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Poemas neste tema

Vida e Existência

Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Química Das Coisas

sempre achei que Mary Lou era magrinha e
estava longe de ser um colírio para os olhos
ao passo que quase todos os outros caras
achavam Mary Lou uma
gostosa.
talvez tenha sido por isso que ela ficou comigo
na escola intermediária.
minha indiferença foi decerto
um atrativo.

eu era frio e mau naquele tempo
e quando os caras me perguntavam
“você já comeu a Mary Lou?”
eu respondia com a
verdade: “ela
me dá tédio”.

tinha um cara
que dava aula de química.
Sr. Humm. Humm usava uma pequena
gravata-borboleta e um terno preto, um
troço barato e amassado, ele
era supostamente um
crânio

e um dia Mary Lou veio falar
comigo
e disse que Humm a tinha mantido na sala
depois da aula
e a tinha levado para o
cubículo e
a tinha beijado e
apalpado sua
calcinha.

ela chorava: “o que é que eu vou
fazer?”

“esquece”, eu disse,
“as substâncias químicas ferraram
o cérebro dele. nós temos uma professora de inglês
que fica levantando a saia em volta das
coxas todos os dias e quer ir pra cama com
todos os caras da turma. nós gostamos dela mas
não estamos nem aí.”

“por que você não dá uma surra no Sr. Humm?”,
ela me perguntou.

“eu poderia, mas acabariam me transferindo pro
Stuart Hall.”

no Stuart Hall eles cagavam os alunos
de tanto pau
e ignoravam matemática, inglês,
música, eles só prendiam os alunos numa
oficina
onde você ficava consertando carros velhos
que eles revendiam com grandes
lucros.

“eu achava que você gostava de mim”, disse Mary
Lou, “você não entende que ele
me beijou, enfiou a língua na minha
garganta e passou a mão no meu
traseiro?”

“bem”, eu disse, “nós vimos a boceta
da sra. Lattimore outro dia, na aula de inglês.”

Mary Lou foi embora
chorando...

bem, ela contou à
mãe dela e Humm se lascou, ele
teve que
pedir demissão, o pobre filho da
puta.

depois os caras me perguntaram
“ei, o que você acha do Humm
metendo a mão na bunda da sua
garota?”

“só mais um cara sem bom
gosto”, eu respondi.

eu era frio e mau
naquele tempo e passei à
escola secundária, a mesma
que Mary Lou frequentava
onde ela se casou
secretamente
durante seu último ano
com um cara
que eu conhecia, um cara que eu
deixei pra trás na bebida e caguei de tanto pau
algumas
vezes.

o cara achava que tinha
algo especial.
ele quis que eu fosse
padrinho de casamento.

eu disse não, obrigado, e muita
sorte.

nunca consegui entender
o que viam na
Mary Lou.
e o pobre Humm: que
velhote solitário e
doente.

de todo modo, depois entrei na
faculdade
onde o único abuso que
cheguei a ver acontecendo
era o que eles cometiam com a nossa
mente.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Dando Um Jeito

nesta manhã fumegante Hades bate palma com suas mãos de Herpes e
uma mulher canta pelo meu rádio, sua voz vem escalando
pela fumaça e pelas emanações do vinho...

é um momento solitário, ela canta, e você não é
meu e isso me deixa tão mal,
essa coisa de ser eu...

consigo escutar carros na autoestrada, é como um mar distante
com sedimentos de pessoas
e por sobre o meu outro ombro, lá longe na 7th street
perto da Western
está o hospital, aquela casa do suplício –
lençóis e urinóis e braços e cabeças e
expirações;
tudo é tão docemente medonho, tão contínua e
docemente medonho: a arte da consumação: a vida comendo
a vida...
certa vez num sonho eu vi uma cobra engolindo sua própria
cauda, ela engoliu e engoliu até completar
meia-volta, e ali parou e
ali ficou, ela estava estufada de si
mesma. que situação.
só temos nós mesmos para ir em frente, e é o
bastante...

desço a escada pra pegar outra garrafa, ligo a
tevê a cabo e eis Greg Peck fingindo ser
F. Scott e ele está muito empolgado e está lendo seu
manuscrito para sua dama.
desligo o
aparelho.
que tipo de escritor é esse? lendo suas páginas para
uma dama? isso é uma violação...

volto ao andar de cima e meus dois gatos me seguem, eles são
bons camaradas, não temos desentendimentos, não
temos discussões, ouvimos a mesma música, nunca votamos para
presidente.
um dos meus gatos, o grande, salta no encosto
da minha cadeira, se esfrega em meus ombros e meu
pescoço.

“não adianta”, digo a ele, “não vou
ler pra você esse
poema.”

ele salta para o chão e sai pela
sacada e seu amigo
segue atrás.

eles sentam e olham a noite; nós temos o
poder da sanidade aqui.

nestas primeiras horas da manhã, quando quase todo mundo
está dormindo, pequenos insetos noturnos, coisas aladas
entram e circulam e giram.
a máquina zumbe seu zumbido elétrico, e tendo
aberto e provado a nova garrafa eu bato o próximo
verso. você
pode lê-lo para sua dama e ela provavelmente lhe dirá
que é bobagem. ela estará
lendo Suave é a
noite.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Mágico Desaparecido...

eles vão um por um e conforme vão indo isso chega mais perto
de mim e
não me importo muito, é
só que não consigo ser prático quanto à
matemática que leva outros
ao ponto de fuga.

sábado passado
um dos maiores ases da corrida de arreios
morreu – o pequeno Joe O’Brien.
eu o vira ganhar inúmeras
corridas. ele
tinha um peculiar movimento balanceado
ele estalava as rédeas
e balançava o corpo pra trás e
pra frente. ele
aplicava esse movimento
durante a reta final e
era algo bastante dramático e
efetivo...

ele era tão pequeno que não conseguia
golpear o chicote com a mesma força dos
outros
então
ele balançava e balançava
na charrete
e o cavalo sentia o relâmpago
de sua excitação
aquele balanço ritmado e louco era
transferido do homem para o
animal...
o negócio todo dava a sensação de um
jogador de dados invocando os
deuses, e os deuses
respondiam com tamanha frequência...

eu vi Joe O’Brien vencer
incontáveis fotos de linha de chegada
várias por um
nariz.
ele pegava um cavalo
que outro condutor não conseguia
fazer correr
e Joe lhe dava seu
toque
e o animal quase
sempre respondia com
uma enxurrada de energia selvagem.

Joe O’Brien era o melhor corredor de arreios
que eu jamais tinha visto
e eu tinha visto vários ao longo das
décadas.
ninguém conseguia mimar e adular
um trotador ou marchador
como o pequeno Joe
ninguém conseguia fazer a magia funcionar
como Joe.

eles vão um por um
presidentes
lixeiros
atores
batedores de carteiras
pugilistas
pistoleiros
dançarinos de balé
pescadores
médicos
fritadores
bem
assim

mas Joe O’Brien
vai ser difícil
difícil
encontrar um substituto para
o pequeno Joe

e
na cerimônia
realizada para ele
na pista esta noite
(Los Alamitos 1-10-84)
enquanto os condutores se reuniam num
círculo
em seus uniformes
na linha de chegada
eu precisei dar minhas costas
à multidão
e subir os degraus da
arquibancada superior
rumo ao muro
para que as pessoas não
me vissem
chorar.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Coisa da Boa

sugando este charuto,
tomando garrafa após garrafa de cerveja da
República Popular da
China,
são os primeiros momentos da escura manhã
e estou celebrando a existência de
todos nós,
todos nós cabeças de trapo, sugadores de ruína
habitantes desta monstruosa
bola de estrume que é a
terra.
digo a vocês, todos, todo mundo, que estou
orgulhoso de vocês
por não cortarem suas gargantas toda
manhã quando acordam para enfrentá-la
de novo.
claro, alguns de vocês cortam, vocês dão
no pé, vão embora e nos deixam com o
fedorento pós-queda, para lidarmos com
os mutilados, os meio-assassinados, os
incompetentes, os loucos, os vis, as
massas.

mas sopro fumaça azul e sugo
estas garrafas verdes
em celebração dos que perduram,
seja lá como, confusos e
incongruentes mas aguentando,
o arremessador disparando a bola
na cara a 156 q.p.h
o motorista de ônibus moendo suas gengivas
em carne viva para chegar no horário.
os mexicanos ilegais que me acordam às
7 da manhã com seus sopradores de folhas.
sua mãe, a mãe de alguém,
seu filho, o filho de alguém, certa
irmã, certo primo, certo velhote
num andador, todos lá.
dá uma olhada neles.

eu saúdo aqueles que retêm o traiço-
eiro controle.
abro uma nova garrafa verde, faísco
meu charuto morto de volta à vida com meu isqueiro
amarelo.
precisamos de pessoas para limpar nossas
latrinas.
precisamos da misericórdia da respiração,
vida em movimento
mesmo que na maior parte ela seja
incontinente.

cerveja da China,
pensa só.
esta é uma madrugada e tanto
César e Platão avultam nas
sombras e eu amo todos vocês
por um breve
momento.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Couvert Artístico

Doug e eu pegamos uma mesa na frente,
uma das melhores, as garotas
chutavam as pernas lá no alto, a música
era boa e as bebidas não
paravam.
mas bem no meio da diversão eu
vi algo passar.
ah não, pensei, era a minha
morte, acabei de ver minha morte
passar.
“acabei de ver minha morte passar”, falei
ao Doug.
“o quê?”, ele perguntou, “não dá pra
escutar!”
“MORTE!”, gritei.
“esquece”, ele disse, “bebe mais!”

ao fim da apresentação, uma das
garotas, Mandy, Doug a
conhecia, veio e se sentou.
sua cabeça era a cabeça da
Morte.
“por que você está me encarando?”,
ela perguntou.
“você me lembra de algo”,
falei.
“o quê?”, ela perguntou.
apenas sorri.
“preciso ir”, ela disse.

“você assustou ela”, disse
Doug.
“ela me assustou”, eu disse.
então olhei para Doug.
a cabeça dele era a cabeça da
Morte.
ele não sabia disso, só eu
sabia.
“que diabo você tá
olhando?”, ele me perguntou.
“nada”, respondi.
“você tá com cara de quem viu
fantasma”, ele disse, “tá doente
ou algo assim?”
“estou bem, Doug.”
“bem, Jesus, quer dizer, a gente
gasta um monte de grana pra
fazer a farra e você age
como se fosse um
enterro.”

aí o comediante subiu
no palco, um cara gordão com
chapéu de papel, ele soprou um
apito e tirou um
balão da bunda
e disse algo que
não escutei direito
e todo mundo riu
e riu.
não consegui rir.
vi minha morte passando.
era o garçom.
fiz sinal para ele
trazer uma bebida.
de repente ele virou uma
dura bola de aço
e veio ribombando na
minha direção veloz como
bala enquanto eu me levantava
arrancando a mesa do chão,
lâmpada estilhaçada.
algumas pessoas riram
e outras gritaram.
1 085
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Reflexões

o templo do vão da minha porta está
trancado.

só concordo com meus críticos quando eles estão
errados.

meu pai era cego de um olho, surdo de um ouvido
e errado de uma vida.

os selos postais dos Estados Unidos são os mais feios
do mundo.

os personagens de Hemingway eram consistentemente
sombrios, ou seja, eles se esforçavam
demais.

as manhãs são o pior, os meios-dias um pouco
melhor e as noites o melhor de tudo.
pela altura em que você está pronto pra dormir você
sente a melhor sensação de todas.

os constantes vazamentos de esgoto apenas fortalecem minhas
convicções.

a melhor coisa sobre Immanuel Kant era
seu nome.

viver bem é uma questão de definição.

Deus é uma invenção do Homem; a Mulher, do
Diabo.

só pessoas entediantes se entediam.

todos fogem das pessoas solitárias porque elas são
solitárias e elas são solitárias porque todos
fogem delas.

pessoas que preferem ficar sozinhas têm
belíssimas razões para tal preferência.

pessoas que preferem ficar sozinhas e pessoas solitárias
não podem ser colocadas juntas no mesmo recinto.

se você colar um coco na bunda por baixo das calças,
você pode andar por aí com ele por duas semanas antes
que alguém pergunte a respeito.

o melhor livro é aquele que você nunca leu; a
melhor mulher, aquela que você nunca conheceu.

se o homem fosse feito para voar ele teria
nascido com asas ligadas ao corpo.
admito que já voei sem elas mas é
um ato antinatural, é por isso que não paro de pedir
bebidas à comissária de bordo.

se ficar sentado num quarto escuro por alguns meses você
terá uns pensamentos maravilhosos antes de
enlouquecer.

dificilmente haverá coisa mais triste do que um gato
atropelado.

a base do capitalismo é vender algo por
bem mais do que seu valor.
quanto mais você conseguir fazer isso, tanto mais rico poderá
ficar.
todo mundo ferra alguém de um jeito
diferente.
eu ferro você escrevendo palavras.

bem-aventurança só significa esquecer por um tempo o que há
de vir.

o Inferno nunca para ele só pausa.

isto é uma pausa.

aproveite enquanto puder.
1 080
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Árvore Genealógica

nada de mais na minha árvore genealógica, bem, houve o meu tio
John, procurado pelo F.B.I., me pegaram primeiro.
Vovô Leonard, no meu lado paterno, ficava muito
amável quando bebia, elogiava todo mundo, distribuía dinheiro,
chorava copiosamente pela condição humana, mas quando ficava
sóbrio se dizia dele que era uma das criaturas mais
ruins jamais vistas, escutadas ou evitadas.
não muito mais exceto Vovô Willy no meu lado
materno (lá na Alemanha): “Ele era um homem amável,
Henry, mas tudo que queria fazer era beber e tocar seu
violino, ele tocava tão bem, ele tinha um ótimo
emprego numa orquestra sinfônica de primeira mas o
perdeu por causa da bebida, ninguém queria contratá-
lo, mas ele era bom com o violino, ele ia para os cafés
e pegava uma mesa e tocava seu violino, botava o chapéu
sobre a mesa de cabeça pra baixo e as pessoas colocavam um
monte de dinheiro dentro mas ele continuava comprando bebida e
tocando o violino e logo passou a não tocar tão bem
assim e pediam que ele saísse mas na noite
seguinte ele encontrava outro café, outra mesa, ele
escrevia sua própria música e ninguém conseguia tocar violino
como ele conseguia.
Ele morreu certa noite na mesa, largou o
violino, tomou a bebida, deitou a cabeça na mesa e
morreu”.
bem, houve o meu tio Ben, ele era tão bonito que
assustava, ele era bonito demais, ele simplesmente fulgurava,
não dava para acreditar e aquilo não passava, tudo que ele
podia fazer a respeito era sorrir e acender outro cigarro
e encontrar outra mulher para sustentá-lo e consolá-lo, e
depois encontrar outra mulher para fazer o mesmo, e depois encontrar
outra.
ele morreu de tuberculose num sanatório nas colinas, o maço de
cigarros embaixo do travesseiro, morto ele sorria, e em seu
enterro 2 dúzias das mais lindas mulheres de Pasadena,
Glendale e Echo Park choraram
desavergonhadamente enquanto meu pai o xingava no caixão: “Seu
filho da puta desgraçado, você nunca trabalhou um único dia na
vida!”.

meu pai, é claro, foi um que eu nunca consegui decifrar –
quero dizer, como é que ele pode ter conseguido entrar na árvore
genealógica.
mas eu estava me sentindo bastante bem até aqui, mal pode haver
algum proveito em fazer disso aqui um poema depressivo.

bem, às vezes você ganha um macaco estranho num galho e tudo que você
pode fazer é perdoar se puder e esquecer, se possível,
e se nem uma nem outra coisa adiantar, então pense nos outros
e saiba que ao menos parte do seu sangue tem alguma
esperança.
1 274
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Todos Os Meus Amigos

Van Gogh acabou de vir aqui me reclamar
que Theo tinha lhe mandado as tintas
erradas.
mal passara um momento desde sua saída
quando Dostoiévski bateu e pediu um
empréstimo para pagar a roleta,
alegou estar trabalhando numa obra-prima,
algo chamado Crime e castigo
então Chatterton bateu e perguntou se eu não
tinha um pouco de veneno de rato, disse que tinha uma ideia de
como se livrar dos ratos.
Villon ficou sentado dando chilique metade da noite sobre
como tinha sido banido de Paris – não por sua
escrita mas simplesmente por causa de certo roubo
trivial, sério, ele disse, titica de galinha.
depois o Ernie chegou, ele estava bêbado e começou
a falar sobre as touradas, é só disso que ele fala:
touradas e pescaria, o GRANDE que escapou,
e ele não se desliga da guerra, da guerra, da guerra.
fiquei contente quando ele saiu.
Picasso chegou em seguida e reclamou que sua
amante da vez, também uma pintora, tinha inveja
dele, ela achava que sabia pintar mas era
contida por ser mulher e que um
dia pintaria um livro sobre ele chamando-o
de reles monstro babaca e com isso ela ganharia
a única fama pela qual tanto ansiava.
então Knut Hamsun apareceu e afirmou ter sofrido
armação na história dos crimes de guerra.
seguido por Ezra que falou do mesmo assunto.
seguido pelo bom doutor Céline.
então H.D. veio e disse “agora eu só queria que eu
tivesse usado meu nome verdadeiro, Hilda Doolittle, que vá pro inferno
o Manifesto Imagista, acabou acontecendo de todo modo que quando
as pessoas viam ‘H.D.’ tudo que faziam era inverter as iniciais
e pensar naquele merda do D.H. Lawrence.”
depois Mozart, o ex-menino prodígio, bateu e pediu
uma moedinha, eu dei, que impostor fingindo estar
em apuros depois de escrever mais sinfonias do que qualquer homem
que eu consiga lembrar.
depois o Ernie veio de novo, pedindo pra pegar emprestado um cartucho
de espingarda, dizendo ter uma caça especial em
mente.
deixei que ele levasse.

aí Borodin bateu, alegando que sua esposa o fazia dormir nas
escadas e sempre virava um demônio quando ele apertava o saquinho de chá
com a colher.

depois disso me cansei de todas as batidas e de todas as pessoas – fiquei
gritando para Beethoven ir embora mas ele não parava de bater –
então desliguei as luzes, meti meus tampões de ouvido e fui dormir
mas não adiantou porque tive um pesadelo e eis ali
o tal Van Gogh de novo, só que ele não tinha cortado fora só uma orelha
e sim as duas orelhas, quero dizer, ele realmente parecia fodido, e ele mandou
uma orelha para uma prostituta e a outra para outra e a primeira
prostituta teve ânsia de vômito e jogou a orelha por cima do ombro esquerdo mas
a segunda prostituta só riu, baixou as calcinhas e
enfiou a orelha no reto dizendo “agora posso escutar os cacetes
entrando e a merda caindo.”

então acordei e os ossos do crânio e o sangue de Hemingway pingaram
em mim do
teto.
1 069
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Ai Disse a Vaca À Cerca Que Ligava

, esperneiam esses bebês idiotas,
os leprosos se embebedaram de leite
de coco
, o último sonho do pervertido foi
bacon misturado com torta
de anca
, morto é morto que chega
torto é torto que chega
e o cavalo falhou na
cara da rainha
e uma hora depois
ela estava com as bolas dele na mão
e a cabeça dele montada entre
as manoplas da motocicleta de
Hades
, as verdes florestas na minha mente
estão cegas
enquanto levo a mão ao rolo de papel
higiênico
o mundo late uma vez e
desaparece
, baunilha, baunilha, baunilha,
imagine você no bolso traseiro
de Prokofiev durante uma tempestade
de verão perante a casa de campo de um
comedor de cães bebedor de
vermute
, Paris é um lugar nas cercanias de
lugar nenhum que costumava
ser
, fico recebendo ligações telefônicas
de pessoas totalmente loucas que
me amam porque acreditam
que a minha loucura justifica a delas
o que é pior do que baixíssima
categoria
, a dor é como um foguete, sinta
o bastante
que ela te projeta através
e além de toda a baboseira
por um tempo
apenas
, a dama me trouxe uma bebida
e eu trouxe à dama uma bebida
e a dama me trouxe uma
bebida
e aí eu trouxe à dama uma
bebida
e aí o bartender
arrancou o olho esquerdo
enfiou na boca e
o cuspiu para o teto
enquanto um cara cruzava pela
porta e perguntava
“Godot está aqui?”
, a placenta é o hino da
ferida esquecida
e você não está me devendo 20
pratas que eu te emprestei durante
o
Mardi Gras?
, ah, que se danem todas as coisas e
os pássaros e os lagos e as cintas-
ligas
ah, por que somos tão estufados
dessa merda de hélio?
ah, quem roubou os olhos
e botou as tampas de garrafa na
bunda da Georgia?

, por que a porta abre
para trás?

, ei, a rançosa respiração
dos fedorentos tambores...
tais armas vêm dentro de quê?
peguem a calhandra bêbada!

, essa chicana de perfeição...
esse pelúcido bocejo de
incêndio...

, Cristo parou num tranco,
pneu estourou,
abri o porta-malas e
não achei o
macaco.
1 005