Poemas neste tema
Vida e Existência
Affonso Romano de Sant'Anna
Epifania Num Bar de Aix
Sempre pensei, seria assim a maturidade:
nenhum conflito insolúvel,
a natureza fluindo pelos poros e, na alma,
um filtro apaziguante.
De repente, olhando o passado, nada me abomina.
De repente, sempre me pareceu ter tudo o que não tive.
Se entrasse um coro de arcanjos cantando
pela porta barulhenta desse bar
nenhum espanto causariam, viriam
sobre mim naturalmente pousar.
Visto assim na multidão, não me destaco.
Mas neste bar pareço ter raízes de araucária
ou uma montanha radiante sob o gelo.
Se a mulher que eu amo entrasse neste instante
nada perturbaria, apenas tomaria, em mim, o seu lugar
e minha felicidade assim duplicaria.
Estou maduro, pois tenho essas coisas banais:
o não e o sim,
o claro e o escuro,
a origem e o fim.
– Que posso querer mais?
nenhum conflito insolúvel,
a natureza fluindo pelos poros e, na alma,
um filtro apaziguante.
De repente, olhando o passado, nada me abomina.
De repente, sempre me pareceu ter tudo o que não tive.
Se entrasse um coro de arcanjos cantando
pela porta barulhenta desse bar
nenhum espanto causariam, viriam
sobre mim naturalmente pousar.
Visto assim na multidão, não me destaco.
Mas neste bar pareço ter raízes de araucária
ou uma montanha radiante sob o gelo.
Se a mulher que eu amo entrasse neste instante
nada perturbaria, apenas tomaria, em mim, o seu lugar
e minha felicidade assim duplicaria.
Estou maduro, pois tenho essas coisas banais:
o não e o sim,
o claro e o escuro,
a origem e o fim.
– Que posso querer mais?
1 089
Affonso Romano de Sant'Anna
A Maravilha do Mundo
Quem disse
que são sete as maravilhas do mundo?
Quem disse
quais são? onde estão?
E se as maravilhas do mundo
forem oito
ou vinte e sete
ou incontáveis
como as que encontro sempre no seu corpo?
que são sete as maravilhas do mundo?
Quem disse
quais são? onde estão?
E se as maravilhas do mundo
forem oito
ou vinte e sete
ou incontáveis
como as que encontro sempre no seu corpo?
1 075
Affonso Romano de Sant'Anna
O Olho do Jaguar
No Castelo de Chavin, no Peru
havia 24 labirintos
e na pedra sacrificial, cortada a cabeça humana
o sangue da vítima descia em meandros
rumo ao rio.
Do lado de fora, os fiéis
num teatro imaginário, ouviam ruídos estranhos
mas não viam a cena. Acreditavam.
Somente o olho de jade do jaguar nos monumentos
presenciava a eternidade.
havia 24 labirintos
e na pedra sacrificial, cortada a cabeça humana
o sangue da vítima descia em meandros
rumo ao rio.
Do lado de fora, os fiéis
num teatro imaginário, ouviam ruídos estranhos
mas não viam a cena. Acreditavam.
Somente o olho de jade do jaguar nos monumentos
presenciava a eternidade.
1 007
Affonso Romano de Sant'Anna
O Olho do Jaguar
No Castelo de Chavin, no Peru
havia 24 labirintos
e na pedra sacrificial, cortada a cabeça humana
o sangue da vítima descia em meandros
rumo ao rio.
Do lado de fora, os fiéis
num teatro imaginário, ouviam ruídos estranhos
mas não viam a cena. Acreditavam.
Somente o olho de jade do jaguar nos monumentos
presenciava a eternidade.
havia 24 labirintos
e na pedra sacrificial, cortada a cabeça humana
o sangue da vítima descia em meandros
rumo ao rio.
Do lado de fora, os fiéis
num teatro imaginário, ouviam ruídos estranhos
mas não viam a cena. Acreditavam.
Somente o olho de jade do jaguar nos monumentos
presenciava a eternidade.
1 007
Affonso Romano de Sant'Anna
Com Dante
Neste Castelo de Gargonza
Dante esteve um pouco antes de mim.
Escapava de inimigos (os gibelinos).
Pisava nestas pedras
ouvia o mesmo sino que na torre ainda há pouco batia.
Isto foi há oito séculos.
O que não é nada
diante das pedras
– e da poesia.
Dante esteve um pouco antes de mim.
Escapava de inimigos (os gibelinos).
Pisava nestas pedras
ouvia o mesmo sino que na torre ainda há pouco batia.
Isto foi há oito séculos.
O que não é nada
diante das pedras
– e da poesia.
1 272
Affonso Romano de Sant'Anna
Primavera Em Aix
“Martim caiu em área sagrada” – Clarice Lispector
Caí em área sagrada.
Esses frutos não estavam aqui
quando ontem adormeci.
Súbito
do caule e folhas
explodem
pêssegos, uvas, cerejas,
e das giestas, roseiras, tulipas, ciclames, acácias e jasmins
escorre o mel
que em mim transborda.
Se a mulher que eu amo
estivesse aqui
eu saberia o nome dessas mínimas flores.
Derramam-se trepadeiras pelos portões
e enlouquecidos pássaros
cantam desde a madrugada.
Lagartixas, formigas e besouros
– minúsculos amigos –
passeiam pelas frestas do meu corpo sobre a relva
disseminando paz nas brechas das lembranças.
Meu corpo é um filtro: a primavera transita
em meus pulmões,
Os olhos, maduros, devoram cores.
Abraço o plátano e choro em coro
enquanto o mel da eternidade me lambuza o rosto.
Abelhas fecundantes descem sobre mim, perdido Orfeu
e me desfaço em deliquescentes delícias
– as mais sublimes.
Caí em área sagrada.
Esses frutos não estavam aqui
quando ontem adormeci.
Súbito
do caule e folhas
explodem
pêssegos, uvas, cerejas,
e das giestas, roseiras, tulipas, ciclames, acácias e jasmins
escorre o mel
que em mim transborda.
Se a mulher que eu amo
estivesse aqui
eu saberia o nome dessas mínimas flores.
Derramam-se trepadeiras pelos portões
e enlouquecidos pássaros
cantam desde a madrugada.
Lagartixas, formigas e besouros
– minúsculos amigos –
passeiam pelas frestas do meu corpo sobre a relva
disseminando paz nas brechas das lembranças.
Meu corpo é um filtro: a primavera transita
em meus pulmões,
Os olhos, maduros, devoram cores.
Abraço o plátano e choro em coro
enquanto o mel da eternidade me lambuza o rosto.
Abelhas fecundantes descem sobre mim, perdido Orfeu
e me desfaço em deliquescentes delícias
– as mais sublimes.
1 083
Affonso Romano de Sant'Anna
Primavera Em Aix
“Martim caiu em área sagrada” – Clarice Lispector
Caí em área sagrada.
Esses frutos não estavam aqui
quando ontem adormeci.
Súbito
do caule e folhas
explodem
pêssegos, uvas, cerejas,
e das giestas, roseiras, tulipas, ciclames, acácias e jasmins
escorre o mel
que em mim transborda.
Se a mulher que eu amo
estivesse aqui
eu saberia o nome dessas mínimas flores.
Derramam-se trepadeiras pelos portões
e enlouquecidos pássaros
cantam desde a madrugada.
Lagartixas, formigas e besouros
– minúsculos amigos –
passeiam pelas frestas do meu corpo sobre a relva
disseminando paz nas brechas das lembranças.
Meu corpo é um filtro: a primavera transita
em meus pulmões,
Os olhos, maduros, devoram cores.
Abraço o plátano e choro em coro
enquanto o mel da eternidade me lambuza o rosto.
Abelhas fecundantes descem sobre mim, perdido Orfeu
e me desfaço em deliquescentes delícias
– as mais sublimes.
Caí em área sagrada.
Esses frutos não estavam aqui
quando ontem adormeci.
Súbito
do caule e folhas
explodem
pêssegos, uvas, cerejas,
e das giestas, roseiras, tulipas, ciclames, acácias e jasmins
escorre o mel
que em mim transborda.
Se a mulher que eu amo
estivesse aqui
eu saberia o nome dessas mínimas flores.
Derramam-se trepadeiras pelos portões
e enlouquecidos pássaros
cantam desde a madrugada.
Lagartixas, formigas e besouros
– minúsculos amigos –
passeiam pelas frestas do meu corpo sobre a relva
disseminando paz nas brechas das lembranças.
Meu corpo é um filtro: a primavera transita
em meus pulmões,
Os olhos, maduros, devoram cores.
Abraço o plátano e choro em coro
enquanto o mel da eternidade me lambuza o rosto.
Abelhas fecundantes descem sobre mim, perdido Orfeu
e me desfaço em deliquescentes delícias
– as mais sublimes.
1 083
Affonso Romano de Sant'Anna
Mais Beleza, Senhor
Tio Lemos, humilde servo e pastor,
em sua vida tão despossuída
inda dizia: – Chega de bênção, Senhor!
Na Toscana, neste azul outonal
banqueteando com o corpo e o espírito
sorvendo a glória artística dos santos
quase chego a dizer: – Chega de bênção, Senhor!
Porém, minha alma insaciável
parece nunca se bastar, e implora:
– Mais beleza, mais beleza, Senhor!
E o Senhor impaciente, ordena:
– Entra nesta igreja de Orvieto
e ante os afrescos de Lucca Signorelli
ajoelha e chora.
em sua vida tão despossuída
inda dizia: – Chega de bênção, Senhor!
Na Toscana, neste azul outonal
banqueteando com o corpo e o espírito
sorvendo a glória artística dos santos
quase chego a dizer: – Chega de bênção, Senhor!
Porém, minha alma insaciável
parece nunca se bastar, e implora:
– Mais beleza, mais beleza, Senhor!
E o Senhor impaciente, ordena:
– Entra nesta igreja de Orvieto
e ante os afrescos de Lucca Signorelli
ajoelha e chora.
1 047
Affonso Romano de Sant'Anna
Austin, 1976
E como caminhássemos à beira-rio no entardecer
e a filha menor nos perguntasse
se antes de nascer
já nos amávamos à beira-rio
minha mulher
se adiantou
– Sim, filha, a gente se amou
à beira desse e de outros rios
antes
e depois de você
e, sobretudo, sem rio.
e a filha menor nos perguntasse
se antes de nascer
já nos amávamos à beira-rio
minha mulher
se adiantou
– Sim, filha, a gente se amou
à beira desse e de outros rios
antes
e depois de você
e, sobretudo, sem rio.
1 173
Affonso Romano de Sant'Anna
Ristorante Etruria
Essa bela garçonete etrusca
com esse nariz imponente navegando
entre as mesas do restaurante;
essa bela garçonete etrusca
com esse nariz portentoso
como enfunadas velas na direção da Grécia;
essa bela garçonete etrusca
passa para cá, para lá
ocupada em seu trabalho,
e não sabe que a contemplo
há 25 séculos atrás.
com esse nariz imponente navegando
entre as mesas do restaurante;
essa bela garçonete etrusca
com esse nariz portentoso
como enfunadas velas na direção da Grécia;
essa bela garçonete etrusca
passa para cá, para lá
ocupada em seu trabalho,
e não sabe que a contemplo
há 25 séculos atrás.
1 196
Affonso Romano de Sant'Anna
Ristorante Etruria
Essa bela garçonete etrusca
com esse nariz imponente navegando
entre as mesas do restaurante;
essa bela garçonete etrusca
com esse nariz portentoso
como enfunadas velas na direção da Grécia;
essa bela garçonete etrusca
passa para cá, para lá
ocupada em seu trabalho,
e não sabe que a contemplo
há 25 séculos atrás.
com esse nariz imponente navegando
entre as mesas do restaurante;
essa bela garçonete etrusca
com esse nariz portentoso
como enfunadas velas na direção da Grécia;
essa bela garçonete etrusca
passa para cá, para lá
ocupada em seu trabalho,
e não sabe que a contemplo
há 25 séculos atrás.
1 196
Affonso Romano de Sant'Anna
Música Nas Cinzas
Toda vez que soa esse adágio do concerto para oboé de Mozart
paro tudo
ponho os pés sobre a mesa, como agora,
olho a lagoa em frente, cruzo os braços
e começo a levitar.
Se eu morresse ouvindo essa música
chegaria do outro lado, tão asinho
que os anjos me tomariam por um dos seus.
Tantas vezes fiz soar no entardecer esses acordes
à beira-mar ou na montanha em minha casa de campo
que as azaleias, a grama, as cerejeiras e ciprestes
ressoam por si mesmos a melodia
quando desperto.
Um dia estarei morto
e peço que joguem minhas cinzas entre as flores.
Os que passarem nesta paisagem
além de aromas,
ouvirão acordes da eternidade.
paro tudo
ponho os pés sobre a mesa, como agora,
olho a lagoa em frente, cruzo os braços
e começo a levitar.
Se eu morresse ouvindo essa música
chegaria do outro lado, tão asinho
que os anjos me tomariam por um dos seus.
Tantas vezes fiz soar no entardecer esses acordes
à beira-mar ou na montanha em minha casa de campo
que as azaleias, a grama, as cerejeiras e ciprestes
ressoam por si mesmos a melodia
quando desperto.
Um dia estarei morto
e peço que joguem minhas cinzas entre as flores.
Os que passarem nesta paisagem
além de aromas,
ouvirão acordes da eternidade.
1 134
Affonso Romano de Sant'Anna
Os Bois
De madrugada matam os bois
que comemos ao amanhecer.
No entanto, eles tinham seus projetos:
comer a erva da manhã,
mascar o azul do entardecer
e cercados de aves e borboletas
ir adubando o dia por nascer.
que comemos ao amanhecer.
No entanto, eles tinham seus projetos:
comer a erva da manhã,
mascar o azul do entardecer
e cercados de aves e borboletas
ir adubando o dia por nascer.
1 131
Affonso Romano de Sant'Anna
Os Bois
De madrugada matam os bois
que comemos ao amanhecer.
No entanto, eles tinham seus projetos:
comer a erva da manhã,
mascar o azul do entardecer
e cercados de aves e borboletas
ir adubando o dia por nascer.
que comemos ao amanhecer.
No entanto, eles tinham seus projetos:
comer a erva da manhã,
mascar o azul do entardecer
e cercados de aves e borboletas
ir adubando o dia por nascer.
1 131
Affonso Romano de Sant'Anna
Grécia, 1987
1
Fui visitar a Grécia
e ela não estava lá.
Estava nos livros
estava nos mitos
no British Museum,
Nova York, Washington
Louvre, São Petersburgo Berlim.
Fui visitar a Grécia
e tive que inventá-la em mim.
2
Centenas de adolescentes gregos
desembarcam junto ao canal de Corinto:
eram náiades de blue jeans.
Os jovens vinham de Esparta
mas não traziam discos e dardos
exercitavam os músculos modernos
carregando enormes rádios
tocando rock
como os negros de Nova York.
3
Em torno do templo de Apolo em Corinto
casas com antenas de tevê
tentam captar mensagens de outros deuses
de outro Olimpo.
4
Ali de cima contemplamos o vale
o Templo de Micenas a tumba fabulosa
de onde o explorador tirou
toneladas de ouro e glória.
Mais discreto o chofer do ônibus
colhe rúculas junto à estrada
para uma anti-histórica salada.
5
Delfos.
Só sobrou o que era sólido:
– a pedra
e a densa porosidade
dos mitos.
6
No teatro de Epidauros
se a pessoa se coloca
no círculo assinalado
e acende um fósforo
no topo da arquibancada
ouve-se o estalido da combustão
com certo assombro.
No centro destes textos
ponho o coração batendo aceso.
Há eco? Ouvidos?
Ou em torno de Epidauros
só há silêncio e escombro?
Fui visitar a Grécia
e ela não estava lá.
Estava nos livros
estava nos mitos
no British Museum,
Nova York, Washington
Louvre, São Petersburgo Berlim.
Fui visitar a Grécia
e tive que inventá-la em mim.
2
Centenas de adolescentes gregos
desembarcam junto ao canal de Corinto:
eram náiades de blue jeans.
Os jovens vinham de Esparta
mas não traziam discos e dardos
exercitavam os músculos modernos
carregando enormes rádios
tocando rock
como os negros de Nova York.
3
Em torno do templo de Apolo em Corinto
casas com antenas de tevê
tentam captar mensagens de outros deuses
de outro Olimpo.
4
Ali de cima contemplamos o vale
o Templo de Micenas a tumba fabulosa
de onde o explorador tirou
toneladas de ouro e glória.
Mais discreto o chofer do ônibus
colhe rúculas junto à estrada
para uma anti-histórica salada.
5
Delfos.
Só sobrou o que era sólido:
– a pedra
e a densa porosidade
dos mitos.
6
No teatro de Epidauros
se a pessoa se coloca
no círculo assinalado
e acende um fósforo
no topo da arquibancada
ouve-se o estalido da combustão
com certo assombro.
No centro destes textos
ponho o coração batendo aceso.
Há eco? Ouvidos?
Ou em torno de Epidauros
só há silêncio e escombro?
989
Affonso Romano de Sant'Anna
Grécia, 1987
1
Fui visitar a Grécia
e ela não estava lá.
Estava nos livros
estava nos mitos
no British Museum,
Nova York, Washington
Louvre, São Petersburgo Berlim.
Fui visitar a Grécia
e tive que inventá-la em mim.
2
Centenas de adolescentes gregos
desembarcam junto ao canal de Corinto:
eram náiades de blue jeans.
Os jovens vinham de Esparta
mas não traziam discos e dardos
exercitavam os músculos modernos
carregando enormes rádios
tocando rock
como os negros de Nova York.
3
Em torno do templo de Apolo em Corinto
casas com antenas de tevê
tentam captar mensagens de outros deuses
de outro Olimpo.
4
Ali de cima contemplamos o vale
o Templo de Micenas a tumba fabulosa
de onde o explorador tirou
toneladas de ouro e glória.
Mais discreto o chofer do ônibus
colhe rúculas junto à estrada
para uma anti-histórica salada.
5
Delfos.
Só sobrou o que era sólido:
– a pedra
e a densa porosidade
dos mitos.
6
No teatro de Epidauros
se a pessoa se coloca
no círculo assinalado
e acende um fósforo
no topo da arquibancada
ouve-se o estalido da combustão
com certo assombro.
No centro destes textos
ponho o coração batendo aceso.
Há eco? Ouvidos?
Ou em torno de Epidauros
só há silêncio e escombro?
Fui visitar a Grécia
e ela não estava lá.
Estava nos livros
estava nos mitos
no British Museum,
Nova York, Washington
Louvre, São Petersburgo Berlim.
Fui visitar a Grécia
e tive que inventá-la em mim.
2
Centenas de adolescentes gregos
desembarcam junto ao canal de Corinto:
eram náiades de blue jeans.
Os jovens vinham de Esparta
mas não traziam discos e dardos
exercitavam os músculos modernos
carregando enormes rádios
tocando rock
como os negros de Nova York.
3
Em torno do templo de Apolo em Corinto
casas com antenas de tevê
tentam captar mensagens de outros deuses
de outro Olimpo.
4
Ali de cima contemplamos o vale
o Templo de Micenas a tumba fabulosa
de onde o explorador tirou
toneladas de ouro e glória.
Mais discreto o chofer do ônibus
colhe rúculas junto à estrada
para uma anti-histórica salada.
5
Delfos.
Só sobrou o que era sólido:
– a pedra
e a densa porosidade
dos mitos.
6
No teatro de Epidauros
se a pessoa se coloca
no círculo assinalado
e acende um fósforo
no topo da arquibancada
ouve-se o estalido da combustão
com certo assombro.
No centro destes textos
ponho o coração batendo aceso.
Há eco? Ouvidos?
Ou em torno de Epidauros
só há silêncio e escombro?
989
Affonso Romano de Sant'Anna
Villa Serbelloni, Peônias
Estas peônias floriram
há uma semana
sabendo que sua vida é curta
e se chover é morte certa.
Chove
e caem pétalas na terra.
Por que poeta!
deveria teu poema ser eterno?
há uma semana
sabendo que sua vida é curta
e se chover é morte certa.
Chove
e caem pétalas na terra.
Por que poeta!
deveria teu poema ser eterno?
921
Affonso Romano de Sant'Anna
Entendimento
Estou cada vez mais entendendo a eternidade
e o que chamam inveja humana.
Não sei aonde isto pode me levar.
Entender certas coisas é libertar-se
como quem, mudo, canta um hino.
Sou isto e não aquilo.
Contemplo meu instante no olho
e me ilumino.
e o que chamam inveja humana.
Não sei aonde isto pode me levar.
Entender certas coisas é libertar-se
como quem, mudo, canta um hino.
Sou isto e não aquilo.
Contemplo meu instante no olho
e me ilumino.
1 117
Affonso Romano de Sant'Anna
Cena Na Lagoa
Movida por dez braços
– múltipla flecha –
uma canoa avança
no crepúsculo da lagoa.
Atletas conduzem
a centopeia aquática
com seus potentes músculos
fecundando o ocaso.
Anoitece.
Com duas mãos
(apenas)
também remo
(parado)
na escuridão.
– múltipla flecha –
uma canoa avança
no crepúsculo da lagoa.
Atletas conduzem
a centopeia aquática
com seus potentes músculos
fecundando o ocaso.
Anoitece.
Com duas mãos
(apenas)
também remo
(parado)
na escuridão.
1 024
Affonso Romano de Sant'Anna
Da Janela do Hospital
Para Pedro Henrique Paiva
Da janela deste hospital
vejo uma nesga da floresta:
as folhas com seu denso discurso verde
acenando com a vida
ao vento.
Ali, miríades de répteis e insetos
estão numa batalha viva
como aqui no hospital, as bactérias no meu corpo.
Procurando a vida saio pelo corredor
com fios de plástico transitando soro e seiva para o meu tronco.
Pareço um folião e seu clínico estandarte.
A enfermeira no seu relatório registrou:
“o paciente do 203 tem estranhas atitudes
deambulatórias”.
Sou uma árvore móvel.
Sou uma árvore que anda, que anda
e para dentro frutifica.
Quando começa a madrugada
pássaros às vezes cantam nos meus ombros.
Da janela deste hospital
vejo uma nesga da floresta:
as folhas com seu denso discurso verde
acenando com a vida
ao vento.
Ali, miríades de répteis e insetos
estão numa batalha viva
como aqui no hospital, as bactérias no meu corpo.
Procurando a vida saio pelo corredor
com fios de plástico transitando soro e seiva para o meu tronco.
Pareço um folião e seu clínico estandarte.
A enfermeira no seu relatório registrou:
“o paciente do 203 tem estranhas atitudes
deambulatórias”.
Sou uma árvore móvel.
Sou uma árvore que anda, que anda
e para dentro frutifica.
Quando começa a madrugada
pássaros às vezes cantam nos meus ombros.
1 190
Affonso Romano de Sant'Anna
Da Janela do Hospital
Para Pedro Henrique Paiva
Da janela deste hospital
vejo uma nesga da floresta:
as folhas com seu denso discurso verde
acenando com a vida
ao vento.
Ali, miríades de répteis e insetos
estão numa batalha viva
como aqui no hospital, as bactérias no meu corpo.
Procurando a vida saio pelo corredor
com fios de plástico transitando soro e seiva para o meu tronco.
Pareço um folião e seu clínico estandarte.
A enfermeira no seu relatório registrou:
“o paciente do 203 tem estranhas atitudes
deambulatórias”.
Sou uma árvore móvel.
Sou uma árvore que anda, que anda
e para dentro frutifica.
Quando começa a madrugada
pássaros às vezes cantam nos meus ombros.
Da janela deste hospital
vejo uma nesga da floresta:
as folhas com seu denso discurso verde
acenando com a vida
ao vento.
Ali, miríades de répteis e insetos
estão numa batalha viva
como aqui no hospital, as bactérias no meu corpo.
Procurando a vida saio pelo corredor
com fios de plástico transitando soro e seiva para o meu tronco.
Pareço um folião e seu clínico estandarte.
A enfermeira no seu relatório registrou:
“o paciente do 203 tem estranhas atitudes
deambulatórias”.
Sou uma árvore móvel.
Sou uma árvore que anda, que anda
e para dentro frutifica.
Quando começa a madrugada
pássaros às vezes cantam nos meus ombros.
1 190
Affonso Romano de Sant'Anna
Flor & Cultura
Meu conceito de jardim
determina
o que é praga
ao redor de mim.
determina
o que é praga
ao redor de mim.
1 194
Affonso Romano de Sant'Anna
Edificando a Morte
Nesta semana
morreram
três vizinhos no meu prédio.
Tomavam este elevador que tomo
passavam por esta portaria dizendo alô bom-dia
saíam por esta vila pisando as pedras
em dias de sol assim indo ao mercado
pensando na família e nos impostos
e suspirando deprimidos com o governo.
O prédio permanece
e nele escrevo.
Inquilinos novos e velhos
tomam este elevador que tomo
passam pela portaria dizendo alô bom-dia
saem por esta vila pisando as pedras
em dias assim de sol indo ao mercado
pensando na família e nos impostos
e suspirando deprimidos com o governo.
À noite
as luzes todas se apagam
e se apagam as tevês.
É quando o edifício inteiro dorme.
Dorme, num ensaio coletivo da arte de morrer.
morreram
três vizinhos no meu prédio.
Tomavam este elevador que tomo
passavam por esta portaria dizendo alô bom-dia
saíam por esta vila pisando as pedras
em dias de sol assim indo ao mercado
pensando na família e nos impostos
e suspirando deprimidos com o governo.
O prédio permanece
e nele escrevo.
Inquilinos novos e velhos
tomam este elevador que tomo
passam pela portaria dizendo alô bom-dia
saem por esta vila pisando as pedras
em dias assim de sol indo ao mercado
pensando na família e nos impostos
e suspirando deprimidos com o governo.
À noite
as luzes todas se apagam
e se apagam as tevês.
É quando o edifício inteiro dorme.
Dorme, num ensaio coletivo da arte de morrer.
1 035
Affonso Romano de Sant'Anna
Edificando a Morte
Nesta semana
morreram
três vizinhos no meu prédio.
Tomavam este elevador que tomo
passavam por esta portaria dizendo alô bom-dia
saíam por esta vila pisando as pedras
em dias de sol assim indo ao mercado
pensando na família e nos impostos
e suspirando deprimidos com o governo.
O prédio permanece
e nele escrevo.
Inquilinos novos e velhos
tomam este elevador que tomo
passam pela portaria dizendo alô bom-dia
saem por esta vila pisando as pedras
em dias assim de sol indo ao mercado
pensando na família e nos impostos
e suspirando deprimidos com o governo.
À noite
as luzes todas se apagam
e se apagam as tevês.
É quando o edifício inteiro dorme.
Dorme, num ensaio coletivo da arte de morrer.
morreram
três vizinhos no meu prédio.
Tomavam este elevador que tomo
passavam por esta portaria dizendo alô bom-dia
saíam por esta vila pisando as pedras
em dias de sol assim indo ao mercado
pensando na família e nos impostos
e suspirando deprimidos com o governo.
O prédio permanece
e nele escrevo.
Inquilinos novos e velhos
tomam este elevador que tomo
passam pela portaria dizendo alô bom-dia
saem por esta vila pisando as pedras
em dias assim de sol indo ao mercado
pensando na família e nos impostos
e suspirando deprimidos com o governo.
À noite
as luzes todas se apagam
e se apagam as tevês.
É quando o edifício inteiro dorme.
Dorme, num ensaio coletivo da arte de morrer.
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