Poemas neste tema
Vida e Existência
António Cabrita
AUTO-RETRATO NUM CAMPO DE RÂGUEBI
Intercepta-me o espelho, o mais eficaz placador de râguebi. Eis-me inteiro na carne
amassada que a prata me devolve. Salva-me o olhar, surrado mas nada merencório
pois amanhã colherá sol – e chuva – e pernas morenas.
O que o tempo dispensa é a conversa fiada, a crença de que um seio
possa erguer um amor de alvenaria, ao abrigo de aguaceiros,
enquanto nos confia a paciência e a calva luz do humor
que vai desanuviando em nós a falta de Deus.
amassada que a prata me devolve. Salva-me o olhar, surrado mas nada merencório
pois amanhã colherá sol – e chuva – e pernas morenas.
O que o tempo dispensa é a conversa fiada, a crença de que um seio
possa erguer um amor de alvenaria, ao abrigo de aguaceiros,
enquanto nos confia a paciência e a calva luz do humor
que vai desanuviando em nós a falta de Deus.
699
António Cabrita
AUTO-RETRATO NUM CAMPO DE RÂGUEBI
Intercepta-me o espelho, o mais eficaz placador de râguebi. Eis-me inteiro na carne
amassada que a prata me devolve. Salva-me o olhar, surrado mas nada merencório
pois amanhã colherá sol – e chuva – e pernas morenas.
O que o tempo dispensa é a conversa fiada, a crença de que um seio
possa erguer um amor de alvenaria, ao abrigo de aguaceiros,
enquanto nos confia a paciência e a calva luz do humor
que vai desanuviando em nós a falta de Deus.
amassada que a prata me devolve. Salva-me o olhar, surrado mas nada merencório
pois amanhã colherá sol – e chuva – e pernas morenas.
O que o tempo dispensa é a conversa fiada, a crença de que um seio
possa erguer um amor de alvenaria, ao abrigo de aguaceiros,
enquanto nos confia a paciência e a calva luz do humor
que vai desanuviando em nós a falta de Deus.
699
António Cabrita
AUTO-RETRATO NUM CAMPO DE RÂGUEBI
Intercepta-me o espelho, o mais eficaz placador de râguebi. Eis-me inteiro na carne
amassada que a prata me devolve. Salva-me o olhar, surrado mas nada merencório
pois amanhã colherá sol – e chuva – e pernas morenas.
O que o tempo dispensa é a conversa fiada, a crença de que um seio
possa erguer um amor de alvenaria, ao abrigo de aguaceiros,
enquanto nos confia a paciência e a calva luz do humor
que vai desanuviando em nós a falta de Deus.
amassada que a prata me devolve. Salva-me o olhar, surrado mas nada merencório
pois amanhã colherá sol – e chuva – e pernas morenas.
O que o tempo dispensa é a conversa fiada, a crença de que um seio
possa erguer um amor de alvenaria, ao abrigo de aguaceiros,
enquanto nos confia a paciência e a calva luz do humor
que vai desanuviando em nós a falta de Deus.
699
Giorgos Seferis
VI
O jardim com suas fontes na chuva
verás somente da janela baixa
de trás da vidraça embaçada. Teu quarto
será iluminado apenas pela chama da lareira
e por vezes, nos relâmpagos distantes aparecerão
as rugas de tua fronte, meu velho Amigo.
O jardim com as fontes que eram em tua mão
o ritmo de outra vida, fora dos mármores
quebrados e das colunas trágicas
e uma dança em meio aos oleandros
próximo às novas pedreiras,
um vidro opaco o terá cortado de tuas horas.
Não respirarás; a terra e a seiva das árvores
rebentarão da tua memória para bater
nessa vidraça onde bate a chuva
do mundo lá fora.
verás somente da janela baixa
de trás da vidraça embaçada. Teu quarto
será iluminado apenas pela chama da lareira
e por vezes, nos relâmpagos distantes aparecerão
as rugas de tua fronte, meu velho Amigo.
O jardim com as fontes que eram em tua mão
o ritmo de outra vida, fora dos mármores
quebrados e das colunas trágicas
e uma dança em meio aos oleandros
próximo às novas pedreiras,
um vidro opaco o terá cortado de tuas horas.
Não respirarás; a terra e a seiva das árvores
rebentarão da tua memória para bater
nessa vidraça onde bate a chuva
do mundo lá fora.
800
Giorgos Seferis
VI
O jardim com suas fontes na chuva
verás somente da janela baixa
de trás da vidraça embaçada. Teu quarto
será iluminado apenas pela chama da lareira
e por vezes, nos relâmpagos distantes aparecerão
as rugas de tua fronte, meu velho Amigo.
O jardim com as fontes que eram em tua mão
o ritmo de outra vida, fora dos mármores
quebrados e das colunas trágicas
e uma dança em meio aos oleandros
próximo às novas pedreiras,
um vidro opaco o terá cortado de tuas horas.
Não respirarás; a terra e a seiva das árvores
rebentarão da tua memória para bater
nessa vidraça onde bate a chuva
do mundo lá fora.
verás somente da janela baixa
de trás da vidraça embaçada. Teu quarto
será iluminado apenas pela chama da lareira
e por vezes, nos relâmpagos distantes aparecerão
as rugas de tua fronte, meu velho Amigo.
O jardim com as fontes que eram em tua mão
o ritmo de outra vida, fora dos mármores
quebrados e das colunas trágicas
e uma dança em meio aos oleandros
próximo às novas pedreiras,
um vidro opaco o terá cortado de tuas horas.
Não respirarás; a terra e a seiva das árvores
rebentarão da tua memória para bater
nessa vidraça onde bate a chuva
do mundo lá fora.
800
Nelly Sachs
QUEM CHAMA?
Quem chama?
A própria voz!
Quem responde?
Morte!
A amizade naufraga
no bivaque do sono?
Sim!
Por que um galo não canta?
Ele espera até que o beijo do alecrim
flutue sobre as águas!
O que é isto?
O instante de desolação
do qual se desprendeu o tempo
morto de eternidade!
O que é isto?
Sono e morte não têm características
A própria voz!
Quem responde?
Morte!
A amizade naufraga
no bivaque do sono?
Sim!
Por que um galo não canta?
Ele espera até que o beijo do alecrim
flutue sobre as águas!
O que é isto?
O instante de desolação
do qual se desprendeu o tempo
morto de eternidade!
O que é isto?
Sono e morte não têm características
721
Carl Spitteler
The Hiker
Downy flakes whisper softly from the sky.
A hiker climbs over firn and ice.
The snow woman follows him with treacherous steps:
"Hold still, my dear, and take me with you!
The evening is near and the summit is far away.
I'd be happy to play you a little song just to keep you entertained."
She puts the green shawm on her lip,
She rejoiced at flowers and Lenz and Mai.
He listened, cheeks wet with tears,
Then he ticked the box and drew for bass.
And darker clouds the twilight snow.
She crept to his side on a cunning toe:
"Stop! let me shine for you, you are wandering astray!
I'll tell you a friendly fairy tale."
A traffic light she drew from her robe:
The homeland shines before his eyes,
The hill, the garden, being a parent
In the blissful golden glow of youth.
He swayed. Already he shortens the measure of his steps,
Then he ticked the box and drew for bass.
And it storms and it rummages with storm power,
White night yawns from the howling rock.
His will failed, his knee sank.
There she sat on a stone bench.
"It's comfortable here; come, sit down!
I really know how to caress.
And slumber lures you and a dream laughs at you:
There is room on my warm bosom."
She looked so lovely, she nodded so sweetly,
as if the sky wanted to open up to him.
He staggers towards her in a staggering run
and fell at her feet - never got up again.
A hiker climbs over firn and ice.
The snow woman follows him with treacherous steps:
"Hold still, my dear, and take me with you!
The evening is near and the summit is far away.
I'd be happy to play you a little song just to keep you entertained."
She puts the green shawm on her lip,
She rejoiced at flowers and Lenz and Mai.
He listened, cheeks wet with tears,
Then he ticked the box and drew for bass.
And darker clouds the twilight snow.
She crept to his side on a cunning toe:
"Stop! let me shine for you, you are wandering astray!
I'll tell you a friendly fairy tale."
A traffic light she drew from her robe:
The homeland shines before his eyes,
The hill, the garden, being a parent
In the blissful golden glow of youth.
He swayed. Already he shortens the measure of his steps,
Then he ticked the box and drew for bass.
And it storms and it rummages with storm power,
White night yawns from the howling rock.
His will failed, his knee sank.
There she sat on a stone bench.
"It's comfortable here; come, sit down!
I really know how to caress.
And slumber lures you and a dream laughs at you:
There is room on my warm bosom."
She looked so lovely, she nodded so sweetly,
as if the sky wanted to open up to him.
He staggers towards her in a staggering run
and fell at her feet - never got up again.
1 103
Nelly Sachs
QUATRO DIAS QUATRO NOITES
Quatro dias quatro noites
teu esconderijo foi um caixão
sobreviver inspirou – e expirou –
para retardar a morte –
Entre quatro tábuas
jazia a dor do mundo –
Lá fora o minuto crescia pleno de flores
nuvens brincavam no céu –
teu esconderijo foi um caixão
sobreviver inspirou – e expirou –
para retardar a morte –
Entre quatro tábuas
jazia a dor do mundo –
Lá fora o minuto crescia pleno de flores
nuvens brincavam no céu –
596
Nelly Sachs
MÃOS
Dos jardineiros da morte,
Que da camomila do berço,
Que nas duras pastagens viceja
Ou na encosta,
Criastes a morte, o monstro de estufa do vosso ofício,
Mãos,
Arrombando o tabernáculo do corpo,
Agarrando como dentes de tigre os sinais dos mistérios –
Mãos,
Que fazíeis vós
Quando éreis as mãos de crianças pequenas?
Seguráveis uma gaita, a crina
De um cavalinho de balanço, agarráveis a saia da mãe no escuro,
Apontáveis para uma palavra no livro de leitura? –
Era Deus talvez, ou homem?
Vós, mãos que estrangulais,
Estaria morta Vossa mãe,
Vossa esposa, vosso filho?
Para que nas mãos tão somente a morte tivésseis,
Nas mãos estranguladoras?
Que da camomila do berço,
Que nas duras pastagens viceja
Ou na encosta,
Criastes a morte, o monstro de estufa do vosso ofício,
Mãos,
Arrombando o tabernáculo do corpo,
Agarrando como dentes de tigre os sinais dos mistérios –
Mãos,
Que fazíeis vós
Quando éreis as mãos de crianças pequenas?
Seguráveis uma gaita, a crina
De um cavalinho de balanço, agarráveis a saia da mãe no escuro,
Apontáveis para uma palavra no livro de leitura? –
Era Deus talvez, ou homem?
Vós, mãos que estrangulais,
Estaria morta Vossa mãe,
Vossa esposa, vosso filho?
Para que nas mãos tão somente a morte tivésseis,
Nas mãos estranguladoras?
872
Nelly Sachs
MÃOS
Dos jardineiros da morte,
Que da camomila do berço,
Que nas duras pastagens viceja
Ou na encosta,
Criastes a morte, o monstro de estufa do vosso ofício,
Mãos,
Arrombando o tabernáculo do corpo,
Agarrando como dentes de tigre os sinais dos mistérios –
Mãos,
Que fazíeis vós
Quando éreis as mãos de crianças pequenas?
Seguráveis uma gaita, a crina
De um cavalinho de balanço, agarráveis a saia da mãe no escuro,
Apontáveis para uma palavra no livro de leitura? –
Era Deus talvez, ou homem?
Vós, mãos que estrangulais,
Estaria morta Vossa mãe,
Vossa esposa, vosso filho?
Para que nas mãos tão somente a morte tivésseis,
Nas mãos estranguladoras?
Que da camomila do berço,
Que nas duras pastagens viceja
Ou na encosta,
Criastes a morte, o monstro de estufa do vosso ofício,
Mãos,
Arrombando o tabernáculo do corpo,
Agarrando como dentes de tigre os sinais dos mistérios –
Mãos,
Que fazíeis vós
Quando éreis as mãos de crianças pequenas?
Seguráveis uma gaita, a crina
De um cavalinho de balanço, agarráveis a saia da mãe no escuro,
Apontáveis para uma palavra no livro de leitura? –
Era Deus talvez, ou homem?
Vós, mãos que estrangulais,
Estaria morta Vossa mãe,
Vossa esposa, vosso filho?
Para que nas mãos tão somente a morte tivésseis,
Nas mãos estranguladoras?
872
Nelly Sachs
MÃOS
Dos jardineiros da morte,
Que da camomila do berço,
Que nas duras pastagens viceja
Ou na encosta,
Criastes a morte, o monstro de estufa do vosso ofício,
Mãos,
Arrombando o tabernáculo do corpo,
Agarrando como dentes de tigre os sinais dos mistérios –
Mãos,
Que fazíeis vós
Quando éreis as mãos de crianças pequenas?
Seguráveis uma gaita, a crina
De um cavalinho de balanço, agarráveis a saia da mãe no escuro,
Apontáveis para uma palavra no livro de leitura? –
Era Deus talvez, ou homem?
Vós, mãos que estrangulais,
Estaria morta Vossa mãe,
Vossa esposa, vosso filho?
Para que nas mãos tão somente a morte tivésseis,
Nas mãos estranguladoras?
Que da camomila do berço,
Que nas duras pastagens viceja
Ou na encosta,
Criastes a morte, o monstro de estufa do vosso ofício,
Mãos,
Arrombando o tabernáculo do corpo,
Agarrando como dentes de tigre os sinais dos mistérios –
Mãos,
Que fazíeis vós
Quando éreis as mãos de crianças pequenas?
Seguráveis uma gaita, a crina
De um cavalinho de balanço, agarráveis a saia da mãe no escuro,
Apontáveis para uma palavra no livro de leitura? –
Era Deus talvez, ou homem?
Vós, mãos que estrangulais,
Estaria morta Vossa mãe,
Vossa esposa, vosso filho?
Para que nas mãos tão somente a morte tivésseis,
Nas mãos estranguladoras?
872
Giorgos Seferis
SÃO ASSIM OS TÚMULOS
São assim os túmulos. Cheios de flores, no princípio,
com a chama do pesar acesa por sobre a sua alvura.
E tudo quanto a vida inventa de consolo – as mãos caídas,
a cabeça baixa, a fonte dos lamentos –
acompanha as horas pétreas dos que jazem.
Depois, sob o sol indiferente, os passos vão-se embora
para que cada qual possa viver
a sua própria morte.
São assim os túmulos.
E das sombras da noite, com um sorriso mau,
eis que a velha aparece.
Juntando os dedos, ela apaga a chama
e recolhe as flores para seu amante.
com a chama do pesar acesa por sobre a sua alvura.
E tudo quanto a vida inventa de consolo – as mãos caídas,
a cabeça baixa, a fonte dos lamentos –
acompanha as horas pétreas dos que jazem.
Depois, sob o sol indiferente, os passos vão-se embora
para que cada qual possa viver
a sua própria morte.
São assim os túmulos.
E das sombras da noite, com um sorriso mau,
eis que a velha aparece.
Juntando os dedos, ela apaga a chama
e recolhe as flores para seu amante.
711
Giorgos Seferis
SÃO ASSIM OS TÚMULOS
São assim os túmulos. Cheios de flores, no princípio,
com a chama do pesar acesa por sobre a sua alvura.
E tudo quanto a vida inventa de consolo – as mãos caídas,
a cabeça baixa, a fonte dos lamentos –
acompanha as horas pétreas dos que jazem.
Depois, sob o sol indiferente, os passos vão-se embora
para que cada qual possa viver
a sua própria morte.
São assim os túmulos.
E das sombras da noite, com um sorriso mau,
eis que a velha aparece.
Juntando os dedos, ela apaga a chama
e recolhe as flores para seu amante.
com a chama do pesar acesa por sobre a sua alvura.
E tudo quanto a vida inventa de consolo – as mãos caídas,
a cabeça baixa, a fonte dos lamentos –
acompanha as horas pétreas dos que jazem.
Depois, sob o sol indiferente, os passos vão-se embora
para que cada qual possa viver
a sua própria morte.
São assim os túmulos.
E das sombras da noite, com um sorriso mau,
eis que a velha aparece.
Juntando os dedos, ela apaga a chama
e recolhe as flores para seu amante.
711
Nelly Sachs
MAS QUEM
Mas quem bateu a areia de vossos sapatos,
Quando tivestes de vos levantar para morrer?
A areia que Israel trouxe para casa,
Sua areia peregrina?
Ardente areia do Sinai,
Misturada com as gargantas dos rouxinóis,
Misturada com as asas da borboleta,
Misturada com o pó nostálgico das serpentes,
Misturada com tudo que transbordou da sabedoria de Salomão,
Misturada com o amargor do mistério do absinto –
Ó dedos,
Que batestes a areia dos sapatos dos mortos,
Já amanhã sereis pó
Nos sapatos dos vindouros!
Quando tivestes de vos levantar para morrer?
A areia que Israel trouxe para casa,
Sua areia peregrina?
Ardente areia do Sinai,
Misturada com as gargantas dos rouxinóis,
Misturada com as asas da borboleta,
Misturada com o pó nostálgico das serpentes,
Misturada com tudo que transbordou da sabedoria de Salomão,
Misturada com o amargor do mistério do absinto –
Ó dedos,
Que batestes a areia dos sapatos dos mortos,
Já amanhã sereis pó
Nos sapatos dos vindouros!
736
Nelly Sachs
MAS QUEM
Mas quem bateu a areia de vossos sapatos,
Quando tivestes de vos levantar para morrer?
A areia que Israel trouxe para casa,
Sua areia peregrina?
Ardente areia do Sinai,
Misturada com as gargantas dos rouxinóis,
Misturada com as asas da borboleta,
Misturada com o pó nostálgico das serpentes,
Misturada com tudo que transbordou da sabedoria de Salomão,
Misturada com o amargor do mistério do absinto –
Ó dedos,
Que batestes a areia dos sapatos dos mortos,
Já amanhã sereis pó
Nos sapatos dos vindouros!
Quando tivestes de vos levantar para morrer?
A areia que Israel trouxe para casa,
Sua areia peregrina?
Ardente areia do Sinai,
Misturada com as gargantas dos rouxinóis,
Misturada com as asas da borboleta,
Misturada com o pó nostálgico das serpentes,
Misturada com tudo que transbordou da sabedoria de Salomão,
Misturada com o amargor do mistério do absinto –
Ó dedos,
Que batestes a areia dos sapatos dos mortos,
Já amanhã sereis pó
Nos sapatos dos vindouros!
736
Nelly Sachs
MAS QUEM
Mas quem bateu a areia de vossos sapatos,
Quando tivestes de vos levantar para morrer?
A areia que Israel trouxe para casa,
Sua areia peregrina?
Ardente areia do Sinai,
Misturada com as gargantas dos rouxinóis,
Misturada com as asas da borboleta,
Misturada com o pó nostálgico das serpentes,
Misturada com tudo que transbordou da sabedoria de Salomão,
Misturada com o amargor do mistério do absinto –
Ó dedos,
Que batestes a areia dos sapatos dos mortos,
Já amanhã sereis pó
Nos sapatos dos vindouros!
Quando tivestes de vos levantar para morrer?
A areia que Israel trouxe para casa,
Sua areia peregrina?
Ardente areia do Sinai,
Misturada com as gargantas dos rouxinóis,
Misturada com as asas da borboleta,
Misturada com o pó nostálgico das serpentes,
Misturada com tudo que transbordou da sabedoria de Salomão,
Misturada com o amargor do mistério do absinto –
Ó dedos,
Que batestes a areia dos sapatos dos mortos,
Já amanhã sereis pó
Nos sapatos dos vindouros!
736
Nelly Sachs
OH, AS CHAMINÉS
Oh, as chaminés
Sobre as moradas da morte, engenhosamente imaginadas,
Quando o corpo de Israel se elevou, desfeito em fumaça
Pelo ar –
Uma estrela, como limpador de chaminés, o acolheu
E enegreceu
Ou foi um raio de sol?
Oh, as chaminés!
Caminhos de liberdade para o pó de Jeremias e Jó –
Quem vos imaginou e construiu, pedra sobre pedra,
O caminho para os fugitivos-fumaça?
Oh, as moradas da morte,
Convidativamente arranjadas
Para o anfitrião, outrora hóspede –
Ó dedos,
Assentando o limiar da entrada,
Como faca entre a vida e a morte –
Ó chaminés,
Ó dedos,
E o corpo de Israel na fumaça, pelo ar!
Sobre as moradas da morte, engenhosamente imaginadas,
Quando o corpo de Israel se elevou, desfeito em fumaça
Pelo ar –
Uma estrela, como limpador de chaminés, o acolheu
E enegreceu
Ou foi um raio de sol?
Oh, as chaminés!
Caminhos de liberdade para o pó de Jeremias e Jó –
Quem vos imaginou e construiu, pedra sobre pedra,
O caminho para os fugitivos-fumaça?
Oh, as moradas da morte,
Convidativamente arranjadas
Para o anfitrião, outrora hóspede –
Ó dedos,
Assentando o limiar da entrada,
Como faca entre a vida e a morte –
Ó chaminés,
Ó dedos,
E o corpo de Israel na fumaça, pelo ar!
832
Nelly Sachs
OH, AS CHAMINÉS
Oh, as chaminés
Sobre as moradas da morte, engenhosamente imaginadas,
Quando o corpo de Israel se elevou, desfeito em fumaça
Pelo ar –
Uma estrela, como limpador de chaminés, o acolheu
E enegreceu
Ou foi um raio de sol?
Oh, as chaminés!
Caminhos de liberdade para o pó de Jeremias e Jó –
Quem vos imaginou e construiu, pedra sobre pedra,
O caminho para os fugitivos-fumaça?
Oh, as moradas da morte,
Convidativamente arranjadas
Para o anfitrião, outrora hóspede –
Ó dedos,
Assentando o limiar da entrada,
Como faca entre a vida e a morte –
Ó chaminés,
Ó dedos,
E o corpo de Israel na fumaça, pelo ar!
Sobre as moradas da morte, engenhosamente imaginadas,
Quando o corpo de Israel se elevou, desfeito em fumaça
Pelo ar –
Uma estrela, como limpador de chaminés, o acolheu
E enegreceu
Ou foi um raio de sol?
Oh, as chaminés!
Caminhos de liberdade para o pó de Jeremias e Jó –
Quem vos imaginou e construiu, pedra sobre pedra,
O caminho para os fugitivos-fumaça?
Oh, as moradas da morte,
Convidativamente arranjadas
Para o anfitrião, outrora hóspede –
Ó dedos,
Assentando o limiar da entrada,
Como faca entre a vida e a morte –
Ó chaminés,
Ó dedos,
E o corpo de Israel na fumaça, pelo ar!
832
Ivan Bunin
Mulher de pedra
Grama seca e morta de braseira,
Estepe sem limite, mas ao longe medra o azul.
Há restos cavalares de caveira.
E novamente – a Mulher de Pedra.
Como seu vulto raso é sonolento!
E quão grosseiro é o corpo primordial!
Estou com medo de ti... E tu, timidamente
Me sorris.
Oh! tição selvagem de antiga escuridão!
Foi a ti que adoraram? foi a ti?
– Não Deus nos fez. Não de suas mãos.
Nós fizemos os deuses, servil o coração.
Estepe sem limite, mas ao longe medra o azul.
Há restos cavalares de caveira.
E novamente – a Mulher de Pedra.
Como seu vulto raso é sonolento!
E quão grosseiro é o corpo primordial!
Estou com medo de ti... E tu, timidamente
Me sorris.
Oh! tição selvagem de antiga escuridão!
Foi a ti que adoraram? foi a ti?
– Não Deus nos fez. Não de suas mãos.
Nós fizemos os deuses, servil o coração.
831
Nelly Sachs
CINGIDA JÁ PELO BRAÇO DO CONSOLO CELESTE
Eis a mãe enlouquecida,
Com os farrapos de sua razão estraçalhada,
Com o rastilho de sua razão incinerada,
Deitando no caixão sua criança morta,
Deitando no caixão sua luz perdida,
Curvando as mãos em cântaros,
Enchendo-os de ar com o corpo de sua criança,
Enchendo-os de ar com seus olhos, seus cabelos,
E seu coração esvoaçante –
Depois, beija o que nasceu do ar
E morre!
Com os farrapos de sua razão estraçalhada,
Com o rastilho de sua razão incinerada,
Deitando no caixão sua criança morta,
Deitando no caixão sua luz perdida,
Curvando as mãos em cântaros,
Enchendo-os de ar com o corpo de sua criança,
Enchendo-os de ar com seus olhos, seus cabelos,
E seu coração esvoaçante –
Depois, beija o que nasceu do ar
E morre!
720
Tomas Tranströmer
Ir na corrente
Falar e falar com amigos que vi ouvi por detrás dos seus rostos
a corrente
arrastando os que querem ir e os que não querem.
E vi uma criatura de olhos colados um ao outro
a querer saltar mesmo para o meio da corrente
a atirar-se para fora de si sem um tremor
numa sede voraz por uma resposta simples.
Rápido e mais rápido a água arrasta
como se fosse um rio que estreita adiante e dispara
em rápidos – parei para descansar num sítio como aquele
depois de um passeio pelos bosques secos
numa tarde de Junho: o transístor trouxe-me as últimas
sobre a Sessão Extraordinária: Kosygin, Eban.
Um ou dois pensamentos fizeram o seu caminho em desespero.
Um ou dois homens afogaram-se na aldeia.
E enormes massas de água avançam sob a ponte
suspensa. Aí vem a madeira! Alguns troncos
disparam para diante como torpedos. Outros atravessam-se
de lado, indolentes, e rodopiam desamparados,
e outros de frente virada para as margens do rio
seguem entre pedras e lixo, ficam presos,
e amontoados voltam-se para o céu como mãos entrelaçadas,
orações submersas num rugido ….
Vi ouvi isso de uma ponte suspensa
entre uma nuvem de mosquitos
na companhia de uns quantos miúdos. As suas bicicletas
enterradas em arbustos – só os chifres
de fora.
a corrente
arrastando os que querem ir e os que não querem.
E vi uma criatura de olhos colados um ao outro
a querer saltar mesmo para o meio da corrente
a atirar-se para fora de si sem um tremor
numa sede voraz por uma resposta simples.
Rápido e mais rápido a água arrasta
como se fosse um rio que estreita adiante e dispara
em rápidos – parei para descansar num sítio como aquele
depois de um passeio pelos bosques secos
numa tarde de Junho: o transístor trouxe-me as últimas
sobre a Sessão Extraordinária: Kosygin, Eban.
Um ou dois pensamentos fizeram o seu caminho em desespero.
Um ou dois homens afogaram-se na aldeia.
E enormes massas de água avançam sob a ponte
suspensa. Aí vem a madeira! Alguns troncos
disparam para diante como torpedos. Outros atravessam-se
de lado, indolentes, e rodopiam desamparados,
e outros de frente virada para as margens do rio
seguem entre pedras e lixo, ficam presos,
e amontoados voltam-se para o céu como mãos entrelaçadas,
orações submersas num rugido ….
Vi ouvi isso de uma ponte suspensa
entre uma nuvem de mosquitos
na companhia de uns quantos miúdos. As suas bicicletas
enterradas em arbustos – só os chifres
de fora.
589
Nelly Sachs
EM MEU QUARTO
Em meu quarto,
onde fica minha cama
uma mesa uma cadeira
o fogão
o universo está ajoelhado como em toda parte
para ser salvo
da invisibilidade –
Eu traço uma linha
escrevo o alfabeto
pinto o lema suicida na parede
de onde brotam imediatamente os renascimentos
já prendo as constelações à verdade
então a terra começa a martelar
a noite se afrouxa
desprende-se
dente morto da dentadura –
onde fica minha cama
uma mesa uma cadeira
o fogão
o universo está ajoelhado como em toda parte
para ser salvo
da invisibilidade –
Eu traço uma linha
escrevo o alfabeto
pinto o lema suicida na parede
de onde brotam imediatamente os renascimentos
já prendo as constelações à verdade
então a terra começa a martelar
a noite se afrouxa
desprende-se
dente morto da dentadura –
596
António Cabrita
A CONDIÇÃO DO POEMA
Não te desanime a sina de papagaio
preso ao poleiro de certas palavras vãs,
já pútridas, e de cadências clânicas,
num mundo devotado ao desapego.
Traças um mapa de ausências:
ao norte rareiam os albatrozes - quem
adivinha várzeas no subsolo das portagens,
licornes no esmaecido das gravuras,
se desertos já ruminam o Amazonas?
Em Maputo, onde o coração s’areja,
não falta a miséria. Em que desvelos
novos querias tu a língua, essa eterna
caloteira? Qual é o teu abrandamento
de onda? Disso depende o que vês.
Mesmo do poleiro onde ferves a 500º
Celsius. Não te desanime o desígnio
d’ave coada pelo agoiro. A voz que ‘tava
na cave é o tremor que te respira, a gaguez
em que embates no escuro, o halo - consorte
da morte - que te aguça os olhos.
preso ao poleiro de certas palavras vãs,
já pútridas, e de cadências clânicas,
num mundo devotado ao desapego.
Traças um mapa de ausências:
ao norte rareiam os albatrozes - quem
adivinha várzeas no subsolo das portagens,
licornes no esmaecido das gravuras,
se desertos já ruminam o Amazonas?
Em Maputo, onde o coração s’areja,
não falta a miséria. Em que desvelos
novos querias tu a língua, essa eterna
caloteira? Qual é o teu abrandamento
de onda? Disso depende o que vês.
Mesmo do poleiro onde ferves a 500º
Celsius. Não te desanime o desígnio
d’ave coada pelo agoiro. A voz que ‘tava
na cave é o tremor que te respira, a gaguez
em que embates no escuro, o halo - consorte
da morte - que te aguça os olhos.
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Erik Axel Karlfeldt
ADEUS
Por que te ergues tão de súbito à minha frente,
ó bela imagem empalidecida?
Queres com um aceno trazer-me o consolo
na profundeza do outono
em que me enterrei e me perdi?
Uma vida humana separa
o ser e o ter sido.
Vim a saber que estavas mal
e corri à tua cabeceira,
mas recuei diante de tua palidez.
Estavas deitada, vestida para a viagem
e me saudaste alegremente: “Vês, inda estou viva;
chega-te para mim, não tenhas medo”.
Calmamente nos contemplamos e então me puxaste
a cabeça de encontro a teu regaço
e me deste o único beijo que trocamos,
rápido e ardente de febre.
Eu olhava a cruel primavera
que sorria à tua janela.
Alegre, como num dia habitual,
me deste o teu adeus,
e me disseste que sabias
que em breve morrerias.
E à medida que chegava a primavera
tua vida se fundia como a neve.
ó bela imagem empalidecida?
Queres com um aceno trazer-me o consolo
na profundeza do outono
em que me enterrei e me perdi?
Uma vida humana separa
o ser e o ter sido.
Vim a saber que estavas mal
e corri à tua cabeceira,
mas recuei diante de tua palidez.
Estavas deitada, vestida para a viagem
e me saudaste alegremente: “Vês, inda estou viva;
chega-te para mim, não tenhas medo”.
Calmamente nos contemplamos e então me puxaste
a cabeça de encontro a teu regaço
e me deste o único beijo que trocamos,
rápido e ardente de febre.
Eu olhava a cruel primavera
que sorria à tua janela.
Alegre, como num dia habitual,
me deste o teu adeus,
e me disseste que sabias
que em breve morrerias.
E à medida que chegava a primavera
tua vida se fundia como a neve.
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