Poemas neste tema
Vida e Existência
João Filho
TRÊS VEZES LÁZARO
Levou três tiros em
noites distintas;
morreu três vezes
a mesma morte.
Quem o matava?
Talvez o próprio,
talvez a voz
de origem vaga,
talvez o medo
de tudo e nada.
Correu sem rumo,
clamou, pediu,
derrotadíssimo
no sem-sentido
(muito depois
pode saber
que foi ouvido).
Dessas três mortes,
três vezes Lázaro:
custou-lhes partes
irreversíveis,
dor explodida,
alma quebrada,
poça de lama
dentro de casa.
Enrodilhado
no chão do quarto,
cão no seu canto,
quis perguntar
sabendo a réplica:
dilacerante
luz necessária.
noites distintas;
morreu três vezes
a mesma morte.
Quem o matava?
Talvez o próprio,
talvez a voz
de origem vaga,
talvez o medo
de tudo e nada.
Correu sem rumo,
clamou, pediu,
derrotadíssimo
no sem-sentido
(muito depois
pode saber
que foi ouvido).
Dessas três mortes,
três vezes Lázaro:
custou-lhes partes
irreversíveis,
dor explodida,
alma quebrada,
poça de lama
dentro de casa.
Enrodilhado
no chão do quarto,
cão no seu canto,
quis perguntar
sabendo a réplica:
dilacerante
luz necessária.
488
João Filho
TRÊS VEZES LÁZARO
Levou três tiros em
noites distintas;
morreu três vezes
a mesma morte.
Quem o matava?
Talvez o próprio,
talvez a voz
de origem vaga,
talvez o medo
de tudo e nada.
Correu sem rumo,
clamou, pediu,
derrotadíssimo
no sem-sentido
(muito depois
pode saber
que foi ouvido).
Dessas três mortes,
três vezes Lázaro:
custou-lhes partes
irreversíveis,
dor explodida,
alma quebrada,
poça de lama
dentro de casa.
Enrodilhado
no chão do quarto,
cão no seu canto,
quis perguntar
sabendo a réplica:
dilacerante
luz necessária.
noites distintas;
morreu três vezes
a mesma morte.
Quem o matava?
Talvez o próprio,
talvez a voz
de origem vaga,
talvez o medo
de tudo e nada.
Correu sem rumo,
clamou, pediu,
derrotadíssimo
no sem-sentido
(muito depois
pode saber
que foi ouvido).
Dessas três mortes,
três vezes Lázaro:
custou-lhes partes
irreversíveis,
dor explodida,
alma quebrada,
poça de lama
dentro de casa.
Enrodilhado
no chão do quarto,
cão no seu canto,
quis perguntar
sabendo a réplica:
dilacerante
luz necessária.
488
Everardo Norões
OS ENCOURADOS
A tarde chega.
A luz se dispersa:
quem anunciará a morte,
soltará o chicote,
abrirá a fresta?
Quem domará o espaço
entre o gume e a alma,
entre a cerca e a palma,
entre o assombro e a calma?
E dormirá no cio
de árvores cativas
ao solstício das pedras,
no despencar das sombras?
A tarde chega,
a luz se dispersa.
É uma luz de sede
do sol dos Inhamuns:
branca e calada.
Os encourados se miram
num horizonte de varas.
A copa é pequena:
na redondez dos cabos,
lâminas severas.
Nem palavras:
o vento soletra a mata,
converte-se em faca.
Sumida nos esteiros,
detida nas vazantes,
segue,
na garupa,
a sina dos instantes.
Adonde vosmecê,
alumia o sobrosso,
desmazelo do corpo?
A alma se estropia
nesses retirados
dentro dos Teus lustres...
A tarde chega.
A luz se dispersa.
E uma luz de sede
do sol dos Inhamuns:
branca e calada.
Ponto de cruz ou estrela:
uma rede bordada.
De Retábulo de Jerônimo Bosch (2009)
A luz se dispersa:
quem anunciará a morte,
soltará o chicote,
abrirá a fresta?
Quem domará o espaço
entre o gume e a alma,
entre a cerca e a palma,
entre o assombro e a calma?
E dormirá no cio
de árvores cativas
ao solstício das pedras,
no despencar das sombras?
A tarde chega,
a luz se dispersa.
É uma luz de sede
do sol dos Inhamuns:
branca e calada.
Os encourados se miram
num horizonte de varas.
A copa é pequena:
na redondez dos cabos,
lâminas severas.
Nem palavras:
o vento soletra a mata,
converte-se em faca.
Sumida nos esteiros,
detida nas vazantes,
segue,
na garupa,
a sina dos instantes.
Adonde vosmecê,
alumia o sobrosso,
desmazelo do corpo?
A alma se estropia
nesses retirados
dentro dos Teus lustres...
A tarde chega.
A luz se dispersa.
E uma luz de sede
do sol dos Inhamuns:
branca e calada.
Ponto de cruz ou estrela:
uma rede bordada.
De Retábulo de Jerônimo Bosch (2009)
631
Everardo Norões
OS ENCOURADOS
A tarde chega.
A luz se dispersa:
quem anunciará a morte,
soltará o chicote,
abrirá a fresta?
Quem domará o espaço
entre o gume e a alma,
entre a cerca e a palma,
entre o assombro e a calma?
E dormirá no cio
de árvores cativas
ao solstício das pedras,
no despencar das sombras?
A tarde chega,
a luz se dispersa.
É uma luz de sede
do sol dos Inhamuns:
branca e calada.
Os encourados se miram
num horizonte de varas.
A copa é pequena:
na redondez dos cabos,
lâminas severas.
Nem palavras:
o vento soletra a mata,
converte-se em faca.
Sumida nos esteiros,
detida nas vazantes,
segue,
na garupa,
a sina dos instantes.
Adonde vosmecê,
alumia o sobrosso,
desmazelo do corpo?
A alma se estropia
nesses retirados
dentro dos Teus lustres...
A tarde chega.
A luz se dispersa.
E uma luz de sede
do sol dos Inhamuns:
branca e calada.
Ponto de cruz ou estrela:
uma rede bordada.
De Retábulo de Jerônimo Bosch (2009)
A luz se dispersa:
quem anunciará a morte,
soltará o chicote,
abrirá a fresta?
Quem domará o espaço
entre o gume e a alma,
entre a cerca e a palma,
entre o assombro e a calma?
E dormirá no cio
de árvores cativas
ao solstício das pedras,
no despencar das sombras?
A tarde chega,
a luz se dispersa.
É uma luz de sede
do sol dos Inhamuns:
branca e calada.
Os encourados se miram
num horizonte de varas.
A copa é pequena:
na redondez dos cabos,
lâminas severas.
Nem palavras:
o vento soletra a mata,
converte-se em faca.
Sumida nos esteiros,
detida nas vazantes,
segue,
na garupa,
a sina dos instantes.
Adonde vosmecê,
alumia o sobrosso,
desmazelo do corpo?
A alma se estropia
nesses retirados
dentro dos Teus lustres...
A tarde chega.
A luz se dispersa.
E uma luz de sede
do sol dos Inhamuns:
branca e calada.
Ponto de cruz ou estrela:
uma rede bordada.
De Retábulo de Jerônimo Bosch (2009)
631
João Filho
BALANÇA
Para Alana Freitas El Fahl
y todo lo que tuvo
que suceder para que tú nacieras
Miguel d’Ors
Uma pessoa é sempre mais pesada
do que indica a balança
ao sair de casa desloca
todos os seus dias e infâncias
leva mundos imensos de livros e esquecimentos
carrega países desconhecidos
e todos os tempos
não sabe os universos de mortos anônimos
que arrasta nos pés
nem desconfia da multidão de dramas
que a cruza de viés
não se dá conta dos milhões de manhãs
que a fazem sair
das línguas inumeráveis
que puderam dizer – aqui
a pré-história de gestos que a mantêm a salvo
para o acerto do fogo, do fruto
– quanto estrago!
uma pessoa é sempre mais do que leva
e menos do que isso
esse peso
é parte do seu compromisso
y todo lo que tuvo
que suceder para que tú nacieras
Miguel d’Ors
Uma pessoa é sempre mais pesada
do que indica a balança
ao sair de casa desloca
todos os seus dias e infâncias
leva mundos imensos de livros e esquecimentos
carrega países desconhecidos
e todos os tempos
não sabe os universos de mortos anônimos
que arrasta nos pés
nem desconfia da multidão de dramas
que a cruza de viés
não se dá conta dos milhões de manhãs
que a fazem sair
das línguas inumeráveis
que puderam dizer – aqui
a pré-história de gestos que a mantêm a salvo
para o acerto do fogo, do fruto
– quanto estrago!
uma pessoa é sempre mais do que leva
e menos do que isso
esse peso
é parte do seu compromisso
637
João Filho
BALANÇA
Para Alana Freitas El Fahl
y todo lo que tuvo
que suceder para que tú nacieras
Miguel d’Ors
Uma pessoa é sempre mais pesada
do que indica a balança
ao sair de casa desloca
todos os seus dias e infâncias
leva mundos imensos de livros e esquecimentos
carrega países desconhecidos
e todos os tempos
não sabe os universos de mortos anônimos
que arrasta nos pés
nem desconfia da multidão de dramas
que a cruza de viés
não se dá conta dos milhões de manhãs
que a fazem sair
das línguas inumeráveis
que puderam dizer – aqui
a pré-história de gestos que a mantêm a salvo
para o acerto do fogo, do fruto
– quanto estrago!
uma pessoa é sempre mais do que leva
e menos do que isso
esse peso
é parte do seu compromisso
y todo lo que tuvo
que suceder para que tú nacieras
Miguel d’Ors
Uma pessoa é sempre mais pesada
do que indica a balança
ao sair de casa desloca
todos os seus dias e infâncias
leva mundos imensos de livros e esquecimentos
carrega países desconhecidos
e todos os tempos
não sabe os universos de mortos anônimos
que arrasta nos pés
nem desconfia da multidão de dramas
que a cruza de viés
não se dá conta dos milhões de manhãs
que a fazem sair
das línguas inumeráveis
que puderam dizer – aqui
a pré-história de gestos que a mantêm a salvo
para o acerto do fogo, do fruto
– quanto estrago!
uma pessoa é sempre mais do que leva
e menos do que isso
esse peso
é parte do seu compromisso
637
João Filho
BALANÇA
Para Alana Freitas El Fahl
y todo lo que tuvo
que suceder para que tú nacieras
Miguel d’Ors
Uma pessoa é sempre mais pesada
do que indica a balança
ao sair de casa desloca
todos os seus dias e infâncias
leva mundos imensos de livros e esquecimentos
carrega países desconhecidos
e todos os tempos
não sabe os universos de mortos anônimos
que arrasta nos pés
nem desconfia da multidão de dramas
que a cruza de viés
não se dá conta dos milhões de manhãs
que a fazem sair
das línguas inumeráveis
que puderam dizer – aqui
a pré-história de gestos que a mantêm a salvo
para o acerto do fogo, do fruto
– quanto estrago!
uma pessoa é sempre mais do que leva
e menos do que isso
esse peso
é parte do seu compromisso
y todo lo que tuvo
que suceder para que tú nacieras
Miguel d’Ors
Uma pessoa é sempre mais pesada
do que indica a balança
ao sair de casa desloca
todos os seus dias e infâncias
leva mundos imensos de livros e esquecimentos
carrega países desconhecidos
e todos os tempos
não sabe os universos de mortos anônimos
que arrasta nos pés
nem desconfia da multidão de dramas
que a cruza de viés
não se dá conta dos milhões de manhãs
que a fazem sair
das línguas inumeráveis
que puderam dizer – aqui
a pré-história de gestos que a mantêm a salvo
para o acerto do fogo, do fruto
– quanto estrago!
uma pessoa é sempre mais do que leva
e menos do que isso
esse peso
é parte do seu compromisso
637
Salgado Maranhão
Desamanhecer
Agora,
na cidade da tua ausência
outro dia
desamanhece. E súplice
um grito escorre na paisagem.
Todos os lugares
são feitos do teu antes.
Da janela,
a noite chega
com as mãos vazias. E
tudo ao fim se esvai
em volta
como um tecido de ventos.
Só meu coração insiste
em erigir teu nome...
para além do esquecimento.
na cidade da tua ausência
outro dia
desamanhece. E súplice
um grito escorre na paisagem.
Todos os lugares
são feitos do teu antes.
Da janela,
a noite chega
com as mãos vazias. E
tudo ao fim se esvai
em volta
como um tecido de ventos.
Só meu coração insiste
em erigir teu nome...
para além do esquecimento.
911
Salgado Maranhão
Do Arbítrio
Das estrias que a mão
esculpe
só o que brilha
sobrevive.
Nômade a manhã
despe o sol
à flor
da carne,
múltipla,
à vertigem da linguagem.
Não há comportas
nem caminhos
não há saaras
nem vienas
em tudo há rinhas
e arestas
de flores
e esquifes.
Em tudo entalha-se
ao revés
coisas que se mostram
e não se dão,
que só no verso vêem-se,
no peeling pelo avesso.
(Delitos que em seu exílio
transbordam de rubro
a lira,
resenham através do júbilo,
rasuram através da ira.)
Sopra revanche de ritmos
no íntimo viés do não dito,
sopra o arbítrio dos dias.
esculpe
só o que brilha
sobrevive.
Nômade a manhã
despe o sol
à flor
da carne,
múltipla,
à vertigem da linguagem.
Não há comportas
nem caminhos
não há saaras
nem vienas
em tudo há rinhas
e arestas
de flores
e esquifes.
Em tudo entalha-se
ao revés
coisas que se mostram
e não se dão,
que só no verso vêem-se,
no peeling pelo avesso.
(Delitos que em seu exílio
transbordam de rubro
a lira,
resenham através do júbilo,
rasuram através da ira.)
Sopra revanche de ritmos
no íntimo viés do não dito,
sopra o arbítrio dos dias.
778
João Filho
Quase Gregas - Quarta
Nossos pequenos tesouros terrenos,
raiz sem razão,
inomináveis alguns,
na penumbra do quarto,
agradecem pelo respiro do instante,
por esse repouso em comum –
luz irmanada sem preço.
Teu corpo cósmico,
eixo de amor e sentido
– noite aberta no tempo –,
reacende ao redor de si os elementos, as coisas,
e, solar,
compartilha surpresas,
que os sentidos festejam.
Fala do pouco sabido,
daquilo por fresta avistado,
mas nítido;
acolhe e oferece,
presente sem par,
páginas, gozos, outros de lágrimas,
canta e somos dueto na dissonância.
Ao pairar pesadelo,
o gesto Állex em minha sede insone.
Serenidade de lume depois do percurso,
do inventário da jornada.
Silêncio
irradiado do seu centro –
aceitando essa dádiva.
raiz sem razão,
inomináveis alguns,
na penumbra do quarto,
agradecem pelo respiro do instante,
por esse repouso em comum –
luz irmanada sem preço.
Teu corpo cósmico,
eixo de amor e sentido
– noite aberta no tempo –,
reacende ao redor de si os elementos, as coisas,
e, solar,
compartilha surpresas,
que os sentidos festejam.
Fala do pouco sabido,
daquilo por fresta avistado,
mas nítido;
acolhe e oferece,
presente sem par,
páginas, gozos, outros de lágrimas,
canta e somos dueto na dissonância.
Ao pairar pesadelo,
o gesto Állex em minha sede insone.
Serenidade de lume depois do percurso,
do inventário da jornada.
Silêncio
irradiado do seu centro –
aceitando essa dádiva.
674
José Paulo Paes
Chatice
Jacaré,
larga do meu pé
deixa de ser chato!
Se você tem fome,
então vê se come
só o meu sapato,
e larga do meu pé,
e volta pro seu mato,
jacaré.
larga do meu pé
deixa de ser chato!
Se você tem fome,
então vê se come
só o meu sapato,
e larga do meu pé,
e volta pro seu mato,
jacaré.
5 154
Salgado Maranhão
Do Raio
Nem o acre sabor das uvas
nos aplaca. Nem a chuva
nos olhos incendidos
devolve o que é vivido.
O magma que nos evapora
tange o rascunho das horas
sob um raio de suspense.
Nem o que é nosso nos pertence.
nos aplaca. Nem a chuva
nos olhos incendidos
devolve o que é vivido.
O magma que nos evapora
tange o rascunho das horas
sob um raio de suspense.
Nem o que é nosso nos pertence.
799
José Anastácio da Cunha
O Abraço
Não vês inda, de gosto sufocados,
Um noutro nossos peitos esculpidos?
Não sentes nossos rostos tão chegados
E ainda mais os corações unidos?
Oh! Mais, mais do que unidos!
Tu fizeste, Doce encanto, que eu fosse mais que teu.
Lembra, lembra-te quando me disseste:
– Meu bem, eu não sou tu?… Tu não és eu?
Goza, de todo goza o teu amante;
E unidos ambos… -Oh!… e estás tão perto!…
Meu bem, deliro, sonho ou estou desperto?
Ambos unidos em mimoso laço,
Faces, bocas unidas… Ah! que faço?…
É ar… Quando que a abraço me parece,
A mim me abraço e em ar se desvanece.
Mas que duvido com abraço estreito
Cingir-me?… Dize, não és seu, meu peito?…
...
Goza, meu bem (enquanto a Sorte avara
Com tanta crueldade nos separa)
Goza do alívio, que nos concedeu,
De dizer com certeza: É minha! – É meu!…
Um noutro nossos peitos esculpidos?
Não sentes nossos rostos tão chegados
E ainda mais os corações unidos?
Oh! Mais, mais do que unidos!
Tu fizeste, Doce encanto, que eu fosse mais que teu.
Lembra, lembra-te quando me disseste:
– Meu bem, eu não sou tu?… Tu não és eu?
Goza, de todo goza o teu amante;
E unidos ambos… -Oh!… e estás tão perto!…
Meu bem, deliro, sonho ou estou desperto?
Ambos unidos em mimoso laço,
Faces, bocas unidas… Ah! que faço?…
É ar… Quando que a abraço me parece,
A mim me abraço e em ar se desvanece.
Mas que duvido com abraço estreito
Cingir-me?… Dize, não és seu, meu peito?…
...
Goza, meu bem (enquanto a Sorte avara
Com tanta crueldade nos separa)
Goza do alívio, que nos concedeu,
De dizer com certeza: É minha! – É meu!…
787
João Filho
Quase Gregas - Segunda
quele anônimo
(suado e sangrento,
mas não morto,
fugindo de Tebas sem Ílio que o zele),
só escapa da impiedade de Diomedes,
por ter rastejado entre cadáveres, rio e deserto,
e invisível ao aço cruel dos deuses inimigos;
não se acovarda,
procura, sim, reinos mais altos –
o fruto ofertado, apesar de severo.
Gratíssimo pelo respiro de tudo,
mais velho que o lume primeiro
e mais seguro que o lastro de Aquiles.
À sombra, já longe,
sob uma oliveira repousa,
olha a planície
– vida cristal, espantosa de tão óbvia –
e ri suas lágrimas.
A águia e a árvore,
voo e raiz,
os prodígios sem causa desse amoroso diário,
que incansável canta seu sol.
Dorme sem dores,
derrotas não há,
apesar das ruínas da cidade devastada,
do choro sem retorno de mães, filhos e sábios,
estirpe findada.
Endereça-se ao reino mais alto,
àquele,
que estampa em seu siclo confiança e perdão.
(suado e sangrento,
mas não morto,
fugindo de Tebas sem Ílio que o zele),
só escapa da impiedade de Diomedes,
por ter rastejado entre cadáveres, rio e deserto,
e invisível ao aço cruel dos deuses inimigos;
não se acovarda,
procura, sim, reinos mais altos –
o fruto ofertado, apesar de severo.
Gratíssimo pelo respiro de tudo,
mais velho que o lume primeiro
e mais seguro que o lastro de Aquiles.
À sombra, já longe,
sob uma oliveira repousa,
olha a planície
– vida cristal, espantosa de tão óbvia –
e ri suas lágrimas.
A águia e a árvore,
voo e raiz,
os prodígios sem causa desse amoroso diário,
que incansável canta seu sol.
Dorme sem dores,
derrotas não há,
apesar das ruínas da cidade devastada,
do choro sem retorno de mães, filhos e sábios,
estirpe findada.
Endereça-se ao reino mais alto,
àquele,
que estampa em seu siclo confiança e perdão.
526
João Filho
Quase Gregas - Segunda
quele anônimo
(suado e sangrento,
mas não morto,
fugindo de Tebas sem Ílio que o zele),
só escapa da impiedade de Diomedes,
por ter rastejado entre cadáveres, rio e deserto,
e invisível ao aço cruel dos deuses inimigos;
não se acovarda,
procura, sim, reinos mais altos –
o fruto ofertado, apesar de severo.
Gratíssimo pelo respiro de tudo,
mais velho que o lume primeiro
e mais seguro que o lastro de Aquiles.
À sombra, já longe,
sob uma oliveira repousa,
olha a planície
– vida cristal, espantosa de tão óbvia –
e ri suas lágrimas.
A águia e a árvore,
voo e raiz,
os prodígios sem causa desse amoroso diário,
que incansável canta seu sol.
Dorme sem dores,
derrotas não há,
apesar das ruínas da cidade devastada,
do choro sem retorno de mães, filhos e sábios,
estirpe findada.
Endereça-se ao reino mais alto,
àquele,
que estampa em seu siclo confiança e perdão.
(suado e sangrento,
mas não morto,
fugindo de Tebas sem Ílio que o zele),
só escapa da impiedade de Diomedes,
por ter rastejado entre cadáveres, rio e deserto,
e invisível ao aço cruel dos deuses inimigos;
não se acovarda,
procura, sim, reinos mais altos –
o fruto ofertado, apesar de severo.
Gratíssimo pelo respiro de tudo,
mais velho que o lume primeiro
e mais seguro que o lastro de Aquiles.
À sombra, já longe,
sob uma oliveira repousa,
olha a planície
– vida cristal, espantosa de tão óbvia –
e ri suas lágrimas.
A águia e a árvore,
voo e raiz,
os prodígios sem causa desse amoroso diário,
que incansável canta seu sol.
Dorme sem dores,
derrotas não há,
apesar das ruínas da cidade devastada,
do choro sem retorno de mães, filhos e sábios,
estirpe findada.
Endereça-se ao reino mais alto,
àquele,
que estampa em seu siclo confiança e perdão.
526
Grazia Deledda
Cai uma folha
Cai uma folha que parece
tingida pelo sol, que ao cair
tem a iridescência de uma mariposa;
mas assim que atinge o chão
funde-se com a sombra, já morta.
tingida pelo sol, que ao cair
tem a iridescência de uma mariposa;
mas assim que atinge o chão
funde-se com a sombra, já morta.
862
Grazia Deledda
Cai uma folha
Cai uma folha que parece
tingida pelo sol, que ao cair
tem a iridescência de uma mariposa;
mas assim que atinge o chão
funde-se com a sombra, já morta.
tingida pelo sol, que ao cair
tem a iridescência de uma mariposa;
mas assim que atinge o chão
funde-se com a sombra, já morta.
862
João Filho
UMA MULHER TODA MÚSICA
Eu pretendi colhê-la num só gesto,
que fosse imaterial, também tangível,
tentei a forma livro, o sonho aberto,
estive atento ao peso do invisível.
Busquei coisas menores, mais modesto,
— uma manhã urbana, a luz possível.
Tudo inútil, desejo o cerne e aperto
o escuro, mesmo sendo tão legível
o corpo branco, nu, dentro da tarde.
Agora me concentro em não fixá-la
em pauta ou pensamento para dar-lhe
o ritmo necessário de quem cala,
a música a envolvê-la sem alarde
enquanto ela caminha pela sala.
que fosse imaterial, também tangível,
tentei a forma livro, o sonho aberto,
estive atento ao peso do invisível.
Busquei coisas menores, mais modesto,
— uma manhã urbana, a luz possível.
Tudo inútil, desejo o cerne e aperto
o escuro, mesmo sendo tão legível
o corpo branco, nu, dentro da tarde.
Agora me concentro em não fixá-la
em pauta ou pensamento para dar-lhe
o ritmo necessário de quem cala,
a música a envolvê-la sem alarde
enquanto ela caminha pela sala.
599
José Anastácio da Cunha
Soneto
Copado, alto, gentil Pinheiro Manso;
Debaixo cujos ramos debruçados
Do sol ou lua nunca penetrados,
Já gozei, já gozei mais que descanso...
Quando para onde estás os olhos lanço,
Tantos gostos ao pé de ti passados
Vejo na fantasia retratados,
Tão vivos, que jàmais de ver-te canso!
Ah! deixa o outono vir; de um jasmineiro
te hei-de cobrir, terás cópia crescida
De flores, serás honra dêste outeiro.
E para te dar glória mais subida,
No meu tronco feliz, alto Pinheiro,
O teu nome escreverei de Margarida.
Debaixo cujos ramos debruçados
Do sol ou lua nunca penetrados,
Já gozei, já gozei mais que descanso...
Quando para onde estás os olhos lanço,
Tantos gostos ao pé de ti passados
Vejo na fantasia retratados,
Tão vivos, que jàmais de ver-te canso!
Ah! deixa o outono vir; de um jasmineiro
te hei-de cobrir, terás cópia crescida
De flores, serás honra dêste outeiro.
E para te dar glória mais subida,
No meu tronco feliz, alto Pinheiro,
O teu nome escreverei de Margarida.
728
João Filho
Quase Gregas - Quinta
Dos possíveis caminhos propôs o Caminho.
E, assim, nascida sem fim, luz fundante,
sabendo que o cosmo é insuficiente
neste mundo-minuto
– do gozo do corpo
ao pó de tudo –,
profere: sim!
Rompe nãos, nadas
e principia a traçar o que não poderia ter sido.
Aqui, no largo do instante,
persente o espanto e celebra por celebrar –
das funduras da noite ao sussurro do sangue.
Luz generosa repete seu átimo,
assíduo em sumir,
mas delimita e, ao fazê-lo, liberta,
contorna e penetra toda a folhagem em fibra e
[verdura –
no centro da vida ,
a amendoeira transpira silêncio.
Manhã.
No trajeto, a luz atravessa o copo com água
na mesa da sala,
blocos de cores,
miríades rebentam
– rasante azulado cantante cruzando a varanda –
e desaparecem.
Ama? E degola.
O intento é cumprido
e os dias nos acontecem.
E, assim, nascida sem fim, luz fundante,
sabendo que o cosmo é insuficiente
neste mundo-minuto
– do gozo do corpo
ao pó de tudo –,
profere: sim!
Rompe nãos, nadas
e principia a traçar o que não poderia ter sido.
Aqui, no largo do instante,
persente o espanto e celebra por celebrar –
das funduras da noite ao sussurro do sangue.
Luz generosa repete seu átimo,
assíduo em sumir,
mas delimita e, ao fazê-lo, liberta,
contorna e penetra toda a folhagem em fibra e
[verdura –
no centro da vida ,
a amendoeira transpira silêncio.
Manhã.
No trajeto, a luz atravessa o copo com água
na mesa da sala,
blocos de cores,
miríades rebentam
– rasante azulado cantante cruzando a varanda –
e desaparecem.
Ama? E degola.
O intento é cumprido
e os dias nos acontecem.
642
João Filho
Quase Gregas - Quinta
Dos possíveis caminhos propôs o Caminho.
E, assim, nascida sem fim, luz fundante,
sabendo que o cosmo é insuficiente
neste mundo-minuto
– do gozo do corpo
ao pó de tudo –,
profere: sim!
Rompe nãos, nadas
e principia a traçar o que não poderia ter sido.
Aqui, no largo do instante,
persente o espanto e celebra por celebrar –
das funduras da noite ao sussurro do sangue.
Luz generosa repete seu átimo,
assíduo em sumir,
mas delimita e, ao fazê-lo, liberta,
contorna e penetra toda a folhagem em fibra e
[verdura –
no centro da vida ,
a amendoeira transpira silêncio.
Manhã.
No trajeto, a luz atravessa o copo com água
na mesa da sala,
blocos de cores,
miríades rebentam
– rasante azulado cantante cruzando a varanda –
e desaparecem.
Ama? E degola.
O intento é cumprido
e os dias nos acontecem.
E, assim, nascida sem fim, luz fundante,
sabendo que o cosmo é insuficiente
neste mundo-minuto
– do gozo do corpo
ao pó de tudo –,
profere: sim!
Rompe nãos, nadas
e principia a traçar o que não poderia ter sido.
Aqui, no largo do instante,
persente o espanto e celebra por celebrar –
das funduras da noite ao sussurro do sangue.
Luz generosa repete seu átimo,
assíduo em sumir,
mas delimita e, ao fazê-lo, liberta,
contorna e penetra toda a folhagem em fibra e
[verdura –
no centro da vida ,
a amendoeira transpira silêncio.
Manhã.
No trajeto, a luz atravessa o copo com água
na mesa da sala,
blocos de cores,
miríades rebentam
– rasante azulado cantante cruzando a varanda –
e desaparecem.
Ama? E degola.
O intento é cumprido
e os dias nos acontecem.
642
José Manuel Capêlo
SUPREMA INTENÇÃO
a António Salvado
Nada sem forma. A rua larga, albicastra, a forma esguia
duma face em perfil, um sorriso num copo cheio de mim.
Meu pai ... Quando sou eu? Talvez, um dia, quando o mar
se chegar mais próximo. Quando a terra deixar de vacilar,
ou quando a natureza se mostrar na sua grandeza, sem os
desvarios dos homens. Quando Deus e o Diabo quiserem,
sem que me modifique ou esqueça, sem deixar de pensar
que por aqui passei, menir antepassado, narrativa em pedra,
silhueta apontada à imensidão árida.
Quando me procurarem e encontrarem na porção de tudo
e nada!...
Nada sem forma. A rua larga, albicastra, a forma esguia
duma face em perfil, um sorriso num copo cheio de mim.
Meu pai ... Quando sou eu? Talvez, um dia, quando o mar
se chegar mais próximo. Quando a terra deixar de vacilar,
ou quando a natureza se mostrar na sua grandeza, sem os
desvarios dos homens. Quando Deus e o Diabo quiserem,
sem que me modifique ou esqueça, sem deixar de pensar
que por aqui passei, menir antepassado, narrativa em pedra,
silhueta apontada à imensidão árida.
Quando me procurarem e encontrarem na porção de tudo
e nada!...
496
José Manuel Capêlo
SUPREMA INTENÇÃO
a António Salvado
Nada sem forma. A rua larga, albicastra, a forma esguia
duma face em perfil, um sorriso num copo cheio de mim.
Meu pai ... Quando sou eu? Talvez, um dia, quando o mar
se chegar mais próximo. Quando a terra deixar de vacilar,
ou quando a natureza se mostrar na sua grandeza, sem os
desvarios dos homens. Quando Deus e o Diabo quiserem,
sem que me modifique ou esqueça, sem deixar de pensar
que por aqui passei, menir antepassado, narrativa em pedra,
silhueta apontada à imensidão árida.
Quando me procurarem e encontrarem na porção de tudo
e nada!...
Nada sem forma. A rua larga, albicastra, a forma esguia
duma face em perfil, um sorriso num copo cheio de mim.
Meu pai ... Quando sou eu? Talvez, um dia, quando o mar
se chegar mais próximo. Quando a terra deixar de vacilar,
ou quando a natureza se mostrar na sua grandeza, sem os
desvarios dos homens. Quando Deus e o Diabo quiserem,
sem que me modifique ou esqueça, sem deixar de pensar
que por aqui passei, menir antepassado, narrativa em pedra,
silhueta apontada à imensidão árida.
Quando me procurarem e encontrarem na porção de tudo
e nada!...
496
João Filho
Quase Gregas - Sexta
Altos extremos convivem nesta hora sem trégua:
este chamemos Sol-Fúria.
Seu antípoda é chamado de Ave-Doçura.
Vão juntos, cindidos.
Aquele – carnífice,
nos campos empilha inimigos,
caminhos sanguíneos deixando,
desossa o que não for seu brasão,
e mantém o lastro do irmão.
Com alma e arnês,
braço e couraça a serviço d’El-rey,
do Altíssimo Outro, sem-par.
Mas tratemos agora da Ave-Doçura:
suporta os aríetes do mundo
e não apenas a face contrária oferece.
Seu marco:
Amor.
Seu coração – seu combate.
Esses dois margeiam – centímetro –
dor, bílis e morte. Amam assim,
juntos, cindidos.
Os séculos baldam em destroçá-los,
e já tentaram de tudo.
Atravessam cambaios, porém de pé,
precipícios, planícies,
a própria medula.
este chamemos Sol-Fúria.
Seu antípoda é chamado de Ave-Doçura.
Vão juntos, cindidos.
Aquele – carnífice,
nos campos empilha inimigos,
caminhos sanguíneos deixando,
desossa o que não for seu brasão,
e mantém o lastro do irmão.
Com alma e arnês,
braço e couraça a serviço d’El-rey,
do Altíssimo Outro, sem-par.
Mas tratemos agora da Ave-Doçura:
suporta os aríetes do mundo
e não apenas a face contrária oferece.
Seu marco:
Amor.
Seu coração – seu combate.
Esses dois margeiam – centímetro –
dor, bílis e morte. Amam assim,
juntos, cindidos.
Os séculos baldam em destroçá-los,
e já tentaram de tudo.
Atravessam cambaios, porém de pé,
precipícios, planícies,
a própria medula.
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