Poemas neste tema
Vida e Existência
Charles Bukowski
Uma Entrevista aos 70
o entrevistador se inclina na minha
direção, "alguns dizem que você não é mais
tão selvagem como costumava
ser",
"bem", eu disse, "não posso continuar para
sempre escrevendo poemas sobre
derramar cerveja no colo das
putas.
um homem amadurece e se move em direção a outras
coisas."
"mas alguns ainda querem o mesmo
velho Chinaski!"
"e isso é o que eles
têm", eu digo.
"conte-nos sobre as corridas
de cavalos", ele sugere.
"não há nada para
contar."
"você tem que esperar
até ele ficar legal
até depois da meia-noite
para ouvir as coisas realmente
boas",
diz minha mulher.
o entrevistador não está
acostumado a esperar.
ele olha suas
anotações.
ele quer algumas
grandes declarações, algumas
grandes conclusões,
algo grande que
aconteça agora.
ele está confuso devido a seus
equívocos e
preconceitos.
e a pior coisa
nele?
ele não é
selvagem
o bastante.
direção, "alguns dizem que você não é mais
tão selvagem como costumava
ser",
"bem", eu disse, "não posso continuar para
sempre escrevendo poemas sobre
derramar cerveja no colo das
putas.
um homem amadurece e se move em direção a outras
coisas."
"mas alguns ainda querem o mesmo
velho Chinaski!"
"e isso é o que eles
têm", eu digo.
"conte-nos sobre as corridas
de cavalos", ele sugere.
"não há nada para
contar."
"você tem que esperar
até ele ficar legal
até depois da meia-noite
para ouvir as coisas realmente
boas",
diz minha mulher.
o entrevistador não está
acostumado a esperar.
ele olha suas
anotações.
ele quer algumas
grandes declarações, algumas
grandes conclusões,
algo grande que
aconteça agora.
ele está confuso devido a seus
equívocos e
preconceitos.
e a pior coisa
nele?
ele não é
selvagem
o bastante.
1 254
Frei Agostinho da Cruz
II Os versos, que cantei importunado
Os versos, que cantei importunado
Da mocidade cega a quem seguia,
Queimei (como vergonha me pedia)
Chorando, por haver tão mal cantado.
Se nestes não ficar tão desculpado
Quanto mais alto estilo merecia,
Não me podem negar a melhoria
Da mudança, que diz dum noutro estado.
Que vai que sejam bem ou mal aceitos?
Pois não os escrevi para louvores
Humanos, pelo menos perigosos,
Senão para plantar em tenros peitos
Desejos de colher divinas flores
À força de suspiros saudosos.
Da mocidade cega a quem seguia,
Queimei (como vergonha me pedia)
Chorando, por haver tão mal cantado.
Se nestes não ficar tão desculpado
Quanto mais alto estilo merecia,
Não me podem negar a melhoria
Da mudança, que diz dum noutro estado.
Que vai que sejam bem ou mal aceitos?
Pois não os escrevi para louvores
Humanos, pelo menos perigosos,
Senão para plantar em tenros peitos
Desejos de colher divinas flores
À força de suspiros saudosos.
611
Charles Bukowski
Olhando Para Os Colhões Do Gato
sentado aqui junto à janela
suando suor de cerveja
atormentado pelo verão
estou olhando para os colhões do meu gato.
não é por minha escolha.
ele dorme em uma velha cadeira de balanço
na varanda
e dali ele me olha
dependurado em seus colhões de gato.
aí está seu rabo, coisa danada,
dependurada de lado
de modo que eu possa
ver seus felpudos reservatórios mas
em que pode um homem pensar
enquanto olha para as bolas de um gato?
certamente não sobre a nave naufragada após uma
grande batalha naval.
certamente não sobre um programa para salvar os
pobres.
certamente não sobre um mercado de flores ou uma dúzia de
OVOS.
certamente não sobre um interruptor de luz quebrado.
colhões são colhões, é isso aí,
e com muita certeza isso é verdade a respeito
dos colhões de um gato.
os meus são bem moles e macios e
diz-me minha atual mulher
bem grandes:
"você tem colhões enormes, Chinaski!"
mas os colhões do gato:
eu não consigo entender se ele está dependurado neles
ou se eles estão dependurados nele.
você vê, há essa batalha de atravessar quase toda a noite
pela fêmea
e isso não é nada fácil para nenhum de nós.
veja:
falta um pedaço da sua orelha esquerda.
certa vez pensei que um de seus olhos tinha sido
arrancado
mas quando o sangue seco
descascou
uma semana depois
aí estava seu puro
olho verde-dourado
me encarando.
todo o seu corpo está coberto de escaras de mordidas
e no outro dia,
tentando acariciar sua cabeça
ele gemeu e quase me mordeu -
a pele do seu crânio
havia sido rasgada até o osso.
com certeza não é fácil para nenhum de nós,
pobre coitado.
ele dorme
e agora sonha
o quê?
um gordo pardal em sua boca?
ou rodeado por gatas com tesão?
ele sonha seus sonhos diurnos
e nós saberemos o que é
esta noite.
boa sorte, velho camarada,
a vida não é fácil,
estamos dependurados em nossos colhões, é assim que estamos, ou seja,
estamos no cativeiro de nossos colhões,
e eu deveria me conter um pouco
quando se trata de mulheres.
enquanto isso
olharei seus olhos e me defenderei com jabs de esquerda
e correrei como do diabo
quando nada mais
adiantar.
suando suor de cerveja
atormentado pelo verão
estou olhando para os colhões do meu gato.
não é por minha escolha.
ele dorme em uma velha cadeira de balanço
na varanda
e dali ele me olha
dependurado em seus colhões de gato.
aí está seu rabo, coisa danada,
dependurada de lado
de modo que eu possa
ver seus felpudos reservatórios mas
em que pode um homem pensar
enquanto olha para as bolas de um gato?
certamente não sobre a nave naufragada após uma
grande batalha naval.
certamente não sobre um programa para salvar os
pobres.
certamente não sobre um mercado de flores ou uma dúzia de
OVOS.
certamente não sobre um interruptor de luz quebrado.
colhões são colhões, é isso aí,
e com muita certeza isso é verdade a respeito
dos colhões de um gato.
os meus são bem moles e macios e
diz-me minha atual mulher
bem grandes:
"você tem colhões enormes, Chinaski!"
mas os colhões do gato:
eu não consigo entender se ele está dependurado neles
ou se eles estão dependurados nele.
você vê, há essa batalha de atravessar quase toda a noite
pela fêmea
e isso não é nada fácil para nenhum de nós.
veja:
falta um pedaço da sua orelha esquerda.
certa vez pensei que um de seus olhos tinha sido
arrancado
mas quando o sangue seco
descascou
uma semana depois
aí estava seu puro
olho verde-dourado
me encarando.
todo o seu corpo está coberto de escaras de mordidas
e no outro dia,
tentando acariciar sua cabeça
ele gemeu e quase me mordeu -
a pele do seu crânio
havia sido rasgada até o osso.
com certeza não é fácil para nenhum de nós,
pobre coitado.
ele dorme
e agora sonha
o quê?
um gordo pardal em sua boca?
ou rodeado por gatas com tesão?
ele sonha seus sonhos diurnos
e nós saberemos o que é
esta noite.
boa sorte, velho camarada,
a vida não é fácil,
estamos dependurados em nossos colhões, é assim que estamos, ou seja,
estamos no cativeiro de nossos colhões,
e eu deveria me conter um pouco
quando se trata de mulheres.
enquanto isso
olharei seus olhos e me defenderei com jabs de esquerda
e correrei como do diabo
quando nada mais
adiantar.
1 235
Charles Bukowski
Idade
a decência de suar em uma cadeira de balanço
está reservada aos velhos generais ou aos antigos
estadistas enquanto as tardes florescem com
garotinhas que não têm nada a fazer a não ser rir
e passar por perto.
para mim
quando os dedos forem embora o cérebro terá ido embora.
não haverá mais nada para erguer o
copo e eu ficarei por aí pensando em
camisolas brancas e piranhas
e blocos de noite com ratos no lugar dos olhos.
quando os dedos falharem no copo eu terei
falhado
e a alma
em um velho saco de papel marrom
dirá adeus
assim como as sebes dizem adeus
assim como os canhões parados nos parques perguntando-se o que
vem aí.
está reservada aos velhos generais ou aos antigos
estadistas enquanto as tardes florescem com
garotinhas que não têm nada a fazer a não ser rir
e passar por perto.
para mim
quando os dedos forem embora o cérebro terá ido embora.
não haverá mais nada para erguer o
copo e eu ficarei por aí pensando em
camisolas brancas e piranhas
e blocos de noite com ratos no lugar dos olhos.
quando os dedos falharem no copo eu terei
falhado
e a alma
em um velho saco de papel marrom
dirá adeus
assim como as sebes dizem adeus
assim como os canhões parados nos parques perguntando-se o que
vem aí.
694
Charles Bukowski
Idade
a decência de suar em uma cadeira de balanço
está reservada aos velhos generais ou aos antigos
estadistas enquanto as tardes florescem com
garotinhas que não têm nada a fazer a não ser rir
e passar por perto.
para mim
quando os dedos forem embora o cérebro terá ido embora.
não haverá mais nada para erguer o
copo e eu ficarei por aí pensando em
camisolas brancas e piranhas
e blocos de noite com ratos no lugar dos olhos.
quando os dedos falharem no copo eu terei
falhado
e a alma
em um velho saco de papel marrom
dirá adeus
assim como as sebes dizem adeus
assim como os canhões parados nos parques perguntando-se o que
vem aí.
está reservada aos velhos generais ou aos antigos
estadistas enquanto as tardes florescem com
garotinhas que não têm nada a fazer a não ser rir
e passar por perto.
para mim
quando os dedos forem embora o cérebro terá ido embora.
não haverá mais nada para erguer o
copo e eu ficarei por aí pensando em
camisolas brancas e piranhas
e blocos de noite com ratos no lugar dos olhos.
quando os dedos falharem no copo eu terei
falhado
e a alma
em um velho saco de papel marrom
dirá adeus
assim como as sebes dizem adeus
assim como os canhões parados nos parques perguntando-se o que
vem aí.
694
Charles Bukowski
Idade
a decência de suar em uma cadeira de balanço
está reservada aos velhos generais ou aos antigos
estadistas enquanto as tardes florescem com
garotinhas que não têm nada a fazer a não ser rir
e passar por perto.
para mim
quando os dedos forem embora o cérebro terá ido embora.
não haverá mais nada para erguer o
copo e eu ficarei por aí pensando em
camisolas brancas e piranhas
e blocos de noite com ratos no lugar dos olhos.
quando os dedos falharem no copo eu terei
falhado
e a alma
em um velho saco de papel marrom
dirá adeus
assim como as sebes dizem adeus
assim como os canhões parados nos parques perguntando-se o que
vem aí.
está reservada aos velhos generais ou aos antigos
estadistas enquanto as tardes florescem com
garotinhas que não têm nada a fazer a não ser rir
e passar por perto.
para mim
quando os dedos forem embora o cérebro terá ido embora.
não haverá mais nada para erguer o
copo e eu ficarei por aí pensando em
camisolas brancas e piranhas
e blocos de noite com ratos no lugar dos olhos.
quando os dedos falharem no copo eu terei
falhado
e a alma
em um velho saco de papel marrom
dirá adeus
assim como as sebes dizem adeus
assim como os canhões parados nos parques perguntando-se o que
vem aí.
694
Charles Bukowski
Especial De 1990
gasto pelos anos
cansado até a medula.
dançando na escuridão com a
escuridão,
o Garoto Suicida ficou
grisalho.
ah, os velozes verões
idos e partidos
para sempre!
estará a morte
me espreitando
agora?
não, é apenas meu gato,
desta
vez.
cansado até a medula.
dançando na escuridão com a
escuridão,
o Garoto Suicida ficou
grisalho.
ah, os velozes verões
idos e partidos
para sempre!
estará a morte
me espreitando
agora?
não, é apenas meu gato,
desta
vez.
1 143
Charles Bukowski
Especial De 1990
gasto pelos anos
cansado até a medula.
dançando na escuridão com a
escuridão,
o Garoto Suicida ficou
grisalho.
ah, os velozes verões
idos e partidos
para sempre!
estará a morte
me espreitando
agora?
não, é apenas meu gato,
desta
vez.
cansado até a medula.
dançando na escuridão com a
escuridão,
o Garoto Suicida ficou
grisalho.
ah, os velozes verões
idos e partidos
para sempre!
estará a morte
me espreitando
agora?
não, é apenas meu gato,
desta
vez.
1 143
Charles Bukowski
Especial De 1990
gasto pelos anos
cansado até a medula.
dançando na escuridão com a
escuridão,
o Garoto Suicida ficou
grisalho.
ah, os velozes verões
idos e partidos
para sempre!
estará a morte
me espreitando
agora?
não, é apenas meu gato,
desta
vez.
cansado até a medula.
dançando na escuridão com a
escuridão,
o Garoto Suicida ficou
grisalho.
ah, os velozes verões
idos e partidos
para sempre!
estará a morte
me espreitando
agora?
não, é apenas meu gato,
desta
vez.
1 143
Charles Bukowski
Sol Se Pondo
ninguém está triste por eu ir embora,
nem mesmo eu;
mas deveria haver um menestrel
ou ao menos um copo de vinho.
isso incomoda mais aos jovens, acho:
uma morte lenta sem violência.
ainda assim isso faz com que qualquer homem sonhe;
você gostaria de um velho veleiro,
a vela branca incrustada de sal
e o mar embalando sugestões de imortalidade.
mar no nariz
mar no cabelo
mar na medula, nos olhos
e sim, no peito.
sentiremos falta
do amor de uma mulher ou música ou comida
ou o corcovear do grande cavalo louco e
musculoso,
pisoteando torrões de terra e destinos
para o alto e para bem longe
em um só momento de sol poente?
mas agora é a minha vez
e não há majestade nisso
pois não houve majestade
antes disso
e cada um de nós, como vermes mordidos
nas maçãs,
não merece moratória.
a morte penetra em minha boca
e rasteja ao longo dos meus dentes
e me pergunto se estou com medo deste
morrer sem voz e sem lamentos que é
igual ao murchar de uma rosa?
nem mesmo eu;
mas deveria haver um menestrel
ou ao menos um copo de vinho.
isso incomoda mais aos jovens, acho:
uma morte lenta sem violência.
ainda assim isso faz com que qualquer homem sonhe;
você gostaria de um velho veleiro,
a vela branca incrustada de sal
e o mar embalando sugestões de imortalidade.
mar no nariz
mar no cabelo
mar na medula, nos olhos
e sim, no peito.
sentiremos falta
do amor de uma mulher ou música ou comida
ou o corcovear do grande cavalo louco e
musculoso,
pisoteando torrões de terra e destinos
para o alto e para bem longe
em um só momento de sol poente?
mas agora é a minha vez
e não há majestade nisso
pois não houve majestade
antes disso
e cada um de nós, como vermes mordidos
nas maçãs,
não merece moratória.
a morte penetra em minha boca
e rasteja ao longo dos meus dentes
e me pergunto se estou com medo deste
morrer sem voz e sem lamentos que é
igual ao murchar de uma rosa?
1 232
Charles Bukowski
Sol Se Pondo
ninguém está triste por eu ir embora,
nem mesmo eu;
mas deveria haver um menestrel
ou ao menos um copo de vinho.
isso incomoda mais aos jovens, acho:
uma morte lenta sem violência.
ainda assim isso faz com que qualquer homem sonhe;
você gostaria de um velho veleiro,
a vela branca incrustada de sal
e o mar embalando sugestões de imortalidade.
mar no nariz
mar no cabelo
mar na medula, nos olhos
e sim, no peito.
sentiremos falta
do amor de uma mulher ou música ou comida
ou o corcovear do grande cavalo louco e
musculoso,
pisoteando torrões de terra e destinos
para o alto e para bem longe
em um só momento de sol poente?
mas agora é a minha vez
e não há majestade nisso
pois não houve majestade
antes disso
e cada um de nós, como vermes mordidos
nas maçãs,
não merece moratória.
a morte penetra em minha boca
e rasteja ao longo dos meus dentes
e me pergunto se estou com medo deste
morrer sem voz e sem lamentos que é
igual ao murchar de uma rosa?
nem mesmo eu;
mas deveria haver um menestrel
ou ao menos um copo de vinho.
isso incomoda mais aos jovens, acho:
uma morte lenta sem violência.
ainda assim isso faz com que qualquer homem sonhe;
você gostaria de um velho veleiro,
a vela branca incrustada de sal
e o mar embalando sugestões de imortalidade.
mar no nariz
mar no cabelo
mar na medula, nos olhos
e sim, no peito.
sentiremos falta
do amor de uma mulher ou música ou comida
ou o corcovear do grande cavalo louco e
musculoso,
pisoteando torrões de terra e destinos
para o alto e para bem longe
em um só momento de sol poente?
mas agora é a minha vez
e não há majestade nisso
pois não houve majestade
antes disso
e cada um de nós, como vermes mordidos
nas maçãs,
não merece moratória.
a morte penetra em minha boca
e rasteja ao longo dos meus dentes
e me pergunto se estou com medo deste
morrer sem voz e sem lamentos que é
igual ao murchar de uma rosa?
1 232
Charles Bukowski
O Sonho, O Sonho
sempre há uma nova Carmem dobrando
alguma esquina
em algum lugar
mas então as Carmens nunca parecem
durar;
as Carmens dificilmente duram algum
tempo.
vejo isso nos olhos dos homens
em todo lugar -
homens sentados em balcões de lanchonete
homens dirigindo ônibus
homens fazendo discursos políticos
homens limpando dentes
homens em jaulas de tigres
homens que vejo em todo lugar...
o homem que vejo enquanto faço a barba
me devolve o olhar através de olhos semicerrados
sua Carmem também se foi -
este homem (eu) agora está
pensando no que esta
lâmina realmente poderia
fazer, o pensamento sempre está
ali -
mas o jogo nos faz
seguir em frente: há sempre alguma nova Carmem
à espera
em algum lugar
só dobrando alguma
esquina.
alguma esquina
em algum lugar
mas então as Carmens nunca parecem
durar;
as Carmens dificilmente duram algum
tempo.
vejo isso nos olhos dos homens
em todo lugar -
homens sentados em balcões de lanchonete
homens dirigindo ônibus
homens fazendo discursos políticos
homens limpando dentes
homens em jaulas de tigres
homens que vejo em todo lugar...
o homem que vejo enquanto faço a barba
me devolve o olhar através de olhos semicerrados
sua Carmem também se foi -
este homem (eu) agora está
pensando no que esta
lâmina realmente poderia
fazer, o pensamento sempre está
ali -
mas o jogo nos faz
seguir em frente: há sempre alguma nova Carmem
à espera
em algum lugar
só dobrando alguma
esquina.
1 046
Charles Bukowski
A Velha
ela vivia na última casa velha
do quarteirão -
você conhece o tipo: coberta de trepadeiras, escura, quieta.
seus vizinhos haviam ido embora -
nada a não ser prédios de apartamentos de muitos andares por todo lugar.
era vista duas ou três vezes por semana
empurrando seu carrinho de compras sobre duas rodas;
depois ela voltava com coisas empacotadas,
entrava na casa, e era só
isso. nunca falou com ninguém.
foi na semana passada por volta das 3:30 da tarde
que a casa dela começou a deslizar sobre os alicerces.
era um deslizamento muito lento
passando a impressão de que a casa só estava dando um passo
à frente para dar um passeio rua abaixo -
exceto por algumas tábuas que começaram a estalar -
soava como tiros de espingarda, e a casa gemeu só um
pouco - um sombrio gemido verde.
alguém chamou o corpo de bombeiros
e homens corriam ao redor desligando o gás
e berrando uns com os outros
e dizendo à multidão para se afastar
e logo veio um desses caminhões da TV
e eles filmaram a casa
inclinando-se para a rua.
então a porta da frente se abriu e a velha
senhorinha saiu.
miraram a câmera nela e uma mulher veio correndo com um
microfone.
"há quanto tempo a senhora mora nesta casa?"
"5o anos."
"a senhora tem seguro?"
Nao 33
"o que a senhora vai fazer
agora?"
"voltar para a Irlanda", ela disse.
então ela saiu andando e deixou todos eles parados
lá.
do quarteirão -
você conhece o tipo: coberta de trepadeiras, escura, quieta.
seus vizinhos haviam ido embora -
nada a não ser prédios de apartamentos de muitos andares por todo lugar.
era vista duas ou três vezes por semana
empurrando seu carrinho de compras sobre duas rodas;
depois ela voltava com coisas empacotadas,
entrava na casa, e era só
isso. nunca falou com ninguém.
foi na semana passada por volta das 3:30 da tarde
que a casa dela começou a deslizar sobre os alicerces.
era um deslizamento muito lento
passando a impressão de que a casa só estava dando um passo
à frente para dar um passeio rua abaixo -
exceto por algumas tábuas que começaram a estalar -
soava como tiros de espingarda, e a casa gemeu só um
pouco - um sombrio gemido verde.
alguém chamou o corpo de bombeiros
e homens corriam ao redor desligando o gás
e berrando uns com os outros
e dizendo à multidão para se afastar
e logo veio um desses caminhões da TV
e eles filmaram a casa
inclinando-se para a rua.
então a porta da frente se abriu e a velha
senhorinha saiu.
miraram a câmera nela e uma mulher veio correndo com um
microfone.
"há quanto tempo a senhora mora nesta casa?"
"5o anos."
"a senhora tem seguro?"
Nao 33
"o que a senhora vai fazer
agora?"
"voltar para a Irlanda", ela disse.
então ela saiu andando e deixou todos eles parados
lá.
1 086
Charles Bukowski
Possessão
uma velha senhora fala com uma garota que está
secando seu longo cabelo negro sentada em um degrau dos fundos,
ela aponta com o dedo e fala em uma língua estrangeira
e o sol está muito bonito
enquanto a velha senhora fala e penteia as mechas emaranhadas
(tantas luas se passaram desde então)
de repente a garotinha grita e sacode a cabeça
e juntas voltam para dentro da casa
onde ambas morrerão juntas,
mas não entendem elas
o que foi meu, não delas:
o cabelo, o longo cabelo negro seco ao sol,
e talvez a garota também?
secando seu longo cabelo negro sentada em um degrau dos fundos,
ela aponta com o dedo e fala em uma língua estrangeira
e o sol está muito bonito
enquanto a velha senhora fala e penteia as mechas emaranhadas
(tantas luas se passaram desde então)
de repente a garotinha grita e sacode a cabeça
e juntas voltam para dentro da casa
onde ambas morrerão juntas,
mas não entendem elas
o que foi meu, não delas:
o cabelo, o longo cabelo negro seco ao sol,
e talvez a garota também?
1 224
Charles Bukowski
Possessão
uma velha senhora fala com uma garota que está
secando seu longo cabelo negro sentada em um degrau dos fundos,
ela aponta com o dedo e fala em uma língua estrangeira
e o sol está muito bonito
enquanto a velha senhora fala e penteia as mechas emaranhadas
(tantas luas se passaram desde então)
de repente a garotinha grita e sacode a cabeça
e juntas voltam para dentro da casa
onde ambas morrerão juntas,
mas não entendem elas
o que foi meu, não delas:
o cabelo, o longo cabelo negro seco ao sol,
e talvez a garota também?
secando seu longo cabelo negro sentada em um degrau dos fundos,
ela aponta com o dedo e fala em uma língua estrangeira
e o sol está muito bonito
enquanto a velha senhora fala e penteia as mechas emaranhadas
(tantas luas se passaram desde então)
de repente a garotinha grita e sacode a cabeça
e juntas voltam para dentro da casa
onde ambas morrerão juntas,
mas não entendem elas
o que foi meu, não delas:
o cabelo, o longo cabelo negro seco ao sol,
e talvez a garota também?
1 224
Charles Bukowski
Possessão
uma velha senhora fala com uma garota que está
secando seu longo cabelo negro sentada em um degrau dos fundos,
ela aponta com o dedo e fala em uma língua estrangeira
e o sol está muito bonito
enquanto a velha senhora fala e penteia as mechas emaranhadas
(tantas luas se passaram desde então)
de repente a garotinha grita e sacode a cabeça
e juntas voltam para dentro da casa
onde ambas morrerão juntas,
mas não entendem elas
o que foi meu, não delas:
o cabelo, o longo cabelo negro seco ao sol,
e talvez a garota também?
secando seu longo cabelo negro sentada em um degrau dos fundos,
ela aponta com o dedo e fala em uma língua estrangeira
e o sol está muito bonito
enquanto a velha senhora fala e penteia as mechas emaranhadas
(tantas luas se passaram desde então)
de repente a garotinha grita e sacode a cabeça
e juntas voltam para dentro da casa
onde ambas morrerão juntas,
mas não entendem elas
o que foi meu, não delas:
o cabelo, o longo cabelo negro seco ao sol,
e talvez a garota também?
1 224
Charles Bukowski
Cachorro Morto
Bartkowski completou um arremesso a gol de 58 jardas
para derrotar o Packers no último minuto.
eu ouço pelo rádio
é domingo e estou a caminho das pistas de corrida
devo chegar para o terceiro páreo.
o Falcons segura a vitória e isso é bom.
desligo o rádio.
depois, quando a Harbor Freeway se ramifica
na Pasadena
vejo um cachorro na rampa
é dos grandes e é manco
mas ainda respira
sua cabeça está esmagada.
pessoas que levam cachorros em seus carros
e os deixam dependurados para fora da janela
quando esses cachorros caem na rodovia
muitas vezes elas apenas continuam a dirigir.
eu sei entrar no túnel.
você pega a pista mais à direita quando
as outras pistas desviam à esquerda.
eu sigo e cruzo.
quando saio do túnel
deslizo de volta para a via expressa.
esses filhos da puta e seus cachorros
mortos.
chego ao hipódromo à 1:20 da tarde.
vou ao estacionamento preferencial
acho uma vaga no F-5
tranco
e enquanto caminho entre os carros
vejo dois homens que
arrombaram um carro.
eles tiraram o rádio,
o estéreo e os alto-falantes.
eles me veem e eu os vejo.
"não diga nada, cara!
se você fizer isso, lembre-se de que nós o veremos
de novo algum outro dia!"
entro no hipódromo
são quatro minutos para apostar
no terceiro páreo que vem aí
a multidão apostou em Shameen
com Delahousseye montando
dando de 4 para 2 a 1.
Song for Two dá uma linha de 2
es.
avalio os cavalos
e aposto 10 em Song for Two na ponta.
Song for Two ganha no fotochart
o Shoe ainda sabe montar
e estou $31 à frente.
esses filhos da puta e seus cachorros
mortos.
perco o 4o, 50 e 60 páreos.
no 70 eles jogam Back"n Time para baixo
de 3 para 5 em uma tabela de 99
nos cinco quartos de milha em Del Mar
mas o potro tem 3 anos
competindo com cavalos mais velhos
e nunca correu a milha.
posso vê-lo entrando na reta
com uma liderança de 4 corpos e sendo batido
na chegada
por outro.
mas quem vai batê-lo?
ainda há 6 outros cavalos.
eu ponho $50 em Back"n Time na ponta
e assisto à corrida.
o potro tem quatro corpos de vantagem ao entrar
na reta
então Don F.
o menos provável no páreo
começa a chegar perto
e é cabeça a cabeça na chegada.
eles vão ver a foto
nós esperamos
então eles põem Don. F.
com 19 para 1.
eu pego $2.80 pelo placê
assim faço $20
perco o 80
aí fico apenas com $18.
no Jo
aposto 10 na ponta em Fleet Ruler
e 2 na ponta em Forecast
então deixo o hipódromo
fico no estacionamento
escutando o locutor
que está berrando
Forecast está na frente
e aí vem Fleet Ruler
é Fleet Ruler e Forecast
chegando juntos.
é evidentemente no fotochart.
vou até meu carro para sair
antes da multidão.
eu estou com o rádio
na estação dos resultados das corridas.
ainda estou na Pasadena Freeway
quando ouço o resultado:
é Forecast
e Forecast pagou $90.70
assim
o dia não foi de todo desperdiçado.
porém mais tarde
quando entro na via de acesso
lá está aquele gato de Manx
com sua cauda rudimentar e
com sua língua dependurada para fora.
ele se recusa a dar passagem para o carro.
eu desço.
pego-o e
o jogo no banco da frente.
entramos na garagem
juntos.
saímos do carro
e os outros dois gatos estão à espera
(amantes de cabeças de peixes, sonhadores com
pássaros)
abro a porta
e todos os gatos entram junto
comigo.
eles correm para a cozinha
eu noto que Dallas e San Diego estão jogando
agora. Danny White é zagueiro no
Dallas.
eu sempre gostei de Danny White,
esse é um jogador.
eu poderia assistir a algumas rodadas.
domingo é um dia de descanso.
todas as coisas importantes deveriam ser esquecidas.
decido que sequer vou alimentar os gatos
por algum tempo.
e na terça ou quarta-feira vou começar a trabalhar
em meu romance sobre a infância
outra vez.
para derrotar o Packers no último minuto.
eu ouço pelo rádio
é domingo e estou a caminho das pistas de corrida
devo chegar para o terceiro páreo.
o Falcons segura a vitória e isso é bom.
desligo o rádio.
depois, quando a Harbor Freeway se ramifica
na Pasadena
vejo um cachorro na rampa
é dos grandes e é manco
mas ainda respira
sua cabeça está esmagada.
pessoas que levam cachorros em seus carros
e os deixam dependurados para fora da janela
quando esses cachorros caem na rodovia
muitas vezes elas apenas continuam a dirigir.
eu sei entrar no túnel.
você pega a pista mais à direita quando
as outras pistas desviam à esquerda.
eu sigo e cruzo.
quando saio do túnel
deslizo de volta para a via expressa.
esses filhos da puta e seus cachorros
mortos.
chego ao hipódromo à 1:20 da tarde.
vou ao estacionamento preferencial
acho uma vaga no F-5
tranco
e enquanto caminho entre os carros
vejo dois homens que
arrombaram um carro.
eles tiraram o rádio,
o estéreo e os alto-falantes.
eles me veem e eu os vejo.
"não diga nada, cara!
se você fizer isso, lembre-se de que nós o veremos
de novo algum outro dia!"
entro no hipódromo
são quatro minutos para apostar
no terceiro páreo que vem aí
a multidão apostou em Shameen
com Delahousseye montando
dando de 4 para 2 a 1.
Song for Two dá uma linha de 2
es.
avalio os cavalos
e aposto 10 em Song for Two na ponta.
Song for Two ganha no fotochart
o Shoe ainda sabe montar
e estou $31 à frente.
esses filhos da puta e seus cachorros
mortos.
perco o 4o, 50 e 60 páreos.
no 70 eles jogam Back"n Time para baixo
de 3 para 5 em uma tabela de 99
nos cinco quartos de milha em Del Mar
mas o potro tem 3 anos
competindo com cavalos mais velhos
e nunca correu a milha.
posso vê-lo entrando na reta
com uma liderança de 4 corpos e sendo batido
na chegada
por outro.
mas quem vai batê-lo?
ainda há 6 outros cavalos.
eu ponho $50 em Back"n Time na ponta
e assisto à corrida.
o potro tem quatro corpos de vantagem ao entrar
na reta
então Don F.
o menos provável no páreo
começa a chegar perto
e é cabeça a cabeça na chegada.
eles vão ver a foto
nós esperamos
então eles põem Don. F.
com 19 para 1.
eu pego $2.80 pelo placê
assim faço $20
perco o 80
aí fico apenas com $18.
no Jo
aposto 10 na ponta em Fleet Ruler
e 2 na ponta em Forecast
então deixo o hipódromo
fico no estacionamento
escutando o locutor
que está berrando
Forecast está na frente
e aí vem Fleet Ruler
é Fleet Ruler e Forecast
chegando juntos.
é evidentemente no fotochart.
vou até meu carro para sair
antes da multidão.
eu estou com o rádio
na estação dos resultados das corridas.
ainda estou na Pasadena Freeway
quando ouço o resultado:
é Forecast
e Forecast pagou $90.70
assim
o dia não foi de todo desperdiçado.
porém mais tarde
quando entro na via de acesso
lá está aquele gato de Manx
com sua cauda rudimentar e
com sua língua dependurada para fora.
ele se recusa a dar passagem para o carro.
eu desço.
pego-o e
o jogo no banco da frente.
entramos na garagem
juntos.
saímos do carro
e os outros dois gatos estão à espera
(amantes de cabeças de peixes, sonhadores com
pássaros)
abro a porta
e todos os gatos entram junto
comigo.
eles correm para a cozinha
eu noto que Dallas e San Diego estão jogando
agora. Danny White é zagueiro no
Dallas.
eu sempre gostei de Danny White,
esse é um jogador.
eu poderia assistir a algumas rodadas.
domingo é um dia de descanso.
todas as coisas importantes deveriam ser esquecidas.
decido que sequer vou alimentar os gatos
por algum tempo.
e na terça ou quarta-feira vou começar a trabalhar
em meu romance sobre a infância
outra vez.
704
Charles Bukowski
Meu Pai
meu pai gostava de regras e de fazer as coisas
do jeito difícil.
ele falava de responsabilidades e leis
e coisas que só tinham que ser feitas corretamente.
um homem tem que trabalhar, um homem tem que comer.
um homem tem que ter sua propriedade e aparar seu gramado.
acabei me tornando um bêbado e um andarilho
e seus pacotes de cartas me seguiam por todo lugar.
eu olhava para os pombos na chuva em
Nova Orleans enquanto as cartas diziam,
vá em frente, dê um jeito na sua vida!
com que dificuldade o mundo tenta e como tudo
foi difícil para mim.
meu pai agora está velho e grisalho e quando
eu entro na casa dele se queixa
do barro que trago para dentro. ele
se orgulha da sua casa e jardim e
fica sentado à espera. mas eu
fico horrorizado enquanto ele fala comigo:
ele nunca pensou na morte! ele não
pensa em morrer! enquanto fala, sua
boca é um buraco redondo; ele se reclina contente
em suas almofadas. quando me vou ele diz,
volte de novo, volte de novo.
quantas vezes e por quê?
quem é meu pai? alguma vez ele
tocou uma guitarra ou nadou em águas geladas?
conheço meu pai: ele está morto. há lama
morta e há um galho de árvore. o galho
de árvore balança suave ao vento e
entre as folhas você vê lampejos do sol.
é sossegado. é real. é tépido.
e o barro no assoalho é o coração do meu pai
e seu cérebro.
do jeito difícil.
ele falava de responsabilidades e leis
e coisas que só tinham que ser feitas corretamente.
um homem tem que trabalhar, um homem tem que comer.
um homem tem que ter sua propriedade e aparar seu gramado.
acabei me tornando um bêbado e um andarilho
e seus pacotes de cartas me seguiam por todo lugar.
eu olhava para os pombos na chuva em
Nova Orleans enquanto as cartas diziam,
vá em frente, dê um jeito na sua vida!
com que dificuldade o mundo tenta e como tudo
foi difícil para mim.
meu pai agora está velho e grisalho e quando
eu entro na casa dele se queixa
do barro que trago para dentro. ele
se orgulha da sua casa e jardim e
fica sentado à espera. mas eu
fico horrorizado enquanto ele fala comigo:
ele nunca pensou na morte! ele não
pensa em morrer! enquanto fala, sua
boca é um buraco redondo; ele se reclina contente
em suas almofadas. quando me vou ele diz,
volte de novo, volte de novo.
quantas vezes e por quê?
quem é meu pai? alguma vez ele
tocou uma guitarra ou nadou em águas geladas?
conheço meu pai: ele está morto. há lama
morta e há um galho de árvore. o galho
de árvore balança suave ao vento e
entre as folhas você vê lampejos do sol.
é sossegado. é real. é tépido.
e o barro no assoalho é o coração do meu pai
e seu cérebro.
1 484
Charles Bukowski
Meu Pai
meu pai gostava de regras e de fazer as coisas
do jeito difícil.
ele falava de responsabilidades e leis
e coisas que só tinham que ser feitas corretamente.
um homem tem que trabalhar, um homem tem que comer.
um homem tem que ter sua propriedade e aparar seu gramado.
acabei me tornando um bêbado e um andarilho
e seus pacotes de cartas me seguiam por todo lugar.
eu olhava para os pombos na chuva em
Nova Orleans enquanto as cartas diziam,
vá em frente, dê um jeito na sua vida!
com que dificuldade o mundo tenta e como tudo
foi difícil para mim.
meu pai agora está velho e grisalho e quando
eu entro na casa dele se queixa
do barro que trago para dentro. ele
se orgulha da sua casa e jardim e
fica sentado à espera. mas eu
fico horrorizado enquanto ele fala comigo:
ele nunca pensou na morte! ele não
pensa em morrer! enquanto fala, sua
boca é um buraco redondo; ele se reclina contente
em suas almofadas. quando me vou ele diz,
volte de novo, volte de novo.
quantas vezes e por quê?
quem é meu pai? alguma vez ele
tocou uma guitarra ou nadou em águas geladas?
conheço meu pai: ele está morto. há lama
morta e há um galho de árvore. o galho
de árvore balança suave ao vento e
entre as folhas você vê lampejos do sol.
é sossegado. é real. é tépido.
e o barro no assoalho é o coração do meu pai
e seu cérebro.
do jeito difícil.
ele falava de responsabilidades e leis
e coisas que só tinham que ser feitas corretamente.
um homem tem que trabalhar, um homem tem que comer.
um homem tem que ter sua propriedade e aparar seu gramado.
acabei me tornando um bêbado e um andarilho
e seus pacotes de cartas me seguiam por todo lugar.
eu olhava para os pombos na chuva em
Nova Orleans enquanto as cartas diziam,
vá em frente, dê um jeito na sua vida!
com que dificuldade o mundo tenta e como tudo
foi difícil para mim.
meu pai agora está velho e grisalho e quando
eu entro na casa dele se queixa
do barro que trago para dentro. ele
se orgulha da sua casa e jardim e
fica sentado à espera. mas eu
fico horrorizado enquanto ele fala comigo:
ele nunca pensou na morte! ele não
pensa em morrer! enquanto fala, sua
boca é um buraco redondo; ele se reclina contente
em suas almofadas. quando me vou ele diz,
volte de novo, volte de novo.
quantas vezes e por quê?
quem é meu pai? alguma vez ele
tocou uma guitarra ou nadou em águas geladas?
conheço meu pai: ele está morto. há lama
morta e há um galho de árvore. o galho
de árvore balança suave ao vento e
entre as folhas você vê lampejos do sol.
é sossegado. é real. é tépido.
e o barro no assoalho é o coração do meu pai
e seu cérebro.
1 484
Charles Bukowski
Tudo Certo, Camus
encontrei esse cara em algum lugar, inferno, seus olhos pareciam aqueles
de um louco
ou talvez fosse apenas meu reflexo neles.
bem, de qualquer modo, ele me disse, você leu Camus?
estamos ambos no bar sem mulheres procurando
um pedaço de rabo ou alguma saída através do teto do céu e
não estava funcionando - só havia o balconista do bar perguntando-se
por que
havia se metido nesse negócio
e eu, muito desanimado com o fato de até agora só ter sido traduzido
em 6 ou 7 línguas.
o cara continuava a falar -
O estrangeiro, você sabe, o livro que retrata nossa sociedade moderna -
sobre o homem amortecido que não
conseguia chorar no funeral da mãe dele, que
matou um árabe ou dois sem nem mesmo saber por quê -
ele prosseguia e prosseguia
e prosseguia e prosseguia
contando-me que filho de uma puta era O estrangeiro,
e fiquei pensando que talvez ele tivesse razão -
você sabe, esses discursos horrorosos diante da Academia Francesa -
você não saberia dizer se Camus estava falando pelo
canto da sua boca ou
se ele estava
sério. ele certamente não soava melhor que
o sujeito a meu lado no bar
e nós estávamos apenas procurando
xota.
foi muito triste -
o tempo todo O estrangeiro havia sido meu herói
porque eu achava que ele enxergara para além da tentativa
ou do cuidado
porque tudo era uma tamanha chatice
tão sem sentido -
a vida em um grande buraco no chão olhando para cima -
e eu estava errado mais uma vez:
inferno, eu era O estrangeiro e o livro simplesmente não havia saído
do jeito que
deveria.
de um louco
ou talvez fosse apenas meu reflexo neles.
bem, de qualquer modo, ele me disse, você leu Camus?
estamos ambos no bar sem mulheres procurando
um pedaço de rabo ou alguma saída através do teto do céu e
não estava funcionando - só havia o balconista do bar perguntando-se
por que
havia se metido nesse negócio
e eu, muito desanimado com o fato de até agora só ter sido traduzido
em 6 ou 7 línguas.
o cara continuava a falar -
O estrangeiro, você sabe, o livro que retrata nossa sociedade moderna -
sobre o homem amortecido que não
conseguia chorar no funeral da mãe dele, que
matou um árabe ou dois sem nem mesmo saber por quê -
ele prosseguia e prosseguia
e prosseguia e prosseguia
contando-me que filho de uma puta era O estrangeiro,
e fiquei pensando que talvez ele tivesse razão -
você sabe, esses discursos horrorosos diante da Academia Francesa -
você não saberia dizer se Camus estava falando pelo
canto da sua boca ou
se ele estava
sério. ele certamente não soava melhor que
o sujeito a meu lado no bar
e nós estávamos apenas procurando
xota.
foi muito triste -
o tempo todo O estrangeiro havia sido meu herói
porque eu achava que ele enxergara para além da tentativa
ou do cuidado
porque tudo era uma tamanha chatice
tão sem sentido -
a vida em um grande buraco no chão olhando para cima -
e eu estava errado mais uma vez:
inferno, eu era O estrangeiro e o livro simplesmente não havia saído
do jeito que
deveria.
1 098
Charles Bukowski
Maldito Rimbaud
foi em Santa Fé.
estávamos sentados esperando-a.
ela havia ido a alguma exposição de arte ou qualquer outra
maldita coisa inútil.
era uma boa artista
melhor que muitos homens
e esse era O
problema.
"que diabo aconteceu com Helen?"
"onde está Helen?"
o marido de Helen, ex-marido, agora estava sentado no topo de uma
colina em algum lugar com uma nova puta de olhos azuis.
uma puta
muito puta: ela até escrevia
poesia. Vicki era o nome dela. Vicki agora era "Sra."
ela havia trocado um marido rico por outro mais
rico ainda.
"Helen me pediu para não odiar Vicki!", disse minha anfitriã,
"mas que diabo, não consigo gostar de Vicki."
"que diabo", disse meu anfitrião, "você não pode nem
tentar?"
"você gosta de Vicki?", perguntou minha anfitriã.
Vicki me parecia legal. eu não conseguia achar nada de errado
nela.
"onde está Helen?", perguntei de novo. "oh onde oh onde diabos está
Helen?"
"ela vai chegar, ela vai chegar, ela disse que estava
chegando."
Helen apareceu 3 horas mais tarde.
ela parecia uma serpente em um vestido verde, todo fluido,
louco louco, lustroso,
seu colar prateado pulsando
em sua garganta
bem debaixo do meu nariz.
ela era consumida por 3 simples coisas:
bebida, desespero, solidão; e mais 2:
juventude e beleza.
era demais:
eu não podia resistir à força
dela. eu a beijei. eu a beijei
de novo. eu era como um garoto na escola,
toda a minha dureza
tinha desaparecido.
"vamos cair fora daqui!"
eu lhe disse, ignorando nosso anfitrião e nossa anfitriã.
fomos para sua casa logo ao lado
e eu fiquei na cozinha bebendo e
observando-a.
"seu corpo, seu corpo, Jesus!", eu lhe
disse. ela era realmente bela e dava risadas,
como quando você lê a respeito em um romance
só que isso nunca acontece com
ninguém.
ela contorceu seu corpo e enquanto cantarolava
fez uma adorável dança repleta de
insinuações.
"baby, eu te amo", eu disse, "baby, eu te
amo!"
nós descemos para um salão escuro com um crucifixo
na parede e alguns de seus quadros. entramos em
outro quarto grande. continuei no meu
drinque.
"fique aqui", ela disse.
sentei-me em um sofá e bebi. parecia
frio e vazio de repente e eu
me perguntava aonde ela havia ido.
então olhei em volta e ela estava deitada em outro sofá
nua e sorridente
o que foi inesperado
pois estou acostumado a despir minhas
mulheres.
e a visão dela ali nua em pelo me fazia lembrar mais
dos meus dias no matadouro do
que de Mozart,
mas, é claro, quem quer foder
com Mozart?
terminei meu drinque e tirei a roupa e tentei
mas acho que não estava lá essas coisas
foi minha culpa
minha culpa
e ela me empurrou
pra longe.
eu fiz mais algumas tentativas
desanimadas e então ela se levantou e saiu.
também me vesti e depois
não me lembro de muita coisa exceto
de estar um bocado bêbado.
mas quando ela me pôs para fora na chuva
eu ressuscitei.
a chuva estava molhada a chuva estava fria a chuva estava
gelada.
"merda!", eu disse, "merda!" corri de volta para
a porta dela ou a porta que achei que fosse dela
mas parecia haver dúzias de portas,
uma série de apartamentos todos
engatados.
bati na porta que esperava ser a dela:
"baby, baby, eu não quero foder com você! sei que sou
um amante horrível! tudo o que eu quero é sair
desta maldita chuva!"
ela não respondeu. eu desisti. voltei correndo para
o apartamento do meu primeiro anfitrião. bati na porta.
não adiantou. a chuva era como gelo.
olhei para uma garagem aberta mas estava cheia de lama e água;
nenhum lugar para me deitar.
"deixe-me entrar!", eu gritei. "Jesus! misericórdia! o que eu fiz?
em que eu falhei? VOCÊ É O GUARDIÃO DO SEU IRMÃO!"
meu anfitrião apareceu na porta:
"você é um cachorro sujo!"
"eu sei, mas deixe-me entrar,
por favor."
ele abriu a porta e eu o segui pela
sala.
"cara oh cara." ele disse, "você é um filho da puta, você é um
cachorro covarde, você não vale nada!"
"eu sei," eu disse.
"você contou para ela que eu era um ex-condenado?"
"diabos, não, nem estava pensando em
você."
"então que diabo você quer de
mim?"
"nada, você me pagou a passagem de
trem de volta."
"você insultou a nós dois. eu não me importo comigo mas você não pode
insultar minha mulher. você disse para Helen, "vamos eu e você cair
fora daqui, essas outras pessoas não são de nada!"
"foda-se. você ainda tem algum uísque
sobrando?"
"na geladeira."
"obrigado."
ele grunhiu e subiu para a cama ao lado de sua
mulher.
eu peguei a garrafa e a trouxe para minha cama
e beberiquei beberiquei beberiquei e escutei a
chuva. pensei que a noite tivesse
passado mas aí ele começou
outra vez:
"pensei que você fosse um grande escritor
pensei que você fosse um grande homem
foi por isso que paguei sua passagem até aqui
foi por isso que publiquei sua poesia
foi por isso que quis que toda essa gente o
conhecesse!"
"está certo", eu disse tomando goles do bom uísque.
"eu tenho que ir embora de manhã. por que não vamos todos
dormir?"
"você é realmente um filho da puta!
nunca pensei que você fosse um tamanho filho da puta!
por que você fica sempre com seus olhos semicerrados?
por que você não é capaz de encarar um homem?
por que você sempre desvia o olhar?"
"não sei, não sei."
"você é covarde, é isso: COVARDE!"
eu sabia que era verdade
e tomei um gole grande de uísque e
disse:
"você quer ir lá fora para brigar?"
"diabo! você tem dez anos de vantagem sobre mim!"
"eu lhe dou o primeiro
soco!"
"você promete que vai embora de manhã?"
"com certeza."
Helen soube que eu iria embora
através deles eu acho
e ela chegou lá mais cedo na manhã seguinte para saber se
podia me levar até o hotelzinho para pegar o ônibus até
a estação de trem.
ela ainda estava linda
até mais do que antes
vestindo calças justas e mocassins indígenas e
enquanto ninguém estava olhando
eu me estiquei e peguei seu
pé. ela ignorou mas não me mandou
para o inferno
então me senti todo aquecido
por dentro.
"está bem, eu o levo até lá", ela disse a meus
anfitriões.
"obrigado", eles disseram.
entrei para dar uma
cagada.
"detestamos vê-lo ir embora", eu ouvi
meus anfitriões dizerem.
"eu também", ela
disse.
um cagalhão
saiu.
"voltarei às 2h. para apanhá-lo",
ela disse.
"até logo."
"até logo."
quando eu saí havia 2 índios sentados lá
com meus anfitriões.
o Chefe disse: "eu adiantei aquele negro 8 mangos
por 2 sacos de quatro libras de feijão. passaram 2
semanas e ele ainda não voltou. ele trabalhou para alguma companhia de
cimento.
dê-me sua caderneta de telefones, eu vou encontrar aquele
desgraçado!"
apresentaram-me à sua "squaw". eu a beijei no
rosto. ela deu uma risadinha. tinha uns 60 anos e
um defeito nas pernas.
"estou com problemas," disse o Chefe, e
então arrancou o cobertor do meu catre
e o enrolou em volta de si.
"sou grande Chefe", ele disse, "e tudo que preciso é um
bom pedaço de rabo e depois ir pegar aquele negro."
"não olhe para mim", eu lhe disse, "não sou
nem um nem outro."
o Chefe me olhou:
"acho que preciso de um banho",
ele disse.
ele foi lá e entrou em uma das 3 banheiras em um dos
3 banheiros. então a "squaw" resolveu que ela também precisava tomar
um banho. e depois mais alguém resolveu que precisava dar uma
cagada. todos desapareceram. eu tomei meu drinque e voltei a
dormir.
"sentimos muito por vê-lo ir embora", uma
voz disse, me despertando.
os índios haviam ido embora.
"tudo bem", eu
disse.
ninguém discutiu
comigo.
entrei no carro com Helen e a vista de
seus joelhos de nylon fez martelos baterem em meus miolos.
eu estava tão triste por nunca vir a possuir algo de bom,
algo como ela,
que nada de bom nunca viesse a me pertencer
não porque eu estivesse sempre pobre de dólares
mas porque eu era pobre em expressar-me a dois.
eu era tão amarelo de covardia quanto o sol talvez
mas também tão quente e tão verdadeiro quanto o sol
em algum lugar lá dentro de mim
mas nunca ninguém acharia esse lugar.
eu certamente acabaria para sempre chorando os blues em uma
xícara de café em um parque para velhos jogarem
xadrez ou algum outro jogo bobo.
merda! merda!
e então Helen engatou a marcha e rodamos através das
ricas colinas e não havia nada que eu pudesse lhe dizer
sobre sua beleza ou o quanto eu era durão
ou que só ficar sentado e olhá-la por um mês
sem nunca tocá-la de novo
seria meu único desejo
mas como um desgraçado eu provavelmente estava mentindo para mim
mesmo
eu provavelmente queria tudo tudo
mas agora aos 45
tendo vivido com uma dúzia de mulheres e sem amar nenhuma delas
eu agora estava louco, acabado, enquanto ela
me levava através das colinas tudo gritava dentro de
mim, e eu continuava a dizer enquanto seguíamos
(para mim mesmo, é claro)
fodão, vai passar,
tudo passa,
tudo é uma piada
uma piada sobre você,
esqueça, pense em cachorros mortos coisas mortas pense em
você: indesejado, quebrado, simples, um suposto poeta que escreve
coisas profundas, mas você não é capaz de escrever sobre nada exceto
VOCÊ MESMO. não é verdade? não é verdade? você é uma porra,
um trouxa centrado em si mesmo só esperando por alguma saída fácil?
você anseia
por dinheiro, palanques cheios de aplauso, reconhecimento e um livro
de poemas que ainda será admirado no ano de 2179.
você é um impostor de merda covarde que grita: você não vai conseguir
e
é bom você acostumar-se a isso
agora.
nós rodamos até o hotelzinho
e o pobre poeta impostor disse,
"eu posso lhe dizer adeus?" era
como um filme ruim, só que não era um filme:
eu podia entender Crime e Castigo de Dos
eu podia entender a lua inclinando-se sobre um bar no beco
ao pedir um drinque, mas eu não podia entender nada sobre mim mesmo
eu estava assassinado, eu era um merda, eu era uma matilha de cães,
eu era papoulas ceifadas por rajadas de metralhadora
eu era uma vespa presa em uma teia de aranha
eu era cada vez menos e menos e ainda assim tentando alcançar
algo, e eu pensei em seu comentário banal
a noite passada ou algo assim:
"você tem olhos feridos."
piegas, é claro, mas tudo o que vem de uma mulher
de verdade não é piegas
e eu pensei em suas pinturas decentes de pessoas e coisas
chegando lá querendo querendo
e como um japa na trincheira cercado por heroicas
tropas americanas
eu a beijei
em despedida.
"sinto muito por não ter conseguido ser legal com você",
ela disse. "eu não estava pronta, acho."
"não, foi minha culpa",
eu lhe disse.
entrei no hotelzinho daquela
cidadezinha (de onde levavam de ônibus
até o trem) e me perdi, merda, me perdi,
não conseguia achar a bilheteria, degraus para
cima e para baixo
entrar e sair pelas portas
lágrimas de novo finalmente
como um filme ruim de novo, e
finalmente eu achei o vendedor de bilhetes
e consegui fazer o negócio
de comprar um bilhete.
saí e me sentei no saguão e
olhei por cima do meu bilhete
e lá estava ela.
"o que você está fazendo aqui?", eu perguntei.
"vi você todo encurvado e triste e friorento.
não parei de pensar em você."
o ônibus para o trem estava atrasado, tudo estava
atrasado, assim ela me levou de carro até a cidade nesse meio-tempo e
tive que repassar
a coisa toda com ela.
e eu sabia que mesmo as palavras mais apropriadas nunca resolveriam.
eu estava sujo, sujeira, eu parecia sujeira,
eu estava sujo de sujeira suja,
eu só queria entrar nela,
ficar lá, eu não era nada a não ser um comedor de buceta e
eu estava quebrado. eu não sabia soletrar, eu nem sabia como usar
2 ou 3 garfos para jantar, eu não sabia nada sobre Harvard ou
diplomas ou 50 mil por ano, e ela sabia que tudo isso
era verdade: eu havia sido chutado por aí por muito tempo, eu não sabia
mais
o caminho para cima ou para fora ou nem queria saber: eu estava
destinado ao
fracasso.
eu disse adeus de novo
sugando tudo o que havia sido deixado dela dentro do
pouco que foi deixado de
mim. eu disse: "não me procure de novo. foda-se.
nós estamos todos perdidos. adeus, adeus".
ela era grande. ela foi embora. observei o último clarão
dela dobrar a esquina e desaparecer e
então caminhei de volta até o saguão do hotel.
eles eram boa gente, 5 ou 6 bundões sentados quietos
à espera ali.
2 eram médicos. um outro era dono de qualquer coisa grande
e importante. todos tinham esposas. começava a
nevar.
todos subimos no ônibus para seguir até
o trem. eu já estava dormente,
dormente de novo,
dormente
de novo
e mais uma vez e mais uma vez,
torpor e dor crescendo em
mim - assim como nos bons
velhos tempos.
o mexicano dirigiu rodovia abaixo e quase arrebentou a
embreagem.
pessoas confortáveis faziam piadas confortáveis
sobre o tempo e coisas
mas eu fiquei mais em silêncio
dizendo uma palavra ou outra quando necessário
uma palavra ou outra
tentando esconder-me do fato de eu ser um idiota
e sentido-me horrível
e as pequenas colinas começaram a cobrir-se de neve
vagarosamente as coisas tornaram-se brancas
vagarosamente as coisas tornaram-se mais brancas
e eu sabia que tudo finalmente passaria
e graças à boa graça do bom Deus
meus anos e meu tempo estavam acabando;
seguimos em frente e cada vez mais em frente,
por vilarejos e tanto as coisas boas quanto
as coisas más estavam acontecendo às
pessoas naqueles vilarejos também,
mas eu continuava a não ser nada
a não ser braços e orelhas e olhos e talvez ainda houvesse
alguma sorte para mim ou
mais morte amanhã.
estávamos sentados esperando-a.
ela havia ido a alguma exposição de arte ou qualquer outra
maldita coisa inútil.
era uma boa artista
melhor que muitos homens
e esse era O
problema.
"que diabo aconteceu com Helen?"
"onde está Helen?"
o marido de Helen, ex-marido, agora estava sentado no topo de uma
colina em algum lugar com uma nova puta de olhos azuis.
uma puta
muito puta: ela até escrevia
poesia. Vicki era o nome dela. Vicki agora era "Sra."
ela havia trocado um marido rico por outro mais
rico ainda.
"Helen me pediu para não odiar Vicki!", disse minha anfitriã,
"mas que diabo, não consigo gostar de Vicki."
"que diabo", disse meu anfitrião, "você não pode nem
tentar?"
"você gosta de Vicki?", perguntou minha anfitriã.
Vicki me parecia legal. eu não conseguia achar nada de errado
nela.
"onde está Helen?", perguntei de novo. "oh onde oh onde diabos está
Helen?"
"ela vai chegar, ela vai chegar, ela disse que estava
chegando."
Helen apareceu 3 horas mais tarde.
ela parecia uma serpente em um vestido verde, todo fluido,
louco louco, lustroso,
seu colar prateado pulsando
em sua garganta
bem debaixo do meu nariz.
ela era consumida por 3 simples coisas:
bebida, desespero, solidão; e mais 2:
juventude e beleza.
era demais:
eu não podia resistir à força
dela. eu a beijei. eu a beijei
de novo. eu era como um garoto na escola,
toda a minha dureza
tinha desaparecido.
"vamos cair fora daqui!"
eu lhe disse, ignorando nosso anfitrião e nossa anfitriã.
fomos para sua casa logo ao lado
e eu fiquei na cozinha bebendo e
observando-a.
"seu corpo, seu corpo, Jesus!", eu lhe
disse. ela era realmente bela e dava risadas,
como quando você lê a respeito em um romance
só que isso nunca acontece com
ninguém.
ela contorceu seu corpo e enquanto cantarolava
fez uma adorável dança repleta de
insinuações.
"baby, eu te amo", eu disse, "baby, eu te
amo!"
nós descemos para um salão escuro com um crucifixo
na parede e alguns de seus quadros. entramos em
outro quarto grande. continuei no meu
drinque.
"fique aqui", ela disse.
sentei-me em um sofá e bebi. parecia
frio e vazio de repente e eu
me perguntava aonde ela havia ido.
então olhei em volta e ela estava deitada em outro sofá
nua e sorridente
o que foi inesperado
pois estou acostumado a despir minhas
mulheres.
e a visão dela ali nua em pelo me fazia lembrar mais
dos meus dias no matadouro do
que de Mozart,
mas, é claro, quem quer foder
com Mozart?
terminei meu drinque e tirei a roupa e tentei
mas acho que não estava lá essas coisas
foi minha culpa
minha culpa
e ela me empurrou
pra longe.
eu fiz mais algumas tentativas
desanimadas e então ela se levantou e saiu.
também me vesti e depois
não me lembro de muita coisa exceto
de estar um bocado bêbado.
mas quando ela me pôs para fora na chuva
eu ressuscitei.
a chuva estava molhada a chuva estava fria a chuva estava
gelada.
"merda!", eu disse, "merda!" corri de volta para
a porta dela ou a porta que achei que fosse dela
mas parecia haver dúzias de portas,
uma série de apartamentos todos
engatados.
bati na porta que esperava ser a dela:
"baby, baby, eu não quero foder com você! sei que sou
um amante horrível! tudo o que eu quero é sair
desta maldita chuva!"
ela não respondeu. eu desisti. voltei correndo para
o apartamento do meu primeiro anfitrião. bati na porta.
não adiantou. a chuva era como gelo.
olhei para uma garagem aberta mas estava cheia de lama e água;
nenhum lugar para me deitar.
"deixe-me entrar!", eu gritei. "Jesus! misericórdia! o que eu fiz?
em que eu falhei? VOCÊ É O GUARDIÃO DO SEU IRMÃO!"
meu anfitrião apareceu na porta:
"você é um cachorro sujo!"
"eu sei, mas deixe-me entrar,
por favor."
ele abriu a porta e eu o segui pela
sala.
"cara oh cara." ele disse, "você é um filho da puta, você é um
cachorro covarde, você não vale nada!"
"eu sei," eu disse.
"você contou para ela que eu era um ex-condenado?"
"diabos, não, nem estava pensando em
você."
"então que diabo você quer de
mim?"
"nada, você me pagou a passagem de
trem de volta."
"você insultou a nós dois. eu não me importo comigo mas você não pode
insultar minha mulher. você disse para Helen, "vamos eu e você cair
fora daqui, essas outras pessoas não são de nada!"
"foda-se. você ainda tem algum uísque
sobrando?"
"na geladeira."
"obrigado."
ele grunhiu e subiu para a cama ao lado de sua
mulher.
eu peguei a garrafa e a trouxe para minha cama
e beberiquei beberiquei beberiquei e escutei a
chuva. pensei que a noite tivesse
passado mas aí ele começou
outra vez:
"pensei que você fosse um grande escritor
pensei que você fosse um grande homem
foi por isso que paguei sua passagem até aqui
foi por isso que publiquei sua poesia
foi por isso que quis que toda essa gente o
conhecesse!"
"está certo", eu disse tomando goles do bom uísque.
"eu tenho que ir embora de manhã. por que não vamos todos
dormir?"
"você é realmente um filho da puta!
nunca pensei que você fosse um tamanho filho da puta!
por que você fica sempre com seus olhos semicerrados?
por que você não é capaz de encarar um homem?
por que você sempre desvia o olhar?"
"não sei, não sei."
"você é covarde, é isso: COVARDE!"
eu sabia que era verdade
e tomei um gole grande de uísque e
disse:
"você quer ir lá fora para brigar?"
"diabo! você tem dez anos de vantagem sobre mim!"
"eu lhe dou o primeiro
soco!"
"você promete que vai embora de manhã?"
"com certeza."
Helen soube que eu iria embora
através deles eu acho
e ela chegou lá mais cedo na manhã seguinte para saber se
podia me levar até o hotelzinho para pegar o ônibus até
a estação de trem.
ela ainda estava linda
até mais do que antes
vestindo calças justas e mocassins indígenas e
enquanto ninguém estava olhando
eu me estiquei e peguei seu
pé. ela ignorou mas não me mandou
para o inferno
então me senti todo aquecido
por dentro.
"está bem, eu o levo até lá", ela disse a meus
anfitriões.
"obrigado", eles disseram.
entrei para dar uma
cagada.
"detestamos vê-lo ir embora", eu ouvi
meus anfitriões dizerem.
"eu também", ela
disse.
um cagalhão
saiu.
"voltarei às 2h. para apanhá-lo",
ela disse.
"até logo."
"até logo."
quando eu saí havia 2 índios sentados lá
com meus anfitriões.
o Chefe disse: "eu adiantei aquele negro 8 mangos
por 2 sacos de quatro libras de feijão. passaram 2
semanas e ele ainda não voltou. ele trabalhou para alguma companhia de
cimento.
dê-me sua caderneta de telefones, eu vou encontrar aquele
desgraçado!"
apresentaram-me à sua "squaw". eu a beijei no
rosto. ela deu uma risadinha. tinha uns 60 anos e
um defeito nas pernas.
"estou com problemas," disse o Chefe, e
então arrancou o cobertor do meu catre
e o enrolou em volta de si.
"sou grande Chefe", ele disse, "e tudo que preciso é um
bom pedaço de rabo e depois ir pegar aquele negro."
"não olhe para mim", eu lhe disse, "não sou
nem um nem outro."
o Chefe me olhou:
"acho que preciso de um banho",
ele disse.
ele foi lá e entrou em uma das 3 banheiras em um dos
3 banheiros. então a "squaw" resolveu que ela também precisava tomar
um banho. e depois mais alguém resolveu que precisava dar uma
cagada. todos desapareceram. eu tomei meu drinque e voltei a
dormir.
"sentimos muito por vê-lo ir embora", uma
voz disse, me despertando.
os índios haviam ido embora.
"tudo bem", eu
disse.
ninguém discutiu
comigo.
entrei no carro com Helen e a vista de
seus joelhos de nylon fez martelos baterem em meus miolos.
eu estava tão triste por nunca vir a possuir algo de bom,
algo como ela,
que nada de bom nunca viesse a me pertencer
não porque eu estivesse sempre pobre de dólares
mas porque eu era pobre em expressar-me a dois.
eu era tão amarelo de covardia quanto o sol talvez
mas também tão quente e tão verdadeiro quanto o sol
em algum lugar lá dentro de mim
mas nunca ninguém acharia esse lugar.
eu certamente acabaria para sempre chorando os blues em uma
xícara de café em um parque para velhos jogarem
xadrez ou algum outro jogo bobo.
merda! merda!
e então Helen engatou a marcha e rodamos através das
ricas colinas e não havia nada que eu pudesse lhe dizer
sobre sua beleza ou o quanto eu era durão
ou que só ficar sentado e olhá-la por um mês
sem nunca tocá-la de novo
seria meu único desejo
mas como um desgraçado eu provavelmente estava mentindo para mim
mesmo
eu provavelmente queria tudo tudo
mas agora aos 45
tendo vivido com uma dúzia de mulheres e sem amar nenhuma delas
eu agora estava louco, acabado, enquanto ela
me levava através das colinas tudo gritava dentro de
mim, e eu continuava a dizer enquanto seguíamos
(para mim mesmo, é claro)
fodão, vai passar,
tudo passa,
tudo é uma piada
uma piada sobre você,
esqueça, pense em cachorros mortos coisas mortas pense em
você: indesejado, quebrado, simples, um suposto poeta que escreve
coisas profundas, mas você não é capaz de escrever sobre nada exceto
VOCÊ MESMO. não é verdade? não é verdade? você é uma porra,
um trouxa centrado em si mesmo só esperando por alguma saída fácil?
você anseia
por dinheiro, palanques cheios de aplauso, reconhecimento e um livro
de poemas que ainda será admirado no ano de 2179.
você é um impostor de merda covarde que grita: você não vai conseguir
e
é bom você acostumar-se a isso
agora.
nós rodamos até o hotelzinho
e o pobre poeta impostor disse,
"eu posso lhe dizer adeus?" era
como um filme ruim, só que não era um filme:
eu podia entender Crime e Castigo de Dos
eu podia entender a lua inclinando-se sobre um bar no beco
ao pedir um drinque, mas eu não podia entender nada sobre mim mesmo
eu estava assassinado, eu era um merda, eu era uma matilha de cães,
eu era papoulas ceifadas por rajadas de metralhadora
eu era uma vespa presa em uma teia de aranha
eu era cada vez menos e menos e ainda assim tentando alcançar
algo, e eu pensei em seu comentário banal
a noite passada ou algo assim:
"você tem olhos feridos."
piegas, é claro, mas tudo o que vem de uma mulher
de verdade não é piegas
e eu pensei em suas pinturas decentes de pessoas e coisas
chegando lá querendo querendo
e como um japa na trincheira cercado por heroicas
tropas americanas
eu a beijei
em despedida.
"sinto muito por não ter conseguido ser legal com você",
ela disse. "eu não estava pronta, acho."
"não, foi minha culpa",
eu lhe disse.
entrei no hotelzinho daquela
cidadezinha (de onde levavam de ônibus
até o trem) e me perdi, merda, me perdi,
não conseguia achar a bilheteria, degraus para
cima e para baixo
entrar e sair pelas portas
lágrimas de novo finalmente
como um filme ruim de novo, e
finalmente eu achei o vendedor de bilhetes
e consegui fazer o negócio
de comprar um bilhete.
saí e me sentei no saguão e
olhei por cima do meu bilhete
e lá estava ela.
"o que você está fazendo aqui?", eu perguntei.
"vi você todo encurvado e triste e friorento.
não parei de pensar em você."
o ônibus para o trem estava atrasado, tudo estava
atrasado, assim ela me levou de carro até a cidade nesse meio-tempo e
tive que repassar
a coisa toda com ela.
e eu sabia que mesmo as palavras mais apropriadas nunca resolveriam.
eu estava sujo, sujeira, eu parecia sujeira,
eu estava sujo de sujeira suja,
eu só queria entrar nela,
ficar lá, eu não era nada a não ser um comedor de buceta e
eu estava quebrado. eu não sabia soletrar, eu nem sabia como usar
2 ou 3 garfos para jantar, eu não sabia nada sobre Harvard ou
diplomas ou 50 mil por ano, e ela sabia que tudo isso
era verdade: eu havia sido chutado por aí por muito tempo, eu não sabia
mais
o caminho para cima ou para fora ou nem queria saber: eu estava
destinado ao
fracasso.
eu disse adeus de novo
sugando tudo o que havia sido deixado dela dentro do
pouco que foi deixado de
mim. eu disse: "não me procure de novo. foda-se.
nós estamos todos perdidos. adeus, adeus".
ela era grande. ela foi embora. observei o último clarão
dela dobrar a esquina e desaparecer e
então caminhei de volta até o saguão do hotel.
eles eram boa gente, 5 ou 6 bundões sentados quietos
à espera ali.
2 eram médicos. um outro era dono de qualquer coisa grande
e importante. todos tinham esposas. começava a
nevar.
todos subimos no ônibus para seguir até
o trem. eu já estava dormente,
dormente de novo,
dormente
de novo
e mais uma vez e mais uma vez,
torpor e dor crescendo em
mim - assim como nos bons
velhos tempos.
o mexicano dirigiu rodovia abaixo e quase arrebentou a
embreagem.
pessoas confortáveis faziam piadas confortáveis
sobre o tempo e coisas
mas eu fiquei mais em silêncio
dizendo uma palavra ou outra quando necessário
uma palavra ou outra
tentando esconder-me do fato de eu ser um idiota
e sentido-me horrível
e as pequenas colinas começaram a cobrir-se de neve
vagarosamente as coisas tornaram-se brancas
vagarosamente as coisas tornaram-se mais brancas
e eu sabia que tudo finalmente passaria
e graças à boa graça do bom Deus
meus anos e meu tempo estavam acabando;
seguimos em frente e cada vez mais em frente,
por vilarejos e tanto as coisas boas quanto
as coisas más estavam acontecendo às
pessoas naqueles vilarejos também,
mas eu continuava a não ser nada
a não ser braços e orelhas e olhos e talvez ainda houvesse
alguma sorte para mim ou
mais morte amanhã.
1 866
Charles Bukowski
Poema Para Minha Filha
eu lhe dou colheradas:
jantar de lamen de galinha
ameixas para bebê
salada de frutas para bebê.
dou colheradas e
pelo amor de Deus
não culpem
a criança
não culpem o
governo
não culpem os patrões ou as
classes trabalhadoras -
colheradas
nessa boquinha
igual a cera
derretida
um amigo telefona:
"o que você vai fazer agora, Hank?"
"que diabo você quer dizer com o que eu vou
fazer?"
"quero dizer, agora você tem responsabilidades, você tem que criar
direito
a criança."
em vez disso eu lhe dou comida:
colheradas!
que ela possa chegar até
uma casa em Beverly Hills
sem nunca precisar de seguro-desemprego
e nunca tenha que vender para quem lhe oferecer
o melhor preço.
e nunca se apaixone por um soldado ou um matador de qualquer
tipo.
e que ela possa
apreciar Beethoven e Jelly Roll Morton e
lindos vestidos.
ela tem uma chance
de verdade:
houve uma vez os
patrocínios atenienses para as artes[1] e agora há
a Great Society.[21
"você vai continuar apostando nos cavalos? você vai continuar
bebendo? você vai continuar - ?"
sim
ela está acenando com uma flor ao vento na direção do centro morto do
meu coração -
agora ela dorme lindamente como um
barco no rio Nilo.
talvez algum dia ela me
enterre.
isso seria bonito.
se não fosse uma
responsabilidade.
jantar de lamen de galinha
ameixas para bebê
salada de frutas para bebê.
dou colheradas e
pelo amor de Deus
não culpem
a criança
não culpem o
governo
não culpem os patrões ou as
classes trabalhadoras -
colheradas
nessa boquinha
igual a cera
derretida
um amigo telefona:
"o que você vai fazer agora, Hank?"
"que diabo você quer dizer com o que eu vou
fazer?"
"quero dizer, agora você tem responsabilidades, você tem que criar
direito
a criança."
em vez disso eu lhe dou comida:
colheradas!
que ela possa chegar até
uma casa em Beverly Hills
sem nunca precisar de seguro-desemprego
e nunca tenha que vender para quem lhe oferecer
o melhor preço.
e nunca se apaixone por um soldado ou um matador de qualquer
tipo.
e que ela possa
apreciar Beethoven e Jelly Roll Morton e
lindos vestidos.
ela tem uma chance
de verdade:
houve uma vez os
patrocínios atenienses para as artes[1] e agora há
a Great Society.[21
"você vai continuar apostando nos cavalos? você vai continuar
bebendo? você vai continuar - ?"
sim
ela está acenando com uma flor ao vento na direção do centro morto do
meu coração -
agora ela dorme lindamente como um
barco no rio Nilo.
talvez algum dia ela me
enterre.
isso seria bonito.
se não fosse uma
responsabilidade.
1 489
Charles Bukowski
Nota Sobre a Tigresa
primeiro, uma terrível discussão.
em seguida, nós fizemos amor.
agora, finalmente, estou pacificamente deitado
em sua vasta cama
que está
coberta por um prado de graciosas flores espalhadas nela,
minha cabeça e barriga para baixo,
cabeça de lado,
borrifado pela luz através da cortina
enquanto ela se banha silenciosa no
outro aposento.
tudo está além de mim
assim como está a maioria das coisas.
ouço música clássica em um pequeno rádio.
ela toma banho.
ouço a água a escorrer.
três
enquanto a maioria das pessoas
joga toda a conversa fora
eu
em seguida, nós fizemos amor.
agora, finalmente, estou pacificamente deitado
em sua vasta cama
que está
coberta por um prado de graciosas flores espalhadas nela,
minha cabeça e barriga para baixo,
cabeça de lado,
borrifado pela luz através da cortina
enquanto ela se banha silenciosa no
outro aposento.
tudo está além de mim
assim como está a maioria das coisas.
ouço música clássica em um pequeno rádio.
ela toma banho.
ouço a água a escorrer.
três
enquanto a maioria das pessoas
joga toda a conversa fora
eu
1 099
Charles Bukowski
Match Point
li no jornal que uma velha senhora de 72 anos estrangulou seu
marido de 91 anos com a
gravata dele.
ela disse que a diferença de idade era
insuportável e acrescentou que
quando eles se conheceram em uma quadra de tênis 30 anos
atrás
a diferença de idade não havia parecido
importante.
parece que estive seriamente em perigo
pelo menos meia dúzia de vezes
nos últimos 25 anos, mais ou menos, e ainda
estou.
só há uma única gravata em meu
armário, eu a comprei para ir a um enterro
não faz muito tempo,
mas nunca joguei
tênis e não pretendo
tentar.
marido de 91 anos com a
gravata dele.
ela disse que a diferença de idade era
insuportável e acrescentou que
quando eles se conheceram em uma quadra de tênis 30 anos
atrás
a diferença de idade não havia parecido
importante.
parece que estive seriamente em perigo
pelo menos meia dúzia de vezes
nos últimos 25 anos, mais ou menos, e ainda
estou.
só há uma única gravata em meu
armário, eu a comprei para ir a um enterro
não faz muito tempo,
mas nunca joguei
tênis e não pretendo
tentar.
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