Poemas neste tema
Vida e Existência
Charles Bukowski
Esqueça
agora ouça, quando eu morrer não quero nenhuma choradeira, só trate de colocar
o funeral em andamento, tive uma vida plena, e
se alguém já levou vantagem esse alguém
fui eu, vivi 7 ou 8 vidas em uma, suficiente para
qualquer um.
somos todos iguais afinal, portanto nada de discursos, por favor,
a menos que você queira dizer que ele apostava nos cavalos e era muito
bom nisso.
depois é a sua vez e eu já sei algo que você não sabe,
talvez.
o funeral em andamento, tive uma vida plena, e
se alguém já levou vantagem esse alguém
fui eu, vivi 7 ou 8 vidas em uma, suficiente para
qualquer um.
somos todos iguais afinal, portanto nada de discursos, por favor,
a menos que você queira dizer que ele apostava nos cavalos e era muito
bom nisso.
depois é a sua vez e eu já sei algo que você não sabe,
talvez.
1 247
Charles Bukowski
Esqueça
agora ouça, quando eu morrer não quero nenhuma choradeira, só trate de colocar
o funeral em andamento, tive uma vida plena, e
se alguém já levou vantagem esse alguém
fui eu, vivi 7 ou 8 vidas em uma, suficiente para
qualquer um.
somos todos iguais afinal, portanto nada de discursos, por favor,
a menos que você queira dizer que ele apostava nos cavalos e era muito
bom nisso.
depois é a sua vez e eu já sei algo que você não sabe,
talvez.
o funeral em andamento, tive uma vida plena, e
se alguém já levou vantagem esse alguém
fui eu, vivi 7 ou 8 vidas em uma, suficiente para
qualquer um.
somos todos iguais afinal, portanto nada de discursos, por favor,
a menos que você queira dizer que ele apostava nos cavalos e era muito
bom nisso.
depois é a sua vez e eu já sei algo que você não sabe,
talvez.
1 247
Charles Bukowski
É Nosso
há sempre aquele espaço ali
pouco antes de nos pegarem
aquele espaço
aquele belo relaxante
o respiro
quando estamos, digamos,
desabados numa cama
pensando em nada
ou digamos
enchendo um copo com água da
torneira
quando estamos enlevados pelo
nada
aquele
espaço
puro e suave
vale
séculos de
existência
digamos
só pra você coçar o pescoço
ao contemplar pela janela um
galho nu
aquele espaço
ali
antes de nos pegarem
garante
que
quando pegarem
não vão
pegar tudo
jamais.
pouco antes de nos pegarem
aquele espaço
aquele belo relaxante
o respiro
quando estamos, digamos,
desabados numa cama
pensando em nada
ou digamos
enchendo um copo com água da
torneira
quando estamos enlevados pelo
nada
aquele
espaço
puro e suave
vale
séculos de
existência
digamos
só pra você coçar o pescoço
ao contemplar pela janela um
galho nu
aquele espaço
ali
antes de nos pegarem
garante
que
quando pegarem
não vão
pegar tudo
jamais.
1 194
Charles Bukowski
O Que Estou Fazendo?
preciso parar de enfrentar esses corredores enlouquecidos na autoestrada enquanto
rugimos por aberturas estreitíssimas com estéreo ribombando sem parar
ao meio-dia e no entardecer e na escuridão
quando na verdade tudo que queremos é sentar em frescos jardins verdes
conversando calmamente com bebidas na mão.
o que nos faz ficar desse jeito? – unhas encravadas? – ou o fato de que as mulheres
não são suficientes? – que tolice nos faz beliscar o nariz da
Morte
continuamente?
será que temos medo do lento urinol? – ou de babar sobre ervilhas
malcozidas trazidas por uma enfermeira entediada com estúpidas
pernas grossas?
que temerário impulso estouvado nos faz pisar fundo com
uma só mão na direção?
não temos noção da paz de envelhecer
suavemente?
que maldito grito de guerra é esse?
nós somos os mais doentes da espécie – enquanto bons museus – a grande arte –
gerações de conhecimento – são todos esquecidos
enquanto vemos profundidade no fato de sermos
babacas –
vamos acabar virando
fotografias – quase em tamanho natural – penduradas
como advertência na
parede do Tribunal de Trânsito
e as pessoas vão estremecer só um pouquinho e
virar o rosto
sabendo que
ego demais não é
suficiente.
rugimos por aberturas estreitíssimas com estéreo ribombando sem parar
ao meio-dia e no entardecer e na escuridão
quando na verdade tudo que queremos é sentar em frescos jardins verdes
conversando calmamente com bebidas na mão.
o que nos faz ficar desse jeito? – unhas encravadas? – ou o fato de que as mulheres
não são suficientes? – que tolice nos faz beliscar o nariz da
Morte
continuamente?
será que temos medo do lento urinol? – ou de babar sobre ervilhas
malcozidas trazidas por uma enfermeira entediada com estúpidas
pernas grossas?
que temerário impulso estouvado nos faz pisar fundo com
uma só mão na direção?
não temos noção da paz de envelhecer
suavemente?
que maldito grito de guerra é esse?
nós somos os mais doentes da espécie – enquanto bons museus – a grande arte –
gerações de conhecimento – são todos esquecidos
enquanto vemos profundidade no fato de sermos
babacas –
vamos acabar virando
fotografias – quase em tamanho natural – penduradas
como advertência na
parede do Tribunal de Trânsito
e as pessoas vão estremecer só um pouquinho e
virar o rosto
sabendo que
ego demais não é
suficiente.
1 033
Charles Bukowski
O Que Estou Fazendo?
preciso parar de enfrentar esses corredores enlouquecidos na autoestrada enquanto
rugimos por aberturas estreitíssimas com estéreo ribombando sem parar
ao meio-dia e no entardecer e na escuridão
quando na verdade tudo que queremos é sentar em frescos jardins verdes
conversando calmamente com bebidas na mão.
o que nos faz ficar desse jeito? – unhas encravadas? – ou o fato de que as mulheres
não são suficientes? – que tolice nos faz beliscar o nariz da
Morte
continuamente?
será que temos medo do lento urinol? – ou de babar sobre ervilhas
malcozidas trazidas por uma enfermeira entediada com estúpidas
pernas grossas?
que temerário impulso estouvado nos faz pisar fundo com
uma só mão na direção?
não temos noção da paz de envelhecer
suavemente?
que maldito grito de guerra é esse?
nós somos os mais doentes da espécie – enquanto bons museus – a grande arte –
gerações de conhecimento – são todos esquecidos
enquanto vemos profundidade no fato de sermos
babacas –
vamos acabar virando
fotografias – quase em tamanho natural – penduradas
como advertência na
parede do Tribunal de Trânsito
e as pessoas vão estremecer só um pouquinho e
virar o rosto
sabendo que
ego demais não é
suficiente.
rugimos por aberturas estreitíssimas com estéreo ribombando sem parar
ao meio-dia e no entardecer e na escuridão
quando na verdade tudo que queremos é sentar em frescos jardins verdes
conversando calmamente com bebidas na mão.
o que nos faz ficar desse jeito? – unhas encravadas? – ou o fato de que as mulheres
não são suficientes? – que tolice nos faz beliscar o nariz da
Morte
continuamente?
será que temos medo do lento urinol? – ou de babar sobre ervilhas
malcozidas trazidas por uma enfermeira entediada com estúpidas
pernas grossas?
que temerário impulso estouvado nos faz pisar fundo com
uma só mão na direção?
não temos noção da paz de envelhecer
suavemente?
que maldito grito de guerra é esse?
nós somos os mais doentes da espécie – enquanto bons museus – a grande arte –
gerações de conhecimento – são todos esquecidos
enquanto vemos profundidade no fato de sermos
babacas –
vamos acabar virando
fotografias – quase em tamanho natural – penduradas
como advertência na
parede do Tribunal de Trânsito
e as pessoas vão estremecer só um pouquinho e
virar o rosto
sabendo que
ego demais não é
suficiente.
1 033
Charles Bukowski
O Que Estou Fazendo?
preciso parar de enfrentar esses corredores enlouquecidos na autoestrada enquanto
rugimos por aberturas estreitíssimas com estéreo ribombando sem parar
ao meio-dia e no entardecer e na escuridão
quando na verdade tudo que queremos é sentar em frescos jardins verdes
conversando calmamente com bebidas na mão.
o que nos faz ficar desse jeito? – unhas encravadas? – ou o fato de que as mulheres
não são suficientes? – que tolice nos faz beliscar o nariz da
Morte
continuamente?
será que temos medo do lento urinol? – ou de babar sobre ervilhas
malcozidas trazidas por uma enfermeira entediada com estúpidas
pernas grossas?
que temerário impulso estouvado nos faz pisar fundo com
uma só mão na direção?
não temos noção da paz de envelhecer
suavemente?
que maldito grito de guerra é esse?
nós somos os mais doentes da espécie – enquanto bons museus – a grande arte –
gerações de conhecimento – são todos esquecidos
enquanto vemos profundidade no fato de sermos
babacas –
vamos acabar virando
fotografias – quase em tamanho natural – penduradas
como advertência na
parede do Tribunal de Trânsito
e as pessoas vão estremecer só um pouquinho e
virar o rosto
sabendo que
ego demais não é
suficiente.
rugimos por aberturas estreitíssimas com estéreo ribombando sem parar
ao meio-dia e no entardecer e na escuridão
quando na verdade tudo que queremos é sentar em frescos jardins verdes
conversando calmamente com bebidas na mão.
o que nos faz ficar desse jeito? – unhas encravadas? – ou o fato de que as mulheres
não são suficientes? – que tolice nos faz beliscar o nariz da
Morte
continuamente?
será que temos medo do lento urinol? – ou de babar sobre ervilhas
malcozidas trazidas por uma enfermeira entediada com estúpidas
pernas grossas?
que temerário impulso estouvado nos faz pisar fundo com
uma só mão na direção?
não temos noção da paz de envelhecer
suavemente?
que maldito grito de guerra é esse?
nós somos os mais doentes da espécie – enquanto bons museus – a grande arte –
gerações de conhecimento – são todos esquecidos
enquanto vemos profundidade no fato de sermos
babacas –
vamos acabar virando
fotografias – quase em tamanho natural – penduradas
como advertência na
parede do Tribunal de Trânsito
e as pessoas vão estremecer só um pouquinho e
virar o rosto
sabendo que
ego demais não é
suficiente.
1 033
Charles Bukowski
Uma Turma Boa, No Fim Das Contas
tenho sempre notícias dos cães velhos,
homens que estão escrevendo há
décadas,
poetas todos,
ainda estão diante de suas
máquinas
escrevendo melhor do que
nunca
tendo superado esposas e guerras e
empregos
e todas as coisas que
acontecem.
de muitos eu não gostava por razões
pessoais
e artísticas...
mas o que eu deixei de ver foi
a persistência deles e
sua capacidade de
aprimoramento.
esses cães velhos
vivendo em quartos enfumaçados
entornando a
garrafa...
eles vergastam as
fitas das máquinas: eles vieram
para
lutar.
homens que estão escrevendo há
décadas,
poetas todos,
ainda estão diante de suas
máquinas
escrevendo melhor do que
nunca
tendo superado esposas e guerras e
empregos
e todas as coisas que
acontecem.
de muitos eu não gostava por razões
pessoais
e artísticas...
mas o que eu deixei de ver foi
a persistência deles e
sua capacidade de
aprimoramento.
esses cães velhos
vivendo em quartos enfumaçados
entornando a
garrafa...
eles vergastam as
fitas das máquinas: eles vieram
para
lutar.
1 133
Charles Bukowski
Além do Ponto
de algum modo ele havia me localizado de novo – ele estava no telefone – falando
sobre os velhos tempos –
que fim será que levou Michael ou Ken ou
Julie Anne? –
e você lembra...?
– também
havia seus problemas atuais –
– ele era um falante – sempre tinha sido um
falante –
e eu tinha sido um
ouvinte
eu tinha escutado porque não queria
magoá-lo
pedindo que ele calasse a boca
como os outros
faziam
nos velhos
tempos
agora
ele estava de volta
e
eu segurei o fone longe da orelha
braço esticado
e ainda conseguia escutar o
som –
eu dei o fone à minha namorada e
ela ouviu por um
tempo –
afinal
peguei o fone e disse a ele –
ei, cara, a gente precisa encerrar, a carne tá queimando
no forno!
ele disse, ok, cara, eu te ligo
de volta –
(uma coisa eu lembrava do meu
velho amigo: ele cumpria o que
prometia)
coloquei o fone de volta no
gancho –
– nós não temos nenhuma carne no
forno, disse a minha
namorada –
– sim, nós temos, eu disse a ela,
sou eu.
sobre os velhos tempos –
que fim será que levou Michael ou Ken ou
Julie Anne? –
e você lembra...?
– também
havia seus problemas atuais –
– ele era um falante – sempre tinha sido um
falante –
e eu tinha sido um
ouvinte
eu tinha escutado porque não queria
magoá-lo
pedindo que ele calasse a boca
como os outros
faziam
nos velhos
tempos
agora
ele estava de volta
e
eu segurei o fone longe da orelha
braço esticado
e ainda conseguia escutar o
som –
eu dei o fone à minha namorada e
ela ouviu por um
tempo –
afinal
peguei o fone e disse a ele –
ei, cara, a gente precisa encerrar, a carne tá queimando
no forno!
ele disse, ok, cara, eu te ligo
de volta –
(uma coisa eu lembrava do meu
velho amigo: ele cumpria o que
prometia)
coloquei o fone de volta no
gancho –
– nós não temos nenhuma carne no
forno, disse a minha
namorada –
– sim, nós temos, eu disse a ela,
sou eu.
962
Charles Bukowski
Aquelas Garotas Que Seguimos No Caminho de Casa
na escola intermediária as duas garotas mais bonitas eram
Irene e Louise,
elas eram irmãs;
Irene era um ano mais velha, um pouco mais alta
mas era difícil escolher entre
as duas;
elas não eram apenas bonitas, eram
espantosamente lindas
tão lindas
que os garotos mantinham distância delas;
ficavam aterrorizados diante de Irene e
Louise
que não eram nem um pouco reservadas,
eram inclusive mais amigáveis do que a maioria
mas
pareciam se vestir com certa
diferença em relação às outras
garotas:
elas sempre usavam salto alto,
meias de seda,
blusas,
saias,
trajes novos
todos os dias;
e
certa tarde
meu amigo Carequinha e eu as seguimos
na volta da escola para casa;
é que nós éramos meio que
os malvadões do pedaço
então isso era
mais ou menos
de se esperar,
e
foi uma coisa de louco:
íamos caminhando três ou quatro metros atrás delas;
não dizíamos nada
apenas seguíamos
observando
o bamboleio voluptuoso,
o balançar das
ancas.
gostamos tanto que as
seguimos da escola para casa
todos os
dias.
quando elas entravam em casa
nós ficávamos parados na calçada
fumando cigarros e conversando.
“um dia”, eu disse ao Carequinha,
“elas vão nos convidar pra entrar em
casa e elas vão
dar pra nós.”
“você acha mesmo?”
“claro.”
agora
50 anos depois
eu posso lhes dizer
que elas nunca deram
– esqueçam todas as histórias que
contamos aos caras;
sim, é o sonho que
nos faz ir em frente
naquele tempo e
agora.
Irene e Louise,
elas eram irmãs;
Irene era um ano mais velha, um pouco mais alta
mas era difícil escolher entre
as duas;
elas não eram apenas bonitas, eram
espantosamente lindas
tão lindas
que os garotos mantinham distância delas;
ficavam aterrorizados diante de Irene e
Louise
que não eram nem um pouco reservadas,
eram inclusive mais amigáveis do que a maioria
mas
pareciam se vestir com certa
diferença em relação às outras
garotas:
elas sempre usavam salto alto,
meias de seda,
blusas,
saias,
trajes novos
todos os dias;
e
certa tarde
meu amigo Carequinha e eu as seguimos
na volta da escola para casa;
é que nós éramos meio que
os malvadões do pedaço
então isso era
mais ou menos
de se esperar,
e
foi uma coisa de louco:
íamos caminhando três ou quatro metros atrás delas;
não dizíamos nada
apenas seguíamos
observando
o bamboleio voluptuoso,
o balançar das
ancas.
gostamos tanto que as
seguimos da escola para casa
todos os
dias.
quando elas entravam em casa
nós ficávamos parados na calçada
fumando cigarros e conversando.
“um dia”, eu disse ao Carequinha,
“elas vão nos convidar pra entrar em
casa e elas vão
dar pra nós.”
“você acha mesmo?”
“claro.”
agora
50 anos depois
eu posso lhes dizer
que elas nunca deram
– esqueçam todas as histórias que
contamos aos caras;
sim, é o sonho que
nos faz ir em frente
naquele tempo e
agora.
1 191
Charles Bukowski
Aquelas Garotas Que Seguimos No Caminho de Casa
na escola intermediária as duas garotas mais bonitas eram
Irene e Louise,
elas eram irmãs;
Irene era um ano mais velha, um pouco mais alta
mas era difícil escolher entre
as duas;
elas não eram apenas bonitas, eram
espantosamente lindas
tão lindas
que os garotos mantinham distância delas;
ficavam aterrorizados diante de Irene e
Louise
que não eram nem um pouco reservadas,
eram inclusive mais amigáveis do que a maioria
mas
pareciam se vestir com certa
diferença em relação às outras
garotas:
elas sempre usavam salto alto,
meias de seda,
blusas,
saias,
trajes novos
todos os dias;
e
certa tarde
meu amigo Carequinha e eu as seguimos
na volta da escola para casa;
é que nós éramos meio que
os malvadões do pedaço
então isso era
mais ou menos
de se esperar,
e
foi uma coisa de louco:
íamos caminhando três ou quatro metros atrás delas;
não dizíamos nada
apenas seguíamos
observando
o bamboleio voluptuoso,
o balançar das
ancas.
gostamos tanto que as
seguimos da escola para casa
todos os
dias.
quando elas entravam em casa
nós ficávamos parados na calçada
fumando cigarros e conversando.
“um dia”, eu disse ao Carequinha,
“elas vão nos convidar pra entrar em
casa e elas vão
dar pra nós.”
“você acha mesmo?”
“claro.”
agora
50 anos depois
eu posso lhes dizer
que elas nunca deram
– esqueçam todas as histórias que
contamos aos caras;
sim, é o sonho que
nos faz ir em frente
naquele tempo e
agora.
Irene e Louise,
elas eram irmãs;
Irene era um ano mais velha, um pouco mais alta
mas era difícil escolher entre
as duas;
elas não eram apenas bonitas, eram
espantosamente lindas
tão lindas
que os garotos mantinham distância delas;
ficavam aterrorizados diante de Irene e
Louise
que não eram nem um pouco reservadas,
eram inclusive mais amigáveis do que a maioria
mas
pareciam se vestir com certa
diferença em relação às outras
garotas:
elas sempre usavam salto alto,
meias de seda,
blusas,
saias,
trajes novos
todos os dias;
e
certa tarde
meu amigo Carequinha e eu as seguimos
na volta da escola para casa;
é que nós éramos meio que
os malvadões do pedaço
então isso era
mais ou menos
de se esperar,
e
foi uma coisa de louco:
íamos caminhando três ou quatro metros atrás delas;
não dizíamos nada
apenas seguíamos
observando
o bamboleio voluptuoso,
o balançar das
ancas.
gostamos tanto que as
seguimos da escola para casa
todos os
dias.
quando elas entravam em casa
nós ficávamos parados na calçada
fumando cigarros e conversando.
“um dia”, eu disse ao Carequinha,
“elas vão nos convidar pra entrar em
casa e elas vão
dar pra nós.”
“você acha mesmo?”
“claro.”
agora
50 anos depois
eu posso lhes dizer
que elas nunca deram
– esqueçam todas as histórias que
contamos aos caras;
sim, é o sonho que
nos faz ir em frente
naquele tempo e
agora.
1 191
Charles Bukowski
Trabalhando
ah, aquele tempo em que eu
as botava
pra dentro e pra fora do meu
apartamento miserável.
meu deus, eu era uma coisa
peluda e
feiosa.
e eu encurralava
todas elas nas
molas
mandando
ver
eu era o insano
macaco bêbado
numa vizinhança
triste e
moribunda.
mas o mais estranho
de tudo
eram as
novas e contínuas
chegadas:
era um
desfile
feminino
e
eu exultava
me pavoneava e
atacava.
mal fazendo
ideia
do
significado
daquilo.
era um
inesquecível
quarto
pintado de um estranho
azul.
e
a maioria das
damas
ia embora pouco antes do
meio-dia
mais ou menos na hora
em que o carteiro
chegava.
ele conversou comigo
um dia, “meu deus,
cara, onde você
arranja todas elas?”
“não sei”, eu
respondi.
“me desculpa”, ele
prosseguiu, “mas você não
parece exatamente
um presente de Deus às
mulheres, como você
consegue?”
“não sei”,
eu disse.
e era
verdade: simplesmente
acontecia e eu
ia em frente
no meu quarto
azul
com a
melhor toalha de mesa
de renda
da minha mãe morta
fixada
por cima da
janela.
eu era um
puta
idiota.
as botava
pra dentro e pra fora do meu
apartamento miserável.
meu deus, eu era uma coisa
peluda e
feiosa.
e eu encurralava
todas elas nas
molas
mandando
ver
eu era o insano
macaco bêbado
numa vizinhança
triste e
moribunda.
mas o mais estranho
de tudo
eram as
novas e contínuas
chegadas:
era um
desfile
feminino
e
eu exultava
me pavoneava e
atacava.
mal fazendo
ideia
do
significado
daquilo.
era um
inesquecível
quarto
pintado de um estranho
azul.
e
a maioria das
damas
ia embora pouco antes do
meio-dia
mais ou menos na hora
em que o carteiro
chegava.
ele conversou comigo
um dia, “meu deus,
cara, onde você
arranja todas elas?”
“não sei”, eu
respondi.
“me desculpa”, ele
prosseguiu, “mas você não
parece exatamente
um presente de Deus às
mulheres, como você
consegue?”
“não sei”,
eu disse.
e era
verdade: simplesmente
acontecia e eu
ia em frente
no meu quarto
azul
com a
melhor toalha de mesa
de renda
da minha mãe morta
fixada
por cima da
janela.
eu era um
puta
idiota.
1 186
Charles Bukowski
Trabalhando
ah, aquele tempo em que eu
as botava
pra dentro e pra fora do meu
apartamento miserável.
meu deus, eu era uma coisa
peluda e
feiosa.
e eu encurralava
todas elas nas
molas
mandando
ver
eu era o insano
macaco bêbado
numa vizinhança
triste e
moribunda.
mas o mais estranho
de tudo
eram as
novas e contínuas
chegadas:
era um
desfile
feminino
e
eu exultava
me pavoneava e
atacava.
mal fazendo
ideia
do
significado
daquilo.
era um
inesquecível
quarto
pintado de um estranho
azul.
e
a maioria das
damas
ia embora pouco antes do
meio-dia
mais ou menos na hora
em que o carteiro
chegava.
ele conversou comigo
um dia, “meu deus,
cara, onde você
arranja todas elas?”
“não sei”, eu
respondi.
“me desculpa”, ele
prosseguiu, “mas você não
parece exatamente
um presente de Deus às
mulheres, como você
consegue?”
“não sei”,
eu disse.
e era
verdade: simplesmente
acontecia e eu
ia em frente
no meu quarto
azul
com a
melhor toalha de mesa
de renda
da minha mãe morta
fixada
por cima da
janela.
eu era um
puta
idiota.
as botava
pra dentro e pra fora do meu
apartamento miserável.
meu deus, eu era uma coisa
peluda e
feiosa.
e eu encurralava
todas elas nas
molas
mandando
ver
eu era o insano
macaco bêbado
numa vizinhança
triste e
moribunda.
mas o mais estranho
de tudo
eram as
novas e contínuas
chegadas:
era um
desfile
feminino
e
eu exultava
me pavoneava e
atacava.
mal fazendo
ideia
do
significado
daquilo.
era um
inesquecível
quarto
pintado de um estranho
azul.
e
a maioria das
damas
ia embora pouco antes do
meio-dia
mais ou menos na hora
em que o carteiro
chegava.
ele conversou comigo
um dia, “meu deus,
cara, onde você
arranja todas elas?”
“não sei”, eu
respondi.
“me desculpa”, ele
prosseguiu, “mas você não
parece exatamente
um presente de Deus às
mulheres, como você
consegue?”
“não sei”,
eu disse.
e era
verdade: simplesmente
acontecia e eu
ia em frente
no meu quarto
azul
com a
melhor toalha de mesa
de renda
da minha mãe morta
fixada
por cima da
janela.
eu era um
puta
idiota.
1 186
Charles Bukowski
Procura-Se Ajuda
eu era um jovem demente e aí encontrei certo livro escrito por um
homem mais velho demente e me senti melhor porque ele era
capaz de botar no papel
e aí encontrei um livro de uma fase posterior desse mesmo homem mais velho
demente
só que a mim
ele já não parecia demente ele só parecia ser
maçante –
todos nós aguentamos bem por um tempo, aí com defeitos e
lapsos e erros inerentes
na maioria de nós
tão frequentemente nos deterioramos da noite para o dia
chegando a um estado tão próximo da defecação
que o resultado final é quase insuportável para os
sentidos.
por sorte, encontrei alguns outros homens dementes que quase permaneceram do
mesmo jeito até que
morreram.
isso é mais digno, sabe, e beneficia um pouco mais as nossas
vidas
conforme desempenhamos as nossas –
umbrosas –
tarefas.
homem mais velho demente e me senti melhor porque ele era
capaz de botar no papel
e aí encontrei um livro de uma fase posterior desse mesmo homem mais velho
demente
só que a mim
ele já não parecia demente ele só parecia ser
maçante –
todos nós aguentamos bem por um tempo, aí com defeitos e
lapsos e erros inerentes
na maioria de nós
tão frequentemente nos deterioramos da noite para o dia
chegando a um estado tão próximo da defecação
que o resultado final é quase insuportável para os
sentidos.
por sorte, encontrei alguns outros homens dementes que quase permaneceram do
mesmo jeito até que
morreram.
isso é mais digno, sabe, e beneficia um pouco mais as nossas
vidas
conforme desempenhamos as nossas –
umbrosas –
tarefas.
1 134
Charles Bukowski
Procura-Se Ajuda
eu era um jovem demente e aí encontrei certo livro escrito por um
homem mais velho demente e me senti melhor porque ele era
capaz de botar no papel
e aí encontrei um livro de uma fase posterior desse mesmo homem mais velho
demente
só que a mim
ele já não parecia demente ele só parecia ser
maçante –
todos nós aguentamos bem por um tempo, aí com defeitos e
lapsos e erros inerentes
na maioria de nós
tão frequentemente nos deterioramos da noite para o dia
chegando a um estado tão próximo da defecação
que o resultado final é quase insuportável para os
sentidos.
por sorte, encontrei alguns outros homens dementes que quase permaneceram do
mesmo jeito até que
morreram.
isso é mais digno, sabe, e beneficia um pouco mais as nossas
vidas
conforme desempenhamos as nossas –
umbrosas –
tarefas.
homem mais velho demente e me senti melhor porque ele era
capaz de botar no papel
e aí encontrei um livro de uma fase posterior desse mesmo homem mais velho
demente
só que a mim
ele já não parecia demente ele só parecia ser
maçante –
todos nós aguentamos bem por um tempo, aí com defeitos e
lapsos e erros inerentes
na maioria de nós
tão frequentemente nos deterioramos da noite para o dia
chegando a um estado tão próximo da defecação
que o resultado final é quase insuportável para os
sentidos.
por sorte, encontrei alguns outros homens dementes que quase permaneceram do
mesmo jeito até que
morreram.
isso é mais digno, sabe, e beneficia um pouco mais as nossas
vidas
conforme desempenhamos as nossas –
umbrosas –
tarefas.
1 134
Charles Bukowski
Escala
Fazendo amor sob o sol, sob o sol matinal
num quarto de hotel
acima do beco
onde homens pobres catam garrafas;
fazendo amor sob o sol
fazendo amor junto a um tapete mais vermelho que nosso sangue,
fazendo amor enquanto meninos vendem manchetes
e Cadillacs,
fazendo amor junto a uma foto de Paris
e um maço aberto de Chesterfields,
fazendo amor enquanto outros homens – pobres
coitados –
trabalham.
Daquele momento – a este...
podem ser anos do jeito como são medidos,
mas é só uma frase atrás na minha mente –
são inúmeros os dias
nos quais a vida para e estaciona e fica
e espera como um trem nos trilhos.
Eu passo pelo hotel às 8
e às 5; vejo gatos nos becos
e garrafas e vagabundos,
e olho a janela no alto e penso:
não sei mais onde você está,
e sigo caminhando e me pergunto para onde
a vida vai
quando para.
num quarto de hotel
acima do beco
onde homens pobres catam garrafas;
fazendo amor sob o sol
fazendo amor junto a um tapete mais vermelho que nosso sangue,
fazendo amor enquanto meninos vendem manchetes
e Cadillacs,
fazendo amor junto a uma foto de Paris
e um maço aberto de Chesterfields,
fazendo amor enquanto outros homens – pobres
coitados –
trabalham.
Daquele momento – a este...
podem ser anos do jeito como são medidos,
mas é só uma frase atrás na minha mente –
são inúmeros os dias
nos quais a vida para e estaciona e fica
e espera como um trem nos trilhos.
Eu passo pelo hotel às 8
e às 5; vejo gatos nos becos
e garrafas e vagabundos,
e olho a janela no alto e penso:
não sei mais onde você está,
e sigo caminhando e me pergunto para onde
a vida vai
quando para.
1 013
Charles Bukowski
A Ilha Que Vai Encolhendo
estou trabalhando nele com
o amanhecer se curvando na minha direção...
quase acertei a mão às 3:34 mas ele
me escapou dos dedos
com a feitiçaria de um
peixinho prateado...
agora
com a meia-luz se movendo na minha direção
como a morte filha da mãe
eu desisto da batalha
me levanto
ando em direção ao banheiro
bato de cara
numa parede
solto uma deplorável risada
miante...
ligo a luz e
começo a mijar, sim, no
lugar certo
e
depois de puxar a descarga
penso: mais uma noite
que se foi.
bem, nós lhe demos um pouco de
gritaria
de todo modo.
lavamos nossas
garras...
desligamos a
luz
andamos na direção do
quarto onde a
esposa
desperta o bastante
para dizer: “não pisa
no gato!”
o que nos traz de volta
às
reais
questões
enquanto encontramos a cama
nos enfiamos nas cobertas
rosto para o teto: um
homem
aterrado
bêbado
gordo
e velho.
o amanhecer se curvando na minha direção...
quase acertei a mão às 3:34 mas ele
me escapou dos dedos
com a feitiçaria de um
peixinho prateado...
agora
com a meia-luz se movendo na minha direção
como a morte filha da mãe
eu desisto da batalha
me levanto
ando em direção ao banheiro
bato de cara
numa parede
solto uma deplorável risada
miante...
ligo a luz e
começo a mijar, sim, no
lugar certo
e
depois de puxar a descarga
penso: mais uma noite
que se foi.
bem, nós lhe demos um pouco de
gritaria
de todo modo.
lavamos nossas
garras...
desligamos a
luz
andamos na direção do
quarto onde a
esposa
desperta o bastante
para dizer: “não pisa
no gato!”
o que nos traz de volta
às
reais
questões
enquanto encontramos a cama
nos enfiamos nas cobertas
rosto para o teto: um
homem
aterrado
bêbado
gordo
e velho.
1 287
Charles Bukowski
Para Jane: Com Todo o Amor Que Eu Tinha, Que Não Foi Suficiente
eu pego a saia,
eu pego as contas cintilantes
em preto,
essa coisa que se movia outrora
em volta de carne,
e chamo Deus de mentiroso,
repito qualquer coisa que se movesse
daquele jeito
ou soubesse
meu nome
jamais poderia morrer
na veracidade comum da morte,
e eu pego
seu gracioso
vestido,
sua graciosidade toda se foi,
e falo
a todos os deuses,
deuses judeus, deuses de Cristo,
lascas de coisas piscantes,
ídolos, pílulas, pão,
profundidades, riscos,
rendição experiente,
ratos no molho de 2 totalmente enlouquecidos
sem chance,
conhecimento de beija-flor, chance de beija-flor,
eu me apoio nisso,
eu me apoio em tudo isso
e sei:
seu vestido em meu braço:
mas
não querem
devolvê-la pra mim.
eu pego as contas cintilantes
em preto,
essa coisa que se movia outrora
em volta de carne,
e chamo Deus de mentiroso,
repito qualquer coisa que se movesse
daquele jeito
ou soubesse
meu nome
jamais poderia morrer
na veracidade comum da morte,
e eu pego
seu gracioso
vestido,
sua graciosidade toda se foi,
e falo
a todos os deuses,
deuses judeus, deuses de Cristo,
lascas de coisas piscantes,
ídolos, pílulas, pão,
profundidades, riscos,
rendição experiente,
ratos no molho de 2 totalmente enlouquecidos
sem chance,
conhecimento de beija-flor, chance de beija-flor,
eu me apoio nisso,
eu me apoio em tudo isso
e sei:
seu vestido em meu braço:
mas
não querem
devolvê-la pra mim.
870
Charles Bukowski
Para Jane: Com Todo o Amor Que Eu Tinha, Que Não Foi Suficiente
eu pego a saia,
eu pego as contas cintilantes
em preto,
essa coisa que se movia outrora
em volta de carne,
e chamo Deus de mentiroso,
repito qualquer coisa que se movesse
daquele jeito
ou soubesse
meu nome
jamais poderia morrer
na veracidade comum da morte,
e eu pego
seu gracioso
vestido,
sua graciosidade toda se foi,
e falo
a todos os deuses,
deuses judeus, deuses de Cristo,
lascas de coisas piscantes,
ídolos, pílulas, pão,
profundidades, riscos,
rendição experiente,
ratos no molho de 2 totalmente enlouquecidos
sem chance,
conhecimento de beija-flor, chance de beija-flor,
eu me apoio nisso,
eu me apoio em tudo isso
e sei:
seu vestido em meu braço:
mas
não querem
devolvê-la pra mim.
eu pego as contas cintilantes
em preto,
essa coisa que se movia outrora
em volta de carne,
e chamo Deus de mentiroso,
repito qualquer coisa que se movesse
daquele jeito
ou soubesse
meu nome
jamais poderia morrer
na veracidade comum da morte,
e eu pego
seu gracioso
vestido,
sua graciosidade toda se foi,
e falo
a todos os deuses,
deuses judeus, deuses de Cristo,
lascas de coisas piscantes,
ídolos, pílulas, pão,
profundidades, riscos,
rendição experiente,
ratos no molho de 2 totalmente enlouquecidos
sem chance,
conhecimento de beija-flor, chance de beija-flor,
eu me apoio nisso,
eu me apoio em tudo isso
e sei:
seu vestido em meu braço:
mas
não querem
devolvê-la pra mim.
870
Charles Bukowski
A Travessura da Expiração
eu sou, quando muito, delicado pensamento de delicada mão
que extingue pela corda de mistura, e quando
por baixo do amor das flores estou calmo,
e a aranha bebe a hora verdejante –
batem sinos cinzentos de bebida,
que uma rã diga
uma voz morreu,
que as bestas da despensa
e os dias que odiaram isso,
as esposas contrariadas que pranteiam sem piscar,
planícies da pequena rendição
entre Mexicali e Tampa;
galinhas abatidas, cigarros fumados, pães fatiados,
e não tomem isso por tristeza torta:
coloquem a aranha no vinho,
batam nos finos lados do crânio dotados de fraco relâmpago,
façam disso menos do que um beijo traiçoeiro,
inscrevam-me na dança
vocês bem mais mortos,
sou um prato para suas cinzas,
sou um punho para seu ar.
a coisa mais imensa sobre a beleza
é vê-la desaparecida.
que extingue pela corda de mistura, e quando
por baixo do amor das flores estou calmo,
e a aranha bebe a hora verdejante –
batem sinos cinzentos de bebida,
que uma rã diga
uma voz morreu,
que as bestas da despensa
e os dias que odiaram isso,
as esposas contrariadas que pranteiam sem piscar,
planícies da pequena rendição
entre Mexicali e Tampa;
galinhas abatidas, cigarros fumados, pães fatiados,
e não tomem isso por tristeza torta:
coloquem a aranha no vinho,
batam nos finos lados do crânio dotados de fraco relâmpago,
façam disso menos do que um beijo traiçoeiro,
inscrevam-me na dança
vocês bem mais mortos,
sou um prato para suas cinzas,
sou um punho para seu ar.
a coisa mais imensa sobre a beleza
é vê-la desaparecida.
1 079
Charles Bukowski
Mulher Adormecida
fico sentado na cama à noite e ouço você
roncar
conheci você numa estação rodoviária
e agora fico viajando nas suas costas
de um branco doentio e manchadas por
sardas de criança
enquanto a lâmpada desnuda a insolúvel
tristeza do mundo
sobre o seu corpo.
não consigo ver seus pés
mas só posso deduzir que sejam
os mais encantadores pés.
a quem você pertence?
você é real?
eu penso em flores, animais, pássaros
todos eles parecem mais do que bons
e tão claramente
reais.
mas você não consegue evitar ser uma
mulher. cada um de nós é selecionado para ser
algo. a aranha, o cozinheiro.
o elefante. é como se fôssemos cada um
uma pintura pendurada em alguma
parede de galeria.
– e agora a pintura se vira
de costas, e por cima de um cotovelo curvado
consigo ver ½ boca, um olho e
quase um nariz.
o resto de você está escondido
fora de vista
mas sei que você é uma
obra
contemporânea, moderna e viva
talvez não imortal
mas nós já
amamos.
por favor continue a
roncar.
roncar
conheci você numa estação rodoviária
e agora fico viajando nas suas costas
de um branco doentio e manchadas por
sardas de criança
enquanto a lâmpada desnuda a insolúvel
tristeza do mundo
sobre o seu corpo.
não consigo ver seus pés
mas só posso deduzir que sejam
os mais encantadores pés.
a quem você pertence?
você é real?
eu penso em flores, animais, pássaros
todos eles parecem mais do que bons
e tão claramente
reais.
mas você não consegue evitar ser uma
mulher. cada um de nós é selecionado para ser
algo. a aranha, o cozinheiro.
o elefante. é como se fôssemos cada um
uma pintura pendurada em alguma
parede de galeria.
– e agora a pintura se vira
de costas, e por cima de um cotovelo curvado
consigo ver ½ boca, um olho e
quase um nariz.
o resto de você está escondido
fora de vista
mas sei que você é uma
obra
contemporânea, moderna e viva
talvez não imortal
mas nós já
amamos.
por favor continue a
roncar.
724
Charles Bukowski
Eu Provo As Cinzas da Sua Morte
as florações agitam
água súbita
por minha manga,
água súbita
fresca e limpa
como neve –
enquanto as espadas
de caules afiados
avançam
contra seu peito
e as doces selvagens
rochas
saltam por cima
e
nos prendem.
água súbita
por minha manga,
água súbita
fresca e limpa
como neve –
enquanto as espadas
de caules afiados
avançam
contra seu peito
e as doces selvagens
rochas
saltam por cima
e
nos prendem.
663
Charles Bukowski
Máquina Mágica
eu gostava dos discos velhos que
arranhavam
conforme a agulha deslizava por
sulcos bastante
gastos
você ouvia a voz
saindo do
alto-falante
como se houvesse uma pessoa
dentro daquela
caixa
de mogno
mas você só escutava enquanto
seus pais não estavam
em casa.
e se você não desse corda
na vitrola
ela desacelerava gradualmente e
parava.
era melhor nos fins de
tarde
e os discos falavam
de
amor.
amor, amor, amor.
alguns dos discos tinham
lindos rótulos
roxos,
outros eram laranja, verdes,
amarelos, vermelhos, azuis.
a vitrola tinha pertencido ao
meu avô
e ele tinha escutado aqueles
mesmos
discos.
e agora eu era um garoto
e
os escutava.
e nada em que eu conseguisse pensar
na minha vida naquele tempo
parecia ser melhor do que ouvir
aquela
vitrola
quando meus pais não estavam
em casa.
arranhavam
conforme a agulha deslizava por
sulcos bastante
gastos
você ouvia a voz
saindo do
alto-falante
como se houvesse uma pessoa
dentro daquela
caixa
de mogno
mas você só escutava enquanto
seus pais não estavam
em casa.
e se você não desse corda
na vitrola
ela desacelerava gradualmente e
parava.
era melhor nos fins de
tarde
e os discos falavam
de
amor.
amor, amor, amor.
alguns dos discos tinham
lindos rótulos
roxos,
outros eram laranja, verdes,
amarelos, vermelhos, azuis.
a vitrola tinha pertencido ao
meu avô
e ele tinha escutado aqueles
mesmos
discos.
e agora eu era um garoto
e
os escutava.
e nada em que eu conseguisse pensar
na minha vida naquele tempo
parecia ser melhor do que ouvir
aquela
vitrola
quando meus pais não estavam
em casa.
1 138
Charles Bukowski
Máquina Mágica
eu gostava dos discos velhos que
arranhavam
conforme a agulha deslizava por
sulcos bastante
gastos
você ouvia a voz
saindo do
alto-falante
como se houvesse uma pessoa
dentro daquela
caixa
de mogno
mas você só escutava enquanto
seus pais não estavam
em casa.
e se você não desse corda
na vitrola
ela desacelerava gradualmente e
parava.
era melhor nos fins de
tarde
e os discos falavam
de
amor.
amor, amor, amor.
alguns dos discos tinham
lindos rótulos
roxos,
outros eram laranja, verdes,
amarelos, vermelhos, azuis.
a vitrola tinha pertencido ao
meu avô
e ele tinha escutado aqueles
mesmos
discos.
e agora eu era um garoto
e
os escutava.
e nada em que eu conseguisse pensar
na minha vida naquele tempo
parecia ser melhor do que ouvir
aquela
vitrola
quando meus pais não estavam
em casa.
arranhavam
conforme a agulha deslizava por
sulcos bastante
gastos
você ouvia a voz
saindo do
alto-falante
como se houvesse uma pessoa
dentro daquela
caixa
de mogno
mas você só escutava enquanto
seus pais não estavam
em casa.
e se você não desse corda
na vitrola
ela desacelerava gradualmente e
parava.
era melhor nos fins de
tarde
e os discos falavam
de
amor.
amor, amor, amor.
alguns dos discos tinham
lindos rótulos
roxos,
outros eram laranja, verdes,
amarelos, vermelhos, azuis.
a vitrola tinha pertencido ao
meu avô
e ele tinha escutado aqueles
mesmos
discos.
e agora eu era um garoto
e
os escutava.
e nada em que eu conseguisse pensar
na minha vida naquele tempo
parecia ser melhor do que ouvir
aquela
vitrola
quando meus pais não estavam
em casa.
1 138
Charles Bukowski
Um Poema Ordinário
já que vocês sempre quiseram
saber vou admitir que nunca gostei de Shakespeare, Browning, das
irmãs Brontë,
de Tolstói, beisebol, verões no litoral, queda
de braço, hóquei, Thomas Mann, Vivaldi, Winston Churchill, Dudley
Moore, verso livre,
pizza, boliche, os Jogos Olímpicos, os Três Patetas, os Irmãos
Marx, Ives, Al Jolson, Bob Hope, Frank Sinatra, Mickey
Mouse, basquete,
pais, mães, primos, esposas, morar junto (embora preferível à
opção anterior),
e não gosto da Suíte do Quebra-Nozes, da entrega do Oscar, de Hawthorne,
Melville, torta de abóbora, véspera de Ano-Novo, Natal, Dia do Trabalho,
Quatro de Julho, Ação de Graças, Sexta-feira Santa, The Who,
Bacon, Dr. Spock, Blackstone e Berlioz, Franz
Liszt, meia-calça,
piolhos, pulgas, peixe-dourado, caranguejos, aranhas, guerra
heróis, voos espaciais, camelos (não confio em camelos) ou da
Bíblia,
Updike, Erica Jong, Corso, bartenders, moscas-das-frutas, Jane
Fonda,
igrejas, casamentos, nascimentos, noticiários, cães
de guarda, rifles .22, Henry
Fonda
e todas as mulheres que deveriam ter me amado mas
não amaram e
o primeiro dia da primavera e o
último
e o primeiro verso deste poema
e este aqui
que você está lendo
agora.
saber vou admitir que nunca gostei de Shakespeare, Browning, das
irmãs Brontë,
de Tolstói, beisebol, verões no litoral, queda
de braço, hóquei, Thomas Mann, Vivaldi, Winston Churchill, Dudley
Moore, verso livre,
pizza, boliche, os Jogos Olímpicos, os Três Patetas, os Irmãos
Marx, Ives, Al Jolson, Bob Hope, Frank Sinatra, Mickey
Mouse, basquete,
pais, mães, primos, esposas, morar junto (embora preferível à
opção anterior),
e não gosto da Suíte do Quebra-Nozes, da entrega do Oscar, de Hawthorne,
Melville, torta de abóbora, véspera de Ano-Novo, Natal, Dia do Trabalho,
Quatro de Julho, Ação de Graças, Sexta-feira Santa, The Who,
Bacon, Dr. Spock, Blackstone e Berlioz, Franz
Liszt, meia-calça,
piolhos, pulgas, peixe-dourado, caranguejos, aranhas, guerra
heróis, voos espaciais, camelos (não confio em camelos) ou da
Bíblia,
Updike, Erica Jong, Corso, bartenders, moscas-das-frutas, Jane
Fonda,
igrejas, casamentos, nascimentos, noticiários, cães
de guarda, rifles .22, Henry
Fonda
e todas as mulheres que deveriam ter me amado mas
não amaram e
o primeiro dia da primavera e o
último
e o primeiro verso deste poema
e este aqui
que você está lendo
agora.
1 113