Poemas neste tema
Vida e Existência
Marina Colasanti
Naquela praça
Era um banheiro o que eu queria
naquela praça aplastrada de sol
não uma andorinha morta.
Tirar a poeira das sandálias
molhar a testa e os pulsos
qualquer torneira serviria.
Mas sentei à sombra da árvore
e da sombra colhi o fruto cego
fervente de formigas.
Uma andorinha morta
não está entre aquelas que
na infância
fingíamos buscar na estação
em princípios de maio
para dizer "a primavera chegou",
migrantes vindas da África
- como eu
portadoras de cheiro de deserto
e invisível areia nas asas.
Uma andorinha morta
não volta com o sol
ao próprio ninho
como as que vi no Estoril
barreando casa
entre telha e calha
a mesma casa e telha
a mesma calha
antes entregue ao outono.
Talvez seja daquelas que
em céus romanos
já não traçam o ideograma
de suas asas
porque no campo
todos os insetos tombaram
a poder de agrotóxico
e elas não têm mais
o que comer.
Uma andorinha morta é irmã
e a mesma
que pousou junto à estátua do Príncipe Feliz
mensageira traída pelo afeto
e pelo frio
despojo a ser descartado num dia
e incorporado
no outro
ao imperecível coração de chumbo.
Era água o que eu queria
mas entre goles de sol
uma andorinha
fez seu ninho em mim.
naquela praça aplastrada de sol
não uma andorinha morta.
Tirar a poeira das sandálias
molhar a testa e os pulsos
qualquer torneira serviria.
Mas sentei à sombra da árvore
e da sombra colhi o fruto cego
fervente de formigas.
Uma andorinha morta
não está entre aquelas que
na infância
fingíamos buscar na estação
em princípios de maio
para dizer "a primavera chegou",
migrantes vindas da África
- como eu
portadoras de cheiro de deserto
e invisível areia nas asas.
Uma andorinha morta
não volta com o sol
ao próprio ninho
como as que vi no Estoril
barreando casa
entre telha e calha
a mesma casa e telha
a mesma calha
antes entregue ao outono.
Talvez seja daquelas que
em céus romanos
já não traçam o ideograma
de suas asas
porque no campo
todos os insetos tombaram
a poder de agrotóxico
e elas não têm mais
o que comer.
Uma andorinha morta é irmã
e a mesma
que pousou junto à estátua do Príncipe Feliz
mensageira traída pelo afeto
e pelo frio
despojo a ser descartado num dia
e incorporado
no outro
ao imperecível coração de chumbo.
Era água o que eu queria
mas entre goles de sol
uma andorinha
fez seu ninho em mim.
1 122
Marina Colasanti
Matisse em flor
O gerânio que
nesse quadro
está parado e cresce
é o mesmo que floresce em minha casa
nas casas todas
em que vivo
e vivi.
É o mesmo que pintei
e que a amiga levou para um país cinzento
o mesmo que Pavese nos deixou
comido pelo sol
e entregue ao vento.
Gerânio
mais que flor
cor plantada no vaso
na terra
na beira da janela
onde o sol bate
e a noite se enovela.
Teu gerânio, Matisse
eu o planto
e replanto
vida afora
tempo adentro
tirando as mudas
dos seus próprios caules
gerando nova planta onde outra morre
flor que se acende e apaga
como chama
e que se lança
seixo rolado
abrindo em meu olhar
giros concêntricos.
nesse quadro
está parado e cresce
é o mesmo que floresce em minha casa
nas casas todas
em que vivo
e vivi.
É o mesmo que pintei
e que a amiga levou para um país cinzento
o mesmo que Pavese nos deixou
comido pelo sol
e entregue ao vento.
Gerânio
mais que flor
cor plantada no vaso
na terra
na beira da janela
onde o sol bate
e a noite se enovela.
Teu gerânio, Matisse
eu o planto
e replanto
vida afora
tempo adentro
tirando as mudas
dos seus próprios caules
gerando nova planta onde outra morre
flor que se acende e apaga
como chama
e que se lança
seixo rolado
abrindo em meu olhar
giros concêntricos.
1 169
Marina Colasanti
Livres à noite
Tirar o sutiã à noite
quando o dia se acaba
e com ele o dever de rijos seios.
Tirar o sutiã à noite
despir a couraça
a constrictor
a alheia pele.
Livrar-se de arames
elásticos presilhas
cortar com tesoura o wonderbra.
Toda noite a mulher regressa
da cruzada
e liberta sua santa carne.
Descem as alças pelos ombros
as mãos se encontram nas costas
soltando amarras
e na quietude do quarto
os peitos
como navios
fazem-se ao largo.
quando o dia se acaba
e com ele o dever de rijos seios.
Tirar o sutiã à noite
despir a couraça
a constrictor
a alheia pele.
Livrar-se de arames
elásticos presilhas
cortar com tesoura o wonderbra.
Toda noite a mulher regressa
da cruzada
e liberta sua santa carne.
Descem as alças pelos ombros
as mãos se encontram nas costas
soltando amarras
e na quietude do quarto
os peitos
como navios
fazem-se ao largo.
1 029
Marina Colasanti
Paisagem entre vidro e espelho
Aqui sentada
enquanto tomo vinho
vejo pela janela
a antiga arcada e
pelo espelho ao lado
um pedaço de escada
um espaldar
e minha própria imagem
refletida.
Vai meu rosto viajante
sobre vidros
pousar-se delicado em outro olhar
miragem
que ao virar da cabeça
desvanece
fragmento
na paisagem
deste bar.
enquanto tomo vinho
vejo pela janela
a antiga arcada e
pelo espelho ao lado
um pedaço de escada
um espaldar
e minha própria imagem
refletida.
Vai meu rosto viajante
sobre vidros
pousar-se delicado em outro olhar
miragem
que ao virar da cabeça
desvanece
fragmento
na paisagem
deste bar.
1 087
Marina Colasanti
Algum vibrar
A borboleta parda
pousou na minha pele
logo acima do pulso.
Eu poderia apagá-la
com pomadas
com ácidos ou laser
mas onde a dermatologia
vê só uma mancha
eu vejo mansas asas
que obedecem
ao mover-se da mão.
Uma nova leveza
invade a manga
escorre pela palma.
E eu gostaria de crer
que desse voo
algum vibrar viaja
no meu verso.
pousou na minha pele
logo acima do pulso.
Eu poderia apagá-la
com pomadas
com ácidos ou laser
mas onde a dermatologia
vê só uma mancha
eu vejo mansas asas
que obedecem
ao mover-se da mão.
Uma nova leveza
invade a manga
escorre pela palma.
E eu gostaria de crer
que desse voo
algum vibrar viaja
no meu verso.
995
Manuel Bandeira
Ruço
Muda e sem trégua
Galopa a névoa, galopa a névoa.
Minha janela desmantelada
Dá para o vale do desalento.
Sombrio vale! Não vejo nada
Senão a névoa que toca o vento.
Lá vão os dias de minha infância
— Imagens rotas que se desmancham:
O vento do largo na praia,
O meu vestidinho de saia:
Aquele corvo, o vôo torvo,
O meu destino aquele corvo!
O que eu cuidava do mundo mau!
Os ladrões com cara de pau!
As histórias que faziam sonhar;
E os livros: Simplício olha pra o ar,
João Felpudo, Viagem à roda do mundo
Numa casquinha de noz.
À nossa infância, ó minha irmã, tão longe de nós!
Galopa a névoa, galopa a névoa.
Minha janela desmantelada
Dá para o vale do desalento.
Sombrio vale! Não vejo nada
Senão a névoa que toca o vento.
Lá vão os dias de minha infância
— Imagens rotas que se desmancham:
O vento do largo na praia,
O meu vestidinho de saia:
Aquele corvo, o vôo torvo,
O meu destino aquele corvo!
O que eu cuidava do mundo mau!
Os ladrões com cara de pau!
As histórias que faziam sonhar;
E os livros: Simplício olha pra o ar,
João Felpudo, Viagem à roda do mundo
Numa casquinha de noz.
À nossa infância, ó minha irmã, tão longe de nós!
1 140
Manuel Bandeira
Ruço
Muda e sem trégua
Galopa a névoa, galopa a névoa.
Minha janela desmantelada
Dá para o vale do desalento.
Sombrio vale! Não vejo nada
Senão a névoa que toca o vento.
Lá vão os dias de minha infância
— Imagens rotas que se desmancham:
O vento do largo na praia,
O meu vestidinho de saia:
Aquele corvo, o vôo torvo,
O meu destino aquele corvo!
O que eu cuidava do mundo mau!
Os ladrões com cara de pau!
As histórias que faziam sonhar;
E os livros: Simplício olha pra o ar,
João Felpudo, Viagem à roda do mundo
Numa casquinha de noz.
À nossa infância, ó minha irmã, tão longe de nós!
Galopa a névoa, galopa a névoa.
Minha janela desmantelada
Dá para o vale do desalento.
Sombrio vale! Não vejo nada
Senão a névoa que toca o vento.
Lá vão os dias de minha infância
— Imagens rotas que se desmancham:
O vento do largo na praia,
O meu vestidinho de saia:
Aquele corvo, o vôo torvo,
O meu destino aquele corvo!
O que eu cuidava do mundo mau!
Os ladrões com cara de pau!
As histórias que faziam sonhar;
E os livros: Simplício olha pra o ar,
João Felpudo, Viagem à roda do mundo
Numa casquinha de noz.
À nossa infância, ó minha irmã, tão longe de nós!
1 140
Marina Colasanti
Em 1943, ventre abaixo
As leis da inércia perdem
o sentido
quando se está no mato
boca abaixo e
acima da cabeça
as bombas caem com madurez
de fruto.
A razão sabe que
bomba não é fuso
que o vento
o impulso
o peso
estão inclusos no cálculo preciso.
O alvo
- a mente diz -
é mais adiante.
Mas o sangue nas têmporas desmente
o corpo
cansado de ser caça
entende diferente.
A morte
- a carne diz -
está a caminho
que de mim se alimenta
e me quer quente.
o sentido
quando se está no mato
boca abaixo e
acima da cabeça
as bombas caem com madurez
de fruto.
A razão sabe que
bomba não é fuso
que o vento
o impulso
o peso
estão inclusos no cálculo preciso.
O alvo
- a mente diz -
é mais adiante.
Mas o sangue nas têmporas desmente
o corpo
cansado de ser caça
entende diferente.
A morte
- a carne diz -
está a caminho
que de mim se alimenta
e me quer quente.
1 008
Marina Colasanti
Em 1943, ventre abaixo
As leis da inércia perdem
o sentido
quando se está no mato
boca abaixo e
acima da cabeça
as bombas caem com madurez
de fruto.
A razão sabe que
bomba não é fuso
que o vento
o impulso
o peso
estão inclusos no cálculo preciso.
O alvo
- a mente diz -
é mais adiante.
Mas o sangue nas têmporas desmente
o corpo
cansado de ser caça
entende diferente.
A morte
- a carne diz -
está a caminho
que de mim se alimenta
e me quer quente.
o sentido
quando se está no mato
boca abaixo e
acima da cabeça
as bombas caem com madurez
de fruto.
A razão sabe que
bomba não é fuso
que o vento
o impulso
o peso
estão inclusos no cálculo preciso.
O alvo
- a mente diz -
é mais adiante.
Mas o sangue nas têmporas desmente
o corpo
cansado de ser caça
entende diferente.
A morte
- a carne diz -
está a caminho
que de mim se alimenta
e me quer quente.
1 008
Marina Colasanti
De volta
As sete da manhã
o trânsito não para
engarrafado,
não se a manhã é sábado
e a via expressa.
Quero um táxi amarelo
eu havia dito saindo do aeroporto
quero um táxi chinês
havia brincado
porque vinha de longe
e a brincadeira
servia-me de arremate da viagem.
Agora no viaduto,
favela dos dois lados
campos de futebol sem bola ou gente
dois cavalos pastando,
o trânsito não anda.
Adiante piscam luzes elevadas. Um desastre
talvez.
Não é desastre
é um corpo estendido no asfalto
rosto em sangue
braços abandonados
e ao lado
já esperando
aquela maca plástica
espécie de bacia
contêiner dos sem vida.
"Bandido não perdoa"
diz o chofer sem virar a cabeça.
Só então percebo
que não foi atropelado
aquele homem
mas atirado ali
como cão morto.
E eu tranco os dentes
e digo sem dizer:
Cheguei em casa!
o trânsito não para
engarrafado,
não se a manhã é sábado
e a via expressa.
Quero um táxi amarelo
eu havia dito saindo do aeroporto
quero um táxi chinês
havia brincado
porque vinha de longe
e a brincadeira
servia-me de arremate da viagem.
Agora no viaduto,
favela dos dois lados
campos de futebol sem bola ou gente
dois cavalos pastando,
o trânsito não anda.
Adiante piscam luzes elevadas. Um desastre
talvez.
Não é desastre
é um corpo estendido no asfalto
rosto em sangue
braços abandonados
e ao lado
já esperando
aquela maca plástica
espécie de bacia
contêiner dos sem vida.
"Bandido não perdoa"
diz o chofer sem virar a cabeça.
Só então percebo
que não foi atropelado
aquele homem
mas atirado ali
como cão morto.
E eu tranco os dentes
e digo sem dizer:
Cheguei em casa!
1 139
Marina Colasanti
Era um jardim
Macacos se fartam
na casa em que cresci
porque as árvores raras
deram frutos
e não há mais quem queira
recolhê-los.
Uma só vez
vi empregados nos galhos
com cestos encharcados de sumo
rubra casca escorrendo
por sobre a branca carne.
Uma só vez
sem floração ou anúncio
as copas concederam seu tributo.
Eram árvores raras
me disseram
mudas vindas do Oriente.
Uma delas
no lado do jardim
diante das hortas
abrigou com sua sombra um elefante
a pedido de um circo de passagem.
A grama
desde então
recusou-se a crescer naquele canto.
Agora os macacos se fartam
não há mais empregados
nem família
e eu devolvo a lembrança do elefante
à sombra abandonada
e já floresta.
na casa em que cresci
porque as árvores raras
deram frutos
e não há mais quem queira
recolhê-los.
Uma só vez
vi empregados nos galhos
com cestos encharcados de sumo
rubra casca escorrendo
por sobre a branca carne.
Uma só vez
sem floração ou anúncio
as copas concederam seu tributo.
Eram árvores raras
me disseram
mudas vindas do Oriente.
Uma delas
no lado do jardim
diante das hortas
abrigou com sua sombra um elefante
a pedido de um circo de passagem.
A grama
desde então
recusou-se a crescer naquele canto.
Agora os macacos se fartam
não há mais empregados
nem família
e eu devolvo a lembrança do elefante
à sombra abandonada
e já floresta.
1 075
Marina Colasanti
Era um jardim
Macacos se fartam
na casa em que cresci
porque as árvores raras
deram frutos
e não há mais quem queira
recolhê-los.
Uma só vez
vi empregados nos galhos
com cestos encharcados de sumo
rubra casca escorrendo
por sobre a branca carne.
Uma só vez
sem floração ou anúncio
as copas concederam seu tributo.
Eram árvores raras
me disseram
mudas vindas do Oriente.
Uma delas
no lado do jardim
diante das hortas
abrigou com sua sombra um elefante
a pedido de um circo de passagem.
A grama
desde então
recusou-se a crescer naquele canto.
Agora os macacos se fartam
não há mais empregados
nem família
e eu devolvo a lembrança do elefante
à sombra abandonada
e já floresta.
na casa em que cresci
porque as árvores raras
deram frutos
e não há mais quem queira
recolhê-los.
Uma só vez
vi empregados nos galhos
com cestos encharcados de sumo
rubra casca escorrendo
por sobre a branca carne.
Uma só vez
sem floração ou anúncio
as copas concederam seu tributo.
Eram árvores raras
me disseram
mudas vindas do Oriente.
Uma delas
no lado do jardim
diante das hortas
abrigou com sua sombra um elefante
a pedido de um circo de passagem.
A grama
desde então
recusou-se a crescer naquele canto.
Agora os macacos se fartam
não há mais empregados
nem família
e eu devolvo a lembrança do elefante
à sombra abandonada
e já floresta.
1 075
Marina Colasanti
Da Passeggiata Archeologica, em Roma
A casa do meu avô
veio pelo correio.
Chegou envolta em tapetes
- passado devolvido entre
arabescos de desenhos persas
e traços de nanquim na folha branca -
a vila
que sempre ouvi chamar
La Madonnella.
Não conheci o avô
mas lembro a casa
o poço medieval
a amendoeira
os fragmentos romanos nas paredes
e o piso de madeiras coloridas
vindas do Paraná
presente do meu tio.
A vila foi vendida há muitos anos
e o que dela restou
acabou de afundar em outra morte.
Foi-se tudo
o que à casa pertenceu
no entanto
aqui está ela intacta novamente
emoldurada acima da lareira.
A vila da Passeggiata Archeologica
recolhe enfim as velas
entre jovens paredes
em Mury,
casa
que em outra casa
faz seu porto.
veio pelo correio.
Chegou envolta em tapetes
- passado devolvido entre
arabescos de desenhos persas
e traços de nanquim na folha branca -
a vila
que sempre ouvi chamar
La Madonnella.
Não conheci o avô
mas lembro a casa
o poço medieval
a amendoeira
os fragmentos romanos nas paredes
e o piso de madeiras coloridas
vindas do Paraná
presente do meu tio.
A vila foi vendida há muitos anos
e o que dela restou
acabou de afundar em outra morte.
Foi-se tudo
o que à casa pertenceu
no entanto
aqui está ela intacta novamente
emoldurada acima da lareira.
A vila da Passeggiata Archeologica
recolhe enfim as velas
entre jovens paredes
em Mury,
casa
que em outra casa
faz seu porto.
1 012
Marina Colasanti
Da Passeggiata Archeologica, em Roma
A casa do meu avô
veio pelo correio.
Chegou envolta em tapetes
- passado devolvido entre
arabescos de desenhos persas
e traços de nanquim na folha branca -
a vila
que sempre ouvi chamar
La Madonnella.
Não conheci o avô
mas lembro a casa
o poço medieval
a amendoeira
os fragmentos romanos nas paredes
e o piso de madeiras coloridas
vindas do Paraná
presente do meu tio.
A vila foi vendida há muitos anos
e o que dela restou
acabou de afundar em outra morte.
Foi-se tudo
o que à casa pertenceu
no entanto
aqui está ela intacta novamente
emoldurada acima da lareira.
A vila da Passeggiata Archeologica
recolhe enfim as velas
entre jovens paredes
em Mury,
casa
que em outra casa
faz seu porto.
veio pelo correio.
Chegou envolta em tapetes
- passado devolvido entre
arabescos de desenhos persas
e traços de nanquim na folha branca -
a vila
que sempre ouvi chamar
La Madonnella.
Não conheci o avô
mas lembro a casa
o poço medieval
a amendoeira
os fragmentos romanos nas paredes
e o piso de madeiras coloridas
vindas do Paraná
presente do meu tio.
A vila foi vendida há muitos anos
e o que dela restou
acabou de afundar em outra morte.
Foi-se tudo
o que à casa pertenceu
no entanto
aqui está ela intacta novamente
emoldurada acima da lareira.
A vila da Passeggiata Archeologica
recolhe enfim as velas
entre jovens paredes
em Mury,
casa
que em outra casa
faz seu porto.
1 012
Marina Colasanti
Neblina no lago de Como
Essa neblina
que não pousa no lago
mas que do lago ascende
como se duplicasse
água em água,
essa neblina densa
como um sono
que num mesmo casulo
nos envolve
e aos brotos das glicínias
e às montanhas,
essa neblina vem da minha infância
e eu a esperava
desde que cheguei.
Marina em Como
as sirenes da guerra
as Ursulinas
a oleografia de hortênsias
na moldura
o Duomo do outro lado da janela.
E lá fora a neblina.
A neblina deitada rente ao cais
cabelo esparramado dentro d'água
sereia.
A neblina galgando o meu terraço
meneio deslizando entre paredes
serpente.
Neblina
que Quixote lacera com sua lança
que Rolando derrota em Roncesvalle
que Ulisses dilacera com seu barco
que os piratas de Salgari destroçam.
Na sala escura
onde os livros se empilham
duas crianças conversam
longos contos de sol.
A neblina encosta os dedos no vidro
e ouve.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
que não pousa no lago
mas que do lago ascende
como se duplicasse
água em água,
essa neblina densa
como um sono
que num mesmo casulo
nos envolve
e aos brotos das glicínias
e às montanhas,
essa neblina vem da minha infância
e eu a esperava
desde que cheguei.
Marina em Como
as sirenes da guerra
as Ursulinas
a oleografia de hortênsias
na moldura
o Duomo do outro lado da janela.
E lá fora a neblina.
A neblina deitada rente ao cais
cabelo esparramado dentro d'água
sereia.
A neblina galgando o meu terraço
meneio deslizando entre paredes
serpente.
Neblina
que Quixote lacera com sua lança
que Rolando derrota em Roncesvalle
que Ulisses dilacera com seu barco
que os piratas de Salgari destroçam.
Na sala escura
onde os livros se empilham
duas crianças conversam
longos contos de sol.
A neblina encosta os dedos no vidro
e ouve.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 242
Marina Colasanti
Neblina no lago de Como
Essa neblina
que não pousa no lago
mas que do lago ascende
como se duplicasse
água em água,
essa neblina densa
como um sono
que num mesmo casulo
nos envolve
e aos brotos das glicínias
e às montanhas,
essa neblina vem da minha infância
e eu a esperava
desde que cheguei.
Marina em Como
as sirenes da guerra
as Ursulinas
a oleografia de hortênsias
na moldura
o Duomo do outro lado da janela.
E lá fora a neblina.
A neblina deitada rente ao cais
cabelo esparramado dentro d'água
sereia.
A neblina galgando o meu terraço
meneio deslizando entre paredes
serpente.
Neblina
que Quixote lacera com sua lança
que Rolando derrota em Roncesvalle
que Ulisses dilacera com seu barco
que os piratas de Salgari destroçam.
Na sala escura
onde os livros se empilham
duas crianças conversam
longos contos de sol.
A neblina encosta os dedos no vidro
e ouve.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
que não pousa no lago
mas que do lago ascende
como se duplicasse
água em água,
essa neblina densa
como um sono
que num mesmo casulo
nos envolve
e aos brotos das glicínias
e às montanhas,
essa neblina vem da minha infância
e eu a esperava
desde que cheguei.
Marina em Como
as sirenes da guerra
as Ursulinas
a oleografia de hortênsias
na moldura
o Duomo do outro lado da janela.
E lá fora a neblina.
A neblina deitada rente ao cais
cabelo esparramado dentro d'água
sereia.
A neblina galgando o meu terraço
meneio deslizando entre paredes
serpente.
Neblina
que Quixote lacera com sua lança
que Rolando derrota em Roncesvalle
que Ulisses dilacera com seu barco
que os piratas de Salgari destroçam.
Na sala escura
onde os livros se empilham
duas crianças conversam
longos contos de sol.
A neblina encosta os dedos no vidro
e ouve.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 242
Marina Colasanti
Na praça Jemaa el Fna
Na palma da minha mão
um geométrico desenho
foi talhado a bisturi.
Palma direita
antes concha
agora terra rasgada
remendo de cicatriz.
Na praça Jemaa el Fna
a praça da minha mão
entrego a outro traçado
henna limão e água
em risco fino deitados
fio desenho bordado
de flor voluta e barrado
minha mão tecida em renda
minha pele posta em rede
e os dedos que não se perdem
no labirinto da teia.
O meu brocado de cor
desmaiará com o sol
mergulhará carne adentro
como oculta tatuagem
durará poucas semanas
ou poucos dias
tanto faz.
Na palma da minha mão
o corte
já não é corte
é risco desse bordado
caminho de arado
sulco
com sua razão.
Marrakesh, 2001
um geométrico desenho
foi talhado a bisturi.
Palma direita
antes concha
agora terra rasgada
remendo de cicatriz.
Na praça Jemaa el Fna
a praça da minha mão
entrego a outro traçado
henna limão e água
em risco fino deitados
fio desenho bordado
de flor voluta e barrado
minha mão tecida em renda
minha pele posta em rede
e os dedos que não se perdem
no labirinto da teia.
O meu brocado de cor
desmaiará com o sol
mergulhará carne adentro
como oculta tatuagem
durará poucas semanas
ou poucos dias
tanto faz.
Na palma da minha mão
o corte
já não é corte
é risco desse bordado
caminho de arado
sulco
com sua razão.
Marrakesh, 2001
1 173
Marina Colasanti
Nenhum como aqueles
Ao largo
cravados sobre o mar do horizonte
como torres de uma fortaleza
navios cargueiros esperam
fundeados.
Não entraram no porto.
O porto à noite
é reino de piratas.
Na minha infância os piratas
tinham cor
"Negro", "Vermelho"
e barbas
de preferência ruivas
e papagaios
e ganchos em lugar das mãos.
Na minha infância os piratas
eram amigos do rei
e se anunciavam com a bandeira negra
e o brasão da caveira rindo ao vento.
Os piratas da ilha de Mompracém
jovens Tigres de Sandokan
abordavam minha infância
no silêncio de seus prahus.
Hoje os piratas se escondem
atrás da noite
sem barba e sem rosto
escuros como os ratos do porão.
Nenhum navio fantasma
nenhuma caravela singra no porto
as águas poluídas.
Os predadores chegam em silêncio
rêmoras encostadas rente ao casco
desbotados piratas de blue jeans.
E os carros que passam distantes
no alto da ponte
anônimas luzes que correm
não colhem o canto cortante
das metralhadoras
cravados sobre o mar do horizonte
como torres de uma fortaleza
navios cargueiros esperam
fundeados.
Não entraram no porto.
O porto à noite
é reino de piratas.
Na minha infância os piratas
tinham cor
"Negro", "Vermelho"
e barbas
de preferência ruivas
e papagaios
e ganchos em lugar das mãos.
Na minha infância os piratas
eram amigos do rei
e se anunciavam com a bandeira negra
e o brasão da caveira rindo ao vento.
Os piratas da ilha de Mompracém
jovens Tigres de Sandokan
abordavam minha infância
no silêncio de seus prahus.
Hoje os piratas se escondem
atrás da noite
sem barba e sem rosto
escuros como os ratos do porão.
Nenhum navio fantasma
nenhuma caravela singra no porto
as águas poluídas.
Os predadores chegam em silêncio
rêmoras encostadas rente ao casco
desbotados piratas de blue jeans.
E os carros que passam distantes
no alto da ponte
anônimas luzes que correm
não colhem o canto cortante
das metralhadoras
1 303
Marina Colasanti
Nenhum como aqueles
Ao largo
cravados sobre o mar do horizonte
como torres de uma fortaleza
navios cargueiros esperam
fundeados.
Não entraram no porto.
O porto à noite
é reino de piratas.
Na minha infância os piratas
tinham cor
"Negro", "Vermelho"
e barbas
de preferência ruivas
e papagaios
e ganchos em lugar das mãos.
Na minha infância os piratas
eram amigos do rei
e se anunciavam com a bandeira negra
e o brasão da caveira rindo ao vento.
Os piratas da ilha de Mompracém
jovens Tigres de Sandokan
abordavam minha infância
no silêncio de seus prahus.
Hoje os piratas se escondem
atrás da noite
sem barba e sem rosto
escuros como os ratos do porão.
Nenhum navio fantasma
nenhuma caravela singra no porto
as águas poluídas.
Os predadores chegam em silêncio
rêmoras encostadas rente ao casco
desbotados piratas de blue jeans.
E os carros que passam distantes
no alto da ponte
anônimas luzes que correm
não colhem o canto cortante
das metralhadoras
cravados sobre o mar do horizonte
como torres de uma fortaleza
navios cargueiros esperam
fundeados.
Não entraram no porto.
O porto à noite
é reino de piratas.
Na minha infância os piratas
tinham cor
"Negro", "Vermelho"
e barbas
de preferência ruivas
e papagaios
e ganchos em lugar das mãos.
Na minha infância os piratas
eram amigos do rei
e se anunciavam com a bandeira negra
e o brasão da caveira rindo ao vento.
Os piratas da ilha de Mompracém
jovens Tigres de Sandokan
abordavam minha infância
no silêncio de seus prahus.
Hoje os piratas se escondem
atrás da noite
sem barba e sem rosto
escuros como os ratos do porão.
Nenhum navio fantasma
nenhuma caravela singra no porto
as águas poluídas.
Os predadores chegam em silêncio
rêmoras encostadas rente ao casco
desbotados piratas de blue jeans.
E os carros que passam distantes
no alto da ponte
anônimas luzes que correm
não colhem o canto cortante
das metralhadoras
1 303
Marina Colasanti
Na tumba da senhora Dai
Na tumba de Dai
chinesa aristocrata
de antiga dinastia
foram desenterradas duas estátuas
de contadores de histórias
e também seus tambores.
Não foram encontradas
nos escombros
as histórias com que a senhora Dai
embalava seu sono.
As palavras
tão mais leves que a argila
ninguém aprisionou.
Silenciosos
os tambores ecoam
na eternidade.
chinesa aristocrata
de antiga dinastia
foram desenterradas duas estátuas
de contadores de histórias
e também seus tambores.
Não foram encontradas
nos escombros
as histórias com que a senhora Dai
embalava seu sono.
As palavras
tão mais leves que a argila
ninguém aprisionou.
Silenciosos
os tambores ecoam
na eternidade.
1 085
Marina Colasanti
Na tumba da senhora Dai
Na tumba de Dai
chinesa aristocrata
de antiga dinastia
foram desenterradas duas estátuas
de contadores de histórias
e também seus tambores.
Não foram encontradas
nos escombros
as histórias com que a senhora Dai
embalava seu sono.
As palavras
tão mais leves que a argila
ninguém aprisionou.
Silenciosos
os tambores ecoam
na eternidade.
chinesa aristocrata
de antiga dinastia
foram desenterradas duas estátuas
de contadores de histórias
e também seus tambores.
Não foram encontradas
nos escombros
as histórias com que a senhora Dai
embalava seu sono.
As palavras
tão mais leves que a argila
ninguém aprisionou.
Silenciosos
os tambores ecoam
na eternidade.
1 085
Marina Colasanti
Por instantes
Aquela fruteira
na outra mesa
aquela fruteira de nada
louça branca e um pé
aquela fruteira que acolhe
duas laranjas
e a pera
aquela fruteira que ali está apenas
para oferecer frutas
aquela fruteira
canta
aos meus olhos.
Pode ser o sol
que pousou-se ali como uma fruta a mais
Pode ser o leite da louça suspenso
sobre a branca toalha.
Pode ser seu silêncio de objeto
entre ruídos.
Contido em meu olhar
o tempo da fruteira se detém.
E já mão alheia se estende
e colhe o sol.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
na outra mesa
aquela fruteira de nada
louça branca e um pé
aquela fruteira que acolhe
duas laranjas
e a pera
aquela fruteira que ali está apenas
para oferecer frutas
aquela fruteira
canta
aos meus olhos.
Pode ser o sol
que pousou-se ali como uma fruta a mais
Pode ser o leite da louça suspenso
sobre a branca toalha.
Pode ser seu silêncio de objeto
entre ruídos.
Contido em meu olhar
o tempo da fruteira se detém.
E já mão alheia se estende
e colhe o sol.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 291
Marina Colasanti
Nunca acreditando
Naquele ano de mil novecentos e noventa e nove
previa-se o fim do mundo para agosto
dia onze quarta-feira.
Não se organiza um fim de mundo
de um dia para o outro
nem mesmo o fim
de um insignificante mundo
como o nosso.
É de se crer que há muito
houvesse sido posta em movimento
a engrenagem fatal que
dente a dente
nos traria o desfecho.
E no entanto
ainda no dia nove
estávamos reunidos em congresso
pérolas e gravatas no pescoço
corpos cobertos por escuros trajes
vivos já presumidamente mortos discutindo
atrás da mesa com devidas flores
projectos para o próximo milénio.
previa-se o fim do mundo para agosto
dia onze quarta-feira.
Não se organiza um fim de mundo
de um dia para o outro
nem mesmo o fim
de um insignificante mundo
como o nosso.
É de se crer que há muito
houvesse sido posta em movimento
a engrenagem fatal que
dente a dente
nos traria o desfecho.
E no entanto
ainda no dia nove
estávamos reunidos em congresso
pérolas e gravatas no pescoço
corpos cobertos por escuros trajes
vivos já presumidamente mortos discutindo
atrás da mesa com devidas flores
projectos para o próximo milénio.
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