Poemas neste tema
Vida e Existência
Charles Bukowski
Para Jane: Com Todo o Amor Que Eu Tinha, Que Não Foi Suficiente
eu pego a saia,
eu pego as contas cintilantes
em preto,
essa coisa que se movia outrora
em volta de carne,
e chamo Deus de mentiroso,
repito qualquer coisa que se movesse
daquele jeito
ou soubesse
meu nome
jamais poderia morrer
na veracidade comum da morte,
e eu pego
seu gracioso
vestido,
sua graciosidade toda se foi,
e falo
a todos os deuses,
deuses judeus, deuses de Cristo,
lascas de coisas piscantes,
ídolos, pílulas, pão,
profundidades, riscos,
rendição experiente,
ratos no molho de 2 totalmente enlouquecidos
sem chance,
conhecimento de beija-flor, chance de beija-flor,
eu me apoio nisso,
eu me apoio em tudo isso
e sei:
seu vestido em meu braço:
mas
não querem
devolvê-la pra mim.
eu pego as contas cintilantes
em preto,
essa coisa que se movia outrora
em volta de carne,
e chamo Deus de mentiroso,
repito qualquer coisa que se movesse
daquele jeito
ou soubesse
meu nome
jamais poderia morrer
na veracidade comum da morte,
e eu pego
seu gracioso
vestido,
sua graciosidade toda se foi,
e falo
a todos os deuses,
deuses judeus, deuses de Cristo,
lascas de coisas piscantes,
ídolos, pílulas, pão,
profundidades, riscos,
rendição experiente,
ratos no molho de 2 totalmente enlouquecidos
sem chance,
conhecimento de beija-flor, chance de beija-flor,
eu me apoio nisso,
eu me apoio em tudo isso
e sei:
seu vestido em meu braço:
mas
não querem
devolvê-la pra mim.
922
Charles Bukowski
Máquina Mágica
eu gostava dos discos velhos que
arranhavam
conforme a agulha deslizava por
sulcos bastante
gastos
você ouvia a voz
saindo do
alto-falante
como se houvesse uma pessoa
dentro daquela
caixa
de mogno
mas você só escutava enquanto
seus pais não estavam
em casa.
e se você não desse corda
na vitrola
ela desacelerava gradualmente e
parava.
era melhor nos fins de
tarde
e os discos falavam
de
amor.
amor, amor, amor.
alguns dos discos tinham
lindos rótulos
roxos,
outros eram laranja, verdes,
amarelos, vermelhos, azuis.
a vitrola tinha pertencido ao
meu avô
e ele tinha escutado aqueles
mesmos
discos.
e agora eu era um garoto
e
os escutava.
e nada em que eu conseguisse pensar
na minha vida naquele tempo
parecia ser melhor do que ouvir
aquela
vitrola
quando meus pais não estavam
em casa.
arranhavam
conforme a agulha deslizava por
sulcos bastante
gastos
você ouvia a voz
saindo do
alto-falante
como se houvesse uma pessoa
dentro daquela
caixa
de mogno
mas você só escutava enquanto
seus pais não estavam
em casa.
e se você não desse corda
na vitrola
ela desacelerava gradualmente e
parava.
era melhor nos fins de
tarde
e os discos falavam
de
amor.
amor, amor, amor.
alguns dos discos tinham
lindos rótulos
roxos,
outros eram laranja, verdes,
amarelos, vermelhos, azuis.
a vitrola tinha pertencido ao
meu avô
e ele tinha escutado aqueles
mesmos
discos.
e agora eu era um garoto
e
os escutava.
e nada em que eu conseguisse pensar
na minha vida naquele tempo
parecia ser melhor do que ouvir
aquela
vitrola
quando meus pais não estavam
em casa.
1 164
Charles Bukowski
Máquina Mágica
eu gostava dos discos velhos que
arranhavam
conforme a agulha deslizava por
sulcos bastante
gastos
você ouvia a voz
saindo do
alto-falante
como se houvesse uma pessoa
dentro daquela
caixa
de mogno
mas você só escutava enquanto
seus pais não estavam
em casa.
e se você não desse corda
na vitrola
ela desacelerava gradualmente e
parava.
era melhor nos fins de
tarde
e os discos falavam
de
amor.
amor, amor, amor.
alguns dos discos tinham
lindos rótulos
roxos,
outros eram laranja, verdes,
amarelos, vermelhos, azuis.
a vitrola tinha pertencido ao
meu avô
e ele tinha escutado aqueles
mesmos
discos.
e agora eu era um garoto
e
os escutava.
e nada em que eu conseguisse pensar
na minha vida naquele tempo
parecia ser melhor do que ouvir
aquela
vitrola
quando meus pais não estavam
em casa.
arranhavam
conforme a agulha deslizava por
sulcos bastante
gastos
você ouvia a voz
saindo do
alto-falante
como se houvesse uma pessoa
dentro daquela
caixa
de mogno
mas você só escutava enquanto
seus pais não estavam
em casa.
e se você não desse corda
na vitrola
ela desacelerava gradualmente e
parava.
era melhor nos fins de
tarde
e os discos falavam
de
amor.
amor, amor, amor.
alguns dos discos tinham
lindos rótulos
roxos,
outros eram laranja, verdes,
amarelos, vermelhos, azuis.
a vitrola tinha pertencido ao
meu avô
e ele tinha escutado aqueles
mesmos
discos.
e agora eu era um garoto
e
os escutava.
e nada em que eu conseguisse pensar
na minha vida naquele tempo
parecia ser melhor do que ouvir
aquela
vitrola
quando meus pais não estavam
em casa.
1 164
Charles Bukowski
De Um Cão Velho Em Seu Porre
ah, meu amigo, é terrível, pior
do que isso – você só vai
ficando bom –
uma garrafa virada e
vazia –
os poemas fervilhando na sua
cabeça
mas
a meio caminho entre os 60 e
os 70
você detém a mão
antes de abrir a
segunda garrafa –
às vezes
não abre
pois após 50 anos de
bebedeira pesada
você pode presumir
que essa garrafa adicional
vai te mandar
balbuciando para
uma casa de repouso
ou te conceder
um derrame
sozinho na sua
casa
os gatos mastigando a
sua carne
enquanto a névoa matinal
penetra pela tela
quebrada.
a gente nem pensa no
fígado
e se o fígado
não pensa na
gente, tudo
bem.
mas de fato parece
que quanto mais bebemos
tanto melhores as palavras
ficam.
a morte não importa
mas a derradeira inconveniência
da quase-morte é o pior dos
tormentos.
vou encerrar a noite
com
cerveja.
do que isso – você só vai
ficando bom –
uma garrafa virada e
vazia –
os poemas fervilhando na sua
cabeça
mas
a meio caminho entre os 60 e
os 70
você detém a mão
antes de abrir a
segunda garrafa –
às vezes
não abre
pois após 50 anos de
bebedeira pesada
você pode presumir
que essa garrafa adicional
vai te mandar
balbuciando para
uma casa de repouso
ou te conceder
um derrame
sozinho na sua
casa
os gatos mastigando a
sua carne
enquanto a névoa matinal
penetra pela tela
quebrada.
a gente nem pensa no
fígado
e se o fígado
não pensa na
gente, tudo
bem.
mas de fato parece
que quanto mais bebemos
tanto melhores as palavras
ficam.
a morte não importa
mas a derradeira inconveniência
da quase-morte é o pior dos
tormentos.
vou encerrar a noite
com
cerveja.
1 054
Charles Bukowski
De Um Cão Velho Em Seu Porre
ah, meu amigo, é terrível, pior
do que isso – você só vai
ficando bom –
uma garrafa virada e
vazia –
os poemas fervilhando na sua
cabeça
mas
a meio caminho entre os 60 e
os 70
você detém a mão
antes de abrir a
segunda garrafa –
às vezes
não abre
pois após 50 anos de
bebedeira pesada
você pode presumir
que essa garrafa adicional
vai te mandar
balbuciando para
uma casa de repouso
ou te conceder
um derrame
sozinho na sua
casa
os gatos mastigando a
sua carne
enquanto a névoa matinal
penetra pela tela
quebrada.
a gente nem pensa no
fígado
e se o fígado
não pensa na
gente, tudo
bem.
mas de fato parece
que quanto mais bebemos
tanto melhores as palavras
ficam.
a morte não importa
mas a derradeira inconveniência
da quase-morte é o pior dos
tormentos.
vou encerrar a noite
com
cerveja.
do que isso – você só vai
ficando bom –
uma garrafa virada e
vazia –
os poemas fervilhando na sua
cabeça
mas
a meio caminho entre os 60 e
os 70
você detém a mão
antes de abrir a
segunda garrafa –
às vezes
não abre
pois após 50 anos de
bebedeira pesada
você pode presumir
que essa garrafa adicional
vai te mandar
balbuciando para
uma casa de repouso
ou te conceder
um derrame
sozinho na sua
casa
os gatos mastigando a
sua carne
enquanto a névoa matinal
penetra pela tela
quebrada.
a gente nem pensa no
fígado
e se o fígado
não pensa na
gente, tudo
bem.
mas de fato parece
que quanto mais bebemos
tanto melhores as palavras
ficam.
a morte não importa
mas a derradeira inconveniência
da quase-morte é o pior dos
tormentos.
vou encerrar a noite
com
cerveja.
1 054
Charles Bukowski
Procura-Se Ajuda
eu era um jovem demente e aí encontrei certo livro escrito por um
homem mais velho demente e me senti melhor porque ele era
capaz de botar no papel
e aí encontrei um livro de uma fase posterior desse mesmo homem mais velho
demente
só que a mim
ele já não parecia demente ele só parecia ser
maçante –
todos nós aguentamos bem por um tempo, aí com defeitos e
lapsos e erros inerentes
na maioria de nós
tão frequentemente nos deterioramos da noite para o dia
chegando a um estado tão próximo da defecação
que o resultado final é quase insuportável para os
sentidos.
por sorte, encontrei alguns outros homens dementes que quase permaneceram do
mesmo jeito até que
morreram.
isso é mais digno, sabe, e beneficia um pouco mais as nossas
vidas
conforme desempenhamos as nossas –
umbrosas –
tarefas.
homem mais velho demente e me senti melhor porque ele era
capaz de botar no papel
e aí encontrei um livro de uma fase posterior desse mesmo homem mais velho
demente
só que a mim
ele já não parecia demente ele só parecia ser
maçante –
todos nós aguentamos bem por um tempo, aí com defeitos e
lapsos e erros inerentes
na maioria de nós
tão frequentemente nos deterioramos da noite para o dia
chegando a um estado tão próximo da defecação
que o resultado final é quase insuportável para os
sentidos.
por sorte, encontrei alguns outros homens dementes que quase permaneceram do
mesmo jeito até que
morreram.
isso é mais digno, sabe, e beneficia um pouco mais as nossas
vidas
conforme desempenhamos as nossas –
umbrosas –
tarefas.
1 138
Charles Bukowski
Procura-Se Ajuda
eu era um jovem demente e aí encontrei certo livro escrito por um
homem mais velho demente e me senti melhor porque ele era
capaz de botar no papel
e aí encontrei um livro de uma fase posterior desse mesmo homem mais velho
demente
só que a mim
ele já não parecia demente ele só parecia ser
maçante –
todos nós aguentamos bem por um tempo, aí com defeitos e
lapsos e erros inerentes
na maioria de nós
tão frequentemente nos deterioramos da noite para o dia
chegando a um estado tão próximo da defecação
que o resultado final é quase insuportável para os
sentidos.
por sorte, encontrei alguns outros homens dementes que quase permaneceram do
mesmo jeito até que
morreram.
isso é mais digno, sabe, e beneficia um pouco mais as nossas
vidas
conforme desempenhamos as nossas –
umbrosas –
tarefas.
homem mais velho demente e me senti melhor porque ele era
capaz de botar no papel
e aí encontrei um livro de uma fase posterior desse mesmo homem mais velho
demente
só que a mim
ele já não parecia demente ele só parecia ser
maçante –
todos nós aguentamos bem por um tempo, aí com defeitos e
lapsos e erros inerentes
na maioria de nós
tão frequentemente nos deterioramos da noite para o dia
chegando a um estado tão próximo da defecação
que o resultado final é quase insuportável para os
sentidos.
por sorte, encontrei alguns outros homens dementes que quase permaneceram do
mesmo jeito até que
morreram.
isso é mais digno, sabe, e beneficia um pouco mais as nossas
vidas
conforme desempenhamos as nossas –
umbrosas –
tarefas.
1 138
Charles Bukowski
Uma Festa Aqui – Metralhadoras, Tanques, Um Exército Lutando Contra Homens Nos Telhados
se o amor pudesse continuar como papel de piche
ou até mesmo na medida do significado
mas não funciona
não pode funcionar
há babacas demais
mulheres que escondem suas pernas demais
exceto em camas especiais
há moscas demais no
teto e tem sido um verão
quente
e os distúrbios em Los Angeles
terminaram faz uma semana
e queimaram prédios e mataram policiais e
homens brancos e
eu sou um homem branco e acho que não fiquei particularmente
alvoroçado porque sou um homem branco e sou pobre
e pago por ser pobre
porque faço tão poucas paradas de mão para os outros quanto
possível
e então sou pobre porque escolhi ser e acho que
não é tão desconfortável desse
jeito
e então ignorei os distúrbios
porque concluí que ambos negros e brancos
queriam várias coisas que não interessavam
a mim
além disso tendo uma mulher aqui que fica muito alvoroçada com
discriminação a Bomba segregação
você sabe você sabe
eu deixo ela ir falando até que por fim a conversa
me cansa
pois não ligo muito para a
resposta padrão
ou as confusas criaturas solitárias que gostam de se unir a uma
CAUSA simplesmente porque uma causa as arranca de sua
babosa
imbecilidade rumo a um fluxo de
ação. já eu gosto de tempo para pensar, pensar, pensar...
mas foi uma festa aqui, sério, metralhadoras, tanques,
o exército lutando contra homens nos telhados...
a mesma coisa que acusamos a Rússia de fazer. bem, é
um jogo escroto, e não sei o que fazer, exceto
se for como um amigo meu disse que eu disse certa noite quando
eu estava bêbado: “Nunca mate alguém, mesmo que pareça
ser a última ou a única coisa a fazer”.
riso. tudo bem. poderia deixar você feliz
que eu até tenha um fluxo de remorso quando mato uma
mosca. uma formiga. uma pulga. mas vou em frente. eu as mato e
vou em frente.
deus, o amor é mais estranho do que numerais mais estranho
do que
relva pegando fogo mais estranho do que o corpo morto de uma criança
afogada no fundo de uma banheira, sabemos tão
pouco, sabemos tanto, não sabemos
o bastante.
de qualquer forma, realizamos nossos movimentos, intestinais,
às vezes
sexuais, às vezes celestiais, às vezes espúrios, ou
às vezes percorremos um museu para ver o que
restou de nós ou disso, a triste paralisia estrangulada de fundo
de manicômio envidraçado e congelado e estéril
suficiente para fazer você querer sair para o sol de novo
e dar uma olhada, mas no parque e nas ruas
os mortos continuam passando como se já estivessem
num museu. talvez o amor seja sexo. talvez o amor seja uma tigela de
mingau. talvez o amor seja um rádio desligado.
de qualquer jeito, foi uma festa.
uma semana atrás.
hoje fui à pista com rosas nos meus olhos. dólares no
meu
bolso. manchetes no beco. são mais de cento e cinquenta quilômetros de
trem,
só de ida. um grupo de bêbados voltando, duros de novo, o
sonho
abatido de novo, corpos oscilando; tagarelando no vagão do bar e eu
estou ali
também, bebendo, rabiscando a esperança que resta na penumbra,
o
barman era um negro e eu era branco. maus lençóis. demos
um jeito.
nada de festa.
os jornais ricos ficam falando “A Revolução
Negra” e
“A Ruptura da Família Negra”. o trem entrou na cidade
afinal,
e eu me livrei dos 2 homossexuais que estavam me pagando
bebidas, e
fui mijar e fazer uma ligação e enquanto eu passava
pelo
acesso rumo à latrina masculina havia 2 negros numa
banca de engraxate
engraxando sapatos de homens brancos e os homens brancos lhes
permitiam fazê-lo.
caminhei até um bar mexicano
e tomei alguns uísques e quando saí a garçonete me deu um
papelzinho com seu nome, endereço e número de telefone
escritos, e quando cheguei na rua joguei o papel na sarjeta
entrei no meu carro e dirigi rumo à Zona Oeste de Los
Angeles
e tudo parecia igual igual como sempre foi
e na Alvarado com a Sunset eu reduzi pra 65
vi um policial gordo em sua moto
com uma cara hedionda e alerta
e fiquei enojado comigo mesmo e com
todo mundo, todo o pouco que qualquer um de nós
tinha feito, amor, amor, amor,
e as torres balançavam como velhas stripteasers
rezando pela mágica perdida, e eu segui dirigindo
engraxando os sapatos de todos os negros e gringos da
América, incluindo
os meus.
ou até mesmo na medida do significado
mas não funciona
não pode funcionar
há babacas demais
mulheres que escondem suas pernas demais
exceto em camas especiais
há moscas demais no
teto e tem sido um verão
quente
e os distúrbios em Los Angeles
terminaram faz uma semana
e queimaram prédios e mataram policiais e
homens brancos e
eu sou um homem branco e acho que não fiquei particularmente
alvoroçado porque sou um homem branco e sou pobre
e pago por ser pobre
porque faço tão poucas paradas de mão para os outros quanto
possível
e então sou pobre porque escolhi ser e acho que
não é tão desconfortável desse
jeito
e então ignorei os distúrbios
porque concluí que ambos negros e brancos
queriam várias coisas que não interessavam
a mim
além disso tendo uma mulher aqui que fica muito alvoroçada com
discriminação a Bomba segregação
você sabe você sabe
eu deixo ela ir falando até que por fim a conversa
me cansa
pois não ligo muito para a
resposta padrão
ou as confusas criaturas solitárias que gostam de se unir a uma
CAUSA simplesmente porque uma causa as arranca de sua
babosa
imbecilidade rumo a um fluxo de
ação. já eu gosto de tempo para pensar, pensar, pensar...
mas foi uma festa aqui, sério, metralhadoras, tanques,
o exército lutando contra homens nos telhados...
a mesma coisa que acusamos a Rússia de fazer. bem, é
um jogo escroto, e não sei o que fazer, exceto
se for como um amigo meu disse que eu disse certa noite quando
eu estava bêbado: “Nunca mate alguém, mesmo que pareça
ser a última ou a única coisa a fazer”.
riso. tudo bem. poderia deixar você feliz
que eu até tenha um fluxo de remorso quando mato uma
mosca. uma formiga. uma pulga. mas vou em frente. eu as mato e
vou em frente.
deus, o amor é mais estranho do que numerais mais estranho
do que
relva pegando fogo mais estranho do que o corpo morto de uma criança
afogada no fundo de uma banheira, sabemos tão
pouco, sabemos tanto, não sabemos
o bastante.
de qualquer forma, realizamos nossos movimentos, intestinais,
às vezes
sexuais, às vezes celestiais, às vezes espúrios, ou
às vezes percorremos um museu para ver o que
restou de nós ou disso, a triste paralisia estrangulada de fundo
de manicômio envidraçado e congelado e estéril
suficiente para fazer você querer sair para o sol de novo
e dar uma olhada, mas no parque e nas ruas
os mortos continuam passando como se já estivessem
num museu. talvez o amor seja sexo. talvez o amor seja uma tigela de
mingau. talvez o amor seja um rádio desligado.
de qualquer jeito, foi uma festa.
uma semana atrás.
hoje fui à pista com rosas nos meus olhos. dólares no
meu
bolso. manchetes no beco. são mais de cento e cinquenta quilômetros de
trem,
só de ida. um grupo de bêbados voltando, duros de novo, o
sonho
abatido de novo, corpos oscilando; tagarelando no vagão do bar e eu
estou ali
também, bebendo, rabiscando a esperança que resta na penumbra,
o
barman era um negro e eu era branco. maus lençóis. demos
um jeito.
nada de festa.
os jornais ricos ficam falando “A Revolução
Negra” e
“A Ruptura da Família Negra”. o trem entrou na cidade
afinal,
e eu me livrei dos 2 homossexuais que estavam me pagando
bebidas, e
fui mijar e fazer uma ligação e enquanto eu passava
pelo
acesso rumo à latrina masculina havia 2 negros numa
banca de engraxate
engraxando sapatos de homens brancos e os homens brancos lhes
permitiam fazê-lo.
caminhei até um bar mexicano
e tomei alguns uísques e quando saí a garçonete me deu um
papelzinho com seu nome, endereço e número de telefone
escritos, e quando cheguei na rua joguei o papel na sarjeta
entrei no meu carro e dirigi rumo à Zona Oeste de Los
Angeles
e tudo parecia igual igual como sempre foi
e na Alvarado com a Sunset eu reduzi pra 65
vi um policial gordo em sua moto
com uma cara hedionda e alerta
e fiquei enojado comigo mesmo e com
todo mundo, todo o pouco que qualquer um de nós
tinha feito, amor, amor, amor,
e as torres balançavam como velhas stripteasers
rezando pela mágica perdida, e eu segui dirigindo
engraxando os sapatos de todos os negros e gringos da
América, incluindo
os meus.
707
Charles Bukowski
Aquelas Garotas Que Seguimos No Caminho de Casa
na escola intermediária as duas garotas mais bonitas eram
Irene e Louise,
elas eram irmãs;
Irene era um ano mais velha, um pouco mais alta
mas era difícil escolher entre
as duas;
elas não eram apenas bonitas, eram
espantosamente lindas
tão lindas
que os garotos mantinham distância delas;
ficavam aterrorizados diante de Irene e
Louise
que não eram nem um pouco reservadas,
eram inclusive mais amigáveis do que a maioria
mas
pareciam se vestir com certa
diferença em relação às outras
garotas:
elas sempre usavam salto alto,
meias de seda,
blusas,
saias,
trajes novos
todos os dias;
e
certa tarde
meu amigo Carequinha e eu as seguimos
na volta da escola para casa;
é que nós éramos meio que
os malvadões do pedaço
então isso era
mais ou menos
de se esperar,
e
foi uma coisa de louco:
íamos caminhando três ou quatro metros atrás delas;
não dizíamos nada
apenas seguíamos
observando
o bamboleio voluptuoso,
o balançar das
ancas.
gostamos tanto que as
seguimos da escola para casa
todos os
dias.
quando elas entravam em casa
nós ficávamos parados na calçada
fumando cigarros e conversando.
“um dia”, eu disse ao Carequinha,
“elas vão nos convidar pra entrar em
casa e elas vão
dar pra nós.”
“você acha mesmo?”
“claro.”
agora
50 anos depois
eu posso lhes dizer
que elas nunca deram
– esqueçam todas as histórias que
contamos aos caras;
sim, é o sonho que
nos faz ir em frente
naquele tempo e
agora.
Irene e Louise,
elas eram irmãs;
Irene era um ano mais velha, um pouco mais alta
mas era difícil escolher entre
as duas;
elas não eram apenas bonitas, eram
espantosamente lindas
tão lindas
que os garotos mantinham distância delas;
ficavam aterrorizados diante de Irene e
Louise
que não eram nem um pouco reservadas,
eram inclusive mais amigáveis do que a maioria
mas
pareciam se vestir com certa
diferença em relação às outras
garotas:
elas sempre usavam salto alto,
meias de seda,
blusas,
saias,
trajes novos
todos os dias;
e
certa tarde
meu amigo Carequinha e eu as seguimos
na volta da escola para casa;
é que nós éramos meio que
os malvadões do pedaço
então isso era
mais ou menos
de se esperar,
e
foi uma coisa de louco:
íamos caminhando três ou quatro metros atrás delas;
não dizíamos nada
apenas seguíamos
observando
o bamboleio voluptuoso,
o balançar das
ancas.
gostamos tanto que as
seguimos da escola para casa
todos os
dias.
quando elas entravam em casa
nós ficávamos parados na calçada
fumando cigarros e conversando.
“um dia”, eu disse ao Carequinha,
“elas vão nos convidar pra entrar em
casa e elas vão
dar pra nós.”
“você acha mesmo?”
“claro.”
agora
50 anos depois
eu posso lhes dizer
que elas nunca deram
– esqueçam todas as histórias que
contamos aos caras;
sim, é o sonho que
nos faz ir em frente
naquele tempo e
agora.
1 203
Charles Bukowski
Aquelas Garotas Que Seguimos No Caminho de Casa
na escola intermediária as duas garotas mais bonitas eram
Irene e Louise,
elas eram irmãs;
Irene era um ano mais velha, um pouco mais alta
mas era difícil escolher entre
as duas;
elas não eram apenas bonitas, eram
espantosamente lindas
tão lindas
que os garotos mantinham distância delas;
ficavam aterrorizados diante de Irene e
Louise
que não eram nem um pouco reservadas,
eram inclusive mais amigáveis do que a maioria
mas
pareciam se vestir com certa
diferença em relação às outras
garotas:
elas sempre usavam salto alto,
meias de seda,
blusas,
saias,
trajes novos
todos os dias;
e
certa tarde
meu amigo Carequinha e eu as seguimos
na volta da escola para casa;
é que nós éramos meio que
os malvadões do pedaço
então isso era
mais ou menos
de se esperar,
e
foi uma coisa de louco:
íamos caminhando três ou quatro metros atrás delas;
não dizíamos nada
apenas seguíamos
observando
o bamboleio voluptuoso,
o balançar das
ancas.
gostamos tanto que as
seguimos da escola para casa
todos os
dias.
quando elas entravam em casa
nós ficávamos parados na calçada
fumando cigarros e conversando.
“um dia”, eu disse ao Carequinha,
“elas vão nos convidar pra entrar em
casa e elas vão
dar pra nós.”
“você acha mesmo?”
“claro.”
agora
50 anos depois
eu posso lhes dizer
que elas nunca deram
– esqueçam todas as histórias que
contamos aos caras;
sim, é o sonho que
nos faz ir em frente
naquele tempo e
agora.
Irene e Louise,
elas eram irmãs;
Irene era um ano mais velha, um pouco mais alta
mas era difícil escolher entre
as duas;
elas não eram apenas bonitas, eram
espantosamente lindas
tão lindas
que os garotos mantinham distância delas;
ficavam aterrorizados diante de Irene e
Louise
que não eram nem um pouco reservadas,
eram inclusive mais amigáveis do que a maioria
mas
pareciam se vestir com certa
diferença em relação às outras
garotas:
elas sempre usavam salto alto,
meias de seda,
blusas,
saias,
trajes novos
todos os dias;
e
certa tarde
meu amigo Carequinha e eu as seguimos
na volta da escola para casa;
é que nós éramos meio que
os malvadões do pedaço
então isso era
mais ou menos
de se esperar,
e
foi uma coisa de louco:
íamos caminhando três ou quatro metros atrás delas;
não dizíamos nada
apenas seguíamos
observando
o bamboleio voluptuoso,
o balançar das
ancas.
gostamos tanto que as
seguimos da escola para casa
todos os
dias.
quando elas entravam em casa
nós ficávamos parados na calçada
fumando cigarros e conversando.
“um dia”, eu disse ao Carequinha,
“elas vão nos convidar pra entrar em
casa e elas vão
dar pra nós.”
“você acha mesmo?”
“claro.”
agora
50 anos depois
eu posso lhes dizer
que elas nunca deram
– esqueçam todas as histórias que
contamos aos caras;
sim, é o sonho que
nos faz ir em frente
naquele tempo e
agora.
1 203
Charles Bukowski
Meu Verdadeiro Amor Em Atenas
e eu me lembro da faca,
do modo como você toca uma rosa
e sai com sangue
e como você toca o amor do mesmo modo,
e como quando você quer entrar na autoestrada
os caminhões encurralam você na pista interna
luar e rugindo
atropelando sua bravura,
fazendo você pisar no freio
e pequenas imagens surgem na sua cabeça:
imagens de Cristo pendurado lá
ou Hiroshima
ou sua última esposa
fritando um ovo.
o modo como você toca uma rosa
é o modo como você se encosta nas laterais dos caixões
dos mortos,
o modo como você toca uma rosa
e vê os mortos rodopiando de volta
por baixo das suas unhas;
a faca
Gettysburg, as Ardenas, Flandres,
Átila, Muss –
de que me serve a história
quando tudo se reduz
à sombra das três da tarde
embaixo de uma folha?
e se a mente fica atormentada
e a rosa morde
como um cão,
dizem
que temos amor...
mas de que me serve o amor
quando todos nascemos
em diferentes momentos e lugares
e só nos encontramos
através de um truque dos séculos
e três passos casuais
à esquerda?
você quer dizer que
um amor que não encontrei
é menos do que um egoísmo
que chamo de próximo?
posso dizer agora
com sangue de rosa no fundo da minha mente,
posso dizer agora enquanto rodopiam os planetas
e toneladas de força são disparadas dentro do fim do espaço
para fazer Colombo parecer uma criança idiota
posso dizer agora
que porque gritei dentro de uma noite
e não me ouviram,
posso dizer agora
que me lembro da faca
e fico sentado num quarto fresco
e esfrego meus dedos ao apito do relógio
e calmamente penso em
Ajax e escarro
e galinhas ferroviárias atravessando os trilhos dourados,
e meu verdadeiro amor está em Atenas
600
A ou D,
enquanto fora da minha janela
pombos tropeçam enquanto voam
e por uma porta
de longa espera para um quarto vazio
rosas não conseguem
entrar ou sair,
ou amor ou mariposas ou relâmpago –
eu não irromperia nem em suspiro
nem em sorriso; poderiam nadas
como mariposas ou homens
existir como luz solar laranja sobre papel
dividido por nove?
Atenas fica agora a muitas milhas
e uma morte de distância,
e as mesas estão sujas pra cacete
e os lençóis e os pratos,
mas estou rindo; isso não é real;
mas é, dividido por nove
ou cem;
roupa limpa é amor
que não se coça
e suspira.
do modo como você toca uma rosa
e sai com sangue
e como você toca o amor do mesmo modo,
e como quando você quer entrar na autoestrada
os caminhões encurralam você na pista interna
luar e rugindo
atropelando sua bravura,
fazendo você pisar no freio
e pequenas imagens surgem na sua cabeça:
imagens de Cristo pendurado lá
ou Hiroshima
ou sua última esposa
fritando um ovo.
o modo como você toca uma rosa
é o modo como você se encosta nas laterais dos caixões
dos mortos,
o modo como você toca uma rosa
e vê os mortos rodopiando de volta
por baixo das suas unhas;
a faca
Gettysburg, as Ardenas, Flandres,
Átila, Muss –
de que me serve a história
quando tudo se reduz
à sombra das três da tarde
embaixo de uma folha?
e se a mente fica atormentada
e a rosa morde
como um cão,
dizem
que temos amor...
mas de que me serve o amor
quando todos nascemos
em diferentes momentos e lugares
e só nos encontramos
através de um truque dos séculos
e três passos casuais
à esquerda?
você quer dizer que
um amor que não encontrei
é menos do que um egoísmo
que chamo de próximo?
posso dizer agora
com sangue de rosa no fundo da minha mente,
posso dizer agora enquanto rodopiam os planetas
e toneladas de força são disparadas dentro do fim do espaço
para fazer Colombo parecer uma criança idiota
posso dizer agora
que porque gritei dentro de uma noite
e não me ouviram,
posso dizer agora
que me lembro da faca
e fico sentado num quarto fresco
e esfrego meus dedos ao apito do relógio
e calmamente penso em
Ajax e escarro
e galinhas ferroviárias atravessando os trilhos dourados,
e meu verdadeiro amor está em Atenas
600
A ou D,
enquanto fora da minha janela
pombos tropeçam enquanto voam
e por uma porta
de longa espera para um quarto vazio
rosas não conseguem
entrar ou sair,
ou amor ou mariposas ou relâmpago –
eu não irromperia nem em suspiro
nem em sorriso; poderiam nadas
como mariposas ou homens
existir como luz solar laranja sobre papel
dividido por nove?
Atenas fica agora a muitas milhas
e uma morte de distância,
e as mesas estão sujas pra cacete
e os lençóis e os pratos,
mas estou rindo; isso não é real;
mas é, dividido por nove
ou cem;
roupa limpa é amor
que não se coça
e suspira.
746
Charles Bukowski
Mulher Adormecida
fico sentado na cama à noite e ouço você
roncar
conheci você numa estação rodoviária
e agora fico viajando nas suas costas
de um branco doentio e manchadas por
sardas de criança
enquanto a lâmpada desnuda a insolúvel
tristeza do mundo
sobre o seu corpo.
não consigo ver seus pés
mas só posso deduzir que sejam
os mais encantadores pés.
a quem você pertence?
você é real?
eu penso em flores, animais, pássaros
todos eles parecem mais do que bons
e tão claramente
reais.
mas você não consegue evitar ser uma
mulher. cada um de nós é selecionado para ser
algo. a aranha, o cozinheiro.
o elefante. é como se fôssemos cada um
uma pintura pendurada em alguma
parede de galeria.
– e agora a pintura se vira
de costas, e por cima de um cotovelo curvado
consigo ver ½ boca, um olho e
quase um nariz.
o resto de você está escondido
fora de vista
mas sei que você é uma
obra
contemporânea, moderna e viva
talvez não imortal
mas nós já
amamos.
por favor continue a
roncar.
roncar
conheci você numa estação rodoviária
e agora fico viajando nas suas costas
de um branco doentio e manchadas por
sardas de criança
enquanto a lâmpada desnuda a insolúvel
tristeza do mundo
sobre o seu corpo.
não consigo ver seus pés
mas só posso deduzir que sejam
os mais encantadores pés.
a quem você pertence?
você é real?
eu penso em flores, animais, pássaros
todos eles parecem mais do que bons
e tão claramente
reais.
mas você não consegue evitar ser uma
mulher. cada um de nós é selecionado para ser
algo. a aranha, o cozinheiro.
o elefante. é como se fôssemos cada um
uma pintura pendurada em alguma
parede de galeria.
– e agora a pintura se vira
de costas, e por cima de um cotovelo curvado
consigo ver ½ boca, um olho e
quase um nariz.
o resto de você está escondido
fora de vista
mas sei que você é uma
obra
contemporânea, moderna e viva
talvez não imortal
mas nós já
amamos.
por favor continue a
roncar.
742
Charles Bukowski
Anotação Fracionária
as flores estão queimando
as rochas estão derretendo
a porta está presa dentro da minha cabeça
faz trinta e oito graus em Hollywood
e o mensageiro tropeça
deixando cair a última mensagem num
buraco na terra
com 640 quilômetros de profundidade.
os filmes estão piores do que nunca
e os livros mortos de homens mortos são leituras mortas.
os ratos brancos correm na esteira.
os bares fedem em escuridão pantanosa
enquanto os solitários não satisfazem os solitários.
não existe clareza.
não era pra existir desde o começo.
o sol está diminuindo, dizem.
esperem pra ver.
o molho late feito um cão.
se eu tivesse uma avó
minha avó poderia surrar a sua
avó.
queda livre.
sujeira livre.
qualquer merda custa dinheiro.
dê uma olhada nos anúncios de venda...
agora todo mundo está cantando ao mesmo tempo
vozes terríveis
saídas de gargantas rasgadas.
horas de treino.
é quase totalmente desperdício.
o arrependimento é principalmente causado por não termos
feito nada.
a mente late feito um cão.
passe o molho.
esse é o arranjo no longo caminho rumo ao
esquecimento.
data da próxima leitura do medidor:
20 DE JUNHO.
e eu me sinto bem.
as rochas estão derretendo
a porta está presa dentro da minha cabeça
faz trinta e oito graus em Hollywood
e o mensageiro tropeça
deixando cair a última mensagem num
buraco na terra
com 640 quilômetros de profundidade.
os filmes estão piores do que nunca
e os livros mortos de homens mortos são leituras mortas.
os ratos brancos correm na esteira.
os bares fedem em escuridão pantanosa
enquanto os solitários não satisfazem os solitários.
não existe clareza.
não era pra existir desde o começo.
o sol está diminuindo, dizem.
esperem pra ver.
o molho late feito um cão.
se eu tivesse uma avó
minha avó poderia surrar a sua
avó.
queda livre.
sujeira livre.
qualquer merda custa dinheiro.
dê uma olhada nos anúncios de venda...
agora todo mundo está cantando ao mesmo tempo
vozes terríveis
saídas de gargantas rasgadas.
horas de treino.
é quase totalmente desperdício.
o arrependimento é principalmente causado por não termos
feito nada.
a mente late feito um cão.
passe o molho.
esse é o arranjo no longo caminho rumo ao
esquecimento.
data da próxima leitura do medidor:
20 DE JUNHO.
e eu me sinto bem.
1 143
Charles Bukowski
Eu Provo As Cinzas da Sua Morte
as florações agitam
água súbita
por minha manga,
água súbita
fresca e limpa
como neve –
enquanto as espadas
de caules afiados
avançam
contra seu peito
e as doces selvagens
rochas
saltam por cima
e
nos prendem.
água súbita
por minha manga,
água súbita
fresca e limpa
como neve –
enquanto as espadas
de caules afiados
avançam
contra seu peito
e as doces selvagens
rochas
saltam por cima
e
nos prendem.
677
Charles Bukowski
Um Poema Ordinário
já que vocês sempre quiseram
saber vou admitir que nunca gostei de Shakespeare, Browning, das
irmãs Brontë,
de Tolstói, beisebol, verões no litoral, queda
de braço, hóquei, Thomas Mann, Vivaldi, Winston Churchill, Dudley
Moore, verso livre,
pizza, boliche, os Jogos Olímpicos, os Três Patetas, os Irmãos
Marx, Ives, Al Jolson, Bob Hope, Frank Sinatra, Mickey
Mouse, basquete,
pais, mães, primos, esposas, morar junto (embora preferível à
opção anterior),
e não gosto da Suíte do Quebra-Nozes, da entrega do Oscar, de Hawthorne,
Melville, torta de abóbora, véspera de Ano-Novo, Natal, Dia do Trabalho,
Quatro de Julho, Ação de Graças, Sexta-feira Santa, The Who,
Bacon, Dr. Spock, Blackstone e Berlioz, Franz
Liszt, meia-calça,
piolhos, pulgas, peixe-dourado, caranguejos, aranhas, guerra
heróis, voos espaciais, camelos (não confio em camelos) ou da
Bíblia,
Updike, Erica Jong, Corso, bartenders, moscas-das-frutas, Jane
Fonda,
igrejas, casamentos, nascimentos, noticiários, cães
de guarda, rifles .22, Henry
Fonda
e todas as mulheres que deveriam ter me amado mas
não amaram e
o primeiro dia da primavera e o
último
e o primeiro verso deste poema
e este aqui
que você está lendo
agora.
saber vou admitir que nunca gostei de Shakespeare, Browning, das
irmãs Brontë,
de Tolstói, beisebol, verões no litoral, queda
de braço, hóquei, Thomas Mann, Vivaldi, Winston Churchill, Dudley
Moore, verso livre,
pizza, boliche, os Jogos Olímpicos, os Três Patetas, os Irmãos
Marx, Ives, Al Jolson, Bob Hope, Frank Sinatra, Mickey
Mouse, basquete,
pais, mães, primos, esposas, morar junto (embora preferível à
opção anterior),
e não gosto da Suíte do Quebra-Nozes, da entrega do Oscar, de Hawthorne,
Melville, torta de abóbora, véspera de Ano-Novo, Natal, Dia do Trabalho,
Quatro de Julho, Ação de Graças, Sexta-feira Santa, The Who,
Bacon, Dr. Spock, Blackstone e Berlioz, Franz
Liszt, meia-calça,
piolhos, pulgas, peixe-dourado, caranguejos, aranhas, guerra
heróis, voos espaciais, camelos (não confio em camelos) ou da
Bíblia,
Updike, Erica Jong, Corso, bartenders, moscas-das-frutas, Jane
Fonda,
igrejas, casamentos, nascimentos, noticiários, cães
de guarda, rifles .22, Henry
Fonda
e todas as mulheres que deveriam ter me amado mas
não amaram e
o primeiro dia da primavera e o
último
e o primeiro verso deste poema
e este aqui
que você está lendo
agora.
1 143
Charles Bukowski
Apenas Uma Noite
a mais recente aparelhagem pendendo sobre meu travesseiro recebe
luz da rua pela janela por entre a névoa do álcool
eu era o filhote de uma puritana que me surrava quando
o vento agitava folhas de relva que os olhos conseguiam ver
se mexendo e
você era uma
menina do convento observando as freiras espanarem
a areia de Las Cruces dos mantos de Deus.
você é
o ramalhete
de ontem tão tristemente
invadido. eu beijo seus pobres
seios enquanto minhas mãos tateiam em busca do amor
neste apartamento barato em Hollywood cheirando a
pão e gás e tristeza.
avançamos por rotas lembradas
os mesmos degraus velhos de guerra lisinhos com centenas de
passos, 50 amores, 20 anos.
e nos concedem um verão muito pequeno, e
aí já é
inverno de novo
e você está arrastando pelo piso
uma coisa pesada e embaraçosa
e a descarga soa no banheiro, um cão late
a porta de um carro é batida com força...
algo nos fugiu inescapavelmente, tudo,
ao que parece, e eu acendo um cigarro e
aguardo a mais velha maldição
de todas.
luz da rua pela janela por entre a névoa do álcool
eu era o filhote de uma puritana que me surrava quando
o vento agitava folhas de relva que os olhos conseguiam ver
se mexendo e
você era uma
menina do convento observando as freiras espanarem
a areia de Las Cruces dos mantos de Deus.
você é
o ramalhete
de ontem tão tristemente
invadido. eu beijo seus pobres
seios enquanto minhas mãos tateiam em busca do amor
neste apartamento barato em Hollywood cheirando a
pão e gás e tristeza.
avançamos por rotas lembradas
os mesmos degraus velhos de guerra lisinhos com centenas de
passos, 50 amores, 20 anos.
e nos concedem um verão muito pequeno, e
aí já é
inverno de novo
e você está arrastando pelo piso
uma coisa pesada e embaraçosa
e a descarga soa no banheiro, um cão late
a porta de um carro é batida com força...
algo nos fugiu inescapavelmente, tudo,
ao que parece, e eu acendo um cigarro e
aguardo a mais velha maldição
de todas.
1 030
Charles Bukowski
Apenas Uma Noite
a mais recente aparelhagem pendendo sobre meu travesseiro recebe
luz da rua pela janela por entre a névoa do álcool
eu era o filhote de uma puritana que me surrava quando
o vento agitava folhas de relva que os olhos conseguiam ver
se mexendo e
você era uma
menina do convento observando as freiras espanarem
a areia de Las Cruces dos mantos de Deus.
você é
o ramalhete
de ontem tão tristemente
invadido. eu beijo seus pobres
seios enquanto minhas mãos tateiam em busca do amor
neste apartamento barato em Hollywood cheirando a
pão e gás e tristeza.
avançamos por rotas lembradas
os mesmos degraus velhos de guerra lisinhos com centenas de
passos, 50 amores, 20 anos.
e nos concedem um verão muito pequeno, e
aí já é
inverno de novo
e você está arrastando pelo piso
uma coisa pesada e embaraçosa
e a descarga soa no banheiro, um cão late
a porta de um carro é batida com força...
algo nos fugiu inescapavelmente, tudo,
ao que parece, e eu acendo um cigarro e
aguardo a mais velha maldição
de todas.
luz da rua pela janela por entre a névoa do álcool
eu era o filhote de uma puritana que me surrava quando
o vento agitava folhas de relva que os olhos conseguiam ver
se mexendo e
você era uma
menina do convento observando as freiras espanarem
a areia de Las Cruces dos mantos de Deus.
você é
o ramalhete
de ontem tão tristemente
invadido. eu beijo seus pobres
seios enquanto minhas mãos tateiam em busca do amor
neste apartamento barato em Hollywood cheirando a
pão e gás e tristeza.
avançamos por rotas lembradas
os mesmos degraus velhos de guerra lisinhos com centenas de
passos, 50 amores, 20 anos.
e nos concedem um verão muito pequeno, e
aí já é
inverno de novo
e você está arrastando pelo piso
uma coisa pesada e embaraçosa
e a descarga soa no banheiro, um cão late
a porta de um carro é batida com força...
algo nos fugiu inescapavelmente, tudo,
ao que parece, e eu acendo um cigarro e
aguardo a mais velha maldição
de todas.
1 030
Charles Bukowski
Você Fica Tão Sozinho Às Vezes Que Até Faz Sentido
quando era um escritor passando fome eu costumava ler os principais escritores nas
principais revistas (na biblioteca, é claro) e isso me deixava
muito mal porque – sendo um estudante da palavra e do percurso, eu percebia
que eles eram impostores: eu conseguia captar cada emoção falsa, cada
fingimento rematado, eu acabava sentindo que os editores viviam
no mundo da lua – ou sofriam pressão política para publicar
panelinhas de poder
mas
eu apenas continuei escrevendo e não comendo muito – caí de 89 quilos
para 62 – mas – adquiri muita prática datilografando e lendo cartas de rejeição
impressas.
foi quando cheguei aos 62 quilos que eu disse, que vá tudo pro inferno, parei
de datilografar e me concentrei na bebida e nas ruas e nas damas das
ruas – pelo menos aquelas pessoas não liam a Harper’s, The Atlantic ou
Poetry, a magazine of verse.
e francamente, foi uma justa e refrescante folga de dez anos
então voltei e tentei de novo para constatar que os editores ainda viviam
no mundo da lua e/ou etc.
mas eu tinha subido a 102 quilos
descansado
e cheio de música de fundo –
pronto para dar mais um tiro no
escuro.
principais revistas (na biblioteca, é claro) e isso me deixava
muito mal porque – sendo um estudante da palavra e do percurso, eu percebia
que eles eram impostores: eu conseguia captar cada emoção falsa, cada
fingimento rematado, eu acabava sentindo que os editores viviam
no mundo da lua – ou sofriam pressão política para publicar
panelinhas de poder
mas
eu apenas continuei escrevendo e não comendo muito – caí de 89 quilos
para 62 – mas – adquiri muita prática datilografando e lendo cartas de rejeição
impressas.
foi quando cheguei aos 62 quilos que eu disse, que vá tudo pro inferno, parei
de datilografar e me concentrei na bebida e nas ruas e nas damas das
ruas – pelo menos aquelas pessoas não liam a Harper’s, The Atlantic ou
Poetry, a magazine of verse.
e francamente, foi uma justa e refrescante folga de dez anos
então voltei e tentei de novo para constatar que os editores ainda viviam
no mundo da lua e/ou etc.
mas eu tinha subido a 102 quilos
descansado
e cheio de música de fundo –
pronto para dar mais um tiro no
escuro.
943
Charles Bukowski
Além do Ponto
de algum modo ele havia me localizado de novo – ele estava no telefone – falando
sobre os velhos tempos –
que fim será que levou Michael ou Ken ou
Julie Anne? –
e você lembra...?
– também
havia seus problemas atuais –
– ele era um falante – sempre tinha sido um
falante –
e eu tinha sido um
ouvinte
eu tinha escutado porque não queria
magoá-lo
pedindo que ele calasse a boca
como os outros
faziam
nos velhos
tempos
agora
ele estava de volta
e
eu segurei o fone longe da orelha
braço esticado
e ainda conseguia escutar o
som –
eu dei o fone à minha namorada e
ela ouviu por um
tempo –
afinal
peguei o fone e disse a ele –
ei, cara, a gente precisa encerrar, a carne tá queimando
no forno!
ele disse, ok, cara, eu te ligo
de volta –
(uma coisa eu lembrava do meu
velho amigo: ele cumpria o que
prometia)
coloquei o fone de volta no
gancho –
– nós não temos nenhuma carne no
forno, disse a minha
namorada –
– sim, nós temos, eu disse a ela,
sou eu.
sobre os velhos tempos –
que fim será que levou Michael ou Ken ou
Julie Anne? –
e você lembra...?
– também
havia seus problemas atuais –
– ele era um falante – sempre tinha sido um
falante –
e eu tinha sido um
ouvinte
eu tinha escutado porque não queria
magoá-lo
pedindo que ele calasse a boca
como os outros
faziam
nos velhos
tempos
agora
ele estava de volta
e
eu segurei o fone longe da orelha
braço esticado
e ainda conseguia escutar o
som –
eu dei o fone à minha namorada e
ela ouviu por um
tempo –
afinal
peguei o fone e disse a ele –
ei, cara, a gente precisa encerrar, a carne tá queimando
no forno!
ele disse, ok, cara, eu te ligo
de volta –
(uma coisa eu lembrava do meu
velho amigo: ele cumpria o que
prometia)
coloquei o fone de volta no
gancho –
– nós não temos nenhuma carne no
forno, disse a minha
namorada –
– sim, nós temos, eu disse a ela,
sou eu.
973
Charles Bukowski
O Dia Em Que Joguei Pela Janela Uma Grana Preta
e, eu disse, você pode pegar seus ricos tios e tias
e avós e pais
e todo aquele petróleo escroto deles
e seus sete lagos
e seus selvagens perus
e búfalos
e o estado inteiro do Texas,
quer dizer, seus fuzilamentos de corvos
e seus calçadões de sábado à noite,
e sua biblioteca de meia-tigela
e seus vereadores corruptos
e seus artistas veadinhos –
você pode pegar tudo isso
e o seu jornal semanal
e os seus famosos tornados
e as suas enchentes imundas
e todos os seus gatos uivantes
e a sua assinatura da Time,
e enfiar lá, bebê,
enfiar lá.
posso empunhar de novo a picareta e o machado (acho)
e posso descolar
25 pratas por uma luta de 4 assaltos (talvez);
claro, estou com 38
mas um pouco de tintura pode tirar o grisalho
do meu cabelo;
e ainda consigo escrever poemas (às vezes),
não se esqueça disso, e mesmo que
não rendam nada,
é melhor do que esperar por mortes e petróleo,
e atirar em perus selvagens,
e esperar que o mundo
comece.
tá bom, vagabundo, ela disse,
cai fora.
o quê?, eu disse
cai fora. você teve o seu último
acesso de fúria.
cansei dos seus malditos acessos de fúria:
você está sempre agindo como um
personagem
de uma peça de O’Neill.
mas eu sou diferente, bebê,
não consigo
evitar.
você é diferente, tá bom!
meu Deus, quanta diferença!
não bata
a porta
quando sair.
mas, bebê, eu amo o seu
dinheiro!
você nunca me disse
que me ama!
o que você quer
um mentiroso ou um
amante?
você não é nenhum dos dois! fora, vagabundo,
fora!
...mas bebê!
volte pro O’Neill!
fui até a porta,
fechei-a sem barulho e fui embora,
pensando: tudo que elas querem
é um índio de madeira
que diga sim e não
e fique parado acima do fogo e
não infernize demais;
mas você já está ficando
velho, garoto;
da próxima vez não abra
tanto
o jogo.
e avós e pais
e todo aquele petróleo escroto deles
e seus sete lagos
e seus selvagens perus
e búfalos
e o estado inteiro do Texas,
quer dizer, seus fuzilamentos de corvos
e seus calçadões de sábado à noite,
e sua biblioteca de meia-tigela
e seus vereadores corruptos
e seus artistas veadinhos –
você pode pegar tudo isso
e o seu jornal semanal
e os seus famosos tornados
e as suas enchentes imundas
e todos os seus gatos uivantes
e a sua assinatura da Time,
e enfiar lá, bebê,
enfiar lá.
posso empunhar de novo a picareta e o machado (acho)
e posso descolar
25 pratas por uma luta de 4 assaltos (talvez);
claro, estou com 38
mas um pouco de tintura pode tirar o grisalho
do meu cabelo;
e ainda consigo escrever poemas (às vezes),
não se esqueça disso, e mesmo que
não rendam nada,
é melhor do que esperar por mortes e petróleo,
e atirar em perus selvagens,
e esperar que o mundo
comece.
tá bom, vagabundo, ela disse,
cai fora.
o quê?, eu disse
cai fora. você teve o seu último
acesso de fúria.
cansei dos seus malditos acessos de fúria:
você está sempre agindo como um
personagem
de uma peça de O’Neill.
mas eu sou diferente, bebê,
não consigo
evitar.
você é diferente, tá bom!
meu Deus, quanta diferença!
não bata
a porta
quando sair.
mas, bebê, eu amo o seu
dinheiro!
você nunca me disse
que me ama!
o que você quer
um mentiroso ou um
amante?
você não é nenhum dos dois! fora, vagabundo,
fora!
...mas bebê!
volte pro O’Neill!
fui até a porta,
fechei-a sem barulho e fui embora,
pensando: tudo que elas querem
é um índio de madeira
que diga sim e não
e fique parado acima do fogo e
não infernize demais;
mas você já está ficando
velho, garoto;
da próxima vez não abra
tanto
o jogo.
1 179
Charles Bukowski
Um Encontro Trágico
eu era mais visível e disponível naquele tempo
e eu tinha uma grande fraqueza:
eu achava que ir pra cama com várias mulheres
significava que um homem era esperto e bom e
superior
sobretudo se aos 55 anos de
idade
conseguisse traçar inúmeras gatinhas
e eu levantava pesos
bebia feito um louco
e fazia
isso.
as mulheres eram na maioria legais
e na maioria eram bonitas
e só uma ou outra era realmente burra e
sem graça
mas JoJo
eu não consigo nem mesmo categorizar.
suas cartas eram sucintas, repetiam
as mesmas coisas:
“eu gosto dos seus livros, gostaria de
conhecê-lo...”
eu escrevi de volta e lhe disse
que
tudo bem.
então vieram as instruções
sobre onde eu deveria
encontrá-la: em tal faculdade
em tal data
a tal hora
logo depois de suas
aulas.
a faculdade ficava no alto das
colinas e
o dia e a hora
chegaram
e com seus desenhos
de ruas serpenteantes
mais um mapa rodoviário
eu parti.
era em algum lugar entre o Rose Bowl
e um dos maiores cemitérios do
sul da Califórnia
e eu cheguei cedo e fiquei sentado no meu
carro
bebericando meu Cutty Sark
e olhando as
aluninhas – havia tantas
delas, simplesmente não dava para
pegar todas.
então soou a campainha e eu saí do meu
carro e andei até a frente do
prédio, havia uma longa sequência de
degraus e os estudantes saíram do
prédio e desceram os degraus
e eu fiquei parado
esperando, e como numa chegada
em aeroporto
eu não fazia ideia
de quem
seria.
“Chinaski”, alguém disse
e lá estava ela: 18, 19 anos,
nem feia nem linda, com
corpo e feições medianos,
parecendo não ser feroz,
inteligente, burra e tampouco
louca.
demos um leve beijo e aí
perguntei se ela
estava de carro
e ela disse
que estava de carro
e eu disse “tá bom, te levo no meu
até ele, depois você me
segue...”
JoJo era uma boa seguidora, ela me seguiu o
caminho todo até a minha ruazinha decaída no leste
de Hollywood.
eu lhe servi uma bebida e nós conversamos um
papo muito insípido e nos beijamos um
pouco.
os beijos não eram nem bons nem ruins
tampouco interessantes ou
desinteressantes.
bastante tempo se passou e ela bebeu bem
pouco
e nós nos beijamos um pouco mais e ela disse
“eu gosto dos seus livros, eles realmente me
afetam”.
“Meus livros que se fodam!”, eu falei.
eu já estava de cueca e tinha puxado sua
saia bunda acima
e eu estava me esforçando muito
mas ela só beijava e
falava.
ela correspondia e ela não
correspondia.
então
desisti e comecei a beber
pra valer.
ela mencionou alguns dos outros
escritores
dos quais gostava
mas ela não gostava de nenhum deles
do jeito como gostava
de mim.
“ah”, eu enchi meu copo, “é
mesmo?”
“preciso ir”, JoJo disse,
“tenho uma aula de
manhã.”
“você pode dormir aqui”, eu sugeri, “e
acordar cedo, sou ótimo nos ovos
mexidos.”
“não, obrigada, eu preciso
ir...”
e ela foi embora com
vários exemplares de livros meus
que ela nunca tinha visto
antes,
exemplares que eu lhe dera
bem mais cedo naquela
noite.
bebi mais uma dose e decidi
dormir para esquecer
aquela inexplicável
perda.
desliguei as luzes
e me joguei na
cama sem
me lavar ou
escovar os
dentes.
olhei para o alto no escuro
e pensei, eis aqui uma mulher
sobre a qual nunca serei capaz
de escrever:
ela não era nem boa nem ruim,
real ou irreal, amável ou
desamável, ela era só uma garota
de uma faculdade
em algum lugar entre o Rose Bowl e
o lixão.
então me veio uma coceira, eu me
cocei, eu parecia sentir coisas
no meu rosto, na minha barriga, eu respirei fundo,
soltei o ar, tentei dormir mas
a coceira piorou, então
senti uma mordida, então diversas mordidas,
coisas pareciam estar
rastejando na minha pele...
corri até o banheiro
e acendi a luz
meu Deus, JoJo tinha pulgas.
entrei no chuveiro
fiquei ali
ajustando a água,
pensando,
aquela
pobre
querida.
e eu tinha uma grande fraqueza:
eu achava que ir pra cama com várias mulheres
significava que um homem era esperto e bom e
superior
sobretudo se aos 55 anos de
idade
conseguisse traçar inúmeras gatinhas
e eu levantava pesos
bebia feito um louco
e fazia
isso.
as mulheres eram na maioria legais
e na maioria eram bonitas
e só uma ou outra era realmente burra e
sem graça
mas JoJo
eu não consigo nem mesmo categorizar.
suas cartas eram sucintas, repetiam
as mesmas coisas:
“eu gosto dos seus livros, gostaria de
conhecê-lo...”
eu escrevi de volta e lhe disse
que
tudo bem.
então vieram as instruções
sobre onde eu deveria
encontrá-la: em tal faculdade
em tal data
a tal hora
logo depois de suas
aulas.
a faculdade ficava no alto das
colinas e
o dia e a hora
chegaram
e com seus desenhos
de ruas serpenteantes
mais um mapa rodoviário
eu parti.
era em algum lugar entre o Rose Bowl
e um dos maiores cemitérios do
sul da Califórnia
e eu cheguei cedo e fiquei sentado no meu
carro
bebericando meu Cutty Sark
e olhando as
aluninhas – havia tantas
delas, simplesmente não dava para
pegar todas.
então soou a campainha e eu saí do meu
carro e andei até a frente do
prédio, havia uma longa sequência de
degraus e os estudantes saíram do
prédio e desceram os degraus
e eu fiquei parado
esperando, e como numa chegada
em aeroporto
eu não fazia ideia
de quem
seria.
“Chinaski”, alguém disse
e lá estava ela: 18, 19 anos,
nem feia nem linda, com
corpo e feições medianos,
parecendo não ser feroz,
inteligente, burra e tampouco
louca.
demos um leve beijo e aí
perguntei se ela
estava de carro
e ela disse
que estava de carro
e eu disse “tá bom, te levo no meu
até ele, depois você me
segue...”
JoJo era uma boa seguidora, ela me seguiu o
caminho todo até a minha ruazinha decaída no leste
de Hollywood.
eu lhe servi uma bebida e nós conversamos um
papo muito insípido e nos beijamos um
pouco.
os beijos não eram nem bons nem ruins
tampouco interessantes ou
desinteressantes.
bastante tempo se passou e ela bebeu bem
pouco
e nós nos beijamos um pouco mais e ela disse
“eu gosto dos seus livros, eles realmente me
afetam”.
“Meus livros que se fodam!”, eu falei.
eu já estava de cueca e tinha puxado sua
saia bunda acima
e eu estava me esforçando muito
mas ela só beijava e
falava.
ela correspondia e ela não
correspondia.
então
desisti e comecei a beber
pra valer.
ela mencionou alguns dos outros
escritores
dos quais gostava
mas ela não gostava de nenhum deles
do jeito como gostava
de mim.
“ah”, eu enchi meu copo, “é
mesmo?”
“preciso ir”, JoJo disse,
“tenho uma aula de
manhã.”
“você pode dormir aqui”, eu sugeri, “e
acordar cedo, sou ótimo nos ovos
mexidos.”
“não, obrigada, eu preciso
ir...”
e ela foi embora com
vários exemplares de livros meus
que ela nunca tinha visto
antes,
exemplares que eu lhe dera
bem mais cedo naquela
noite.
bebi mais uma dose e decidi
dormir para esquecer
aquela inexplicável
perda.
desliguei as luzes
e me joguei na
cama sem
me lavar ou
escovar os
dentes.
olhei para o alto no escuro
e pensei, eis aqui uma mulher
sobre a qual nunca serei capaz
de escrever:
ela não era nem boa nem ruim,
real ou irreal, amável ou
desamável, ela era só uma garota
de uma faculdade
em algum lugar entre o Rose Bowl e
o lixão.
então me veio uma coceira, eu me
cocei, eu parecia sentir coisas
no meu rosto, na minha barriga, eu respirei fundo,
soltei o ar, tentei dormir mas
a coceira piorou, então
senti uma mordida, então diversas mordidas,
coisas pareciam estar
rastejando na minha pele...
corri até o banheiro
e acendi a luz
meu Deus, JoJo tinha pulgas.
entrei no chuveiro
fiquei ali
ajustando a água,
pensando,
aquela
pobre
querida.
1 211
Charles Bukowski
Um Encontro Trágico
eu era mais visível e disponível naquele tempo
e eu tinha uma grande fraqueza:
eu achava que ir pra cama com várias mulheres
significava que um homem era esperto e bom e
superior
sobretudo se aos 55 anos de
idade
conseguisse traçar inúmeras gatinhas
e eu levantava pesos
bebia feito um louco
e fazia
isso.
as mulheres eram na maioria legais
e na maioria eram bonitas
e só uma ou outra era realmente burra e
sem graça
mas JoJo
eu não consigo nem mesmo categorizar.
suas cartas eram sucintas, repetiam
as mesmas coisas:
“eu gosto dos seus livros, gostaria de
conhecê-lo...”
eu escrevi de volta e lhe disse
que
tudo bem.
então vieram as instruções
sobre onde eu deveria
encontrá-la: em tal faculdade
em tal data
a tal hora
logo depois de suas
aulas.
a faculdade ficava no alto das
colinas e
o dia e a hora
chegaram
e com seus desenhos
de ruas serpenteantes
mais um mapa rodoviário
eu parti.
era em algum lugar entre o Rose Bowl
e um dos maiores cemitérios do
sul da Califórnia
e eu cheguei cedo e fiquei sentado no meu
carro
bebericando meu Cutty Sark
e olhando as
aluninhas – havia tantas
delas, simplesmente não dava para
pegar todas.
então soou a campainha e eu saí do meu
carro e andei até a frente do
prédio, havia uma longa sequência de
degraus e os estudantes saíram do
prédio e desceram os degraus
e eu fiquei parado
esperando, e como numa chegada
em aeroporto
eu não fazia ideia
de quem
seria.
“Chinaski”, alguém disse
e lá estava ela: 18, 19 anos,
nem feia nem linda, com
corpo e feições medianos,
parecendo não ser feroz,
inteligente, burra e tampouco
louca.
demos um leve beijo e aí
perguntei se ela
estava de carro
e ela disse
que estava de carro
e eu disse “tá bom, te levo no meu
até ele, depois você me
segue...”
JoJo era uma boa seguidora, ela me seguiu o
caminho todo até a minha ruazinha decaída no leste
de Hollywood.
eu lhe servi uma bebida e nós conversamos um
papo muito insípido e nos beijamos um
pouco.
os beijos não eram nem bons nem ruins
tampouco interessantes ou
desinteressantes.
bastante tempo se passou e ela bebeu bem
pouco
e nós nos beijamos um pouco mais e ela disse
“eu gosto dos seus livros, eles realmente me
afetam”.
“Meus livros que se fodam!”, eu falei.
eu já estava de cueca e tinha puxado sua
saia bunda acima
e eu estava me esforçando muito
mas ela só beijava e
falava.
ela correspondia e ela não
correspondia.
então
desisti e comecei a beber
pra valer.
ela mencionou alguns dos outros
escritores
dos quais gostava
mas ela não gostava de nenhum deles
do jeito como gostava
de mim.
“ah”, eu enchi meu copo, “é
mesmo?”
“preciso ir”, JoJo disse,
“tenho uma aula de
manhã.”
“você pode dormir aqui”, eu sugeri, “e
acordar cedo, sou ótimo nos ovos
mexidos.”
“não, obrigada, eu preciso
ir...”
e ela foi embora com
vários exemplares de livros meus
que ela nunca tinha visto
antes,
exemplares que eu lhe dera
bem mais cedo naquela
noite.
bebi mais uma dose e decidi
dormir para esquecer
aquela inexplicável
perda.
desliguei as luzes
e me joguei na
cama sem
me lavar ou
escovar os
dentes.
olhei para o alto no escuro
e pensei, eis aqui uma mulher
sobre a qual nunca serei capaz
de escrever:
ela não era nem boa nem ruim,
real ou irreal, amável ou
desamável, ela era só uma garota
de uma faculdade
em algum lugar entre o Rose Bowl e
o lixão.
então me veio uma coceira, eu me
cocei, eu parecia sentir coisas
no meu rosto, na minha barriga, eu respirei fundo,
soltei o ar, tentei dormir mas
a coceira piorou, então
senti uma mordida, então diversas mordidas,
coisas pareciam estar
rastejando na minha pele...
corri até o banheiro
e acendi a luz
meu Deus, JoJo tinha pulgas.
entrei no chuveiro
fiquei ali
ajustando a água,
pensando,
aquela
pobre
querida.
e eu tinha uma grande fraqueza:
eu achava que ir pra cama com várias mulheres
significava que um homem era esperto e bom e
superior
sobretudo se aos 55 anos de
idade
conseguisse traçar inúmeras gatinhas
e eu levantava pesos
bebia feito um louco
e fazia
isso.
as mulheres eram na maioria legais
e na maioria eram bonitas
e só uma ou outra era realmente burra e
sem graça
mas JoJo
eu não consigo nem mesmo categorizar.
suas cartas eram sucintas, repetiam
as mesmas coisas:
“eu gosto dos seus livros, gostaria de
conhecê-lo...”
eu escrevi de volta e lhe disse
que
tudo bem.
então vieram as instruções
sobre onde eu deveria
encontrá-la: em tal faculdade
em tal data
a tal hora
logo depois de suas
aulas.
a faculdade ficava no alto das
colinas e
o dia e a hora
chegaram
e com seus desenhos
de ruas serpenteantes
mais um mapa rodoviário
eu parti.
era em algum lugar entre o Rose Bowl
e um dos maiores cemitérios do
sul da Califórnia
e eu cheguei cedo e fiquei sentado no meu
carro
bebericando meu Cutty Sark
e olhando as
aluninhas – havia tantas
delas, simplesmente não dava para
pegar todas.
então soou a campainha e eu saí do meu
carro e andei até a frente do
prédio, havia uma longa sequência de
degraus e os estudantes saíram do
prédio e desceram os degraus
e eu fiquei parado
esperando, e como numa chegada
em aeroporto
eu não fazia ideia
de quem
seria.
“Chinaski”, alguém disse
e lá estava ela: 18, 19 anos,
nem feia nem linda, com
corpo e feições medianos,
parecendo não ser feroz,
inteligente, burra e tampouco
louca.
demos um leve beijo e aí
perguntei se ela
estava de carro
e ela disse
que estava de carro
e eu disse “tá bom, te levo no meu
até ele, depois você me
segue...”
JoJo era uma boa seguidora, ela me seguiu o
caminho todo até a minha ruazinha decaída no leste
de Hollywood.
eu lhe servi uma bebida e nós conversamos um
papo muito insípido e nos beijamos um
pouco.
os beijos não eram nem bons nem ruins
tampouco interessantes ou
desinteressantes.
bastante tempo se passou e ela bebeu bem
pouco
e nós nos beijamos um pouco mais e ela disse
“eu gosto dos seus livros, eles realmente me
afetam”.
“Meus livros que se fodam!”, eu falei.
eu já estava de cueca e tinha puxado sua
saia bunda acima
e eu estava me esforçando muito
mas ela só beijava e
falava.
ela correspondia e ela não
correspondia.
então
desisti e comecei a beber
pra valer.
ela mencionou alguns dos outros
escritores
dos quais gostava
mas ela não gostava de nenhum deles
do jeito como gostava
de mim.
“ah”, eu enchi meu copo, “é
mesmo?”
“preciso ir”, JoJo disse,
“tenho uma aula de
manhã.”
“você pode dormir aqui”, eu sugeri, “e
acordar cedo, sou ótimo nos ovos
mexidos.”
“não, obrigada, eu preciso
ir...”
e ela foi embora com
vários exemplares de livros meus
que ela nunca tinha visto
antes,
exemplares que eu lhe dera
bem mais cedo naquela
noite.
bebi mais uma dose e decidi
dormir para esquecer
aquela inexplicável
perda.
desliguei as luzes
e me joguei na
cama sem
me lavar ou
escovar os
dentes.
olhei para o alto no escuro
e pensei, eis aqui uma mulher
sobre a qual nunca serei capaz
de escrever:
ela não era nem boa nem ruim,
real ou irreal, amável ou
desamável, ela era só uma garota
de uma faculdade
em algum lugar entre o Rose Bowl e
o lixão.
então me veio uma coceira, eu me
cocei, eu parecia sentir coisas
no meu rosto, na minha barriga, eu respirei fundo,
soltei o ar, tentei dormir mas
a coceira piorou, então
senti uma mordida, então diversas mordidas,
coisas pareciam estar
rastejando na minha pele...
corri até o banheiro
e acendi a luz
meu Deus, JoJo tinha pulgas.
entrei no chuveiro
fiquei ali
ajustando a água,
pensando,
aquela
pobre
querida.
1 211
Charles Bukowski
Puteiro
minha primeira experiência num puteiro
foi em Tijuana.
era uma casa enorme nos confins da
cidade.
eu tinha 17 anos, com dois amigos.
enchemos a cara para criar
coragem
aí fomos lá e
entramos.
o lugar estava lotado de
militares
principalmente
marinheiros.
os marinheiros formavam longas
filas
bradando e batendo nas
portas.
Lance entrou numa fila
pequena (as filas indicavam a
idade da puta: quanto menor a
fila mais velha a
puta)
e resolveu a
parada, saiu audaz e
sorridente: “bem, o que é que vocês
estão esperando?”
o outro cara, Jack, ele me passou
a garrafa de tequila e eu dei um
gole e passei de volta e ele
deu um gole.
Lance olhou para nós: “vou esperar
no carro, tirar minha soneca
reparadora”.
Jack e eu esperamos até ele
sumir
e aí começamos a andar na direção da
saída.
Jack estava usando um grande
sombreiro
e bem na saída havia uma
puta velha sentada numa
cadeira.
ela esticou a perna
barrando nosso
caminho: “ora, meninos, dou
gostoso pra vocês e
barato!”
de algum modo aquilo deixou
Jack cagado de medo e ele
disse “meu deus, eu vou
VOMITAR!”
“NÃO NO PISO!”, gritou
a puta
e sob tal aviso
Jack arrancou seu
sombreiro
e o segurando
diante de si
deve ter vomitado um
galão.
aí ele só ficou ali parado
olhando
aquilo nas mãos
e a puta
disse “fora
daqui!”
Jack correu porta afora com
seu sombreiro
e aí a puta
olhou para mim com um rosto muito
bondoso e disse:
“barato!” e eu entrei
num quarto com ela
e havia um homem gordo e grandalhão
sentado numa cadeira e
perguntei a ela “quem
é esse aí?”
e ela disse “ele está aqui pra
garantir que ninguém me
machuque”.
e eu fui até o
homem e disse “ei, como cê
tá?”
e ele disse “bem,
señor...”
e eu disse
“você mora por
aqui?”
e ele disse “dê
o dinheiro pra
ela”.
“quanto?”
“dois dólares.”
dei os dois dólares
à dama
então voltei até o
homem.
“pode ser que eu venha viver
no México um dia”, eu
disse a ele.
“dá o fora
daqui”, ele disse,
“AGORA!”
quando passei pela
saída
Jack ainda estava ali esperando
sem seu
sombreiro
mas ele ainda estava
cambaleando
de bêbado.
“meu Jesus”, eu disse, “ela foi
ótima, ela sem brincadeira botou minhas
bolas na
boca!”
nós fomos andando até o carro.
Lance estava desmaiado, nós
o acordamos e ele nos
levou
dali
de algum modo
nós passamos pela
fronteira
e rodamos todo
o caminho de volta para
L.A.
debochamos de Jack por ele ser um
virgem
cagão.
Lance debochou com
delicadeza
mas eu esbravejava
humilhando Jack por sua falta de
fibra
e não me calei
até Jack desmaiar
perto de
San Clemente.
fiquei ali ao lado de Lance
passando e repassando
a última garrafa de
tequila.
enquanto Los Angeles voava na nossa
direção
Jack perguntou “como é que
foi?”
e eu respondi
num tom de
conhecedor: “já peguei
melhores”.
foi em Tijuana.
era uma casa enorme nos confins da
cidade.
eu tinha 17 anos, com dois amigos.
enchemos a cara para criar
coragem
aí fomos lá e
entramos.
o lugar estava lotado de
militares
principalmente
marinheiros.
os marinheiros formavam longas
filas
bradando e batendo nas
portas.
Lance entrou numa fila
pequena (as filas indicavam a
idade da puta: quanto menor a
fila mais velha a
puta)
e resolveu a
parada, saiu audaz e
sorridente: “bem, o que é que vocês
estão esperando?”
o outro cara, Jack, ele me passou
a garrafa de tequila e eu dei um
gole e passei de volta e ele
deu um gole.
Lance olhou para nós: “vou esperar
no carro, tirar minha soneca
reparadora”.
Jack e eu esperamos até ele
sumir
e aí começamos a andar na direção da
saída.
Jack estava usando um grande
sombreiro
e bem na saída havia uma
puta velha sentada numa
cadeira.
ela esticou a perna
barrando nosso
caminho: “ora, meninos, dou
gostoso pra vocês e
barato!”
de algum modo aquilo deixou
Jack cagado de medo e ele
disse “meu deus, eu vou
VOMITAR!”
“NÃO NO PISO!”, gritou
a puta
e sob tal aviso
Jack arrancou seu
sombreiro
e o segurando
diante de si
deve ter vomitado um
galão.
aí ele só ficou ali parado
olhando
aquilo nas mãos
e a puta
disse “fora
daqui!”
Jack correu porta afora com
seu sombreiro
e aí a puta
olhou para mim com um rosto muito
bondoso e disse:
“barato!” e eu entrei
num quarto com ela
e havia um homem gordo e grandalhão
sentado numa cadeira e
perguntei a ela “quem
é esse aí?”
e ela disse “ele está aqui pra
garantir que ninguém me
machuque”.
e eu fui até o
homem e disse “ei, como cê
tá?”
e ele disse “bem,
señor...”
e eu disse
“você mora por
aqui?”
e ele disse “dê
o dinheiro pra
ela”.
“quanto?”
“dois dólares.”
dei os dois dólares
à dama
então voltei até o
homem.
“pode ser que eu venha viver
no México um dia”, eu
disse a ele.
“dá o fora
daqui”, ele disse,
“AGORA!”
quando passei pela
saída
Jack ainda estava ali esperando
sem seu
sombreiro
mas ele ainda estava
cambaleando
de bêbado.
“meu Jesus”, eu disse, “ela foi
ótima, ela sem brincadeira botou minhas
bolas na
boca!”
nós fomos andando até o carro.
Lance estava desmaiado, nós
o acordamos e ele nos
levou
dali
de algum modo
nós passamos pela
fronteira
e rodamos todo
o caminho de volta para
L.A.
debochamos de Jack por ele ser um
virgem
cagão.
Lance debochou com
delicadeza
mas eu esbravejava
humilhando Jack por sua falta de
fibra
e não me calei
até Jack desmaiar
perto de
San Clemente.
fiquei ali ao lado de Lance
passando e repassando
a última garrafa de
tequila.
enquanto Los Angeles voava na nossa
direção
Jack perguntou “como é que
foi?”
e eu respondi
num tom de
conhecedor: “já peguei
melhores”.
1 943
Charles Bukowski
Jon Edgar Webb
eu tive uma fase de poema lírico lá em New Orleans, martelando
uns versos gordos e roliços e
bebendo baldes de cerveja.
a sensação era de gritar num manicômio, o manicômio do
meu mundo
com os ratos dispersos em meio às
garrafas vazias.
às vezes eu entrava nos bares
mas não conseguia dar jeito com as pessoas que se sentavam nos
banquinhos:
os homens me evitavam e as mulheres ficavam aterrorizadas
comigo.
os bartenders pediam que eu
fosse embora.
eu ia, carregando com dificuldade os magníficos fardos de cerveja
no retorno ao quarto e aos ratos e àqueles gordos e roliços
versos.
aquela fase de poema lírico foi uma época de
doideira pura
e havia um editor logo ali na
esquina que
mandava toda e qualquer página para o prelo, nada
rejeitando
muito embora eu fosse desconhecido
ele me publicou em voraz papel
fabricado para durar
2.000 anos.
esse editor que era também o dono e
o impressor
mantinha o rosto sisudo enquanto eu lhe dava as dez ou
vinte páginas
toda manhã:
“isso é tudo?”
o louco daquele filho da puta, ele mesmo era um
poema
lírico.
uns versos gordos e roliços e
bebendo baldes de cerveja.
a sensação era de gritar num manicômio, o manicômio do
meu mundo
com os ratos dispersos em meio às
garrafas vazias.
às vezes eu entrava nos bares
mas não conseguia dar jeito com as pessoas que se sentavam nos
banquinhos:
os homens me evitavam e as mulheres ficavam aterrorizadas
comigo.
os bartenders pediam que eu
fosse embora.
eu ia, carregando com dificuldade os magníficos fardos de cerveja
no retorno ao quarto e aos ratos e àqueles gordos e roliços
versos.
aquela fase de poema lírico foi uma época de
doideira pura
e havia um editor logo ali na
esquina que
mandava toda e qualquer página para o prelo, nada
rejeitando
muito embora eu fosse desconhecido
ele me publicou em voraz papel
fabricado para durar
2.000 anos.
esse editor que era também o dono e
o impressor
mantinha o rosto sisudo enquanto eu lhe dava as dez ou
vinte páginas
toda manhã:
“isso é tudo?”
o louco daquele filho da puta, ele mesmo era um
poema
lírico.
1 171