Poemas neste tema
Vida e Existência
Herberto Helder
Um Dia Destes Tenho o Dia Inteiro Para Morrer
um dia destes tenho o dia inteiro para morrer,
espero que me não doa,
um dia destes em todas as partes do corpo,
onde por enquanto ninguém sabe de que maneira,
um dia inteiro para morrer completamente,
quando a fruta com seus muitos vagares amadura,
o dom — que é um toque fundo na ferida da inteligência:
oh será que um poema entre todos pode ser absoluto?
:escrevê-lo, e ele ser a nossa morte na perfeição de poucas linhas
espero que me não doa,
um dia destes em todas as partes do corpo,
onde por enquanto ninguém sabe de que maneira,
um dia inteiro para morrer completamente,
quando a fruta com seus muitos vagares amadura,
o dom — que é um toque fundo na ferida da inteligência:
oh será que um poema entre todos pode ser absoluto?
:escrevê-lo, e ele ser a nossa morte na perfeição de poucas linhas
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Herberto Helder
Saio Hoje Ao Mundo
saio hoje ao mundo,
cordão de sangue à volta do pescoço,
e tão sôfrego e delicado e furioso,
de um lado ou de outro para sempre num sufoco,
iminente para sempre
23.XI.2010 : 80 ANOS
cordão de sangue à volta do pescoço,
e tão sôfrego e delicado e furioso,
de um lado ou de outro para sempre num sufoco,
iminente para sempre
23.XI.2010 : 80 ANOS
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Herberto Helder
Saio Hoje Ao Mundo
saio hoje ao mundo,
cordão de sangue à volta do pescoço,
e tão sôfrego e delicado e furioso,
de um lado ou de outro para sempre num sufoco,
iminente para sempre
23.XI.2010 : 80 ANOS
cordão de sangue à volta do pescoço,
e tão sôfrego e delicado e furioso,
de um lado ou de outro para sempre num sufoco,
iminente para sempre
23.XI.2010 : 80 ANOS
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Herberto Helder
Os Ritmos 15
Mandaram-me fazer um electro-encefalograma.
Era para ver como ia o meu ritmo alfa.
Eles tinham desconfianças.
Falavam de estados crepusculares.
Divertido.
Eu não tinha estados crepusculares.
O ritmo alfa estava óptimo.
Cumprimentaram-me muito.
A sua cabeça é sólida.
Bem, eu tinha uma cabeça sólida.
Era uma coisa alegre.
Encontrei-me algumas vezes ainda com o psicanalista.
Nessa altura, ele interessava-se particularmente pelo Apocalipse.
Não no aspecto erudito, é claro.
Falávamos durante horas sobre a besta com a grande prostituta de escarlate assentada entre os cornos, sobre os cavalos, os sete candelabros, os sete selos e os terríficos gafanhotos de rosto humano e cabelos longos como os das mulheres.
Eu saía do gabinete fervendo de inspiração.
Escrevi poemas apocalípticos e o psicanalista pôs-se a examiná-los.
Foi um bom tempo.
Mas eu tinha uma cabeça sólida, um belo ritmo alfa.
Então, com a minha sólida cabeça, comecei a pensar na morte.
Estudei os melhores venenos, em livros da especialidade, as mais subtis combinações de drogas e, com receitas que arranjava entre os médicos amigos, organizei uma boa colecção.
Gosto da palavra suicídio.
A frequência dos ii, como golpes, as duas sibilantes, e a última consoante, malignamente dental, fascinam-me — fascinam-me.
Mas bastava-me o prestígio da palavra e o jogo de coleccionar comprimidos mortais.
Como alegria, imaginei alguma coisa:
Uma cidade com torres brancas, espancada pela luz, e com navios que saíam das águas vibrantes para todas as partes.
Havia uma árvore inocente no meio da cidade.
Na primavera, enchia-se de espinhos ferozes e dava flores monstruosas, cor de púrpura.
As mães não deixavam que as crianças brincassem perto da árvore.
Durante dias e dias, a luz espancava a cidade.
Nada havia a fazer com a minha maturidade.
Certas noites, vagueava pelas ruas e entrava em todos os bares.
Os bêbedos formam uma maçonaria.
Andávamos pela cidade à procura uns dos outros, bebíamos no meio de inextricáveis conversas.
Um deles disse-me: tens um espírito essencialmente religioso.
Gostei.
Ficámos muito amigos.
Passámos a beber os dois, falando do espírito religioso.
Eu também possuo um espírito essencialmente religioso — garantiu-me ele uma noite, quando já tinha cerveja quase até à garganta.
A minha juventude, disse-lhe eu, foi uma violenta e fulminante viagem através do terror e da alegria.
Estive agarrado às trevas, ouvia o barulho das águas negras, não podia dormir.
Ou então tremia de puro júbilo, era admirável ter um corpo, uma voz, viver no meio da luz e da chuva e das grandes nuvens sobre os campos.
É o espírito religioso, dizia o meu amigo.
Talvez fosse, sim.
Era, com certeza.
Entretanto, principiei a duvidar.
Uma vez em que bebíamos um mau brandy, revelei-lhe a minha paixão pelo crime.
Gostaria de cometer um crime.
O meu amigo falou-me mais uma vez de espírito religioso.
Merda, respondi.
E ele quis saber se eu lera o Crime e Castigo.
Emprestou-mo.
A expiação, disse-lhe depois, é o verdadeiro centro religioso do livro.
O crime é apenas a circunstância propiciatória para o desenvolvimento religioso da personagem.
Ela necessita da expiação, para sua profunda glória.
Eu não amo a expiação.
O meu amigo disse: então és louco.
Tenho uma cabeça sólida, o que desejo é saber o que se faz com um terror morto e uma alegria morta.
E ele respondeu: bebe.
Não bebo mais, estou farto, vou-me embora para um lugar onde me não possa mexer muito — estou cansado de me mexer.
Apareceram então as pessoas que ajudam.
Tinham teorias.
O meu esforço, no entanto, era para recuperar a alegria e o terror.
Não é fácil.
As pessoas incitavam-me a diversas tarefas: a ética, a estética, a política, a numismática.
Sugeriram mesmo que eu deveria ir para África, e falaram da maneira rápida como ainda se pode enriquecer lá.
E depois há as florestas, ainda por cima, diziam.
Comecei a ter medo das pessoas.
Escreviam-me cartas assim:
Creio que te posso ajudar.
És um espírito rico, contraditório, de uma espantosa vitalidade.
Podes fazer coisas, resolveres as tuas contradições, ganhar a partida.
Então fiz as malas, e ia dizendo baixinho: merda, merda.
Parti para um lugar, com o propósito de semear cabeças de crianças, e ouvi-las cantar quando o dia acaba.
Como se fosse um campo de trigo.
Esta é, realmente, a minha embaraçosa chegada à maturidade.
Não me é possível pensar em qualquer salvação.
Era para ver como ia o meu ritmo alfa.
Eles tinham desconfianças.
Falavam de estados crepusculares.
Divertido.
Eu não tinha estados crepusculares.
O ritmo alfa estava óptimo.
Cumprimentaram-me muito.
A sua cabeça é sólida.
Bem, eu tinha uma cabeça sólida.
Era uma coisa alegre.
Encontrei-me algumas vezes ainda com o psicanalista.
Nessa altura, ele interessava-se particularmente pelo Apocalipse.
Não no aspecto erudito, é claro.
Falávamos durante horas sobre a besta com a grande prostituta de escarlate assentada entre os cornos, sobre os cavalos, os sete candelabros, os sete selos e os terríficos gafanhotos de rosto humano e cabelos longos como os das mulheres.
Eu saía do gabinete fervendo de inspiração.
Escrevi poemas apocalípticos e o psicanalista pôs-se a examiná-los.
Foi um bom tempo.
Mas eu tinha uma cabeça sólida, um belo ritmo alfa.
Então, com a minha sólida cabeça, comecei a pensar na morte.
Estudei os melhores venenos, em livros da especialidade, as mais subtis combinações de drogas e, com receitas que arranjava entre os médicos amigos, organizei uma boa colecção.
Gosto da palavra suicídio.
A frequência dos ii, como golpes, as duas sibilantes, e a última consoante, malignamente dental, fascinam-me — fascinam-me.
Mas bastava-me o prestígio da palavra e o jogo de coleccionar comprimidos mortais.
Como alegria, imaginei alguma coisa:
Uma cidade com torres brancas, espancada pela luz, e com navios que saíam das águas vibrantes para todas as partes.
Havia uma árvore inocente no meio da cidade.
Na primavera, enchia-se de espinhos ferozes e dava flores monstruosas, cor de púrpura.
As mães não deixavam que as crianças brincassem perto da árvore.
Durante dias e dias, a luz espancava a cidade.
Nada havia a fazer com a minha maturidade.
Certas noites, vagueava pelas ruas e entrava em todos os bares.
Os bêbedos formam uma maçonaria.
Andávamos pela cidade à procura uns dos outros, bebíamos no meio de inextricáveis conversas.
Um deles disse-me: tens um espírito essencialmente religioso.
Gostei.
Ficámos muito amigos.
Passámos a beber os dois, falando do espírito religioso.
Eu também possuo um espírito essencialmente religioso — garantiu-me ele uma noite, quando já tinha cerveja quase até à garganta.
A minha juventude, disse-lhe eu, foi uma violenta e fulminante viagem através do terror e da alegria.
Estive agarrado às trevas, ouvia o barulho das águas negras, não podia dormir.
Ou então tremia de puro júbilo, era admirável ter um corpo, uma voz, viver no meio da luz e da chuva e das grandes nuvens sobre os campos.
É o espírito religioso, dizia o meu amigo.
Talvez fosse, sim.
Era, com certeza.
Entretanto, principiei a duvidar.
Uma vez em que bebíamos um mau brandy, revelei-lhe a minha paixão pelo crime.
Gostaria de cometer um crime.
O meu amigo falou-me mais uma vez de espírito religioso.
Merda, respondi.
E ele quis saber se eu lera o Crime e Castigo.
Emprestou-mo.
A expiação, disse-lhe depois, é o verdadeiro centro religioso do livro.
O crime é apenas a circunstância propiciatória para o desenvolvimento religioso da personagem.
Ela necessita da expiação, para sua profunda glória.
Eu não amo a expiação.
O meu amigo disse: então és louco.
Tenho uma cabeça sólida, o que desejo é saber o que se faz com um terror morto e uma alegria morta.
E ele respondeu: bebe.
Não bebo mais, estou farto, vou-me embora para um lugar onde me não possa mexer muito — estou cansado de me mexer.
Apareceram então as pessoas que ajudam.
Tinham teorias.
O meu esforço, no entanto, era para recuperar a alegria e o terror.
Não é fácil.
As pessoas incitavam-me a diversas tarefas: a ética, a estética, a política, a numismática.
Sugeriram mesmo que eu deveria ir para África, e falaram da maneira rápida como ainda se pode enriquecer lá.
E depois há as florestas, ainda por cima, diziam.
Comecei a ter medo das pessoas.
Escreviam-me cartas assim:
Creio que te posso ajudar.
És um espírito rico, contraditório, de uma espantosa vitalidade.
Podes fazer coisas, resolveres as tuas contradições, ganhar a partida.
Então fiz as malas, e ia dizendo baixinho: merda, merda.
Parti para um lugar, com o propósito de semear cabeças de crianças, e ouvi-las cantar quando o dia acaba.
Como se fosse um campo de trigo.
Esta é, realmente, a minha embaraçosa chegada à maturidade.
Não me é possível pensar em qualquer salvação.
613
Herberto Helder
Os Ritmos 15
Mandaram-me fazer um electro-encefalograma.
Era para ver como ia o meu ritmo alfa.
Eles tinham desconfianças.
Falavam de estados crepusculares.
Divertido.
Eu não tinha estados crepusculares.
O ritmo alfa estava óptimo.
Cumprimentaram-me muito.
A sua cabeça é sólida.
Bem, eu tinha uma cabeça sólida.
Era uma coisa alegre.
Encontrei-me algumas vezes ainda com o psicanalista.
Nessa altura, ele interessava-se particularmente pelo Apocalipse.
Não no aspecto erudito, é claro.
Falávamos durante horas sobre a besta com a grande prostituta de escarlate assentada entre os cornos, sobre os cavalos, os sete candelabros, os sete selos e os terríficos gafanhotos de rosto humano e cabelos longos como os das mulheres.
Eu saía do gabinete fervendo de inspiração.
Escrevi poemas apocalípticos e o psicanalista pôs-se a examiná-los.
Foi um bom tempo.
Mas eu tinha uma cabeça sólida, um belo ritmo alfa.
Então, com a minha sólida cabeça, comecei a pensar na morte.
Estudei os melhores venenos, em livros da especialidade, as mais subtis combinações de drogas e, com receitas que arranjava entre os médicos amigos, organizei uma boa colecção.
Gosto da palavra suicídio.
A frequência dos ii, como golpes, as duas sibilantes, e a última consoante, malignamente dental, fascinam-me — fascinam-me.
Mas bastava-me o prestígio da palavra e o jogo de coleccionar comprimidos mortais.
Como alegria, imaginei alguma coisa:
Uma cidade com torres brancas, espancada pela luz, e com navios que saíam das águas vibrantes para todas as partes.
Havia uma árvore inocente no meio da cidade.
Na primavera, enchia-se de espinhos ferozes e dava flores monstruosas, cor de púrpura.
As mães não deixavam que as crianças brincassem perto da árvore.
Durante dias e dias, a luz espancava a cidade.
Nada havia a fazer com a minha maturidade.
Certas noites, vagueava pelas ruas e entrava em todos os bares.
Os bêbedos formam uma maçonaria.
Andávamos pela cidade à procura uns dos outros, bebíamos no meio de inextricáveis conversas.
Um deles disse-me: tens um espírito essencialmente religioso.
Gostei.
Ficámos muito amigos.
Passámos a beber os dois, falando do espírito religioso.
Eu também possuo um espírito essencialmente religioso — garantiu-me ele uma noite, quando já tinha cerveja quase até à garganta.
A minha juventude, disse-lhe eu, foi uma violenta e fulminante viagem através do terror e da alegria.
Estive agarrado às trevas, ouvia o barulho das águas negras, não podia dormir.
Ou então tremia de puro júbilo, era admirável ter um corpo, uma voz, viver no meio da luz e da chuva e das grandes nuvens sobre os campos.
É o espírito religioso, dizia o meu amigo.
Talvez fosse, sim.
Era, com certeza.
Entretanto, principiei a duvidar.
Uma vez em que bebíamos um mau brandy, revelei-lhe a minha paixão pelo crime.
Gostaria de cometer um crime.
O meu amigo falou-me mais uma vez de espírito religioso.
Merda, respondi.
E ele quis saber se eu lera o Crime e Castigo.
Emprestou-mo.
A expiação, disse-lhe depois, é o verdadeiro centro religioso do livro.
O crime é apenas a circunstância propiciatória para o desenvolvimento religioso da personagem.
Ela necessita da expiação, para sua profunda glória.
Eu não amo a expiação.
O meu amigo disse: então és louco.
Tenho uma cabeça sólida, o que desejo é saber o que se faz com um terror morto e uma alegria morta.
E ele respondeu: bebe.
Não bebo mais, estou farto, vou-me embora para um lugar onde me não possa mexer muito — estou cansado de me mexer.
Apareceram então as pessoas que ajudam.
Tinham teorias.
O meu esforço, no entanto, era para recuperar a alegria e o terror.
Não é fácil.
As pessoas incitavam-me a diversas tarefas: a ética, a estética, a política, a numismática.
Sugeriram mesmo que eu deveria ir para África, e falaram da maneira rápida como ainda se pode enriquecer lá.
E depois há as florestas, ainda por cima, diziam.
Comecei a ter medo das pessoas.
Escreviam-me cartas assim:
Creio que te posso ajudar.
És um espírito rico, contraditório, de uma espantosa vitalidade.
Podes fazer coisas, resolveres as tuas contradições, ganhar a partida.
Então fiz as malas, e ia dizendo baixinho: merda, merda.
Parti para um lugar, com o propósito de semear cabeças de crianças, e ouvi-las cantar quando o dia acaba.
Como se fosse um campo de trigo.
Esta é, realmente, a minha embaraçosa chegada à maturidade.
Não me é possível pensar em qualquer salvação.
Era para ver como ia o meu ritmo alfa.
Eles tinham desconfianças.
Falavam de estados crepusculares.
Divertido.
Eu não tinha estados crepusculares.
O ritmo alfa estava óptimo.
Cumprimentaram-me muito.
A sua cabeça é sólida.
Bem, eu tinha uma cabeça sólida.
Era uma coisa alegre.
Encontrei-me algumas vezes ainda com o psicanalista.
Nessa altura, ele interessava-se particularmente pelo Apocalipse.
Não no aspecto erudito, é claro.
Falávamos durante horas sobre a besta com a grande prostituta de escarlate assentada entre os cornos, sobre os cavalos, os sete candelabros, os sete selos e os terríficos gafanhotos de rosto humano e cabelos longos como os das mulheres.
Eu saía do gabinete fervendo de inspiração.
Escrevi poemas apocalípticos e o psicanalista pôs-se a examiná-los.
Foi um bom tempo.
Mas eu tinha uma cabeça sólida, um belo ritmo alfa.
Então, com a minha sólida cabeça, comecei a pensar na morte.
Estudei os melhores venenos, em livros da especialidade, as mais subtis combinações de drogas e, com receitas que arranjava entre os médicos amigos, organizei uma boa colecção.
Gosto da palavra suicídio.
A frequência dos ii, como golpes, as duas sibilantes, e a última consoante, malignamente dental, fascinam-me — fascinam-me.
Mas bastava-me o prestígio da palavra e o jogo de coleccionar comprimidos mortais.
Como alegria, imaginei alguma coisa:
Uma cidade com torres brancas, espancada pela luz, e com navios que saíam das águas vibrantes para todas as partes.
Havia uma árvore inocente no meio da cidade.
Na primavera, enchia-se de espinhos ferozes e dava flores monstruosas, cor de púrpura.
As mães não deixavam que as crianças brincassem perto da árvore.
Durante dias e dias, a luz espancava a cidade.
Nada havia a fazer com a minha maturidade.
Certas noites, vagueava pelas ruas e entrava em todos os bares.
Os bêbedos formam uma maçonaria.
Andávamos pela cidade à procura uns dos outros, bebíamos no meio de inextricáveis conversas.
Um deles disse-me: tens um espírito essencialmente religioso.
Gostei.
Ficámos muito amigos.
Passámos a beber os dois, falando do espírito religioso.
Eu também possuo um espírito essencialmente religioso — garantiu-me ele uma noite, quando já tinha cerveja quase até à garganta.
A minha juventude, disse-lhe eu, foi uma violenta e fulminante viagem através do terror e da alegria.
Estive agarrado às trevas, ouvia o barulho das águas negras, não podia dormir.
Ou então tremia de puro júbilo, era admirável ter um corpo, uma voz, viver no meio da luz e da chuva e das grandes nuvens sobre os campos.
É o espírito religioso, dizia o meu amigo.
Talvez fosse, sim.
Era, com certeza.
Entretanto, principiei a duvidar.
Uma vez em que bebíamos um mau brandy, revelei-lhe a minha paixão pelo crime.
Gostaria de cometer um crime.
O meu amigo falou-me mais uma vez de espírito religioso.
Merda, respondi.
E ele quis saber se eu lera o Crime e Castigo.
Emprestou-mo.
A expiação, disse-lhe depois, é o verdadeiro centro religioso do livro.
O crime é apenas a circunstância propiciatória para o desenvolvimento religioso da personagem.
Ela necessita da expiação, para sua profunda glória.
Eu não amo a expiação.
O meu amigo disse: então és louco.
Tenho uma cabeça sólida, o que desejo é saber o que se faz com um terror morto e uma alegria morta.
E ele respondeu: bebe.
Não bebo mais, estou farto, vou-me embora para um lugar onde me não possa mexer muito — estou cansado de me mexer.
Apareceram então as pessoas que ajudam.
Tinham teorias.
O meu esforço, no entanto, era para recuperar a alegria e o terror.
Não é fácil.
As pessoas incitavam-me a diversas tarefas: a ética, a estética, a política, a numismática.
Sugeriram mesmo que eu deveria ir para África, e falaram da maneira rápida como ainda se pode enriquecer lá.
E depois há as florestas, ainda por cima, diziam.
Comecei a ter medo das pessoas.
Escreviam-me cartas assim:
Creio que te posso ajudar.
És um espírito rico, contraditório, de uma espantosa vitalidade.
Podes fazer coisas, resolveres as tuas contradições, ganhar a partida.
Então fiz as malas, e ia dizendo baixinho: merda, merda.
Parti para um lugar, com o propósito de semear cabeças de crianças, e ouvi-las cantar quando o dia acaba.
Como se fosse um campo de trigo.
Esta é, realmente, a minha embaraçosa chegada à maturidade.
Não me é possível pensar em qualquer salvação.
613
Herberto Helder
Os Ritmos 15
Mandaram-me fazer um electro-encefalograma.
Era para ver como ia o meu ritmo alfa.
Eles tinham desconfianças.
Falavam de estados crepusculares.
Divertido.
Eu não tinha estados crepusculares.
O ritmo alfa estava óptimo.
Cumprimentaram-me muito.
A sua cabeça é sólida.
Bem, eu tinha uma cabeça sólida.
Era uma coisa alegre.
Encontrei-me algumas vezes ainda com o psicanalista.
Nessa altura, ele interessava-se particularmente pelo Apocalipse.
Não no aspecto erudito, é claro.
Falávamos durante horas sobre a besta com a grande prostituta de escarlate assentada entre os cornos, sobre os cavalos, os sete candelabros, os sete selos e os terríficos gafanhotos de rosto humano e cabelos longos como os das mulheres.
Eu saía do gabinete fervendo de inspiração.
Escrevi poemas apocalípticos e o psicanalista pôs-se a examiná-los.
Foi um bom tempo.
Mas eu tinha uma cabeça sólida, um belo ritmo alfa.
Então, com a minha sólida cabeça, comecei a pensar na morte.
Estudei os melhores venenos, em livros da especialidade, as mais subtis combinações de drogas e, com receitas que arranjava entre os médicos amigos, organizei uma boa colecção.
Gosto da palavra suicídio.
A frequência dos ii, como golpes, as duas sibilantes, e a última consoante, malignamente dental, fascinam-me — fascinam-me.
Mas bastava-me o prestígio da palavra e o jogo de coleccionar comprimidos mortais.
Como alegria, imaginei alguma coisa:
Uma cidade com torres brancas, espancada pela luz, e com navios que saíam das águas vibrantes para todas as partes.
Havia uma árvore inocente no meio da cidade.
Na primavera, enchia-se de espinhos ferozes e dava flores monstruosas, cor de púrpura.
As mães não deixavam que as crianças brincassem perto da árvore.
Durante dias e dias, a luz espancava a cidade.
Nada havia a fazer com a minha maturidade.
Certas noites, vagueava pelas ruas e entrava em todos os bares.
Os bêbedos formam uma maçonaria.
Andávamos pela cidade à procura uns dos outros, bebíamos no meio de inextricáveis conversas.
Um deles disse-me: tens um espírito essencialmente religioso.
Gostei.
Ficámos muito amigos.
Passámos a beber os dois, falando do espírito religioso.
Eu também possuo um espírito essencialmente religioso — garantiu-me ele uma noite, quando já tinha cerveja quase até à garganta.
A minha juventude, disse-lhe eu, foi uma violenta e fulminante viagem através do terror e da alegria.
Estive agarrado às trevas, ouvia o barulho das águas negras, não podia dormir.
Ou então tremia de puro júbilo, era admirável ter um corpo, uma voz, viver no meio da luz e da chuva e das grandes nuvens sobre os campos.
É o espírito religioso, dizia o meu amigo.
Talvez fosse, sim.
Era, com certeza.
Entretanto, principiei a duvidar.
Uma vez em que bebíamos um mau brandy, revelei-lhe a minha paixão pelo crime.
Gostaria de cometer um crime.
O meu amigo falou-me mais uma vez de espírito religioso.
Merda, respondi.
E ele quis saber se eu lera o Crime e Castigo.
Emprestou-mo.
A expiação, disse-lhe depois, é o verdadeiro centro religioso do livro.
O crime é apenas a circunstância propiciatória para o desenvolvimento religioso da personagem.
Ela necessita da expiação, para sua profunda glória.
Eu não amo a expiação.
O meu amigo disse: então és louco.
Tenho uma cabeça sólida, o que desejo é saber o que se faz com um terror morto e uma alegria morta.
E ele respondeu: bebe.
Não bebo mais, estou farto, vou-me embora para um lugar onde me não possa mexer muito — estou cansado de me mexer.
Apareceram então as pessoas que ajudam.
Tinham teorias.
O meu esforço, no entanto, era para recuperar a alegria e o terror.
Não é fácil.
As pessoas incitavam-me a diversas tarefas: a ética, a estética, a política, a numismática.
Sugeriram mesmo que eu deveria ir para África, e falaram da maneira rápida como ainda se pode enriquecer lá.
E depois há as florestas, ainda por cima, diziam.
Comecei a ter medo das pessoas.
Escreviam-me cartas assim:
Creio que te posso ajudar.
És um espírito rico, contraditório, de uma espantosa vitalidade.
Podes fazer coisas, resolveres as tuas contradições, ganhar a partida.
Então fiz as malas, e ia dizendo baixinho: merda, merda.
Parti para um lugar, com o propósito de semear cabeças de crianças, e ouvi-las cantar quando o dia acaba.
Como se fosse um campo de trigo.
Esta é, realmente, a minha embaraçosa chegada à maturidade.
Não me é possível pensar em qualquer salvação.
Era para ver como ia o meu ritmo alfa.
Eles tinham desconfianças.
Falavam de estados crepusculares.
Divertido.
Eu não tinha estados crepusculares.
O ritmo alfa estava óptimo.
Cumprimentaram-me muito.
A sua cabeça é sólida.
Bem, eu tinha uma cabeça sólida.
Era uma coisa alegre.
Encontrei-me algumas vezes ainda com o psicanalista.
Nessa altura, ele interessava-se particularmente pelo Apocalipse.
Não no aspecto erudito, é claro.
Falávamos durante horas sobre a besta com a grande prostituta de escarlate assentada entre os cornos, sobre os cavalos, os sete candelabros, os sete selos e os terríficos gafanhotos de rosto humano e cabelos longos como os das mulheres.
Eu saía do gabinete fervendo de inspiração.
Escrevi poemas apocalípticos e o psicanalista pôs-se a examiná-los.
Foi um bom tempo.
Mas eu tinha uma cabeça sólida, um belo ritmo alfa.
Então, com a minha sólida cabeça, comecei a pensar na morte.
Estudei os melhores venenos, em livros da especialidade, as mais subtis combinações de drogas e, com receitas que arranjava entre os médicos amigos, organizei uma boa colecção.
Gosto da palavra suicídio.
A frequência dos ii, como golpes, as duas sibilantes, e a última consoante, malignamente dental, fascinam-me — fascinam-me.
Mas bastava-me o prestígio da palavra e o jogo de coleccionar comprimidos mortais.
Como alegria, imaginei alguma coisa:
Uma cidade com torres brancas, espancada pela luz, e com navios que saíam das águas vibrantes para todas as partes.
Havia uma árvore inocente no meio da cidade.
Na primavera, enchia-se de espinhos ferozes e dava flores monstruosas, cor de púrpura.
As mães não deixavam que as crianças brincassem perto da árvore.
Durante dias e dias, a luz espancava a cidade.
Nada havia a fazer com a minha maturidade.
Certas noites, vagueava pelas ruas e entrava em todos os bares.
Os bêbedos formam uma maçonaria.
Andávamos pela cidade à procura uns dos outros, bebíamos no meio de inextricáveis conversas.
Um deles disse-me: tens um espírito essencialmente religioso.
Gostei.
Ficámos muito amigos.
Passámos a beber os dois, falando do espírito religioso.
Eu também possuo um espírito essencialmente religioso — garantiu-me ele uma noite, quando já tinha cerveja quase até à garganta.
A minha juventude, disse-lhe eu, foi uma violenta e fulminante viagem através do terror e da alegria.
Estive agarrado às trevas, ouvia o barulho das águas negras, não podia dormir.
Ou então tremia de puro júbilo, era admirável ter um corpo, uma voz, viver no meio da luz e da chuva e das grandes nuvens sobre os campos.
É o espírito religioso, dizia o meu amigo.
Talvez fosse, sim.
Era, com certeza.
Entretanto, principiei a duvidar.
Uma vez em que bebíamos um mau brandy, revelei-lhe a minha paixão pelo crime.
Gostaria de cometer um crime.
O meu amigo falou-me mais uma vez de espírito religioso.
Merda, respondi.
E ele quis saber se eu lera o Crime e Castigo.
Emprestou-mo.
A expiação, disse-lhe depois, é o verdadeiro centro religioso do livro.
O crime é apenas a circunstância propiciatória para o desenvolvimento religioso da personagem.
Ela necessita da expiação, para sua profunda glória.
Eu não amo a expiação.
O meu amigo disse: então és louco.
Tenho uma cabeça sólida, o que desejo é saber o que se faz com um terror morto e uma alegria morta.
E ele respondeu: bebe.
Não bebo mais, estou farto, vou-me embora para um lugar onde me não possa mexer muito — estou cansado de me mexer.
Apareceram então as pessoas que ajudam.
Tinham teorias.
O meu esforço, no entanto, era para recuperar a alegria e o terror.
Não é fácil.
As pessoas incitavam-me a diversas tarefas: a ética, a estética, a política, a numismática.
Sugeriram mesmo que eu deveria ir para África, e falaram da maneira rápida como ainda se pode enriquecer lá.
E depois há as florestas, ainda por cima, diziam.
Comecei a ter medo das pessoas.
Escreviam-me cartas assim:
Creio que te posso ajudar.
És um espírito rico, contraditório, de uma espantosa vitalidade.
Podes fazer coisas, resolveres as tuas contradições, ganhar a partida.
Então fiz as malas, e ia dizendo baixinho: merda, merda.
Parti para um lugar, com o propósito de semear cabeças de crianças, e ouvi-las cantar quando o dia acaba.
Como se fosse um campo de trigo.
Esta é, realmente, a minha embaraçosa chegada à maturidade.
Não me é possível pensar em qualquer salvação.
613
Herberto Helder
Como Se Atira o Dardo Com o Corpo Todo
como se atira o dardo com o corpo todo,
com a eternidade em não mais que nada,
e depois a abolição do tempo,
e então o que respira no corpo passa à vara,
e o que respira na vara passa depois à ponta,
tu não, tu já respiraste tudo pelo dardo fora,
mudo e cego e surdo,
e és um só ponto do alvo onde respiras todo,
e tudo respira nesse ponto,
em ti, veia da terra, oh
sangue sensível
com a eternidade em não mais que nada,
e depois a abolição do tempo,
e então o que respira no corpo passa à vara,
e o que respira na vara passa depois à ponta,
tu não, tu já respiraste tudo pelo dardo fora,
mudo e cego e surdo,
e és um só ponto do alvo onde respiras todo,
e tudo respira nesse ponto,
em ti, veia da terra, oh
sangue sensível
1 176
Herberto Helder
Onde Não Pode a Mão 1
Como se uma estrela hidráulica arrebatada das poças,
Tu sim deslumbras, Por coroação:
por regiões activas de levantamento:
por azougue da cabeça,
Brilhas pela testa acima,
Ceptro: potência — ah sempre que o chão crepita
dos charcos de ouro,
E no corpo trancado a veias
e nervos: o sangue que se afunda e faz tremer
tudo, Tocas
com um arrepio de unha a unha
o mundo, Pontada
que te abre e aumenta
ou
— onde se um troço dessa massa
intestina: e como respirada: às queimaduras
primitivas — Boca:
sexo: viveza
das tripas: uma glândula que te move
ao centro, Amadureces como um ovo,
Na traça carnal: todo
com um golpe com muita força para dentro
Tu sim deslumbras, Por coroação:
por regiões activas de levantamento:
por azougue da cabeça,
Brilhas pela testa acima,
Ceptro: potência — ah sempre que o chão crepita
dos charcos de ouro,
E no corpo trancado a veias
e nervos: o sangue que se afunda e faz tremer
tudo, Tocas
com um arrepio de unha a unha
o mundo, Pontada
que te abre e aumenta
ou
— onde se um troço dessa massa
intestina: e como respirada: às queimaduras
primitivas — Boca:
sexo: viveza
das tripas: uma glândula que te move
ao centro, Amadureces como um ovo,
Na traça carnal: todo
com um golpe com muita força para dentro
1 106
Herberto Helder
Mão: a Mão
O coração em cheio
no corpo, Um sopro
no coração,
E a carne reflui toda,
Uma braçada alta,
Reflui
ao sorvedouro a água áspera,
Árdua meada de sangue
de mão a mão no escuro, Sob
a roupa que a lua
exalta,
Escafandrista
que defendesse o remoinho de ar
nos pulmões
do remoinho do abismo,
Ou defendesse
a insónia da surda invasão do medo,
Abraçado a essa bolha,
Toque
leveza baptismal
centro,
Oh sombria natação com um relâmpago,
Camisa molhada
até às entranhas: secando à lua entre
água e pesadelo,
Visto
essa camisa brilhando sobre
um buraco um
escurecimento,
A transfusão das imagens,
Fendido
ao meio dos olhos, Por onde penetra a agudeza
do mundo:
e me
transforma, Quem
enterra um diamante e não sabe
que o enterra
em si, E fosse: pela costura
elementar: uma pálpebra
por cima de um
aparelho da alucinação um
organismo do sonho,
Alguém que se deitasse
com um grito
dentro: e acordasse com esse grito
pela boca fora,
Que fosse
uma cana encontrada
no vento: quando é de alguém
que o vento se levanta,
E os dedos atassem
e desatassem o som
nos orifícios — música
ferramenta
a paixão,
Que fosse
de fôlego a fôlego, Qualidade
da coisa que se nomeia,
E tudo me abala
— O nome a encher uma pessoa
como a luz enche o vento,
Ou a ferida enche a lembrança,
Mantenho
os objectos
as chamas:
à força
de respiração: de carne amarga,
Pensa-se que a cabeça é toda
brusca:
a beleza rudemente
pela brancura,
Com uma vara de sal
é que tocaram fundo
e me floriram,
E eu estremeço
desse dardo: dessa pancada na cabeça
cheia de sangue e sopro:
e desse
florescimento,
É uma arte em pé ardendo à vista,
Que se infunda na matéria
acerba
o lume, Um ofício:
a sua maravilha:
apavoram-me,
E na madeira
se lavrem a pulso os genitais: os membros:
o umbigo
e a garganta,
Da carnagem das gramáticas
arranco a música
o nome
o número,
Trabalho à raiz do ouro
frio, Tão agudo tão agudo,
Se toda a peça de carne é varada
por uma veia inocente:
vara-me
a iluminação vocabular
da memória,
Mexida por lunações como na fêmea
a massa lêveda,
Ou no poema
a parte fêmea instrumentada pela
magnificência,
O que nele se talha
em som escrito: órgão,
Mão que revolves a substância primordial,
Barro
fundamento, Que o hausto atenda à força
respirada
pela carne em poder,
O nó
coronário de uma estrela,
Peso e melancolia
da riqueza
e do medo, E que me assome Deus às partes
graves: com sua luva súbita
no abismo,
É ao meu nome que regresso: à ameaça,
A limpidez
atravessa-me pelos furos naturais
ardidos,
Entra um astro
por mim dentro:
faz-me potência e dança,
Que toda a noite do mundo te torne humana:
obra
no corpo, Um sopro
no coração,
E a carne reflui toda,
Uma braçada alta,
Reflui
ao sorvedouro a água áspera,
Árdua meada de sangue
de mão a mão no escuro, Sob
a roupa que a lua
exalta,
Escafandrista
que defendesse o remoinho de ar
nos pulmões
do remoinho do abismo,
Ou defendesse
a insónia da surda invasão do medo,
Abraçado a essa bolha,
Toque
leveza baptismal
centro,
Oh sombria natação com um relâmpago,
Camisa molhada
até às entranhas: secando à lua entre
água e pesadelo,
Visto
essa camisa brilhando sobre
um buraco um
escurecimento,
A transfusão das imagens,
Fendido
ao meio dos olhos, Por onde penetra a agudeza
do mundo:
e me
transforma, Quem
enterra um diamante e não sabe
que o enterra
em si, E fosse: pela costura
elementar: uma pálpebra
por cima de um
aparelho da alucinação um
organismo do sonho,
Alguém que se deitasse
com um grito
dentro: e acordasse com esse grito
pela boca fora,
Que fosse
uma cana encontrada
no vento: quando é de alguém
que o vento se levanta,
E os dedos atassem
e desatassem o som
nos orifícios — música
ferramenta
a paixão,
Que fosse
de fôlego a fôlego, Qualidade
da coisa que se nomeia,
E tudo me abala
— O nome a encher uma pessoa
como a luz enche o vento,
Ou a ferida enche a lembrança,
Mantenho
os objectos
as chamas:
à força
de respiração: de carne amarga,
Pensa-se que a cabeça é toda
brusca:
a beleza rudemente
pela brancura,
Com uma vara de sal
é que tocaram fundo
e me floriram,
E eu estremeço
desse dardo: dessa pancada na cabeça
cheia de sangue e sopro:
e desse
florescimento,
É uma arte em pé ardendo à vista,
Que se infunda na matéria
acerba
o lume, Um ofício:
a sua maravilha:
apavoram-me,
E na madeira
se lavrem a pulso os genitais: os membros:
o umbigo
e a garganta,
Da carnagem das gramáticas
arranco a música
o nome
o número,
Trabalho à raiz do ouro
frio, Tão agudo tão agudo,
Se toda a peça de carne é varada
por uma veia inocente:
vara-me
a iluminação vocabular
da memória,
Mexida por lunações como na fêmea
a massa lêveda,
Ou no poema
a parte fêmea instrumentada pela
magnificência,
O que nele se talha
em som escrito: órgão,
Mão que revolves a substância primordial,
Barro
fundamento, Que o hausto atenda à força
respirada
pela carne em poder,
O nó
coronário de uma estrela,
Peso e melancolia
da riqueza
e do medo, E que me assome Deus às partes
graves: com sua luva súbita
no abismo,
É ao meu nome que regresso: à ameaça,
A limpidez
atravessa-me pelos furos naturais
ardidos,
Entra um astro
por mim dentro:
faz-me potência e dança,
Que toda a noite do mundo te torne humana:
obra
1 373
Herberto Helder
Mão: a Mão
O coração em cheio
no corpo, Um sopro
no coração,
E a carne reflui toda,
Uma braçada alta,
Reflui
ao sorvedouro a água áspera,
Árdua meada de sangue
de mão a mão no escuro, Sob
a roupa que a lua
exalta,
Escafandrista
que defendesse o remoinho de ar
nos pulmões
do remoinho do abismo,
Ou defendesse
a insónia da surda invasão do medo,
Abraçado a essa bolha,
Toque
leveza baptismal
centro,
Oh sombria natação com um relâmpago,
Camisa molhada
até às entranhas: secando à lua entre
água e pesadelo,
Visto
essa camisa brilhando sobre
um buraco um
escurecimento,
A transfusão das imagens,
Fendido
ao meio dos olhos, Por onde penetra a agudeza
do mundo:
e me
transforma, Quem
enterra um diamante e não sabe
que o enterra
em si, E fosse: pela costura
elementar: uma pálpebra
por cima de um
aparelho da alucinação um
organismo do sonho,
Alguém que se deitasse
com um grito
dentro: e acordasse com esse grito
pela boca fora,
Que fosse
uma cana encontrada
no vento: quando é de alguém
que o vento se levanta,
E os dedos atassem
e desatassem o som
nos orifícios — música
ferramenta
a paixão,
Que fosse
de fôlego a fôlego, Qualidade
da coisa que se nomeia,
E tudo me abala
— O nome a encher uma pessoa
como a luz enche o vento,
Ou a ferida enche a lembrança,
Mantenho
os objectos
as chamas:
à força
de respiração: de carne amarga,
Pensa-se que a cabeça é toda
brusca:
a beleza rudemente
pela brancura,
Com uma vara de sal
é que tocaram fundo
e me floriram,
E eu estremeço
desse dardo: dessa pancada na cabeça
cheia de sangue e sopro:
e desse
florescimento,
É uma arte em pé ardendo à vista,
Que se infunda na matéria
acerba
o lume, Um ofício:
a sua maravilha:
apavoram-me,
E na madeira
se lavrem a pulso os genitais: os membros:
o umbigo
e a garganta,
Da carnagem das gramáticas
arranco a música
o nome
o número,
Trabalho à raiz do ouro
frio, Tão agudo tão agudo,
Se toda a peça de carne é varada
por uma veia inocente:
vara-me
a iluminação vocabular
da memória,
Mexida por lunações como na fêmea
a massa lêveda,
Ou no poema
a parte fêmea instrumentada pela
magnificência,
O que nele se talha
em som escrito: órgão,
Mão que revolves a substância primordial,
Barro
fundamento, Que o hausto atenda à força
respirada
pela carne em poder,
O nó
coronário de uma estrela,
Peso e melancolia
da riqueza
e do medo, E que me assome Deus às partes
graves: com sua luva súbita
no abismo,
É ao meu nome que regresso: à ameaça,
A limpidez
atravessa-me pelos furos naturais
ardidos,
Entra um astro
por mim dentro:
faz-me potência e dança,
Que toda a noite do mundo te torne humana:
obra
no corpo, Um sopro
no coração,
E a carne reflui toda,
Uma braçada alta,
Reflui
ao sorvedouro a água áspera,
Árdua meada de sangue
de mão a mão no escuro, Sob
a roupa que a lua
exalta,
Escafandrista
que defendesse o remoinho de ar
nos pulmões
do remoinho do abismo,
Ou defendesse
a insónia da surda invasão do medo,
Abraçado a essa bolha,
Toque
leveza baptismal
centro,
Oh sombria natação com um relâmpago,
Camisa molhada
até às entranhas: secando à lua entre
água e pesadelo,
Visto
essa camisa brilhando sobre
um buraco um
escurecimento,
A transfusão das imagens,
Fendido
ao meio dos olhos, Por onde penetra a agudeza
do mundo:
e me
transforma, Quem
enterra um diamante e não sabe
que o enterra
em si, E fosse: pela costura
elementar: uma pálpebra
por cima de um
aparelho da alucinação um
organismo do sonho,
Alguém que se deitasse
com um grito
dentro: e acordasse com esse grito
pela boca fora,
Que fosse
uma cana encontrada
no vento: quando é de alguém
que o vento se levanta,
E os dedos atassem
e desatassem o som
nos orifícios — música
ferramenta
a paixão,
Que fosse
de fôlego a fôlego, Qualidade
da coisa que se nomeia,
E tudo me abala
— O nome a encher uma pessoa
como a luz enche o vento,
Ou a ferida enche a lembrança,
Mantenho
os objectos
as chamas:
à força
de respiração: de carne amarga,
Pensa-se que a cabeça é toda
brusca:
a beleza rudemente
pela brancura,
Com uma vara de sal
é que tocaram fundo
e me floriram,
E eu estremeço
desse dardo: dessa pancada na cabeça
cheia de sangue e sopro:
e desse
florescimento,
É uma arte em pé ardendo à vista,
Que se infunda na matéria
acerba
o lume, Um ofício:
a sua maravilha:
apavoram-me,
E na madeira
se lavrem a pulso os genitais: os membros:
o umbigo
e a garganta,
Da carnagem das gramáticas
arranco a música
o nome
o número,
Trabalho à raiz do ouro
frio, Tão agudo tão agudo,
Se toda a peça de carne é varada
por uma veia inocente:
vara-me
a iluminação vocabular
da memória,
Mexida por lunações como na fêmea
a massa lêveda,
Ou no poema
a parte fêmea instrumentada pela
magnificência,
O que nele se talha
em som escrito: órgão,
Mão que revolves a substância primordial,
Barro
fundamento, Que o hausto atenda à força
respirada
pela carne em poder,
O nó
coronário de uma estrela,
Peso e melancolia
da riqueza
e do medo, E que me assome Deus às partes
graves: com sua luva súbita
no abismo,
É ao meu nome que regresso: à ameaça,
A limpidez
atravessa-me pelos furos naturais
ardidos,
Entra um astro
por mim dentro:
faz-me potência e dança,
Que toda a noite do mundo te torne humana:
obra
1 373
Herberto Helder
As Manhãs Começam Logo Com a Morte Das Mães
as manhãs começam logo com a morte das mães,
ainda oito dias antes lavavam os cabelos em alfazema cozida,
ainda oito anos depois os cabelos irrepetíveis,
todas as luzes da terra abertas em cima delas,
e então a gente enche a banheira com água fria até ao pescoço,
e tudo brilha na mesma,
brilha cegamente
ainda oito dias antes lavavam os cabelos em alfazema cozida,
ainda oito anos depois os cabelos irrepetíveis,
todas as luzes da terra abertas em cima delas,
e então a gente enche a banheira com água fria até ao pescoço,
e tudo brilha na mesma,
brilha cegamente
1 300
Herberto Helder
As Manhãs Começam Logo Com a Morte Das Mães
as manhãs começam logo com a morte das mães,
ainda oito dias antes lavavam os cabelos em alfazema cozida,
ainda oito anos depois os cabelos irrepetíveis,
todas as luzes da terra abertas em cima delas,
e então a gente enche a banheira com água fria até ao pescoço,
e tudo brilha na mesma,
brilha cegamente
ainda oito dias antes lavavam os cabelos em alfazema cozida,
ainda oito anos depois os cabelos irrepetíveis,
todas as luzes da terra abertas em cima delas,
e então a gente enche a banheira com água fria até ao pescoço,
e tudo brilha na mesma,
brilha cegamente
1 300
Herberto Helder
Todos Os Dedos da Mão 1
As cabeças de mármore: um raio
as fenda, E fiquem
queimadas de dentro até à boca,
Ou uma faca lhes corte
as carótidas:
que as deslumbre
o sangue deslumbrante — A garganta: se a faca
as encharca, Anéis de mármore
rude o pêlo
a auréola,
Tudo alagado desde os recessos,
Brilhando tudo,
Que a ferida elementar assome
como ao espelho: como à maneira de
cicatriz de imagem,
A força das janelas, O odor do leite
opulento
na lembrança,
E a úlcera da boca no centro da máquina
circulatória: os braços — tudo
crispado como um sistema de astros,
A estátua é um pulmão dos pés à cara,
Devora
o ar levantado, A beleza é operatória,
Uma coroa da carne da cabeça como
se a juba lhe ardesse, De mármore,
Brecha anatómica para o soluço dessa
massa salgada — o medo: o temerário movimento
da dança:
a riqueza: o sono:
as voragens,
Estás cheio de esperma,
Transpiras na raiz da cabeleira,
A língua treme dentro de ti que és
uma fala,
Respiradouro assombrado,
A mulher a cada dedo que apontavas:
a cada poro dela:
a cada choque lunar na levedura: ao teu
bafo: a leveza que
te
contemplava: o fôlego
dela:
estremecendo fincada no chão como uma estaca
de fruta, Tu és o raio dela: a rapidez: ela
é o teu sopro,
Estala,
O suspiro da lenha suada gota a gota,
Que lhe apura o corpo e o aprova,
Que o apavora,
Potência múltipla desordenando os nomes: mantendo
o mundo
pela desordem
as fenda, E fiquem
queimadas de dentro até à boca,
Ou uma faca lhes corte
as carótidas:
que as deslumbre
o sangue deslumbrante — A garganta: se a faca
as encharca, Anéis de mármore
rude o pêlo
a auréola,
Tudo alagado desde os recessos,
Brilhando tudo,
Que a ferida elementar assome
como ao espelho: como à maneira de
cicatriz de imagem,
A força das janelas, O odor do leite
opulento
na lembrança,
E a úlcera da boca no centro da máquina
circulatória: os braços — tudo
crispado como um sistema de astros,
A estátua é um pulmão dos pés à cara,
Devora
o ar levantado, A beleza é operatória,
Uma coroa da carne da cabeça como
se a juba lhe ardesse, De mármore,
Brecha anatómica para o soluço dessa
massa salgada — o medo: o temerário movimento
da dança:
a riqueza: o sono:
as voragens,
Estás cheio de esperma,
Transpiras na raiz da cabeleira,
A língua treme dentro de ti que és
uma fala,
Respiradouro assombrado,
A mulher a cada dedo que apontavas:
a cada poro dela:
a cada choque lunar na levedura: ao teu
bafo: a leveza que
te
contemplava: o fôlego
dela:
estremecendo fincada no chão como uma estaca
de fruta, Tu és o raio dela: a rapidez: ela
é o teu sopro,
Estala,
O suspiro da lenha suada gota a gota,
Que lhe apura o corpo e o aprova,
Que o apavora,
Potência múltipla desordenando os nomes: mantendo
o mundo
pela desordem
1 090
Herberto Helder
Que Um Punhado de Ouro Fulgure No Escuso
que um punhado de ouro fulgure no escuso do mundo,
agora, antes que as palavras desapareçam,
que a palavra firmada brilhe,
porque tive também a força,
porque tive a graça e a desgraça,
porque fui e vim a andar entre muralhas de água,
espuma e grande perigo da razão e da vida,
e cheguei lá,
sobrevivente ao desastre das artes,
o louco,
o roído pelo coração adentro,
com lágrimas que me arrefeciam a cara depois de a lavrarem toda,
e já não acreditava na verdade e na realeza da forma,
nem movia a boca,
a testa,
a mão esquerda,
até que me levaram por cima das massas de água e de iodo,
rumo aos infernos que já em vida conhecera,
talvez uma braçada de rosas de inomináveis raças,
talvez um feixe de cardos,
talvez um botão simples todo cerrado sobre si mesmo,
talvez soprasse uma brisa como um nome nisso que era agora
minha língua nenhuma, sal de água grossa,
gosto agraz na boca,
um só nome para a terra toda
agora, antes que as palavras desapareçam,
que a palavra firmada brilhe,
porque tive também a força,
porque tive a graça e a desgraça,
porque fui e vim a andar entre muralhas de água,
espuma e grande perigo da razão e da vida,
e cheguei lá,
sobrevivente ao desastre das artes,
o louco,
o roído pelo coração adentro,
com lágrimas que me arrefeciam a cara depois de a lavrarem toda,
e já não acreditava na verdade e na realeza da forma,
nem movia a boca,
a testa,
a mão esquerda,
até que me levaram por cima das massas de água e de iodo,
rumo aos infernos que já em vida conhecera,
talvez uma braçada de rosas de inomináveis raças,
talvez um feixe de cardos,
talvez um botão simples todo cerrado sobre si mesmo,
talvez soprasse uma brisa como um nome nisso que era agora
minha língua nenhuma, sal de água grossa,
gosto agraz na boca,
um só nome para a terra toda
995
Herberto Helder
Todos Os Dedos da Mão 5
Estremece-se às vezes desde o chão,
Por se ter uma navalha no bolso:
por o sexo ser sumptuoso:
por causa dos buracos luminosos na camisa,
Tem-se medo do poder
da nudez,
A finura da carne: uma unhada
no coração:
o modo de fazer rodar o quarto:
o barulho que se ouve nos canos onde
a água vive — tudo
sob a ameaça de uma riqueza
brusca
em nós, Quando um raio se desencadeia
pela coluna vertebral
abaixo, O golpe entre as madeixas
frias, Toca-se na cama:
e nunca mais se dorme, Toca-se
onde os pulmões se cosem à boca para gritar,
Às vezes tem-se o dom de fincar os pés na paisagem
em massa, Um feixe
desenfeixa-se no avesso — estala
fora, Com que vozes se encontra a gente
quando
o pavor se faz música
ordem
exercício nominal?,
Arrancamo-nos a tudo como
se arranca a unha
a um dedo: ou o dedo à mão: ou a mão
ao gesto
amansando a terra como se penteia,
Pente que reabre a chaga e a alastra,
Que a aprofunda
como o sangue aprofunda a claridade
pequena
de um lenço, Se o lenço
se molha na costura que sangra
perpetuamente, A coroa irrompe da cabeça
pelo ímpeto
da realeza animal, O choque de um astro
calcinaria tudo
— o ceptro que nos crava no mundo
o manto
o escudo
os anéis como nós de dedos,
Morre-se de alta tensão,
É o relâmpago de um troço avistado,
As voragens à força de janelas,
Ou é Deus que nos olha em cheio: dentro
Por se ter uma navalha no bolso:
por o sexo ser sumptuoso:
por causa dos buracos luminosos na camisa,
Tem-se medo do poder
da nudez,
A finura da carne: uma unhada
no coração:
o modo de fazer rodar o quarto:
o barulho que se ouve nos canos onde
a água vive — tudo
sob a ameaça de uma riqueza
brusca
em nós, Quando um raio se desencadeia
pela coluna vertebral
abaixo, O golpe entre as madeixas
frias, Toca-se na cama:
e nunca mais se dorme, Toca-se
onde os pulmões se cosem à boca para gritar,
Às vezes tem-se o dom de fincar os pés na paisagem
em massa, Um feixe
desenfeixa-se no avesso — estala
fora, Com que vozes se encontra a gente
quando
o pavor se faz música
ordem
exercício nominal?,
Arrancamo-nos a tudo como
se arranca a unha
a um dedo: ou o dedo à mão: ou a mão
ao gesto
amansando a terra como se penteia,
Pente que reabre a chaga e a alastra,
Que a aprofunda
como o sangue aprofunda a claridade
pequena
de um lenço, Se o lenço
se molha na costura que sangra
perpetuamente, A coroa irrompe da cabeça
pelo ímpeto
da realeza animal, O choque de um astro
calcinaria tudo
— o ceptro que nos crava no mundo
o manto
o escudo
os anéis como nós de dedos,
Morre-se de alta tensão,
É o relâmpago de um troço avistado,
As voragens à força de janelas,
Ou é Deus que nos olha em cheio: dentro
1 088
Herberto Helder
Todos Os Dedos da Mão 5
Estremece-se às vezes desde o chão,
Por se ter uma navalha no bolso:
por o sexo ser sumptuoso:
por causa dos buracos luminosos na camisa,
Tem-se medo do poder
da nudez,
A finura da carne: uma unhada
no coração:
o modo de fazer rodar o quarto:
o barulho que se ouve nos canos onde
a água vive — tudo
sob a ameaça de uma riqueza
brusca
em nós, Quando um raio se desencadeia
pela coluna vertebral
abaixo, O golpe entre as madeixas
frias, Toca-se na cama:
e nunca mais se dorme, Toca-se
onde os pulmões se cosem à boca para gritar,
Às vezes tem-se o dom de fincar os pés na paisagem
em massa, Um feixe
desenfeixa-se no avesso — estala
fora, Com que vozes se encontra a gente
quando
o pavor se faz música
ordem
exercício nominal?,
Arrancamo-nos a tudo como
se arranca a unha
a um dedo: ou o dedo à mão: ou a mão
ao gesto
amansando a terra como se penteia,
Pente que reabre a chaga e a alastra,
Que a aprofunda
como o sangue aprofunda a claridade
pequena
de um lenço, Se o lenço
se molha na costura que sangra
perpetuamente, A coroa irrompe da cabeça
pelo ímpeto
da realeza animal, O choque de um astro
calcinaria tudo
— o ceptro que nos crava no mundo
o manto
o escudo
os anéis como nós de dedos,
Morre-se de alta tensão,
É o relâmpago de um troço avistado,
As voragens à força de janelas,
Ou é Deus que nos olha em cheio: dentro
Por se ter uma navalha no bolso:
por o sexo ser sumptuoso:
por causa dos buracos luminosos na camisa,
Tem-se medo do poder
da nudez,
A finura da carne: uma unhada
no coração:
o modo de fazer rodar o quarto:
o barulho que se ouve nos canos onde
a água vive — tudo
sob a ameaça de uma riqueza
brusca
em nós, Quando um raio se desencadeia
pela coluna vertebral
abaixo, O golpe entre as madeixas
frias, Toca-se na cama:
e nunca mais se dorme, Toca-se
onde os pulmões se cosem à boca para gritar,
Às vezes tem-se o dom de fincar os pés na paisagem
em massa, Um feixe
desenfeixa-se no avesso — estala
fora, Com que vozes se encontra a gente
quando
o pavor se faz música
ordem
exercício nominal?,
Arrancamo-nos a tudo como
se arranca a unha
a um dedo: ou o dedo à mão: ou a mão
ao gesto
amansando a terra como se penteia,
Pente que reabre a chaga e a alastra,
Que a aprofunda
como o sangue aprofunda a claridade
pequena
de um lenço, Se o lenço
se molha na costura que sangra
perpetuamente, A coroa irrompe da cabeça
pelo ímpeto
da realeza animal, O choque de um astro
calcinaria tudo
— o ceptro que nos crava no mundo
o manto
o escudo
os anéis como nós de dedos,
Morre-se de alta tensão,
É o relâmpago de um troço avistado,
As voragens à força de janelas,
Ou é Deus que nos olha em cheio: dentro
1 088
Herberto Helder
De Antemão 1
Tocaram-me na cabeça comum dedo terrificamente
doce, Sopraram-me,
Eu era límpido pela boca dentro: límpido
engolfamento,
O sorvo do coração a cara
devorada,
O sangue nos lençóis tremia ainda:
metia medo,
Se um cometa pudesse ser chamado como um animal:
ou uma braçada de perfume
tão agudo
que entrasse pela carne: se fizesse unânime
na carne
como um clarão,
Um anel vivo num dedo que vai morrer:
tocando ainda
a cabeça o rítmico pavor
do nome,
O leite circulava dentro delas,
E assim que as mães se alumiam
e trazem para si o espaço todo
como
se dançassem,
São em si mesmas uma lenta
matéria ordenada, Ou uma
crispação: uma ressaca,
E quando me tocaram na cabeça com um dedo baptismal:
eu já tinha uma ferida
um nome,
E o meu nome mantinha as coisas do mundo
todas
levantadas
doce, Sopraram-me,
Eu era límpido pela boca dentro: límpido
engolfamento,
O sorvo do coração a cara
devorada,
O sangue nos lençóis tremia ainda:
metia medo,
Se um cometa pudesse ser chamado como um animal:
ou uma braçada de perfume
tão agudo
que entrasse pela carne: se fizesse unânime
na carne
como um clarão,
Um anel vivo num dedo que vai morrer:
tocando ainda
a cabeça o rítmico pavor
do nome,
O leite circulava dentro delas,
E assim que as mães se alumiam
e trazem para si o espaço todo
como
se dançassem,
São em si mesmas uma lenta
matéria ordenada, Ou uma
crispação: uma ressaca,
E quando me tocaram na cabeça com um dedo baptismal:
eu já tinha uma ferida
um nome,
E o meu nome mantinha as coisas do mundo
todas
levantadas
1 079
Herberto Helder
De Antemão 1
Tocaram-me na cabeça comum dedo terrificamente
doce, Sopraram-me,
Eu era límpido pela boca dentro: límpido
engolfamento,
O sorvo do coração a cara
devorada,
O sangue nos lençóis tremia ainda:
metia medo,
Se um cometa pudesse ser chamado como um animal:
ou uma braçada de perfume
tão agudo
que entrasse pela carne: se fizesse unânime
na carne
como um clarão,
Um anel vivo num dedo que vai morrer:
tocando ainda
a cabeça o rítmico pavor
do nome,
O leite circulava dentro delas,
E assim que as mães se alumiam
e trazem para si o espaço todo
como
se dançassem,
São em si mesmas uma lenta
matéria ordenada, Ou uma
crispação: uma ressaca,
E quando me tocaram na cabeça com um dedo baptismal:
eu já tinha uma ferida
um nome,
E o meu nome mantinha as coisas do mundo
todas
levantadas
doce, Sopraram-me,
Eu era límpido pela boca dentro: límpido
engolfamento,
O sorvo do coração a cara
devorada,
O sangue nos lençóis tremia ainda:
metia medo,
Se um cometa pudesse ser chamado como um animal:
ou uma braçada de perfume
tão agudo
que entrasse pela carne: se fizesse unânime
na carne
como um clarão,
Um anel vivo num dedo que vai morrer:
tocando ainda
a cabeça o rítmico pavor
do nome,
O leite circulava dentro delas,
E assim que as mães se alumiam
e trazem para si o espaço todo
como
se dançassem,
São em si mesmas uma lenta
matéria ordenada, Ou uma
crispação: uma ressaca,
E quando me tocaram na cabeça com um dedo baptismal:
eu já tinha uma ferida
um nome,
E o meu nome mantinha as coisas do mundo
todas
levantadas
1 079
Herberto Helder
Onde Não Pode a Mão 2
Cortaram pranchas palpitando de água:
fincaram-nas,
Montaram esta casa: suas membranas
trémulas: a potência
do chão, Este astro opulento entreaberto
pelas labaredas,
Com uma chaga na camisa: grita,
Há alguém que grita com uma imagem
em combustão saída
do corpo: como
a parte de fora de um planeta,
Que se não toque nunca nas bolsas onde
pulsa a água,
Que se não toque nas torneiras
onde se ata o gás: nos pontos
de tensão por onde o gás rebenta,
A morte está tapada em qualquer parte
dos dedos
enredados em qualquer parte
da matéria
tremenda sob os dedos, A matéria que mata
por fogo ou afogamento,
E na garganta como o ar faz o som
a morte faz um grito:
um estrangulamento, O gás brilha muito:
a água brilha:
no interior de tudo brilha tanto
o medo
como uma força, Respiradamente: ah
jubilação da cara: o sangue dentro
na sua malha sensível
canta canta, O lirismo é louco: aterra,
O tronco:
a dor de um músculo
arroteado
fremindo, Este uso
luminoso imposto ao mundo
das paisagens, Assim sobre o pescoço
dispõe-se disto — carne
martelada por fluxos e refluxos entre
as formas e o assombro,
A comida por exemplo há que tragá-la,
Há que escoar a água
pelos ralos
da terra: ou entre os braços côncava
como uma estrela há que
sustê-la, Há que sorver veneno: gás: um
delírio tóxico, Há
que ter a transparência da morte,
E preciso ser dental: ter entranhas: ser igual
ao furor das coisas:
da metáfora
das coisas, Um pouco de acrescento
manual ao raio que destroça
a mão, Ou engolir no tubo assoprado
tanto
do ar do fundo, Há que ser
ferramenta de música
fincaram-nas,
Montaram esta casa: suas membranas
trémulas: a potência
do chão, Este astro opulento entreaberto
pelas labaredas,
Com uma chaga na camisa: grita,
Há alguém que grita com uma imagem
em combustão saída
do corpo: como
a parte de fora de um planeta,
Que se não toque nunca nas bolsas onde
pulsa a água,
Que se não toque nas torneiras
onde se ata o gás: nos pontos
de tensão por onde o gás rebenta,
A morte está tapada em qualquer parte
dos dedos
enredados em qualquer parte
da matéria
tremenda sob os dedos, A matéria que mata
por fogo ou afogamento,
E na garganta como o ar faz o som
a morte faz um grito:
um estrangulamento, O gás brilha muito:
a água brilha:
no interior de tudo brilha tanto
o medo
como uma força, Respiradamente: ah
jubilação da cara: o sangue dentro
na sua malha sensível
canta canta, O lirismo é louco: aterra,
O tronco:
a dor de um músculo
arroteado
fremindo, Este uso
luminoso imposto ao mundo
das paisagens, Assim sobre o pescoço
dispõe-se disto — carne
martelada por fluxos e refluxos entre
as formas e o assombro,
A comida por exemplo há que tragá-la,
Há que escoar a água
pelos ralos
da terra: ou entre os braços côncava
como uma estrela há que
sustê-la, Há que sorver veneno: gás: um
delírio tóxico, Há
que ter a transparência da morte,
E preciso ser dental: ter entranhas: ser igual
ao furor das coisas:
da metáfora
das coisas, Um pouco de acrescento
manual ao raio que destroça
a mão, Ou engolir no tubo assoprado
tanto
do ar do fundo, Há que ser
ferramenta de música
1 303
Herberto Helder
Onde Não Pode a Mão 2
Cortaram pranchas palpitando de água:
fincaram-nas,
Montaram esta casa: suas membranas
trémulas: a potência
do chão, Este astro opulento entreaberto
pelas labaredas,
Com uma chaga na camisa: grita,
Há alguém que grita com uma imagem
em combustão saída
do corpo: como
a parte de fora de um planeta,
Que se não toque nunca nas bolsas onde
pulsa a água,
Que se não toque nas torneiras
onde se ata o gás: nos pontos
de tensão por onde o gás rebenta,
A morte está tapada em qualquer parte
dos dedos
enredados em qualquer parte
da matéria
tremenda sob os dedos, A matéria que mata
por fogo ou afogamento,
E na garganta como o ar faz o som
a morte faz um grito:
um estrangulamento, O gás brilha muito:
a água brilha:
no interior de tudo brilha tanto
o medo
como uma força, Respiradamente: ah
jubilação da cara: o sangue dentro
na sua malha sensível
canta canta, O lirismo é louco: aterra,
O tronco:
a dor de um músculo
arroteado
fremindo, Este uso
luminoso imposto ao mundo
das paisagens, Assim sobre o pescoço
dispõe-se disto — carne
martelada por fluxos e refluxos entre
as formas e o assombro,
A comida por exemplo há que tragá-la,
Há que escoar a água
pelos ralos
da terra: ou entre os braços côncava
como uma estrela há que
sustê-la, Há que sorver veneno: gás: um
delírio tóxico, Há
que ter a transparência da morte,
E preciso ser dental: ter entranhas: ser igual
ao furor das coisas:
da metáfora
das coisas, Um pouco de acrescento
manual ao raio que destroça
a mão, Ou engolir no tubo assoprado
tanto
do ar do fundo, Há que ser
ferramenta de música
fincaram-nas,
Montaram esta casa: suas membranas
trémulas: a potência
do chão, Este astro opulento entreaberto
pelas labaredas,
Com uma chaga na camisa: grita,
Há alguém que grita com uma imagem
em combustão saída
do corpo: como
a parte de fora de um planeta,
Que se não toque nunca nas bolsas onde
pulsa a água,
Que se não toque nas torneiras
onde se ata o gás: nos pontos
de tensão por onde o gás rebenta,
A morte está tapada em qualquer parte
dos dedos
enredados em qualquer parte
da matéria
tremenda sob os dedos, A matéria que mata
por fogo ou afogamento,
E na garganta como o ar faz o som
a morte faz um grito:
um estrangulamento, O gás brilha muito:
a água brilha:
no interior de tudo brilha tanto
o medo
como uma força, Respiradamente: ah
jubilação da cara: o sangue dentro
na sua malha sensível
canta canta, O lirismo é louco: aterra,
O tronco:
a dor de um músculo
arroteado
fremindo, Este uso
luminoso imposto ao mundo
das paisagens, Assim sobre o pescoço
dispõe-se disto — carne
martelada por fluxos e refluxos entre
as formas e o assombro,
A comida por exemplo há que tragá-la,
Há que escoar a água
pelos ralos
da terra: ou entre os braços côncava
como uma estrela há que
sustê-la, Há que sorver veneno: gás: um
delírio tóxico, Há
que ter a transparência da morte,
E preciso ser dental: ter entranhas: ser igual
ao furor das coisas:
da metáfora
das coisas, Um pouco de acrescento
manual ao raio que destroça
a mão, Ou engolir no tubo assoprado
tanto
do ar do fundo, Há que ser
ferramenta de música
1 303
Herberto Helder
Não, Obrigado, Estou Bem, Nada de Novo,
não, obrigado, estou bem, nada de novo,
socorro só preciso daquele que me salvasse não sei de quê nem como,
foi simples: mandaram-me um livro praticamente sem dedicatória,
descobri que havia sangue nalgumas páginas,
não indicava de onde vinha nem quem o mandava ou até se era eu o
destinatário,
só o endereço e um carimbo secreto,
de que país de que cidade de que língua inexpugnável,
depois do caos e a solidão e o medo et coetera,
estou naturalmente mal obrigado,
e num extremo é sempre possível despenhar-se de algures para nenhures,
logo se vê,
pois tinha sangue páginas afora,
pus-me então a supor que violência era aquela entre tantas violências
de sangue que se conhecem,
e nem de uma única me lembrei, só me lembrava
que o corpo humano tem cinco litros de sangue em média,
muito
muito muito sangue com que alguém tem de se haver,
cinco litros para esbracejar ou afogar-se ou saciar,
tanto sangue para quê?
é o que acontece quando se pensa nas iluminuras das guerras,
para que se dá ou tira tanto sangue,
e das mulheres plenas vai-se ainda extravasando tanto sangue inútil delas,
não, não, estou bem, só que já não percebo nada, ou melhor:
estou mal, obrigado — e o sangue corre e escorre dentro e fora,
e o tema, qual era? digo: de que tratava o livro?
não sei, era numa língua demasiado estrangeira,
provavelmente não tratava de nada,
desconfio mesmo que eram poemas em verso dito livre,
e se existe alguma lógica, dadas as circunstâncias, o que é que se esperava?
e então exultei: porque
as coisas, as pessoas, os livros, os trajectos, as palavras, tudo à volta,
são segredos de um segredo, e só isso os sustenta no vazio do tempo,
e espero estar agora mesmo a escrever,
em verbo arcaico indefectível cerrado,
um êrro absoluto,
um êrro escorchado vivo: vós sois o sal da terra,
vós que escreveis e enviais cartas a cada um e a todos
— a mão do mundo, a música, as cartas derradeiras
e os sobrescritos sem destinatários
socorro só preciso daquele que me salvasse não sei de quê nem como,
foi simples: mandaram-me um livro praticamente sem dedicatória,
descobri que havia sangue nalgumas páginas,
não indicava de onde vinha nem quem o mandava ou até se era eu o
destinatário,
só o endereço e um carimbo secreto,
de que país de que cidade de que língua inexpugnável,
depois do caos e a solidão e o medo et coetera,
estou naturalmente mal obrigado,
e num extremo é sempre possível despenhar-se de algures para nenhures,
logo se vê,
pois tinha sangue páginas afora,
pus-me então a supor que violência era aquela entre tantas violências
de sangue que se conhecem,
e nem de uma única me lembrei, só me lembrava
que o corpo humano tem cinco litros de sangue em média,
muito
muito muito sangue com que alguém tem de se haver,
cinco litros para esbracejar ou afogar-se ou saciar,
tanto sangue para quê?
é o que acontece quando se pensa nas iluminuras das guerras,
para que se dá ou tira tanto sangue,
e das mulheres plenas vai-se ainda extravasando tanto sangue inútil delas,
não, não, estou bem, só que já não percebo nada, ou melhor:
estou mal, obrigado — e o sangue corre e escorre dentro e fora,
e o tema, qual era? digo: de que tratava o livro?
não sei, era numa língua demasiado estrangeira,
provavelmente não tratava de nada,
desconfio mesmo que eram poemas em verso dito livre,
e se existe alguma lógica, dadas as circunstâncias, o que é que se esperava?
e então exultei: porque
as coisas, as pessoas, os livros, os trajectos, as palavras, tudo à volta,
são segredos de um segredo, e só isso os sustenta no vazio do tempo,
e espero estar agora mesmo a escrever,
em verbo arcaico indefectível cerrado,
um êrro absoluto,
um êrro escorchado vivo: vós sois o sal da terra,
vós que escreveis e enviais cartas a cada um e a todos
— a mão do mundo, a música, as cartas derradeiras
e os sobrescritos sem destinatários
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Herberto Helder
Ii L
Leia-se esta paisagem da direita para a esquerda e vice-versa
e de baixo para cima.
Saltem-se as linhas alvoroçadas sob os olhos.
Quem leia, se ler, aprenda:
alguém anda sobre as águas,
alguém branco, nu, pedra de ouro na boca, braços abertos.
As águas atravessam os espelhos.
Leia-se à luz que vem das águas.
A espuma é a pressa das águas que atravessam.
Aprenda à força da luz da espuma:
esta ciência é ver com o corpo o corpo iluminado.
E enquanto atravessa, andando sobre as águas
que o iluminam,
a membrana de si próprio, espelho até ao cabelo
frio, que entre,
lendo-se,
através, para o escuro, largo nos braços,
a pancada a fogo instantâneo no meio dos olhos.
E então a luz une-se a toda a volta e cai
no abismo dos espelhos.
e de baixo para cima.
Saltem-se as linhas alvoroçadas sob os olhos.
Quem leia, se ler, aprenda:
alguém anda sobre as águas,
alguém branco, nu, pedra de ouro na boca, braços abertos.
As águas atravessam os espelhos.
Leia-se à luz que vem das águas.
A espuma é a pressa das águas que atravessam.
Aprenda à força da luz da espuma:
esta ciência é ver com o corpo o corpo iluminado.
E enquanto atravessa, andando sobre as águas
que o iluminam,
a membrana de si próprio, espelho até ao cabelo
frio, que entre,
lendo-se,
através, para o escuro, largo nos braços,
a pancada a fogo instantâneo no meio dos olhos.
E então a luz une-se a toda a volta e cai
no abismo dos espelhos.
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Herberto Helder
Ii L
Leia-se esta paisagem da direita para a esquerda e vice-versa
e de baixo para cima.
Saltem-se as linhas alvoroçadas sob os olhos.
Quem leia, se ler, aprenda:
alguém anda sobre as águas,
alguém branco, nu, pedra de ouro na boca, braços abertos.
As águas atravessam os espelhos.
Leia-se à luz que vem das águas.
A espuma é a pressa das águas que atravessam.
Aprenda à força da luz da espuma:
esta ciência é ver com o corpo o corpo iluminado.
E enquanto atravessa, andando sobre as águas
que o iluminam,
a membrana de si próprio, espelho até ao cabelo
frio, que entre,
lendo-se,
através, para o escuro, largo nos braços,
a pancada a fogo instantâneo no meio dos olhos.
E então a luz une-se a toda a volta e cai
no abismo dos espelhos.
e de baixo para cima.
Saltem-se as linhas alvoroçadas sob os olhos.
Quem leia, se ler, aprenda:
alguém anda sobre as águas,
alguém branco, nu, pedra de ouro na boca, braços abertos.
As águas atravessam os espelhos.
Leia-se à luz que vem das águas.
A espuma é a pressa das águas que atravessam.
Aprenda à força da luz da espuma:
esta ciência é ver com o corpo o corpo iluminado.
E enquanto atravessa, andando sobre as águas
que o iluminam,
a membrana de si próprio, espelho até ao cabelo
frio, que entre,
lendo-se,
através, para o escuro, largo nos braços,
a pancada a fogo instantâneo no meio dos olhos.
E então a luz une-se a toda a volta e cai
no abismo dos espelhos.
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Herberto Helder
Ii L
Leia-se esta paisagem da direita para a esquerda e vice-versa
e de baixo para cima.
Saltem-se as linhas alvoroçadas sob os olhos.
Quem leia, se ler, aprenda:
alguém anda sobre as águas,
alguém branco, nu, pedra de ouro na boca, braços abertos.
As águas atravessam os espelhos.
Leia-se à luz que vem das águas.
A espuma é a pressa das águas que atravessam.
Aprenda à força da luz da espuma:
esta ciência é ver com o corpo o corpo iluminado.
E enquanto atravessa, andando sobre as águas
que o iluminam,
a membrana de si próprio, espelho até ao cabelo
frio, que entre,
lendo-se,
através, para o escuro, largo nos braços,
a pancada a fogo instantâneo no meio dos olhos.
E então a luz une-se a toda a volta e cai
no abismo dos espelhos.
e de baixo para cima.
Saltem-se as linhas alvoroçadas sob os olhos.
Quem leia, se ler, aprenda:
alguém anda sobre as águas,
alguém branco, nu, pedra de ouro na boca, braços abertos.
As águas atravessam os espelhos.
Leia-se à luz que vem das águas.
A espuma é a pressa das águas que atravessam.
Aprenda à força da luz da espuma:
esta ciência é ver com o corpo o corpo iluminado.
E enquanto atravessa, andando sobre as águas
que o iluminam,
a membrana de si próprio, espelho até ao cabelo
frio, que entre,
lendo-se,
através, para o escuro, largo nos braços,
a pancada a fogo instantâneo no meio dos olhos.
E então a luz une-se a toda a volta e cai
no abismo dos espelhos.
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