Poemas neste tema
Vida e Existência
Charles Bukowski
Um Encontro Trágico
eu era mais visível e disponível naquele tempo
e eu tinha uma grande fraqueza:
eu achava que ir pra cama com várias mulheres
significava que um homem era esperto e bom e
superior
sobretudo se aos 55 anos de
idade
conseguisse traçar inúmeras gatinhas
e eu levantava pesos
bebia feito um louco
e fazia
isso.
as mulheres eram na maioria legais
e na maioria eram bonitas
e só uma ou outra era realmente burra e
sem graça
mas JoJo
eu não consigo nem mesmo categorizar.
suas cartas eram sucintas, repetiam
as mesmas coisas:
“eu gosto dos seus livros, gostaria de
conhecê-lo...”
eu escrevi de volta e lhe disse
que
tudo bem.
então vieram as instruções
sobre onde eu deveria
encontrá-la: em tal faculdade
em tal data
a tal hora
logo depois de suas
aulas.
a faculdade ficava no alto das
colinas e
o dia e a hora
chegaram
e com seus desenhos
de ruas serpenteantes
mais um mapa rodoviário
eu parti.
era em algum lugar entre o Rose Bowl
e um dos maiores cemitérios do
sul da Califórnia
e eu cheguei cedo e fiquei sentado no meu
carro
bebericando meu Cutty Sark
e olhando as
aluninhas – havia tantas
delas, simplesmente não dava para
pegar todas.
então soou a campainha e eu saí do meu
carro e andei até a frente do
prédio, havia uma longa sequência de
degraus e os estudantes saíram do
prédio e desceram os degraus
e eu fiquei parado
esperando, e como numa chegada
em aeroporto
eu não fazia ideia
de quem
seria.
“Chinaski”, alguém disse
e lá estava ela: 18, 19 anos,
nem feia nem linda, com
corpo e feições medianos,
parecendo não ser feroz,
inteligente, burra e tampouco
louca.
demos um leve beijo e aí
perguntei se ela
estava de carro
e ela disse
que estava de carro
e eu disse “tá bom, te levo no meu
até ele, depois você me
segue...”
JoJo era uma boa seguidora, ela me seguiu o
caminho todo até a minha ruazinha decaída no leste
de Hollywood.
eu lhe servi uma bebida e nós conversamos um
papo muito insípido e nos beijamos um
pouco.
os beijos não eram nem bons nem ruins
tampouco interessantes ou
desinteressantes.
bastante tempo se passou e ela bebeu bem
pouco
e nós nos beijamos um pouco mais e ela disse
“eu gosto dos seus livros, eles realmente me
afetam”.
“Meus livros que se fodam!”, eu falei.
eu já estava de cueca e tinha puxado sua
saia bunda acima
e eu estava me esforçando muito
mas ela só beijava e
falava.
ela correspondia e ela não
correspondia.
então
desisti e comecei a beber
pra valer.
ela mencionou alguns dos outros
escritores
dos quais gostava
mas ela não gostava de nenhum deles
do jeito como gostava
de mim.
“ah”, eu enchi meu copo, “é
mesmo?”
“preciso ir”, JoJo disse,
“tenho uma aula de
manhã.”
“você pode dormir aqui”, eu sugeri, “e
acordar cedo, sou ótimo nos ovos
mexidos.”
“não, obrigada, eu preciso
ir...”
e ela foi embora com
vários exemplares de livros meus
que ela nunca tinha visto
antes,
exemplares que eu lhe dera
bem mais cedo naquela
noite.
bebi mais uma dose e decidi
dormir para esquecer
aquela inexplicável
perda.
desliguei as luzes
e me joguei na
cama sem
me lavar ou
escovar os
dentes.
olhei para o alto no escuro
e pensei, eis aqui uma mulher
sobre a qual nunca serei capaz
de escrever:
ela não era nem boa nem ruim,
real ou irreal, amável ou
desamável, ela era só uma garota
de uma faculdade
em algum lugar entre o Rose Bowl e
o lixão.
então me veio uma coceira, eu me
cocei, eu parecia sentir coisas
no meu rosto, na minha barriga, eu respirei fundo,
soltei o ar, tentei dormir mas
a coceira piorou, então
senti uma mordida, então diversas mordidas,
coisas pareciam estar
rastejando na minha pele...
corri até o banheiro
e acendi a luz
meu Deus, JoJo tinha pulgas.
entrei no chuveiro
fiquei ali
ajustando a água,
pensando,
aquela
pobre
querida.
e eu tinha uma grande fraqueza:
eu achava que ir pra cama com várias mulheres
significava que um homem era esperto e bom e
superior
sobretudo se aos 55 anos de
idade
conseguisse traçar inúmeras gatinhas
e eu levantava pesos
bebia feito um louco
e fazia
isso.
as mulheres eram na maioria legais
e na maioria eram bonitas
e só uma ou outra era realmente burra e
sem graça
mas JoJo
eu não consigo nem mesmo categorizar.
suas cartas eram sucintas, repetiam
as mesmas coisas:
“eu gosto dos seus livros, gostaria de
conhecê-lo...”
eu escrevi de volta e lhe disse
que
tudo bem.
então vieram as instruções
sobre onde eu deveria
encontrá-la: em tal faculdade
em tal data
a tal hora
logo depois de suas
aulas.
a faculdade ficava no alto das
colinas e
o dia e a hora
chegaram
e com seus desenhos
de ruas serpenteantes
mais um mapa rodoviário
eu parti.
era em algum lugar entre o Rose Bowl
e um dos maiores cemitérios do
sul da Califórnia
e eu cheguei cedo e fiquei sentado no meu
carro
bebericando meu Cutty Sark
e olhando as
aluninhas – havia tantas
delas, simplesmente não dava para
pegar todas.
então soou a campainha e eu saí do meu
carro e andei até a frente do
prédio, havia uma longa sequência de
degraus e os estudantes saíram do
prédio e desceram os degraus
e eu fiquei parado
esperando, e como numa chegada
em aeroporto
eu não fazia ideia
de quem
seria.
“Chinaski”, alguém disse
e lá estava ela: 18, 19 anos,
nem feia nem linda, com
corpo e feições medianos,
parecendo não ser feroz,
inteligente, burra e tampouco
louca.
demos um leve beijo e aí
perguntei se ela
estava de carro
e ela disse
que estava de carro
e eu disse “tá bom, te levo no meu
até ele, depois você me
segue...”
JoJo era uma boa seguidora, ela me seguiu o
caminho todo até a minha ruazinha decaída no leste
de Hollywood.
eu lhe servi uma bebida e nós conversamos um
papo muito insípido e nos beijamos um
pouco.
os beijos não eram nem bons nem ruins
tampouco interessantes ou
desinteressantes.
bastante tempo se passou e ela bebeu bem
pouco
e nós nos beijamos um pouco mais e ela disse
“eu gosto dos seus livros, eles realmente me
afetam”.
“Meus livros que se fodam!”, eu falei.
eu já estava de cueca e tinha puxado sua
saia bunda acima
e eu estava me esforçando muito
mas ela só beijava e
falava.
ela correspondia e ela não
correspondia.
então
desisti e comecei a beber
pra valer.
ela mencionou alguns dos outros
escritores
dos quais gostava
mas ela não gostava de nenhum deles
do jeito como gostava
de mim.
“ah”, eu enchi meu copo, “é
mesmo?”
“preciso ir”, JoJo disse,
“tenho uma aula de
manhã.”
“você pode dormir aqui”, eu sugeri, “e
acordar cedo, sou ótimo nos ovos
mexidos.”
“não, obrigada, eu preciso
ir...”
e ela foi embora com
vários exemplares de livros meus
que ela nunca tinha visto
antes,
exemplares que eu lhe dera
bem mais cedo naquela
noite.
bebi mais uma dose e decidi
dormir para esquecer
aquela inexplicável
perda.
desliguei as luzes
e me joguei na
cama sem
me lavar ou
escovar os
dentes.
olhei para o alto no escuro
e pensei, eis aqui uma mulher
sobre a qual nunca serei capaz
de escrever:
ela não era nem boa nem ruim,
real ou irreal, amável ou
desamável, ela era só uma garota
de uma faculdade
em algum lugar entre o Rose Bowl e
o lixão.
então me veio uma coceira, eu me
cocei, eu parecia sentir coisas
no meu rosto, na minha barriga, eu respirei fundo,
soltei o ar, tentei dormir mas
a coceira piorou, então
senti uma mordida, então diversas mordidas,
coisas pareciam estar
rastejando na minha pele...
corri até o banheiro
e acendi a luz
meu Deus, JoJo tinha pulgas.
entrei no chuveiro
fiquei ali
ajustando a água,
pensando,
aquela
pobre
querida.
1 210
Charles Bukowski
Esqueça
agora ouça, quando eu morrer não quero nenhuma choradeira, só trate de colocar
o funeral em andamento, tive uma vida plena, e
se alguém já levou vantagem esse alguém
fui eu, vivi 7 ou 8 vidas em uma, suficiente para
qualquer um.
somos todos iguais afinal, portanto nada de discursos, por favor,
a menos que você queira dizer que ele apostava nos cavalos e era muito
bom nisso.
depois é a sua vez e eu já sei algo que você não sabe,
talvez.
o funeral em andamento, tive uma vida plena, e
se alguém já levou vantagem esse alguém
fui eu, vivi 7 ou 8 vidas em uma, suficiente para
qualquer um.
somos todos iguais afinal, portanto nada de discursos, por favor,
a menos que você queira dizer que ele apostava nos cavalos e era muito
bom nisso.
depois é a sua vez e eu já sei algo que você não sabe,
talvez.
1 261
Charles Bukowski
Esqueça
agora ouça, quando eu morrer não quero nenhuma choradeira, só trate de colocar
o funeral em andamento, tive uma vida plena, e
se alguém já levou vantagem esse alguém
fui eu, vivi 7 ou 8 vidas em uma, suficiente para
qualquer um.
somos todos iguais afinal, portanto nada de discursos, por favor,
a menos que você queira dizer que ele apostava nos cavalos e era muito
bom nisso.
depois é a sua vez e eu já sei algo que você não sabe,
talvez.
o funeral em andamento, tive uma vida plena, e
se alguém já levou vantagem esse alguém
fui eu, vivi 7 ou 8 vidas em uma, suficiente para
qualquer um.
somos todos iguais afinal, portanto nada de discursos, por favor,
a menos que você queira dizer que ele apostava nos cavalos e era muito
bom nisso.
depois é a sua vez e eu já sei algo que você não sabe,
talvez.
1 261
Charles Bukowski
Esqueça
agora ouça, quando eu morrer não quero nenhuma choradeira, só trate de colocar
o funeral em andamento, tive uma vida plena, e
se alguém já levou vantagem esse alguém
fui eu, vivi 7 ou 8 vidas em uma, suficiente para
qualquer um.
somos todos iguais afinal, portanto nada de discursos, por favor,
a menos que você queira dizer que ele apostava nos cavalos e era muito
bom nisso.
depois é a sua vez e eu já sei algo que você não sabe,
talvez.
o funeral em andamento, tive uma vida plena, e
se alguém já levou vantagem esse alguém
fui eu, vivi 7 ou 8 vidas em uma, suficiente para
qualquer um.
somos todos iguais afinal, portanto nada de discursos, por favor,
a menos que você queira dizer que ele apostava nos cavalos e era muito
bom nisso.
depois é a sua vez e eu já sei algo que você não sabe,
talvez.
1 261
Charles Bukowski
Máquina Mágica
eu gostava dos discos velhos que
arranhavam
conforme a agulha deslizava por
sulcos bastante
gastos
você ouvia a voz
saindo do
alto-falante
como se houvesse uma pessoa
dentro daquela
caixa
de mogno
mas você só escutava enquanto
seus pais não estavam
em casa.
e se você não desse corda
na vitrola
ela desacelerava gradualmente e
parava.
era melhor nos fins de
tarde
e os discos falavam
de
amor.
amor, amor, amor.
alguns dos discos tinham
lindos rótulos
roxos,
outros eram laranja, verdes,
amarelos, vermelhos, azuis.
a vitrola tinha pertencido ao
meu avô
e ele tinha escutado aqueles
mesmos
discos.
e agora eu era um garoto
e
os escutava.
e nada em que eu conseguisse pensar
na minha vida naquele tempo
parecia ser melhor do que ouvir
aquela
vitrola
quando meus pais não estavam
em casa.
arranhavam
conforme a agulha deslizava por
sulcos bastante
gastos
você ouvia a voz
saindo do
alto-falante
como se houvesse uma pessoa
dentro daquela
caixa
de mogno
mas você só escutava enquanto
seus pais não estavam
em casa.
e se você não desse corda
na vitrola
ela desacelerava gradualmente e
parava.
era melhor nos fins de
tarde
e os discos falavam
de
amor.
amor, amor, amor.
alguns dos discos tinham
lindos rótulos
roxos,
outros eram laranja, verdes,
amarelos, vermelhos, azuis.
a vitrola tinha pertencido ao
meu avô
e ele tinha escutado aqueles
mesmos
discos.
e agora eu era um garoto
e
os escutava.
e nada em que eu conseguisse pensar
na minha vida naquele tempo
parecia ser melhor do que ouvir
aquela
vitrola
quando meus pais não estavam
em casa.
1 162
Charles Bukowski
Máquina Mágica
eu gostava dos discos velhos que
arranhavam
conforme a agulha deslizava por
sulcos bastante
gastos
você ouvia a voz
saindo do
alto-falante
como se houvesse uma pessoa
dentro daquela
caixa
de mogno
mas você só escutava enquanto
seus pais não estavam
em casa.
e se você não desse corda
na vitrola
ela desacelerava gradualmente e
parava.
era melhor nos fins de
tarde
e os discos falavam
de
amor.
amor, amor, amor.
alguns dos discos tinham
lindos rótulos
roxos,
outros eram laranja, verdes,
amarelos, vermelhos, azuis.
a vitrola tinha pertencido ao
meu avô
e ele tinha escutado aqueles
mesmos
discos.
e agora eu era um garoto
e
os escutava.
e nada em que eu conseguisse pensar
na minha vida naquele tempo
parecia ser melhor do que ouvir
aquela
vitrola
quando meus pais não estavam
em casa.
arranhavam
conforme a agulha deslizava por
sulcos bastante
gastos
você ouvia a voz
saindo do
alto-falante
como se houvesse uma pessoa
dentro daquela
caixa
de mogno
mas você só escutava enquanto
seus pais não estavam
em casa.
e se você não desse corda
na vitrola
ela desacelerava gradualmente e
parava.
era melhor nos fins de
tarde
e os discos falavam
de
amor.
amor, amor, amor.
alguns dos discos tinham
lindos rótulos
roxos,
outros eram laranja, verdes,
amarelos, vermelhos, azuis.
a vitrola tinha pertencido ao
meu avô
e ele tinha escutado aqueles
mesmos
discos.
e agora eu era um garoto
e
os escutava.
e nada em que eu conseguisse pensar
na minha vida naquele tempo
parecia ser melhor do que ouvir
aquela
vitrola
quando meus pais não estavam
em casa.
1 162
Charles Bukowski
Procura-Se Ajuda
eu era um jovem demente e aí encontrei certo livro escrito por um
homem mais velho demente e me senti melhor porque ele era
capaz de botar no papel
e aí encontrei um livro de uma fase posterior desse mesmo homem mais velho
demente
só que a mim
ele já não parecia demente ele só parecia ser
maçante –
todos nós aguentamos bem por um tempo, aí com defeitos e
lapsos e erros inerentes
na maioria de nós
tão frequentemente nos deterioramos da noite para o dia
chegando a um estado tão próximo da defecação
que o resultado final é quase insuportável para os
sentidos.
por sorte, encontrei alguns outros homens dementes que quase permaneceram do
mesmo jeito até que
morreram.
isso é mais digno, sabe, e beneficia um pouco mais as nossas
vidas
conforme desempenhamos as nossas –
umbrosas –
tarefas.
homem mais velho demente e me senti melhor porque ele era
capaz de botar no papel
e aí encontrei um livro de uma fase posterior desse mesmo homem mais velho
demente
só que a mim
ele já não parecia demente ele só parecia ser
maçante –
todos nós aguentamos bem por um tempo, aí com defeitos e
lapsos e erros inerentes
na maioria de nós
tão frequentemente nos deterioramos da noite para o dia
chegando a um estado tão próximo da defecação
que o resultado final é quase insuportável para os
sentidos.
por sorte, encontrei alguns outros homens dementes que quase permaneceram do
mesmo jeito até que
morreram.
isso é mais digno, sabe, e beneficia um pouco mais as nossas
vidas
conforme desempenhamos as nossas –
umbrosas –
tarefas.
1 138
Charles Bukowski
Procura-Se Ajuda
eu era um jovem demente e aí encontrei certo livro escrito por um
homem mais velho demente e me senti melhor porque ele era
capaz de botar no papel
e aí encontrei um livro de uma fase posterior desse mesmo homem mais velho
demente
só que a mim
ele já não parecia demente ele só parecia ser
maçante –
todos nós aguentamos bem por um tempo, aí com defeitos e
lapsos e erros inerentes
na maioria de nós
tão frequentemente nos deterioramos da noite para o dia
chegando a um estado tão próximo da defecação
que o resultado final é quase insuportável para os
sentidos.
por sorte, encontrei alguns outros homens dementes que quase permaneceram do
mesmo jeito até que
morreram.
isso é mais digno, sabe, e beneficia um pouco mais as nossas
vidas
conforme desempenhamos as nossas –
umbrosas –
tarefas.
homem mais velho demente e me senti melhor porque ele era
capaz de botar no papel
e aí encontrei um livro de uma fase posterior desse mesmo homem mais velho
demente
só que a mim
ele já não parecia demente ele só parecia ser
maçante –
todos nós aguentamos bem por um tempo, aí com defeitos e
lapsos e erros inerentes
na maioria de nós
tão frequentemente nos deterioramos da noite para o dia
chegando a um estado tão próximo da defecação
que o resultado final é quase insuportável para os
sentidos.
por sorte, encontrei alguns outros homens dementes que quase permaneceram do
mesmo jeito até que
morreram.
isso é mais digno, sabe, e beneficia um pouco mais as nossas
vidas
conforme desempenhamos as nossas –
umbrosas –
tarefas.
1 138
Charles Bukowski
Trabalhando
ah, aquele tempo em que eu
as botava
pra dentro e pra fora do meu
apartamento miserável.
meu deus, eu era uma coisa
peluda e
feiosa.
e eu encurralava
todas elas nas
molas
mandando
ver
eu era o insano
macaco bêbado
numa vizinhança
triste e
moribunda.
mas o mais estranho
de tudo
eram as
novas e contínuas
chegadas:
era um
desfile
feminino
e
eu exultava
me pavoneava e
atacava.
mal fazendo
ideia
do
significado
daquilo.
era um
inesquecível
quarto
pintado de um estranho
azul.
e
a maioria das
damas
ia embora pouco antes do
meio-dia
mais ou menos na hora
em que o carteiro
chegava.
ele conversou comigo
um dia, “meu deus,
cara, onde você
arranja todas elas?”
“não sei”, eu
respondi.
“me desculpa”, ele
prosseguiu, “mas você não
parece exatamente
um presente de Deus às
mulheres, como você
consegue?”
“não sei”,
eu disse.
e era
verdade: simplesmente
acontecia e eu
ia em frente
no meu quarto
azul
com a
melhor toalha de mesa
de renda
da minha mãe morta
fixada
por cima da
janela.
eu era um
puta
idiota.
as botava
pra dentro e pra fora do meu
apartamento miserável.
meu deus, eu era uma coisa
peluda e
feiosa.
e eu encurralava
todas elas nas
molas
mandando
ver
eu era o insano
macaco bêbado
numa vizinhança
triste e
moribunda.
mas o mais estranho
de tudo
eram as
novas e contínuas
chegadas:
era um
desfile
feminino
e
eu exultava
me pavoneava e
atacava.
mal fazendo
ideia
do
significado
daquilo.
era um
inesquecível
quarto
pintado de um estranho
azul.
e
a maioria das
damas
ia embora pouco antes do
meio-dia
mais ou menos na hora
em que o carteiro
chegava.
ele conversou comigo
um dia, “meu deus,
cara, onde você
arranja todas elas?”
“não sei”, eu
respondi.
“me desculpa”, ele
prosseguiu, “mas você não
parece exatamente
um presente de Deus às
mulheres, como você
consegue?”
“não sei”,
eu disse.
e era
verdade: simplesmente
acontecia e eu
ia em frente
no meu quarto
azul
com a
melhor toalha de mesa
de renda
da minha mãe morta
fixada
por cima da
janela.
eu era um
puta
idiota.
1 192
Charles Bukowski
Trabalhando
ah, aquele tempo em que eu
as botava
pra dentro e pra fora do meu
apartamento miserável.
meu deus, eu era uma coisa
peluda e
feiosa.
e eu encurralava
todas elas nas
molas
mandando
ver
eu era o insano
macaco bêbado
numa vizinhança
triste e
moribunda.
mas o mais estranho
de tudo
eram as
novas e contínuas
chegadas:
era um
desfile
feminino
e
eu exultava
me pavoneava e
atacava.
mal fazendo
ideia
do
significado
daquilo.
era um
inesquecível
quarto
pintado de um estranho
azul.
e
a maioria das
damas
ia embora pouco antes do
meio-dia
mais ou menos na hora
em que o carteiro
chegava.
ele conversou comigo
um dia, “meu deus,
cara, onde você
arranja todas elas?”
“não sei”, eu
respondi.
“me desculpa”, ele
prosseguiu, “mas você não
parece exatamente
um presente de Deus às
mulheres, como você
consegue?”
“não sei”,
eu disse.
e era
verdade: simplesmente
acontecia e eu
ia em frente
no meu quarto
azul
com a
melhor toalha de mesa
de renda
da minha mãe morta
fixada
por cima da
janela.
eu era um
puta
idiota.
as botava
pra dentro e pra fora do meu
apartamento miserável.
meu deus, eu era uma coisa
peluda e
feiosa.
e eu encurralava
todas elas nas
molas
mandando
ver
eu era o insano
macaco bêbado
numa vizinhança
triste e
moribunda.
mas o mais estranho
de tudo
eram as
novas e contínuas
chegadas:
era um
desfile
feminino
e
eu exultava
me pavoneava e
atacava.
mal fazendo
ideia
do
significado
daquilo.
era um
inesquecível
quarto
pintado de um estranho
azul.
e
a maioria das
damas
ia embora pouco antes do
meio-dia
mais ou menos na hora
em que o carteiro
chegava.
ele conversou comigo
um dia, “meu deus,
cara, onde você
arranja todas elas?”
“não sei”, eu
respondi.
“me desculpa”, ele
prosseguiu, “mas você não
parece exatamente
um presente de Deus às
mulheres, como você
consegue?”
“não sei”,
eu disse.
e era
verdade: simplesmente
acontecia e eu
ia em frente
no meu quarto
azul
com a
melhor toalha de mesa
de renda
da minha mãe morta
fixada
por cima da
janela.
eu era um
puta
idiota.
1 192
Charles Bukowski
A Ilha Que Vai Encolhendo
estou trabalhando nele com
o amanhecer se curvando na minha direção...
quase acertei a mão às 3:34 mas ele
me escapou dos dedos
com a feitiçaria de um
peixinho prateado...
agora
com a meia-luz se movendo na minha direção
como a morte filha da mãe
eu desisto da batalha
me levanto
ando em direção ao banheiro
bato de cara
numa parede
solto uma deplorável risada
miante...
ligo a luz e
começo a mijar, sim, no
lugar certo
e
depois de puxar a descarga
penso: mais uma noite
que se foi.
bem, nós lhe demos um pouco de
gritaria
de todo modo.
lavamos nossas
garras...
desligamos a
luz
andamos na direção do
quarto onde a
esposa
desperta o bastante
para dizer: “não pisa
no gato!”
o que nos traz de volta
às
reais
questões
enquanto encontramos a cama
nos enfiamos nas cobertas
rosto para o teto: um
homem
aterrado
bêbado
gordo
e velho.
o amanhecer se curvando na minha direção...
quase acertei a mão às 3:34 mas ele
me escapou dos dedos
com a feitiçaria de um
peixinho prateado...
agora
com a meia-luz se movendo na minha direção
como a morte filha da mãe
eu desisto da batalha
me levanto
ando em direção ao banheiro
bato de cara
numa parede
solto uma deplorável risada
miante...
ligo a luz e
começo a mijar, sim, no
lugar certo
e
depois de puxar a descarga
penso: mais uma noite
que se foi.
bem, nós lhe demos um pouco de
gritaria
de todo modo.
lavamos nossas
garras...
desligamos a
luz
andamos na direção do
quarto onde a
esposa
desperta o bastante
para dizer: “não pisa
no gato!”
o que nos traz de volta
às
reais
questões
enquanto encontramos a cama
nos enfiamos nas cobertas
rosto para o teto: um
homem
aterrado
bêbado
gordo
e velho.
1 296
Charles Bukowski
A Belíssima Editora
ela era uma mulher belíssima, eu costumava ver fotografias
dela nas revistas literárias daquele
tempo.
eu era jovem mas estava sempre sozinho – eu sentia que precisava de
tempo para realizar algo e a única coisa que me permitia comprar tempo
era a
pobreza.
eu trabalhava não tanto com técnica mas mais com registrar
aquilo que me empurrava rumo à beira da loucura – e eu tinha
lampejos de sorte, mas estava longe de ser uma existência
prazerosa.
acho que dei mostras de uma bela resistência mas aí lentamente
a saúde e a coragem começaram a ir pelo ralo.
e chegou a noite em que tudo desmoronou – e
o medo, a dúvida e a humilhação apareceram...
e eu escrevi algumas cartas usando meus últimos selos
contando para poucas e seletas pessoas que eu havia cometido um
erro, que eu estava passando fome e vivendo aprisionado numa pequena
e congelante cabana das trevas numa cidade estranha num
estado
estranho.
eu enviei as cartas e aí esperei por intermináveis dias e noites de
loucura, torcendo, ansiando afinal por uma resposta
decente.
somente duas cartas vieram – no mesmo dia –
e eu abri as páginas e sacudi as páginas à procura de
dinheiro mas não havia
nada.
uma carta era do meu pai, seis páginas me dizendo que
eu merecia o que estava acontecendo, que eu devia ter me tornado
um engenheiro como ele me aconselhou, e que ninguém jamais leria
o tipo de coisa que eu escrevia, e isso e aquilo, nesse
tom.
a outra carta era da belíssima editora, impecavelmente datilografada em
caro papel de carta, e ela dizia que não estava mais
publicando sua revista literária, ela tinha encontrado Deus e estava
morando em um castelo numa colina na Itália e ajudando os pobres, e
ela assinava seu famoso nome com um “Deus o abençoe” e era
isso.
ah, você não faz ideia, naquela cabana escura e gélida, de como eu queria
ser pobre na Itália e não em Atlanta, ser um camponês pobre,
sim, ou até mesmo um cachorro na colcha dela, ou até mesmo uma pulga naquele
cachorro naquela
colcha: como eu queria o mais ínfimo
calor.
a dama havia me publicado junto com Henry Miller, Sartre, Céline,
outros.
eu jamais deveria ter pedido dinheiro num mundo em que milhões de
camponeses rastejavam pelas ruas
famintas
e mesmo alguns anos depois quando a editora
morreu
eu ainda a considerava
belíssima.
dela nas revistas literárias daquele
tempo.
eu era jovem mas estava sempre sozinho – eu sentia que precisava de
tempo para realizar algo e a única coisa que me permitia comprar tempo
era a
pobreza.
eu trabalhava não tanto com técnica mas mais com registrar
aquilo que me empurrava rumo à beira da loucura – e eu tinha
lampejos de sorte, mas estava longe de ser uma existência
prazerosa.
acho que dei mostras de uma bela resistência mas aí lentamente
a saúde e a coragem começaram a ir pelo ralo.
e chegou a noite em que tudo desmoronou – e
o medo, a dúvida e a humilhação apareceram...
e eu escrevi algumas cartas usando meus últimos selos
contando para poucas e seletas pessoas que eu havia cometido um
erro, que eu estava passando fome e vivendo aprisionado numa pequena
e congelante cabana das trevas numa cidade estranha num
estado
estranho.
eu enviei as cartas e aí esperei por intermináveis dias e noites de
loucura, torcendo, ansiando afinal por uma resposta
decente.
somente duas cartas vieram – no mesmo dia –
e eu abri as páginas e sacudi as páginas à procura de
dinheiro mas não havia
nada.
uma carta era do meu pai, seis páginas me dizendo que
eu merecia o que estava acontecendo, que eu devia ter me tornado
um engenheiro como ele me aconselhou, e que ninguém jamais leria
o tipo de coisa que eu escrevia, e isso e aquilo, nesse
tom.
a outra carta era da belíssima editora, impecavelmente datilografada em
caro papel de carta, e ela dizia que não estava mais
publicando sua revista literária, ela tinha encontrado Deus e estava
morando em um castelo numa colina na Itália e ajudando os pobres, e
ela assinava seu famoso nome com um “Deus o abençoe” e era
isso.
ah, você não faz ideia, naquela cabana escura e gélida, de como eu queria
ser pobre na Itália e não em Atlanta, ser um camponês pobre,
sim, ou até mesmo um cachorro na colcha dela, ou até mesmo uma pulga naquele
cachorro naquela
colcha: como eu queria o mais ínfimo
calor.
a dama havia me publicado junto com Henry Miller, Sartre, Céline,
outros.
eu jamais deveria ter pedido dinheiro num mundo em que milhões de
camponeses rastejavam pelas ruas
famintas
e mesmo alguns anos depois quando a editora
morreu
eu ainda a considerava
belíssima.
1 178
Charles Bukowski
Além do Ponto
de algum modo ele havia me localizado de novo – ele estava no telefone – falando
sobre os velhos tempos –
que fim será que levou Michael ou Ken ou
Julie Anne? –
e você lembra...?
– também
havia seus problemas atuais –
– ele era um falante – sempre tinha sido um
falante –
e eu tinha sido um
ouvinte
eu tinha escutado porque não queria
magoá-lo
pedindo que ele calasse a boca
como os outros
faziam
nos velhos
tempos
agora
ele estava de volta
e
eu segurei o fone longe da orelha
braço esticado
e ainda conseguia escutar o
som –
eu dei o fone à minha namorada e
ela ouviu por um
tempo –
afinal
peguei o fone e disse a ele –
ei, cara, a gente precisa encerrar, a carne tá queimando
no forno!
ele disse, ok, cara, eu te ligo
de volta –
(uma coisa eu lembrava do meu
velho amigo: ele cumpria o que
prometia)
coloquei o fone de volta no
gancho –
– nós não temos nenhuma carne no
forno, disse a minha
namorada –
– sim, nós temos, eu disse a ela,
sou eu.
sobre os velhos tempos –
que fim será que levou Michael ou Ken ou
Julie Anne? –
e você lembra...?
– também
havia seus problemas atuais –
– ele era um falante – sempre tinha sido um
falante –
e eu tinha sido um
ouvinte
eu tinha escutado porque não queria
magoá-lo
pedindo que ele calasse a boca
como os outros
faziam
nos velhos
tempos
agora
ele estava de volta
e
eu segurei o fone longe da orelha
braço esticado
e ainda conseguia escutar o
som –
eu dei o fone à minha namorada e
ela ouviu por um
tempo –
afinal
peguei o fone e disse a ele –
ei, cara, a gente precisa encerrar, a carne tá queimando
no forno!
ele disse, ok, cara, eu te ligo
de volta –
(uma coisa eu lembrava do meu
velho amigo: ele cumpria o que
prometia)
coloquei o fone de volta no
gancho –
– nós não temos nenhuma carne no
forno, disse a minha
namorada –
– sim, nós temos, eu disse a ela,
sou eu.
970
Charles Bukowski
Todo Mundo Fala Demais
quando
o guarda me fez
parar
eu
entreguei a ele minha
habilitação.
ele
voltou
para transmitir
a marca
e o modelo
do meu carro
e
ver se estava tudo limpo com
as minhas placas.
ele preencheu
a multa
se
aproximou
me entregou
o bilhete
para
assinar.
eu assinei
ele me
devolveu
a
habilitação.
“como pode
que o senhor
não
diz
nada?”,
ele perguntou.
eu dei
de
ombros.
“bem, senhor”,
ele
disse, “tenha
um
bom dia
e
dirija
com cuidado.”
eu
notei
um pouco de suor
em sua
testa
e a
mão
que segurava
o
bilhete
parecia
estar
tremendo
ou
será que
eu
estava apenas
imaginando?
de todo modo
eu
olhei o guarda
se afastar
na direção
de sua
moto
então
pisei
no acelerador...
quando confrontado
com
policiais
zelosos
ou
mulheres
rancorosas
eu
nada tenho
para
dizer
a eles
pois
se eu
realmente
abrisse a boca
a história
terminaria
com
a morte
de alguém:
a deles ou
a minha
portanto
eu
permito que
desfrutem
de suas
pequenas
vitórias
das quais
eles precisam
bem
mais
do
que
eu.
o guarda me fez
parar
eu
entreguei a ele minha
habilitação.
ele
voltou
para transmitir
a marca
e o modelo
do meu carro
e
ver se estava tudo limpo com
as minhas placas.
ele preencheu
a multa
se
aproximou
me entregou
o bilhete
para
assinar.
eu assinei
ele me
devolveu
a
habilitação.
“como pode
que o senhor
não
diz
nada?”,
ele perguntou.
eu dei
de
ombros.
“bem, senhor”,
ele
disse, “tenha
um
bom dia
e
dirija
com cuidado.”
eu
notei
um pouco de suor
em sua
testa
e a
mão
que segurava
o
bilhete
parecia
estar
tremendo
ou
será que
eu
estava apenas
imaginando?
de todo modo
eu
olhei o guarda
se afastar
na direção
de sua
moto
então
pisei
no acelerador...
quando confrontado
com
policiais
zelosos
ou
mulheres
rancorosas
eu
nada tenho
para
dizer
a eles
pois
se eu
realmente
abrisse a boca
a história
terminaria
com
a morte
de alguém:
a deles ou
a minha
portanto
eu
permito que
desfrutem
de suas
pequenas
vitórias
das quais
eles precisam
bem
mais
do
que
eu.
1 084
Charles Bukowski
Um Poema Ordinário
já que vocês sempre quiseram
saber vou admitir que nunca gostei de Shakespeare, Browning, das
irmãs Brontë,
de Tolstói, beisebol, verões no litoral, queda
de braço, hóquei, Thomas Mann, Vivaldi, Winston Churchill, Dudley
Moore, verso livre,
pizza, boliche, os Jogos Olímpicos, os Três Patetas, os Irmãos
Marx, Ives, Al Jolson, Bob Hope, Frank Sinatra, Mickey
Mouse, basquete,
pais, mães, primos, esposas, morar junto (embora preferível à
opção anterior),
e não gosto da Suíte do Quebra-Nozes, da entrega do Oscar, de Hawthorne,
Melville, torta de abóbora, véspera de Ano-Novo, Natal, Dia do Trabalho,
Quatro de Julho, Ação de Graças, Sexta-feira Santa, The Who,
Bacon, Dr. Spock, Blackstone e Berlioz, Franz
Liszt, meia-calça,
piolhos, pulgas, peixe-dourado, caranguejos, aranhas, guerra
heróis, voos espaciais, camelos (não confio em camelos) ou da
Bíblia,
Updike, Erica Jong, Corso, bartenders, moscas-das-frutas, Jane
Fonda,
igrejas, casamentos, nascimentos, noticiários, cães
de guarda, rifles .22, Henry
Fonda
e todas as mulheres que deveriam ter me amado mas
não amaram e
o primeiro dia da primavera e o
último
e o primeiro verso deste poema
e este aqui
que você está lendo
agora.
saber vou admitir que nunca gostei de Shakespeare, Browning, das
irmãs Brontë,
de Tolstói, beisebol, verões no litoral, queda
de braço, hóquei, Thomas Mann, Vivaldi, Winston Churchill, Dudley
Moore, verso livre,
pizza, boliche, os Jogos Olímpicos, os Três Patetas, os Irmãos
Marx, Ives, Al Jolson, Bob Hope, Frank Sinatra, Mickey
Mouse, basquete,
pais, mães, primos, esposas, morar junto (embora preferível à
opção anterior),
e não gosto da Suíte do Quebra-Nozes, da entrega do Oscar, de Hawthorne,
Melville, torta de abóbora, véspera de Ano-Novo, Natal, Dia do Trabalho,
Quatro de Julho, Ação de Graças, Sexta-feira Santa, The Who,
Bacon, Dr. Spock, Blackstone e Berlioz, Franz
Liszt, meia-calça,
piolhos, pulgas, peixe-dourado, caranguejos, aranhas, guerra
heróis, voos espaciais, camelos (não confio em camelos) ou da
Bíblia,
Updike, Erica Jong, Corso, bartenders, moscas-das-frutas, Jane
Fonda,
igrejas, casamentos, nascimentos, noticiários, cães
de guarda, rifles .22, Henry
Fonda
e todas as mulheres que deveriam ter me amado mas
não amaram e
o primeiro dia da primavera e o
último
e o primeiro verso deste poema
e este aqui
que você está lendo
agora.
1 140
Charles Bukowski
É Nosso
há sempre aquele espaço ali
pouco antes de nos pegarem
aquele espaço
aquele belo relaxante
o respiro
quando estamos, digamos,
desabados numa cama
pensando em nada
ou digamos
enchendo um copo com água da
torneira
quando estamos enlevados pelo
nada
aquele
espaço
puro e suave
vale
séculos de
existência
digamos
só pra você coçar o pescoço
ao contemplar pela janela um
galho nu
aquele espaço
ali
antes de nos pegarem
garante
que
quando pegarem
não vão
pegar tudo
jamais.
pouco antes de nos pegarem
aquele espaço
aquele belo relaxante
o respiro
quando estamos, digamos,
desabados numa cama
pensando em nada
ou digamos
enchendo um copo com água da
torneira
quando estamos enlevados pelo
nada
aquele
espaço
puro e suave
vale
séculos de
existência
digamos
só pra você coçar o pescoço
ao contemplar pela janela um
galho nu
aquele espaço
ali
antes de nos pegarem
garante
que
quando pegarem
não vão
pegar tudo
jamais.
1 211
Charles Bukowski
Quieto
sentado esta noite
a esta
mesa
junto à
janela
a mulher está
acabrunhada
no
quarto
ela está em seus
dias especialmente
ruins.
bem, eu tenho
os meus
então
em deferência
a ela
a máquina de escrever
está
parada.
é esquisito
imprimir este troço
à
mão
me faz lembrar os
tempos
passados
quando as coisas
não
iam bem
de outra
maneira.
agora
o gato vem
me
ver
ele desaba
sob a mesa
entre os meus
pés
estamos ambos
derretendo
no mesmo
fogo.
e, querido
gato, ainda estamos
trabalhando com o
poema
e alguns
notaram
que há certa
“derrapagem”
aqui.
bem, aos 65
anos de idade eu posso
“derrapar”
à vontade e mesmo assim
deixar esses
críticos piegas
comendo
poeira.
Li Po sabia
o que fazer:
beber mais uma
garrafa e
enfrentar
as consequências.
eu me viro à minha
direita, vejo uma cabeça
enorme (refletida na
janela) sugando
um cigarro
e
nós arreganhamos os dentes
um para o
outro.
aí
me viro
de volta
fico aqui sentado
e
imprimo mais palavras sobre este
papel
não há nunca
uma derradeira
declaração
grandiosa
e esse é o
dilema
o embuste
que trabalha
contra
nós
mas
eu queria que você pudesse ver
o meu
gato
ele tem uma
pincelada
de branco em seu
rosto
contra um
fundo
amarelo-laranja
e aí
eu levanto a cabeça
e olho cozinha
adentro
vejo uma porção
brilhante
sob a luz
no alto
que se dissolve aos poucos em
escuridão
e depois numa escuridão
mais escura e
mais além não consigo
ver
nada.
a esta
mesa
junto à
janela
a mulher está
acabrunhada
no
quarto
ela está em seus
dias especialmente
ruins.
bem, eu tenho
os meus
então
em deferência
a ela
a máquina de escrever
está
parada.
é esquisito
imprimir este troço
à
mão
me faz lembrar os
tempos
passados
quando as coisas
não
iam bem
de outra
maneira.
agora
o gato vem
me
ver
ele desaba
sob a mesa
entre os meus
pés
estamos ambos
derretendo
no mesmo
fogo.
e, querido
gato, ainda estamos
trabalhando com o
poema
e alguns
notaram
que há certa
“derrapagem”
aqui.
bem, aos 65
anos de idade eu posso
“derrapar”
à vontade e mesmo assim
deixar esses
críticos piegas
comendo
poeira.
Li Po sabia
o que fazer:
beber mais uma
garrafa e
enfrentar
as consequências.
eu me viro à minha
direita, vejo uma cabeça
enorme (refletida na
janela) sugando
um cigarro
e
nós arreganhamos os dentes
um para o
outro.
aí
me viro
de volta
fico aqui sentado
e
imprimo mais palavras sobre este
papel
não há nunca
uma derradeira
declaração
grandiosa
e esse é o
dilema
o embuste
que trabalha
contra
nós
mas
eu queria que você pudesse ver
o meu
gato
ele tem uma
pincelada
de branco em seu
rosto
contra um
fundo
amarelo-laranja
e aí
eu levanto a cabeça
e olho cozinha
adentro
vejo uma porção
brilhante
sob a luz
no alto
que se dissolve aos poucos em
escuridão
e depois numa escuridão
mais escura e
mais além não consigo
ver
nada.
1 139
Charles Bukowski
Jon Edgar Webb
eu tive uma fase de poema lírico lá em New Orleans, martelando
uns versos gordos e roliços e
bebendo baldes de cerveja.
a sensação era de gritar num manicômio, o manicômio do
meu mundo
com os ratos dispersos em meio às
garrafas vazias.
às vezes eu entrava nos bares
mas não conseguia dar jeito com as pessoas que se sentavam nos
banquinhos:
os homens me evitavam e as mulheres ficavam aterrorizadas
comigo.
os bartenders pediam que eu
fosse embora.
eu ia, carregando com dificuldade os magníficos fardos de cerveja
no retorno ao quarto e aos ratos e àqueles gordos e roliços
versos.
aquela fase de poema lírico foi uma época de
doideira pura
e havia um editor logo ali na
esquina que
mandava toda e qualquer página para o prelo, nada
rejeitando
muito embora eu fosse desconhecido
ele me publicou em voraz papel
fabricado para durar
2.000 anos.
esse editor que era também o dono e
o impressor
mantinha o rosto sisudo enquanto eu lhe dava as dez ou
vinte páginas
toda manhã:
“isso é tudo?”
o louco daquele filho da puta, ele mesmo era um
poema
lírico.
uns versos gordos e roliços e
bebendo baldes de cerveja.
a sensação era de gritar num manicômio, o manicômio do
meu mundo
com os ratos dispersos em meio às
garrafas vazias.
às vezes eu entrava nos bares
mas não conseguia dar jeito com as pessoas que se sentavam nos
banquinhos:
os homens me evitavam e as mulheres ficavam aterrorizadas
comigo.
os bartenders pediam que eu
fosse embora.
eu ia, carregando com dificuldade os magníficos fardos de cerveja
no retorno ao quarto e aos ratos e àqueles gordos e roliços
versos.
aquela fase de poema lírico foi uma época de
doideira pura
e havia um editor logo ali na
esquina que
mandava toda e qualquer página para o prelo, nada
rejeitando
muito embora eu fosse desconhecido
ele me publicou em voraz papel
fabricado para durar
2.000 anos.
esse editor que era também o dono e
o impressor
mantinha o rosto sisudo enquanto eu lhe dava as dez ou
vinte páginas
toda manhã:
“isso é tudo?”
o louco daquele filho da puta, ele mesmo era um
poema
lírico.
1 171
Charles Bukowski
Hein?
na
Alemanha França Itália
eu posso caminhar pelas ruas e ser
seguido por
rapazes rindo
mocinhas
dando risadinhas e
velhas
damas empinando seus
narizes...
ao passo que
na América
sou só mais um
velho
cansado
fazendo seja lá o que
os velhos cansados
fazem.
ah, isso tem suas
compensações:
posso levar minhas calças
à lavanderia ou
entrar numa
fila de supermercado
sem nenhum tumulto em
absoluto:
os deuses me concederam
um doce
anonimato.
mas
por vezes
considero a sério minha
fama ultramarina
e
a única coisa
que me vem à cabeça é
que
devo ter uns
tradutores
bons pra caralho.
decerto
devo a eles
os pelos do meu
saco
ou
possivelmente
meu próprio
saco.
Alemanha França Itália
eu posso caminhar pelas ruas e ser
seguido por
rapazes rindo
mocinhas
dando risadinhas e
velhas
damas empinando seus
narizes...
ao passo que
na América
sou só mais um
velho
cansado
fazendo seja lá o que
os velhos cansados
fazem.
ah, isso tem suas
compensações:
posso levar minhas calças
à lavanderia ou
entrar numa
fila de supermercado
sem nenhum tumulto em
absoluto:
os deuses me concederam
um doce
anonimato.
mas
por vezes
considero a sério minha
fama ultramarina
e
a única coisa
que me vem à cabeça é
que
devo ter uns
tradutores
bons pra caralho.
decerto
devo a eles
os pelos do meu
saco
ou
possivelmente
meu próprio
saco.
1 250
Charles Bukowski
Lixo
eu tinha tomado uma surra tremenda,
eu tinha escolhido um verdadeiro touro, e por causa das
garotas e dele mesmo e só por sua
brutal energia esquiva
ele quase tinha me assassinado:
eu soube depois
que mesmo quando eu já estava apagado
ele havia chutado minha cabeça repetidas
vezes
e então havia esvaziado várias latas de lixo
em cima de mim
e então haviam me deixado ali
naquele beco.
eu era o cara de fora da cidade.
foi por volta das 6 da manhã num
domingo que eu voltei
a mim.
meu rosto era um amontoado de
feridas, crostas, coágulos, galos, calombos, meus lábios
engrossados e dormentes, meus olhos quase fechados de tão
inchados
mas eu me botei de pé e comecei
a caminhar;
eu via indícios do sol, casas, a calçada
trêmula enquanto eu
avançava na direção do meu quarto
então escutei sons arrastados vindos do
centro da rua
e forcei meus olhos para
focalizar e vi um
homem cambaleando
suas roupas rasgadas e ensanguentadas
ele cheirava a morte e escuridão
mas continuava andando em frente
pelo meio da rua
como se já tivesse caminhado
quilômetros
desde algum acontecimento tão horrível que
a própria mente poderia se recusar a aceitá-lo
como parte da vida.
meu impulso era ajudá-lo
e saltei do
meio-fio
e avancei ao encontro dele.
ele não conseguia me ver, ele avançava
procurando algum lugar para ir,
qualquer lugar, e
eu vi um dos olhos dele pendurado
fora da órbita,
balançando.
eu recuei.
ele era como uma criatura não pertencente à
terra.
deixei o homem
passar.
dava para ouvir os pés se afastando
atrás de mim
aqueles passos cegos
oscilando, em
agonia,
insensivelmente
solitários.
voltei à
calçada.
voltei ao meu
quarto.
subi na
cama.
caí com o rosto para cima
o teto no alto em cima de mim,
eu esperei.
eu tinha escolhido um verdadeiro touro, e por causa das
garotas e dele mesmo e só por sua
brutal energia esquiva
ele quase tinha me assassinado:
eu soube depois
que mesmo quando eu já estava apagado
ele havia chutado minha cabeça repetidas
vezes
e então havia esvaziado várias latas de lixo
em cima de mim
e então haviam me deixado ali
naquele beco.
eu era o cara de fora da cidade.
foi por volta das 6 da manhã num
domingo que eu voltei
a mim.
meu rosto era um amontoado de
feridas, crostas, coágulos, galos, calombos, meus lábios
engrossados e dormentes, meus olhos quase fechados de tão
inchados
mas eu me botei de pé e comecei
a caminhar;
eu via indícios do sol, casas, a calçada
trêmula enquanto eu
avançava na direção do meu quarto
então escutei sons arrastados vindos do
centro da rua
e forcei meus olhos para
focalizar e vi um
homem cambaleando
suas roupas rasgadas e ensanguentadas
ele cheirava a morte e escuridão
mas continuava andando em frente
pelo meio da rua
como se já tivesse caminhado
quilômetros
desde algum acontecimento tão horrível que
a própria mente poderia se recusar a aceitá-lo
como parte da vida.
meu impulso era ajudá-lo
e saltei do
meio-fio
e avancei ao encontro dele.
ele não conseguia me ver, ele avançava
procurando algum lugar para ir,
qualquer lugar, e
eu vi um dos olhos dele pendurado
fora da órbita,
balançando.
eu recuei.
ele era como uma criatura não pertencente à
terra.
deixei o homem
passar.
dava para ouvir os pés se afastando
atrás de mim
aqueles passos cegos
oscilando, em
agonia,
insensivelmente
solitários.
voltei à
calçada.
voltei ao meu
quarto.
subi na
cama.
caí com o rosto para cima
o teto no alto em cima de mim,
eu esperei.
1 289
Charles Bukowski
Começando Rápido
cada um de nós
às vezes
deveria
lembrar
o mais
alto
e
afortunado
momento
de
nossas
vidas.
para
mim
foi
ser
um
cara
muito jovem
e
dormir
sem nenhum centavo
e
sem nenhum amigo
sobre um
banco
de parque
numa
cidade
estranha
o que
não diz
grande coisa
de todas
as
várias
décadas
que se
seguiram.
às vezes
deveria
lembrar
o mais
alto
e
afortunado
momento
de
nossas
vidas.
para
mim
foi
ser
um
cara
muito jovem
e
dormir
sem nenhum centavo
e
sem nenhum amigo
sobre um
banco
de parque
numa
cidade
estranha
o que
não diz
grande coisa
de todas
as
várias
décadas
que se
seguiram.
1 197
Charles Bukowski
Começando Rápido
cada um de nós
às vezes
deveria
lembrar
o mais
alto
e
afortunado
momento
de
nossas
vidas.
para
mim
foi
ser
um
cara
muito jovem
e
dormir
sem nenhum centavo
e
sem nenhum amigo
sobre um
banco
de parque
numa
cidade
estranha
o que
não diz
grande coisa
de todas
as
várias
décadas
que se
seguiram.
às vezes
deveria
lembrar
o mais
alto
e
afortunado
momento
de
nossas
vidas.
para
mim
foi
ser
um
cara
muito jovem
e
dormir
sem nenhum centavo
e
sem nenhum amigo
sobre um
banco
de parque
numa
cidade
estranha
o que
não diz
grande coisa
de todas
as
várias
décadas
que se
seguiram.
1 197
Charles Bukowski
É Engraçado, Não É? #2
quando éramos meninos
atirados pelo gramado
de barriga
no chão
falávamos com frequência
sobre
como
gostaríamos de
morrer
e
todos
concordávamos no
mesmo
ponto:
todos
gostaríamos de morrer
fodendo
(embora
nenhum de nós
já tivesse
fodido com
alguém)
e agora
que
não somos mais
nem um pouco
meninos
pensamos mais
sobre
como
não
morrer
e
embora
estejamos
prontos
quase todos
nós
preferiríamos
morrer
sozinhos
sob os
lençóis
agora
que
quase todos
nós
já fodemos
com as nossas
vidas.
atirados pelo gramado
de barriga
no chão
falávamos com frequência
sobre
como
gostaríamos de
morrer
e
todos
concordávamos no
mesmo
ponto:
todos
gostaríamos de morrer
fodendo
(embora
nenhum de nós
já tivesse
fodido com
alguém)
e agora
que
não somos mais
nem um pouco
meninos
pensamos mais
sobre
como
não
morrer
e
embora
estejamos
prontos
quase todos
nós
preferiríamos
morrer
sozinhos
sob os
lençóis
agora
que
quase todos
nós
já fodemos
com as nossas
vidas.
1 367
Charles Bukowski
É Engraçado, Não É? #2
quando éramos meninos
atirados pelo gramado
de barriga
no chão
falávamos com frequência
sobre
como
gostaríamos de
morrer
e
todos
concordávamos no
mesmo
ponto:
todos
gostaríamos de morrer
fodendo
(embora
nenhum de nós
já tivesse
fodido com
alguém)
e agora
que
não somos mais
nem um pouco
meninos
pensamos mais
sobre
como
não
morrer
e
embora
estejamos
prontos
quase todos
nós
preferiríamos
morrer
sozinhos
sob os
lençóis
agora
que
quase todos
nós
já fodemos
com as nossas
vidas.
atirados pelo gramado
de barriga
no chão
falávamos com frequência
sobre
como
gostaríamos de
morrer
e
todos
concordávamos no
mesmo
ponto:
todos
gostaríamos de morrer
fodendo
(embora
nenhum de nós
já tivesse
fodido com
alguém)
e agora
que
não somos mais
nem um pouco
meninos
pensamos mais
sobre
como
não
morrer
e
embora
estejamos
prontos
quase todos
nós
preferiríamos
morrer
sozinhos
sob os
lençóis
agora
que
quase todos
nós
já fodemos
com as nossas
vidas.
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