Poemas neste tema
Vida e Existência
Marina Colasanti
Longa viagem em 1943
Nosso carro a gasogênio
tinha especial talento
para enguiçar nas pontes.
Bombardeiros por cima
nós deitados no mato
e o negro delator
visível
evidente
quase obsceno
parado sobre o rio
gritando para o céu
aqui
aqui há quem se pode matar.
Viagem longa aquela
com meu pai ao volante
a minha mãe atrás
com seu brilhante costurado
na saia
e o meu irmão
atirando com a mão feita pistola
pam! pam!
a cada pássaro ou gente
que apontasse nos campos.
Longa viagem aquela
de metade da guerra
para a outra metade
no tempo tão pequeno
que era o meu
em que
da paz
nem me lembrava a cara.
tinha especial talento
para enguiçar nas pontes.
Bombardeiros por cima
nós deitados no mato
e o negro delator
visível
evidente
quase obsceno
parado sobre o rio
gritando para o céu
aqui
aqui há quem se pode matar.
Viagem longa aquela
com meu pai ao volante
a minha mãe atrás
com seu brilhante costurado
na saia
e o meu irmão
atirando com a mão feita pistola
pam! pam!
a cada pássaro ou gente
que apontasse nos campos.
Longa viagem aquela
de metade da guerra
para a outra metade
no tempo tão pequeno
que era o meu
em que
da paz
nem me lembrava a cara.
1 192
Marina Colasanti
Com o sol na língua
Ó Senhor!, que a garganta
não aguenta
tanto leandro em flor
tanta giesta
e o mar lá embaixo
como mesa posta.
Quero água de fonte
sobre os pulsos
e o sol na língua
como pão ou hóstia.
Quero descer
subir
a escadaria da encosta
a alma escancarada
a carne exposta
e esse explodir de sinos
na cabeça.
não aguenta
tanto leandro em flor
tanta giesta
e o mar lá embaixo
como mesa posta.
Quero água de fonte
sobre os pulsos
e o sol na língua
como pão ou hóstia.
Quero descer
subir
a escadaria da encosta
a alma escancarada
a carne exposta
e esse explodir de sinos
na cabeça.
949
Marina Colasanti
Por instantes
Aquela fruteira
na outra mesa
aquela fruteira de nada
louça branca e um pé
aquela fruteira que acolhe
duas laranjas
e a pera
aquela fruteira que ali está apenas
para oferecer frutas
aquela fruteira
canta
aos meus olhos.
Pode ser o sol
que pousou-se ali como uma fruta a mais
Pode ser o leite da louça suspenso
sobre a branca toalha.
Pode ser seu silêncio de objeto
entre ruídos.
Contido em meu olhar
o tempo da fruteira se detém.
E já mão alheia se estende
e colhe o sol.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
na outra mesa
aquela fruteira de nada
louça branca e um pé
aquela fruteira que acolhe
duas laranjas
e a pera
aquela fruteira que ali está apenas
para oferecer frutas
aquela fruteira
canta
aos meus olhos.
Pode ser o sol
que pousou-se ali como uma fruta a mais
Pode ser o leite da louça suspenso
sobre a branca toalha.
Pode ser seu silêncio de objeto
entre ruídos.
Contido em meu olhar
o tempo da fruteira se detém.
E já mão alheia se estende
e colhe o sol.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 279
Marina Colasanti
Pitigrilli proibido
O maiô da dolicocéfala loura
é branco
cavado nas coxas
o barco
da dolicocéfala loura
tem velas abertas
no esmalte cobalto
o barco está preso no azul
como um broche
a loura desliza uma perna
por cima da borda
cintila mais branca
a virilha exposta no gesto.
Alguém chega à porta do quarto
imóvel o barco navega
no livro fechado.
é branco
cavado nas coxas
o barco
da dolicocéfala loura
tem velas abertas
no esmalte cobalto
o barco está preso no azul
como um broche
a loura desliza uma perna
por cima da borda
cintila mais branca
a virilha exposta no gesto.
Alguém chega à porta do quarto
imóvel o barco navega
no livro fechado.
1 094
Marina Colasanti
Se cárcere não for
Como dizer
prisões
a esses espaços
se o cárcere não for
o humano corpo?
As correntes pendentes das arcadas
as escadas
as represas de luz contendo
as sombras
quantas vezes os vi
dentro do peito
abismo
onde a carne se perde,
calabouço.
Rangem as engrenagens denteadas
movendo mós de pedra
o sangue escorre
ou o grito
geme ferida a corda
na polia.
Tudo é pedra
e madeira
no arcabouço
tudo é osso.
Cárceres de invenção
que não se inventam
visão do condenado
ou carcereiro
retrato
que Piranesi fez
da sua masmorra.
prisões
a esses espaços
se o cárcere não for
o humano corpo?
As correntes pendentes das arcadas
as escadas
as represas de luz contendo
as sombras
quantas vezes os vi
dentro do peito
abismo
onde a carne se perde,
calabouço.
Rangem as engrenagens denteadas
movendo mós de pedra
o sangue escorre
ou o grito
geme ferida a corda
na polia.
Tudo é pedra
e madeira
no arcabouço
tudo é osso.
Cárceres de invenção
que não se inventam
visão do condenado
ou carcereiro
retrato
que Piranesi fez
da sua masmorra.
1 125
Marina Colasanti
Desde o início
Na escura caixa do peito
meu coração se sabe destinado
à lança.
Dorme a serpente
inchando seu veneno
os escorpiões se escondem
sob as pedras
corre ainda o meu sangue
livre de peçonha.
Uma lâmina aguarda
além da esquina
uma gilete um vírus um projétil
marcam na estrada pontos de fronteira
na mesma estrada em que caminho
há tempos
presos meus pés a inarredáveis trilhos.
meu coração se sabe destinado
à lança.
Dorme a serpente
inchando seu veneno
os escorpiões se escondem
sob as pedras
corre ainda o meu sangue
livre de peçonha.
Uma lâmina aguarda
além da esquina
uma gilete um vírus um projétil
marcam na estrada pontos de fronteira
na mesma estrada em que caminho
há tempos
presos meus pés a inarredáveis trilhos.
1 160
Marina Colasanti
Desde o início
Na escura caixa do peito
meu coração se sabe destinado
à lança.
Dorme a serpente
inchando seu veneno
os escorpiões se escondem
sob as pedras
corre ainda o meu sangue
livre de peçonha.
Uma lâmina aguarda
além da esquina
uma gilete um vírus um projétil
marcam na estrada pontos de fronteira
na mesma estrada em que caminho
há tempos
presos meus pés a inarredáveis trilhos.
meu coração se sabe destinado
à lança.
Dorme a serpente
inchando seu veneno
os escorpiões se escondem
sob as pedras
corre ainda o meu sangue
livre de peçonha.
Uma lâmina aguarda
além da esquina
uma gilete um vírus um projétil
marcam na estrada pontos de fronteira
na mesma estrada em que caminho
há tempos
presos meus pés a inarredáveis trilhos.
1 160
Marina Colasanti
Neblina no lago de Como
Essa neblina
que não pousa no lago
mas que do lago ascende
como se duplicasse
água em água,
essa neblina densa
como um sono
que num mesmo casulo
nos envolve
e aos brotos das glicínias
e às montanhas,
essa neblina vem da minha infância
e eu a esperava
desde que cheguei.
Marina em Como
as sirenes da guerra
as Ursulinas
a oleografia de hortênsias
na moldura
o Duomo do outro lado da janela.
E lá fora a neblina.
A neblina deitada rente ao cais
cabelo esparramado dentro d'água
sereia.
A neblina galgando o meu terraço
meneio deslizando entre paredes
serpente.
Neblina
que Quixote lacera com sua lança
que Rolando derrota em Roncesvalle
que Ulisses dilacera com seu barco
que os piratas de Salgari destroçam.
Na sala escura
onde os livros se empilham
duas crianças conversam
longos contos de sol.
A neblina encosta os dedos no vidro
e ouve.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
que não pousa no lago
mas que do lago ascende
como se duplicasse
água em água,
essa neblina densa
como um sono
que num mesmo casulo
nos envolve
e aos brotos das glicínias
e às montanhas,
essa neblina vem da minha infância
e eu a esperava
desde que cheguei.
Marina em Como
as sirenes da guerra
as Ursulinas
a oleografia de hortênsias
na moldura
o Duomo do outro lado da janela.
E lá fora a neblina.
A neblina deitada rente ao cais
cabelo esparramado dentro d'água
sereia.
A neblina galgando o meu terraço
meneio deslizando entre paredes
serpente.
Neblina
que Quixote lacera com sua lança
que Rolando derrota em Roncesvalle
que Ulisses dilacera com seu barco
que os piratas de Salgari destroçam.
Na sala escura
onde os livros se empilham
duas crianças conversam
longos contos de sol.
A neblina encosta os dedos no vidro
e ouve.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 234
Marina Colasanti
Neblina no lago de Como
Essa neblina
que não pousa no lago
mas que do lago ascende
como se duplicasse
água em água,
essa neblina densa
como um sono
que num mesmo casulo
nos envolve
e aos brotos das glicínias
e às montanhas,
essa neblina vem da minha infância
e eu a esperava
desde que cheguei.
Marina em Como
as sirenes da guerra
as Ursulinas
a oleografia de hortênsias
na moldura
o Duomo do outro lado da janela.
E lá fora a neblina.
A neblina deitada rente ao cais
cabelo esparramado dentro d'água
sereia.
A neblina galgando o meu terraço
meneio deslizando entre paredes
serpente.
Neblina
que Quixote lacera com sua lança
que Rolando derrota em Roncesvalle
que Ulisses dilacera com seu barco
que os piratas de Salgari destroçam.
Na sala escura
onde os livros se empilham
duas crianças conversam
longos contos de sol.
A neblina encosta os dedos no vidro
e ouve.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
que não pousa no lago
mas que do lago ascende
como se duplicasse
água em água,
essa neblina densa
como um sono
que num mesmo casulo
nos envolve
e aos brotos das glicínias
e às montanhas,
essa neblina vem da minha infância
e eu a esperava
desde que cheguei.
Marina em Como
as sirenes da guerra
as Ursulinas
a oleografia de hortênsias
na moldura
o Duomo do outro lado da janela.
E lá fora a neblina.
A neblina deitada rente ao cais
cabelo esparramado dentro d'água
sereia.
A neblina galgando o meu terraço
meneio deslizando entre paredes
serpente.
Neblina
que Quixote lacera com sua lança
que Rolando derrota em Roncesvalle
que Ulisses dilacera com seu barco
que os piratas de Salgari destroçam.
Na sala escura
onde os livros se empilham
duas crianças conversam
longos contos de sol.
A neblina encosta os dedos no vidro
e ouve.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 234
Marina Colasanti
Tempos de medo
Durante a guerra
no hotel em que morei
ouvíamos rádio
na sala de venezianas fechadas e
longo pano verde sobre a mesa.
Mas era Rádio Londres
e havia sempre perigo de polícia.
Do lado de fora
gente juntava diante da janela
para ouvir a voz vinda do inimigo.
Do lado de dentro
eu me escondia debaixo da mesa
criança a salvo
no útero de pano verde.
no hotel em que morei
ouvíamos rádio
na sala de venezianas fechadas e
longo pano verde sobre a mesa.
Mas era Rádio Londres
e havia sempre perigo de polícia.
Do lado de fora
gente juntava diante da janela
para ouvir a voz vinda do inimigo.
Do lado de dentro
eu me escondia debaixo da mesa
criança a salvo
no útero de pano verde.
1 186
Marina Colasanti
Tempos de medo
Durante a guerra
no hotel em que morei
ouvíamos rádio
na sala de venezianas fechadas e
longo pano verde sobre a mesa.
Mas era Rádio Londres
e havia sempre perigo de polícia.
Do lado de fora
gente juntava diante da janela
para ouvir a voz vinda do inimigo.
Do lado de dentro
eu me escondia debaixo da mesa
criança a salvo
no útero de pano verde.
no hotel em que morei
ouvíamos rádio
na sala de venezianas fechadas e
longo pano verde sobre a mesa.
Mas era Rádio Londres
e havia sempre perigo de polícia.
Do lado de fora
gente juntava diante da janela
para ouvir a voz vinda do inimigo.
Do lado de dentro
eu me escondia debaixo da mesa
criança a salvo
no útero de pano verde.
1 186
Marina Colasanti
Pobre seria sem elas a porcelana chinesa
Porque ia chover
os vasos da vila amanheceram
cheios de peônias
o fio da faca garantindo vida
na facetada tumba de cristal.
Delicadas são as peônias
que não suportam chuva
e que ao sol
entregam em dez dias
o seu destino.
Pesadas cabeças de pálida carne
se aprumam nos talos.
Feridas as fendem
no início,
as beiras do corte
franzidas
revelam rubores ao fundo.
Em breve
de dentro
as vísceras claras eclodem
se abrem
se encrespam
se espalham
em tantas camadas
mistérios
anáguas rendadas
que dentro
bem dentro
entregam
o breve pistilo.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
os vasos da vila amanheceram
cheios de peônias
o fio da faca garantindo vida
na facetada tumba de cristal.
Delicadas são as peônias
que não suportam chuva
e que ao sol
entregam em dez dias
o seu destino.
Pesadas cabeças de pálida carne
se aprumam nos talos.
Feridas as fendem
no início,
as beiras do corte
franzidas
revelam rubores ao fundo.
Em breve
de dentro
as vísceras claras eclodem
se abrem
se encrespam
se espalham
em tantas camadas
mistérios
anáguas rendadas
que dentro
bem dentro
entregam
o breve pistilo.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
966
Marina Colasanti
Por ser meu pai
Agradeço
por ser meu pai
o louco
e não o probo
por ser o perdulário
e não o avaro
que tudo conservou.
Agradeço a meu pai
as mãos abertas
por onde se escoaram nossos bens
nossas dispersas casas
nossas terras
mãos pontuais
dando ao vento
a herança avita
os quadros
os papéis
a identidade
mas com as quais
ridente
soube agarrar a vida
e transmiti-la.
por ser meu pai
o louco
e não o probo
por ser o perdulário
e não o avaro
que tudo conservou.
Agradeço a meu pai
as mãos abertas
por onde se escoaram nossos bens
nossas dispersas casas
nossas terras
mãos pontuais
dando ao vento
a herança avita
os quadros
os papéis
a identidade
mas com as quais
ridente
soube agarrar a vida
e transmiti-la.
1 364
Marina Colasanti
E mais existo
Os filósofos querem que o vermelho
só exista
quando olho para ele.
Mas diante da papoula
sobre a mesa
minha funda certeza é
que este sangue em flor
independe de mim para existir
sem mim se acende e expande
na luta que a cor trava
contra o escuro.
Ao contrário,
sou eu que
nessa noite queda me enriqueço
olhando a viva luz de uma papoula
e mais existo
porque existo nela.
só exista
quando olho para ele.
Mas diante da papoula
sobre a mesa
minha funda certeza é
que este sangue em flor
independe de mim para existir
sem mim se acende e expande
na luta que a cor trava
contra o escuro.
Ao contrário,
sou eu que
nessa noite queda me enriqueço
olhando a viva luz de uma papoula
e mais existo
porque existo nela.
936
Marina Colasanti
A coxa
Sendo redonda
a coxa
ainda assim tem
dois lados
pois tem um lado de fora
que sem medo se mostra
e tem um lado de dentro
que é sagrado.
No lado de fora
a coxa
é carne sem fronteira
que do joelho sobe
até a cintura
sem entrave ou ruptura
mas do lado de dentro
se fratura contra a beira fechada
da virilha.
Roliça, embora,
a coxa
como o diamante é
plurifacetada
próxima ao toque em
alguns pontos e
em outros
afastada.
Nem é a mesma
a pele
que os dois lados veste
e que ao olhar se diz inteira
e una
enquanto a mão
conhece a mais secreta e fina
que ao seu roçar
floresce
e aquela
que na quina do corpo
se oferece.
Mais que suporte
a coxa
é ponte levadiça
guardiã que a entrada
tranca a todo intruso,
defesa que se abaixa
repentina
para atrair o invasor
e
fazer uso.
a coxa
ainda assim tem
dois lados
pois tem um lado de fora
que sem medo se mostra
e tem um lado de dentro
que é sagrado.
No lado de fora
a coxa
é carne sem fronteira
que do joelho sobe
até a cintura
sem entrave ou ruptura
mas do lado de dentro
se fratura contra a beira fechada
da virilha.
Roliça, embora,
a coxa
como o diamante é
plurifacetada
próxima ao toque em
alguns pontos e
em outros
afastada.
Nem é a mesma
a pele
que os dois lados veste
e que ao olhar se diz inteira
e una
enquanto a mão
conhece a mais secreta e fina
que ao seu roçar
floresce
e aquela
que na quina do corpo
se oferece.
Mais que suporte
a coxa
é ponte levadiça
guardiã que a entrada
tranca a todo intruso,
defesa que se abaixa
repentina
para atrair o invasor
e
fazer uso.
1 249
Marina Colasanti
Chamava-se Gina
Minha babá foi encontrada
em meio a um campo
e estava semimorta.
Mais que babá
governanta
com seu francês aspirado
de toscana boca.
Minha babá foi encontrada
semimorta
e nunca mais viveu completamente
não como antes
nas cidades grandes
cuidando de crianças.
Ofereceram carona
e eram três
e era tempo de guerra
três alemães num jipe
em plena estrada
e um oferecimento
que era ordem.
Tinham nádegas brancas
ela disse mais tarde
à minha mãe
eu escutando escondida
atrás da porta.
Tinham nádegas brancas
e eram três
e a deixaram no campo
para a morte.
Quando subo as escadas
ela disse
as escadas de casa
vejo de novo os três
no patamar
sentados sobre um banco
na penumbra
e toda vez me chamam
oferecendo a carona
que me leva
e me deixa
do outro lado
da vida.
em meio a um campo
e estava semimorta.
Mais que babá
governanta
com seu francês aspirado
de toscana boca.
Minha babá foi encontrada
semimorta
e nunca mais viveu completamente
não como antes
nas cidades grandes
cuidando de crianças.
Ofereceram carona
e eram três
e era tempo de guerra
três alemães num jipe
em plena estrada
e um oferecimento
que era ordem.
Tinham nádegas brancas
ela disse mais tarde
à minha mãe
eu escutando escondida
atrás da porta.
Tinham nádegas brancas
e eram três
e a deixaram no campo
para a morte.
Quando subo as escadas
ela disse
as escadas de casa
vejo de novo os três
no patamar
sentados sobre um banco
na penumbra
e toda vez me chamam
oferecendo a carona
que me leva
e me deixa
do outro lado
da vida.
1 221
Marina Colasanti
Chamava-se Gina
Minha babá foi encontrada
em meio a um campo
e estava semimorta.
Mais que babá
governanta
com seu francês aspirado
de toscana boca.
Minha babá foi encontrada
semimorta
e nunca mais viveu completamente
não como antes
nas cidades grandes
cuidando de crianças.
Ofereceram carona
e eram três
e era tempo de guerra
três alemães num jipe
em plena estrada
e um oferecimento
que era ordem.
Tinham nádegas brancas
ela disse mais tarde
à minha mãe
eu escutando escondida
atrás da porta.
Tinham nádegas brancas
e eram três
e a deixaram no campo
para a morte.
Quando subo as escadas
ela disse
as escadas de casa
vejo de novo os três
no patamar
sentados sobre um banco
na penumbra
e toda vez me chamam
oferecendo a carona
que me leva
e me deixa
do outro lado
da vida.
em meio a um campo
e estava semimorta.
Mais que babá
governanta
com seu francês aspirado
de toscana boca.
Minha babá foi encontrada
semimorta
e nunca mais viveu completamente
não como antes
nas cidades grandes
cuidando de crianças.
Ofereceram carona
e eram três
e era tempo de guerra
três alemães num jipe
em plena estrada
e um oferecimento
que era ordem.
Tinham nádegas brancas
ela disse mais tarde
à minha mãe
eu escutando escondida
atrás da porta.
Tinham nádegas brancas
e eram três
e a deixaram no campo
para a morte.
Quando subo as escadas
ela disse
as escadas de casa
vejo de novo os três
no patamar
sentados sobre um banco
na penumbra
e toda vez me chamam
oferecendo a carona
que me leva
e me deixa
do outro lado
da vida.
1 221
Marina Colasanti
PARA FOTO DE ANDRÉS SERRANO
O corpo do morto não sangra
na foto do corpo do morto
na foto do pé desse morto sem corpo
só pé
há um corte na pele
de faca navalha de caco
de vidro
de carro
um corte no pé desse morto
sem morte visivel
só corte
não drama
não sangue
a pele fendida
a morte
não vida.
na foto do corpo do morto
na foto do pé desse morto sem corpo
só pé
há um corte na pele
de faca navalha de caco
de vidro
de carro
um corte no pé desse morto
sem morte visivel
só corte
não drama
não sangue
a pele fendida
a morte
não vida.
1 090
Marina Colasanti
PARA FOTO DE ANDRÉS SERRANO
O corpo do morto não sangra
na foto do corpo do morto
na foto do pé desse morto sem corpo
só pé
há um corte na pele
de faca navalha de caco
de vidro
de carro
um corte no pé desse morto
sem morte visivel
só corte
não drama
não sangue
a pele fendida
a morte
não vida.
na foto do corpo do morto
na foto do pé desse morto sem corpo
só pé
há um corte na pele
de faca navalha de caco
de vidro
de carro
um corte no pé desse morto
sem morte visivel
só corte
não drama
não sangue
a pele fendida
a morte
não vida.
1 090
Marina Colasanti
QUASE UM ÂMBAR
O meu canino esquerdo
cansou de ser canino simplesmente.
Não lhe bastaram
frutas, carnes
e tantas jugulares.
Quis cravar-se no tempo.
Como certas florestas
ou baleias
fez-se fossil.
Agora escuro
destaca-se dos outros.,
visitante já morto
enterrado na boca.
Lamento apenas
que entre dentina e esmalte
não tenha aprisionado
algum inseto.
abelha ou mosca
marcando em transparência
a data de uma vida
que se foi.
cansou de ser canino simplesmente.
Não lhe bastaram
frutas, carnes
e tantas jugulares.
Quis cravar-se no tempo.
Como certas florestas
ou baleias
fez-se fossil.
Agora escuro
destaca-se dos outros.,
visitante já morto
enterrado na boca.
Lamento apenas
que entre dentina e esmalte
não tenha aprisionado
algum inseto.
abelha ou mosca
marcando em transparência
a data de uma vida
que se foi.
992
Marina Colasanti
QUASE UM ÂMBAR
O meu canino esquerdo
cansou de ser canino simplesmente.
Não lhe bastaram
frutas, carnes
e tantas jugulares.
Quis cravar-se no tempo.
Como certas florestas
ou baleias
fez-se fossil.
Agora escuro
destaca-se dos outros.,
visitante já morto
enterrado na boca.
Lamento apenas
que entre dentina e esmalte
não tenha aprisionado
algum inseto.
abelha ou mosca
marcando em transparência
a data de uma vida
que se foi.
cansou de ser canino simplesmente.
Não lhe bastaram
frutas, carnes
e tantas jugulares.
Quis cravar-se no tempo.
Como certas florestas
ou baleias
fez-se fossil.
Agora escuro
destaca-se dos outros.,
visitante já morto
enterrado na boca.
Lamento apenas
que entre dentina e esmalte
não tenha aprisionado
algum inseto.
abelha ou mosca
marcando em transparência
a data de uma vida
que se foi.
992
Marina Colasanti
QUASE UM ÂMBAR
O meu canino esquerdo
cansou de ser canino simplesmente.
Não lhe bastaram
frutas, carnes
e tantas jugulares.
Quis cravar-se no tempo.
Como certas florestas
ou baleias
fez-se fossil.
Agora escuro
destaca-se dos outros.,
visitante já morto
enterrado na boca.
Lamento apenas
que entre dentina e esmalte
não tenha aprisionado
algum inseto.
abelha ou mosca
marcando em transparência
a data de uma vida
que se foi.
cansou de ser canino simplesmente.
Não lhe bastaram
frutas, carnes
e tantas jugulares.
Quis cravar-se no tempo.
Como certas florestas
ou baleias
fez-se fossil.
Agora escuro
destaca-se dos outros.,
visitante já morto
enterrado na boca.
Lamento apenas
que entre dentina e esmalte
não tenha aprisionado
algum inseto.
abelha ou mosca
marcando em transparência
a data de uma vida
que se foi.
992
Marina Colasanti
DE NOME BOLENA
Quem havia de dizer
Ana
que os longos cabelos que envolveram teu rei
acabariam presos na touca de linho
cabeça sobre o cepo
não fosse um fio turvar
a linha do pescoço
ou enredar-se
na espada de Calais.
Tragam-me a espada!
gritou a voz do carrasco
e você olhou
você olhou
Ana
movendo o rosto como ele queria
na direção da morte
sem saber que a espada esperava na palha
serpente sibilante
pronta a beijar-te a nuca
e entregar-te à tua sorte.
Ana
que os longos cabelos que envolveram teu rei
acabariam presos na touca de linho
cabeça sobre o cepo
não fosse um fio turvar
a linha do pescoço
ou enredar-se
na espada de Calais.
Tragam-me a espada!
gritou a voz do carrasco
e você olhou
você olhou
Ana
movendo o rosto como ele queria
na direção da morte
sem saber que a espada esperava na palha
serpente sibilante
pronta a beijar-te a nuca
e entregar-te à tua sorte.
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Marina Colasanti
DOMENICA A CERTALDO
Domenica a Certaldo
Boccaccio dorme sotto al vetro
delle teche. E noi seduti nella casa
del vicario godiamo la valle
iscritta negli archi di pietra.
C'e un uomo che va
con un cane.
Tu guardi e mi dici, che bello
andare pei campi.
Sicuro non vedi il fucile
che ha un guizzo di sole.
Poi dopo udremo lo sparo
vedremo correre il cane
e tu penserai, senza dirlo.
che ancora in Toscana
'e viva la peste.
Certaldo 1996
Boccaccio dorme sotto al vetro
delle teche. E noi seduti nella casa
del vicario godiamo la valle
iscritta negli archi di pietra.
C'e un uomo che va
con un cane.
Tu guardi e mi dici, che bello
andare pei campi.
Sicuro non vedi il fucile
che ha un guizzo di sole.
Poi dopo udremo lo sparo
vedremo correre il cane
e tu penserai, senza dirlo.
che ancora in Toscana
'e viva la peste.
Certaldo 1996
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