Poemas neste tema
Vida e Existência
Charles Bukowski
A Falta de Quase Tudo
a essência da pança
como um balão branco ensacado
é perturbadora
como passos correndo
pela escada
quando você não sabe
de quem se trata.
claro, se você liga o rádio
é capaz de esquecer
a gordura debaixo da camisa
ou os ratos alinhados ordeiramente
como as velhotas no Hollywood Blvd
esperando pelo show
de humor.
penso nos homens velhos
em quartos de quatro dólares
procurando por meias nas gavetas do armário
enquanto ficam de pé com cuecas marrons
o tempo todo o relógio soando
quente como uma
cobra.
ah, existem algumas coisas decentes, talvez:
o céu, o circo
as pernas das mulheres saindo dos carros,
a beleza entrando pela porta
como uma sinfonia de Mozart.
a balança diz 90 kg. é este o
meu peso. são 2:10 da manhã
dedicação é para jogadores de xadrez.
a causa singular e gloriosa continua
em discussão
enquanto se fuma, se mija, se lê Genet
ou alguns jornais engraçados;
mas talvez ainda seja muito cedo
para escrever àquela sua tia em
Palm Springs e revelar a ela
o que está errado.
como um balão branco ensacado
é perturbadora
como passos correndo
pela escada
quando você não sabe
de quem se trata.
claro, se você liga o rádio
é capaz de esquecer
a gordura debaixo da camisa
ou os ratos alinhados ordeiramente
como as velhotas no Hollywood Blvd
esperando pelo show
de humor.
penso nos homens velhos
em quartos de quatro dólares
procurando por meias nas gavetas do armário
enquanto ficam de pé com cuecas marrons
o tempo todo o relógio soando
quente como uma
cobra.
ah, existem algumas coisas decentes, talvez:
o céu, o circo
as pernas das mulheres saindo dos carros,
a beleza entrando pela porta
como uma sinfonia de Mozart.
a balança diz 90 kg. é este o
meu peso. são 2:10 da manhã
dedicação é para jogadores de xadrez.
a causa singular e gloriosa continua
em discussão
enquanto se fuma, se mija, se lê Genet
ou alguns jornais engraçados;
mas talvez ainda seja muito cedo
para escrever àquela sua tia em
Palm Springs e revelar a ela
o que está errado.
1 135
Charles Bukowski
A Falta de Quase Tudo
a essência da pança
como um balão branco ensacado
é perturbadora
como passos correndo
pela escada
quando você não sabe
de quem se trata.
claro, se você liga o rádio
é capaz de esquecer
a gordura debaixo da camisa
ou os ratos alinhados ordeiramente
como as velhotas no Hollywood Blvd
esperando pelo show
de humor.
penso nos homens velhos
em quartos de quatro dólares
procurando por meias nas gavetas do armário
enquanto ficam de pé com cuecas marrons
o tempo todo o relógio soando
quente como uma
cobra.
ah, existem algumas coisas decentes, talvez:
o céu, o circo
as pernas das mulheres saindo dos carros,
a beleza entrando pela porta
como uma sinfonia de Mozart.
a balança diz 90 kg. é este o
meu peso. são 2:10 da manhã
dedicação é para jogadores de xadrez.
a causa singular e gloriosa continua
em discussão
enquanto se fuma, se mija, se lê Genet
ou alguns jornais engraçados;
mas talvez ainda seja muito cedo
para escrever àquela sua tia em
Palm Springs e revelar a ela
o que está errado.
como um balão branco ensacado
é perturbadora
como passos correndo
pela escada
quando você não sabe
de quem se trata.
claro, se você liga o rádio
é capaz de esquecer
a gordura debaixo da camisa
ou os ratos alinhados ordeiramente
como as velhotas no Hollywood Blvd
esperando pelo show
de humor.
penso nos homens velhos
em quartos de quatro dólares
procurando por meias nas gavetas do armário
enquanto ficam de pé com cuecas marrons
o tempo todo o relógio soando
quente como uma
cobra.
ah, existem algumas coisas decentes, talvez:
o céu, o circo
as pernas das mulheres saindo dos carros,
a beleza entrando pela porta
como uma sinfonia de Mozart.
a balança diz 90 kg. é este o
meu peso. são 2:10 da manhã
dedicação é para jogadores de xadrez.
a causa singular e gloriosa continua
em discussão
enquanto se fuma, se mija, se lê Genet
ou alguns jornais engraçados;
mas talvez ainda seja muito cedo
para escrever àquela sua tia em
Palm Springs e revelar a ela
o que está errado.
1 135
Charles Bukowski
A Falta de Quase Tudo
a essência da pança
como um balão branco ensacado
é perturbadora
como passos correndo
pela escada
quando você não sabe
de quem se trata.
claro, se você liga o rádio
é capaz de esquecer
a gordura debaixo da camisa
ou os ratos alinhados ordeiramente
como as velhotas no Hollywood Blvd
esperando pelo show
de humor.
penso nos homens velhos
em quartos de quatro dólares
procurando por meias nas gavetas do armário
enquanto ficam de pé com cuecas marrons
o tempo todo o relógio soando
quente como uma
cobra.
ah, existem algumas coisas decentes, talvez:
o céu, o circo
as pernas das mulheres saindo dos carros,
a beleza entrando pela porta
como uma sinfonia de Mozart.
a balança diz 90 kg. é este o
meu peso. são 2:10 da manhã
dedicação é para jogadores de xadrez.
a causa singular e gloriosa continua
em discussão
enquanto se fuma, se mija, se lê Genet
ou alguns jornais engraçados;
mas talvez ainda seja muito cedo
para escrever àquela sua tia em
Palm Springs e revelar a ela
o que está errado.
como um balão branco ensacado
é perturbadora
como passos correndo
pela escada
quando você não sabe
de quem se trata.
claro, se você liga o rádio
é capaz de esquecer
a gordura debaixo da camisa
ou os ratos alinhados ordeiramente
como as velhotas no Hollywood Blvd
esperando pelo show
de humor.
penso nos homens velhos
em quartos de quatro dólares
procurando por meias nas gavetas do armário
enquanto ficam de pé com cuecas marrons
o tempo todo o relógio soando
quente como uma
cobra.
ah, existem algumas coisas decentes, talvez:
o céu, o circo
as pernas das mulheres saindo dos carros,
a beleza entrando pela porta
como uma sinfonia de Mozart.
a balança diz 90 kg. é este o
meu peso. são 2:10 da manhã
dedicação é para jogadores de xadrez.
a causa singular e gloriosa continua
em discussão
enquanto se fuma, se mija, se lê Genet
ou alguns jornais engraçados;
mas talvez ainda seja muito cedo
para escrever àquela sua tia em
Palm Springs e revelar a ela
o que está errado.
1 135
Charles Bukowski
Um Romance Literário
conheci-a de algum jeito por meio de correspondência ou poesia ou revistas
e ela começou a me mandar poemas bem sensuais sobre estupro e luxúria,
e isso misturado a um pouco de intelectualismo
me deixou confuso e peguei o carro e segui para o Norte
por montanhas e vales e autoestradas
sem dormir, saído de um porre, recém-divorciado,
sem emprego, envelhecendo, acabado, ansiando dormir
por cinco ou dez anos, finalmente encontrei um quarto
em uma cidade pequena e ensolarada junto a uma estrada suja,
e fiquei sentado ali fumando um cigarro
pensando, você deve estar totalmente louco,
e então saí dali uma hora depois
para o encontro; ela era mais do que passada,
quase tão velha quanto eu, bem pouco atraente
e ela me deu uma maçã muito dura e ácida
que mastiguei com meus dentes remanescentes;
ela estava morrendo de uma doença desconhecida
algo como asma, e ela disse,
quero lhe contar um segredo, e eu disse,
eu sei: você é virgem, 35 anos.
e ela puxou um caderninho, dez ou doze poemas:
o trabalho de uma vida e eu tinha que lê-los
e tentei ser gentil
mas eles eram muito ruins.
e eu a levei a algum lugar, às lutas de boxe,
e ela tossia em meio à fumaça
e ficava olhando ao redor
para todas aquelas pessoas
e depois para os lutadores
fechando seus punhos.
você nunca fica excitado, não é? ela perguntou.
mas eu fiquei bastante excitado naquela noite nas colinas,
e voltei a encontrá-la mais três ou quatro vezes
ajudei-a com alguns de seus poemas
e ela enfiou a língua quase até a metade da minha garganta
mas ao deixá-la
ela ainda era uma virgem
e uma péssima poeta.
acho que quando uma mulher manteve suas pernas fechadas
por 35 anos
é tarde demais
tanto para o amor
quanto para a
poesia.
e ela começou a me mandar poemas bem sensuais sobre estupro e luxúria,
e isso misturado a um pouco de intelectualismo
me deixou confuso e peguei o carro e segui para o Norte
por montanhas e vales e autoestradas
sem dormir, saído de um porre, recém-divorciado,
sem emprego, envelhecendo, acabado, ansiando dormir
por cinco ou dez anos, finalmente encontrei um quarto
em uma cidade pequena e ensolarada junto a uma estrada suja,
e fiquei sentado ali fumando um cigarro
pensando, você deve estar totalmente louco,
e então saí dali uma hora depois
para o encontro; ela era mais do que passada,
quase tão velha quanto eu, bem pouco atraente
e ela me deu uma maçã muito dura e ácida
que mastiguei com meus dentes remanescentes;
ela estava morrendo de uma doença desconhecida
algo como asma, e ela disse,
quero lhe contar um segredo, e eu disse,
eu sei: você é virgem, 35 anos.
e ela puxou um caderninho, dez ou doze poemas:
o trabalho de uma vida e eu tinha que lê-los
e tentei ser gentil
mas eles eram muito ruins.
e eu a levei a algum lugar, às lutas de boxe,
e ela tossia em meio à fumaça
e ficava olhando ao redor
para todas aquelas pessoas
e depois para os lutadores
fechando seus punhos.
você nunca fica excitado, não é? ela perguntou.
mas eu fiquei bastante excitado naquela noite nas colinas,
e voltei a encontrá-la mais três ou quatro vezes
ajudei-a com alguns de seus poemas
e ela enfiou a língua quase até a metade da minha garganta
mas ao deixá-la
ela ainda era uma virgem
e uma péssima poeta.
acho que quando uma mulher manteve suas pernas fechadas
por 35 anos
é tarde demais
tanto para o amor
quanto para a
poesia.
1 146
Charles Bukowski
O Padre E o Matador
no lento ar mexicano assisto o touro morrer
e eles lhe cortam a orelha, e sua enorme cabeça não guarda
mais terror do que uma pedra.
dirigindo de volta no dia seguinte paramos na Missão
e assistimos às flores vermelhas e douradas e azuis se estendendo
como tigres na ventania.
coloque isto na métrica: o touro e o forte de Cristo:
o matador de joelhos, o touro morto seu menino;
e o padre a olhar pela janela
como um urso enjaulado.
você pode discutir no mercado e manipular as suas
dúvidas com cordas de seda: vou lhe dizer apenas
isto: eu vivi em ambos os templos,
acreditando em tudo e em nada – talvez, agora, eles venham
a morrer no meu.
e eles lhe cortam a orelha, e sua enorme cabeça não guarda
mais terror do que uma pedra.
dirigindo de volta no dia seguinte paramos na Missão
e assistimos às flores vermelhas e douradas e azuis se estendendo
como tigres na ventania.
coloque isto na métrica: o touro e o forte de Cristo:
o matador de joelhos, o touro morto seu menino;
e o padre a olhar pela janela
como um urso enjaulado.
você pode discutir no mercado e manipular as suas
dúvidas com cordas de seda: vou lhe dizer apenas
isto: eu vivi em ambos os templos,
acreditando em tudo e em nada – talvez, agora, eles venham
a morrer no meu.
1 114
Charles Bukowski
O Padre E o Matador
no lento ar mexicano assisto o touro morrer
e eles lhe cortam a orelha, e sua enorme cabeça não guarda
mais terror do que uma pedra.
dirigindo de volta no dia seguinte paramos na Missão
e assistimos às flores vermelhas e douradas e azuis se estendendo
como tigres na ventania.
coloque isto na métrica: o touro e o forte de Cristo:
o matador de joelhos, o touro morto seu menino;
e o padre a olhar pela janela
como um urso enjaulado.
você pode discutir no mercado e manipular as suas
dúvidas com cordas de seda: vou lhe dizer apenas
isto: eu vivi em ambos os templos,
acreditando em tudo e em nada – talvez, agora, eles venham
a morrer no meu.
e eles lhe cortam a orelha, e sua enorme cabeça não guarda
mais terror do que uma pedra.
dirigindo de volta no dia seguinte paramos na Missão
e assistimos às flores vermelhas e douradas e azuis se estendendo
como tigres na ventania.
coloque isto na métrica: o touro e o forte de Cristo:
o matador de joelhos, o touro morto seu menino;
e o padre a olhar pela janela
como um urso enjaulado.
você pode discutir no mercado e manipular as suas
dúvidas com cordas de seda: vou lhe dizer apenas
isto: eu vivi em ambos os templos,
acreditando em tudo e em nada – talvez, agora, eles venham
a morrer no meu.
1 114
Charles Bukowski
Um Relógio de Bolso Dourado
meu avô era um alemão alto
com um cheiro estranho no hálito.
ele permanecia muito ereto
em frente à sua casinha
e sua esposa o odiava
e seus filhos o achavam estranho.
eu tinha seis anos a primeira vez que nos vimos
e ele me deu todas as suas medalhas de guerra.
na segunda vez que nos vimos
ele me deu seu relógio de bolso dourado.
era muito pesado e eu o levei para casa
e dei corda bem forte
e ele parou de funcionar
o que me fez sentir mal.
nunca mais voltei a vê-lo
e meus parentes nunca falavam dele
nem mesmo minha avó
que muito tempo atrás
deixou de viver em sua companhia.
uma vez perguntei por ele
e me disseram
que bebia demais
mas na melhor imagem que guardo dele
ele está muito ereto
em frente a sua casa
e dizendo, “olá, Henry, você
e eu, nós nos
conhecemos”.
com um cheiro estranho no hálito.
ele permanecia muito ereto
em frente à sua casinha
e sua esposa o odiava
e seus filhos o achavam estranho.
eu tinha seis anos a primeira vez que nos vimos
e ele me deu todas as suas medalhas de guerra.
na segunda vez que nos vimos
ele me deu seu relógio de bolso dourado.
era muito pesado e eu o levei para casa
e dei corda bem forte
e ele parou de funcionar
o que me fez sentir mal.
nunca mais voltei a vê-lo
e meus parentes nunca falavam dele
nem mesmo minha avó
que muito tempo atrás
deixou de viver em sua companhia.
uma vez perguntei por ele
e me disseram
que bebia demais
mas na melhor imagem que guardo dele
ele está muito ereto
em frente a sua casa
e dizendo, “olá, Henry, você
e eu, nós nos
conhecemos”.
1 046
Charles Bukowski
Um Relógio de Bolso Dourado
meu avô era um alemão alto
com um cheiro estranho no hálito.
ele permanecia muito ereto
em frente à sua casinha
e sua esposa o odiava
e seus filhos o achavam estranho.
eu tinha seis anos a primeira vez que nos vimos
e ele me deu todas as suas medalhas de guerra.
na segunda vez que nos vimos
ele me deu seu relógio de bolso dourado.
era muito pesado e eu o levei para casa
e dei corda bem forte
e ele parou de funcionar
o que me fez sentir mal.
nunca mais voltei a vê-lo
e meus parentes nunca falavam dele
nem mesmo minha avó
que muito tempo atrás
deixou de viver em sua companhia.
uma vez perguntei por ele
e me disseram
que bebia demais
mas na melhor imagem que guardo dele
ele está muito ereto
em frente a sua casa
e dizendo, “olá, Henry, você
e eu, nós nos
conhecemos”.
com um cheiro estranho no hálito.
ele permanecia muito ereto
em frente à sua casinha
e sua esposa o odiava
e seus filhos o achavam estranho.
eu tinha seis anos a primeira vez que nos vimos
e ele me deu todas as suas medalhas de guerra.
na segunda vez que nos vimos
ele me deu seu relógio de bolso dourado.
era muito pesado e eu o levei para casa
e dei corda bem forte
e ele parou de funcionar
o que me fez sentir mal.
nunca mais voltei a vê-lo
e meus parentes nunca falavam dele
nem mesmo minha avó
que muito tempo atrás
deixou de viver em sua companhia.
uma vez perguntei por ele
e me disseram
que bebia demais
mas na melhor imagem que guardo dele
ele está muito ereto
em frente a sua casa
e dizendo, “olá, Henry, você
e eu, nós nos
conhecemos”.
1 046
Charles Bukowski
A Vida de Borodin
na próxima vez em que você ouvir Borodin
lembre-se de que ele era apenas um químico
que escrevia música para relaxar;
sua casa vivia cheia de pessoas:
estudantes, artistas, bêbados, vadios,
e ele nunca soube como dizer: não.
na próxima vez em que você ouvir Borodin
lembre-se de que sua esposa usou suas composições
para forrar a caixa de areia do gato
ou para embrulhar as garrafas de leite azedo;
ela sofria de asma e insônia
e o alimentava com ovos moles
e quando ele queria cobrir a cabeça
para se afastar dos sons da casa
ela permitia que ele usasse apenas o lençol;
além disso, geralmente havia alguém
na cama dele
(os dois dormiam em camas separadas quando
dormiam)
e como todas as cadeiras
normalmente estavam ocupadas
costumava dormir nos degraus
envolto em um velho xale;
ela lhe dizia quando cortar as unhas,
para não cantar ou assobiar
nem colocar muito limão no chá
nem espremê-lo com uma colher;
Sinfonia no 2 em Si Menor
Príncipe Igor
Nas estepes da Ásia Central
ele só conseguia dormir colocando um pedaço
de pano negro sobre os olhos;
em 1887 ele compareceu a um baile
na Academia de Medicina
vestido com um festivo traje nacional;
parecia, ao fim, excepcionalmente animado
e quando ele se foi ao chão,
pensaram que ele estava fazendo alguma palhaçada.
na próxima vez em que você ouvir Borodin,
lembre-se disso...
lembre-se de que ele era apenas um químico
que escrevia música para relaxar;
sua casa vivia cheia de pessoas:
estudantes, artistas, bêbados, vadios,
e ele nunca soube como dizer: não.
na próxima vez em que você ouvir Borodin
lembre-se de que sua esposa usou suas composições
para forrar a caixa de areia do gato
ou para embrulhar as garrafas de leite azedo;
ela sofria de asma e insônia
e o alimentava com ovos moles
e quando ele queria cobrir a cabeça
para se afastar dos sons da casa
ela permitia que ele usasse apenas o lençol;
além disso, geralmente havia alguém
na cama dele
(os dois dormiam em camas separadas quando
dormiam)
e como todas as cadeiras
normalmente estavam ocupadas
costumava dormir nos degraus
envolto em um velho xale;
ela lhe dizia quando cortar as unhas,
para não cantar ou assobiar
nem colocar muito limão no chá
nem espremê-lo com uma colher;
Sinfonia no 2 em Si Menor
Príncipe Igor
Nas estepes da Ásia Central
ele só conseguia dormir colocando um pedaço
de pano negro sobre os olhos;
em 1887 ele compareceu a um baile
na Academia de Medicina
vestido com um festivo traje nacional;
parecia, ao fim, excepcionalmente animado
e quando ele se foi ao chão,
pensaram que ele estava fazendo alguma palhaçada.
na próxima vez em que você ouvir Borodin,
lembre-se disso...
1 110
Charles Bukowski
A Vida de Borodin
na próxima vez em que você ouvir Borodin
lembre-se de que ele era apenas um químico
que escrevia música para relaxar;
sua casa vivia cheia de pessoas:
estudantes, artistas, bêbados, vadios,
e ele nunca soube como dizer: não.
na próxima vez em que você ouvir Borodin
lembre-se de que sua esposa usou suas composições
para forrar a caixa de areia do gato
ou para embrulhar as garrafas de leite azedo;
ela sofria de asma e insônia
e o alimentava com ovos moles
e quando ele queria cobrir a cabeça
para se afastar dos sons da casa
ela permitia que ele usasse apenas o lençol;
além disso, geralmente havia alguém
na cama dele
(os dois dormiam em camas separadas quando
dormiam)
e como todas as cadeiras
normalmente estavam ocupadas
costumava dormir nos degraus
envolto em um velho xale;
ela lhe dizia quando cortar as unhas,
para não cantar ou assobiar
nem colocar muito limão no chá
nem espremê-lo com uma colher;
Sinfonia no 2 em Si Menor
Príncipe Igor
Nas estepes da Ásia Central
ele só conseguia dormir colocando um pedaço
de pano negro sobre os olhos;
em 1887 ele compareceu a um baile
na Academia de Medicina
vestido com um festivo traje nacional;
parecia, ao fim, excepcionalmente animado
e quando ele se foi ao chão,
pensaram que ele estava fazendo alguma palhaçada.
na próxima vez em que você ouvir Borodin,
lembre-se disso...
lembre-se de que ele era apenas um químico
que escrevia música para relaxar;
sua casa vivia cheia de pessoas:
estudantes, artistas, bêbados, vadios,
e ele nunca soube como dizer: não.
na próxima vez em que você ouvir Borodin
lembre-se de que sua esposa usou suas composições
para forrar a caixa de areia do gato
ou para embrulhar as garrafas de leite azedo;
ela sofria de asma e insônia
e o alimentava com ovos moles
e quando ele queria cobrir a cabeça
para se afastar dos sons da casa
ela permitia que ele usasse apenas o lençol;
além disso, geralmente havia alguém
na cama dele
(os dois dormiam em camas separadas quando
dormiam)
e como todas as cadeiras
normalmente estavam ocupadas
costumava dormir nos degraus
envolto em um velho xale;
ela lhe dizia quando cortar as unhas,
para não cantar ou assobiar
nem colocar muito limão no chá
nem espremê-lo com uma colher;
Sinfonia no 2 em Si Menor
Príncipe Igor
Nas estepes da Ásia Central
ele só conseguia dormir colocando um pedaço
de pano negro sobre os olhos;
em 1887 ele compareceu a um baile
na Academia de Medicina
vestido com um festivo traje nacional;
parecia, ao fim, excepcionalmente animado
e quando ele se foi ao chão,
pensaram que ele estava fazendo alguma palhaçada.
na próxima vez em que você ouvir Borodin,
lembre-se disso...
1 110
Charles Bukowski
Poeta Velho
eu preferiria, claro, estar com uma raposa entre as samambaias
do que com uma fotografia de um velho Spad em meu bolso
ao som do retinir de uma bigorna e pernas pernas pernas
garotas em passadas altas, mostrando tudo exceto por onde mijam,
mas eu bem poderia estar morto agora
sopra em toda a parte o vento maléfico
e Keats está morto
e eu também estou morrendo.
porque não há nada tão torpemente dissoluto
quanto um velho poeta vencido pelo azedume
no corpo e na mente
na sorte, os cavalos correndo para a eliminação,
o câncer dos dados de Vegas para a magra carteira verde,
Shostakovich ouvido com muita frequência
e latas de cerveja tomadas com um canudinho,
com boca e mente arruinadas em
becos de homens jovens.
na janela da tarde quente
dou um golpe e perco a mosca zombeteira,
e ah, desabo pesado como um trovão
mas escada abaixo eles vão entender:
ou está bêbado ou está morrendo,
um velho poeta acenando vagamente a cabeça em saguões,
rompendo seu cajado nas costas
de cães inocentes
e cuspindo
o que resta de seu sol.
o carteiro trouxe uma pequena encomenda para ele
que a leva para o quarto
e a abre como a uma rosa,
apenas para gritar de forma alta e vã,
e seu caixão se enche
com notas do inferno.
mas pela manhã vocês vão vê-lo
arrumando pequenos envelopes,
ainda preocupado com
aluguel
cigarros
vinho
mulheres
cavalos,
ainda preocupado com
Eric Coates, a 3a de Beethoven e
alguma coisa que Chicago segurou por três meses
e o saco de papel com vinho
e os Pall Malls.
42 em agosto, 42,
os ratos percorrendo seu cérebro
devorando os pensamentos antes que eles
possam fazer as chaves.
poetas velhos são tão ruins quanto bichas velhas:
há algo bastante inaceitável:
os editores gostariam de agradecer a você
por enviar os textos mas
lamentam...
seguem
seguem
seguem
pelo saguão escuro
a um saguão sem mulher
para descascar um último ovo
e sentar em busca das chaves:
clic clic um clic,
sobre os sons da televisão
sobre o som das molas,
clic clac um clac:
mais um poeta velho
a se dissipar.
do que com uma fotografia de um velho Spad em meu bolso
ao som do retinir de uma bigorna e pernas pernas pernas
garotas em passadas altas, mostrando tudo exceto por onde mijam,
mas eu bem poderia estar morto agora
sopra em toda a parte o vento maléfico
e Keats está morto
e eu também estou morrendo.
porque não há nada tão torpemente dissoluto
quanto um velho poeta vencido pelo azedume
no corpo e na mente
na sorte, os cavalos correndo para a eliminação,
o câncer dos dados de Vegas para a magra carteira verde,
Shostakovich ouvido com muita frequência
e latas de cerveja tomadas com um canudinho,
com boca e mente arruinadas em
becos de homens jovens.
na janela da tarde quente
dou um golpe e perco a mosca zombeteira,
e ah, desabo pesado como um trovão
mas escada abaixo eles vão entender:
ou está bêbado ou está morrendo,
um velho poeta acenando vagamente a cabeça em saguões,
rompendo seu cajado nas costas
de cães inocentes
e cuspindo
o que resta de seu sol.
o carteiro trouxe uma pequena encomenda para ele
que a leva para o quarto
e a abre como a uma rosa,
apenas para gritar de forma alta e vã,
e seu caixão se enche
com notas do inferno.
mas pela manhã vocês vão vê-lo
arrumando pequenos envelopes,
ainda preocupado com
aluguel
cigarros
vinho
mulheres
cavalos,
ainda preocupado com
Eric Coates, a 3a de Beethoven e
alguma coisa que Chicago segurou por três meses
e o saco de papel com vinho
e os Pall Malls.
42 em agosto, 42,
os ratos percorrendo seu cérebro
devorando os pensamentos antes que eles
possam fazer as chaves.
poetas velhos são tão ruins quanto bichas velhas:
há algo bastante inaceitável:
os editores gostariam de agradecer a você
por enviar os textos mas
lamentam...
seguem
seguem
seguem
pelo saguão escuro
a um saguão sem mulher
para descascar um último ovo
e sentar em busca das chaves:
clic clic um clic,
sobre os sons da televisão
sobre o som das molas,
clic clac um clac:
mais um poeta velho
a se dissipar.
746
Charles Bukowski
Poeta Velho
eu preferiria, claro, estar com uma raposa entre as samambaias
do que com uma fotografia de um velho Spad em meu bolso
ao som do retinir de uma bigorna e pernas pernas pernas
garotas em passadas altas, mostrando tudo exceto por onde mijam,
mas eu bem poderia estar morto agora
sopra em toda a parte o vento maléfico
e Keats está morto
e eu também estou morrendo.
porque não há nada tão torpemente dissoluto
quanto um velho poeta vencido pelo azedume
no corpo e na mente
na sorte, os cavalos correndo para a eliminação,
o câncer dos dados de Vegas para a magra carteira verde,
Shostakovich ouvido com muita frequência
e latas de cerveja tomadas com um canudinho,
com boca e mente arruinadas em
becos de homens jovens.
na janela da tarde quente
dou um golpe e perco a mosca zombeteira,
e ah, desabo pesado como um trovão
mas escada abaixo eles vão entender:
ou está bêbado ou está morrendo,
um velho poeta acenando vagamente a cabeça em saguões,
rompendo seu cajado nas costas
de cães inocentes
e cuspindo
o que resta de seu sol.
o carteiro trouxe uma pequena encomenda para ele
que a leva para o quarto
e a abre como a uma rosa,
apenas para gritar de forma alta e vã,
e seu caixão se enche
com notas do inferno.
mas pela manhã vocês vão vê-lo
arrumando pequenos envelopes,
ainda preocupado com
aluguel
cigarros
vinho
mulheres
cavalos,
ainda preocupado com
Eric Coates, a 3a de Beethoven e
alguma coisa que Chicago segurou por três meses
e o saco de papel com vinho
e os Pall Malls.
42 em agosto, 42,
os ratos percorrendo seu cérebro
devorando os pensamentos antes que eles
possam fazer as chaves.
poetas velhos são tão ruins quanto bichas velhas:
há algo bastante inaceitável:
os editores gostariam de agradecer a você
por enviar os textos mas
lamentam...
seguem
seguem
seguem
pelo saguão escuro
a um saguão sem mulher
para descascar um último ovo
e sentar em busca das chaves:
clic clic um clic,
sobre os sons da televisão
sobre o som das molas,
clic clac um clac:
mais um poeta velho
a se dissipar.
do que com uma fotografia de um velho Spad em meu bolso
ao som do retinir de uma bigorna e pernas pernas pernas
garotas em passadas altas, mostrando tudo exceto por onde mijam,
mas eu bem poderia estar morto agora
sopra em toda a parte o vento maléfico
e Keats está morto
e eu também estou morrendo.
porque não há nada tão torpemente dissoluto
quanto um velho poeta vencido pelo azedume
no corpo e na mente
na sorte, os cavalos correndo para a eliminação,
o câncer dos dados de Vegas para a magra carteira verde,
Shostakovich ouvido com muita frequência
e latas de cerveja tomadas com um canudinho,
com boca e mente arruinadas em
becos de homens jovens.
na janela da tarde quente
dou um golpe e perco a mosca zombeteira,
e ah, desabo pesado como um trovão
mas escada abaixo eles vão entender:
ou está bêbado ou está morrendo,
um velho poeta acenando vagamente a cabeça em saguões,
rompendo seu cajado nas costas
de cães inocentes
e cuspindo
o que resta de seu sol.
o carteiro trouxe uma pequena encomenda para ele
que a leva para o quarto
e a abre como a uma rosa,
apenas para gritar de forma alta e vã,
e seu caixão se enche
com notas do inferno.
mas pela manhã vocês vão vê-lo
arrumando pequenos envelopes,
ainda preocupado com
aluguel
cigarros
vinho
mulheres
cavalos,
ainda preocupado com
Eric Coates, a 3a de Beethoven e
alguma coisa que Chicago segurou por três meses
e o saco de papel com vinho
e os Pall Malls.
42 em agosto, 42,
os ratos percorrendo seu cérebro
devorando os pensamentos antes que eles
possam fazer as chaves.
poetas velhos são tão ruins quanto bichas velhas:
há algo bastante inaceitável:
os editores gostariam de agradecer a você
por enviar os textos mas
lamentam...
seguem
seguem
seguem
pelo saguão escuro
a um saguão sem mulher
para descascar um último ovo
e sentar em busca das chaves:
clic clic um clic,
sobre os sons da televisão
sobre o som das molas,
clic clac um clac:
mais um poeta velho
a se dissipar.
746
Charles Bukowski
Vegas
havia uma árvore congelada que eu queria pintar
mas as bombas caíram
e em Vegas olhando através de uma persiana verde
às 3:30 da manhã,
morri sem pregos, sem um exemplar da Atlantic Monthly,
as janelas gritavam feito pombas lamentando o bombardeio de Milão
e eu saí para viver com os ratos
mas as luzes eram muito fortes
e pensei que talvez fosse melhor retornar e tomar assento em uma
aula de poesia:
uma maravilhosa descrição de uma gazela
é o inferno;
a cruz repousa feito uma mosca em minha janela,
a respiração de minha mãe agita pequenas folhas
em minha mente;
e eu peguei uma carona de volta a L.A. em meio a nuvens de ressaca
e puxei uma carta do meu bolso e a li
e o motorista do caminhão disse, o que é isso?
e eu respondi, tem uma garota lá no norte que costumava
dormir com Pound, ela está tentando me dizer que H.D.[1]
é nossa maior escriba: bem, Hilda nos deu alguns deuses
gregos e rosados em uma vasilha de porcelana, mas depois de lê-la
continuo tendo 140 pontas de gelo pendendo de meus ossos.
não seguirei direto até L.A., disse o motorista.
não tem problema, eu disse, os copos-de-leite assentem para nossas mentes
e algum dia todos iremos juntos para
casa.
de fato, ele disse, a nossa viagem juntos
termina aqui.
deixei ele ter o que queria; velha e ressecada puta do tempo
seus seios têm o gosto do creme azedo dos sonhos...
ele me desembarcou
no meio do deserto;
morrer é morrer é morrer,
velhos fonógrafos nos porões,
joe di maggio,
revistas em comunhão com cebolas...
um velho Ford me apanhou
45 minutos depois
e, desta vez,
mantive minha boca
calada.
[1] Hilda Doolittle, cujo nome literário foi H.D., teve importante papel no movimento modernista da poesia americana, em especial por sua associação ao Imagismo de Pound. Em sua poesia há frequentes referências à mitologia grega. (N.T.)
mas as bombas caíram
e em Vegas olhando através de uma persiana verde
às 3:30 da manhã,
morri sem pregos, sem um exemplar da Atlantic Monthly,
as janelas gritavam feito pombas lamentando o bombardeio de Milão
e eu saí para viver com os ratos
mas as luzes eram muito fortes
e pensei que talvez fosse melhor retornar e tomar assento em uma
aula de poesia:
uma maravilhosa descrição de uma gazela
é o inferno;
a cruz repousa feito uma mosca em minha janela,
a respiração de minha mãe agita pequenas folhas
em minha mente;
e eu peguei uma carona de volta a L.A. em meio a nuvens de ressaca
e puxei uma carta do meu bolso e a li
e o motorista do caminhão disse, o que é isso?
e eu respondi, tem uma garota lá no norte que costumava
dormir com Pound, ela está tentando me dizer que H.D.[1]
é nossa maior escriba: bem, Hilda nos deu alguns deuses
gregos e rosados em uma vasilha de porcelana, mas depois de lê-la
continuo tendo 140 pontas de gelo pendendo de meus ossos.
não seguirei direto até L.A., disse o motorista.
não tem problema, eu disse, os copos-de-leite assentem para nossas mentes
e algum dia todos iremos juntos para
casa.
de fato, ele disse, a nossa viagem juntos
termina aqui.
deixei ele ter o que queria; velha e ressecada puta do tempo
seus seios têm o gosto do creme azedo dos sonhos...
ele me desembarcou
no meio do deserto;
morrer é morrer é morrer,
velhos fonógrafos nos porões,
joe di maggio,
revistas em comunhão com cebolas...
um velho Ford me apanhou
45 minutos depois
e, desta vez,
mantive minha boca
calada.
[1] Hilda Doolittle, cujo nome literário foi H.D., teve importante papel no movimento modernista da poesia americana, em especial por sua associação ao Imagismo de Pound. Em sua poesia há frequentes referências à mitologia grega. (N.T.)
808
Charles Bukowski
Alguma Coisa Para Os Especuladores, Para As Freiras, Para Os Atendentes do Mercado E Para Você...
nós temos tudo e não temos nada
e alguns homens resolvem as coisas em igrejas
e outros homens resolvem as coisas partindo borboletas
ao meio
e alguns homens resolvem as coisas em Palm Springs
enfiando-as em loiras amanteigadas
com almas de Cadillac
nada e tudo,
o rosto derretendo até a última baforada
num porão em Corpus Christi
há alguma coisa para os especuladores, para as freiras,
para os atendentes do mercado e para você...
alguma coisa às 8 da manhã, alguma coisa na biblioteca
alguma coisa no rio,
tudo e nada,
no matadouro essa coisa vem correndo ao longo
do teto presa a um gancho, e você a balança –
um
dois
três
e então você consegue, $200 de carne
morta, os ossos contra os seus
alguma coisa e nada.
é sempre cedo demais para morrer e
ao mesmo tempo tarde demais,
e o sangue extraído na bacia branca
nada lhe revela de fato
e os coveiros jogando pôquer além
das 5 da manhã, esperando que o gramado
se liberte da geada...
eles não lhe revelam nada de nada.
nós temos tudo e não temos nada –
dias com arestas de vidro e o fedor insuportável
de musgos do rio – pior do que merda;
dias de tabuleiro de movimentos e contramovimentos,
o interesse gasto, tendo a derrota ou a vitória o mesmo
sentido; dias lentos como mulas
a carregá-los estilhaçados e tristes e endurecidos pelo sol
por uma estrada onde um louco aguarda sentado entre
passarinhos azuis e cambaxirras aprisionados e sugados até um cinza
quebradiço.
bons dias também de vinho e gritaria, brigas
em becos, pernas gordas de mulheres lutando ao redor
de suas entranhas enterradas em gemidos,
os sinais nas arenas como diamantes gritando
Mãe Capri, violetas rasgando o chão
dizendo para você que se esqueça dos exércitos mortos e dos amores
que lhe roubaram.
dias em que as crianças dizem coisas engraçadas e brilhantes
como selvagens tentando lhe mandar uma mensagem através
de seus corpos enquanto seus corpos ainda
têm vida o suficiente para transmitir e sentir e correr para lá
e para cá sem amarras e contracheques e
ideais e posses e opiniões
de girino.
dias em que você pode chorar o dia inteiro num
quarto verde com a porta trancada, dias
em que você pode rir na cara do entregador de pães
porque as pernas dele são muito longas, dias
de olhar para cercas...
e nada, e nada. dias de
chefes, de homens amarelos
com mau hálito e pés grandes, homens
que parecem sapos, hienas, homens que caminham
como se a melodia jamais tivesse sido inventada, homens
que pensam que é inteligente contratar e demitir e
lucrar, homens com mulheres caras que eles possuem
como 60 acres de solo a ser perfurado
ou a serem exibidas ou postas a segura distância
dos incompetentes, homens capazes de matar você
porque eles são loucos e o justificam porque
esta é a lei, homens que se plantam em frente a
janelas com 9 metros de extensão e não veem nada,
homens com iates de luxo capazes de dar a volta
ao mundo e ainda assim jamais saírem dos bolsos de seus
coletes, homens como caracóis, homens como enguias, homens
como lesmas, e não tão bons quanto...
e nada, recebendo seu último salário
num porto, numa fábrica, num hospital, numa
fábrica de aviões, em fliperamas, numa
barbearia, num emprego que você não pode
tolerar.
imposto de renda, doença, servidão, braços
quebrados, cabeças quebradas – o enchimento todo
saltando para fora como de um velho travesseiro.
nós temos tudo e não temos nada.
alguns se viram bem por algum tempo e
depois desistem. a fama os pega ou a repulsa
ou a idade ou a falta de uma dieta adequada ou a tinta
nos olhos ou crianças nas faculdades
ou carros novos ou costas lesionadas ao esquiar
na Suíça ou novos políticos ou novas esposas
ou apenas a mudança natural e a decadência –
o homem que você conheceu ontem dando ganchos
durante dez assaltos ou bebendo por três dias e
três noites nas montanhas Sawtooth agora
apenas alguma coisa debaixo de um lençol ou de uma cruz
ou de uma pedra ou debaixo de uma fácil desilusão,
ou carregando uma bíblia ou uma sacola de golfe ou uma
valise: como eles vão, como eles vão! – todos
aqueles que você jamais pensou que iriam.
dias como este. como o seu dia hoje.
talvez a chuva na janela tentando
atravessar e chegar até você. o que você está vendo?
o que é? onde você está? os melhores
dias são às vezes os primeiros, às vezes
os intermediários e até mesmo por vezes os derradeiros.
as vagas vazias não estão mal, as igrejas nos
postais da Europa não estão mal. as pessoas
nos museus de cera congeladas em sua melhor esterilidade
não estão mal, horríveis mas não mal. o
canhão, pense no canhão. e a torrada no
café da manhã o café quente a ponto de você
saber que sua língua continua aí. três
gerânios do lado de fora da janela, tentando ser
vermelhos e tentando ser cor-de-rosa e tentando ser
gerânios. não é de espantar que às vezes as mulheres
chorem, não é de espantar que as mulas não queiram
subir as colinas. você está num quarto de hotel
em Detroit atrás de um cigarro? mais um dia
dos bons. um pedacinho dele. e enquanto isso
as enfermeiras saem do prédio depois
de seu turno, tendo tido o bastante, oito enfermeiras
com diferentes nomes e lugares diferentes
para ir – atravessando o gramado, algumas delas
querem chocolate quente e um jornal, algumas delas querem um
banho quente, algumas delas querem um homem, algumas
delas dificilmente pensam em qualquer coisa. o que basta
e o que não basta. arcos e peregrinos, sarjetas
laranjas, samambaias, anticorpos, caixas de
lenços de papel.
no sol por vezes mais decente
há o sentimento levemente esfumaçado das urnas
e o som enlatado de velhos aviões de guerra
e se você entrar e correr seu dedo
pelo peitoril da janela você encontrará
sujeira, talvez até mesmo um pouco de terra.
e se você olhar através da janela
o dia chegará, e quando
ficar mais velho você seguirá olhando
seguirá olhando
chupando a língua de leve
ah ah não não talvez
alguns o fazem de modo natural
alguns de maneira obscena
em toda a parte.
e alguns homens resolvem as coisas em igrejas
e outros homens resolvem as coisas partindo borboletas
ao meio
e alguns homens resolvem as coisas em Palm Springs
enfiando-as em loiras amanteigadas
com almas de Cadillac
nada e tudo,
o rosto derretendo até a última baforada
num porão em Corpus Christi
há alguma coisa para os especuladores, para as freiras,
para os atendentes do mercado e para você...
alguma coisa às 8 da manhã, alguma coisa na biblioteca
alguma coisa no rio,
tudo e nada,
no matadouro essa coisa vem correndo ao longo
do teto presa a um gancho, e você a balança –
um
dois
três
e então você consegue, $200 de carne
morta, os ossos contra os seus
alguma coisa e nada.
é sempre cedo demais para morrer e
ao mesmo tempo tarde demais,
e o sangue extraído na bacia branca
nada lhe revela de fato
e os coveiros jogando pôquer além
das 5 da manhã, esperando que o gramado
se liberte da geada...
eles não lhe revelam nada de nada.
nós temos tudo e não temos nada –
dias com arestas de vidro e o fedor insuportável
de musgos do rio – pior do que merda;
dias de tabuleiro de movimentos e contramovimentos,
o interesse gasto, tendo a derrota ou a vitória o mesmo
sentido; dias lentos como mulas
a carregá-los estilhaçados e tristes e endurecidos pelo sol
por uma estrada onde um louco aguarda sentado entre
passarinhos azuis e cambaxirras aprisionados e sugados até um cinza
quebradiço.
bons dias também de vinho e gritaria, brigas
em becos, pernas gordas de mulheres lutando ao redor
de suas entranhas enterradas em gemidos,
os sinais nas arenas como diamantes gritando
Mãe Capri, violetas rasgando o chão
dizendo para você que se esqueça dos exércitos mortos e dos amores
que lhe roubaram.
dias em que as crianças dizem coisas engraçadas e brilhantes
como selvagens tentando lhe mandar uma mensagem através
de seus corpos enquanto seus corpos ainda
têm vida o suficiente para transmitir e sentir e correr para lá
e para cá sem amarras e contracheques e
ideais e posses e opiniões
de girino.
dias em que você pode chorar o dia inteiro num
quarto verde com a porta trancada, dias
em que você pode rir na cara do entregador de pães
porque as pernas dele são muito longas, dias
de olhar para cercas...
e nada, e nada. dias de
chefes, de homens amarelos
com mau hálito e pés grandes, homens
que parecem sapos, hienas, homens que caminham
como se a melodia jamais tivesse sido inventada, homens
que pensam que é inteligente contratar e demitir e
lucrar, homens com mulheres caras que eles possuem
como 60 acres de solo a ser perfurado
ou a serem exibidas ou postas a segura distância
dos incompetentes, homens capazes de matar você
porque eles são loucos e o justificam porque
esta é a lei, homens que se plantam em frente a
janelas com 9 metros de extensão e não veem nada,
homens com iates de luxo capazes de dar a volta
ao mundo e ainda assim jamais saírem dos bolsos de seus
coletes, homens como caracóis, homens como enguias, homens
como lesmas, e não tão bons quanto...
e nada, recebendo seu último salário
num porto, numa fábrica, num hospital, numa
fábrica de aviões, em fliperamas, numa
barbearia, num emprego que você não pode
tolerar.
imposto de renda, doença, servidão, braços
quebrados, cabeças quebradas – o enchimento todo
saltando para fora como de um velho travesseiro.
nós temos tudo e não temos nada.
alguns se viram bem por algum tempo e
depois desistem. a fama os pega ou a repulsa
ou a idade ou a falta de uma dieta adequada ou a tinta
nos olhos ou crianças nas faculdades
ou carros novos ou costas lesionadas ao esquiar
na Suíça ou novos políticos ou novas esposas
ou apenas a mudança natural e a decadência –
o homem que você conheceu ontem dando ganchos
durante dez assaltos ou bebendo por três dias e
três noites nas montanhas Sawtooth agora
apenas alguma coisa debaixo de um lençol ou de uma cruz
ou de uma pedra ou debaixo de uma fácil desilusão,
ou carregando uma bíblia ou uma sacola de golfe ou uma
valise: como eles vão, como eles vão! – todos
aqueles que você jamais pensou que iriam.
dias como este. como o seu dia hoje.
talvez a chuva na janela tentando
atravessar e chegar até você. o que você está vendo?
o que é? onde você está? os melhores
dias são às vezes os primeiros, às vezes
os intermediários e até mesmo por vezes os derradeiros.
as vagas vazias não estão mal, as igrejas nos
postais da Europa não estão mal. as pessoas
nos museus de cera congeladas em sua melhor esterilidade
não estão mal, horríveis mas não mal. o
canhão, pense no canhão. e a torrada no
café da manhã o café quente a ponto de você
saber que sua língua continua aí. três
gerânios do lado de fora da janela, tentando ser
vermelhos e tentando ser cor-de-rosa e tentando ser
gerânios. não é de espantar que às vezes as mulheres
chorem, não é de espantar que as mulas não queiram
subir as colinas. você está num quarto de hotel
em Detroit atrás de um cigarro? mais um dia
dos bons. um pedacinho dele. e enquanto isso
as enfermeiras saem do prédio depois
de seu turno, tendo tido o bastante, oito enfermeiras
com diferentes nomes e lugares diferentes
para ir – atravessando o gramado, algumas delas
querem chocolate quente e um jornal, algumas delas querem um
banho quente, algumas delas querem um homem, algumas
delas dificilmente pensam em qualquer coisa. o que basta
e o que não basta. arcos e peregrinos, sarjetas
laranjas, samambaias, anticorpos, caixas de
lenços de papel.
no sol por vezes mais decente
há o sentimento levemente esfumaçado das urnas
e o som enlatado de velhos aviões de guerra
e se você entrar e correr seu dedo
pelo peitoril da janela você encontrará
sujeira, talvez até mesmo um pouco de terra.
e se você olhar através da janela
o dia chegará, e quando
ficar mais velho você seguirá olhando
seguirá olhando
chupando a língua de leve
ah ah não não talvez
alguns o fazem de modo natural
alguns de maneira obscena
em toda a parte.
1 141
Charles Bukowski
Alguma Coisa Para Os Especuladores, Para As Freiras, Para Os Atendentes do Mercado E Para Você...
nós temos tudo e não temos nada
e alguns homens resolvem as coisas em igrejas
e outros homens resolvem as coisas partindo borboletas
ao meio
e alguns homens resolvem as coisas em Palm Springs
enfiando-as em loiras amanteigadas
com almas de Cadillac
nada e tudo,
o rosto derretendo até a última baforada
num porão em Corpus Christi
há alguma coisa para os especuladores, para as freiras,
para os atendentes do mercado e para você...
alguma coisa às 8 da manhã, alguma coisa na biblioteca
alguma coisa no rio,
tudo e nada,
no matadouro essa coisa vem correndo ao longo
do teto presa a um gancho, e você a balança –
um
dois
três
e então você consegue, $200 de carne
morta, os ossos contra os seus
alguma coisa e nada.
é sempre cedo demais para morrer e
ao mesmo tempo tarde demais,
e o sangue extraído na bacia branca
nada lhe revela de fato
e os coveiros jogando pôquer além
das 5 da manhã, esperando que o gramado
se liberte da geada...
eles não lhe revelam nada de nada.
nós temos tudo e não temos nada –
dias com arestas de vidro e o fedor insuportável
de musgos do rio – pior do que merda;
dias de tabuleiro de movimentos e contramovimentos,
o interesse gasto, tendo a derrota ou a vitória o mesmo
sentido; dias lentos como mulas
a carregá-los estilhaçados e tristes e endurecidos pelo sol
por uma estrada onde um louco aguarda sentado entre
passarinhos azuis e cambaxirras aprisionados e sugados até um cinza
quebradiço.
bons dias também de vinho e gritaria, brigas
em becos, pernas gordas de mulheres lutando ao redor
de suas entranhas enterradas em gemidos,
os sinais nas arenas como diamantes gritando
Mãe Capri, violetas rasgando o chão
dizendo para você que se esqueça dos exércitos mortos e dos amores
que lhe roubaram.
dias em que as crianças dizem coisas engraçadas e brilhantes
como selvagens tentando lhe mandar uma mensagem através
de seus corpos enquanto seus corpos ainda
têm vida o suficiente para transmitir e sentir e correr para lá
e para cá sem amarras e contracheques e
ideais e posses e opiniões
de girino.
dias em que você pode chorar o dia inteiro num
quarto verde com a porta trancada, dias
em que você pode rir na cara do entregador de pães
porque as pernas dele são muito longas, dias
de olhar para cercas...
e nada, e nada. dias de
chefes, de homens amarelos
com mau hálito e pés grandes, homens
que parecem sapos, hienas, homens que caminham
como se a melodia jamais tivesse sido inventada, homens
que pensam que é inteligente contratar e demitir e
lucrar, homens com mulheres caras que eles possuem
como 60 acres de solo a ser perfurado
ou a serem exibidas ou postas a segura distância
dos incompetentes, homens capazes de matar você
porque eles são loucos e o justificam porque
esta é a lei, homens que se plantam em frente a
janelas com 9 metros de extensão e não veem nada,
homens com iates de luxo capazes de dar a volta
ao mundo e ainda assim jamais saírem dos bolsos de seus
coletes, homens como caracóis, homens como enguias, homens
como lesmas, e não tão bons quanto...
e nada, recebendo seu último salário
num porto, numa fábrica, num hospital, numa
fábrica de aviões, em fliperamas, numa
barbearia, num emprego que você não pode
tolerar.
imposto de renda, doença, servidão, braços
quebrados, cabeças quebradas – o enchimento todo
saltando para fora como de um velho travesseiro.
nós temos tudo e não temos nada.
alguns se viram bem por algum tempo e
depois desistem. a fama os pega ou a repulsa
ou a idade ou a falta de uma dieta adequada ou a tinta
nos olhos ou crianças nas faculdades
ou carros novos ou costas lesionadas ao esquiar
na Suíça ou novos políticos ou novas esposas
ou apenas a mudança natural e a decadência –
o homem que você conheceu ontem dando ganchos
durante dez assaltos ou bebendo por três dias e
três noites nas montanhas Sawtooth agora
apenas alguma coisa debaixo de um lençol ou de uma cruz
ou de uma pedra ou debaixo de uma fácil desilusão,
ou carregando uma bíblia ou uma sacola de golfe ou uma
valise: como eles vão, como eles vão! – todos
aqueles que você jamais pensou que iriam.
dias como este. como o seu dia hoje.
talvez a chuva na janela tentando
atravessar e chegar até você. o que você está vendo?
o que é? onde você está? os melhores
dias são às vezes os primeiros, às vezes
os intermediários e até mesmo por vezes os derradeiros.
as vagas vazias não estão mal, as igrejas nos
postais da Europa não estão mal. as pessoas
nos museus de cera congeladas em sua melhor esterilidade
não estão mal, horríveis mas não mal. o
canhão, pense no canhão. e a torrada no
café da manhã o café quente a ponto de você
saber que sua língua continua aí. três
gerânios do lado de fora da janela, tentando ser
vermelhos e tentando ser cor-de-rosa e tentando ser
gerânios. não é de espantar que às vezes as mulheres
chorem, não é de espantar que as mulas não queiram
subir as colinas. você está num quarto de hotel
em Detroit atrás de um cigarro? mais um dia
dos bons. um pedacinho dele. e enquanto isso
as enfermeiras saem do prédio depois
de seu turno, tendo tido o bastante, oito enfermeiras
com diferentes nomes e lugares diferentes
para ir – atravessando o gramado, algumas delas
querem chocolate quente e um jornal, algumas delas querem um
banho quente, algumas delas querem um homem, algumas
delas dificilmente pensam em qualquer coisa. o que basta
e o que não basta. arcos e peregrinos, sarjetas
laranjas, samambaias, anticorpos, caixas de
lenços de papel.
no sol por vezes mais decente
há o sentimento levemente esfumaçado das urnas
e o som enlatado de velhos aviões de guerra
e se você entrar e correr seu dedo
pelo peitoril da janela você encontrará
sujeira, talvez até mesmo um pouco de terra.
e se você olhar através da janela
o dia chegará, e quando
ficar mais velho você seguirá olhando
seguirá olhando
chupando a língua de leve
ah ah não não talvez
alguns o fazem de modo natural
alguns de maneira obscena
em toda a parte.
e alguns homens resolvem as coisas em igrejas
e outros homens resolvem as coisas partindo borboletas
ao meio
e alguns homens resolvem as coisas em Palm Springs
enfiando-as em loiras amanteigadas
com almas de Cadillac
nada e tudo,
o rosto derretendo até a última baforada
num porão em Corpus Christi
há alguma coisa para os especuladores, para as freiras,
para os atendentes do mercado e para você...
alguma coisa às 8 da manhã, alguma coisa na biblioteca
alguma coisa no rio,
tudo e nada,
no matadouro essa coisa vem correndo ao longo
do teto presa a um gancho, e você a balança –
um
dois
três
e então você consegue, $200 de carne
morta, os ossos contra os seus
alguma coisa e nada.
é sempre cedo demais para morrer e
ao mesmo tempo tarde demais,
e o sangue extraído na bacia branca
nada lhe revela de fato
e os coveiros jogando pôquer além
das 5 da manhã, esperando que o gramado
se liberte da geada...
eles não lhe revelam nada de nada.
nós temos tudo e não temos nada –
dias com arestas de vidro e o fedor insuportável
de musgos do rio – pior do que merda;
dias de tabuleiro de movimentos e contramovimentos,
o interesse gasto, tendo a derrota ou a vitória o mesmo
sentido; dias lentos como mulas
a carregá-los estilhaçados e tristes e endurecidos pelo sol
por uma estrada onde um louco aguarda sentado entre
passarinhos azuis e cambaxirras aprisionados e sugados até um cinza
quebradiço.
bons dias também de vinho e gritaria, brigas
em becos, pernas gordas de mulheres lutando ao redor
de suas entranhas enterradas em gemidos,
os sinais nas arenas como diamantes gritando
Mãe Capri, violetas rasgando o chão
dizendo para você que se esqueça dos exércitos mortos e dos amores
que lhe roubaram.
dias em que as crianças dizem coisas engraçadas e brilhantes
como selvagens tentando lhe mandar uma mensagem através
de seus corpos enquanto seus corpos ainda
têm vida o suficiente para transmitir e sentir e correr para lá
e para cá sem amarras e contracheques e
ideais e posses e opiniões
de girino.
dias em que você pode chorar o dia inteiro num
quarto verde com a porta trancada, dias
em que você pode rir na cara do entregador de pães
porque as pernas dele são muito longas, dias
de olhar para cercas...
e nada, e nada. dias de
chefes, de homens amarelos
com mau hálito e pés grandes, homens
que parecem sapos, hienas, homens que caminham
como se a melodia jamais tivesse sido inventada, homens
que pensam que é inteligente contratar e demitir e
lucrar, homens com mulheres caras que eles possuem
como 60 acres de solo a ser perfurado
ou a serem exibidas ou postas a segura distância
dos incompetentes, homens capazes de matar você
porque eles são loucos e o justificam porque
esta é a lei, homens que se plantam em frente a
janelas com 9 metros de extensão e não veem nada,
homens com iates de luxo capazes de dar a volta
ao mundo e ainda assim jamais saírem dos bolsos de seus
coletes, homens como caracóis, homens como enguias, homens
como lesmas, e não tão bons quanto...
e nada, recebendo seu último salário
num porto, numa fábrica, num hospital, numa
fábrica de aviões, em fliperamas, numa
barbearia, num emprego que você não pode
tolerar.
imposto de renda, doença, servidão, braços
quebrados, cabeças quebradas – o enchimento todo
saltando para fora como de um velho travesseiro.
nós temos tudo e não temos nada.
alguns se viram bem por algum tempo e
depois desistem. a fama os pega ou a repulsa
ou a idade ou a falta de uma dieta adequada ou a tinta
nos olhos ou crianças nas faculdades
ou carros novos ou costas lesionadas ao esquiar
na Suíça ou novos políticos ou novas esposas
ou apenas a mudança natural e a decadência –
o homem que você conheceu ontem dando ganchos
durante dez assaltos ou bebendo por três dias e
três noites nas montanhas Sawtooth agora
apenas alguma coisa debaixo de um lençol ou de uma cruz
ou de uma pedra ou debaixo de uma fácil desilusão,
ou carregando uma bíblia ou uma sacola de golfe ou uma
valise: como eles vão, como eles vão! – todos
aqueles que você jamais pensou que iriam.
dias como este. como o seu dia hoje.
talvez a chuva na janela tentando
atravessar e chegar até você. o que você está vendo?
o que é? onde você está? os melhores
dias são às vezes os primeiros, às vezes
os intermediários e até mesmo por vezes os derradeiros.
as vagas vazias não estão mal, as igrejas nos
postais da Europa não estão mal. as pessoas
nos museus de cera congeladas em sua melhor esterilidade
não estão mal, horríveis mas não mal. o
canhão, pense no canhão. e a torrada no
café da manhã o café quente a ponto de você
saber que sua língua continua aí. três
gerânios do lado de fora da janela, tentando ser
vermelhos e tentando ser cor-de-rosa e tentando ser
gerânios. não é de espantar que às vezes as mulheres
chorem, não é de espantar que as mulas não queiram
subir as colinas. você está num quarto de hotel
em Detroit atrás de um cigarro? mais um dia
dos bons. um pedacinho dele. e enquanto isso
as enfermeiras saem do prédio depois
de seu turno, tendo tido o bastante, oito enfermeiras
com diferentes nomes e lugares diferentes
para ir – atravessando o gramado, algumas delas
querem chocolate quente e um jornal, algumas delas querem um
banho quente, algumas delas querem um homem, algumas
delas dificilmente pensam em qualquer coisa. o que basta
e o que não basta. arcos e peregrinos, sarjetas
laranjas, samambaias, anticorpos, caixas de
lenços de papel.
no sol por vezes mais decente
há o sentimento levemente esfumaçado das urnas
e o som enlatado de velhos aviões de guerra
e se você entrar e correr seu dedo
pelo peitoril da janela você encontrará
sujeira, talvez até mesmo um pouco de terra.
e se você olhar através da janela
o dia chegará, e quando
ficar mais velho você seguirá olhando
seguirá olhando
chupando a língua de leve
ah ah não não talvez
alguns o fazem de modo natural
alguns de maneira obscena
em toda a parte.
1 141
Charles Bukowski
Alguma Coisa Para Os Especuladores, Para As Freiras, Para Os Atendentes do Mercado E Para Você...
nós temos tudo e não temos nada
e alguns homens resolvem as coisas em igrejas
e outros homens resolvem as coisas partindo borboletas
ao meio
e alguns homens resolvem as coisas em Palm Springs
enfiando-as em loiras amanteigadas
com almas de Cadillac
nada e tudo,
o rosto derretendo até a última baforada
num porão em Corpus Christi
há alguma coisa para os especuladores, para as freiras,
para os atendentes do mercado e para você...
alguma coisa às 8 da manhã, alguma coisa na biblioteca
alguma coisa no rio,
tudo e nada,
no matadouro essa coisa vem correndo ao longo
do teto presa a um gancho, e você a balança –
um
dois
três
e então você consegue, $200 de carne
morta, os ossos contra os seus
alguma coisa e nada.
é sempre cedo demais para morrer e
ao mesmo tempo tarde demais,
e o sangue extraído na bacia branca
nada lhe revela de fato
e os coveiros jogando pôquer além
das 5 da manhã, esperando que o gramado
se liberte da geada...
eles não lhe revelam nada de nada.
nós temos tudo e não temos nada –
dias com arestas de vidro e o fedor insuportável
de musgos do rio – pior do que merda;
dias de tabuleiro de movimentos e contramovimentos,
o interesse gasto, tendo a derrota ou a vitória o mesmo
sentido; dias lentos como mulas
a carregá-los estilhaçados e tristes e endurecidos pelo sol
por uma estrada onde um louco aguarda sentado entre
passarinhos azuis e cambaxirras aprisionados e sugados até um cinza
quebradiço.
bons dias também de vinho e gritaria, brigas
em becos, pernas gordas de mulheres lutando ao redor
de suas entranhas enterradas em gemidos,
os sinais nas arenas como diamantes gritando
Mãe Capri, violetas rasgando o chão
dizendo para você que se esqueça dos exércitos mortos e dos amores
que lhe roubaram.
dias em que as crianças dizem coisas engraçadas e brilhantes
como selvagens tentando lhe mandar uma mensagem através
de seus corpos enquanto seus corpos ainda
têm vida o suficiente para transmitir e sentir e correr para lá
e para cá sem amarras e contracheques e
ideais e posses e opiniões
de girino.
dias em que você pode chorar o dia inteiro num
quarto verde com a porta trancada, dias
em que você pode rir na cara do entregador de pães
porque as pernas dele são muito longas, dias
de olhar para cercas...
e nada, e nada. dias de
chefes, de homens amarelos
com mau hálito e pés grandes, homens
que parecem sapos, hienas, homens que caminham
como se a melodia jamais tivesse sido inventada, homens
que pensam que é inteligente contratar e demitir e
lucrar, homens com mulheres caras que eles possuem
como 60 acres de solo a ser perfurado
ou a serem exibidas ou postas a segura distância
dos incompetentes, homens capazes de matar você
porque eles são loucos e o justificam porque
esta é a lei, homens que se plantam em frente a
janelas com 9 metros de extensão e não veem nada,
homens com iates de luxo capazes de dar a volta
ao mundo e ainda assim jamais saírem dos bolsos de seus
coletes, homens como caracóis, homens como enguias, homens
como lesmas, e não tão bons quanto...
e nada, recebendo seu último salário
num porto, numa fábrica, num hospital, numa
fábrica de aviões, em fliperamas, numa
barbearia, num emprego que você não pode
tolerar.
imposto de renda, doença, servidão, braços
quebrados, cabeças quebradas – o enchimento todo
saltando para fora como de um velho travesseiro.
nós temos tudo e não temos nada.
alguns se viram bem por algum tempo e
depois desistem. a fama os pega ou a repulsa
ou a idade ou a falta de uma dieta adequada ou a tinta
nos olhos ou crianças nas faculdades
ou carros novos ou costas lesionadas ao esquiar
na Suíça ou novos políticos ou novas esposas
ou apenas a mudança natural e a decadência –
o homem que você conheceu ontem dando ganchos
durante dez assaltos ou bebendo por três dias e
três noites nas montanhas Sawtooth agora
apenas alguma coisa debaixo de um lençol ou de uma cruz
ou de uma pedra ou debaixo de uma fácil desilusão,
ou carregando uma bíblia ou uma sacola de golfe ou uma
valise: como eles vão, como eles vão! – todos
aqueles que você jamais pensou que iriam.
dias como este. como o seu dia hoje.
talvez a chuva na janela tentando
atravessar e chegar até você. o que você está vendo?
o que é? onde você está? os melhores
dias são às vezes os primeiros, às vezes
os intermediários e até mesmo por vezes os derradeiros.
as vagas vazias não estão mal, as igrejas nos
postais da Europa não estão mal. as pessoas
nos museus de cera congeladas em sua melhor esterilidade
não estão mal, horríveis mas não mal. o
canhão, pense no canhão. e a torrada no
café da manhã o café quente a ponto de você
saber que sua língua continua aí. três
gerânios do lado de fora da janela, tentando ser
vermelhos e tentando ser cor-de-rosa e tentando ser
gerânios. não é de espantar que às vezes as mulheres
chorem, não é de espantar que as mulas não queiram
subir as colinas. você está num quarto de hotel
em Detroit atrás de um cigarro? mais um dia
dos bons. um pedacinho dele. e enquanto isso
as enfermeiras saem do prédio depois
de seu turno, tendo tido o bastante, oito enfermeiras
com diferentes nomes e lugares diferentes
para ir – atravessando o gramado, algumas delas
querem chocolate quente e um jornal, algumas delas querem um
banho quente, algumas delas querem um homem, algumas
delas dificilmente pensam em qualquer coisa. o que basta
e o que não basta. arcos e peregrinos, sarjetas
laranjas, samambaias, anticorpos, caixas de
lenços de papel.
no sol por vezes mais decente
há o sentimento levemente esfumaçado das urnas
e o som enlatado de velhos aviões de guerra
e se você entrar e correr seu dedo
pelo peitoril da janela você encontrará
sujeira, talvez até mesmo um pouco de terra.
e se você olhar através da janela
o dia chegará, e quando
ficar mais velho você seguirá olhando
seguirá olhando
chupando a língua de leve
ah ah não não talvez
alguns o fazem de modo natural
alguns de maneira obscena
em toda a parte.
e alguns homens resolvem as coisas em igrejas
e outros homens resolvem as coisas partindo borboletas
ao meio
e alguns homens resolvem as coisas em Palm Springs
enfiando-as em loiras amanteigadas
com almas de Cadillac
nada e tudo,
o rosto derretendo até a última baforada
num porão em Corpus Christi
há alguma coisa para os especuladores, para as freiras,
para os atendentes do mercado e para você...
alguma coisa às 8 da manhã, alguma coisa na biblioteca
alguma coisa no rio,
tudo e nada,
no matadouro essa coisa vem correndo ao longo
do teto presa a um gancho, e você a balança –
um
dois
três
e então você consegue, $200 de carne
morta, os ossos contra os seus
alguma coisa e nada.
é sempre cedo demais para morrer e
ao mesmo tempo tarde demais,
e o sangue extraído na bacia branca
nada lhe revela de fato
e os coveiros jogando pôquer além
das 5 da manhã, esperando que o gramado
se liberte da geada...
eles não lhe revelam nada de nada.
nós temos tudo e não temos nada –
dias com arestas de vidro e o fedor insuportável
de musgos do rio – pior do que merda;
dias de tabuleiro de movimentos e contramovimentos,
o interesse gasto, tendo a derrota ou a vitória o mesmo
sentido; dias lentos como mulas
a carregá-los estilhaçados e tristes e endurecidos pelo sol
por uma estrada onde um louco aguarda sentado entre
passarinhos azuis e cambaxirras aprisionados e sugados até um cinza
quebradiço.
bons dias também de vinho e gritaria, brigas
em becos, pernas gordas de mulheres lutando ao redor
de suas entranhas enterradas em gemidos,
os sinais nas arenas como diamantes gritando
Mãe Capri, violetas rasgando o chão
dizendo para você que se esqueça dos exércitos mortos e dos amores
que lhe roubaram.
dias em que as crianças dizem coisas engraçadas e brilhantes
como selvagens tentando lhe mandar uma mensagem através
de seus corpos enquanto seus corpos ainda
têm vida o suficiente para transmitir e sentir e correr para lá
e para cá sem amarras e contracheques e
ideais e posses e opiniões
de girino.
dias em que você pode chorar o dia inteiro num
quarto verde com a porta trancada, dias
em que você pode rir na cara do entregador de pães
porque as pernas dele são muito longas, dias
de olhar para cercas...
e nada, e nada. dias de
chefes, de homens amarelos
com mau hálito e pés grandes, homens
que parecem sapos, hienas, homens que caminham
como se a melodia jamais tivesse sido inventada, homens
que pensam que é inteligente contratar e demitir e
lucrar, homens com mulheres caras que eles possuem
como 60 acres de solo a ser perfurado
ou a serem exibidas ou postas a segura distância
dos incompetentes, homens capazes de matar você
porque eles são loucos e o justificam porque
esta é a lei, homens que se plantam em frente a
janelas com 9 metros de extensão e não veem nada,
homens com iates de luxo capazes de dar a volta
ao mundo e ainda assim jamais saírem dos bolsos de seus
coletes, homens como caracóis, homens como enguias, homens
como lesmas, e não tão bons quanto...
e nada, recebendo seu último salário
num porto, numa fábrica, num hospital, numa
fábrica de aviões, em fliperamas, numa
barbearia, num emprego que você não pode
tolerar.
imposto de renda, doença, servidão, braços
quebrados, cabeças quebradas – o enchimento todo
saltando para fora como de um velho travesseiro.
nós temos tudo e não temos nada.
alguns se viram bem por algum tempo e
depois desistem. a fama os pega ou a repulsa
ou a idade ou a falta de uma dieta adequada ou a tinta
nos olhos ou crianças nas faculdades
ou carros novos ou costas lesionadas ao esquiar
na Suíça ou novos políticos ou novas esposas
ou apenas a mudança natural e a decadência –
o homem que você conheceu ontem dando ganchos
durante dez assaltos ou bebendo por três dias e
três noites nas montanhas Sawtooth agora
apenas alguma coisa debaixo de um lençol ou de uma cruz
ou de uma pedra ou debaixo de uma fácil desilusão,
ou carregando uma bíblia ou uma sacola de golfe ou uma
valise: como eles vão, como eles vão! – todos
aqueles que você jamais pensou que iriam.
dias como este. como o seu dia hoje.
talvez a chuva na janela tentando
atravessar e chegar até você. o que você está vendo?
o que é? onde você está? os melhores
dias são às vezes os primeiros, às vezes
os intermediários e até mesmo por vezes os derradeiros.
as vagas vazias não estão mal, as igrejas nos
postais da Europa não estão mal. as pessoas
nos museus de cera congeladas em sua melhor esterilidade
não estão mal, horríveis mas não mal. o
canhão, pense no canhão. e a torrada no
café da manhã o café quente a ponto de você
saber que sua língua continua aí. três
gerânios do lado de fora da janela, tentando ser
vermelhos e tentando ser cor-de-rosa e tentando ser
gerânios. não é de espantar que às vezes as mulheres
chorem, não é de espantar que as mulas não queiram
subir as colinas. você está num quarto de hotel
em Detroit atrás de um cigarro? mais um dia
dos bons. um pedacinho dele. e enquanto isso
as enfermeiras saem do prédio depois
de seu turno, tendo tido o bastante, oito enfermeiras
com diferentes nomes e lugares diferentes
para ir – atravessando o gramado, algumas delas
querem chocolate quente e um jornal, algumas delas querem um
banho quente, algumas delas querem um homem, algumas
delas dificilmente pensam em qualquer coisa. o que basta
e o que não basta. arcos e peregrinos, sarjetas
laranjas, samambaias, anticorpos, caixas de
lenços de papel.
no sol por vezes mais decente
há o sentimento levemente esfumaçado das urnas
e o som enlatado de velhos aviões de guerra
e se você entrar e correr seu dedo
pelo peitoril da janela você encontrará
sujeira, talvez até mesmo um pouco de terra.
e se você olhar através da janela
o dia chegará, e quando
ficar mais velho você seguirá olhando
seguirá olhando
chupando a língua de leve
ah ah não não talvez
alguns o fazem de modo natural
alguns de maneira obscena
em toda a parte.
1 141
Charles Bukowski
Uma Tarde Agradável Na Cama
verões vermelhos e cetim negro
carvão e sangue
circundando os lençóis
enquanto lesmas são pisoteadas
e mariposas se agitam
tentando acender os olhos
das lâmpadas em
cidades artificiais;
acendo o cigarro dela
e ela expele um plasma
de relaxamento
para provar que nós dois fomos
bons amantes –
branco no preto, e no preto;
e seus dedos derrubam negras
intersecções
em meus lençóis pesados
ela diz, aquele cara do elevador...
você conhece ele?
eu digo sim.
um canalha... bate na mulher.
coloco minha mão
estendida sobre a superfície
onde a curva desce.
diabos para um VELHO,
você realmente gosta de brincar!
me estendo e apanho
a garrafa, seco-a
deitado de costas,
a espuma como sabão
engasgando-me com sons
abafados, e ela ouvindo,
os olhos rodando
como câmeras de um telejornal,
e de repente me vem uma risada,
ejeto um jorro como o das costas de uma baleia
feito de espuma e líquido
majestaticamente contra o papel de parede
sem saber por quê,
e ela ri
olhando para minha loucura estirada,
ela ri
segurando o cigarro
alto no espaço
com um dos braços
a fumaça se desfazendo
ignorada
e estamos juntos na cama
rindo
e não damos a mínima
para nada
e é muito
muito engraçado.
carvão e sangue
circundando os lençóis
enquanto lesmas são pisoteadas
e mariposas se agitam
tentando acender os olhos
das lâmpadas em
cidades artificiais;
acendo o cigarro dela
e ela expele um plasma
de relaxamento
para provar que nós dois fomos
bons amantes –
branco no preto, e no preto;
e seus dedos derrubam negras
intersecções
em meus lençóis pesados
ela diz, aquele cara do elevador...
você conhece ele?
eu digo sim.
um canalha... bate na mulher.
coloco minha mão
estendida sobre a superfície
onde a curva desce.
diabos para um VELHO,
você realmente gosta de brincar!
me estendo e apanho
a garrafa, seco-a
deitado de costas,
a espuma como sabão
engasgando-me com sons
abafados, e ela ouvindo,
os olhos rodando
como câmeras de um telejornal,
e de repente me vem uma risada,
ejeto um jorro como o das costas de uma baleia
feito de espuma e líquido
majestaticamente contra o papel de parede
sem saber por quê,
e ela ri
olhando para minha loucura estirada,
ela ri
segurando o cigarro
alto no espaço
com um dos braços
a fumaça se desfazendo
ignorada
e estamos juntos na cama
rindo
e não damos a mínima
para nada
e é muito
muito engraçado.
1 138
Charles Bukowski
Sobre Guindastes
às vezes, após você ter recebido
das forças um belo chute no rabo
você costuma desejar ser um guindaste
estendido sobre uma perna
na água azul
mas há sempre
a
velha questão
que você conhece:
você não quer ser
um guindaste
estendido sobre uma perna
na água azul
o infortúnio não é
suficiente
e
a vitória
claudica
um guindaste não pode
pagar por um rabo
ou
vadiar às tardes
em Monterey
essas são algumas
das coisas
que os humanos podem fazer
além de
ficar sobre uma perna só
das forças um belo chute no rabo
você costuma desejar ser um guindaste
estendido sobre uma perna
na água azul
mas há sempre
a
velha questão
que você conhece:
você não quer ser
um guindaste
estendido sobre uma perna
na água azul
o infortúnio não é
suficiente
e
a vitória
claudica
um guindaste não pode
pagar por um rabo
ou
vadiar às tardes
em Monterey
essas são algumas
das coisas
que os humanos podem fazer
além de
ficar sobre uma perna só
1 178
Charles Bukowski
Sobre Guindastes
às vezes, após você ter recebido
das forças um belo chute no rabo
você costuma desejar ser um guindaste
estendido sobre uma perna
na água azul
mas há sempre
a
velha questão
que você conhece:
você não quer ser
um guindaste
estendido sobre uma perna
na água azul
o infortúnio não é
suficiente
e
a vitória
claudica
um guindaste não pode
pagar por um rabo
ou
vadiar às tardes
em Monterey
essas são algumas
das coisas
que os humanos podem fazer
além de
ficar sobre uma perna só
das forças um belo chute no rabo
você costuma desejar ser um guindaste
estendido sobre uma perna
na água azul
mas há sempre
a
velha questão
que você conhece:
você não quer ser
um guindaste
estendido sobre uma perna
na água azul
o infortúnio não é
suficiente
e
a vitória
claudica
um guindaste não pode
pagar por um rabo
ou
vadiar às tardes
em Monterey
essas são algumas
das coisas
que os humanos podem fazer
além de
ficar sobre uma perna só
1 178
Charles Bukowski
Sobre Guindastes
às vezes, após você ter recebido
das forças um belo chute no rabo
você costuma desejar ser um guindaste
estendido sobre uma perna
na água azul
mas há sempre
a
velha questão
que você conhece:
você não quer ser
um guindaste
estendido sobre uma perna
na água azul
o infortúnio não é
suficiente
e
a vitória
claudica
um guindaste não pode
pagar por um rabo
ou
vadiar às tardes
em Monterey
essas são algumas
das coisas
que os humanos podem fazer
além de
ficar sobre uma perna só
das forças um belo chute no rabo
você costuma desejar ser um guindaste
estendido sobre uma perna
na água azul
mas há sempre
a
velha questão
que você conhece:
você não quer ser
um guindaste
estendido sobre uma perna
na água azul
o infortúnio não é
suficiente
e
a vitória
claudica
um guindaste não pode
pagar por um rabo
ou
vadiar às tardes
em Monterey
essas são algumas
das coisas
que os humanos podem fazer
além de
ficar sobre uma perna só
1 178
Charles Bukowski
O Lado do Sol
os touros são grandes como o lado do sol
e ainda que os matem para as multidões apodrecidas,
é o touro que faz queimar o fogo,
e ainda que haja touros covardes como
há matadores covardes e homens covardes,
o touro em geral permanece puro
e morre puro
intocado por símbolos e conchavos e falsos amores,
e quando eles o arrastam
nada está morto
alguma coisa passou
e o fedor eventual
é o mundo.
e ainda que os matem para as multidões apodrecidas,
é o touro que faz queimar o fogo,
e ainda que haja touros covardes como
há matadores covardes e homens covardes,
o touro em geral permanece puro
e morre puro
intocado por símbolos e conchavos e falsos amores,
e quando eles o arrastam
nada está morto
alguma coisa passou
e o fedor eventual
é o mundo.
1 215
Charles Bukowski
Homem Ao Sol
ela me lê algo da New Yorker
que eu não compro, não sei
como vieram parar aqui. mas é
alguma coisa sobre a Máfia
um dos chefões da Máfia
que comia demais e levava as coisas fácil demais
muitas belas mulheres para lhe acariciar as
nozes, e ele ficou gordo mamando em bons
charutos e peitos jovens e ele
tem esses ataques cardíacos – e então
certo dia alguém está a conduzi-lo
neste carrão pela estrada
e ele não se sente muito bem
e ele pede ao garoto que pare e o deixe
descer e o garoto o faz deitar
ao longo da estrada à bela luz do sol.
não sei se é em Creta ou
Sicília ou quem sabe na Itália
mas ele está ali deitado ao sol
e antes de morrer ele diz:
que linda a vida pode ser, e
então ele se vai.
às vezes você precisa matar 4 ou 5
mil homens antes de ser capaz de acreditar
de alguma maneira que um pardal
é imortal, que dinheiro é lixo e
que você não tenha feito mais do que perder
seu tempo.
que eu não compro, não sei
como vieram parar aqui. mas é
alguma coisa sobre a Máfia
um dos chefões da Máfia
que comia demais e levava as coisas fácil demais
muitas belas mulheres para lhe acariciar as
nozes, e ele ficou gordo mamando em bons
charutos e peitos jovens e ele
tem esses ataques cardíacos – e então
certo dia alguém está a conduzi-lo
neste carrão pela estrada
e ele não se sente muito bem
e ele pede ao garoto que pare e o deixe
descer e o garoto o faz deitar
ao longo da estrada à bela luz do sol.
não sei se é em Creta ou
Sicília ou quem sabe na Itália
mas ele está ali deitado ao sol
e antes de morrer ele diz:
que linda a vida pode ser, e
então ele se vai.
às vezes você precisa matar 4 ou 5
mil homens antes de ser capaz de acreditar
de alguma maneira que um pardal
é imortal, que dinheiro é lixo e
que você não tenha feito mais do que perder
seu tempo.
1 162
Charles Bukowski
Homem Ao Sol
ela me lê algo da New Yorker
que eu não compro, não sei
como vieram parar aqui. mas é
alguma coisa sobre a Máfia
um dos chefões da Máfia
que comia demais e levava as coisas fácil demais
muitas belas mulheres para lhe acariciar as
nozes, e ele ficou gordo mamando em bons
charutos e peitos jovens e ele
tem esses ataques cardíacos – e então
certo dia alguém está a conduzi-lo
neste carrão pela estrada
e ele não se sente muito bem
e ele pede ao garoto que pare e o deixe
descer e o garoto o faz deitar
ao longo da estrada à bela luz do sol.
não sei se é em Creta ou
Sicília ou quem sabe na Itália
mas ele está ali deitado ao sol
e antes de morrer ele diz:
que linda a vida pode ser, e
então ele se vai.
às vezes você precisa matar 4 ou 5
mil homens antes de ser capaz de acreditar
de alguma maneira que um pardal
é imortal, que dinheiro é lixo e
que você não tenha feito mais do que perder
seu tempo.
que eu não compro, não sei
como vieram parar aqui. mas é
alguma coisa sobre a Máfia
um dos chefões da Máfia
que comia demais e levava as coisas fácil demais
muitas belas mulheres para lhe acariciar as
nozes, e ele ficou gordo mamando em bons
charutos e peitos jovens e ele
tem esses ataques cardíacos – e então
certo dia alguém está a conduzi-lo
neste carrão pela estrada
e ele não se sente muito bem
e ele pede ao garoto que pare e o deixe
descer e o garoto o faz deitar
ao longo da estrada à bela luz do sol.
não sei se é em Creta ou
Sicília ou quem sabe na Itália
mas ele está ali deitado ao sol
e antes de morrer ele diz:
que linda a vida pode ser, e
então ele se vai.
às vezes você precisa matar 4 ou 5
mil homens antes de ser capaz de acreditar
de alguma maneira que um pardal
é imortal, que dinheiro é lixo e
que você não tenha feito mais do que perder
seu tempo.
1 162
Charles Bukowski
Para Marilyn M.
deslizando intensamente sobre luminosas cinzas,
alvo de lágrimas de baunilha
seu corpo certeiro acende velas para os homens
em noites escuras,
e agora sua noite é mais escura
do que podem as velas
e nós vamos esquecer você, de alguma maneira,
e isso não é justo
mas os corpos reais estão mais perto
e enquanto os vermes resfolegam por seus ossos,
de modo que eu gostaria de lhe dizer
que isso acontece a ursos e a elefantes
a tiranos e a heróis e a formigas
e aos sapos,
ainda assim, você nos trouxe alguma coisa
um tipo de pequena vitória,
e para isso eu digo: bom
e deixe que larguemos mão do pesar;
como uma flor seca e jogada fora,
esquecemos, relembramos,
esperamos. criança, criança, criança,
ergo minha bebida um minuto inteiro
e sorrio.
alvo de lágrimas de baunilha
seu corpo certeiro acende velas para os homens
em noites escuras,
e agora sua noite é mais escura
do que podem as velas
e nós vamos esquecer você, de alguma maneira,
e isso não é justo
mas os corpos reais estão mais perto
e enquanto os vermes resfolegam por seus ossos,
de modo que eu gostaria de lhe dizer
que isso acontece a ursos e a elefantes
a tiranos e a heróis e a formigas
e aos sapos,
ainda assim, você nos trouxe alguma coisa
um tipo de pequena vitória,
e para isso eu digo: bom
e deixe que larguemos mão do pesar;
como uma flor seca e jogada fora,
esquecemos, relembramos,
esperamos. criança, criança, criança,
ergo minha bebida um minuto inteiro
e sorrio.
1 140