Poemas neste tema
Vida e Existência
Herberto Helder
66
quem é que sobe do deserto com a sua alumiação,
com abundância,
desequilíbrio,
e mete dentro de mim a água tirada às minas,
e me faz nascer numa língua que não é contemporânea,
que é arcaica, anacrónica,
epiphânica,
e com essa água crua me ilumina testa,
pálpebras,
espáduas,
o sulco entre as nádegas, as vergonhas tão altas,
tão sombrias,
e me sussurra, entre colmeias, no ar:
sou obscuro, adivinha-me,
e rasga com as duas mãos as madeiras que o cercam,
ou abre as labaredas para que a escuridão se veja,
quem me pergunta por si próprio,
se sei dele,
ou outro assunto excelso, rebarbativo,
peremptório,
ou me arrebata de entre os dentes o pão canino,
ou o nó de ar na boca que eu aprontava para o acto
arrevesado, arrítmico,
do meu texto,
quem faz tremer solos e soalhos e me procura,
e não toca em nada do meu corpo,
nem nas têmporas, nem na veia jugular, nem na ponta de um cabelo
e a mão apenas se move entre lápis e caderno,
e em chegando ao caderno compõe um abuso de luz,
oh que radiação no corpo e nas suas partes pobres,
que pobres são todas as partes
do corpo, do amor, do louvor, do idioma,
quem sobe ou desce ou irrompe,
quem sem magnificência nenhuma
aparece,
e indaga das práticas autárquicas de água e fogo,
rosto a rosto,
esse mesmo é quem me encontra e quem me sopra na boca
o vulgo, o pouco, o inesperado
com abundância,
desequilíbrio,
e mete dentro de mim a água tirada às minas,
e me faz nascer numa língua que não é contemporânea,
que é arcaica, anacrónica,
epiphânica,
e com essa água crua me ilumina testa,
pálpebras,
espáduas,
o sulco entre as nádegas, as vergonhas tão altas,
tão sombrias,
e me sussurra, entre colmeias, no ar:
sou obscuro, adivinha-me,
e rasga com as duas mãos as madeiras que o cercam,
ou abre as labaredas para que a escuridão se veja,
quem me pergunta por si próprio,
se sei dele,
ou outro assunto excelso, rebarbativo,
peremptório,
ou me arrebata de entre os dentes o pão canino,
ou o nó de ar na boca que eu aprontava para o acto
arrevesado, arrítmico,
do meu texto,
quem faz tremer solos e soalhos e me procura,
e não toca em nada do meu corpo,
nem nas têmporas, nem na veia jugular, nem na ponta de um cabelo
e a mão apenas se move entre lápis e caderno,
e em chegando ao caderno compõe um abuso de luz,
oh que radiação no corpo e nas suas partes pobres,
que pobres são todas as partes
do corpo, do amor, do louvor, do idioma,
quem sobe ou desce ou irrompe,
quem sem magnificência nenhuma
aparece,
e indaga das práticas autárquicas de água e fogo,
rosto a rosto,
esse mesmo é quem me encontra e quem me sopra na boca
o vulgo, o pouco, o inesperado
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Herberto Helder
49
do mundo que malmolha ou desolha não me defendo,
nem de mim mesmo, à força
de morrer de mim na minha própria língua,
porque eu, o mundo e a língua
somos um só
desentendimento
nem de mim mesmo, à força
de morrer de mim na minha própria língua,
porque eu, o mundo e a língua
somos um só
desentendimento
1 096
Herberto Helder
58
colinas aparecidas numa volta de oxigénio, frutas
aonde o ar faz muita luz,
e em baixo, de azougue, obsessiva, entre papéis e dedos,
a língua autora,
rouca e múrmura,
e eu, servente, nem sei o que me pôs nas obras dessa língua:
paixão, licantropia,
holograma,
poema,
que alumiação, que toque nas coisas, falada
do fundo do ar,
do fundo da garganta à fome da boca,
e que vida compacta enfrentar tantas palavras
carregadas de protões,
a fria alegria intrínseca de uma língua,
delgadas raparigas, cabelo trémulo, poalhas de ouro à volta,
as vozes de estrias riscadas incham cantando cada vez mais alto
a língua que me atravessa, e morre,
e não sei qual morrerá primeiro, se o inglês ou o curdo,
Eli, Eli, lamma sabacthani, porque me abandonaste entre os semáforos da gramática
a mim que só pedira um dom pequeno?
e o céu retirou-se como um livro que se enrola:
e todos os montes e ilhas se moveram dos seus lugares,
acabou-se-me a língua bêbeda,
sôfrego, subtil, sibilante, sucessivo, solúvel,
comi-a como pão vivo,
bebi-a como água crua,
que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha
do que uma linha escrita,
o reino por essa linha lírica em que aprendi a morrer,
e porque estou morrendo aprendo
a unidade do mundo,
e tu, Canção, se alguém te perguntasse como não morro,
responde-lhe que porque
morro,
também por política rítmica, outro, louco
da força que lhe dava a língua,
queria tudo, até que ficasse mudo,
e outro ainda dizia que o tempo venera a língua,
e neste mistério que como não morro
que porque morro, escrevo
a linha que me custa o reino e não passa pela agulha,
e embora as frutas se movam nas colinas,
estou a morrer a língua que não é curda nem inglesa,
a morrê-la ao rés das unhas e da boca
aonde o ar faz muita luz,
e em baixo, de azougue, obsessiva, entre papéis e dedos,
a língua autora,
rouca e múrmura,
e eu, servente, nem sei o que me pôs nas obras dessa língua:
paixão, licantropia,
holograma,
poema,
que alumiação, que toque nas coisas, falada
do fundo do ar,
do fundo da garganta à fome da boca,
e que vida compacta enfrentar tantas palavras
carregadas de protões,
a fria alegria intrínseca de uma língua,
delgadas raparigas, cabelo trémulo, poalhas de ouro à volta,
as vozes de estrias riscadas incham cantando cada vez mais alto
a língua que me atravessa, e morre,
e não sei qual morrerá primeiro, se o inglês ou o curdo,
Eli, Eli, lamma sabacthani, porque me abandonaste entre os semáforos da gramática
a mim que só pedira um dom pequeno?
e o céu retirou-se como um livro que se enrola:
e todos os montes e ilhas se moveram dos seus lugares,
acabou-se-me a língua bêbeda,
sôfrego, subtil, sibilante, sucessivo, solúvel,
comi-a como pão vivo,
bebi-a como água crua,
que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha
do que uma linha escrita,
o reino por essa linha lírica em que aprendi a morrer,
e porque estou morrendo aprendo
a unidade do mundo,
e tu, Canção, se alguém te perguntasse como não morro,
responde-lhe que porque
morro,
também por política rítmica, outro, louco
da força que lhe dava a língua,
queria tudo, até que ficasse mudo,
e outro ainda dizia que o tempo venera a língua,
e neste mistério que como não morro
que porque morro, escrevo
a linha que me custa o reino e não passa pela agulha,
e embora as frutas se movam nas colinas,
estou a morrer a língua que não é curda nem inglesa,
a morrê-la ao rés das unhas e da boca
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Herberto Helder
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colinas aparecidas numa volta de oxigénio, frutas
aonde o ar faz muita luz,
e em baixo, de azougue, obsessiva, entre papéis e dedos,
a língua autora,
rouca e múrmura,
e eu, servente, nem sei o que me pôs nas obras dessa língua:
paixão, licantropia,
holograma,
poema,
que alumiação, que toque nas coisas, falada
do fundo do ar,
do fundo da garganta à fome da boca,
e que vida compacta enfrentar tantas palavras
carregadas de protões,
a fria alegria intrínseca de uma língua,
delgadas raparigas, cabelo trémulo, poalhas de ouro à volta,
as vozes de estrias riscadas incham cantando cada vez mais alto
a língua que me atravessa, e morre,
e não sei qual morrerá primeiro, se o inglês ou o curdo,
Eli, Eli, lamma sabacthani, porque me abandonaste entre os semáforos da gramática
a mim que só pedira um dom pequeno?
e o céu retirou-se como um livro que se enrola:
e todos os montes e ilhas se moveram dos seus lugares,
acabou-se-me a língua bêbeda,
sôfrego, subtil, sibilante, sucessivo, solúvel,
comi-a como pão vivo,
bebi-a como água crua,
que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha
do que uma linha escrita,
o reino por essa linha lírica em que aprendi a morrer,
e porque estou morrendo aprendo
a unidade do mundo,
e tu, Canção, se alguém te perguntasse como não morro,
responde-lhe que porque
morro,
também por política rítmica, outro, louco
da força que lhe dava a língua,
queria tudo, até que ficasse mudo,
e outro ainda dizia que o tempo venera a língua,
e neste mistério que como não morro
que porque morro, escrevo
a linha que me custa o reino e não passa pela agulha,
e embora as frutas se movam nas colinas,
estou a morrer a língua que não é curda nem inglesa,
a morrê-la ao rés das unhas e da boca
aonde o ar faz muita luz,
e em baixo, de azougue, obsessiva, entre papéis e dedos,
a língua autora,
rouca e múrmura,
e eu, servente, nem sei o que me pôs nas obras dessa língua:
paixão, licantropia,
holograma,
poema,
que alumiação, que toque nas coisas, falada
do fundo do ar,
do fundo da garganta à fome da boca,
e que vida compacta enfrentar tantas palavras
carregadas de protões,
a fria alegria intrínseca de uma língua,
delgadas raparigas, cabelo trémulo, poalhas de ouro à volta,
as vozes de estrias riscadas incham cantando cada vez mais alto
a língua que me atravessa, e morre,
e não sei qual morrerá primeiro, se o inglês ou o curdo,
Eli, Eli, lamma sabacthani, porque me abandonaste entre os semáforos da gramática
a mim que só pedira um dom pequeno?
e o céu retirou-se como um livro que se enrola:
e todos os montes e ilhas se moveram dos seus lugares,
acabou-se-me a língua bêbeda,
sôfrego, subtil, sibilante, sucessivo, solúvel,
comi-a como pão vivo,
bebi-a como água crua,
que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha
do que uma linha escrita,
o reino por essa linha lírica em que aprendi a morrer,
e porque estou morrendo aprendo
a unidade do mundo,
e tu, Canção, se alguém te perguntasse como não morro,
responde-lhe que porque
morro,
também por política rítmica, outro, louco
da força que lhe dava a língua,
queria tudo, até que ficasse mudo,
e outro ainda dizia que o tempo venera a língua,
e neste mistério que como não morro
que porque morro, escrevo
a linha que me custa o reino e não passa pela agulha,
e embora as frutas se movam nas colinas,
estou a morrer a língua que não é curda nem inglesa,
a morrê-la ao rés das unhas e da boca
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colinas aparecidas numa volta de oxigénio, frutas
aonde o ar faz muita luz,
e em baixo, de azougue, obsessiva, entre papéis e dedos,
a língua autora,
rouca e múrmura,
e eu, servente, nem sei o que me pôs nas obras dessa língua:
paixão, licantropia,
holograma,
poema,
que alumiação, que toque nas coisas, falada
do fundo do ar,
do fundo da garganta à fome da boca,
e que vida compacta enfrentar tantas palavras
carregadas de protões,
a fria alegria intrínseca de uma língua,
delgadas raparigas, cabelo trémulo, poalhas de ouro à volta,
as vozes de estrias riscadas incham cantando cada vez mais alto
a língua que me atravessa, e morre,
e não sei qual morrerá primeiro, se o inglês ou o curdo,
Eli, Eli, lamma sabacthani, porque me abandonaste entre os semáforos da gramática
a mim que só pedira um dom pequeno?
e o céu retirou-se como um livro que se enrola:
e todos os montes e ilhas se moveram dos seus lugares,
acabou-se-me a língua bêbeda,
sôfrego, subtil, sibilante, sucessivo, solúvel,
comi-a como pão vivo,
bebi-a como água crua,
que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha
do que uma linha escrita,
o reino por essa linha lírica em que aprendi a morrer,
e porque estou morrendo aprendo
a unidade do mundo,
e tu, Canção, se alguém te perguntasse como não morro,
responde-lhe que porque
morro,
também por política rítmica, outro, louco
da força que lhe dava a língua,
queria tudo, até que ficasse mudo,
e outro ainda dizia que o tempo venera a língua,
e neste mistério que como não morro
que porque morro, escrevo
a linha que me custa o reino e não passa pela agulha,
e embora as frutas se movam nas colinas,
estou a morrer a língua que não é curda nem inglesa,
a morrê-la ao rés das unhas e da boca
aonde o ar faz muita luz,
e em baixo, de azougue, obsessiva, entre papéis e dedos,
a língua autora,
rouca e múrmura,
e eu, servente, nem sei o que me pôs nas obras dessa língua:
paixão, licantropia,
holograma,
poema,
que alumiação, que toque nas coisas, falada
do fundo do ar,
do fundo da garganta à fome da boca,
e que vida compacta enfrentar tantas palavras
carregadas de protões,
a fria alegria intrínseca de uma língua,
delgadas raparigas, cabelo trémulo, poalhas de ouro à volta,
as vozes de estrias riscadas incham cantando cada vez mais alto
a língua que me atravessa, e morre,
e não sei qual morrerá primeiro, se o inglês ou o curdo,
Eli, Eli, lamma sabacthani, porque me abandonaste entre os semáforos da gramática
a mim que só pedira um dom pequeno?
e o céu retirou-se como um livro que se enrola:
e todos os montes e ilhas se moveram dos seus lugares,
acabou-se-me a língua bêbeda,
sôfrego, subtil, sibilante, sucessivo, solúvel,
comi-a como pão vivo,
bebi-a como água crua,
que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha
do que uma linha escrita,
o reino por essa linha lírica em que aprendi a morrer,
e porque estou morrendo aprendo
a unidade do mundo,
e tu, Canção, se alguém te perguntasse como não morro,
responde-lhe que porque
morro,
também por política rítmica, outro, louco
da força que lhe dava a língua,
queria tudo, até que ficasse mudo,
e outro ainda dizia que o tempo venera a língua,
e neste mistério que como não morro
que porque morro, escrevo
a linha que me custa o reino e não passa pela agulha,
e embora as frutas se movam nas colinas,
estou a morrer a língua que não é curda nem inglesa,
a morrê-la ao rés das unhas e da boca
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Herberto Helder
38
roupas pesadas de sangue, cabeças
como de mármore e ouro moído,
a luz arranca-as,
nem as víboras poderiam coroá-las,
nem os elementos ar e fogo,
e assim em silêncio amadurecem
madeixas, pálpebras,
gargantas,
fremindo ainda do sangue que ficou nas roupas,
fremindo no ar que chega aos poucos,
a pouca estrela,
e abaixo do nó de luz, abaixo
da avassaladora floração do amarelo no escuro,
o sangue,
porque ainda se respira um pouco,
rápido,
destroncadas,
o ar grande aberto para que a luz as encharque
<;e os dedos?
o sombrio, trabalham-no
os dedos bêbedos
como de mármore e ouro moído,
a luz arranca-as,
nem as víboras poderiam coroá-las,
nem os elementos ar e fogo,
e assim em silêncio amadurecem
madeixas, pálpebras,
gargantas,
fremindo ainda do sangue que ficou nas roupas,
fremindo no ar que chega aos poucos,
a pouca estrela,
e abaixo do nó de luz, abaixo
da avassaladora floração do amarelo no escuro,
o sangue,
porque ainda se respira um pouco,
rápido,
destroncadas,
o ar grande aberto para que a luz as encharque
<;e os dedos?
o sombrio, trabalham-no
os dedos bêbedos
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Herberto Helder
38
roupas pesadas de sangue, cabeças
como de mármore e ouro moído,
a luz arranca-as,
nem as víboras poderiam coroá-las,
nem os elementos ar e fogo,
e assim em silêncio amadurecem
madeixas, pálpebras,
gargantas,
fremindo ainda do sangue que ficou nas roupas,
fremindo no ar que chega aos poucos,
a pouca estrela,
e abaixo do nó de luz, abaixo
da avassaladora floração do amarelo no escuro,
o sangue,
porque ainda se respira um pouco,
rápido,
destroncadas,
o ar grande aberto para que a luz as encharque
<;e os dedos?
o sombrio, trabalham-no
os dedos bêbedos
como de mármore e ouro moído,
a luz arranca-as,
nem as víboras poderiam coroá-las,
nem os elementos ar e fogo,
e assim em silêncio amadurecem
madeixas, pálpebras,
gargantas,
fremindo ainda do sangue que ficou nas roupas,
fremindo no ar que chega aos poucos,
a pouca estrela,
e abaixo do nó de luz, abaixo
da avassaladora floração do amarelo no escuro,
o sangue,
porque ainda se respira um pouco,
rápido,
destroncadas,
o ar grande aberto para que a luz as encharque
<;e os dedos?
o sombrio, trabalham-no
os dedos bêbedos
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Herberto Helder
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e eu que sou louco, um pouco, não ao ponto de ser belo ou maravilhoso
ou assintáctico ou mágico, mas:
um pouco louco,
porque faço com mãos estilísticas um invento fora e dentro dos estados
naturais:
e a faúlha e o ar à volta dela, jóia, digo, quero-a de repente,
e as matérias maduras e dramáticas: ouro, petróleo:
e com que potência mandibular me debruço sobre o prato,
e ávido e inculto,
com mão aprendiz côlho o áspero alimento do mundo,
e rosto, membros, torso, radiações dos dedos,
trabalho no meu nome,
obra pequena de hemoglobina, enxofre, células, osso, lume,
para estar mais perto de quem acaso me chame ou toque
— eu,
sem beleza nem maravilha,
só dor,
desamor ou descuidada memória —
mas me conheça por isso que não é bem música,
talvez sim um som
dificílimo, sêco, acerbo, rouco, côncavo, precaríssimo
de apenas consoantes,
pregos
ou assintáctico ou mágico, mas:
um pouco louco,
porque faço com mãos estilísticas um invento fora e dentro dos estados
naturais:
e a faúlha e o ar à volta dela, jóia, digo, quero-a de repente,
e as matérias maduras e dramáticas: ouro, petróleo:
e com que potência mandibular me debruço sobre o prato,
e ávido e inculto,
com mão aprendiz côlho o áspero alimento do mundo,
e rosto, membros, torso, radiações dos dedos,
trabalho no meu nome,
obra pequena de hemoglobina, enxofre, células, osso, lume,
para estar mais perto de quem acaso me chame ou toque
— eu,
sem beleza nem maravilha,
só dor,
desamor ou descuidada memória —
mas me conheça por isso que não é bem música,
talvez sim um som
dificílimo, sêco, acerbo, rouco, côncavo, precaríssimo
de apenas consoantes,
pregos
552
Herberto Helder
68
Redivivo. E basta a luz do mundo movida ao toque no interruptor,
ou de lado
a lado negro, quando se é esquerdo,
o amargo e o canhestro à custa
de fôlego e lenta
bebedeira: o esforço de estar vivo —
e lunas e esteias: e as vozes magnificam pequenas
coisas das casas, e teias dos elementos
pelas janelas, teias
portas adentro: da água compacta no corpo das paredes,
do ar a circundar as zonas veementes dos utensílios
— e a música mirabilíssima que ninguém escuta:
o duro, duro nome da tua oficina de mão torta,
boca cheia de areia estrita, áspera cabeça,
tanto que só pensas:
se isto é música, ou condição de música, se isto é para estar redivivo,
então não percebo sequer o movimento, digamos,
da laranja
na fruteira, ou o movimento da luz na lâmpada,
ou
o movimento do sangue na garganta
impura — e menos ainda percebo o movimento que já sinto
no papel se se aproxima, por exemplo,
pelo tremor da textura
do caderno e da força da
esferográfica dolorosa, a palavra Deus saída pronta,
arrebatada aos limbos, como se diz que se arrebata
aos ferros, a poder de tenazes e martelos,
um objecto, vá lá, supremo:
uma chave, quer
se queira quer se não queira, mas
que não abre coisa alguma: que abre, a partir de como se está de rojo,
um espaço em cada nome, e nesse espaço se possa
dançar, no abismo entre um quarto
e outro quarto da terra, dançar dentro do ar como para
o ar bater nas paredes, e as paredes
estremecerem com a água esmagada contra si própria —
e depois ninguém fala, e cada
coisa actua
sobre cada coisa, e tudo o que é visível abala
o território invisível.
Redivivo. E foi por essa mínima palavra que apareceu não
se sabe o quê que arrancou
à folha e à esferográfica canhota a poderosa superfície
de Deus, e assim é
que te encontraste redivivo, tu que tinhas morrido um momento antes,
apenas.
ou de lado
a lado negro, quando se é esquerdo,
o amargo e o canhestro à custa
de fôlego e lenta
bebedeira: o esforço de estar vivo —
e lunas e esteias: e as vozes magnificam pequenas
coisas das casas, e teias dos elementos
pelas janelas, teias
portas adentro: da água compacta no corpo das paredes,
do ar a circundar as zonas veementes dos utensílios
— e a música mirabilíssima que ninguém escuta:
o duro, duro nome da tua oficina de mão torta,
boca cheia de areia estrita, áspera cabeça,
tanto que só pensas:
se isto é música, ou condição de música, se isto é para estar redivivo,
então não percebo sequer o movimento, digamos,
da laranja
na fruteira, ou o movimento da luz na lâmpada,
ou
o movimento do sangue na garganta
impura — e menos ainda percebo o movimento que já sinto
no papel se se aproxima, por exemplo,
pelo tremor da textura
do caderno e da força da
esferográfica dolorosa, a palavra Deus saída pronta,
arrebatada aos limbos, como se diz que se arrebata
aos ferros, a poder de tenazes e martelos,
um objecto, vá lá, supremo:
uma chave, quer
se queira quer se não queira, mas
que não abre coisa alguma: que abre, a partir de como se está de rojo,
um espaço em cada nome, e nesse espaço se possa
dançar, no abismo entre um quarto
e outro quarto da terra, dançar dentro do ar como para
o ar bater nas paredes, e as paredes
estremecerem com a água esmagada contra si própria —
e depois ninguém fala, e cada
coisa actua
sobre cada coisa, e tudo o que é visível abala
o território invisível.
Redivivo. E foi por essa mínima palavra que apareceu não
se sabe o quê que arrancou
à folha e à esferográfica canhota a poderosa superfície
de Deus, e assim é
que te encontraste redivivo, tu que tinhas morrido um momento antes,
apenas.
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Herberto Helder
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Redivivo. E basta a luz do mundo movida ao toque no interruptor,
ou de lado
a lado negro, quando se é esquerdo,
o amargo e o canhestro à custa
de fôlego e lenta
bebedeira: o esforço de estar vivo —
e lunas e esteias: e as vozes magnificam pequenas
coisas das casas, e teias dos elementos
pelas janelas, teias
portas adentro: da água compacta no corpo das paredes,
do ar a circundar as zonas veementes dos utensílios
— e a música mirabilíssima que ninguém escuta:
o duro, duro nome da tua oficina de mão torta,
boca cheia de areia estrita, áspera cabeça,
tanto que só pensas:
se isto é música, ou condição de música, se isto é para estar redivivo,
então não percebo sequer o movimento, digamos,
da laranja
na fruteira, ou o movimento da luz na lâmpada,
ou
o movimento do sangue na garganta
impura — e menos ainda percebo o movimento que já sinto
no papel se se aproxima, por exemplo,
pelo tremor da textura
do caderno e da força da
esferográfica dolorosa, a palavra Deus saída pronta,
arrebatada aos limbos, como se diz que se arrebata
aos ferros, a poder de tenazes e martelos,
um objecto, vá lá, supremo:
uma chave, quer
se queira quer se não queira, mas
que não abre coisa alguma: que abre, a partir de como se está de rojo,
um espaço em cada nome, e nesse espaço se possa
dançar, no abismo entre um quarto
e outro quarto da terra, dançar dentro do ar como para
o ar bater nas paredes, e as paredes
estremecerem com a água esmagada contra si própria —
e depois ninguém fala, e cada
coisa actua
sobre cada coisa, e tudo o que é visível abala
o território invisível.
Redivivo. E foi por essa mínima palavra que apareceu não
se sabe o quê que arrancou
à folha e à esferográfica canhota a poderosa superfície
de Deus, e assim é
que te encontraste redivivo, tu que tinhas morrido um momento antes,
apenas.
ou de lado
a lado negro, quando se é esquerdo,
o amargo e o canhestro à custa
de fôlego e lenta
bebedeira: o esforço de estar vivo —
e lunas e esteias: e as vozes magnificam pequenas
coisas das casas, e teias dos elementos
pelas janelas, teias
portas adentro: da água compacta no corpo das paredes,
do ar a circundar as zonas veementes dos utensílios
— e a música mirabilíssima que ninguém escuta:
o duro, duro nome da tua oficina de mão torta,
boca cheia de areia estrita, áspera cabeça,
tanto que só pensas:
se isto é música, ou condição de música, se isto é para estar redivivo,
então não percebo sequer o movimento, digamos,
da laranja
na fruteira, ou o movimento da luz na lâmpada,
ou
o movimento do sangue na garganta
impura — e menos ainda percebo o movimento que já sinto
no papel se se aproxima, por exemplo,
pelo tremor da textura
do caderno e da força da
esferográfica dolorosa, a palavra Deus saída pronta,
arrebatada aos limbos, como se diz que se arrebata
aos ferros, a poder de tenazes e martelos,
um objecto, vá lá, supremo:
uma chave, quer
se queira quer se não queira, mas
que não abre coisa alguma: que abre, a partir de como se está de rojo,
um espaço em cada nome, e nesse espaço se possa
dançar, no abismo entre um quarto
e outro quarto da terra, dançar dentro do ar como para
o ar bater nas paredes, e as paredes
estremecerem com a água esmagada contra si própria —
e depois ninguém fala, e cada
coisa actua
sobre cada coisa, e tudo o que é visível abala
o território invisível.
Redivivo. E foi por essa mínima palavra que apareceu não
se sabe o quê que arrancou
à folha e à esferográfica canhota a poderosa superfície
de Deus, e assim é
que te encontraste redivivo, tu que tinhas morrido um momento antes,
apenas.
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Herberto Helder
23
cabelo cortado vivo,
marga contra os dedos,
umbigo,
a plenos pulmões das formas, o mundo, como respira o mundo!
áruns por onde respira e brilha
— marga infusa: a matéria que,
arrancada, respira e
respirando no ar ininterrupto dolorosamente brilha,
no seu estado avulso
brilha, absoluta
— e o sangue urgente inundando a boca:
tão curta canção para tamanha vida:
aloés por onde o chão respira,
e a mão que brilha quando os toca,
tão pouca mão em tão nascida obra
— e anéis de um corpo cortado vivo
no cabelo,
na marga contra os dedos,
no umbigo:
na folha escura onde cada frase brilha
um relâmpago apenas antes de ser escrita
marga contra os dedos,
umbigo,
a plenos pulmões das formas, o mundo, como respira o mundo!
áruns por onde respira e brilha
— marga infusa: a matéria que,
arrancada, respira e
respirando no ar ininterrupto dolorosamente brilha,
no seu estado avulso
brilha, absoluta
— e o sangue urgente inundando a boca:
tão curta canção para tamanha vida:
aloés por onde o chão respira,
e a mão que brilha quando os toca,
tão pouca mão em tão nascida obra
— e anéis de um corpo cortado vivo
no cabelo,
na marga contra os dedos,
no umbigo:
na folha escura onde cada frase brilha
um relâmpago apenas antes de ser escrita
1 140
Herberto Helder
23
cabelo cortado vivo,
marga contra os dedos,
umbigo,
a plenos pulmões das formas, o mundo, como respira o mundo!
áruns por onde respira e brilha
— marga infusa: a matéria que,
arrancada, respira e
respirando no ar ininterrupto dolorosamente brilha,
no seu estado avulso
brilha, absoluta
— e o sangue urgente inundando a boca:
tão curta canção para tamanha vida:
aloés por onde o chão respira,
e a mão que brilha quando os toca,
tão pouca mão em tão nascida obra
— e anéis de um corpo cortado vivo
no cabelo,
na marga contra os dedos,
no umbigo:
na folha escura onde cada frase brilha
um relâmpago apenas antes de ser escrita
marga contra os dedos,
umbigo,
a plenos pulmões das formas, o mundo, como respira o mundo!
áruns por onde respira e brilha
— marga infusa: a matéria que,
arrancada, respira e
respirando no ar ininterrupto dolorosamente brilha,
no seu estado avulso
brilha, absoluta
— e o sangue urgente inundando a boca:
tão curta canção para tamanha vida:
aloés por onde o chão respira,
e a mão que brilha quando os toca,
tão pouca mão em tão nascida obra
— e anéis de um corpo cortado vivo
no cabelo,
na marga contra os dedos,
no umbigo:
na folha escura onde cada frase brilha
um relâmpago apenas antes de ser escrita
1 140
Herberto Helder
32
para que venha alguém no estio e lhe arranque o coração,
e o devore,
e o gosto seja tão abundante que lhe magoe a boca
e tudo quanto nela se apoie:
soluço, respiração, idioma,
e abale os modos nada cuidadosos do corpo:
o fruto onde o cacto se concentra,
o cacto que frutifica uma só vez na vida
e o devore,
e o gosto seja tão abundante que lhe magoe a boca
e tudo quanto nela se apoie:
soluço, respiração, idioma,
e abale os modos nada cuidadosos do corpo:
o fruto onde o cacto se concentra,
o cacto que frutifica uma só vez na vida
660
Herberto Helder
20
põem-te a água defronte e a mão aberta dentro da água não se apaga,
aufere-a,
relumbra dela,
defronte como uma dádiva,
e apoias-te no teu próprio sangue,
e a idade apoia-se na sua memória,
o teu nome obscurece-te,
fundo, quente, animal, acerbo,
minado a gás e sangue, os genitais em baixo, o peso,
e a mão aberta dentro da água aberta,
e como estremece tudo
e ele disse: não deixes fechar-se a ferida
— ,;beleza? nada
que num dia abrupto seja mamífero, magnífico,
deixa apenas correr o sangue, à frente ou
atrás da camisa
ou na zona animal da cabeça ou na uretra em vez de esperma
ou
na boca com o frescor do idioma,
enquanto a parte mais escura do mundo aumenta
em cada reduto,
e corra pelos rasgões mostrando o mais oculto,
disse
ele, o sangue — se o imo da carne agreste
que comemos, se a corrida de uma constelação em cima
da água que pára — não deixes,
disse,
fechar-se a ferida e refluir, através de tantos
trabalhos de tubos:
o sangue apanha-te das unhas ao frio do cabelo,
é onde é
a agonia, não há camélias, ameixas,
a maravilha, só
o corpo que é a sua própria ferida,
sangra, disse ele: que sangra muito
aufere-a,
relumbra dela,
defronte como uma dádiva,
e apoias-te no teu próprio sangue,
e a idade apoia-se na sua memória,
o teu nome obscurece-te,
fundo, quente, animal, acerbo,
minado a gás e sangue, os genitais em baixo, o peso,
e a mão aberta dentro da água aberta,
e como estremece tudo
e ele disse: não deixes fechar-se a ferida
— ,;beleza? nada
que num dia abrupto seja mamífero, magnífico,
deixa apenas correr o sangue, à frente ou
atrás da camisa
ou na zona animal da cabeça ou na uretra em vez de esperma
ou
na boca com o frescor do idioma,
enquanto a parte mais escura do mundo aumenta
em cada reduto,
e corra pelos rasgões mostrando o mais oculto,
disse
ele, o sangue — se o imo da carne agreste
que comemos, se a corrida de uma constelação em cima
da água que pára — não deixes,
disse,
fechar-se a ferida e refluir, através de tantos
trabalhos de tubos:
o sangue apanha-te das unhas ao frio do cabelo,
é onde é
a agonia, não há camélias, ameixas,
a maravilha, só
o corpo que é a sua própria ferida,
sangra, disse ele: que sangra muito
1 153
Herberto Helder
20
põem-te a água defronte e a mão aberta dentro da água não se apaga,
aufere-a,
relumbra dela,
defronte como uma dádiva,
e apoias-te no teu próprio sangue,
e a idade apoia-se na sua memória,
o teu nome obscurece-te,
fundo, quente, animal, acerbo,
minado a gás e sangue, os genitais em baixo, o peso,
e a mão aberta dentro da água aberta,
e como estremece tudo
e ele disse: não deixes fechar-se a ferida
— ,;beleza? nada
que num dia abrupto seja mamífero, magnífico,
deixa apenas correr o sangue, à frente ou
atrás da camisa
ou na zona animal da cabeça ou na uretra em vez de esperma
ou
na boca com o frescor do idioma,
enquanto a parte mais escura do mundo aumenta
em cada reduto,
e corra pelos rasgões mostrando o mais oculto,
disse
ele, o sangue — se o imo da carne agreste
que comemos, se a corrida de uma constelação em cima
da água que pára — não deixes,
disse,
fechar-se a ferida e refluir, através de tantos
trabalhos de tubos:
o sangue apanha-te das unhas ao frio do cabelo,
é onde é
a agonia, não há camélias, ameixas,
a maravilha, só
o corpo que é a sua própria ferida,
sangra, disse ele: que sangra muito
aufere-a,
relumbra dela,
defronte como uma dádiva,
e apoias-te no teu próprio sangue,
e a idade apoia-se na sua memória,
o teu nome obscurece-te,
fundo, quente, animal, acerbo,
minado a gás e sangue, os genitais em baixo, o peso,
e a mão aberta dentro da água aberta,
e como estremece tudo
e ele disse: não deixes fechar-se a ferida
— ,;beleza? nada
que num dia abrupto seja mamífero, magnífico,
deixa apenas correr o sangue, à frente ou
atrás da camisa
ou na zona animal da cabeça ou na uretra em vez de esperma
ou
na boca com o frescor do idioma,
enquanto a parte mais escura do mundo aumenta
em cada reduto,
e corra pelos rasgões mostrando o mais oculto,
disse
ele, o sangue — se o imo da carne agreste
que comemos, se a corrida de uma constelação em cima
da água que pára — não deixes,
disse,
fechar-se a ferida e refluir, através de tantos
trabalhos de tubos:
o sangue apanha-te das unhas ao frio do cabelo,
é onde é
a agonia, não há camélias, ameixas,
a maravilha, só
o corpo que é a sua própria ferida,
sangra, disse ele: que sangra muito
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Herberto Helder
20
põem-te a água defronte e a mão aberta dentro da água não se apaga,
aufere-a,
relumbra dela,
defronte como uma dádiva,
e apoias-te no teu próprio sangue,
e a idade apoia-se na sua memória,
o teu nome obscurece-te,
fundo, quente, animal, acerbo,
minado a gás e sangue, os genitais em baixo, o peso,
e a mão aberta dentro da água aberta,
e como estremece tudo
e ele disse: não deixes fechar-se a ferida
— ,;beleza? nada
que num dia abrupto seja mamífero, magnífico,
deixa apenas correr o sangue, à frente ou
atrás da camisa
ou na zona animal da cabeça ou na uretra em vez de esperma
ou
na boca com o frescor do idioma,
enquanto a parte mais escura do mundo aumenta
em cada reduto,
e corra pelos rasgões mostrando o mais oculto,
disse
ele, o sangue — se o imo da carne agreste
que comemos, se a corrida de uma constelação em cima
da água que pára — não deixes,
disse,
fechar-se a ferida e refluir, através de tantos
trabalhos de tubos:
o sangue apanha-te das unhas ao frio do cabelo,
é onde é
a agonia, não há camélias, ameixas,
a maravilha, só
o corpo que é a sua própria ferida,
sangra, disse ele: que sangra muito
aufere-a,
relumbra dela,
defronte como uma dádiva,
e apoias-te no teu próprio sangue,
e a idade apoia-se na sua memória,
o teu nome obscurece-te,
fundo, quente, animal, acerbo,
minado a gás e sangue, os genitais em baixo, o peso,
e a mão aberta dentro da água aberta,
e como estremece tudo
e ele disse: não deixes fechar-se a ferida
— ,;beleza? nada
que num dia abrupto seja mamífero, magnífico,
deixa apenas correr o sangue, à frente ou
atrás da camisa
ou na zona animal da cabeça ou na uretra em vez de esperma
ou
na boca com o frescor do idioma,
enquanto a parte mais escura do mundo aumenta
em cada reduto,
e corra pelos rasgões mostrando o mais oculto,
disse
ele, o sangue — se o imo da carne agreste
que comemos, se a corrida de uma constelação em cima
da água que pára — não deixes,
disse,
fechar-se a ferida e refluir, através de tantos
trabalhos de tubos:
o sangue apanha-te das unhas ao frio do cabelo,
é onde é
a agonia, não há camélias, ameixas,
a maravilha, só
o corpo que é a sua própria ferida,
sangra, disse ele: que sangra muito
1 153
Herberto Helder
40
a madeira trabalhamo-la às escondidas,
e com o barro e o ferro às escondidas reluzimos no escuro,
o Deus que há-de vir não veio ainda,
a água não sobe ao rosto,
não sobe com luz ao rosto como devia e não trabalhamos com
água coada e fogo,
quebrou-se a enxuta substância da terra,
e então o Deus que há-de vir não há-de vir nunca
e com o barro e o ferro às escondidas reluzimos no escuro,
o Deus que há-de vir não veio ainda,
a água não sobe ao rosto,
não sobe com luz ao rosto como devia e não trabalhamos com
água coada e fogo,
quebrou-se a enxuta substância da terra,
e então o Deus que há-de vir não há-de vir nunca
1 058
Herberto Helder
43
se procuro entre as roupas, nas gavetas, entre as armas da cozinha,
o mais forte: aço
que as forjas tornaram maduro:
faca, tesoura, garfo,
por trabalho de luz e dedos,
faiscavam,
ou pedra ou vidro ou madeira,
e que eu lhe toque, a esse objecto no auge,
que me abale um electrochoque,
porque Deus abrasou a matriz de tudo com um dedo,
a volta posta na mão
encheu-me de ar o rosto, e o ar por fora
sustentava-o: é aqui que vivo:
perdendo artes, ciências gerais, os dons, a linguagem,
a ferro e fôlego
o mais forte: aço
que as forjas tornaram maduro:
faca, tesoura, garfo,
por trabalho de luz e dedos,
faiscavam,
ou pedra ou vidro ou madeira,
e que eu lhe toque, a esse objecto no auge,
que me abale um electrochoque,
porque Deus abrasou a matriz de tudo com um dedo,
a volta posta na mão
encheu-me de ar o rosto, e o ar por fora
sustentava-o: é aqui que vivo:
perdendo artes, ciências gerais, os dons, a linguagem,
a ferro e fôlego
1 066
Herberto Helder
43
se procuro entre as roupas, nas gavetas, entre as armas da cozinha,
o mais forte: aço
que as forjas tornaram maduro:
faca, tesoura, garfo,
por trabalho de luz e dedos,
faiscavam,
ou pedra ou vidro ou madeira,
e que eu lhe toque, a esse objecto no auge,
que me abale um electrochoque,
porque Deus abrasou a matriz de tudo com um dedo,
a volta posta na mão
encheu-me de ar o rosto, e o ar por fora
sustentava-o: é aqui que vivo:
perdendo artes, ciências gerais, os dons, a linguagem,
a ferro e fôlego
o mais forte: aço
que as forjas tornaram maduro:
faca, tesoura, garfo,
por trabalho de luz e dedos,
faiscavam,
ou pedra ou vidro ou madeira,
e que eu lhe toque, a esse objecto no auge,
que me abale um electrochoque,
porque Deus abrasou a matriz de tudo com um dedo,
a volta posta na mão
encheu-me de ar o rosto, e o ar por fora
sustentava-o: é aqui que vivo:
perdendo artes, ciências gerais, os dons, a linguagem,
a ferro e fôlego
1 066
Herberto Helder
24
noite funcionada a furos de ouro fundido,
combustível, comburente,
inexcedível,
e eu não sei se é de onde me vejo dentro dela,
força da imagem ou fogo ou
desabitação do mundo,
nesta língua onde me encontro e que me funda com mão fluida,
caos,
e como se move tudo, os dedos
pelo sistema decimal contando para trás pessoa
a pessoa, unha
a unha de rapina, diz a canção: a flor inversa,
ar resplan la flors enversa,
desde o hábil desgoverno da matéria à pronúncia tumultuosa,
floral glória colinas ar afora,
com que choque tecnológico a terra pós-moderna,
faúlhas, lâmpadas, quem as maneie e atice,
iluminam-se a si próprias,
houvesse em mim potência e elegância,
e jorrasse a flor inversa,
e para a frente as vezes dos dedos que ainda faltam,
ar movido no cabelo, lápis
maduro sobre o escrito,
idade,
styx,
renascimento,
o júbilo,
trabalhos, etc., desordens, arranquem-mos todos para nunca
terem existido,
nem um só nome é indestrutível,
avança, retrocede, apaga,
ar resplan, e então resplende a flor inversa
combustível, comburente,
inexcedível,
e eu não sei se é de onde me vejo dentro dela,
força da imagem ou fogo ou
desabitação do mundo,
nesta língua onde me encontro e que me funda com mão fluida,
caos,
e como se move tudo, os dedos
pelo sistema decimal contando para trás pessoa
a pessoa, unha
a unha de rapina, diz a canção: a flor inversa,
ar resplan la flors enversa,
desde o hábil desgoverno da matéria à pronúncia tumultuosa,
floral glória colinas ar afora,
com que choque tecnológico a terra pós-moderna,
faúlhas, lâmpadas, quem as maneie e atice,
iluminam-se a si próprias,
houvesse em mim potência e elegância,
e jorrasse a flor inversa,
e para a frente as vezes dos dedos que ainda faltam,
ar movido no cabelo, lápis
maduro sobre o escrito,
idade,
styx,
renascimento,
o júbilo,
trabalhos, etc., desordens, arranquem-mos todos para nunca
terem existido,
nem um só nome é indestrutível,
avança, retrocede, apaga,
ar resplan, e então resplende a flor inversa
1 066
Herberto Helder
56
acima do cabelo radioso,
abaixo do cabelo,
sentado à mesa brilhando ou em pé brilhando muito,
acima de onde as obras,
abaixo de onde as obras se lavraram,
o dito assintáctico do poema, o exercício, o poema físico, o de abrupto
sentido, o poema absoluto,
acima da camisa sobre o sangue,
abaixo da camisa,
poema tão difícil aprendido até ao último erro,
e entre caos e melancolia,
a mão:
pela escrita da memória assoprada na folha:
a actividade prática,
rápida:
mão plenária apanhando o dia de cada sítio em cada sítio transborda
em nome de outra lição, outra
dor, outro júbilo, outro louvor, outra interpretação do mundo, outro amor do mundo,
outro tremor, outro mundo,
e os dedos trabalhados pela bic apanham tudo, o cru e o cozido, o aberto e o fechado, os elementos leves ar e fogo
e a ciência dos fenómenos:
a acerba, funda língua portuguesa,
poema revolvido a quente e resolvido
a frio entre os átomos,
o puro rebrilhar
irredutível, irreversível, imperecível: saber a quantas
translações estamos
entre sujeito e acto, a quanto preto bic do escrito,
auto de autor, a luz inteligente sobre o mundo,
magnificência,
e o mundo, entre visto e emendado e rescrito
abaixo do cabelo,
sentado à mesa brilhando ou em pé brilhando muito,
acima de onde as obras,
abaixo de onde as obras se lavraram,
o dito assintáctico do poema, o exercício, o poema físico, o de abrupto
sentido, o poema absoluto,
acima da camisa sobre o sangue,
abaixo da camisa,
poema tão difícil aprendido até ao último erro,
e entre caos e melancolia,
a mão:
pela escrita da memória assoprada na folha:
a actividade prática,
rápida:
mão plenária apanhando o dia de cada sítio em cada sítio transborda
em nome de outra lição, outra
dor, outro júbilo, outro louvor, outra interpretação do mundo, outro amor do mundo,
outro tremor, outro mundo,
e os dedos trabalhados pela bic apanham tudo, o cru e o cozido, o aberto e o fechado, os elementos leves ar e fogo
e a ciência dos fenómenos:
a acerba, funda língua portuguesa,
poema revolvido a quente e resolvido
a frio entre os átomos,
o puro rebrilhar
irredutível, irreversível, imperecível: saber a quantas
translações estamos
entre sujeito e acto, a quanto preto bic do escrito,
auto de autor, a luz inteligente sobre o mundo,
magnificência,
e o mundo, entre visto e emendado e rescrito
1 000
Herberto Helder
50
mas eu, que tenho o dom das línguas, senti
a linha sísmica atravessando a montagem das músicas,
e ouvi chamarem-me em lírica,
numa língua nenhuma que não sabia,
e os acertos e erros do meu nome não eram traduzíveis
nas línguas do meu dom,
e soube então que ar e fogo se mantinham um ao outro mas,
em vez de se abrirem,
se fechavam, e estremeci das músicas oh
o que eram elas,
que coisa grande traziam para ser posta em mínimo,
e que somenos ministério lavrava assim que voz,
no vivo,
no arrepio do ritmo,
por brônquios, garganta e dentes,
para fora,
para o escuro,
para o número ímpar?
a linha sísmica atravessando a montagem das músicas,
e ouvi chamarem-me em lírica,
numa língua nenhuma que não sabia,
e os acertos e erros do meu nome não eram traduzíveis
nas línguas do meu dom,
e soube então que ar e fogo se mantinham um ao outro mas,
em vez de se abrirem,
se fechavam, e estremeci das músicas oh
o que eram elas,
que coisa grande traziam para ser posta em mínimo,
e que somenos ministério lavrava assim que voz,
no vivo,
no arrepio do ritmo,
por brônquios, garganta e dentes,
para fora,
para o escuro,
para o número ímpar?
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Herberto Helder
62
o fôlego rouco irrompe nas pronúncias bárbaras
dos nós da língua:
voz, escrita:
linhas que se refractam umas nas outras,
bolhas cardíacas:
tanto louvor da terra movido a custo
na frase fracturada: o acordo entre
ritmo e
iluminação, enquanto as mãos intermináveis
lavram as obras, às meadas, ríspidas, rútilas, curtas, compridas, m
escuro, obra
que se ensinam a quem as saiba já na confusão da luz:
arcaicas
matérias, melancolias, memórias, magnificências,
quero esses dons e dias,
esses erros, se emendam o certo contemporâneo, quero-os todos,
esveltos, essoutros, exímios:
dor e estilo, quando são canhotos,
não os há mais vivos
dos nós da língua:
voz, escrita:
linhas que se refractam umas nas outras,
bolhas cardíacas:
tanto louvor da terra movido a custo
na frase fracturada: o acordo entre
ritmo e
iluminação, enquanto as mãos intermináveis
lavram as obras, às meadas, ríspidas, rútilas, curtas, compridas, m
escuro, obra
que se ensinam a quem as saiba já na confusão da luz:
arcaicas
matérias, melancolias, memórias, magnificências,
quero esses dons e dias,
esses erros, se emendam o certo contemporâneo, quero-os todos,
esveltos, essoutros, exímios:
dor e estilo, quando são canhotos,
não os há mais vivos
908
Herberto Helder
22
e regresso ao resplendor,
água inocente na bilha, sem nós, bilha contra a rapariga,
exposto tudo à potência fotovoltaica da estrela,
primeiro contra o quadril a curva
cozida trabalhada
na marga; e
no cruzamento dos braços num só clarão
atrás do escuro; e ao alto da cabeça, não como peso
ou equilíbrio ou diadema, mas
como
espaço que se alarga:
o estio:
e ela estremece, tocada, a rapariga debaixo da fábrica da estrela;
a água pelos respiradouros nos dias termodinâmicos, trazem-na
elas, estreitas,
rítmicas,
direitas raparigas, e eu regresso para beber, através da fábula
não já equilibrista, mas
nas linhas de luz ao de cima da água vertida,
colhida à mina, oculta, baixa, centígrada,
o cru que há em tudo quanto por dom é atado
e desatado no profundo: o mais agraz, oh
matriz! o rude, o redivivo,
o resplendor
água inocente na bilha, sem nós, bilha contra a rapariga,
exposto tudo à potência fotovoltaica da estrela,
primeiro contra o quadril a curva
cozida trabalhada
na marga; e
no cruzamento dos braços num só clarão
atrás do escuro; e ao alto da cabeça, não como peso
ou equilíbrio ou diadema, mas
como
espaço que se alarga:
o estio:
e ela estremece, tocada, a rapariga debaixo da fábrica da estrela;
a água pelos respiradouros nos dias termodinâmicos, trazem-na
elas, estreitas,
rítmicas,
direitas raparigas, e eu regresso para beber, através da fábula
não já equilibrista, mas
nas linhas de luz ao de cima da água vertida,
colhida à mina, oculta, baixa, centígrada,
o cru que há em tudo quanto por dom é atado
e desatado no profundo: o mais agraz, oh
matriz! o rude, o redivivo,
o resplendor
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