando tempo
a não sei que elemento
que me traria morte e paz:
aqui jaz — quem aqui jaz?
subiu a üa alta torre,
desceu abaixo do pó:
nem vive nem morre,
a terra inteira o enreda:
ora sabe que está só,
ora sente até à merda
a multidão dos irmãos:
ora o alto da torre, ora o baixo da terra,
que tudo acaba, e mal acaba
recomeça
a servidão
dava-lhe a água pelo umbigo
— ai, que morro de frio!
mas nadava como um peixe:
subiu a üa alta torre,
ai que o pé me foge para o abismo,
quem para aqui me trouxe,
não foi o demo?
já dentro de mim não caibo,
já sou maior que mim mesmo,
vejo a terra em derredor,
mas sinto aqui uma dor
que não sei se é na alma ou no umbigo,
se é por causa da torre,
se é por causa do grande frio
do mundo,
se é por ter estado no alto
e agora estar no fundo,
se por ter estado atado
e agora estar desatado
se por motivos do alto,
se por motivos do baixo,
não tenho nome que me salve,
não sou peixe nem ave,
não subi a üa alta torre,
também não desci ao fundo
das cavernas do mundo —
o que sou eu afinal?
botei-me à água do rio:
não morri de frio nem de sufoco,
botei a avoar,
não cai dos céus como uma pedra,
em mim tudo se enreda
mas não sou louco,
et coetera et coetera,
podia nunca mais acabar
para ir-me dando tempo
a não sei que elemento
que me traria morte e paz:
aqui jaz — quem aqui jaz?
subiu a üa alta torre,
desceu abaixo do pó:
nem vive nem morre,
a terra inteira o enreda:
ora sabe que está só,
ora sente até à merda
a multidão dos irmãos:
ora o alto da torre, ora o baixo da terra,
que tudo acaba, e mal acaba
recomeça
a servidão
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Herberto Helder
83
que dos fragmentos arcaicos nos chegam apenas pedaços de ouro
maduro que pulsam no escuro,
e é esse o seu único sentido:
de que não há mais nada:
fogos catódicos, olhos
sem pálpebras,
permanentes,
que nos fixam como se morrêssemos
pela sua beleza
desunida, autónoma, inconclusiva,
e imortal,
mortífera
maduro que pulsam no escuro,
e é esse o seu único sentido:
de que não há mais nada:
fogos catódicos, olhos
sem pálpebras,
permanentes,
que nos fixam como se morrêssemos
pela sua beleza
desunida, autónoma, inconclusiva,
e imortal,
mortífera
746
Herberto Helder
88
a morte está tão atenta à tua força contra ela,
enquanto ávido e acerbo cantas debaixo da água enviada,
,;acaso contes adormecê-la com a música turva?
quem se expõe à água ganha os poderes da nomeação mais simples,
apenas um duche, dizes,
há muito já alguém pediu o mesmo,
que ela recuasse,
ilhargas, ombros, dedos, o movimento dos cabelos,
o corpo solitário,
um canto último fundido ao início do canto,
mas a morte sabe que não há razão nunca,
e quem pede sabe que não pode,
teias de água fecham a tua grande nudez,
e dizes: um duche, apenas um inebriamento,
mas a morte não tem paciência para apurar um dialecto,
nada, só o arroubo táctil onde apoias dor, desequilíbrio e medo
enquanto falas do que nem ela entende,
agarrado à dura
dura
coluna de água
enquanto ávido e acerbo cantas debaixo da água enviada,
,;acaso contes adormecê-la com a música turva?
quem se expõe à água ganha os poderes da nomeação mais simples,
apenas um duche, dizes,
há muito já alguém pediu o mesmo,
que ela recuasse,
ilhargas, ombros, dedos, o movimento dos cabelos,
o corpo solitário,
um canto último fundido ao início do canto,
mas a morte sabe que não há razão nunca,
e quem pede sabe que não pode,
teias de água fecham a tua grande nudez,
e dizes: um duche, apenas um inebriamento,
mas a morte não tem paciência para apurar um dialecto,
nada, só o arroubo táctil onde apoias dor, desequilíbrio e medo
enquanto falas do que nem ela entende,
agarrado à dura
dura
coluna de água
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Herberto Helder
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a morte está tão atenta à tua força contra ela,
enquanto ávido e acerbo cantas debaixo da água enviada,
,;acaso contes adormecê-la com a música turva?
quem se expõe à água ganha os poderes da nomeação mais simples,
apenas um duche, dizes,
há muito já alguém pediu o mesmo,
que ela recuasse,
ilhargas, ombros, dedos, o movimento dos cabelos,
o corpo solitário,
um canto último fundido ao início do canto,
mas a morte sabe que não há razão nunca,
e quem pede sabe que não pode,
teias de água fecham a tua grande nudez,
e dizes: um duche, apenas um inebriamento,
mas a morte não tem paciência para apurar um dialecto,
nada, só o arroubo táctil onde apoias dor, desequilíbrio e medo
enquanto falas do que nem ela entende,
agarrado à dura
dura
coluna de água
enquanto ávido e acerbo cantas debaixo da água enviada,
,;acaso contes adormecê-la com a música turva?
quem se expõe à água ganha os poderes da nomeação mais simples,
apenas um duche, dizes,
há muito já alguém pediu o mesmo,
que ela recuasse,
ilhargas, ombros, dedos, o movimento dos cabelos,
o corpo solitário,
um canto último fundido ao início do canto,
mas a morte sabe que não há razão nunca,
e quem pede sabe que não pode,
teias de água fecham a tua grande nudez,
e dizes: um duche, apenas um inebriamento,
mas a morte não tem paciência para apurar um dialecto,
nada, só o arroubo táctil onde apoias dor, desequilíbrio e medo
enquanto falas do que nem ela entende,
agarrado à dura
dura
coluna de água
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Herberto Helder
73
ata e desata os nós aos dias meteorológicos, dias orais, manuais,
irredimíveis,
mais que sangue agudo da mão à língua,
que fruta acerba desmanchada
entredentes,
oh trabalha-me, intuito
lírico,
por fora esses dias manuais,
por dentro troca tudo meu tão certo secretário assim como um sufôco
ou isso
irredimíveis,
mais que sangue agudo da mão à língua,
que fruta acerba desmanchada
entredentes,
oh trabalha-me, intuito
lírico,
por fora esses dias manuais,
por dentro troca tudo meu tão certo secretário assim como um sufôco
ou isso
1 079
Herberto Helder
17
como de facto dia a dia sinto que morro muito,
melhor é pôr-me de lado quando alguém puxa dos números,
agora parece que já ninguém nasce,
as pessoas agora querem é morrer,
e como não morrem bem porque no esplendor das obras as
compensações são baixas,
procuram a morte módica,
vão todos juntos para as praias onde não há socorristas,
praias do inferno sem nenhuma salvação,
às vezes marcam-se encontros nos apogeus dessas tardes
desmedidas,
e quando lá chegam já vomitam os bofes,
nestes lugares não há sombras que nos valham,
estes lugares, diz alguém, nem precisam ser simbólicos,
o poema agora por exemplo não tem simbolismo nenhum,
morro dentro dele sem força para respirar,
toda a gente a caminho das praias culminantes,
toda a gente calada com medo que a praia se tenha ido embora,
coisa única do paraíso, pensa ele,
é saber que nem o inferno nem o paraíso podem mudar de
condição e sítio,
estátuas gregas nuas sem ponta de excitação, apenas
solenes anúncios de churrascos,
a morte não salva nada: começamos pelo menos a entender
a cultura que nos sufoca,
eu pelo menos deito os pulmões boca fora,
mas de repente alguém diz: contudo,
diz: contudo já se inventou o ar condicionado
(o ar condicionado na praia?)
e a maravilha demoníaca desmorona-se,
e outra vez: pai pai porque me abandonas?
nenhum mito se cumpre,
ninguém ainda acredita nos poderes sequer de erudição menos
inexpugnável,
nem o capítulo do amor quando ela vem vindo diuturna com fruta
à escolha nas duas mãos.
anda como quem dança, o cabelo apartado ao meio,
vista de todos os ângulos como no cinema,
magnificamente manobrada por esta luz não assim tão lenta que
nos há-de a todos devorar,
não, não me abandonaste,
as tuas mãos abundantes congeminam milagres atrás de milagres
ah enfim alguma coisa muito límpida,
introduz aqui o capítulo infernal por todos os lados,
o meu fato de banho não tem bolsos,
pai, pai, porque me abandonas com a ironia em fato de banho,
e a areia, e a luz, e o iodo, e essa água toda,
como se o inferno fosse alegria apenas,
em setembro,
corpos mais nus do que se não tivessem fato de banho
melhor é pôr-me de lado quando alguém puxa dos números,
agora parece que já ninguém nasce,
as pessoas agora querem é morrer,
e como não morrem bem porque no esplendor das obras as
compensações são baixas,
procuram a morte módica,
vão todos juntos para as praias onde não há socorristas,
praias do inferno sem nenhuma salvação,
às vezes marcam-se encontros nos apogeus dessas tardes
desmedidas,
e quando lá chegam já vomitam os bofes,
nestes lugares não há sombras que nos valham,
estes lugares, diz alguém, nem precisam ser simbólicos,
o poema agora por exemplo não tem simbolismo nenhum,
morro dentro dele sem força para respirar,
toda a gente a caminho das praias culminantes,
toda a gente calada com medo que a praia se tenha ido embora,
coisa única do paraíso, pensa ele,
é saber que nem o inferno nem o paraíso podem mudar de
condição e sítio,
estátuas gregas nuas sem ponta de excitação, apenas
solenes anúncios de churrascos,
a morte não salva nada: começamos pelo menos a entender
a cultura que nos sufoca,
eu pelo menos deito os pulmões boca fora,
mas de repente alguém diz: contudo,
diz: contudo já se inventou o ar condicionado
(o ar condicionado na praia?)
e a maravilha demoníaca desmorona-se,
e outra vez: pai pai porque me abandonas?
nenhum mito se cumpre,
ninguém ainda acredita nos poderes sequer de erudição menos
inexpugnável,
nem o capítulo do amor quando ela vem vindo diuturna com fruta
à escolha nas duas mãos.
anda como quem dança, o cabelo apartado ao meio,
vista de todos os ângulos como no cinema,
magnificamente manobrada por esta luz não assim tão lenta que
nos há-de a todos devorar,
não, não me abandonaste,
as tuas mãos abundantes congeminam milagres atrás de milagres
ah enfim alguma coisa muito límpida,
introduz aqui o capítulo infernal por todos os lados,
o meu fato de banho não tem bolsos,
pai, pai, porque me abandonas com a ironia em fato de banho,
e a areia, e a luz, e o iodo, e essa água toda,
como se o inferno fosse alegria apenas,
em setembro,
corpos mais nus do que se não tivessem fato de banho
592
Herberto Helder
17
como de facto dia a dia sinto que morro muito,
melhor é pôr-me de lado quando alguém puxa dos números,
agora parece que já ninguém nasce,
as pessoas agora querem é morrer,
e como não morrem bem porque no esplendor das obras as
compensações são baixas,
procuram a morte módica,
vão todos juntos para as praias onde não há socorristas,
praias do inferno sem nenhuma salvação,
às vezes marcam-se encontros nos apogeus dessas tardes
desmedidas,
e quando lá chegam já vomitam os bofes,
nestes lugares não há sombras que nos valham,
estes lugares, diz alguém, nem precisam ser simbólicos,
o poema agora por exemplo não tem simbolismo nenhum,
morro dentro dele sem força para respirar,
toda a gente a caminho das praias culminantes,
toda a gente calada com medo que a praia se tenha ido embora,
coisa única do paraíso, pensa ele,
é saber que nem o inferno nem o paraíso podem mudar de
condição e sítio,
estátuas gregas nuas sem ponta de excitação, apenas
solenes anúncios de churrascos,
a morte não salva nada: começamos pelo menos a entender
a cultura que nos sufoca,
eu pelo menos deito os pulmões boca fora,
mas de repente alguém diz: contudo,
diz: contudo já se inventou o ar condicionado
(o ar condicionado na praia?)
e a maravilha demoníaca desmorona-se,
e outra vez: pai pai porque me abandonas?
nenhum mito se cumpre,
ninguém ainda acredita nos poderes sequer de erudição menos
inexpugnável,
nem o capítulo do amor quando ela vem vindo diuturna com fruta
à escolha nas duas mãos.
anda como quem dança, o cabelo apartado ao meio,
vista de todos os ângulos como no cinema,
magnificamente manobrada por esta luz não assim tão lenta que
nos há-de a todos devorar,
não, não me abandonaste,
as tuas mãos abundantes congeminam milagres atrás de milagres
ah enfim alguma coisa muito límpida,
introduz aqui o capítulo infernal por todos os lados,
o meu fato de banho não tem bolsos,
pai, pai, porque me abandonas com a ironia em fato de banho,
e a areia, e a luz, e o iodo, e essa água toda,
como se o inferno fosse alegria apenas,
em setembro,
corpos mais nus do que se não tivessem fato de banho
melhor é pôr-me de lado quando alguém puxa dos números,
agora parece que já ninguém nasce,
as pessoas agora querem é morrer,
e como não morrem bem porque no esplendor das obras as
compensações são baixas,
procuram a morte módica,
vão todos juntos para as praias onde não há socorristas,
praias do inferno sem nenhuma salvação,
às vezes marcam-se encontros nos apogeus dessas tardes
desmedidas,
e quando lá chegam já vomitam os bofes,
nestes lugares não há sombras que nos valham,
estes lugares, diz alguém, nem precisam ser simbólicos,
o poema agora por exemplo não tem simbolismo nenhum,
morro dentro dele sem força para respirar,
toda a gente a caminho das praias culminantes,
toda a gente calada com medo que a praia se tenha ido embora,
coisa única do paraíso, pensa ele,
é saber que nem o inferno nem o paraíso podem mudar de
condição e sítio,
estátuas gregas nuas sem ponta de excitação, apenas
solenes anúncios de churrascos,
a morte não salva nada: começamos pelo menos a entender
a cultura que nos sufoca,
eu pelo menos deito os pulmões boca fora,
mas de repente alguém diz: contudo,
diz: contudo já se inventou o ar condicionado
(o ar condicionado na praia?)
e a maravilha demoníaca desmorona-se,
e outra vez: pai pai porque me abandonas?
nenhum mito se cumpre,
ninguém ainda acredita nos poderes sequer de erudição menos
inexpugnável,
nem o capítulo do amor quando ela vem vindo diuturna com fruta
à escolha nas duas mãos.
anda como quem dança, o cabelo apartado ao meio,
vista de todos os ângulos como no cinema,
magnificamente manobrada por esta luz não assim tão lenta que
nos há-de a todos devorar,
não, não me abandonaste,
as tuas mãos abundantes congeminam milagres atrás de milagres
ah enfim alguma coisa muito límpida,
introduz aqui o capítulo infernal por todos os lados,
o meu fato de banho não tem bolsos,
pai, pai, porque me abandonas com a ironia em fato de banho,
e a areia, e a luz, e o iodo, e essa água toda,
como se o inferno fosse alegria apenas,
em setembro,
corpos mais nus do que se não tivessem fato de banho
592
Herberto Helder
22
a burro velho dê - se -lhe uma pouca de palha velha
e uma pouca de água turva,
e como fica jovem de repente durante cinco minutos!
dê-se-lhe isso por amor do Cristo, que ele faz logo o trilho todo e
agradece muito,
Deus zela de facto pelos servidores,
e o Cristo, patrono deles, é o filho de seu pai,
tudo concorde com as genealogias celestes e suas sombras na terra,
ó pai nosso que estás nos céus, alô, daqui fala da terra ingrata,
só tu é que exerces a piedade magnânima sobre nós,
vozes de burro não chegam ao céu, dizem eles,
eles,
os mestres inflexíveis e eficazes,
Cristo foi uma espécie de marxista-leninista mas com alguns
escrúpulos extra-partidários,
esteve preso por incitamento à rebelião popular contra o regime,
por fomentação de grupúsculos revoltosos,
por palavras e obras fora da lei,
cometeu prodígios marginais tais como:
a) prática ilegal da medicina com alegadas curas fraudulentas:
um morto levantou-se e pôs-se a caminhar e a falar
como se estivesse comerciável
b) anunciou que o pai dele estava acima dos códigos do mundo
c) que ele próprio ia pagar com a vida por essas outras razões, mas
que logo ressuscitaria e depois é que todos veriam como
tudo ia fiar mais fino
d) e então sussurrou: um de vós me trairá, e então olharam
todos uns para os os outros a ver onde haveria algum
sinal nefando, mas nenhum deles sentiu em si mesmo
qualquer anúncio de crime e culpa,
depois foram dali dar uma volta fora de muros e, cansados
de palavras e passeios, deitaram-se debaixo de umas
oliveiras, e adormeceram, límpidos e vazios como os
desertos derredor,
e toda esta história acabou bastante mal, como aliás acabam
todas as histórias de grupo:
e um deles disse que não, não senhores, ele cá não sabia nada
dessa cabala de mestre e discípulos, nem participara em
reuniões clandestinas, nem queria derrubar o regime,
etc. e tal, o costume,
e todos os outros, de uma ou outra maneira, lhe seguiram o
exemplo,
enfim, baldaram-se como puderam,
e sinceramente pensavam: somos todos uns pobres pescadores
a vida é dura, este gajo até parece porreiro, mas também
parece um bocado fala-
-barato, e esta história de grupinhos marginais, e de
acreditar que depois o poder vai-nos cair nas mãos,
e os fracos e subjugados serão os fortes escolhidos do
futuro, essa história já a gente ouviu na União Soviética,
etc., e depois soube-se como afinal tudo aquilo era:
desaparecimentos inexplicáveis, goulagues, anos depois
alguns raros sobreviventes a escrever como acontecera, i
o que acontecera fora incrivelmente péssimo,
e depois veio o 35 de abril, cravos vermelhos, Grândola
vila morena, e o povo é quem mais ordena, e então
aparecem em toda a parte uns gajos que, faz favor, era a
eito, desde o Cristo Cunhal até ao Jotinha: o meu reino é
para já;
foda-se
vou-me embora pra Pasárgada, disse então o Manuel Bandeira;
quanto a mim, não me interessa ter a filha do rei; com a minha
idade já se não arrisca nada por uma aventura sexual
minada por tantas dúvidas ideológicas
(e tantas turvas aventuras da prática poética)
e, enfim, vinha isto a propósito de um pobre burro velho que
viu, mirabilia!, de repente melhorada a ração de palha
seca e água ambígua; e
Pai, Pai, porque me abandonaste?
e já não sei em que edição vai este romance que nem tem a
apoiá-lo o prémio Nobel, coisa que principiou logo
assim: ganhou-o (1901), contra Tolstoi, umtalSully
Prudhomme,
e mais uma vez: Eli, Eli, lamna sabachthani —
ou: Vou-me embora pra Pasárgada —
e aqui jaz, acomodado, oitenta e três, parece que pelo menos
sem grandes achaques físicos, o todo vosso burro com
palha pouca e fora de uso, quer dizer: uma reforma de
pilha-galinhas e poeticamente enterrado vivo, e sem
poder visível e sem contacto com o invisível, o burro sim
com O nome a fogo na testa: eu sou apenas deste mundo,
isto é: estou praticamente morto, mas todo vosso:
nenhures é o meu pouso.
Esta é a minha elegia.
A Elegia de um Burro.
e uma pouca de água turva,
e como fica jovem de repente durante cinco minutos!
dê-se-lhe isso por amor do Cristo, que ele faz logo o trilho todo e
agradece muito,
Deus zela de facto pelos servidores,
e o Cristo, patrono deles, é o filho de seu pai,
tudo concorde com as genealogias celestes e suas sombras na terra,
ó pai nosso que estás nos céus, alô, daqui fala da terra ingrata,
só tu é que exerces a piedade magnânima sobre nós,
vozes de burro não chegam ao céu, dizem eles,
eles,
os mestres inflexíveis e eficazes,
Cristo foi uma espécie de marxista-leninista mas com alguns
escrúpulos extra-partidários,
esteve preso por incitamento à rebelião popular contra o regime,
por fomentação de grupúsculos revoltosos,
por palavras e obras fora da lei,
cometeu prodígios marginais tais como:
a) prática ilegal da medicina com alegadas curas fraudulentas:
um morto levantou-se e pôs-se a caminhar e a falar
como se estivesse comerciável
b) anunciou que o pai dele estava acima dos códigos do mundo
c) que ele próprio ia pagar com a vida por essas outras razões, mas
que logo ressuscitaria e depois é que todos veriam como
tudo ia fiar mais fino
d) e então sussurrou: um de vós me trairá, e então olharam
todos uns para os os outros a ver onde haveria algum
sinal nefando, mas nenhum deles sentiu em si mesmo
qualquer anúncio de crime e culpa,
depois foram dali dar uma volta fora de muros e, cansados
de palavras e passeios, deitaram-se debaixo de umas
oliveiras, e adormeceram, límpidos e vazios como os
desertos derredor,
e toda esta história acabou bastante mal, como aliás acabam
todas as histórias de grupo:
e um deles disse que não, não senhores, ele cá não sabia nada
dessa cabala de mestre e discípulos, nem participara em
reuniões clandestinas, nem queria derrubar o regime,
etc. e tal, o costume,
e todos os outros, de uma ou outra maneira, lhe seguiram o
exemplo,
enfim, baldaram-se como puderam,
e sinceramente pensavam: somos todos uns pobres pescadores
a vida é dura, este gajo até parece porreiro, mas também
parece um bocado fala-
-barato, e esta história de grupinhos marginais, e de
acreditar que depois o poder vai-nos cair nas mãos,
e os fracos e subjugados serão os fortes escolhidos do
futuro, essa história já a gente ouviu na União Soviética,
etc., e depois soube-se como afinal tudo aquilo era:
desaparecimentos inexplicáveis, goulagues, anos depois
alguns raros sobreviventes a escrever como acontecera, i
o que acontecera fora incrivelmente péssimo,
e depois veio o 35 de abril, cravos vermelhos, Grândola
vila morena, e o povo é quem mais ordena, e então
aparecem em toda a parte uns gajos que, faz favor, era a
eito, desde o Cristo Cunhal até ao Jotinha: o meu reino é
para já;
foda-se
vou-me embora pra Pasárgada, disse então o Manuel Bandeira;
quanto a mim, não me interessa ter a filha do rei; com a minha
idade já se não arrisca nada por uma aventura sexual
minada por tantas dúvidas ideológicas
(e tantas turvas aventuras da prática poética)
e, enfim, vinha isto a propósito de um pobre burro velho que
viu, mirabilia!, de repente melhorada a ração de palha
seca e água ambígua; e
Pai, Pai, porque me abandonaste?
e já não sei em que edição vai este romance que nem tem a
apoiá-lo o prémio Nobel, coisa que principiou logo
assim: ganhou-o (1901), contra Tolstoi, umtalSully
Prudhomme,
e mais uma vez: Eli, Eli, lamna sabachthani —
ou: Vou-me embora pra Pasárgada —
e aqui jaz, acomodado, oitenta e três, parece que pelo menos
sem grandes achaques físicos, o todo vosso burro com
palha pouca e fora de uso, quer dizer: uma reforma de
pilha-galinhas e poeticamente enterrado vivo, e sem
poder visível e sem contacto com o invisível, o burro sim
com O nome a fogo na testa: eu sou apenas deste mundo,
isto é: estou praticamente morto, mas todo vosso:
nenhures é o meu pouso.
Esta é a minha elegia.
A Elegia de um Burro.
772
Herberto Helder
22
a burro velho dê - se -lhe uma pouca de palha velha
e uma pouca de água turva,
e como fica jovem de repente durante cinco minutos!
dê-se-lhe isso por amor do Cristo, que ele faz logo o trilho todo e
agradece muito,
Deus zela de facto pelos servidores,
e o Cristo, patrono deles, é o filho de seu pai,
tudo concorde com as genealogias celestes e suas sombras na terra,
ó pai nosso que estás nos céus, alô, daqui fala da terra ingrata,
só tu é que exerces a piedade magnânima sobre nós,
vozes de burro não chegam ao céu, dizem eles,
eles,
os mestres inflexíveis e eficazes,
Cristo foi uma espécie de marxista-leninista mas com alguns
escrúpulos extra-partidários,
esteve preso por incitamento à rebelião popular contra o regime,
por fomentação de grupúsculos revoltosos,
por palavras e obras fora da lei,
cometeu prodígios marginais tais como:
a) prática ilegal da medicina com alegadas curas fraudulentas:
um morto levantou-se e pôs-se a caminhar e a falar
como se estivesse comerciável
b) anunciou que o pai dele estava acima dos códigos do mundo
c) que ele próprio ia pagar com a vida por essas outras razões, mas
que logo ressuscitaria e depois é que todos veriam como
tudo ia fiar mais fino
d) e então sussurrou: um de vós me trairá, e então olharam
todos uns para os os outros a ver onde haveria algum
sinal nefando, mas nenhum deles sentiu em si mesmo
qualquer anúncio de crime e culpa,
depois foram dali dar uma volta fora de muros e, cansados
de palavras e passeios, deitaram-se debaixo de umas
oliveiras, e adormeceram, límpidos e vazios como os
desertos derredor,
e toda esta história acabou bastante mal, como aliás acabam
todas as histórias de grupo:
e um deles disse que não, não senhores, ele cá não sabia nada
dessa cabala de mestre e discípulos, nem participara em
reuniões clandestinas, nem queria derrubar o regime,
etc. e tal, o costume,
e todos os outros, de uma ou outra maneira, lhe seguiram o
exemplo,
enfim, baldaram-se como puderam,
e sinceramente pensavam: somos todos uns pobres pescadores
a vida é dura, este gajo até parece porreiro, mas também
parece um bocado fala-
-barato, e esta história de grupinhos marginais, e de
acreditar que depois o poder vai-nos cair nas mãos,
e os fracos e subjugados serão os fortes escolhidos do
futuro, essa história já a gente ouviu na União Soviética,
etc., e depois soube-se como afinal tudo aquilo era:
desaparecimentos inexplicáveis, goulagues, anos depois
alguns raros sobreviventes a escrever como acontecera, i
o que acontecera fora incrivelmente péssimo,
e depois veio o 35 de abril, cravos vermelhos, Grândola
vila morena, e o povo é quem mais ordena, e então
aparecem em toda a parte uns gajos que, faz favor, era a
eito, desde o Cristo Cunhal até ao Jotinha: o meu reino é
para já;
foda-se
vou-me embora pra Pasárgada, disse então o Manuel Bandeira;
quanto a mim, não me interessa ter a filha do rei; com a minha
idade já se não arrisca nada por uma aventura sexual
minada por tantas dúvidas ideológicas
(e tantas turvas aventuras da prática poética)
e, enfim, vinha isto a propósito de um pobre burro velho que
viu, mirabilia!, de repente melhorada a ração de palha
seca e água ambígua; e
Pai, Pai, porque me abandonaste?
e já não sei em que edição vai este romance que nem tem a
apoiá-lo o prémio Nobel, coisa que principiou logo
assim: ganhou-o (1901), contra Tolstoi, umtalSully
Prudhomme,
e mais uma vez: Eli, Eli, lamna sabachthani —
ou: Vou-me embora pra Pasárgada —
e aqui jaz, acomodado, oitenta e três, parece que pelo menos
sem grandes achaques físicos, o todo vosso burro com
palha pouca e fora de uso, quer dizer: uma reforma de
pilha-galinhas e poeticamente enterrado vivo, e sem
poder visível e sem contacto com o invisível, o burro sim
com O nome a fogo na testa: eu sou apenas deste mundo,
isto é: estou praticamente morto, mas todo vosso:
nenhures é o meu pouso.
Esta é a minha elegia.
A Elegia de um Burro.
e uma pouca de água turva,
e como fica jovem de repente durante cinco minutos!
dê-se-lhe isso por amor do Cristo, que ele faz logo o trilho todo e
agradece muito,
Deus zela de facto pelos servidores,
e o Cristo, patrono deles, é o filho de seu pai,
tudo concorde com as genealogias celestes e suas sombras na terra,
ó pai nosso que estás nos céus, alô, daqui fala da terra ingrata,
só tu é que exerces a piedade magnânima sobre nós,
vozes de burro não chegam ao céu, dizem eles,
eles,
os mestres inflexíveis e eficazes,
Cristo foi uma espécie de marxista-leninista mas com alguns
escrúpulos extra-partidários,
esteve preso por incitamento à rebelião popular contra o regime,
por fomentação de grupúsculos revoltosos,
por palavras e obras fora da lei,
cometeu prodígios marginais tais como:
a) prática ilegal da medicina com alegadas curas fraudulentas:
um morto levantou-se e pôs-se a caminhar e a falar
como se estivesse comerciável
b) anunciou que o pai dele estava acima dos códigos do mundo
c) que ele próprio ia pagar com a vida por essas outras razões, mas
que logo ressuscitaria e depois é que todos veriam como
tudo ia fiar mais fino
d) e então sussurrou: um de vós me trairá, e então olharam
todos uns para os os outros a ver onde haveria algum
sinal nefando, mas nenhum deles sentiu em si mesmo
qualquer anúncio de crime e culpa,
depois foram dali dar uma volta fora de muros e, cansados
de palavras e passeios, deitaram-se debaixo de umas
oliveiras, e adormeceram, límpidos e vazios como os
desertos derredor,
e toda esta história acabou bastante mal, como aliás acabam
todas as histórias de grupo:
e um deles disse que não, não senhores, ele cá não sabia nada
dessa cabala de mestre e discípulos, nem participara em
reuniões clandestinas, nem queria derrubar o regime,
etc. e tal, o costume,
e todos os outros, de uma ou outra maneira, lhe seguiram o
exemplo,
enfim, baldaram-se como puderam,
e sinceramente pensavam: somos todos uns pobres pescadores
a vida é dura, este gajo até parece porreiro, mas também
parece um bocado fala-
-barato, e esta história de grupinhos marginais, e de
acreditar que depois o poder vai-nos cair nas mãos,
e os fracos e subjugados serão os fortes escolhidos do
futuro, essa história já a gente ouviu na União Soviética,
etc., e depois soube-se como afinal tudo aquilo era:
desaparecimentos inexplicáveis, goulagues, anos depois
alguns raros sobreviventes a escrever como acontecera, i
o que acontecera fora incrivelmente péssimo,
e depois veio o 35 de abril, cravos vermelhos, Grândola
vila morena, e o povo é quem mais ordena, e então
aparecem em toda a parte uns gajos que, faz favor, era a
eito, desde o Cristo Cunhal até ao Jotinha: o meu reino é
para já;
foda-se
vou-me embora pra Pasárgada, disse então o Manuel Bandeira;
quanto a mim, não me interessa ter a filha do rei; com a minha
idade já se não arrisca nada por uma aventura sexual
minada por tantas dúvidas ideológicas
(e tantas turvas aventuras da prática poética)
e, enfim, vinha isto a propósito de um pobre burro velho que
viu, mirabilia!, de repente melhorada a ração de palha
seca e água ambígua; e
Pai, Pai, porque me abandonaste?
e já não sei em que edição vai este romance que nem tem a
apoiá-lo o prémio Nobel, coisa que principiou logo
assim: ganhou-o (1901), contra Tolstoi, umtalSully
Prudhomme,
e mais uma vez: Eli, Eli, lamna sabachthani —
ou: Vou-me embora pra Pasárgada —
e aqui jaz, acomodado, oitenta e três, parece que pelo menos
sem grandes achaques físicos, o todo vosso burro com
palha pouca e fora de uso, quer dizer: uma reforma de
pilha-galinhas e poeticamente enterrado vivo, e sem
poder visível e sem contacto com o invisível, o burro sim
com O nome a fogo na testa: eu sou apenas deste mundo,
isto é: estou praticamente morto, mas todo vosso:
nenhures é o meu pouso.
Esta é a minha elegia.
A Elegia de um Burro.
772
Herberto Helder
76
no ar vibram as colinas desse tempo, colinas
amarelas, vibram do chão
de onde se erguiam, o chão cruzam-no às cegas linhas
para cima: frias,
cruas fruticulturas, esse tempo que ponho agora sobre a mesa
não tem nada: nem colinas nem vibração, e o ar
está na cabeça, as colinas respiram
nela, a seiva onde se apoia a mesa,
a mão onde o sangue se apoia,
movem-se, alumiam-se,
o ar foi de outro dia, colinas nem sei se as houve, a seiva escoa-se,
mas estas coisas idas,
divididas, unem-se na frase cheia
de atmosfera,
e no tamanho da luz no papel, na mesa, agora, leio
a concordância do que não era, as colinas
desses dias trémulos e entreabertos,
e a madeira soprada: colinas
escritas, potentes, exímias, amarelas
amarelas, vibram do chão
de onde se erguiam, o chão cruzam-no às cegas linhas
para cima: frias,
cruas fruticulturas, esse tempo que ponho agora sobre a mesa
não tem nada: nem colinas nem vibração, e o ar
está na cabeça, as colinas respiram
nela, a seiva onde se apoia a mesa,
a mão onde o sangue se apoia,
movem-se, alumiam-se,
o ar foi de outro dia, colinas nem sei se as houve, a seiva escoa-se,
mas estas coisas idas,
divididas, unem-se na frase cheia
de atmosfera,
e no tamanho da luz no papel, na mesa, agora, leio
a concordância do que não era, as colinas
desses dias trémulos e entreabertos,
e a madeira soprada: colinas
escritas, potentes, exímias, amarelas
1 168
Herberto Helder
76
no ar vibram as colinas desse tempo, colinas
amarelas, vibram do chão
de onde se erguiam, o chão cruzam-no às cegas linhas
para cima: frias,
cruas fruticulturas, esse tempo que ponho agora sobre a mesa
não tem nada: nem colinas nem vibração, e o ar
está na cabeça, as colinas respiram
nela, a seiva onde se apoia a mesa,
a mão onde o sangue se apoia,
movem-se, alumiam-se,
o ar foi de outro dia, colinas nem sei se as houve, a seiva escoa-se,
mas estas coisas idas,
divididas, unem-se na frase cheia
de atmosfera,
e no tamanho da luz no papel, na mesa, agora, leio
a concordância do que não era, as colinas
desses dias trémulos e entreabertos,
e a madeira soprada: colinas
escritas, potentes, exímias, amarelas
amarelas, vibram do chão
de onde se erguiam, o chão cruzam-no às cegas linhas
para cima: frias,
cruas fruticulturas, esse tempo que ponho agora sobre a mesa
não tem nada: nem colinas nem vibração, e o ar
está na cabeça, as colinas respiram
nela, a seiva onde se apoia a mesa,
a mão onde o sangue se apoia,
movem-se, alumiam-se,
o ar foi de outro dia, colinas nem sei se as houve, a seiva escoa-se,
mas estas coisas idas,
divididas, unem-se na frase cheia
de atmosfera,
e no tamanho da luz no papel, na mesa, agora, leio
a concordância do que não era, as colinas
desses dias trémulos e entreabertos,
e a madeira soprada: colinas
escritas, potentes, exímias, amarelas
1 168
Herberto Helder
89
a vida inteira para fundar um poema,
a pulso,
um só, arterial, com abrasadura,
que ao dizê-lo os dentes firam a língua,
que o idioma se fira na boca inábil que o diga,
só quase pressentimento fonético,
filológico,
mas que atenção, paixão, alumiação
e se me tocam na boca?
de noite, a mexer na seda para, desdobrando-se,
a noite extraterrestre bruxulear um pouco,
o último,
assim como que húmido, animal, intuitivo, de origem,
papel de seda que a rútila força lírica rompa,
um arrepio dentro dele,
batido, pode ser, no sombrio, como se avara enflorasse com as faúlhas
e assim a mão escrita se depura,
e se movem, estria atrás de estria, pontos voltaicos,
manchas ultravioletas a arder através do filme,
leve poema técnico e trémulo,
linhas e linhas,
línguas,
obra-prima do êxtase das línguas,
tudo movido virgem,
e eu que tenho a meu cargo delicadeza e inebriamento
tenho acaso no nome o inominável?
mão batida, curta, sem estudo, maravilhada apenas,
nada a ver com luminotecnia prática ou teórica,
mas com grandes mãos, e eu brilhei,
o meu nome brilhou entrando na frase inconsútil,
e depois o ar, e os objectos que ocorrem: onde?
fora? dentro?
no aparte,
no mais vidrado,
no avêsso,
no sistema demoroso do bicho interrompido na seda,
fibra lavrada sangrando,
uma qualquer arte intrépida por uma espécie de pilha eléctrica
como alma: plenitude,
através de um truque:
os dedos com uma, suponhamos, estrela que se entorna sobre a mesa,
poema trabalhado a energia alternativa,
a fervor e ofício,
enquanto a morte come onde me pode a vida toda
a pulso,
um só, arterial, com abrasadura,
que ao dizê-lo os dentes firam a língua,
que o idioma se fira na boca inábil que o diga,
só quase pressentimento fonético,
filológico,
mas que atenção, paixão, alumiação
e se me tocam na boca?
de noite, a mexer na seda para, desdobrando-se,
a noite extraterrestre bruxulear um pouco,
o último,
assim como que húmido, animal, intuitivo, de origem,
papel de seda que a rútila força lírica rompa,
um arrepio dentro dele,
batido, pode ser, no sombrio, como se avara enflorasse com as faúlhas
e assim a mão escrita se depura,
e se movem, estria atrás de estria, pontos voltaicos,
manchas ultravioletas a arder através do filme,
leve poema técnico e trémulo,
linhas e linhas,
línguas,
obra-prima do êxtase das línguas,
tudo movido virgem,
e eu que tenho a meu cargo delicadeza e inebriamento
tenho acaso no nome o inominável?
mão batida, curta, sem estudo, maravilhada apenas,
nada a ver com luminotecnia prática ou teórica,
mas com grandes mãos, e eu brilhei,
o meu nome brilhou entrando na frase inconsútil,
e depois o ar, e os objectos que ocorrem: onde?
fora? dentro?
no aparte,
no mais vidrado,
no avêsso,
no sistema demoroso do bicho interrompido na seda,
fibra lavrada sangrando,
uma qualquer arte intrépida por uma espécie de pilha eléctrica
como alma: plenitude,
através de um truque:
os dedos com uma, suponhamos, estrela que se entorna sobre a mesa,
poema trabalhado a energia alternativa,
a fervor e ofício,
enquanto a morte come onde me pode a vida toda
650
Herberto Helder
89
a vida inteira para fundar um poema,
a pulso,
um só, arterial, com abrasadura,
que ao dizê-lo os dentes firam a língua,
que o idioma se fira na boca inábil que o diga,
só quase pressentimento fonético,
filológico,
mas que atenção, paixão, alumiação
e se me tocam na boca?
de noite, a mexer na seda para, desdobrando-se,
a noite extraterrestre bruxulear um pouco,
o último,
assim como que húmido, animal, intuitivo, de origem,
papel de seda que a rútila força lírica rompa,
um arrepio dentro dele,
batido, pode ser, no sombrio, como se avara enflorasse com as faúlhas
e assim a mão escrita se depura,
e se movem, estria atrás de estria, pontos voltaicos,
manchas ultravioletas a arder através do filme,
leve poema técnico e trémulo,
linhas e linhas,
línguas,
obra-prima do êxtase das línguas,
tudo movido virgem,
e eu que tenho a meu cargo delicadeza e inebriamento
tenho acaso no nome o inominável?
mão batida, curta, sem estudo, maravilhada apenas,
nada a ver com luminotecnia prática ou teórica,
mas com grandes mãos, e eu brilhei,
o meu nome brilhou entrando na frase inconsútil,
e depois o ar, e os objectos que ocorrem: onde?
fora? dentro?
no aparte,
no mais vidrado,
no avêsso,
no sistema demoroso do bicho interrompido na seda,
fibra lavrada sangrando,
uma qualquer arte intrépida por uma espécie de pilha eléctrica
como alma: plenitude,
através de um truque:
os dedos com uma, suponhamos, estrela que se entorna sobre a mesa,
poema trabalhado a energia alternativa,
a fervor e ofício,
enquanto a morte come onde me pode a vida toda
a pulso,
um só, arterial, com abrasadura,
que ao dizê-lo os dentes firam a língua,
que o idioma se fira na boca inábil que o diga,
só quase pressentimento fonético,
filológico,
mas que atenção, paixão, alumiação
e se me tocam na boca?
de noite, a mexer na seda para, desdobrando-se,
a noite extraterrestre bruxulear um pouco,
o último,
assim como que húmido, animal, intuitivo, de origem,
papel de seda que a rútila força lírica rompa,
um arrepio dentro dele,
batido, pode ser, no sombrio, como se avara enflorasse com as faúlhas
e assim a mão escrita se depura,
e se movem, estria atrás de estria, pontos voltaicos,
manchas ultravioletas a arder através do filme,
leve poema técnico e trémulo,
linhas e linhas,
línguas,
obra-prima do êxtase das línguas,
tudo movido virgem,
e eu que tenho a meu cargo delicadeza e inebriamento
tenho acaso no nome o inominável?
mão batida, curta, sem estudo, maravilhada apenas,
nada a ver com luminotecnia prática ou teórica,
mas com grandes mãos, e eu brilhei,
o meu nome brilhou entrando na frase inconsútil,
e depois o ar, e os objectos que ocorrem: onde?
fora? dentro?
no aparte,
no mais vidrado,
no avêsso,
no sistema demoroso do bicho interrompido na seda,
fibra lavrada sangrando,
uma qualquer arte intrépida por uma espécie de pilha eléctrica
como alma: plenitude,
através de um truque:
os dedos com uma, suponhamos, estrela que se entorna sobre a mesa,
poema trabalhado a energia alternativa,
a fervor e ofício,
enquanto a morte come onde me pode a vida toda
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Herberto Helder
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a vida inteira para fundar um poema,
a pulso,
um só, arterial, com abrasadura,
que ao dizê-lo os dentes firam a língua,
que o idioma se fira na boca inábil que o diga,
só quase pressentimento fonético,
filológico,
mas que atenção, paixão, alumiação
e se me tocam na boca?
de noite, a mexer na seda para, desdobrando-se,
a noite extraterrestre bruxulear um pouco,
o último,
assim como que húmido, animal, intuitivo, de origem,
papel de seda que a rútila força lírica rompa,
um arrepio dentro dele,
batido, pode ser, no sombrio, como se avara enflorasse com as faúlhas
e assim a mão escrita se depura,
e se movem, estria atrás de estria, pontos voltaicos,
manchas ultravioletas a arder através do filme,
leve poema técnico e trémulo,
linhas e linhas,
línguas,
obra-prima do êxtase das línguas,
tudo movido virgem,
e eu que tenho a meu cargo delicadeza e inebriamento
tenho acaso no nome o inominável?
mão batida, curta, sem estudo, maravilhada apenas,
nada a ver com luminotecnia prática ou teórica,
mas com grandes mãos, e eu brilhei,
o meu nome brilhou entrando na frase inconsútil,
e depois o ar, e os objectos que ocorrem: onde?
fora? dentro?
no aparte,
no mais vidrado,
no avêsso,
no sistema demoroso do bicho interrompido na seda,
fibra lavrada sangrando,
uma qualquer arte intrépida por uma espécie de pilha eléctrica
como alma: plenitude,
através de um truque:
os dedos com uma, suponhamos, estrela que se entorna sobre a mesa,
poema trabalhado a energia alternativa,
a fervor e ofício,
enquanto a morte come onde me pode a vida toda
a pulso,
um só, arterial, com abrasadura,
que ao dizê-lo os dentes firam a língua,
que o idioma se fira na boca inábil que o diga,
só quase pressentimento fonético,
filológico,
mas que atenção, paixão, alumiação
e se me tocam na boca?
de noite, a mexer na seda para, desdobrando-se,
a noite extraterrestre bruxulear um pouco,
o último,
assim como que húmido, animal, intuitivo, de origem,
papel de seda que a rútila força lírica rompa,
um arrepio dentro dele,
batido, pode ser, no sombrio, como se avara enflorasse com as faúlhas
e assim a mão escrita se depura,
e se movem, estria atrás de estria, pontos voltaicos,
manchas ultravioletas a arder através do filme,
leve poema técnico e trémulo,
linhas e linhas,
línguas,
obra-prima do êxtase das línguas,
tudo movido virgem,
e eu que tenho a meu cargo delicadeza e inebriamento
tenho acaso no nome o inominável?
mão batida, curta, sem estudo, maravilhada apenas,
nada a ver com luminotecnia prática ou teórica,
mas com grandes mãos, e eu brilhei,
o meu nome brilhou entrando na frase inconsútil,
e depois o ar, e os objectos que ocorrem: onde?
fora? dentro?
no aparte,
no mais vidrado,
no avêsso,
no sistema demoroso do bicho interrompido na seda,
fibra lavrada sangrando,
uma qualquer arte intrépida por uma espécie de pilha eléctrica
como alma: plenitude,
através de um truque:
os dedos com uma, suponhamos, estrela que se entorna sobre a mesa,
poema trabalhado a energia alternativa,
a fervor e ofício,
enquanto a morte come onde me pode a vida toda
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Herberto Helder
26
há não sei quantos mil anos um canavial estremeceu na Assiria
e um douto poeta inscreveu esse tremor num curto poema lirico
lido agora por mim junto a um canavial nos subúrbios de Lisboa
e eu penso que os dois canaviais estremeceram igualmente
a tantos tempos e lugares de distância
e só se extinguirão devorados pelo fogo
quando o fogo devorar a terra inteira
e um douto poeta inscreveu esse tremor num curto poema lirico
lido agora por mim junto a um canavial nos subúrbios de Lisboa
e eu penso que os dois canaviais estremeceram igualmente
a tantos tempos e lugares de distância
e só se extinguirão devorados pelo fogo
quando o fogo devorar a terra inteira
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Herberto Helder
15
se um dia destes parar não sei se não morro logo,
disse Emília David, padeira,
não sei se fazer um poema não é fazer um pão
um pão que se tire do forno e se coma quente ainda por entre
as linhas,
um dia destes vejo que não vou parar nunca,
as mãos súbito cheias:
o mundo é só fogo e pão cozido,
e o fogo é que dá ao mundo os fundamentos da forma,
pão comprido nas terras de França,
pão curto agora nestes reinos salgados,
se parar não sei se não caio logo ali redonda no chão frio
como se caísse fundo em mim mesma,
a mão dentro do pão para comê-lo
— disse ela
disse Emília David, padeira,
não sei se fazer um poema não é fazer um pão
um pão que se tire do forno e se coma quente ainda por entre
as linhas,
um dia destes vejo que não vou parar nunca,
as mãos súbito cheias:
o mundo é só fogo e pão cozido,
e o fogo é que dá ao mundo os fundamentos da forma,
pão comprido nas terras de França,
pão curto agora nestes reinos salgados,
se parar não sei se não caio logo ali redonda no chão frio
como se caísse fundo em mim mesma,
a mão dentro do pão para comê-lo
— disse ela
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Herberto Helder
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dias cheios de ar hemisférico e radiação da água,
dias externos,
não sei como pensar nem
trazer os dedos baixos para mais alto,
se a luz se eriça na testa, e o cabelo
se move com a luz, e o sangue
escurece o cabelo,
não o digo até ao fundo da música,
não me queima a boca,
ameixas preparadas desde o caroço mas não mexo as unhas,
das poucas em que mexo muito pouco com as unhas, frutas ou outras
iluminações, sei apenas
que uma ininterrupta cacofonia desarruma a átona música mínima
dias externos,
não sei como pensar nem
trazer os dedos baixos para mais alto,
se a luz se eriça na testa, e o cabelo
se move com a luz, e o sangue
escurece o cabelo,
não o digo até ao fundo da música,
não me queima a boca,
ameixas preparadas desde o caroço mas não mexo as unhas,
das poucas em que mexo muito pouco com as unhas, frutas ou outras
iluminações, sei apenas
que uma ininterrupta cacofonia desarruma a átona música mínima
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Herberto Helder
82
que poder de ensino o destas coisas quando
em idioma: um copo de água agreste plenamente na mesa,
só em linguagem o copo me inebria
— placa de gelo em que lóbulos
do cérebro? — e exalta-me a transparência, porque
fora, sob
administração
geral: ciência, literatura, economia, gramática,
nada, nenhum copo, nenhuma água na mesa,
me fazem sangrar aferida essencial, ou mover-me
às cegas e às avessas
até ao último reduto; só antes,
por trás, depois,
à frente, eu sinto que a membrana de vidro, reservando uma pouca
de água miraculadamente do caos
dos dicionários, me despedaça
como primeira palavra,
não apenas os dedos, mas dedos e memória, devotação de vida;
a lição do nome
que não tem Deus, e de que o nosso nome
diminuto se aproxima; basta aquela água delgada enquanto algures
ceifam na terra,
edificam; água colhida no verbo
copo ou em Deus advérbio
de modo,
e há um nó interno requeimado, um nó semântico, e um calafrio
trespassa a bic preta, e em nativo escrevo
a música de ouvido,
e o ar que está por cima enche
todo o caderno,
e equilibram-se
o copo sobre a toalha, transparência, plano de água,
e dedos e papel e script e trémula superfície da memória,
tudo passado a multíplice e ardente
em idioma: um copo de água agreste plenamente na mesa,
só em linguagem o copo me inebria
— placa de gelo em que lóbulos
do cérebro? — e exalta-me a transparência, porque
fora, sob
administração
geral: ciência, literatura, economia, gramática,
nada, nenhum copo, nenhuma água na mesa,
me fazem sangrar aferida essencial, ou mover-me
às cegas e às avessas
até ao último reduto; só antes,
por trás, depois,
à frente, eu sinto que a membrana de vidro, reservando uma pouca
de água miraculadamente do caos
dos dicionários, me despedaça
como primeira palavra,
não apenas os dedos, mas dedos e memória, devotação de vida;
a lição do nome
que não tem Deus, e de que o nosso nome
diminuto se aproxima; basta aquela água delgada enquanto algures
ceifam na terra,
edificam; água colhida no verbo
copo ou em Deus advérbio
de modo,
e há um nó interno requeimado, um nó semântico, e um calafrio
trespassa a bic preta, e em nativo escrevo
a música de ouvido,
e o ar que está por cima enche
todo o caderno,
e equilibram-se
o copo sobre a toalha, transparência, plano de água,
e dedos e papel e script e trémula superfície da memória,
tudo passado a multíplice e ardente
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Herberto Helder
2
o teu nome novo, comecei eu a tirá-lo com uma navalha
da madeira grossa,
e nunca mais saía a única letra até dentro,
a primeira, e já toda a mão me sangrava
com o talho à volta dos dedos,
e a letra e o melhor do meu sangue e a seiva
metiam-se pela ferida como se ela mesma fosse
o meu trabalho apenas,
sangue que escorria pulso abaixo e me escoava:
a própria lavra da escrita —
^oh quando arranjarei mão que alcance em sangue e força
o fundo final desse começo de ti,
nome terreno,
isso: coisa amada tanto quanto o alvoroço mortal deste fim
de idade:
será que nenhum poder me devasta ainda?
da madeira grossa,
e nunca mais saía a única letra até dentro,
a primeira, e já toda a mão me sangrava
com o talho à volta dos dedos,
e a letra e o melhor do meu sangue e a seiva
metiam-se pela ferida como se ela mesma fosse
o meu trabalho apenas,
sangue que escorria pulso abaixo e me escoava:
a própria lavra da escrita —
^oh quando arranjarei mão que alcance em sangue e força
o fundo final desse começo de ti,
nome terreno,
isso: coisa amada tanto quanto o alvoroço mortal deste fim
de idade:
será que nenhum poder me devasta ainda?
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Herberto Helder
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talha, e as volutas queimam os olhos quando se escuta,
madeira floral suada alto,
que música,
que Deus bêbado,
e a luz se fosse irrefutável,
se de madura lavrasse a fruta vara a vara,
e a frase pensasse na boca,
se eu pudesse,
com os joelhos junto à cabeça e os cotovelos junto ao sexo,
intenso ao ponto de faiscar no escuro,
mas não me lembra a música
madeira floral suada alto,
que música,
que Deus bêbado,
e a luz se fosse irrefutável,
se de madura lavrasse a fruta vara a vara,
e a frase pensasse na boca,
se eu pudesse,
com os joelhos junto à cabeça e os cotovelos junto ao sexo,
intenso ao ponto de faiscar no escuro,
mas não me lembra a música
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