Poemas neste tema
Vida e Existência
Charles Bukowski
Cinzas
peguei as cinzas dele, ela disse, e as lancei
ao mar e as espalhei e
elas nem sequer pareciam cinzas
e
o que dava peso à urna eram os
seixos verdes e azuis...
ele não lhe deixou nem um centavo de seus
milhões?
nada, ela disse.
mesmo depois de todos aqueles cafés da manhã
e almoços e jantares ao lado dele? depois
de ter escutado toda a merda que ele falava?
ele era um homem brilhante.
você sabe do que estou falando.
seja como for, eu fiquei com as cinzas. e você comeu
minhas irmãs.
nunca comi suas irmãs.
comeu sim.
comi uma delas.
qual?
a lésbica, respondi, ela me pagou o jantar e as bebidas,
não tive muita escolha.
estou indo, ela disse.
não se esqueça do frasco.
ela entrou para buscá-lo.
sobra tão pouco de você, ela disse, que quando você morre e eles te queimam precisam acrescentar uma porção de seixos verdes e azuis.
está bem, eu disse.
vejo você daqui a 6 meses! ela gritou e bateu a porta.
bem, pensei, creio que para me livrar dela terei que
comer a outra irmã. caminhei até o quarto e comecei a dar
uma olhada nos números de telefone. tudo o que eu
[lembrava
era que ela
vivia em San Mateo e tinha um ótimo
emprego.
ao mar e as espalhei e
elas nem sequer pareciam cinzas
e
o que dava peso à urna eram os
seixos verdes e azuis...
ele não lhe deixou nem um centavo de seus
milhões?
nada, ela disse.
mesmo depois de todos aqueles cafés da manhã
e almoços e jantares ao lado dele? depois
de ter escutado toda a merda que ele falava?
ele era um homem brilhante.
você sabe do que estou falando.
seja como for, eu fiquei com as cinzas. e você comeu
minhas irmãs.
nunca comi suas irmãs.
comeu sim.
comi uma delas.
qual?
a lésbica, respondi, ela me pagou o jantar e as bebidas,
não tive muita escolha.
estou indo, ela disse.
não se esqueça do frasco.
ela entrou para buscá-lo.
sobra tão pouco de você, ela disse, que quando você morre e eles te queimam precisam acrescentar uma porção de seixos verdes e azuis.
está bem, eu disse.
vejo você daqui a 6 meses! ela gritou e bateu a porta.
bem, pensei, creio que para me livrar dela terei que
comer a outra irmã. caminhei até o quarto e comecei a dar
uma olhada nos números de telefone. tudo o que eu
[lembrava
era que ela
vivia em San Mateo e tinha um ótimo
emprego.
1 163
Manuel Bandeira
Saudades do Rio Antigo
Vou-me embora pra Pasárgada.
Lá o rei não será deposto
E lá sou amigo do rei.
Aqui eu não sou feliz
A vida está cada vez
Mais cara, e a menor besteira
Nos custa os olhos da cara.
O trânsito é uma miséria:
Sair a pé pelas ruas
Desta capital cidade
É quase temeridade.
E eu não tenho cadilac
Para em vez de atropelado,
Atropelar sem piedade
Meus pedestres semelhantes.
Oh! que saudade que eu tenho
Do Rio como era dantes!
O Rio que tinha apenas
Quinhentos mil habitantes.
O Rio que conheci
Quando vim prá cá menino:
Meu velho Rio gostoso,
Cujos dias revivi
Lendo deliciadamente
O livro de Coaraci.
Cidade onde, rico ou pobre
Dava gosto se viver.
Hoje ninguém está contente.
Hoje, meu Deus, todo mundo
Traz na boca a cinza amarga
Da frustração... Minha gente,
Vou-me embora pra Pasárgada.
Lá o rei não será deposto
E lá sou amigo do rei.
Aqui eu não sou feliz
A vida está cada vez
Mais cara, e a menor besteira
Nos custa os olhos da cara.
O trânsito é uma miséria:
Sair a pé pelas ruas
Desta capital cidade
É quase temeridade.
E eu não tenho cadilac
Para em vez de atropelado,
Atropelar sem piedade
Meus pedestres semelhantes.
Oh! que saudade que eu tenho
Do Rio como era dantes!
O Rio que tinha apenas
Quinhentos mil habitantes.
O Rio que conheci
Quando vim prá cá menino:
Meu velho Rio gostoso,
Cujos dias revivi
Lendo deliciadamente
O livro de Coaraci.
Cidade onde, rico ou pobre
Dava gosto se viver.
Hoje ninguém está contente.
Hoje, meu Deus, todo mundo
Traz na boca a cinza amarga
Da frustração... Minha gente,
Vou-me embora pra Pasárgada.
1 240
Manuel Bandeira
No Aniversário de Maria da Glória
Trôpego, reumático, surdo,
Eu, poeta oficial da família,
Junto as últimas forças e urdo
Em mansa, amorosa vigília
Estes versos para Maria
Da Glória no glorioso dia!
Eu, poeta oficial da família,
Junto as últimas forças e urdo
Em mansa, amorosa vigília
Estes versos para Maria
Da Glória no glorioso dia!
1 059
Manuel Bandeira
Sônia Maria
Sônia, filha de Gilberto
E filha de Madalena,
Cumprirá em moça, decerto,
O que promete em pequena.
Não verei isso de perto,
Serei bem longe... Que pena!
E filha de Madalena,
Cumprirá em moça, decerto,
O que promete em pequena.
Não verei isso de perto,
Serei bem longe... Que pena!
1 009
Manuel Bandeira
Dedicatória de Opus 10
A Tiago e Pomona
A Tiago e Pomona ofereço
Meu Opus 10, exemplar A.
E com este voto ofereço:
Deus bem-fade a vida em começo
Do opus 1 deles, meu xará.
— Meu imprevisível xará.
A Tiago e Pomona ofereço
Meu Opus 10, exemplar A.
E com este voto ofereço:
Deus bem-fade a vida em começo
Do opus 1 deles, meu xará.
— Meu imprevisível xará.
612
Manuel Bandeira
Poema para Tuquinha
Você chamou Maria Helena "o anjo lindo de Tuquinha".
Na realidade você é que é o anjo lindo de Maria Helena,
O anjo lindo de Branca,
O anjo lindo de Branquinha,
O anjo lindo de Isabel,
O anjo lindo de Manuel,
O anjo lindo de nós todos.
Reze a Deus por nós, anjo lindo: aos anjos ele atende.
Na realidade você é que é o anjo lindo de Maria Helena,
O anjo lindo de Branca,
O anjo lindo de Branquinha,
O anjo lindo de Isabel,
O anjo lindo de Manuel,
O anjo lindo de nós todos.
Reze a Deus por nós, anjo lindo: aos anjos ele atende.
1 268
Manuel Bandeira
Poema para Tuquinha
Você chamou Maria Helena "o anjo lindo de Tuquinha".
Na realidade você é que é o anjo lindo de Maria Helena,
O anjo lindo de Branca,
O anjo lindo de Branquinha,
O anjo lindo de Isabel,
O anjo lindo de Manuel,
O anjo lindo de nós todos.
Reze a Deus por nós, anjo lindo: aos anjos ele atende.
Na realidade você é que é o anjo lindo de Maria Helena,
O anjo lindo de Branca,
O anjo lindo de Branquinha,
O anjo lindo de Isabel,
O anjo lindo de Manuel,
O anjo lindo de nós todos.
Reze a Deus por nós, anjo lindo: aos anjos ele atende.
1 268
Manuel Bandeira
Sonho de Uma Noite de Coca
O suplicante — Padre Nosso, que estás no céu, santificado seja o teu nome. Venha a nós o teu reino. Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu. O pó nosso de cada dia nos dá hoje...
O Senhor (interrompendo enternecidíssimo) — Toma lá, meu filho. Afinal tu és pó e em pó te converterás!
O Senhor (interrompendo enternecidíssimo) — Toma lá, meu filho. Afinal tu és pó e em pó te converterás!
738
Manuel Bandeira
Sonho de Uma Noite de Coca
O suplicante — Padre Nosso, que estás no céu, santificado seja o teu nome. Venha a nós o teu reino. Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu. O pó nosso de cada dia nos dá hoje...
O Senhor (interrompendo enternecidíssimo) — Toma lá, meu filho. Afinal tu és pó e em pó te converterás!
O Senhor (interrompendo enternecidíssimo) — Toma lá, meu filho. Afinal tu és pó e em pó te converterás!
738
Manuel Bandeira
Três Letras para Melodias de Villa-lobos
1/ MARCHINHA DAS TRÊS MARIAS
Quando já a luz do dia
Atrás das serras arde;
Quando desmaia a tarde
À lenta voz dos sinos:
Nos céus da minha terra,
Tão ricos de esperança,
Brilham na noite mansa
Três luzes, três destinos.
Tremem gentis, tremeluzem com fulgor,
Astros do meu anseio e meu amor,
A levantar meus olhos para Deus.
Três sóis, os três destinos
Da terra em que nascemos,
Pátria que estremecemos
No solo e em sua história:
Maria que és da Graça
(Da Graça e dos Amores),
Maria que és das Dores,
Maria que és da Glória.
Tremem gentis, tremeluzem com fulgor,
Astros do meu anseio e meu amor,
A levantar meus olhos para Deus.
II QUADRILHA
Roda, ciranda,
Por aí fora,
Chegou a hora
De cirandar!
Na tarde clara
Vinde ligeiras,
Ó companheiras,
Rir e dançar!
Moças que dançam
Nas horas breves
Dos sonhos leves,
Na doce idade
Das ilusões,
Guardam lembrança,
Boa lembrança
Da mocidade
Nos corações.
Roda, ciranda,
Como essas belas,
Gratas estrelas
Dos nossos céus!
Vamos, em rondas
Precipitadas,
Como levadas
Na asa dos véus!
Moças que dançam
Nas horas leves
Dos sonhos breves,
Na doce idade
Das ilusões,
Guardam lembrança
Boa lembrança,
Da mocidade
Nos corações.
III QUINTA BACHIANA
Irerê, meu passarinho
Do sertão do Cariri,
Irerê, meu companheiro,
Cadê viola?
Cadê meu bem?
Cadê Maria?
Ai triste sorte a do violeiro cantadó!
Sem a viola em que cantava o seu amô,
Seu assobio é tua flauta de irerê:
Que tua flauta do sertão quando assobia,
A gente sofre sem querê!
Teu canto chega lá do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração.
Irerê, solta teu canto!
Canta mais! Canta mais!
Pra alembrá o Cariri!
Canta, cambaxirra!
Canta, juriti!
Canta, irerê!
Canta, canta, sofrê!
Patativa! Bem-te-vi!
Maria-acorda-que-é-dia!
Cantem todos vocês,
Passarinhos do sertão!
Bem-te-vi!
Eh sabiá!
Lá! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh sabiá da mata cantadó!
Liá! liá! liá! liá!
Lá! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh sabiá da mata sofredó!
O vosso canto vem do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração.
Quando já a luz do dia
Atrás das serras arde;
Quando desmaia a tarde
À lenta voz dos sinos:
Nos céus da minha terra,
Tão ricos de esperança,
Brilham na noite mansa
Três luzes, três destinos.
Tremem gentis, tremeluzem com fulgor,
Astros do meu anseio e meu amor,
A levantar meus olhos para Deus.
Três sóis, os três destinos
Da terra em que nascemos,
Pátria que estremecemos
No solo e em sua história:
Maria que és da Graça
(Da Graça e dos Amores),
Maria que és das Dores,
Maria que és da Glória.
Tremem gentis, tremeluzem com fulgor,
Astros do meu anseio e meu amor,
A levantar meus olhos para Deus.
II QUADRILHA
Roda, ciranda,
Por aí fora,
Chegou a hora
De cirandar!
Na tarde clara
Vinde ligeiras,
Ó companheiras,
Rir e dançar!
Moças que dançam
Nas horas breves
Dos sonhos leves,
Na doce idade
Das ilusões,
Guardam lembrança,
Boa lembrança
Da mocidade
Nos corações.
Roda, ciranda,
Como essas belas,
Gratas estrelas
Dos nossos céus!
Vamos, em rondas
Precipitadas,
Como levadas
Na asa dos véus!
Moças que dançam
Nas horas leves
Dos sonhos breves,
Na doce idade
Das ilusões,
Guardam lembrança
Boa lembrança,
Da mocidade
Nos corações.
III QUINTA BACHIANA
Irerê, meu passarinho
Do sertão do Cariri,
Irerê, meu companheiro,
Cadê viola?
Cadê meu bem?
Cadê Maria?
Ai triste sorte a do violeiro cantadó!
Sem a viola em que cantava o seu amô,
Seu assobio é tua flauta de irerê:
Que tua flauta do sertão quando assobia,
A gente sofre sem querê!
Teu canto chega lá do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração.
Irerê, solta teu canto!
Canta mais! Canta mais!
Pra alembrá o Cariri!
Canta, cambaxirra!
Canta, juriti!
Canta, irerê!
Canta, canta, sofrê!
Patativa! Bem-te-vi!
Maria-acorda-que-é-dia!
Cantem todos vocês,
Passarinhos do sertão!
Bem-te-vi!
Eh sabiá!
Lá! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh sabiá da mata cantadó!
Liá! liá! liá! liá!
Lá! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh sabiá da mata sofredó!
O vosso canto vem do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração.
1 350
Manuel Bandeira
Três Letras para Melodias de Villa-lobos
1/ MARCHINHA DAS TRÊS MARIAS
Quando já a luz do dia
Atrás das serras arde;
Quando desmaia a tarde
À lenta voz dos sinos:
Nos céus da minha terra,
Tão ricos de esperança,
Brilham na noite mansa
Três luzes, três destinos.
Tremem gentis, tremeluzem com fulgor,
Astros do meu anseio e meu amor,
A levantar meus olhos para Deus.
Três sóis, os três destinos
Da terra em que nascemos,
Pátria que estremecemos
No solo e em sua história:
Maria que és da Graça
(Da Graça e dos Amores),
Maria que és das Dores,
Maria que és da Glória.
Tremem gentis, tremeluzem com fulgor,
Astros do meu anseio e meu amor,
A levantar meus olhos para Deus.
II QUADRILHA
Roda, ciranda,
Por aí fora,
Chegou a hora
De cirandar!
Na tarde clara
Vinde ligeiras,
Ó companheiras,
Rir e dançar!
Moças que dançam
Nas horas breves
Dos sonhos leves,
Na doce idade
Das ilusões,
Guardam lembrança,
Boa lembrança
Da mocidade
Nos corações.
Roda, ciranda,
Como essas belas,
Gratas estrelas
Dos nossos céus!
Vamos, em rondas
Precipitadas,
Como levadas
Na asa dos véus!
Moças que dançam
Nas horas leves
Dos sonhos breves,
Na doce idade
Das ilusões,
Guardam lembrança
Boa lembrança,
Da mocidade
Nos corações.
III QUINTA BACHIANA
Irerê, meu passarinho
Do sertão do Cariri,
Irerê, meu companheiro,
Cadê viola?
Cadê meu bem?
Cadê Maria?
Ai triste sorte a do violeiro cantadó!
Sem a viola em que cantava o seu amô,
Seu assobio é tua flauta de irerê:
Que tua flauta do sertão quando assobia,
A gente sofre sem querê!
Teu canto chega lá do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração.
Irerê, solta teu canto!
Canta mais! Canta mais!
Pra alembrá o Cariri!
Canta, cambaxirra!
Canta, juriti!
Canta, irerê!
Canta, canta, sofrê!
Patativa! Bem-te-vi!
Maria-acorda-que-é-dia!
Cantem todos vocês,
Passarinhos do sertão!
Bem-te-vi!
Eh sabiá!
Lá! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh sabiá da mata cantadó!
Liá! liá! liá! liá!
Lá! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh sabiá da mata sofredó!
O vosso canto vem do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração.
Quando já a luz do dia
Atrás das serras arde;
Quando desmaia a tarde
À lenta voz dos sinos:
Nos céus da minha terra,
Tão ricos de esperança,
Brilham na noite mansa
Três luzes, três destinos.
Tremem gentis, tremeluzem com fulgor,
Astros do meu anseio e meu amor,
A levantar meus olhos para Deus.
Três sóis, os três destinos
Da terra em que nascemos,
Pátria que estremecemos
No solo e em sua história:
Maria que és da Graça
(Da Graça e dos Amores),
Maria que és das Dores,
Maria que és da Glória.
Tremem gentis, tremeluzem com fulgor,
Astros do meu anseio e meu amor,
A levantar meus olhos para Deus.
II QUADRILHA
Roda, ciranda,
Por aí fora,
Chegou a hora
De cirandar!
Na tarde clara
Vinde ligeiras,
Ó companheiras,
Rir e dançar!
Moças que dançam
Nas horas breves
Dos sonhos leves,
Na doce idade
Das ilusões,
Guardam lembrança,
Boa lembrança
Da mocidade
Nos corações.
Roda, ciranda,
Como essas belas,
Gratas estrelas
Dos nossos céus!
Vamos, em rondas
Precipitadas,
Como levadas
Na asa dos véus!
Moças que dançam
Nas horas leves
Dos sonhos breves,
Na doce idade
Das ilusões,
Guardam lembrança
Boa lembrança,
Da mocidade
Nos corações.
III QUINTA BACHIANA
Irerê, meu passarinho
Do sertão do Cariri,
Irerê, meu companheiro,
Cadê viola?
Cadê meu bem?
Cadê Maria?
Ai triste sorte a do violeiro cantadó!
Sem a viola em que cantava o seu amô,
Seu assobio é tua flauta de irerê:
Que tua flauta do sertão quando assobia,
A gente sofre sem querê!
Teu canto chega lá do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração.
Irerê, solta teu canto!
Canta mais! Canta mais!
Pra alembrá o Cariri!
Canta, cambaxirra!
Canta, juriti!
Canta, irerê!
Canta, canta, sofrê!
Patativa! Bem-te-vi!
Maria-acorda-que-é-dia!
Cantem todos vocês,
Passarinhos do sertão!
Bem-te-vi!
Eh sabiá!
Lá! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh sabiá da mata cantadó!
Liá! liá! liá! liá!
Lá! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh sabiá da mata sofredó!
O vosso canto vem do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração.
1 350
Manuel Bandeira
Temas e Voltas
Em brigas não tomo parte,
À morros não subo não:
Que se nunca tive enfarte,
Só tenho meio pulmão.
No amor ainda tomo parte,
Mas não me esbaldo, isso não:
Que se nunca tive enfarte,
Só tenho meio pulmão.
De Eros a arriscada arte
Sempre usei com discrição:
Que se nunca tive enfarte,
Só tenho meio pulmão.
Bem que desejara amar-te
Sem medida nem razão.
Mas qual! Se não tive enfarte,
Só tenho meio pulmão.
À morros não subo não:
Que se nunca tive enfarte,
Só tenho meio pulmão.
No amor ainda tomo parte,
Mas não me esbaldo, isso não:
Que se nunca tive enfarte,
Só tenho meio pulmão.
De Eros a arriscada arte
Sempre usei com discrição:
Que se nunca tive enfarte,
Só tenho meio pulmão.
Bem que desejara amar-te
Sem medida nem razão.
Mas qual! Se não tive enfarte,
Só tenho meio pulmão.
1 175
Manuel Bandeira
A Afonso
Recebi o seu telegrama,
Afonso. Obrigado, obrigado:
Sempre é bom ganhar um agrado
Dos amigos a quem mais se ama.
Gastão gentil como uma dama,
Esse merece ser chamado
Pinheiro, como você o chama.
E Otávio, nunca assaz louvado.
Não me sinto pinheiro, Afonso,
Eu velho bardo, entre mil vários,
À espera da hora do responso.
Sou apenas um setentão
Adido à estranha legação
Dos pinheiros septuagenários.
Afonso. Obrigado, obrigado:
Sempre é bom ganhar um agrado
Dos amigos a quem mais se ama.
Gastão gentil como uma dama,
Esse merece ser chamado
Pinheiro, como você o chama.
E Otávio, nunca assaz louvado.
Não me sinto pinheiro, Afonso,
Eu velho bardo, entre mil vários,
À espera da hora do responso.
Sou apenas um setentão
Adido à estranha legação
Dos pinheiros septuagenários.
1 179
Manuel Bandeira
41
À quarante et un an (c'est mon àge)!
Je n'ai pas d'enfant. Dieu m'assiste!
Je suis seul. Cela me soulage
Tout en me laissant un peu triste.
Je n'ai pas d'enfant. Dieu m'assiste!
Je suis seul. Cela me soulage
Tout en me laissant un peu triste.
1 130
Manuel Bandeira
Prece
Senhor Bom Jesus do Calvário e da Via-Sacra
O prefeito Henriquinho
Vai derrubar o teu templo da Rua Uruguaiana
Pra abrir uma avenida!
Senhor Bom Jesus do Calvário e da Via-Sacra
O prefeito Henriquinho
Para abrir uma avenida
Vai demolir o templo do santo
Pedra da fé
Sobre a qual edificaste a tua Igreja!
Senhor Bom Jesus do Calvário e da Via-Sacra
Quando o prefeito morrer
Não o mandes para o Inferno:
Ele não sabe o que faz.
Mas um seculozinho a mais de Purgatório
Não seria mau. Amém.
O prefeito Henriquinho
Vai derrubar o teu templo da Rua Uruguaiana
Pra abrir uma avenida!
Senhor Bom Jesus do Calvário e da Via-Sacra
O prefeito Henriquinho
Para abrir uma avenida
Vai demolir o templo do santo
Pedra da fé
Sobre a qual edificaste a tua Igreja!
Senhor Bom Jesus do Calvário e da Via-Sacra
Quando o prefeito morrer
Não o mandes para o Inferno:
Ele não sabe o que faz.
Mas um seculozinho a mais de Purgatório
Não seria mau. Amém.
1 089
Manuel Bandeira
Nossa Senhora de Nazareth
Jantando uma vez em casa de Odylo,
Seu amigo Couto, na animação
Do papo — papo que é um deleite ouvi-lo —
Subitamente perdeu a razão
(Só assim se pode explicar aquilo)
E fez o clássico gesto vilão,
O obsceno gesto que a Vênus de Milo
Jamais poderia fazer, pois não?
Desaprovei a licença de Couto
Diante de Nazareth. Que afoito (ou afouto)!
Pois a intemerata piauiense é
A mulher que já encontrei até agora
Mais parecida com Nossa Senhora:
É Nossa Senhora de Nazareth.
Seu amigo Couto, na animação
Do papo — papo que é um deleite ouvi-lo —
Subitamente perdeu a razão
(Só assim se pode explicar aquilo)
E fez o clássico gesto vilão,
O obsceno gesto que a Vênus de Milo
Jamais poderia fazer, pois não?
Desaprovei a licença de Couto
Diante de Nazareth. Que afoito (ou afouto)!
Pois a intemerata piauiense é
A mulher que já encontrei até agora
Mais parecida com Nossa Senhora:
É Nossa Senhora de Nazareth.
1 169
Manuel Bandeira
A Jorge Medauar
Há trinta anos (tanto corre
O tempo) escrevi a poesia
Onde disse que fazia
Meus versos como quem morre.
Ainda não eras nascido.
Agora, orgulhosamente
Moço, ao poeta velho e doente
Parodiaste destemido:
Das batalhas em que estive
É o suor que em meu verso escorre!
Tu o fazes como quem morre:
Eu o faço como quem vive!
Façam-no como quem morre
Ou quem vive, que ele viva!
Vive o que é belo e deriva
Da alma e para outra alma corre.
Verso que dela se prive,
Ai dele! quem lhe socorre?
Nem Marx nem Deus! Ele morre.
Só o verso com alma vive.
Deste ou daquele pensar,
Esta me parece a reta,
A justa linha do poeta,
Poeta Jorge Medauar!
O tempo) escrevi a poesia
Onde disse que fazia
Meus versos como quem morre.
Ainda não eras nascido.
Agora, orgulhosamente
Moço, ao poeta velho e doente
Parodiaste destemido:
Das batalhas em que estive
É o suor que em meu verso escorre!
Tu o fazes como quem morre:
Eu o faço como quem vive!
Façam-no como quem morre
Ou quem vive, que ele viva!
Vive o que é belo e deriva
Da alma e para outra alma corre.
Verso que dela se prive,
Ai dele! quem lhe socorre?
Nem Marx nem Deus! Ele morre.
Só o verso com alma vive.
Deste ou daquele pensar,
Esta me parece a reta,
A justa linha do poeta,
Poeta Jorge Medauar!
1 127
Manuel Bandeira
A Jorge Medauar
Há trinta anos (tanto corre
O tempo) escrevi a poesia
Onde disse que fazia
Meus versos como quem morre.
Ainda não eras nascido.
Agora, orgulhosamente
Moço, ao poeta velho e doente
Parodiaste destemido:
Das batalhas em que estive
É o suor que em meu verso escorre!
Tu o fazes como quem morre:
Eu o faço como quem vive!
Façam-no como quem morre
Ou quem vive, que ele viva!
Vive o que é belo e deriva
Da alma e para outra alma corre.
Verso que dela se prive,
Ai dele! quem lhe socorre?
Nem Marx nem Deus! Ele morre.
Só o verso com alma vive.
Deste ou daquele pensar,
Esta me parece a reta,
A justa linha do poeta,
Poeta Jorge Medauar!
O tempo) escrevi a poesia
Onde disse que fazia
Meus versos como quem morre.
Ainda não eras nascido.
Agora, orgulhosamente
Moço, ao poeta velho e doente
Parodiaste destemido:
Das batalhas em que estive
É o suor que em meu verso escorre!
Tu o fazes como quem morre:
Eu o faço como quem vive!
Façam-no como quem morre
Ou quem vive, que ele viva!
Vive o que é belo e deriva
Da alma e para outra alma corre.
Verso que dela se prive,
Ai dele! quem lhe socorre?
Nem Marx nem Deus! Ele morre.
Só o verso com alma vive.
Deste ou daquele pensar,
Esta me parece a reta,
A justa linha do poeta,
Poeta Jorge Medauar!
1 127
Manuel Bandeira
A Jorge Medauar
Há trinta anos (tanto corre
O tempo) escrevi a poesia
Onde disse que fazia
Meus versos como quem morre.
Ainda não eras nascido.
Agora, orgulhosamente
Moço, ao poeta velho e doente
Parodiaste destemido:
Das batalhas em que estive
É o suor que em meu verso escorre!
Tu o fazes como quem morre:
Eu o faço como quem vive!
Façam-no como quem morre
Ou quem vive, que ele viva!
Vive o que é belo e deriva
Da alma e para outra alma corre.
Verso que dela se prive,
Ai dele! quem lhe socorre?
Nem Marx nem Deus! Ele morre.
Só o verso com alma vive.
Deste ou daquele pensar,
Esta me parece a reta,
A justa linha do poeta,
Poeta Jorge Medauar!
O tempo) escrevi a poesia
Onde disse que fazia
Meus versos como quem morre.
Ainda não eras nascido.
Agora, orgulhosamente
Moço, ao poeta velho e doente
Parodiaste destemido:
Das batalhas em que estive
É o suor que em meu verso escorre!
Tu o fazes como quem morre:
Eu o faço como quem vive!
Façam-no como quem morre
Ou quem vive, que ele viva!
Vive o que é belo e deriva
Da alma e para outra alma corre.
Verso que dela se prive,
Ai dele! quem lhe socorre?
Nem Marx nem Deus! Ele morre.
Só o verso com alma vive.
Deste ou daquele pensar,
Esta me parece a reta,
A justa linha do poeta,
Poeta Jorge Medauar!
1 127
Manuel Bandeira
André
André, André, André,
O Bandeira o que é?
É poeta ou não é?
André, André, André,
E você o que é?
É André ou Tomé,
Homem de pouca fé?
O Bandeira o que é?
É poeta ou não é?
André, André, André,
E você o que é?
É André ou Tomé,
Homem de pouca fé?
1 070
Manuel Bandeira
André
André, André, André,
O Bandeira o que é?
É poeta ou não é?
André, André, André,
E você o que é?
É André ou Tomé,
Homem de pouca fé?
O Bandeira o que é?
É poeta ou não é?
André, André, André,
E você o que é?
É André ou Tomé,
Homem de pouca fé?
1 070
Manuel Bandeira
Epitalâmio para Maria da Glória e Rodolfo
Cantei Maria da Glória
recém-nascida. Hoje canto
a mesma na plena glória
de mulher recém-casada
— adorável e adorada.
Ela, pelo seu encanto,
acabou por alcançar
com quem o mais pelo par
de que no mundo há memória
fazer. Assim Deus os fez
e os uniu. Glória ao marquês
Rodolfo! e as bênçãos não cessem
dos céus aos dois, pois merecem.
recém-nascida. Hoje canto
a mesma na plena glória
de mulher recém-casada
— adorável e adorada.
Ela, pelo seu encanto,
acabou por alcançar
com quem o mais pelo par
de que no mundo há memória
fazer. Assim Deus os fez
e os uniu. Glória ao marquês
Rodolfo! e as bênçãos não cessem
dos céus aos dois, pois merecem.
636
Manuel Bandeira
Bodas de Ouro
Bondade é coisa que na vida
— Nesta vida decepcionante —
Nenhum prêmio, nenhum tesouro,
Nenhuma recompensa paga:
Bondade de Mestre Aguinaga,
À quem, depois das bodas de ouro,
Desejamos as de brilhante.
(Depois as do céu, na outra vida...)
— Nesta vida decepcionante —
Nenhum prêmio, nenhum tesouro,
Nenhuma recompensa paga:
Bondade de Mestre Aguinaga,
À quem, depois das bodas de ouro,
Desejamos as de brilhante.
(Depois as do céu, na outra vida...)
1 190
Manuel Bandeira
Idílio na Praia
Nudez anatômica
Onde madrugais
Areia dormente!
Quem vem lá, Vinícius
Não o de Morais
Mas o de imorais
Poemas vai perdido
Tão perdidamente
Pela bomba atômica.
E diz-lhe ao ouvido:
— Ai bombinha atômica
Vem comigo vem!
Sou tão delicado
Sou um monstrozinho
De delicadeza!
Meu amor meu bem
Me ama me possui
Me faz em pedaços!
Já não sou Vinícius
Sou o que jamais
Fui: Mar de Sargaços
Cabo Guardafui!
Cantarei na lira
Casimiriana
Versos que esqueceram
Às musas de Gôngora!
E te chamarei
Cupincha Nux Vomica
Oriana Ariana!
Ah mal sei que e é igual
a mc2
Perdão bomba atômica!
Sou um sórdido poeta
Fundo em matemática
E te amo ai de mim!
Vem ó pomba atômica!
Vem minha bombinha
Pombinha rolinha
Do meu coração!
Vem como és agora:
Te quero novinha
Donzela pucela
Antes da ebaente
Desintegração!
Onde madrugais
Areia dormente!
Quem vem lá, Vinícius
Não o de Morais
Mas o de imorais
Poemas vai perdido
Tão perdidamente
Pela bomba atômica.
E diz-lhe ao ouvido:
— Ai bombinha atômica
Vem comigo vem!
Sou tão delicado
Sou um monstrozinho
De delicadeza!
Meu amor meu bem
Me ama me possui
Me faz em pedaços!
Já não sou Vinícius
Sou o que jamais
Fui: Mar de Sargaços
Cabo Guardafui!
Cantarei na lira
Casimiriana
Versos que esqueceram
Às musas de Gôngora!
E te chamarei
Cupincha Nux Vomica
Oriana Ariana!
Ah mal sei que e é igual
a mc2
Perdão bomba atômica!
Sou um sórdido poeta
Fundo em matemática
E te amo ai de mim!
Vem ó pomba atômica!
Vem minha bombinha
Pombinha rolinha
Do meu coração!
Vem como és agora:
Te quero novinha
Donzela pucela
Antes da ebaente
Desintegração!
1 180