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Poemas neste tema

Vida e Existência

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Posso Ouvir o Som Das Vidas Humanas Sendo Rasgadas Em Pedaços

estranho calor, fêmeas quentes e frias,
eu faço amor gostoso, mas amor não é só
sexo, e as mulheres que conheci são na maioria
muito ambiciosas, e eu gosto de ficar atirado
sobre grandes travesseiros sobre colchões às 3
da tarde, gosto de olhar o sol
através das folhas de um arbusto lá fora
enquanto o mundo exterior
se mantém afastado de mim, conheço isso muito bem, todas
as páginas sujas, e eu gosto de ficar atirado
minha barriga voltada para o teto depois de fazer amor
tudo fluindo bem:
nectarinas, luvas de boxe usadas, livros de história da
Guerra da Crimeia;
é tão tranquilo ficar tranquilo – se você gostar, nada mais
é necessário.
mas a fêmea é estranha, ela é muito
ambiciosa – “Merda! Não posso dormir o dia todo!
Comer! Fazer amor! Dormir! Comer! Fazer amor!”
“Minha querida”, eu lhe digo, “há homens lá fora agora
colhendo tomates, alface, até mesmo algodão,
há homens e mulheres morrendo embaixo do sol,
há homens e mulheres morrendo em fábricas
por nada, uma ninharia...
posso ouvir o som das vidas humanas sendo rasgadas em
pedaços...
você não sabe a sorte
que temos...”
“Mas você chegou lá”, ela diz,
“os seus poemas...”
meu amor se levanta da cama.
eu a escuto na sala ao lado.
a máquina de escrever está funcionando.
não sei por que as pessoas pensam que esforço e energia
têm algo a ver com
criação.
creio que em assuntos como política, medicina,
história e religião
todos acreditaram em mentiras
também.
eu me deito de bruços e pego no sono com minha
bunda voltada para o teto.
653
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Uma Definição

o amor não passa de farol aceso à
noite cortando a névoa
o amor não passa de uma tampinha de cerveja
na qual você pisa a caminho
do banheiro
o amor é a chave perdida da sua porta
quando você está bêbado
o amor é o que acontece um dia por
ano
um ano a cada dez
o amor são os gatos esmagados
do universo
o amor é um jornaleiro na
esquina que
desistiu
o amor são as primeiras 3 filas de
potenciais matadores no
Olympic Auditorium
o amor é o que você acha que a outra
pessoa destruiu
o amor é o que desapareceu com a
era dos encouraçados de batalha
o amor é o telefone tocando
e a mesma voz ou outra
voz mas nunca a voz
certa
o amor é traição
o amor é o bebum
sendo queimado no beco
o amor é aço
o amor é a barata
o amor é uma caixa de correio
o amor é chuva batendo no telhado
do hotel mais barato
de Los Angeles
o amor é o seu pai que
detestava você dentro de um caixão
o amor é um cavalo com a
perna quebrada
tentando ficar de pé
enquanto 55.000 pessoas
observam
o amor é o nosso jeito de ferver
como a lagosta
o amor é um cigarro de filtro
preso na sua boca e
aceso pela ponta errada
o amor é tudo que dissemos
que não era
o amor é o Corcunda de
Notre Dame
o amor é a pulga que você não consegue
encontrar
o amor é o mosquito
o amor são 50 granadeiros
o amor é o mais vazio dos
urinóis
o amor é uma rebelião em Quentin
o amor é um manicômio lotado
o amor é um burro cagando numa
rua de moscas
o amor é um banco de bar quando
ninguém está sentado nele
o amor é um filme do Hindenburg
se desmanchando em pedaços
em tempos que ainda gritam
o amor é Dostoiévski na
roleta
o amor é o que rasteja
pelo chão
o amor é a sua mulher dançando
apertada nos braços de um estranho
o amor é uma mulher velha
beliscando um naco de pão
o amor é uma palavra usada
constantemente
muitíssimo constantemente
o amor são telhados vermelhos e telhados
verdes e telhados azuis
e voar em aviões a jato
isso é tudo.
1 782
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Eulogia

com carros velhos, sobretudo quando você os compra
usados e os dirige por muitos anos,
um caso de amor tem início:
você memorizou cada cabo no motor
painel e tudo mais,
você tem a máxima intimidade com o
carburador
as velas
o braço de aceleração
outras peças
diversas.
você aprendeu todos os truques para
manter o negócio em funcionamento,
você sabe até mesmo como bater o porta-luvas de modo que
ele permaneça fechado,
como estapear os faróis com a palma da mão aberta
a fim de obter
luz,
e você sabe quantas vezes deve pisar no acelerador
e quanto tempo deve esperar
para dar partida no motor,
e você conhece cada buraco no
estofamento
e o formato de cada mola
despontando pra fora;
o carro já foi apreendido e liberado
pela polícia,
foi multado por várias
avarias:
limpadores quebrados na chuva,
nada de pisca-pisca à noite, nada
de luzes de freio, luzes traseiras quebradas, freios
ruins, escapamento
excessivo e assim por diante...
mas apesar de tudo isso
você o conhecia tão bem
que nunca houve um acidente, o
velho carro transportava você de um lugar para
outro,
quase fielmente
– milagre de homem pobre.
e quando chega aquele último colapso,
quando as válvulas entregam os pontos,
quando os cansados braços do pistão se esgotam e
quebram, ou o eixo de manivela cai fora e
você precisa vender o carro como
sucata
– vê-lo sendo guinchado
embora
pendurado ali
despachado
como se ele não tivesse
alma ou
significado,
os pneus traseiros carecas
e o para-brisa traseiro
a placa retorcida
são as últimas coisas que você
vê, e isso
machuca
como se algum humano que você amou
muito
e com quem viveu
dia após dia
tivesse morrido
e você fosse a única
pessoa
a ter conhecido
a música
a mágica
a inacreditável
galantaria.
856
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Eulogia

com carros velhos, sobretudo quando você os compra
usados e os dirige por muitos anos,
um caso de amor tem início:
você memorizou cada cabo no motor
painel e tudo mais,
você tem a máxima intimidade com o
carburador
as velas
o braço de aceleração
outras peças
diversas.
você aprendeu todos os truques para
manter o negócio em funcionamento,
você sabe até mesmo como bater o porta-luvas de modo que
ele permaneça fechado,
como estapear os faróis com a palma da mão aberta
a fim de obter
luz,
e você sabe quantas vezes deve pisar no acelerador
e quanto tempo deve esperar
para dar partida no motor,
e você conhece cada buraco no
estofamento
e o formato de cada mola
despontando pra fora;
o carro já foi apreendido e liberado
pela polícia,
foi multado por várias
avarias:
limpadores quebrados na chuva,
nada de pisca-pisca à noite, nada
de luzes de freio, luzes traseiras quebradas, freios
ruins, escapamento
excessivo e assim por diante...
mas apesar de tudo isso
você o conhecia tão bem
que nunca houve um acidente, o
velho carro transportava você de um lugar para
outro,
quase fielmente
– milagre de homem pobre.
e quando chega aquele último colapso,
quando as válvulas entregam os pontos,
quando os cansados braços do pistão se esgotam e
quebram, ou o eixo de manivela cai fora e
você precisa vender o carro como
sucata
– vê-lo sendo guinchado
embora
pendurado ali
despachado
como se ele não tivesse
alma ou
significado,
os pneus traseiros carecas
e o para-brisa traseiro
a placa retorcida
são as últimas coisas que você
vê, e isso
machuca
como se algum humano que você amou
muito
e com quem viveu
dia após dia
tivesse morrido
e você fosse a única
pessoa
a ter conhecido
a música
a mágica
a inacreditável
galantaria.
856
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Metendo Até As Bolas

metendo até as bolas
metendo como o burro
metendo como o boi
metendo metendo metendo
metendo como os pombos
metendo como os porcos
como alguém se torna uma flor
polinizada pelos ventos e pelas abelhas?
metendo até as bolas à meia-noite
metendo às quatro da manhã
metendo na terça-feira
metendo na quarta-feira
metendo como um maldito touro
metendo como um submarino
metendo como uma bala puxa-puxa
metendo como a cavidade sem sentido da perdição
metendo metendo metendo,
eu mergulho meu chicote branco
sentindo os olhos dela se revirarem em glória,
ó bolas, ó trombeta e bolas
ó chicote branco e bolas, ó
bolas,
eu poderia ficar metendo até as bolas pra sempre
por cima
por baixo
de lado
bêbado sóbrio triste feliz irritado
metendo até as bolas,
uma intensidade de mistura:
2 almas grudadas
jorrando...
meter torna tudo melhor.
os que não metem não sabem.
os que não podem meter são semimortos.
os que não conseguem encontrar alguém para meter estão no inferno.
eu durmo com as minhas bolas na mão para que ninguém as roube.
que o ar todo esteja limpo com flores e árvores e touros.
que parte da justiça de como vivemos nossas vidas seja a canção do corpo.
que cada uma de nossas mortes e semimortes seja tão tranquila quanto
possível agora.
enquanto isso, ó bolas, ó bolas, ó belas, ó belas bolas, bolas
belas, ó bolas metidas bolas ó metidas bolas minhas e
suas e deles e nossas para todo o sempre
esta noite e terça-feira quarta-feira da sepultura em lágrimas, eu amo
vocês
mulheres, eu amo vocês.
4 027
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Para o Engraxate

o equilíbrio está nas lesmas escalando as
falésias de Santa Monica;
a sorte está em descer a Western Avenue
e acontecer que uma das garotas de uma casa
de massagem grite pra você “Alô, Doçura!”
o milagre está em ter cinco mulheres apaixonadas
por você aos 55 anos de idade,
e o bom de tudo é que você só é capaz
de amar uma delas.
o dom está em ter uma filha mais delicada
do que você é, cuja risada é mais bela
do que a sua.
a placidez está em ser capaz de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rádio sintonizado no Apresentador que Mais Ama
Você, sentindo o sol, sentindo o sólido ronco
do motor retificado
enquanto você costura o tráfego
e deixa os mortos putos da cara.
a graça está em ser capaz de gostar de rock,
música sinfônica, jazz...
tudo que contenha o júbilo da energia
original.
e a matemática que retorna
é o profundo baixo-astral sob
você estendido sobre você
entre as paredes de guilhotina –
furioso com o som do telefone
ou com os passos de qualquer um passando;
e a outra matemática:
a iminente animação que se segue
fazendo com que os caras sentados nos bancos
junto aos carrinhos de taco
pareçam gurus
fazendo com que a garota do caixa no
supermercado pareça
Marilyn
ou Zsa Zsa
ou Jackie antes de pegarem seu amante de Harvard
ou a garota do ensino médio que
todos nós garotos seguíamos até em casa.
e a pureza que ajuda você a crer
em algo além da morte
é Sandy Hawley montando
cinco vencedores no Hollywood Park, cavalos fora de forma,
nenhum deles favorito,
ou alguém num carro que se aproxima de você
numa rua estreita demais,
e ele ou ela desvia de lado pra deixar você
passar, ou o velho lutador Beau Jack
engraxando sapatos
após ter torrado seu pé-de-meia todo
com festas
com mulheres
com parasitas,
cantarolando, soprando no couro,
mandando ver com o trapo,
olhando pra cima e dizendo:
“Que diabo, por um momento
eu tive tudo. uma coisa ganha da
outra”.
por vezes me mostro muito amargo
mas o gosto tem sido com frequência
doce, é só que tive
medo de dizê-lo. é como
quando sua mulher diz
“fala que me ama”
e você não consegue dizer.
se você chegar a me ver sorrindo em
meu Fusca azul
cruzando um sinal amarelo
dirigindo direto rumo ao sol
sem óculos escuros
estarei apenas trancado na
tarde de uma
vida louca
pensando em trapezistas de circo
em anões com charutos enormes
num inverno russo no início dos anos 40
em Chopin com seu saco de terra polonesa
ou numa velha garçonete me trazendo uma xícara
extra de café e parecendo rir de mim
enquanto me serve.
do melhor de você
eu gosto mais do que você imagina.
os outros não contam
exceto que eles têm dedos e cabeças
e alguns deles olhos
e a maioria deles pernas
e todos eles
sonhos bons e ruins
e um caminho para seguir.
o equilíbrio está em toda parte e está funcionando
e as metralhadoras e as rãs
e as sebes podem lhe contar
isso.
712
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Para o Engraxate

o equilíbrio está nas lesmas escalando as
falésias de Santa Monica;
a sorte está em descer a Western Avenue
e acontecer que uma das garotas de uma casa
de massagem grite pra você “Alô, Doçura!”
o milagre está em ter cinco mulheres apaixonadas
por você aos 55 anos de idade,
e o bom de tudo é que você só é capaz
de amar uma delas.
o dom está em ter uma filha mais delicada
do que você é, cuja risada é mais bela
do que a sua.
a placidez está em ser capaz de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rádio sintonizado no Apresentador que Mais Ama
Você, sentindo o sol, sentindo o sólido ronco
do motor retificado
enquanto você costura o tráfego
e deixa os mortos putos da cara.
a graça está em ser capaz de gostar de rock,
música sinfônica, jazz...
tudo que contenha o júbilo da energia
original.
e a matemática que retorna
é o profundo baixo-astral sob
você estendido sobre você
entre as paredes de guilhotina –
furioso com o som do telefone
ou com os passos de qualquer um passando;
e a outra matemática:
a iminente animação que se segue
fazendo com que os caras sentados nos bancos
junto aos carrinhos de taco
pareçam gurus
fazendo com que a garota do caixa no
supermercado pareça
Marilyn
ou Zsa Zsa
ou Jackie antes de pegarem seu amante de Harvard
ou a garota do ensino médio que
todos nós garotos seguíamos até em casa.
e a pureza que ajuda você a crer
em algo além da morte
é Sandy Hawley montando
cinco vencedores no Hollywood Park, cavalos fora de forma,
nenhum deles favorito,
ou alguém num carro que se aproxima de você
numa rua estreita demais,
e ele ou ela desvia de lado pra deixar você
passar, ou o velho lutador Beau Jack
engraxando sapatos
após ter torrado seu pé-de-meia todo
com festas
com mulheres
com parasitas,
cantarolando, soprando no couro,
mandando ver com o trapo,
olhando pra cima e dizendo:
“Que diabo, por um momento
eu tive tudo. uma coisa ganha da
outra”.
por vezes me mostro muito amargo
mas o gosto tem sido com frequência
doce, é só que tive
medo de dizê-lo. é como
quando sua mulher diz
“fala que me ama”
e você não consegue dizer.
se você chegar a me ver sorrindo em
meu Fusca azul
cruzando um sinal amarelo
dirigindo direto rumo ao sol
sem óculos escuros
estarei apenas trancado na
tarde de uma
vida louca
pensando em trapezistas de circo
em anões com charutos enormes
num inverno russo no início dos anos 40
em Chopin com seu saco de terra polonesa
ou numa velha garçonete me trazendo uma xícara
extra de café e parecendo rir de mim
enquanto me serve.
do melhor de você
eu gosto mais do que você imagina.
os outros não contam
exceto que eles têm dedos e cabeças
e alguns deles olhos
e a maioria deles pernas
e todos eles
sonhos bons e ruins
e um caminho para seguir.
o equilíbrio está em toda parte e está funcionando
e as metralhadoras e as rãs
e as sebes podem lhe contar
isso.
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